"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

Mostrando postagens com marcador adoção de crianças especiais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador adoção de crianças especiais. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de março de 2012

Adoção especial e busca ativa

Projeto 21

Por Fabiana Gadêlha

Pouca gente sabe, mas existe algo a mais no universo da Adoção, idealizado para resolver a difícil equação: filhos sem família e famílias em busca de seus filhos.

Há cerca de cinco anos, quando nem se fala em Cadastro Nacional de Adoção - CNA, uma iniciativa solitária e comprometida com a inclusão familiar de quem não tem voz para gritar seu abandono, começou a ecoar e a incomodar:  era a busca ativa de famílias para crianças mais velhas e com necessidades especiais.

Denominado como movimento ATE - Adoção Tardia e Especial - Carla Penteado, de São Paulo, mãe da Marcela e da Luana, resolveu fazer algo diante da inércia e do pragmatismo que via diante de seus olhos.

Tomada de paixão pelas filhas, nascidas através da adoção especial, Carla idealizou o que hoje seria o papel do CNA, que mesmo implantando ainda não apresentou resultados significativos. Ela  promove a busca mais que ativa de famílias para as crianças que conhece nos abrigos de São Paulo e que toma conhecimento através de voluntários de outros Estados.

Através de uma ferramenta moderna e simples, chamada orkut, a rede social mais acessada do Brasil, ela criou a comunidade do ATE e divulga seu trabalho, cativando famílias e promovendo verdadeiros encontros de amor.

É um trabalho árduo, que envolve brigar diariamente com o descaso dos abrigos, verdadeiros depósitos de gente, com a indiferença do Poder Judiciário e das entidades de defesa da infância e da juventude com a questão das crianças e adolescentes excepcionais. 

Sem recursos, apenas com sua vontade, um computador e um telefone, ela faz verdadeiros milagres e vem cativando adeptos de todo o Brasil. Para tanto, utilizando de seu forte poder de convencimento, de sua coragem em afrontar abrigos, Promotores e Juízes, ela já fez 50 adoções especiais em 5 anos, um número motivador, considerando a realidade de um perfil ignorado pela sociedade, pela justiça e pelos próprios candidatos.

A adoção especial se tornou seu ideal de vida  de outras famílias que permitiram conhecer essa realidade. O movimento do ATE não busca levantar uma bandeira para que todos os candidatos resolvam adotar uma criança especial,  mas para falar de algo necessário: o seu filho pode estar escondido atrás de uma deficiência, de uma doença intratável e pode proporcionar muita felicidade e amor.


O lema do ATE é falar das circunstâncias da adoção especial, das dificuldades, sim, porque elas existem e são muitas, mas falar, também, dos aspectos positivos e da viabilidade de um encontro dessa natureza.
A proposta do ATE é viabilizar a abertura do perfil e o estudo da real possibilidade de acolher um serzinho especial. Sabemos que a adoção envolve questões que ultrapassam a  limitação de um perfil, pois envolve intuição, sensibilidade, espiritualidade na concepção do encontro com o pequeno a ser recebido como filho.

Falar de crianças deficientes é um dos assuntos que mais incomoda, porque constrange, porque cobra posturas, porque confronta nossos preconceitos e medos. Para tanto, é preciso ter informação, antes, durante e após a adoção para que ela realmente seja uma adoção consciente, baseada no amor e na razão e não na piedade.

De qualquer lado que se observe os olhinhos desses serzinhos carentes de amor, pode-se perceber que eles podem ser filhos de alguém, independente de sua condição física ou intelectual. Essa prova foi tirada a partir das 50 histórias colecionadas cujas famílias ousaram reconhecer seus filhotes atrás de uma deficiência. São adoções legais, que seguiram todos os trâmites processuais e que formaram famílias conscientes e felizes.
Quem se interessa pela adoção, sente de uma forma estranha e incongruente que seu filho a espera em algum lugar, e pode ter certeza, ele o espera e por mais longo que seja esse caminho, um dia haverá o grande encontro. 

Essa é a missão do ATE, propor reconhecer além da deficiência a possibilidade de adotar. Hoje, o movimento é formado por mães voluntárias que multiplicam os gestos originais de Carla, na busca dinâmica e consciente de novas famílias, em todos os Estados Brasileiros.

Fabiana Gadêlha

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Das 5,1 mil crianças para adoção, 25% têm alguma enfermidade ou deficiência

Tumblr

Por Renata Mariz
Publicação: 24/10/2011 07:45

A história de um bebê com síndrome de Down deixado em um dos mais caros hospitais do Rio de Janeiro, há pouco mais de uma semana, virou notícia nacional, despertando a comoção de gente do país inteiro. Embora uma analogia com o folhetim Páginas da Vida, no qual uma criança nas mesmas condições acaba rejeitada pela família na maternidade, tenha sido feita exaustivamente, o drama do recém-nascido na unidade carioca nada tem de enredo de novela. É um problema não apenas real, como também frequente no Brasil. Para se ter ideia, a cada cinco crianças e adolescentes hoje no Cadastro Nacional de Adoção, um tem doença grave ou algum tipo de deficiência. A chance de serem chamados de filhos diminui consideravelmente em relação aos saudáveis.

"O perfil exigido pela maioria das pessoas realmente não contempla as crianças com problemas de saúde. É um desafio maior trabalharmos para que elas sejam escolhidas", diz o juiz Nicolau Lupinhaes, do Conselho Nacional de Justiça, que gerencia o Cadastro Nacional de Adoção. Há, atualmente, 5.157 meninos e meninas registrados. Desse total, 1.356 (26,3%) apresentam algum tipo de problema: 176 têm deficiência física; 326, doenças curáveis; e 99, não curáveis. O estado de saúde de 206 é ignorado. O número de crianças e adolescentes com deficiência mental é de 410 — ou seja, 8% do total de aptos à adoção. Na população em geral, o índice não passa de 2%. A discrepância fica nítida também no caso dos infectados por HIV. Enquanto 2,6% (139) dos incluídos no cadastro têm o vírus, a taxa no Brasil está em torno de 0,6%.

Carolina fez parte da triste estatística desde o nascimento, quando foi abandonada pela mãe biológica ainda na maternidade, até os quatro anos. Durante esse tempo, a menina, que tem paralisia cerebral e síndrome de Möebius, uma desordem neurológica complexa, morou em um abrigo. Até que, três anos atrás, as autoridades verificaram no Cadastro Nacional de Adoção pretendentes que, ao contrário de quase todos, não tinham perfil de criança definido. "Deixamos em aberto. Podia ser saudável ou não, homem ou mulher, de qualquer cor. O importante é que fôssemos tocados", lembra Cleciani Cabral. Ao lado do marido, André Cabral, ambos com 32 anos, e dos dois filhos biológicos, o casal foi conhecer Carolina depois de saber da história da menina por meio das autoridades que lidam com o processo de adoção.

"Foi amor à primeira vista", conta Cleciani. André lembra com bom humor a reação de alguns familiares e amigos. "Eles diziam que a gente era louco, que ia dar trabalho. Mas muitos deram força também", afirma o analista de sistemas. A experiência com a pequena Carol foi tão fantástica, segundo o casal, que, em janeiro deste ano, aumentaram a família com Maria Vitória. Com microcefalia e atraso no desenvolvimento, a menina de 2 anos passa atualmente por uma bateria de exames para fechar o diagnóstico. Mas a evolução, em 10 meses de convivência, é notável. "Quando ela chegou, não conseguia firmar o pescoço, não ficava sentada sozinha. Agora, já está muito melhor", diz André, enquanto beija a caçula.

Adaptação
Os filhos biológicos João Vítor e Jordana, ele com 5 e ela com 9 anos, também mimam as duas irmãs especiais. "É engraçado, porque eles nunca me perguntaram por que o pezinho da Carol é virado para dentro ou por que a Vitória não fala, não anda. Acho que as diferenças, para os dois, nem existem", alegra-se Cleciani. O casal não descarta aumentar a prole com mais adoções. Por ora, entretanto, está entretido com a adaptação de Vitória. Quanto à missão de cuidar de quatro crianças, duas delas com um maior nível de dependência, Cleciani e André garantem que tiram de letra. "É gostoso. Eles retribuem absolutamente tudo. As meninas (Carolina e Vitória) estão nos ensinando muito", afirma a mulher, olhando para a meninada na sala de casa, em Sobradinho.
Postado Por Cintia Liana

domingo, 27 de março de 2011

Família Especial

Foto: Revista Pais e Filhos

Carla Penteado, mãe de Marcela, 7, e Luana, 2

“Ela não sente”, foi o que disse a mulher do abrigo quando Carla se aproximou de Marcela. A menina tinha paralisia cerebral e morava no abrigo pois sua mãe não tinha condições de cuidar: era esquizofrênica e estava num sanatório. Carla não deu atenção àquela sentença. Pegou a pequena no colo e começou a cantar para ela. No mesmo instante, Marcela começou a chorar – ela sentiu.

Todos no abrigo ficaram impressionados e disseram que Carla precisava adotá-la. No entanto, ela não tinha pretensão nenhuma de ter um filho naquele momento. Mas, quando chegou em casa, caiu em prantos. E disse ao marido que queria adotar aquela menina. Logo no dia seguinte, procurou o juiz para saber o que deveria fazer. O magistrado foi o primeiro de muitas pessoas a se surpreender com a escolha. “É maluca, só pode ser”. Era o que todos achavam. Na época, apenas se sabia que Marcela sofria de paralisia cerebral. Depois, descobriu-se que Marcela também era autista.

Demorou, mas Carla conseguiu adotar a menina. Logo depois, entrou na fila novamente para adotar outra criança. Já sabia que o processo era demorado. Ao decidir o perfil da criança que adotaria em seguida, Carla chegou à conclusão de que, se adotasse uma criança “normal”, Marcela seria deixada de lado. Optou novamente por uma criança especial. Sua segunda filha seria Fabíola, de 9 meses, com Síndrome de Down. Mas, por problemas burocráticos, Carla não conseguiu conhecer a menina. Ela estava num abrigo do Rio de Janeiro e, no dia que Carla iria ao seu encontro, a menina passou por uma cirurgia e morreu. “Foi uma filha que eu perdi”. Depois de um período de luto, Carla voltou a procurar outras crianças para adoção, até que conheceu a Luana. Apaixonou-se. Ela tinha Síndrome de Down e seu estado de saúde era muito ruim, pois não tinha os cuidados necessários no abrigo. Depois de um laudo médico, foi constatado que a Luana precisava do “desabrigamento”.

A princípio, ela não podia ser adotada, porque sua situação jurídica ainda estava indefinida. A mãe biológica era irresponsável e não quis nenhum dos filhos. Quem ajudou a resolver o problema da Luana e permitiu que ela fosse adotada foram os próprios tios da menina. Carla ainda quer adotar mais filhos especiais. Definitivamente, não pretende ter filhos biológicos. Já fez até laqueadura. O pai, Marcelo, sempre concordou com tudo. A única exigência que fez à Carla foi que ela parasse de trabalhar, para se dedicar totalmente às meninas. E foi o que aconteceu. O único trabalho que faz é com um grupo de apoio à adoção, ajudando outros pais a adotar essas crianças mais que especiais. A música que Marcela ouviu naquele dia no abrigo, aquela que a fez “sentir”, ela entoa até hoje para a mãe: “meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê...”.




Soube que hoje Carla tem quatro filhas adotivas especiais.


Postado Por Cintia Liana