"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Por que eu quero que meus filhos me vejam nua

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Por Rita Templeton

Publicado 04.11.14 no site Brasil Post

Eu moro em uma casa cheia de meninos: quatro, para ser mais exata. Mas eles ainda são pequenos - então não existem revistas de mulher pelada escondidas em baixo dos colchões, nenhum site de pornografia é acessado com frequência que alguém se esqueceu de apagar do histórico de navegação, nada assim. Por mais que eu goste de pensar que os meus filhos não vão ter curiosidade sobre essas coisas, eu tenho consciência de que não será assim: elas virão pela frente e provavelmente acontecerão bem mais cedo do que eu gostaria (quer dizer, se o meu desejo se realizasse, eles nem pensariam em sexo até uns 25 anos).

Mas antes que tudo isso aconteça - antes deles serem expostos a peitos que são tão redondos e firmes quanto melões e a fotos de bundas durinhas, photoshopadas e sem um furinho de celulite sequer - estou expondo meus meninos a um tipo de corpo feminino diferente. 

O meu.

A modéstia não é praticada em nossa casa. Eu não ando pela casa pelada como fazem os meus filhos (e eu passo mais tempo falando "vista uma calça!" do que qualquer outra coisa) - mas eu nunca deixei de trocar de roupa na frente deles, ou de deixar a porta aberta quando eu tomo banho ou de amamentar um bebê sem me cobrir. Faço isso porque eu quero que vejam como é o real corpo de uma mulher. Pois se eu não fizer isso - e as primeiras imagens que eles tiverem de uma mulher nua forem aqueles corpos impossivelmente perfeitos das revistas ou filmes - que tipo de expectativa eles vão criar? E que mulher conseguirá atender a essas expectativas?

Cá entre nós, confesso que não gosto nem um pouco do meu corpo pós-maternidade. Mas pelo bem dos meus filhos - e das minhas futuras noras - eu minto descaradamente. Quando eles me perguntam sobre as minhas estrias, eu digo orgulhosamente como é uma tarefa árdua gerar um bebê e que as estrias são como medalhas de honra que eu conquistei (referência de jogos sempre fazem sentido para garotos, independente do quê você esteja tentando explicar). Por mais que eu tenha vontade de fazer uma careta e me afastar quando tocam na minha barriga fofa, eu deixo que eles apertem a minha banha entre seus dedos curiosos. Se eu odeio isso? Sim. Tenho vontade de berrar "Deixem a minha gordura em paz!" e me enfiar numa camiseta gigante (ou, tipo, a clínica de lipoaspiração mais próxima).

Mas não faço isso. Por que por enquanto, nesses poucos anos de formação deles, a minha banha é a única percepção do corpo feminino que eles têm. E eu quero que eles saibam que ele é lindo, mesmo com as suas imperfeições.

Falo para eles como o meu corpo é forte. Eles me vêem malhando. Eles vêem que escolho alimentos saudáveis para comer, mas ainda assim não me privo de comer os doces que tanto amo. E apesar de - como a maioria das mulheres - eu me culpar por dentro por conta da calça jeans que está ficando apertada demais, ou querer gritar de frustração com os números que eu vejo na balança, na frente dos meus meninos eu só demonstro orgulho do meu corpo. Mesmo que eu me sinta exatamente o contrário por dentro. Transmitir uma imagem corporal positiva não é uma questão exclusiva de quem tem filhas - e para meninos, tem a ver não só com ajudá-los a sentir confiança com seus próprios corpos, mas também em ensiná-los que o que é real é belo quando se trata do sexo oposto.


Não quero prejudicá-los, ou qualquer mulher que eles possam ver nua no futuro, transmitindo a eles a ideia de que peitos caídos são feios ou que algumas gordurinhas sejam razão para a pessoa se envergonhar. Quero que eles saibam que isso é normal, e que as imagens retocadas e digitalmente 'embelezadas' com as quais eles serão bombardeados não são reais. É claro que eles vão ficar de queixo caído com aqueles peitos duros, e barrigas negativas e bundas empinadas... mas a minha esperança é que, no fundo, eles saibam que aquele não é o padrão do corpo de uma mulher que eles devem esperar. Tipo, nunca.


Vai chegar um momento em que vou me cobrir quando eles estiverem por perto. Tenho certeza que em algum momento vou ouvir "ai, mãe, coloca uma roupa aí...!" e eles vão aprender a bater na porta antes de entrar no banheiro (e sinceramente - mal posso esperar esse momento). Mas até lá, vou deixar que eles passem os dedos nas minhas estrias e dar um sorrisinho e aguentar quando eles derem gargalhadas sobre como a minha bunda treme quando ando para pegar uma toalha. Por que enquanto eles são pequenos, eu quero plantar a semente - para que quando forem mais velhos e suas esposas disserem, "Queria que minhas coxas fossem menores", meus filhos possam dizer, "Elas são perfeitas do jeito que elas são". E realmente achar isso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/rita-templeton/por-que-eu-quero-que-meus-filhos-me-vejam-nua_b_6099174.html

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