"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

Mostrando postagens com marcador Mirian Giannella. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mirian Giannella. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de maio de 2010

Falar e Ouvir a Verdade como Processo de Cura

Foto: Ingrid Cristina (Flickir)

Caros leitores, o texto abaixo também se aplica muito acertivamente a adoção.
As marcações em rosa são minhas, para chamar a atenção para pontos chaves que podem se aplicar a crianças adotadas que sofreram maus tratos, que por algum motivo apresentam problemas de comportamento, que têm dificuldade em lidar com sua história ou com sua condicão de adotado.

Acima de tudo pais adotivos devem entender a importância da verdade sobre a adoção e sobre a história inicial da criança. A necessidade de criar um canal de diálogo aberto sobre a história dela, sobre possíveis dores vividas e a "permissão" na família para falar sobre isso até se esgotar as todas as possibilidades é fundamental.
Deve ser reconhecida a importância de uma possível busca de informações sobre as origens e também um confronto com os pais biológicos, caso esse seja o desejo do adotado.

"Todo ser humano precisa da verdade sobre a sua existência para apropriar-se desta e organizar-se dentro de sua própria vida." (Cintia Liana)

_______________________________________________


Foto: Lubs Mary (Flickir)

DIZER A VERDADE ÀS CRIANÇAS
Alice Miller
Tradução para o francês de Pierre Vandevoorde (janeiro 2007)
Tradução em português Mirian Giannella (maio 2010)

Tento às vezes imaginar como alguém, que teria crescido em um planeta onde não vem à ideia de ninguém de bater numa criança, como poderia sentir as coisas. Um dia talvez, graças aos progressos da investigação espacial, poderemos viajar de planeta em planeta, e saber como seres com costumes completamente diferentes abordarão a nossa terra. O que passará na cabeça e coração de um deles quando vir humanos adultos e vigorosos lançar-se sobre pequenas crianças sem defesa e golpea-las num impulso de fúria?

É ainda corrente hoje crer que as crianças não têm sentimentos, e estar persuadido que o que se pode fazer-lhes sofrer não tem consequências, ou a rigor de menor importância que nos adultos, precisamente porque são “ainda crianças”. É assim que até recentemente, cirurgias em crianças sem anestesia ainda eram autorizadas. Mais ainda, circuncisão e excisão são consideradas em muitos países como costumes tradicionais legítimos, da mesma maneira que os ritos de iniciação sádicos.

Golpear adultos é tortura, golpear crianças é educação. Isto não seria suficiente para evidenciar claramente uma anomalia que perturba o cérebro da maior parte das pessoas, “uma lesão”, um buraco enorme no lugar onde deveria se encontrar a empatia, em especial PARA COM as CRIANÇAS? Esta observação é suficiente para provar a precisão da tese na qual o cérebro das crianças espancadas guarda sequelas, porque quase todos os adultos são insensíveis à violência que sofrem as crianças!

Já que as torturas que sofrem as crianças são rejeitadas e negadas por todo mundo, pode-se supor que este mecanismo (de proteção) é constitutivo da natureza humana, que poupa sofrimentos ao ser humano e teria, consequentemente, um papel positivo. Mas há pelo menos dois fatos que contradizem esta afirmação. Primeiro, é precisamente quando os maus tratos são negados que são transmitidos à geração seguinte, impedindo assim a interrupção da cadeia de violência, e em segundo lugar, é a recordação do que foi sofrido que permite o desaparecimento dos sintomas de doença.

Já foi estabelecido que colocar em palavras as agressões sofridas pela criança na presença de um testemunho que se compadece conduz ao desaparecimento dos sintomas físicos e psíquicos (como a depressão); este fato nos obriga a procurar outra forma de terapêutica, pois não é se fazendo de aliado da recusa que se encontra a via da liberação, mas confrontando-se à sua própria verdade com tudo que possa ter de doloroso.

No meu entender, as mesmas conclusões aplicam-se à terapia das crianças. Como a maior parte das pessoas, eu também, durante muito tempo estava convencida de que as crianças têm absolutamente necessidade de ilusão e de recalcamento para poder sobreviver, porque seria demasiado doloroso para elas se encontrar face à verdade. Mas, hoje, estou convencida de que o que vale para os adultos, vale para elas, também: aquele que conhece a verdade da sua história está protegido de doenças e perturbações de todas as ordens. Mas para isto, a ajuda de seus pais lhe é indispensável.

Hoje, muitas crianças apresentam problemas de comportamento, e as propostas terapêuticas são também numerosas. Infelizmente, repousam, em geral, sobre concepções pedagógicas nas quais seria possível e necessário inculcar adaptação e submissão à criança “difícil”. Trata-se da terapia comportamental mais ou menos bem sucedida, que consiste numa espécie de “reparação” da criança. Todas as alternativas tentam calar ou ignorar o fato de que cada criança com problemas exprime a história das violações a sua integridade, que começa muito cedo na sua vida, como mostra o meu trabalho de investigação (ver meu artigo de 2006 “a impotência das estatísticas”), (ainda não publicado em francês), entre zero e quatro anos, enquanto o cérebro está em formação. A maior parte do tempo, esta sua história fica recalcada. No entanto, não se pode realmente ajudar um ser mortificado a tratar suas feridas se se recusa a olhá-las de frente. Felizmente, as perspectivas de cura são melhores para um organismo jovem, o que é também verdade para o psiquismo. O primeiro passo a fazer seria, então, preparar-se para olhar as suas feridas, para leva-las a sério e deixar de negá-las. Isso não tem nada a ver com “reparar os problemas” da criança, trata-se pelo contrário de tratar das suas feridas pela empatia e informações justas e verdadeiras.

Para que a criança alcance seu pleno desenvolvimento emocional (sua maturidade verdadeira), ela precisa mais do que apenas a aprendizagem do comportamento adaptado à norma.
Para que não ganhe mais atraso, depressão, nem distúrbios de alimentação, de modo que não caia também na droga, tem necessidade de ter acesso à sua história. 

Penso que com crianças maltratadas, os esforços educativos e terapêuticos bem intencionados estão condenados ao fracasso se a humilhação vivida nunca for evocada, em outros termos se a criança permanecer sozinha com o seu vivido.

Para levantar o véu que pesa sobre este isolamento (a solidão face ao seu segredo), os pais deveriam ter a coragem de confessar o seu erro à criança. Isso alteraria completamente a situação. Durante uma discussão tranquila, poderiam, por exemplo, dizer-lhe: “Nós te batemos quando era ainda pequeno, porque nós também fomos educados assim e pensávamos que era necessário. Mas agora, sabemos que nunca deveríamos ter nos autorizado a isso e pedimos desculpas pela humilhação que te fizemos sofrer e as dores que isto te causou, nunca mais o faremos. Lembre-nos esta promessa caso a esqueçamos”.

Há 17 países nos quais esta prática já caiu sob o golpe da lei, onde é simplesmente proibida. Durante as últimas décadas, cada vez mais pessoas de fato compreenderam que uma criança espancada vive no medo, cresce no temor permanente da próxima violência. Isto altera muitas de suas funções normais. Entre outras coisas, ela não será capaz de se defender se for atacada ou então o medo provocará uma reação violenta em retorno, fora de proporção.

Uma criança que vive no medo pode dificilmente se concentrar nos seus deveres, tanto em casa como na escola. A sua atenção fica menos focada no que deveria saber e mais no comportamento dos professores ou pais, porque não sabe nunca quando a mão deles vai reagir. O comportamento dos adultos parece-lhe totalmente imprevisível, deve então estar constantemente em alerta. Perde a confiança nos pais que deveriam, como é o caso em todos os mamíferos, proteg-la das agressões externas, e em nenhum caso atacá-la. Mas sem a confiança nos pais, a criança se sente muito desprotegida e isolada porque toda a sociedade está ao lado dos pais e não ao lado das crianças.

Estas informações não são para a criança revelações, pois seu corpo sabe tudo aquilo. Mas a coragem dos pais e a decisão de não mais fugir aos fatos terá, sem dúvida, um efeito benéfico, liberador e duradouro. E é um modelo de grande importância que é apresentado, não somente em palavras, mas numa atitude de coragem de ir fundo no que pensa, e também de respeito à verdade e à dignidade da criança, e não mais violência e falta de controle de si.

Como a criança aprende com a atitude dos pais e não com as suas palavras, há apenas efeitos positivos a esperar de tal confissão. O segredo o qual a criança era a única portadora doravante foi nomeado e integrado na relação, que pode agora estabelecer- se com base no respeito mútuo e não no exercício autoritário do poder. As feridas caladas até então podem se curar porque não permanecem mais armazenadas no inconsciente. Quando crianças informadas tornam-se por sua vez pais, não correm mais o risco de reproduzir de maneira compulsiva o comportamento, às vezes, muito brutal ou perverso dos pais, não são empurrados para isso pelas suas feridas recalcadas.

O arrependimento dos pais apaga as histórias trágicas e priva-as de seu potencial perigoso. A criança espancada por seus pais aprende deles a reagir pela violência, isto é incontestável, e qualquer professor de maternal poderia confirmar se se autorizasse a ver o que lhe é dado a ver: A criança espancada em casa bate na mais fraca na escola assim como na família. E recebe uma punição quando bate no seu irmãozinho(a) , e assim não compreende nada na marcha do mundo. Não foi o que aprendeu dos pais? É assim que nasce bem cedo uma desordem que se manifesta na forma de “perturbação”, e que leva a criança à terapia.

Mas ninguém se arrisca a atacar as raízes deste mal, que, no entanto, é tão evidente. A terapia pelo jogo com terapeutas dotados de forte sensibilidade pode certamente ajudar a criança a exprimir-se e ganhar confiança em si mesma num enquadre protegido e sempre o mesmo. Mas como o terapeuta faz silêncio sobre as primeiras feridas abertas no passado, a criança permanece, em geral, sozinha com o que viveu. Mesmo o mais dotado dos terapeutas não pode levantar este véu se a preocupação de proteger os pais o faz hesitar a levar plenamente em conta as feridas dos primeiros anos. Mas não cabe a ele falar com a criança, pois suscitaria imediatamente o medo de ser punida pelos pais. O terapeuta deve trabalhar com os pais sozinhos e deve lhes explicar em que o fato de falar poderia ser liberador para eles e para a criança. Certamente, nem todos os pais vão aceitar esta proposta, ainda que lhes seja feita por terapeutas, o que seria evidentemente desejável. Alguns rirão sem dúvida desta ideia e dirão que o terapeuta é ingênuo e não sabe a que ponto as crianças são dissimuladas e procuram certamente explorar a bondade dos pais. Não é de surpreender tais reações, porque a maior parte dos pais vê nos filhos os seus próprios pais e têm medo de confessar um erro, pois antes pesadas punições o ameaçavam após os erros. Agarram-se à máscara da sua perfeição e é bem provável que sejam incapazes de se corrigir.

Quero contudo crer que todos os pais não são incorrigíveis torturadores. Penso que apesar deste medo, há muitos pais que gostariam de renunciar à esta relação de poder, que tinham há muito tempo vontade de ajudar seus filhos mas que até então não sabiam como fazer, porque sentiam medo da ideia de se abrir sinceramente à eles.

É muito provável alguns pais chegarão mais facilmente a uma discussão honesta sobre “o segredo” e que é pela reação de seu filho que farão a experiência dos efeitos positivos da revelação da verdade. Constatarão, então, por si mesmos como os valores que pregam autoritariamente são inúteis se comparados à confissão sincera dos seus erros, condição indispensável para que o adulto se veja conferir a verdadeira autoridade, por ser credível.

É evidente que qualquer criança tem necessidade de tal autoridade para encontrar o seu caminho no mundo. Uma criança a quem foi dita a verdade, que não foi educada para se acomodar com mentiras e atrocidades, pode desenvolver todas as potencialidades, como uma planta em boa terra cujas raízes não são presas de animais peçonhentos (as mentiras).

Tentei testar esta ideia com amigos, perguntei aos pais, mas também às crianças, o que pensavam. Constatei então que era mal compreendida, que os meus interlocutores interpretavam o meu propósito como se se tratasse de desculpar os pais. As crianças respondiam que era necessário ser capaz de perdoar os pais, etc.

…Mas a minha ideia está longe disso. Se os pais se desculpam, as crianças podem ter o sentimento que se espera delas o perdão para descarregar os pais e liberá-los de seus sentimentos de culpa. Seria pedir demais à criança. Em contrapartida, o que tenho em mente, é uma informação que confirma o que a criança sabe na sua carne e confira um lugar central ao que viveu. É a criança que está em foco, com os seus sentimentos e as suas necessidades. Quando a criança observa que os pais se interessam pelo que ela sentiu nos momentos de exagero, ela vive um grande alívio ligado a uma sensação confusa de justiça… Não se trata aqui de perdão, mas da evacuação de segredos que separam. Trata-se de construir uma relação nova, fundada na confiança mútua, e de levantar o véu que isolava a criança espancada, até então.
Uma vez que do lado dos pais o reconhecimento da ferida tem lugar, muitas vias obstruídas liberam-se, num processo de cura espontâneo. É dos terapeutas que se espera tal resultado, mas sem o concurso dos pais não pode acontecer.

Quando os pais se dirigem à criança com carinho e respeito, e reconhecem sinceramente a sua falta, sem dizer: “foi você que me levou a fazer aquilo pelo teu comportamento“ , muitas coisas se alteram. A criança recebe modelos que lhe permitem encontrar o seu caminho, não tenta mais evitar as realidades, o objetivo não é mais o de “reparar” de modo que agrade mais aos pais, mostra-se que se pode colocar a verdade em palavras e sentir a sua potência curativa. E, sobretudo: que ela não precisa mais se sentir culpada pelos erros dos pais já que eles reconhecem a sua culpa.

Nos adultos, tais sentimentos de culpa estão geralmente na base de muitas depressões.

Autor: Alice Miller
Embora, este texto trate das violências físicas como espancamentos, são muitos os casos em que a verdade dos abusos não é revelada, como se o pai tivesse todos os direitos sobre os filhos. Sem a nomeação do agressor a criança só pode ficar perdida. Pedir desculpas pelos exageros faz bem!
Mirian Giannella

Tradução para o português: Mirian Giannella
giannell@uol. com.br
Observatório da Clínica
http://giannell. sites.uol. com.br/EGCdoB. htm
Blog Apoio às Vítimas http://apoioasvitim as.blogspot. com

@@@@@@@@@@@@@@

Indicação de filme:
Hoje assisti um filme lindo na GNT. "Pelo amor de uma criança".

Pelo Amor de uma Criança
Filme / Drama
Nome Original: For the Love of a Child
Direção: Douglas Barr
Elenco: Peri Gilpin, Teri Polo, Maria del Mar, John Pyper-Ferguson, Matthew Knight, Emily Hirst, Jake D. Smith, David McNally, Rod Heatheringston, Marty Antonini
País: Canadá/EUA
Ano: 2006
Duração: 80 min
Cor: Colorido
Classificação: Programa para jovens e adultos


Sinopse:
Baseado no romance "Silence Broken", de Sara O'Meara e Yvone Fedderson, o filme conta a história de duas mulheres - interpretadas por Peri Gilpin e Teri Polo - , na luta para denunciar os maus tratos que as crianças sofrem dos adultos. Elas recolhem e tratam de crianças abusadas, órfãs, depois que encontraram Jacob, um menino que estava amarrado a uma cama. Apesar da terapia, ele não esquece dos terríveis pesadelos. Os pais saem da prisão e querem a criança de volta. Os pesadelos continuam até a descoberta de que ele foi testemunha de um assassinato cruel.

Fonte:
http://www.hagah.com.br/programacao-tv/jsp/default.jsp?uf=1&local=1®ionId=1&action=programa&canal=GNT&operadora=13&programa=0000156700&evento=000000007529866canal=GNT&operadora=13&programa=0000156700&evento=000000007529866


Por Cintia Liana

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Abuso Sexual, Consequências e como Ajudar as Vítimas

Vamos entender melhor a dinâmica do abuso sexual para que possamos ajudar as pessoas, crianças e adultos, que já passaram por essa experiência. Sabemos também que crianças desamparadas podem ser vítimas em potencial, mas podemos conhecer melhor o assunto para buscar ajuda consistente.
 
Abuso sexual é crime e deve ser deunciado, única forma de salvar a vítima da repetição!
Ligue: 100 ou 181.

Compreender melhor o abuso sexual, suas consequências e como ajudar uma vítima a sair da repetição.

O artigo que segue foi inicialmente escrito por Jacques e Claire Poujol, conselheiros conjugais e familiares, para o uso de terapeutas, psicólogos e conselheiros. Útil para todos os profissionais da ajuda (assistentes sociais, médicos, etc.), mas também para as próprias vítimas, este texto permite compreender melhor o abuso sexual, suas consequencias e como ajudar uma vítima a sair da repetição.

Que o saiba ou não, algum próximo já sofreu e se tornou vítima de abuso sexual. E se for um psicólogo, perceberá logo que várias dificuldades de muitas pessoas encontram aí a sua origem. Para estes homens e estas mulheres mortificados, haverá sempre “antes” e “depois” do abuso.

A nossa sociedade prefere ignorar este problema, atenuar a gravidade, ou mesmo negá-la totalmente. Ou então, cheio de boa vontade, mas também de incompetência, propõe-se às vítimas “soluções” que fazem apenas agravar o traumatismo sofrido.

Respondemos neste artigo às perguntas:

• O que se entende por abuso sexual?

• Por que a vítima tem tanta dificuldade para falar do que sofreu?

• Quais estragos o abuso sexual provoca?

• Como ajudar a vítima a sair da repetição?

• Quem são os abusadores?

• O que se entende por abuso sexual?

1. . Um constrangimento ou um contato

Um abuso sexual é qualquer constrangimento (verbal, visual ou psicológico) ou qualquer contato físico, por qualquer pessoa que se serve de uma criança, adolescente ou adulto, com o propósito de uma estimulação sexual, a deles ou a de uma terceira pessoa.

Contato físico é certamente mais grave que um constrangimento verbal. Mas é necessário saber que qualquer abuso constitui uma violação do caráter sagrado e da integridade da pessoa humana e provoca sempre um traumatismo.

O constrangimento verbal designa: uma solicitação sexual direta; o uso de termos sexuais; a sedução sutil; a insinuação. Tudo isto em relação a uma pessoa que não o deseja ouvir.

O constrangimento visual refere-se: ao emprego de material pornográfico; ao olhar que insiste sobre certas partes do corpo; ao fato de se despir, de se mostrar nu, ou de praticar o ato sexual à vista de alguém. Aqui também, sem que a pessoa o deseje.

O constrangimento psicológico designa: a violação da fronteira entre o relacional e o sexual (um interesse excessivo pela sexualidade de seu filho/a) ou entre o físico e o sexual (lavagens repetidas; um interesse muito marcado pelo desenvolvimento físico de um adolescente).

O contato físico pode ser: bastante grave (beijar, contato do corpo através das roupas, que seja pela força ou não, com ou sem pressão psicológica ou afetiva), grave (contato ou penetração manuais; simulação de relações sexuais, contato genital, com ou sem violência física), ou muito grave (violação genital, anal ou oral, obtida de qualquer maneira que seja, pela força ou não).

2. A estratégia do abusador

Um abuso não é o fato do acaso por parte de quem o comete. Sendo um perverso, este premedita e organiza a relação esperando o momento em que seus fantasmas viciosos lhe parecerão realizáveis. A vítima ignora naturalmente tudo isto. A estratégia perversa comporta em geral quatro etapas:

a. O desenvolvimento da intimidade e do caráter confidencial, privilegiado, da relação. Esta fase, mais ou menos longa (de algumas horas ou anos), visa a colocar em confiança a futura vítima que não duvida de nada.

b. Uma interação verbal ou um contato físico aparentemente “adequado” com a pessoa que vai ser abusada (confidências de caráter sexual, carícias nos cabelos, abraços amigáveis). A pessoa não tem medo, por que: em 29% dos casos, seu futuro abusador é um membro da família, em 60% dos casos um familiar ou amigo. Apenas 11% dos abusos são cometidos por um desconhecido.

c. Uma interação sexual ou um contato sexual.

É a fase do abuso propriamente dito. Aqui, a vítima reencontra-se na mesma situação que um coelho que atravessa uma estrada à noite e é capturado pelos faróis de um automóvel: petrificado, paralisado, siderado, incapaz de reagir, deixa-se esmagar pelo automóvel. O abusador está consciente do que faz com sua vítima.

d. A continuação do abuso e a obtenção do silêncio da vítima pela vergonha, culpa, ameaças ou privilégios.

Este silêncio raramente é quebrado. O abuso permanece um segredo absoluto durante muito tempo, às vezes por toda a vida.

Três sobreviventes das irmãs Dionne, as famosas quíntuplas canadenses, esperaram os sessenta e um anos para revelar, na sua biografia, que tinham sido sexualmente agredidas pelo pai.

Guardando o silêncio, a vítima faz-se, contra a sua vontade, de cúmplice do abusador, uma vez que a única coisa que ele teme é de ser denunciado. O fato de tornar-se assim, bem involuntariamente, seu aliado, reforça o desprezo que tem por si própria e a sua culpabilidade.

Será uma das tarefas do psicólogo explicar que uma pessoa sexualmente abusada não é nunca culpada nem responsável pelo abuso. Não podia adivinhar que as duas primeiras etapas eram apenas uma estratégia do abusador.

Deverá também dizer-lhe que uma pessoa que está sob a dominação do abusador só faz parar os abusos com a denúncia e revelando o que sofreu. Ora, falar, para ela, é muito difícil, por várias razões. Por que uma vítima tem tanta dificuldade em falar do que sofreu?

1. Leva, às vezes, muito tempo para entender que foi abusada

O tempo não conta para o inconsciente, ele está como que parado para a vítima: é, na maioria das vezes, o aparecimento de sintomas como depressão ou perturbações sexuais que a levará a deixar o seu sofrimento emergir na superfície e aceitar falar. É o primeiro passo para a cura. Mas falar deste traumatismo, tomar consciência desta verdade: “Fui abusada”, pode ser um choque terrível. O conselheiro terá necessidade de tato e de grande compaixão para deixar a pessoa descobrir por si mesma e no seu ritmo, a amplitude do drama que viveu. Compreenderá a extrema repugnância que provoca admitir que o seu corpo e a sua alma foram devastados. Gostaria tanto de esquecer, não ter nunca vivido aquilo, que vai se refugiar ocasionalmente na recusa: “Aquilo não pode ter me acontecido.”

A pessoa será incentivada a continuar a falar se acreditarem no que diz (tem absolutamente necessidade de sentir que acreditam nela) e se evitar certas frases destrutivas como:

• - Ele cometeu só um erro, como fazemos todos.

• - Aconteceu só uma vez, afinal.

• - É tempo de virar a página.

• - Já faz muito tempo que passou


2. Sente-se culpada

Em seu foro íntimo, sem mesmo declarar abertamente, a pessoa pensa:

• Sou também culpada?

• Poderia ter evitado?

• Colocado na minha situação, um outro teria podido se opor, se debater, fugir?

O psicólogo pode ir adiantando as perguntas que não ousa exprimir, dizendo:

• Quem detinha o poder (parental, espiritual, moral, organizacional, físico, psicológico)?

• Quem era o adulto? O marcador social? O referente?

• Quem era o instigador, o organizador dos abusos?

• Quem poderia fazer cessar? Pode fazer-lhe compreender que a sua culpabilidade está ligada à defasagem entre a vivência passada (e as razões pelas quais a vítima não pôde impedir: a sua tenra idade, sua ignorância, sua total confiança) e a sua vivência atual, quando já é mais velha, menos ignorante, menos ingênua e já sabe se proteger.

Crê-se culpada porque olha os acontecimentos passados com os olhos do adulto prevenido que é hoje. Ora, na época, não possuía defesas necessárias para impedir o abuso.

Separar-se do agressor

Pode-se também ajudar-la a diferenciar o ponto fraco do qual se serviu o perverso, por exemplo, uma necessidade de ternura completamente legítima, uma confiança cega, e o crime que cometeu, se aproveitando desta necessidade legítima de afeição ou da confiança, para saciar seus desejos imorais.

Desligar estes dois elementos é frequentemente um momento de verdade e um alívio para a pessoa, que faz o seu segundo passo para a cura quando não se sente mais responsável.

Mas o caminho será ainda longo até cicatrização da ferida. A precipitação e a impaciência são os grandes inimigos do conselheiro (e do cliente) neste domínio.

3. Falar pode custar-lhe caro

Cada vez que a pessoa abusada mergulha no horror do seu passado, deve pagar um preço muito elevado. Tentando “esquecer” o abuso, virar a página, tinha construído certo equilíbrio, por exemplo, com os seus parentes.

Se decidir fazer explodir a verdade, arrisca desorganizar este equilíbrio fictício e suscitar pressões dos seus parentes. Encontra-se sempre falsos “bons conselheiros” preocupados com sua própria tranquilidade e pelo que dirão os defensores dos abusadores, que vão acusá-la de mentir ou exagerar, de despertar o passado e incita-la-ão a esquecer, ou mesmo “a perdoar”; o cúmulo é que corre o risco até mesmo de ser responsabilizada pelo abuso.

O psicólogo deverá, então, apoiar, incentivar e assegurar a sua proteção material e psicológica. Ajudá-la a avaliar o preço da luta que deverá efetuar para sair do lamaçal do abuso sexual e realizar que o seu desejo de sair do sofrimento será ainda negado por aqueles que deveriam mais protegê-la: a família ou os responsáveis pelas instituições.

É necessário notar que quando o abusador faz parte de uma instituição, qualquer que seja, esta decide frequentemente, por medo do escândalo, “acoberta-lo” e, por conseguinte, permanecer na recusa do abuso, mais que reconhecer publicamente a existência de um perverso sexual na instituição.

Há um consenso social de reprovação à pessoa que tem a coragem de remexer nestas coisas imundas: que ela continue como morta viva, não é grave. O mais importante, é que se cale.

4. Sofre de vergonha
Sartre disse que vergonha é “a hemorragia da alma”. Um abuso sexual marca a pessoa ao ferro e fogo, a suja, a leva a esconder-se dos outros. A vergonha é uma mistura de medo da rejeição e cólera para com abusador, que não ousa se exprimir. [Sente-se culpada pelo crime até nomear o agressor e o crime e a arma do crime. (N. da T.)]

O sentimento justo que deveria provar é a cólera. Provar este sentimento liberador ajuda-a a sair da vergonha. É necessário, às vezes, tempo para que chegue a exprimir a sua indignação face à injustiça que sofreu. Esta expressão da cólera poderá fazer-se seja de maneira real, em frente ao culpado, ou, se não for possível para a sua segurança pessoal, de maneira simbólica. Em todos os casos cabe à vítima decidir.

A vergonha está ligada ao olhar que a vítima leva sobre si própria; vê-se como suja por toda a vida. É o seu olhar que deverá se alterar, e isto alterando a sua maneira de pensar.

5. O desprezo
Sentindo-se vergonhosa, a pessoa abusada tem duas soluções: desprezar-se a si própria ou desprezar o abusador e os semelhantes. Nos dois casos, o resultado é o mesmo: autodestruição, porque o ódio de si ou o ódio do outro são ambos destrutivos.

O desprezo por si própria pode referir-se ao seu corpo, a sua sexualidade, a sua necessidade de amor, a sua pureza, a sua confiança.

Este desprezo de si tem quatro funções: atenua a sua vergonha, asfixia as suas aspirações à intimidade e à ternura (desprezar-se anestesia o desejo), dá-lhe a ilusão de dominar o seu sofrimento e evita-lhe que procure a cura do seu ser.

Quando o desprezo por si mesma é muito intenso, pode levar à bulimia, à violência contra si e ao suicídio; nestes três casos, a pessoa pune o seu próprio corpo porque ele existe e tem desejo.

6. O verdadeiro inimigo

Se perguntar a uma pessoa que sofreu um abuso sexual qual é o seu inimigo, responderá sem dúvida: “É o culpado do abuso.” O que lhe parece evidente. A vítima tem escolha: ou combate, cultivando o seu ódio para com abusador, ruminando uma vingança contra ele; ou foge, procurando esquecer, endurecendo-se para não mais sofrer, fechando-se em si mesma, passa a ser insensível, de maneira a não mais sentir nem emoção nem desejo.

Mas estas duas soluções são vãs, porque o inimigo não é o abusador. Certamente, representa um problema, mas a boa notícia é que não é o problema essencial. O verdadeiro adversário é a determinação da pessoa a permanecer no seu sofrimento, a sua morte espiritual e psíquica e a recusar reviver. O inimigo reside, por conseguinte, paradoxalmente, na própria vítima!

Este terceiro passo para a cura é sem dúvida o mais difícil de cruzar. A pessoa deve compreender que tem na frente dela a vida e a morte, e que pertence apenas à ela permanecer na morte ou escolher viver.

Quando o conselheiro sente que ela tomou a decisão de sair da pulsão de morte para entrar na pulsão de vida, terá então sem dúvida a ocasião de lhe falar dos três grandes estragos que o abuso produziu na sua vida e que deverão ser reparados.

7. O sentimento de impotência

O abuso sexual foi imposto à vítima. Que tenha se produzido uma vez ou cem vezes, com ou sem violência, não altera o fato de que foi privada da sua liberdade de escolha.

Os estragos produzidos pelo abuso sexual.

Estes estragos constituem umas torrentes tumultuosas que devastam a alma, e que inclui: o sentimento de impotência, o de ter sido traída e o sentimento de ambivalência, bem como vários outros sintomas.

Este sentimento provem de três razões:

Não pôde alterar a sua família disfuncional, se se trata de um incesto. Os seus parentes não a protegeram como deveriam, a sua mãe ou a sua sogra nada viram ou fingiram nada ver.

Que o abuso foi acompanhado de violência ou não, que aja dor física ou não, a vítima não pôde escapar, o que cria nela fraqueza, solidão e desespero. Além disso, o culpado serve-se da ameaça ou da vergonha para reduzir ao silêncio e recomeçar em toda impunidade, o que aumenta a sua impotência.

Não chega a pôr um termo ao seu sofrimento presente. Só a decisão de suprimir-se anestesiaria a sua dor, mas não pode resolver-se, então continua a viver e a sofrer.

b. Este sentimento de impotência provoca graves prejuízos

A pessoa abusada perde a consideração por si própria, duvida dos seus talentos e crê-se medíocre.

Abandona qualquer esperança.

Insensibiliza a sua alma para não mais sentir a raiva, o sofrimento, o desejo ou a alegria. Esconde e repele no seu inconsciente as lembranças horríveis da agressão sexual.

Pela força de renunciar a sentir a dor, torna-se como morta. Perde o sentimento de existir, parece estrangeira a sua alma e a sua história.

Perde o discernimento relativo às relações humanas, o que explica que as vítimas de abusos caem de novo nas garras de um perverso, que reforça o seu sentimento de impotência.

2. O sentimento de ter sido traída

Muitas pessoas ignoram o nome dos onze outros apóstolos, mas conhecem Judas, o traidor. Por quê? Porque a maior parte das pessoas considera que nada é mais odioso que ser traído por alguém que se supunha amigo e respeitoso.

A pessoa abusada sente-se traída não somente pelo abusador em quem tinha confiança, mas também pelos que, por negligência ou cumplicidade, não intervieram para fazer cessar o abuso.

As consequências da traição são: uma extrema desconfiança e a suspeita, sobretudo em relação às pessoas mais amáveis; a perda da esperança de ser próxima e íntima de outro e de ser protegida no futuro, visto que os que tinham o poder não o fizeram; a impressão que se foi traída, foi porque mereceu, devido a uma falha no seu corpo ou no seu caráter.

3. O sentimento de ambivalência
Consiste em sentir duas emoções contraditórias ao mesmo tempo. Aqui, a ambivalência gravita ao redor dos sentimentos negativos (vergonha, sofrimento, impotência) que simultaneamente, às vezes, foram acompanhados de prazer, que seja relacional (um cumprimento), sensual (uma carícia), ou sexual (tocar nos órgãos), nas primeiras fases do abuso.

O fato que o prazer, às vezes, seja associado ao sofrimento provoca prejuízos consideráveis: a pessoa sente-se responsável por ter sido abusada, já que “houve” prazer; a lembrança da agressão pode retornar nas relações conjugais; não chega a desabrochar-se na sua sexualidade que é para ela demasiado ligada à perversidade do abusador; controla e mesmo proíbe-se o prazer e, por conseguinte, o seu desejo sexual.

O conselheiro deve explicar à pessoa que não é responsável de ter provado certo prazer, porque é normal que apreciou as palavras e os gestos “de ternura” do abusador. É a natureza que deu ao ser humano esta capacidade de sentir prazer.

O que não é normal é a perversão dos que premeditaram estas atitudes afetuosas para fazer cair uma presa inocente na sua armadilha. É ele o único responsável.

4. Alguns outros sintomas

Pensa-se em eventual abuso sexual se o cliente:

- Sofre de depressões repetidas.

- Apresenta perturbações sexuais: falta de desejo, asco, frigidez, impotência, temor ou desprezo pelos homens ou mulheres, medo de casar-se, masturbação compulsiva. Na criança, esta perturbação do autoerotismo, assim como algumas enureses, podem fazer pensar em abuso sexual.

- Destrói-se pelo uso abusivo de álcool, de droga ou de alimento. A obesidade, em especial, permite às jovens ou mulheres que foram violadas se tornar, inconscientemente, menos atrativas e se proteger assim contra outra agressão.

- Sofre de dores de barriga, de infecções ginecológicas repetidas.

- Um estilo de relação com os outros muito caraterístico: ou é demasiado agradável com todos, ou é inflexível e arrogante, ou por último é superficial e inconstante. Ajudar a vítima a reviver

Esta deverá cessar de ouvir as vozes internas que a mantém na culpabilidade e vergonha e se pôr à escuta da voz da verdade, que a conduzirá para a libertação.

Deverá também abandonar as vias sem saídas que pessoas bem intencionadas, mas incompetentes (das que ajudam “pouco ajudadas”!) lhe propõem: negar o abuso, minimizá-lo, para esquecer, para perdoar o culpado sem que este se arrependa seriamente, para virar a página, para parar de reclamar, etc.

A via que leva ao bem-estar compreende duas etapas: olhar a realidade de frente, e decidir reviver.

1. Olhar a realidade de frente

A pessoa deverá reencontrar as lembranças do abuso, admitir os estragos e gradualmente sentir os sentimentos adequados.

a. Reencontrar as lembranças do abuso

A vítima prefere mais esquecer, tanto a enoja ou a terrifica. Ou então, ela conta friamente como se fosse de uma outra pessoa que se trata. Mas, esta recusa é um obstáculo à cura. O abuso não deve ser apagado, mas nomeado.

Com muito tato, incentivar a lembrar do passado, às vezes muito remoto, porque só um abcesso esvaziado pode cicatrizar.

O retorno das lembranças repelidas vai se fazer progressivamente durante a psicoterapia. O inconsciente da pessoa colabora ativamente por meio de sonhos, ou imagens que lhe vem ao espírito.

Certos acontecimentos fazem também reaparecer os traumatismos esquecidos, por exemplo: um encontro com o abusador, uma gravidez, a menopausa, um outro abuso, o fato de que um de seus filhos atinja a idade que tinha quando foi abusada, o fato de reencontrar-se nos lugares da agressão, ou o falecimento do culpado.

b. Admitir os estragos
Este regresso penoso no passado vai permitir-lhe admitir as duras verdades seguintes:

• Fui vítima de um ou vários abusos sexuais. É um crime contra o meu corpo e contra a minha alma.

• Sendo vítima, não sou responsável deste crime, que só pude sentir.

• Em consequência destes abusos, sofro de sentimentos de impotência, de traição e de ambivalência.

• O meu sofrimento é intenso, mas a cicatrização é possível, se admitir que houve ferida. Esta cicatrização levará tempo.

• Não devo envolver o meu passado com um véu de segredo e de vergonha; mas também não sou obrigada a falar a qualquer um.

Sentir os sentimentos adequados
A culpabilidade (que é um sentimento de extorsão muito frequente), a vergonha, o desprezo, a impotência, o ódio, o desespero, deverão gradualmente ser substituídos pelos sentimentos mais adequados que são a cólera para com abusador e os seus cúmplices, e a tristeza face aos estragos sofridos. Esta tristeza não deve levar à morte, ao desespero, mas à vida, ou seja a uma fé, uma esperança e um amor renovados.

O conselheiro favorecerá a expressão destes dois sentimentos, de maneira real ou simbólica, mas sempre em toda segurança, no quadro protegido das sessões de relação de ajuda.

2. Decidir reviver

Por que uma vítima de abuso sexual deveria decidir reviver, depois de tudo o que sofreu e sofre ainda? Simplesmente porque é melhor para ela escolher a vida e não a morte.

Escolher reviver significará para ela:

a. Recusar estar morta
A vítima acha normal viver com um corpo e alma mortos; paradoxalmente, isto lhe permite sobreviver, não arriscando mais sentir alegria ou dor.

b. Recusar desconfiar
A vítima desconfia dos seres humanos. Uma mulher violada, em especial, vê todo “macho” como “o mal”. Deverá aprender a transformar a sua desconfiança para com os homens em vigilância, o que é muito diferente.

c. Não mais temer o prazer e a paixão
Estes dois elementos trazem ao drama que sofreu, então ela foge. Fazendo, priva-se destes dois dons.

Sendo vítima do desejo (perversos, mas desejo do mesmo modo) de alguém, “lança o bebê com a água do banho”, ou seja rejeitando o abuso que sofreu, rejeita ao mesmo tempo qualquer desejo, até mesmo o seu.

Deve entender que não é porque alguém teve um desejo perverso para com ela que deve doravante renunciar ao seu próprio desejo.

d. Ousar amar de novo
Deverá progressivamente renunciar às suas atitudes auto protetoras e o seu fechamento em si mesma para provar de novo a alegria de amar os outros e de estabelecer relações calorosas e seguras.

Deixará a sua carapaça para reencontrar um coração terno, capaz de correr o risco de amar aqueles que encontra. Abandonará as suas defesas, o que não quer dizer que não se cercará de proteções. Uma proteção não é uma defesa.

Descobrirá que, se é verdade que uma ou várias pessoas a traíram, a grande maioria dos outros são dignos de confiança.

A revelação do abusador

1. Quem são?

Na sua grande maioria são jovens pessoas ou homens, provindos de todas as classes da sociedade e de todos os meios.

No mais das vezes, fazem parte do ambiente da vítima: um colega, um vizinho, um chefe escoteiro ou um animador de jovens, uma babá, um professor, um proprietário, um colega de trabalho, um padre, etc.

Muito frequentemente são também membros da família: o pai, o tio, o avô, o sogro (cada vez mais frequentemente devido ao aumento dos rematrimônios e das famílias expandidas), o irmão, o meio-irmão ou o quase irmão, o cunhado, o primo, etc. Fala-se então de incesto ou abuso sexual intrafamiliar.

Trata-se, mais raramente, de uma pessoa desconhecida da vítima.

É necessário notar que 80% dos agressores foram eles mesmos vítimas de abusos no passado, o que não o desculpa de modo algum, mas pode explicar em parte o seu comportamento.

2. Revelação

Uma vítima tem muita dificuldade para denunciar o seu agressor; revelará mais facilmente o abuso em si. No entanto, esta denúncia tem um grande alcance terapêutico e é necessário incentivar a quebrar o silêncio. Uma vez dito à outro, a palavra torna-se inter-dita e não mais interditada, como queria o perverso.

Mas esta denúncia frequentemente é mal aceita pela sociedade. Enquanto uma pessoa sexualmente abusada não denunciar o culpado, é considerada como vítima. Mas o dia em que decide se referir à Justiça, consideram-na então como culpada de acusar alguém, e o crime cometido para com ela vai ser negado.

É por isso que, por exemplo, a grande maioria das mulheres violadas se resignam a permanecer vítimas por toda a vida e, por conseguinte, a calar-se, por medo finalmente de ser acusada do crime que denuncia. Ora, nunca deveriam hesitar a devolver o peso do crime à quem pertence: ao violador.

É necessário, no entanto, saber que, se denunciar tem um efeito terapêutico, o processo judicial é longo, penoso e dispendioso. Os interrogatórios repetidos, a falta de respeito e tato de certas pessoas, a vergonha de revelar a sua história na frente de todos, a impressão de não lhe darem crédito, provocam o que se chama de vitimização secundária. Cada vez que relata a violação, a mulher se sente de novo violada.

O apoio, material e psicológico, de organismos especializados na ajuda às vítimas de abusos sexuais, é precioso neste tipo de diligência, tanto mais que o julgamento pronunciado do culpado, na maioria das vezes clemente, parece decepcionante e injusto à vítima e reaviva a sua dor.

Se tiver o conhecimento de um caso de abuso sexual, a primeira coisa a fazer é afastar a vítima do abusador, a fim de evitar que este último recomece.

No caso específico de abuso sexual sobre menor, a segunda diligência é informar as autoridades competentes (serviços sociais e polícia).

A lei obriga a esta revelação, e deve neste caso quebrar o segredo profissional, se não se corre o risco de ser considerada pela lei como cúmplice. Esta denúncia visa a proteger a vítima e as outras vítimas potenciais, e a obrigar o culpado a parar as suas atuações.

As reações do abusador a sua revelação
Um recente Colóquio europeu sobre as violências sexuais estabeleceu que 82% dos abusadores não admitem a sua responsabilidade (53% negam totalmente os fatos). Só 18% dentre eles admitem os fatos, e ainda porque são obrigados após confrontação com as vítimas, e não sem a acusar de “tê-lo provocado”.

Esta negação dos fatos permite-lhes perseverar na sua perversão, e por conseguinte, não se privar do seu gozo, que só conta para eles.

Quando não podem mais negar os fatos, admitem-no minimizando ou negando as consequências desastrosas sobre as vítimas, sobretudo se o abuso for isento de violência física. Se tiverem remorso ou lamentação, nunca por seus crimes, mas por ter-se feito denunciar e pelo dever de parar.

Se o psicólogo mostrar-se indulgente para com um perverso, porque deseja regrar rapidamente uma situação que o excede ou desgosta, corre o risco de ser manipulado pelo abusador que fará prova de “se arrepender” para continuar em paz as suas atividades viciosas escondidas. Faz-se assim de seu cúmplice, o que é grave.

Uma reação possível do culpado de abusos é a seguinte: ele suja e se alia. Suja as vítimas ou outras pessoas inocentes acusando-as do mal que ele mesmo comete; ao fazê-lo alivia, assim, a sua culpabilidade. Além disso, alia-se com os que podem se tornar seus aliados e seus defensores (um pai incestuoso alia-se a sua mulher de modo que o deixe abusar da sua filha).

Um perverso que é revelado e que recusa se arrepender pode cair no pânico, na depressão, no álcool ou no suicídio; mais frequentemente endurece-se e continua de maneira mais intensa as suas práticas.

É extremamente raro que um delinquente sexual arrependa-se realmente, (no máximo exprimirá vagas “lamentações”), mas é necessário sempre dar-lhe a ocasião.

Em conclusão, todo terapeuta deveria se dedicar a formar-se neste domínio tão específico, se quiser se ocupar de pessoas que sofreram deste drama que constitui o abuso sexual.

Fonte: Claire et Jacques Poujol - www.relation-aide.comTradução: Mirian Giannella – http://giannell.sites.uol.com.br/
Por Cintia Liana