"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O neto da empregada

Julie de Waroqui

Por Thaís Machado em 07/02/2012 na edição 680

Não sou noveleira. Não sou noveleira. Não sou noveleira.

Apesar de amar acompanhar de tudo um pouco na TV, uma das coisas que mais me irritam (especialmente nas produções brasileiras) são as novelas. Sempre cheias de clichês, atores medianos, merchandisings baratos e trilhas pagas pelas gravadoras, elas estão muito além do que pode ser considerado ruim. Mesmo assim, é difícil passar ileso pelas fofocas que cercam os encerramentos desses “folhetins”.
Um exemplo atual é o “segredo de Tereza Cristina”, a personagem vivida por Cristiane Torloni na atração global Fina Estampa. Há enquetes nos sites, concursos nas emissoras de rádio, comentários nos corredores das empresas. O que será que uma das personagens principais da trama esconde? Como deixei claro no início deste post, não vi sequer ¼ da novela, mas ontem (2/02), diante da divulgação do capítulo em que o mistério seria revelado, me propus a assistir. Foi quando deparei com uma das cenas mais estúpidas dos últimos anos: o garoto, filho da tal vilã, aos prantos, porque acabara de descobrir que era “neto da empregada”.

Mais prêmios, mais longevidade...

Sim, é isso mesmo que você leu. O menino chorava soluçando porque a mãe lhe contou sua origem (filha de uma doméstica, havia sido adotada ainda pequena pela família rica e quatrocentona). E a partir dessa confissão, todos os outros diálogos nos vários núcleos de personagens foram pautados pelo “escândalo”. Um momento! Desde quando ser adotado é vergonhoso? Quem decidiu que ser “rico” é ser “melhor”? Entendi que esse é o princípio de um mistério que ainda vai esclarecer muitos pontos confusos na trajetória daquela mulher e que o tal segredo não é de fato o “xis” da questão; mas dedicar quase uma hora em horário nobre para discutir que a fulana não tem “direito” de ser a vilã que é porque não tem em seus genes um sobrenome conhecido?!
Depois querem me convencer que esse tipo de programa discute assuntos importantes para a democracia como o preconceito, o aborto, a violência doméstica etc. As novelas são (e sempre foram) a principal influência na cultura brasileira. Elas ditam moda, elegem as “personalidades do ano”, destacam hábitos arraigados da população e uma série de outras funções que deveriam ser denotadas a qualquer outro instrumento de comunicação, menos às historinhas contadas por autores cansados e genialmente equivocados.
E a pior parte disso tudo é que, a cada dia, elas ganham mais prêmios, mais força e mais longevidade...

[Thaís Machado é jornalista, São José do Rio Preto, SP]



Postado por Cintia Liana

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A adoção de crianças maiores na perspectiva dos pais adotivos (Parte 1)

Partes mais importantes e resultados de estudo científico.

Mandy Lynne

Título em Inglês:
Older children adoption from the perspective of the adoptive parents

Resumo
Esta pesquisa teve como objetivo investigar a adoção de crianças maiores porque é menos realizada pelos candidatos à adoção. Neste sentido, pretendeu-se compreender, junto aos adotantes, como percebem e vivenciam essa adoção. Foram realizadas quatro entrevistas, conduzidas de forma semidirigida e individual. Os resultados revelaram que a motivação dos pais adotivos esteve relacionada ao puro altruísmo e ao desejo de se realizar enquanto mãe/pai, como também à praticidade e desejo de companhia. Apesar do preconceito sofrido por causa do passado da criança e de algumas dificuldades adaptativas, pode-se concluir que, com amor e ajuda profissional, as adoções estão sendo bem-sucedidas.

Palavras-chave: adoções necessárias, preconceito, cultura de adoção.

Apresentação e discussão dos resultados

Motivações para a adoção
Através dos relatos dos quatro participantes, pôde-se observar que a motivação para a realização desse tipo de adoção foi devida, principalmente, ao puro altruísmo e ao desejo de se realizar enquanto mãe/pai, através de uma forma mais solidária de parentalidade. A praticidade e o desejo de ter uma companhia também se destacaram como fatores motivadores.

Dois entrevistados adotaram crianças que se encaixam no primeiro grupo referido por Elena Andrei (2001), enquanto dois adotaram crianças bem mais velhas, inseridos no grupo dois, por estarem sensibilizadas com a situação dos menores. Esses resultados reforçam as palavras de Schettini Filho (1998, p. 12), quando diz: “O desejo de adotar se explica das mais variadas formas que estão vinculadas à história e à necessidade do adotante [...] Enfim, as pessoas adotam filhos motivadas por circunstâncias físicas, sociais e emocionais”.

Recortes de algumas falas ilustram a motivação:
Eu já tinha vontade de adotar [...] os meninos são mais difíceis de serem adotados; e quanto mais velho, mais difícil [...] Eu procurei um menino que as pessoas não queriam mais adotar (Entrevista 1).

[... ] eu pretendia adotar uma novinha, mas... uma outra novinha... mas aí apareceu a criança, apareceu uma menina e que... eu a conheci e que teve certa dificuldade de encontrar uma família pra ela. Então, aquilo ali me sensibilizou muito [...] (Entrevista 4).

Essas falas confirmam os resultados de uma pesquisa realizada por Ebrahim (2001) que detectou que 51% dos adotantes tardios adotaram mais por se sensibilizarem com a situação de abandono das crianças.

A necessidade de companhia transpareceu na fala do único homem participante:
[...] eu procurei, assim, já uma criança que estivesse numa idade já elevada que pudesse também ser um torcedor do Sport e que juntos pudéssemos ir ao shopping, tudo o que tivesse lazer, certo? Participasse comigo até nas horas de alegrias e de tristezas (Entrevista 4).

Tempo de adaptação
Com relação ao tempo para a adaptação da criança, dependendo da forma como se deu a separação da família biológica, do tempo que passou no abrigo ou em situação de negligência ou de abandono, da ocorrência de outras separações e maltratos, a adaptação a uma nova família pode ficar mais lenta ou difícil (Vargas, 2006). No entanto, ela é possível, pois “o sentimento de família não é um instinto, mas sim uma construção resultante de uma íntima e sadia convivência” (Andrei, D., 2001, p. 93). O sucesso depende também da forma como os pais lidam com as dificuldades.

As respostas quanto a esse tema foram bem heterogêneas: uma relatou que a filha se adaptou muito bem desde o início (ela estava com 3 anos e meio de idade e passou por algumas famílias); uma disse que o filho foi se adaptando aos poucos (adotou um garoto com 3 anos que estava abrigado), e dois participantes disseram que os filhos ainda estão se adaptando (estes foram adotados com 9 e 10 anos e também estavam abrigados).

Foi horrível! No primeiro mês foi um menino maravilhoso; tomava banho todo dia, ia para escola todo dia sem reclamar; uma maravilha, um menino maravilhoso. No segundo mês, quando ele viu que não voltava mais, ele começou a ficar à vontade e aí ele começou, e até hoje, não quer escovar dente, só toma banho quando quer, para ir para escola é a maior dificuldade, às vezes passava dois, três dias sem ir. Hoje em dia é mais difícil ele não ir (Entrevista 1).

No início acho que foi bem complicado. [...] Pensei em colocar ele de volta, acho que num abrigo aí. Em qualquer lugar porque já estava cansando [...] Ainda está se adaptando, muito. De vez em quando tem uns problemazinhos. Quando eu penso que ele já está melhor, ele parece que dá uma regressão e começa a dar ‘nó cego’[...] A rebeldia dele, as ignorâncias [...] a brincadeira dele... quando está brincando é só porrada, mordida, empurra [...] Ele agora está bem melhor [...] (Entrevista 4).

O conteúdo destas respostas ressalta o que Vargas (1998) afirmou, baseada em um estudo realizado sobre adaptação de crianças adotadas, no qual observou que, dentre os vários comportamentos que essas crianças podem apresentar, destacam-se os comportamentos regressivo e agressivo. Outro autor complementa: “quando os requisitos básicos da liberdade e da privacidade faltam, e é justamente isso o que acontece nas Instituições, planta-se sem querer as sementes da revolta e da rebeldia, que brotarão na primeira oportunidade” (Andrei, D., 2001, p. 94). Por outro lado, é válido destacar que alguns comportamentos elencados pelos pais (rebeldia, dificuldade com higiene pessoal e escolaridade) fazem parte da fase pré-adolescente em que essas crianças se encontram, não sendo especificidade apenas da adoção.

Em compensação, outra participante fala da facilidade com que a filha se adaptou:
A adaptação dela foi rápida. Acho que em uma hora (risos). Já falava ‘mainha’, ‘painho’. Na verdade, ela estava muito carente, procurando uma família... (Entrevista 4).

Vale salientar que essa participante possuía experiência prévia de criação dos filhos biológicos e uma filha adotada ainda bebê, o que, certamente, lhe forneceu mais condições para lidar com a adoção de uma criança mais velha.

Cristina Maria de Souza Brito Dias
Ronara Veloso Bonifácio da Silva

Célia Maria Souto Maior de Souza Fonseca


Postado Por Cintia Liana

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dúvidas sobre adoção e o processo?

Mandy Lynne

Consultas, orientações, informações e solução das mais diversas dúvidas sobre família, adoção e todo o processo podem ser agendadas através do e-mail da psicóloga: cintialrdesilva@yahoo.com. Atendimentos via Skype ou telefone fixo (a psicóloga liga da Itália). R$ 70,00 a cada 30 minutos, através de depósito bancário no Bradesco ou Western Union. (Obs.: As pessoas que já iniciaram podem permanecer com o valor antigo)

Per consulti, orientamenti e informazioni sulla famiglia, sulla adozione e tutto il processo potete prendere appuntamento attraverso mail: cintialrdesilva@yahoo.com
Assistenza su skype o telefono. 30 euro per ogni 30 minuti, attraverso versamento bancario o Western Union.

Por Cintia Liana

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Procura das Origens

Apresento-lhes outro texto, o qual gosto muito. Acredito ser fundamental para quem vai adotar e para quem já adotou. Foto: Blog Scienze

Título: A Procura das Origens
Autor:
Mirta Videla

Data: 26/03/1998
Fonte: Boletim "Uma família para uma criança" – Fernando Freire (org) - ano I nº 2

Até há pouco tempo existiam muitas dúvidas sobre este tema, para muitos era um verdadeiro dilema. Atualmente em nosso país, por aquilo que foi vivido, já ninguém duvida do direito de toda criança a conhecer a verdade acerca de sua origem, visto que ela lhe pertence tanto quanto a sua própria vida.
Quando se adota uma criança começa uma outra história, a partir de sua chegada. Mas, antes disso, a criança teve uma pré-história, de sangue, de recém-nascido em outros braços, de cultura, de parentesco. As razões pelas quais ela perdeu tudo isso podem ser de diferentes ordens, mas ninguém pode negar-lhe o direito a estar informada a respeito.
Se a informação sobre essa história prévia não lhe é dada, ela perde parte de sua biografia, de sua trajetória anterior, que se encontra registrada em seu inconsciente, é parte da carne de seu corpo e esse corpo jamais poderá ser reduzido ao silêncio.
As belas palavras de Françoise Dolto ficaram marcadas entre os psicólogos dedicados ao tema. Ela manifestava sua preocupação de "que deve ficar muito clara a importância de dizer a verdade ", essa verdade que os adultos comunicam às crianças, que a desejam não apenas de forma inconsciente, mas que a necessitam e têm direito a conhecê-la. Deve ser questionado o "silêncio enganador que gera angústia". A verdade pode ser freqüentemente dolorosa, mas, se ela é dita, permite que a pessoa possa reconstruir-se, e humanizar-se.
Dolto dizia com muita firmeza que ente a criança e seus pais existe um permanente intercâmbio de mensagens. A criança tem a necessidade da verdade para desenvolver suas potencialidades humanas.
As histórias cheias de silêncio pertencem a vidas sem sentido. A criança adotada é um verdadeiro "aprendiz de historiador", que deve travar verdadeiras batalhas e organizar estratégias para buscar os pedaços de sua vida, que desapareceram no ocultamento dos adotantes. Ela deverá transformar as informações fragmentárias em uma construção histórica, uma construção que lhe permita ter a sensação de "continuidade temporal ". Se trata de um processo que reconstrói o passado em função do presente, com o olhar voltado para o futuro.
A criança não pode conhecer uma primeira etapa de sua vida, a não ser por meio de uma versão discursiva que lhe conta a história de sua chegada. A experiência neste tema, e tudo o que nos trouxeram os novos desenvolvimentos teóricos, já não nos permitem condutas tíbias ante aqueles que continuam duvidando a respeito da necessidade de que a criança adotada tenha acesso à sua verdade.
O ocultamento da verdade sobre as origens é tão grave como o de seqüestrar uma criança, é um verdadeiro delito afetivo, porque, de maneira premeditada, a criança está sendo privada de algo que é seu, produzindo assim um vazio em seu processo histórico, impossibilitando sua função de historiador de si mesma.
O acesso à verdade sobre suas origens não é o mesmo que a busca de um processo judicial, nem que a procura de uma aproximação com os familiares de sangue. Os juizes e técnicos coincidem atualmente no reconhecimento da importância de que a criança seja informada sobre a origem de sua vida. Mas não todos estão suficientemente informados sobre o alcance e as conseqüências da transmissão de acontecimentos vergonhosos, humilhantes, hostis e sinistros para a criança, tais como o incesto, a violação de sua mãe, a tentativa de assassinato, ou o fato de ter sido deixada em um terreno baldio.
Quando se fala "revelar" a verdade, devemos ter muito cuidado com a informação excessiva, com um estilo quase exibicionista, que oferece dados intoleráveis para a sensibilidade infantil. Nesses casos, a criança será obrigada a "tornar a velar", a ocultar, reprimir, desconhecer essa realidade atroz, da qual, lhe disseram, ela veio.
O respeito à criança não apenas significa reconhecer-lhe o direito a saber quem é e de onde veio, mas também o de entender essa realidade na sua dimensão de criança, de frágil estrutura, em crescimento e em formação de sua identidade. Uma boa comparação é a de que a criança deve ser informada como se estivesse sendo alimentada, não se poderá dar carne e batatas fritas a um lactante, nem tampouco mamadeira àquela que começa a sua escolaridade.
Sem necessidade de ser ultra-informado em todos os detalhes, a criança descobrirá por si mesma, a realidade do seu existir, isso se lhe foram dadas as bases favorecedoras de sua investigação, com informações iniciais, sem que a tenham intoxicado.
Juan era um rapaz de 17 anos ao qual os adotantes disseram que era filho de uma prostituta que tinha muitos outros filhos de muitos pais. Quando teve acesso aos dados de sua história, ele mesmo realizou a construção de sua história, e me disse bastante emocionado: "minha mãe na realidade era uma pobre mulher deficiente (é surda-muda), da qual abusaram, mas que me deixou viver, e isso é, muito importante para mim."
Muitos pais solicitam que lhes seja revelada a verdade acerca da procedência das crianças que estão para ser adotadas. Outras se negam a saber e afirmam que "a história do seu filho começa com eles."
Somos um país de profundas diferenças sociais. A maioria das crianças em estado de adotabilidade vem de setores sociais que vivem em condições de extrema pobreza, com suas necessidades básicas insatisfeitas. As crianças abandonadas levam o registro corporal da sua origem, da promiscuidade, da violência e do sofrimento vivido. Por isso, não é necessária muita criatividade para saber de onde vêm as crianças cujas famílias as abandonaram. Existe um grupo reduzido de crianças de mães adolescentes de razoável condição econômica que não puderam recorrer ao aborto no tempo oportuno.
O tema da informação necessária a ser transmitida à criança não deve ser confundido com uma atitude de "compulsão informativa". Ela necessita saber os dados de sua origem biológica, de sua procedência, mas também, e isso é de fundamental importância, deve ser informada sobre a expectativa do casal que a adotou, sobre o tempo de espera vivido, deve saber que ela foi desejada como filho e foi investida dessa condição, no momento de sua adoção.
Ainda que a criança possua um registro dos acontecimentos anteriores à adoção, ela também experimenta uma profunda necessidade de pertencer ao grupo familiar no qual foi criada, ainda que no fundo de si mesma os dados de sua origem tenham um papel psicológico secreto. As crianças aprendem aos poucos, algumas compreendem que em seu passado pode ter existido algo obscuro, do qual preferem não falar, pela necessidade de pertencer e não correr o risco de perder ainda mais.
É muito importante, em todas as circunstâncias e etapas do desenvolvimento de um filho adotivo, que não se confunda o direito à informação com a compulsão informativa, a qual funciona como engolir na alimentação, produz náuseas, e até vômitos por aquilo que foi recebido "em excesso".
A falta de informação homogênea e ampla relacionada a estes temas deve estimular a organização de cursos de especialização em matéria de adoção, destinado à capacitação de todos os técnicos responsáveis. Unificar critérios e ampliar o acesso à informação acerca do tema, é um dos requisitos necessários para evitar abusos, omissões e erros de funcionários e profissionais.
O dilema da verdade se coloca na adoção de recém-nascidos, e diferentemente, na adoção de crianças e adolescentes, que já possuem um registro consciente, recordações e vivências acerca de sua vida anterior Quando do primeiro filho adotado se ocultou a realidade sobre a sua origem, é bastante difícil a adoção do segundo filho. Se ocorreu o contrário, ele viverá a chegada do irmão como uma reafirmação de sua própria história. compartilhará o tempo de espera e os preparativos para a chegada.
O ocultamento da adoção transforma esse fato no que se denomina "segredo familiar, onde uns sabem, e outros não, e a família se transforma em uma rede de ocultamentos e desmentidos, absolutamente prejudiciais ao desenvolvimento da criança.
Os segredos familiares geram um clima de tensão permanente que sutilmente é transmitido à criança, que percebe algo oculto, misterioso e proibido, que não deve se atrever a indagar. As crianças dizem, em seus tratamentos, que se sentem como protagonistas de um quebra-cabeças que nunca conseguem montar, porque faltam peças que estão "nas mãos de outros ", seus professores, seus pais adotivos.
Quando se conta uma mentira para uma criança, ou se oculta urna realidade tão importante acerca de sua vida, é como se a sua identidade (comparável a um edifício) fosse construída com bases frágeis. Cresce, mas, frente à menor "ventania" é completamente demolida.
É necessário que os pais não convertam o relato sobre a origem em um momento solene. O tema deveria fazer parte do diálogo natural e cotidiano na família. Entendemos por diálogo não o dar informações, mas sim o estado de abertura e predisposição permanente às palavras, ao ouvir, ao responder aos questionamentos. Este diálogo entre pais e filhos é o que permite em ambos a elaboração da adoção como opção de constituição familiar. Talvez pudéssemos compará-lo, ainda que não seja equivalente, ao processo de esclarecimento acerca da sexualidade, onde a informação não é apenas aquela das respostas às perguntas, mas também a transmitida pelas atitudes que temos frente ao sexo da criança, ao seu corpo, aos seus desejos.
Nos grupos, os pais costumam me perguntar: " e se o menino pergunta coisas que não conhecemos?", "e se fica zangado com o que dizemos?", "e se não pergunta nunca nada? ", "e posso esperar que pergunte o quê? ", "e se quando pergunta já é tarde? ", "e se são os outros a falar? ", "se não pergunta, significa inevitavelmente que algo grave se passa? ", "como podemos dizer que não temos nenhum dado?"
Na realidade, no processo de comunicação acerca da adoção, como em qualquer outro processo relacionado com os fatos da vida, não é necessário propor de antemão um tempo especial para a conversa, nem tampouco nos tomar em obsessivos informantes, basta que tenhamos uma autêntica disponibilidade e abertura ao diálogo sobre os acontecimentos da vida familiar. Dentro deles, a historia da criança e a adoção serão apenas um fato a mais.
Recordemos finalmente que só quem pode crescer rodeado de realidades não ocultadas, e verdades que não ferem nem amedrontam, poderá ir construindo sua própria biografia, ser seu historiador. Dessa forma, sua estrutura ética será o sustentáculo de sua saúde mental.

Trechos extraídos de "Saber Acerca de Su Origen", Mirta Videla. Revista da Escuela de Psicopedagogia de Buenos Aires, nº1 - Abril/95.
Para receber o boletim "Uma família para uma criança" escrever para:
Caixa Postal - 18092
Curitiba/PR
Cep: 80811-970

Referência:
VIDELA, Mirta. A Procura das Origens. Boletim "Uma família para uma criança" – Fernando Freire (org.) - ano I nº 2. [online] Disponível em: http://cecif.org.br/tt_busca.htm. Acesso em: 20 de janeiro de 2007.


Postado Por Cintia Liana

Descobrindo que é adotado

Foto: Google Imagens

"Descobri que sou adotado"
(Matéria da revista enfoque - Por Nilza Valéria)


Berenice Silveira viu seu mundo desmontar quando tinha 12 anos. Sentada junto com primos e colegas na porta de casa, em Porto Velho, a conversa girava em torno das semelhanças que cada um tinha com seus pais. “Tenho o cabelo da minha mãe”, disse uma. Meu pé é igual ao do meu pai”, afirmou outro. Na vez de Berenice, depois de um silêncio, ela disse que seu jeito de andar era igual ao da mãe. Aí alguém retrucou: “Você pode ter aprendido a andar como ela, mas você não é filha dela.”

Até hoje, mais de 15 anos depois, Berenice não sabe quem falou aquilo. Possivelmente, uma prima mais velha. Mas foi como se abrisse um grande buraco e ela caísse dentro. “Aquela frase respondia tudo. Era a resposta perfeita para tudo o que eu sentia. Eu sabia que havia alguma coisa diferente comigo, mas não sabia o que era”, lembra. Hoje, com 28 anos, a advogada Berenice superou o trauma de ter descoberto ser filha adotiva numa brincadeira. “Não foi fácil. Dos 12 aos 16 anos, exigi dos meus pais uma explicação, queria saber de onde tinha vindo, por que eles tinham me escolhido e por que me esconderam a minha história.” A mãe de Berenice afirmou, e ainda afirma, que jamais contaria a verdade se a filha não tivesse descoberto: “Ela é minha filha e isso é tudo o que importa. Que diferença faz se sou loura e ela morena? Eu a amo e ponto final.” Berenice sabe que é amada. “Eles, meus pais, são a coisa mais importante da minha vida. Nunca duvidei de que era amada. Fui uma criança com uma infância feliz. Apenas notava que as diferenças físicas eram grandes e isso gerava uma inquietação. Quando parentes vinham nos visitar havia muito sussurro em casa, olhavam para mim e falavam baixo, como se houvesse segredos.”

ACERTANDO AS CONTAS COM O PASSADO

De acordo com a psicopedagoga Mirta Videla, é direito de toda criança conhecer a verdade acerca de sua origem. “Esta verdade pertence à criança tanto quanto a sua própria vida. Quando se adota uma criança, começa uma outra história, a partir de sua chegada. Mas, antes disso, a criança teve uma pré-história, de sangue, de recém-nascida em outros braços, de cultura, de parentesco. As razões pelas quais ela perdeu tudo isso podem ser de diferentes ordens, mas ninguém pode negar-lhe o direito de estar informada a respeito.”

Analisando o caso de Berenice e de tantos outros que sua vivência profissional já a fez ter contato, Mirta afirma que o sentimento de vazio, de diferença até os 12 anos de Berenice foi gerado pelos segredos familiares, que provocam um clima de tensão permanente. “A criança que percebe algo oculto, misterioso e proibido, não se atreve a perguntar. E ela fica se sentindo como protagonista de um quebra-cabeça que nunca consegue montar, porque faltam peças que estão ‘nas mãos dos outros’, os pais adotivos.”

POR QUE NÃO NASCI DE SUA BARRIGA?

Salvador de Rossi Anhaia, 23 anos, também foi adotado. E sempre soube disso. “Mesmo antes de eu entender, minha mãe falava que eu era adotado. Nunca fui tratado diferentemente e não entrei em crise por isso.” Quando chegou, recém-nascido, o casal já tinha três filhas naturais. “Meus pais desejavam um menino e não queriam tentar mais. Falo para todo mundo com muito orgulho da minha família.”

Karina Souza, 25 anos, foi adotada com menos de 1 mês de idade. Apesar da diferença racial – é negra, e os pais brancos –, diz nunca ter ficado em crise por ser adotiva, apesar de os pais só terem conversado com ela quando tinha 11 anos. “Quando me falaram, eu já sabia, e ia ficar mal por quê? Eles me deram tudo.” A mãe adotiva se colocou à disposição para apresentar a mãe biológica, caso Karina quisesse conhecê-la. “Nunca tive curiosidade. Eu amo a minha família.”

Salvador Anhaia diz que em alguns momentos sente curiosidade de conhecer a família biológica, mas não tem motivação para procurá-la “Imagino que eles não deviam ter condições de me criar. Às vezes, queria saber se tenho irmãos, mas nada que me faça virar o mundo para achá-los.” Com a mãe adotiva cristã, Salvador reconhece que Deus sabia que ele tinha de ser filho de quem é. “Havia um casal na fila de adoção antes dos meus pais. Eles ficaram comigo por um dia e depois fui levado para a minha família. Deus já sabia de quem eu devia ser filho.” Nem mesmo a separação dos pais, quando tinha 13 anos, abalou o orgulho de pertencer à família que o adotou. “Nunca me senti rejeitado. Eu sofri como sofre qualquer menino quando o pai sai de casa.”

Eduardo Lemos teve curiosidade. E muita. Apesar de saber da adoção desde os 4 anos de idade, quando completou 17 decidiu que queria encontrar a mãe, saber se tinha irmãos, queria entender sua história. “Meus pais não conseguiam entender por que eu estava fazendo aquilo. Eles achavam que o amor e tudo que me davam deveria ser suficiente para eu ser feliz. Só que pirei em saber que minha mãe de sangue me abandonou. Passei a beber, a me meter em encrenca.” Quando Lemos descobriu que a mãe biológica morreu de cirrose e quase foi enterrada como indigente, decidiu que sua história era outra. “Foi lendo o documento de óbito da minha mãe, onde se registrava que não deixou filhos, que me dei conta de que ser filho do coração foi o caminho que Deus usou para me salvar.” Dona Graça, a mãe adotiva de Eduardo, diz que sempre contou ao filho que o amor é o mais importante. “Eu dizia a ele do grande amor de Deus, que nos tornou Seus filhos, por adoção. Hoje ele entende plenamente isso. Tanto do nosso amor e principalmente do amor de Deus.”

NA REVOLTA

Gustavo foi adotado com 6 anos. E dois anos depois, devolvido à instituição. Os pais adotivos alegaram problemas financeiros. Aos 8 anos, uma nova adoção. “Você acha que é fácil saber que fui abandonado?”, indaga. Com 15 anos, ainda teme que a família adotiva não seja para sempre. “Não dá para saber até quando vão ficar comigo. Há uns parentes que acham que posso ser mau porque imaginam que meu pai biológico pode ser um cara mau. Tem uma irmã da minha mãe que tem medo que eu roube a bolsa dela. É muito esquisito. Até na igreja existe gente que acha que meus pais me fizeram um favor.”

Para Raniere Pontes, presbiteriano, que abandonou o curso de Teologia para se dedicar à promoção de direitos da criança e do adolescente, é latente, no caso de Gustavo, o sentimento de soltura que o impede de criar vínculos profundos. “O adotado também precisa aceitar a família que o adotou. E como na relação com Deus, em que nos tornamos filhos dEle por adoção, por meio de Cristo, temos de aceitar isso”, ensina Raniere, assessor de operações da ONG Visão Mundial.

Karina é jornalista. Quando estava na faculdade levou um grupo de amigas, com quem já convivia há meses, para assistir a um filme em casa. Dentro do carro, a caminho do bairro onde morava, no subúrbio do Rio, fez a revelação: “Preciso dizer para vocês que sou adotada, por isso, não estranhem por eu ser negra e meus pais brancos.” A revelação foi feita como quem conta o que comeu no jantar. “Era tão normal e tão natural para ela ser filha adotiva, ou ser filha, que ela quis evitar nosso constrangimento. Em todo período do curso de Jornalismo, ela fez uma ou duas menções sobre a adoção e muitas sobre a família. O quanto a mãe ‘pegava no pé’, o quanto exigia, o quanto era desconfiada com namorados. Foi legal perceber o quanto a mãe dela era igual à minha mãe”, afirma Ione Souza, casada, dois filhos e na fila de adoção, em São Paulo.





Por Cintia Liana