"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

As crianças amadas se tornam adultos que sabem amar

Foto Página da Revista Pazes
Revista Pazes, 1º fev 2016
Nossas primeiras experiências com o mundo marcam o início do nosso desenvolvimento emocional. Na infância se tece uma rede que conectará nossa mente e nosso corpo, o que determinará em grande parte o desenvolvimento da capacidade de sentir e de amar.
Neste sentido, nosso crescimento emocional dependerá dos nossos primeiros intercâmbios emocionais, que nos ensinarão o que ver e o que não ver no mundo emocional e social no qual nos encontramos.
Assim, o campo da nossa infância nos permite semear o amor de maneira natural, o que determinará que a capacidade de amar e de sermos amados cresça de maneira saudável e nos ajude a nos desenvolvermos no futuro.
“Somos seres emocionais que aprendem a pensar, não máquinas pensantes que aprendem a sentir”. Stanisla Bachrach

Se alimentarmos as crianças com amor, os medos morrerão de fome
As amostras de carinho e afeto elevam a autoestima das crianças e as ajudam a construir uma personalidade emocionalmente adaptada e inteligente. Ou seja, o nosso amor as ajuda a lidar com os medos naturais que surgem nas diferentes idades, fomentando um grau de sensibilidade saudável.

As crianças têm uma confiança natural em si mesmas. De fato, nos surpreende que frente a desvantagens insuperáveis e fracassos repetidos elas não desistam. A persistência, o otimismo, a automotivação e o entusiasmo são qualidades inatas das crianças.
Percebermos isso nos ajuda a sermos conscientes do quão importante é amarmos nossos filhos e educá-los em relação ao respeito, empatia, expressão e compreensão dos sentimentos, controle da impaciência, capacidade de adaptação, amabilidade e independência.
O que podemos fazer para criar crianças felizes e saudáveis?
O temperamento de uma criança reflete um sistema de circuitos emocionais inatos específicos no cérebro, um esquema de sua expressão emocional presente e futura, e de seu comportamento. Estes podem ser adequados ou não, por isso a educação deve se tornar um apoio e um guia para elas.
Para alcançar uma saúde emocional ideal, devemos mudar a forma como se desenvolve o cérebro das crianças. A ideia é que através do amor e da educação emocional estimulemos certas conexões neuronais saudáveis.
Ou seja, todas as crianças e todos os adultos partem de certas características determinadas que devem ser administradas em conjunto para que possamos alcançar o bem-estar físico e emocional.
Por exemplo, quando uma criança é tímida por natureza os adultos que se encontram ao seu redor a protegem exageradamente, fazendo com que ela se torne ansiosa com o passar do tempo.
A educação emocional requer uma certa “desaprendizagem” adulta. Uma criança tímida deve aprender a dar nome às suas emoções e a enfrentar o que a perturba, não deve sentir que cortamos suas asas porque ela é vulnerável.
Um adulto deve demonstrar empatia sem reforçar suas preocupações, propondo, por sua vez, novos desafios emocionais que a permitam evoluir. Deve-se proteger a saúde emocional da criança através do desenvolvimento de suas características naturais.
As chaves básicas de uma educação emocional saudável
1. Os especialistas costumam recomendar que ajudemos as crianças a falarem de suas emoções como uma maneira de compreender a si mesmas e os demais. Entretanto, as palavras só dão conta de uma pequena parte (10%) do verdadeiro significado que obtemos através da comunicação emocional.
Por essa razão, não podemos ficar só na verbalização; devemos ensiná-las a compreender o significado da postura, das expressões faciais, do tom de voz e de qualquer tipo de linguagem corporal. Isso será muito mais efetivo e completo para o seu desenvolvimento.
2. Há anos vem se promovendo o desenvolvimento da autoestima de uma criança através do elogio constante. Entretanto, isso pode fazer mais mal do que bem. Os elogios só ajudarão as nossas crianças a se sentirem bem consigo mesmas se eles estiverem relacionados a ganhos específicos e ao domínio de novas aptidões.
3. O estresse é um dos grandes inimigos da infância. Entretanto, é um inconveniente com o qual elas têm que conviver, por isso protegê-las em excesso é uma das piores coisas que podemos fazer. devem aprender a enfrentar estas dificuldades naturais de tal forma que desenvolvam novos caminhos neurais que as permitam se adaptar ao meio no qual vivem.
Não podemos tentar criar nossas crianças em um mundo da Disney de inocência e ingenuidade. O estresse e a inquietação fazem parte do mundo real e da experiência humana, tanto quanto o amor e o cuidado.
Se tentarmos eliminar esses obstáculos, impediremos que elas tenham a oportunidade de aprender e desenvolver capacidades realmente importantes que as ajudem a enfrentar desafios e decepções que são inevitáveis na vida.
Fonte: http://www.revistapazes.com/criancasamadas/

terça-feira, 21 de junho de 2016

Do colo materno ao convívio social na psicologia de Winnicott

RESUMO Donald Woods Winnicott, cujo 120º aniversário se celebrou em abril, é tido por muitos como o principal psicanalista depois de Freud. Ainda que o pai da teoria edípica tenha servido de referência para seu trabalho, o psiquiatra britânico formulou conceitos próprios e abriu caminho para uma "revolução" psicanalítica.

Donald Woods Winnicott (1896-1971)

Zeljko Loparic
08.05.2016

No mês passado, celebraram-se os 120 anos do nascimento de Donald Woods Winnicott, considerado por muitos o mais importante psicanalista depois de Freud. Por quê? Porque ele refundou a psicanálise freudiana.
No esboço de um artigo de 1971, ano de sua morte, Winnicott escreveu: "O que pleiteio é um tipo de revolução em nosso trabalho. Vamos reexaminar o que fazemos". O que fazem os psicanalistas freudianos? Decifram o inconsciente reprimido que incomoda.
Os freudianos curam pela palavra, pela análise do discurso do paciente. Com a cura pela palavra, no entanto, as análises não terminam. A falta de eficácia das análises comuns se deve ao desconhecimento da existência de dissociações muito primitivas descobertas por Winnicott, escondidas atrás dos conflitos do inconsciente reprimido. A revolução conclamada já teria, portanto, acontecido, e consistiria em suas próprias contribuições à psicanálise.
Formado como médico pediatra e tendo observado problemas emocionais em bebês de poucas semanas, Winnicott tornou-se psiquiatra infantil e recorreu à psicanálise freudiana. Começou a modificar a psicanálise quando constatou que algo estava errado com o modelo edípico, criado e usado para tratar as neuroses dos adultos.
As mudanças decisivas foram motivadas pelo que Winnicott apreendeu das análises de psicóticos adultos, que precisaram regredir à situação de dependência: retornar aos estágios e processos muito primitivos da vida, idênticos, entendia Winnicott, aos vividos pelos bebês humanos.
AMADURECIMENTO
Quais são as principais reformulações? Substituição do Édipo, andarilho na cama da mãe, como modelo de problemas psicanalíticos, por outro – o do bebê no colo da mãe; teoria do processo de amadurecimento (crescimento, desenvolvimento, integração) mediante a qual indivíduos se transformam de bebês dependentes em pessoas inteiras capazes de vida própria; teoria da natureza humana; a psicopatologia winnicottiana, que é uma teoria das interrupções do processo de amadurecimento; teoria dos procedimentos clínicos para auxiliar indivíduos a retomar o processo de amadurecimento interrompido e a conquistar a unidade pessoal; teoria da experiência cultural. Vejamos.
Para Freud, da situação edípica surge o complexo nuclear, que estaria na origem não só da estruturação da personalidade mas de todos os problemas psicanalíticos (neuroses) e mesmo da ordem social e da cultura. Segundo Winnicott, as bases da personalidade são lançadas com o bebê ainda no colo da mãe, formando, na experiência inicial com ela, as bases de toda sua capacidade futura de se relacionar; os fracassos respectivos respondem pela estrutura básica de todas as dificuldades emocionais da vida humana.
Em Freud, a teoria da sexualidade é o carro-chefe para o estudo e o tratamento das neuroses. Em Winnicott, papel semelhante cabe à teoria do amadurecimento, espinha dorsal de seu ideário, usada no estudo e tratamento de todos os problemas maturacionais do existir humano, a natureza específica destes sendo modulada pelo seu ponto de origem na linha do amadurecimento.
Freud estuda o homem em termos de processos mentais, conscientes e inconscientes. Winnicott vê o homem como manifestação da natureza humana no tempo, caracterizada pela tendência à integração que só se realiza num ambiente facilitador (o colo da mãe, a família, o grupo social). Viver significa alcançar e manter a continuidade de ser no mundo.
Na sua psicopatologia, Freud parte das lacunas na corrente da consciência composta de conteúdos afetivos e representacionais de caráter sexual, que resultam da repressão; codificados e guardados na parte inacessível do aparelho, esses conteúdos forçam o retorno à consciência como sintomas, desordens adicionais dolorosas da vida consciente.
Na psicopatologia de Winnicott, os distúrbios não são gerados pela expulsão, para fora da consciência, daquilo que aconteceu, mas não deveria, e sim por aquilo que não aconteceu, embora precisasse acontecer. Os distúrbios são interrupções na continuidade do ser, cuja origem está nas falhas ambientais e nas reações do bebê a essas falhas, que acabam constituindo organizações defensivas mais ou menos rígidas.
Freud propõe a "talking cure", técnica que, mediante livre associação e interpretação, conecta os sintomas com os conteúdos inconscientes reprimidos, resgatando-os, assim, para a memória consciente. Uma vez que as instâncias repressivas estão sempre lá, a permanente censura de desejos cria novos distúrbios, de modo que o tratamento, em princípio, nunca chega ao fim.
Além de usar a cura pela palavra numa versão modificada, Winnicott defende e pratica um tratamento inteiramente novo: a "care-cure", cura pelo cuidado.
Quando a continuidade de ser foi interrompida pela falha ambiental, a tendência à integração desenvolve uma força poderosa para reiniciar a integração rumo à saúde. O analista precisa estar disposto a oferecer ao paciente o que este necessita para tanto – a começar, às vezes, pela etapa mais primitiva. Ele não é um decifrador, mas alguém que participa ativamente, pelo seu comportamento, da retomada do amadurecimento por seu paciente.
O tratamento consiste em facilitar a busca pelo paciente, aqui e agora, da integração não alcançada no passado. O analista só poderá proceder assim se acreditar na natureza humana e na tendência à integração que a caracteriza.
Em Freud, a ordem social e a cultura são produtos da sublimação, processo pelo qual os indivíduos e sociedades inteiras buscam resolver seus inevitáveis conflitos sexuais de caráter edípico, marcados pela ameaça da castração do filho por parte do pai e, como reação, pelo assassinato do pai pelos filhos revoltados, acometidos posteriormente de culpa.
A culpa torna-se o motor do processo cultural, basicamente o mesmo das neuroses. Sendo assim, as formas da vida social (família, grupos sociais, igrejas, povos) e da cultura humana, mesmo as mais elevadas (a moral da lei, as religiões monoteístas, as artes) possuem as mesmas propriedades que as neuroses individuais e coletivas. A família exogâmica, favorecida pela sociedade, surge da proibição do incesto, terminando com isso o drama do assassinato do pai. A moral freudiana, herdeira da moral da lei kantiana, e o monoteísmo têm a mesma origem: a divinização compensatória do pai e da vontade do pai.
DIGESTÃO
Em Winnicott, a ordem social, em particular a família, emerge em larga medida das tendências rumo à organização em uma personalidade individual. O pai, protegendo a mãe nos estágios iniciais do amadurecimento da criança, possibilita a esta suportar a culpa de seu uso excitado da mãe e, assim, ficar livre para amá-la instintivamente – sendo que os instintos, no início, não são genitais, mas relacionados à digestão. A origem e o funcionamento da família diz respeito à provisão ambiental da qual a criança necessita para se integrar.
Os elementos básicos da moralidade também são adquiridos antes das relações triangulares, que Freud chamou de edípicas, pois a criança passa cedo a sentir-se compadecida pelos estragos que, nos estados excitados, ela faz ou imagina fazer no corpo da sua mãe, que ela ama. Se esta sobrevive e não retalia –o que ela é capaz de fazer se tem saúde e é auxiliada pelo pai ou outras pessoas–, a criança descobre sua própria urgência para remendar e contribuir.
Antes e independentemente de coerção externa, a criança cria a capacidade de sentir-se culpada e de ser responsável por outras pessoas. Essa é, em Winnicott, a origem da ética –decerto, não da ética da lei (e certamente não a da lei da proibição do incesto), mas da ética do cuidado em relação a outras pessoas e a sua continuidade do ser, que pode ser aproximada do cuidado de si e dos outros, de Heidegger e de Foucault.
No que se refere à religião, suas várias formas correspondem, de acordo com Winnicott, aos sucessivos estágios do processo de amadurecimento. O monoteísmo em particular tem sua origem no estágio do "eu sou", no qual se constitui a unidade pessoal. Nesse processo, o pai, mais do que a mãe, é usado pela criança como esquema para a aquisição de um si-mesmo unitário.
A atividade artística é a continuidade do brincar, que começa muito cedo, já durante o estágio dos fenômenos transicionais (uso de ursinhos, chupetas, pontas do lençol etc.). O brincar é inerentemente excitado e precário, mas essas características não surgem da excitação instintual. Em especial não é, como quer Freud, um resultado de sublimação da repressão que resolve conflitos internos.
Diante do que apresentei, fica possível determinar com precisão o lugar de Winnicott na história da psicanálise. Ele não é freudiano (nem kleiniano, tampouco lacaniano); é o que se tornou ao viver sua vida e fazer o seu trabalho clínico dedicado a ajudar outras pessoas a se tornarem, elas também, indivíduos integrados, capazes de viver uma vida que valha a pena de ser vivida e, finalmente, de dar-se ao luxo até de morrer. Provavelmente, no caso do próprio Winnicott, de morrer tranquilo, pois a revolução à qual dedicou sua vida estava lançada.

ZELJKO LOPARIC, 76, é professor titular aposentado de filosofia da Unicamp e autor de "Winnicott e Jung" (DWW).

quinta-feira, 10 de março de 2016

8 frases para nunca dizer em discussões na frente das crianças

Uma matéria muito útil em que fui uma das fontes entrevistadas.

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Brigar na frente dos filhos sempre é ruim, mas certas frases não devem ser ditas

Matéria Portal UOL, SP - 10/03/2016
Casais que brigam na frente dos filhos, sejam crianças ou adolescentes, transmitem a eles não apenas um profundo sentimento de insegurança e mágoa, mas também um exemplo de conduta inadequado.
Os conflitos só geram algum tipo de aprendizado para a criança quando os pais conseguem manter o respeito, mesmo que não partilhem do mesmo ponto de vista. "É possível discordar sem ofender. Quando está difícil segurar as emoções negativas, o melhor é se afastar e deixar a discussão para depois, quando os filhos não estiverem por perto", afirma a pedagoga Taís Bento, especialista em aprendizagem pela Universidade de San Diego.
É nessas horas que é preciso evitar reações desmedidas e frases de efeito, muitas vezes ditas sem pensar. Além de magoar o outro, elas podem ferir –e muito– as crianças, que nada têm a ver com a situação.
A seguir, veja o que não dizer nem mesmo sob forte emoção, se quiser poupar seus filhos.




1

 

"Foi você quem quis ter filhos"

"Então, eu não fui desejado pela minha mãe ou pelo meu pai?" É isso o que pensa uma criança ou adolescente ao ouvir essa frase, segundo a psicóloga Cintia Liana Reis de Silva, uma das fundadoras do Grupo de Trabalho de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia e do Sergipe. "Nesse momento, o filho poderá se considerar um erro e sentirá que não merece ser amado", afirma. Como consequência, a criança pode até desenvolver um complexo de inferioridade por conta da rejeição.


2

 

"Se continuar assim, vamos ter de nos separar"

A insegurança que se instala em crianças ou adolescentes que escutam essa frase pode afetá-los futuramente. "Da adolescência para a vida adulta, o sentimento pode desencadear o medo de se relacionar", declara o psicanalista Paulo Miguel Velasco, professor do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, Ciências Humanas e Sociais.


3

 

"Só não me separo de você por causa das crianças"

Dizer isso na frente dos filhos é jogar uma enorme responsabilidade nas costas de quem não têm nada a ver com a relação do casal. "O filho pode passar a ter um comportamento que visa apenas o bem-estar dos pais. Mais tarde, se o casal decidir pela separação, o peso da culpa e o sentimento de fracasso poderão perdurar na criança até a vida adulta", afirma Taís.


4

 

"Se você não mudar, vou embora e não volto nunca mais"

A criança pode levar a frase ao pé da letra e, ao considerar que um dos pais se ausentará, o risco de desenvolver um quadro de ansiedade aumenta. "Nessa situação, a cada separação do pai ou da mãe, o medo de que a pessoa não volte dominará a criança", diz Taís. Em casos mais graves, o filho pode resistir a sair de casa por ter medo de que, ao retornar, não encontrará mais o responsável pela ameaça. "Há crianças que desenvolvem medo de ir à escola e até de passear na casa de familiares e amigos por conta desse tipo de experiência", afirma a pedagoga.


5

 

"Você não está nem aí para as crianças"

Quando escuta essa frase, a autoestima do filho vai lá para baixo. Ele conclui que não é importante o suficiente para o pai ou a mãe. "Geralmente, depois das brigas, o casal que se ama contorna a situação e fica tudo bem. Já a criança pode ficar fragilizada e assustada por vários dias", diz Velasco.


6

 

"Nosso filho puxou a preguiça de você"

Nada de positivo pode ser tirado de comparações negativas como essa. O filho pode tomar como verdade absoluta o rótulo criado pelos pais --de preguiçoso, esfomeado ou desleixado, por exemplo-- e persistir no comportamento criticado. Outro risco é a criança entender que o pai ou a mãe não servem como exemplo e, portanto, devem ser rejeitados.


7

 

"Não fala mais comigo, quero distância de você"

Ainda que a frase faça menção ao par, a criança pode sentir medo de que o sentimento seja transferido para ela. "A rejeição é um prato cheio para o desenvolvimento do isolamento e da depressão", diz o psicanalista.


8

 

"Nunca vou perdoar você por isso"

A palavra "nunca" tem um impacto forte demais para a criança. "Por não ter maturidade para lidar com conflitos, ela passa a viver em constante estado de alerta, já que fica ansiosa para saber como será o próximo momento em família", afirma a pedagoga.

Fonte: http://mulher.uol.com.br/gravidez-e-filhos/listas/8-frases-para-nunca-dizer-em-discussoes-na-frente-das-criancas.htm

quarta-feira, 9 de março de 2016

Trinta maneiras de ensinar à crianças noções de consentimento


Por  - BuzzFeed Staff
Achei esse artigo no buzzfeed e, sendo ele de EXTREMA importância, me dei a liberdade de traduzí-lo e postá-lo aqui.
Crianças de 1 a 5 anos
1. Ensine a criança a pedir permissão antes de tocar ou abraçar um amigo. Use frases como “Sarah, vamos perguntar ao Joe se ele gostaria de um abraço de despedida.” Se Joe disser “não” para o pedido, alegremente diga ao seu filho, “Tudo bem, Sarah! Vamos acenar um tchauzinho para Joe e jogar um beijo.”
2. Ajude seu filho a criar empatia explicando como algo que eles fizeram pode ter machucado alguém. Use frases como “Eu sei que você queria aquele brinquedo, mas quando você bateu no Mikey o machucou e o fez se sentir muito triste. E nós não queremos que Mikey fique triste.”
3. Ensine as crianças a ajudar os outros quando estão com problemas. Fale com elas sobre ajudar outras crianças e a avisar adultos confiáveis quando outros precisam de ajuda. Use o animal da família como exemplo: “Oh, parece que o rabo do gatinho está preso! Precisamos ajudá-lo!”
4. Ensine seus filhos que “não” e “pare” são palavras importantes e devem ser honradas. Também ensine-os que seus "não"s devem ser honrados. Explique que assim como devemos sempre parar de fazer algo quando alguém diz “não”, nossos amigos também devem parar quando dizemos “não”.
5. Encoraje a criança a ler expressões faciais e outros sinais corporais: assustado, feliz, triste, frustrado, com raiva e etc. Jogos de charada com expressões são um ótimo jeito de ensinar as crianças a ler linguagem corporal.
6. Nunca force a criança a abraçar, tocar ou beijar qualquer um, por nenhuma razão. Se a vovó está pedindo um beijo e seu filho está resistente, sugira alternativas dizendo coisas como “Você prefere dar um ‘high-five’ na vovó? Ou jogar-lhe um beijo, talvez?” Você pode mais tarde explicar para a vovó o que está fazendo e porque.
7. Sirva de exemplo, pedindo permissão ao seu filho para ajudá-lo a lavar seu corpo. Encare com otimismo e sempre honre o desejo do seu filho de não ser tocado. “Posso lavar suas costas agora? E seus pés? Que tal seu bumbum?” Se a criança disser “não”, então dê a ela a esponja e diga “Ok! Seu bumbum precisa de uma esfregada, faça isso”.
8. Dê às crianças a oportunidade de dizer sim ou não em escolhas do dia-a-dia também. Deixe-as escolher suas roupas e ter opinião sobre o que usar, aonde brincar ou como pentear o cabelo.
9. Permita a criança a falar sobre seus corpos do jeito que quiserem, sem vergonhas. Ensine-os as palavras corretas para as genitálias e se faça de lugar-seguro para eles falarem sobre corpos e sexo. Diga “Estou tão feliz que você me perguntou isso!”. Se você não sabe como responder às suas perguntas do jeito certo, então apenas diga “Estou tão feliz que você está me perguntando sobre isso, mas eu terei que pesquisar. Podemos falar sobre isso depois do jantar?” e tenha certeza de cumprir sua palavra.
10. Fale sobre instintos. Às vezes algumas coisas nos fazem sentir estranho, ou assustado, ou com nojo e nós não sabemos o porquê. Pergunte ao seu filho se isso já aconteceu com eles e ouça atentamente enquanto explicam.
11. “Use suas palavras”. Não responda à birras. Peça ao seu filho para usar palavras, até as mais simples palavras, para explicar-lhe o que está acontecendo.
Crianças de 5 a 12 anos
1. Ensine às crianças que o jeito que seus corpos estão mudando é ótimo, mas às vezes pode ser confuso. O jeito que você fala sobre essas mudanças – tanto a perda de dentes como pelos pubianos – vai mostrar sua boa vontade para falar sobre outros assuntos sensíveis.
2. Encoraje-os a falar sobre o que os faz sentir bem e o que os faz sentir mal. Você gosta de sentir cócegas? Você gosta de se sentir tonto? O que mais? O que te faz sentir mal? Estar doente, talvez? Ou quando outras crianças te machucam? Deixe espaço para seu filho falar sobre qualquer coisa que vier à cabeça.
3. Lembre seu filho que tudo pelo que ele está passando é natural, crescer acontece com todos nós.
4. Ensine seus filhos a usar “palavras seguras” durante a brincadeira e os ajude a negociar o uso de tais palavras com os amigos. Nessa idade, dizer “não” pode ser parte da brincadeira, então eles precisam ter uma palavra que fará parar toda a atividade. Talvez uma bobinha, como “manteiga de amendoim” ou uma séria, como “eu tô falando sério!”. O que funcionar para todos eles está bom.
5. Ensine as crianças a parar sua brincadeira vez ou outra para checar os amiguinhos. Ensine-os a fazer uma pausa às vezes, para ter certeza de que todo mundo está se sentindo bem.
6. Encoraje as crianças a observar a expressão facial alheia durante a brincadeira, para ter certeza de que todos estão felizes.
7. Ajude a criança a interpretar o que ele vê no playground e com amigos. Pergunte-o o que ele pode ou poderia fazer de diferente para ajudá-los.
8. Não encha o saco das crianças pelos seus namoradinhos ou por ter paixonites. Tudo aquilo que eles sentirem é ok. Se a amizade deles com alguém parece ser uma paixonite, não mencione isso. Você pode fazer perguntas diretas, como “Como vai sua amizade com a Sarah?” e esteja preparada para falar – ou não – sobre isso.
9. Ensine às crianças que seus comportamentos afetam os outros. Peça a eles para observarem como as pessoas respondem quando outra pessoa faz barulho ou bagunça e pergunte a eles qual eles acham que será o resultado disso. Alguma outra pessoa vai ter que limpar a sujeira? Alguém vai ficar assustado? Explique às crianças como as escolhas que eles fazem pode afetar os outros e fale sobre quando é hora de fazer barulho e quais são os espaços para se bagunçar.
10. Ensine às crianças a procurar oportunidades para ajudar. Eles podem levar o lixo? Eles podem ficar quietos para não interromper a leitura de alguém no ônibus? Eles podem oferecer ajuda para carregar algo ou segurar a porta para alguém passar? Tudo isso ensina as crianças que eles têm um papel em ajudar a aliviar as cargas tanto literais quanto metafóricas
Adolescentes e jovens adultos
1. Educar sobre o “toque bom/toque ruim” continua crucial, principalmente no ensino médio. Essa é uma idade em que surgem várias “brincadeiras de toque”: bater na bunda, garotos batendo um nos genitais dos outros e beliscando os mamilos um dos outros para causar dor. Quando as crianças falam sobre essas brincadeiras, surge uma tendência onde os garotos explicam que eles acham que as garotas gostam, mas as garotas dizem que não gostam. Temos que fazê-los falar sobre as maneiras que essas brincadeiras impactam as outras pessoas.
2. Levante a autoestima dos adolescentes. No ensino médio, o bullying muda seu alvo para atingir especificamente a identidade, e a autoestima começa a despencar a partir dos treze anos. Aos dezessete anos, 78% das garotas dizem odiar seus próprios corpos. Lembre-os com frequência sobre seus talentos, suas habilidades, sua gentileza, assim como sua aparência. Mesmo se eles lhe responderem com um “Pai! Eu sei!” é sempre bom ouvir esse tipo de coisa.
3. Continue tendo as conversas sobre sexo com o adolescente, mas comece a incorporar informações sobre consentimento. Pergunte coisas como “Como você sabe se seu parceiro está pronto para te beijar?” e “Como você sabe que uma garota (ou garoto) está interessado em você?”. Essa é uma ótima hora para explicar consentimento entusiasticamente, sobre pedir permissão para beijar ou tocar um parceiro. Explique que somente “sim” significa “sim”.
4. Corte a “conversa de vestiário” pela raiz. A adolescência é a idade onde o papo sobre sexo começa em ambientes segregados por gênero, como vestiários ou festas do pijama. Suas paixonites e desejos são normais e saudáveis, mas precisamos mostrar como falar sobre nossas paixões como se elas fossem pessoas inteiras. Se você ouvir um adolescente falar “ela tem um bundão gostoso”, você pode dizer “acho que ela é mais do que uma bunda!”.
5. É comum e perfeitamente normal se sentir oprimido ou confuso com os novos sentimentos hormonais. Diga às suas crianças que não importa o que sentirem, eles podem falar com você sobre isso. Mas seus sentimentos, desejos e necessidades não são responsabilidade de ninguém além deles mesmos. Eles ainda precisam praticar bondade e respeito por todos ao seu redor.
6. Ensine aos seus filhos sobre o que é masculinidade. Pergunte o que não havia de bom na cultura de masculinidade no passado, como podemos construir uma forma de masculinidade que abranja todos os tipos de garotos: esportistas, artistas, homossexuais. Essas conversas podem encorajar a construir uma forma não-violenta de masculinidade no futuro.
7. Deixe claro que não os quer bebendo ou usando drogas, mas que você sabe que adolescentes o fazem e quer que seus filhos estejam informados. Pergunte à eles sobre como vão manter a si mesmo e aos outros seguros. Tome cuidado com as palavras que usa para falar com seus filhos sobre “festança”.
8. Continue falando sobre sexo e consentimento com adolescentes enquanto eles começam a ter relacionamentos sérios. Sim, eles irão lhe dizer que sabem de tudo, mas a continuação da conversa sobre consentimento saudável, respeitar seus parceiros e sexualidade saudável vai mostrar à eles quão importantes esses temas são pra você.
9. Adolescentes têm sede de informação. Eles querem aprender, e eles irão achar um jeito de ter informações sobre sexo. Se você está disponibilizando essa informação amorosa, honesta e consistentemente, eles irão carregá-la para o mundo com eles.
Desenhos: ’Children’s Drawings from the collection of Jean Dubuffet’ – Book, The Innocent Eye by Jonathan Fineberg

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Exupéry, Roterdã e a infância

Publicado em literatura por Mario Feitosa

Quando crianças, nosso maior sonho é ver o tempo voar e finalmente nos tornarmos adultos. Ah, se soubéssemos, naquele tempo, o que significa ser criança...

Um mergulho no entendimento da infância pelas mentes de Antoine de Saint-Exupéry e Erasmo de Roterdã e a reflexão sobre o que ela tem para nos ensinar.



"Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável", afirma Erasmo de Roterdã, em "O Elogio à Loucura". Continua: "Ao ver esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os socorre". 

Quê há no mundo de mais adorável que uma criança? E entre todas as crianças, quem, na história da literatura, foi mais adorável que o pequeno garoto de olhos brilhantes e traje engraçado, pintado por Antoine de Saint-Exupéry, em busca de um carneiro? 

Há quem diga que crianças são "pequenos adultos bêbados". Afirmação incrivelmente espirituosa e acertada. Afinal, quê são "adultos bêbados" senão seres inexplicavelmente divertidos, sem muralhas de pudor, sem "juízo"?! 

Dada a afirmação, que tal promover a atividade mais própria da criança, a brincadeira, traçando um paralelo absurdo de três pontos entre a criatura tenra e suave, de mãos e pés pequenos, olhos curiosos e brilhantes, alma pura, transbordando inocência, e as quase tão adoráveis quanto obras de Antoine de Saint-Exupéry, "O Pequeno Príncipe", e Erasmo de Roterdã, "O Elogio à Loucura"? Vamos lá? 

O Pequeno Príncipe, livreto ilustrado de Exupéry, conta a história de um piloto de avião que, enfrentando a luta pela vida ou morte, num acidente no deserto, se depara com uma misteriosa pessoinha de outro mundo, a qual, em momentos apaixonados e apaixonantes, lhe ensina as máximas de uma vida verdadeira: inocência, oposta à malícia que nos é tão própria; sinceridade, à qual nosso respeito humano nos pede ignorância, em bizarras convenções insalubres; a amizade, ou amor sincero, tão alheios ao comércio-de-tudo ao qual estamos impostos; à responsabilidade, que combate nosso usual e tão devastador egoísmo. Uma pérola! Pequena, leve, linda... Obra que caberia ser revisitada uma ou mais vezes ao ano, para remover as cracas encrustadas pela vida adulta, e reavivar a criança interior. 

Tem seu ápice na fabulosa (e que me perdoe o leitor pelo abuso da equivocidade do termo) máxima da raposa: "Te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", talvez uma das máximas universais mais exploradas ao longo dos anos, de uma profundidade ímpar. Caberiam infindáveis parágrafos de discurso para expressar todas as nuanças da afirmação, mas não seria esse o caso.


Ilustração de Antoine de Saint-Exupéry para capa de sua obra "O Pequeno Príncipe"

De outro lado, o genial rolo-compressor ético de Erasmo de Roterdã, "O Elogio à Loucura". Peça fluída, de humor sagaz e audacioso. Veste de atrevido vestido vermelho, de ampla fenda e decote sobejo, a deusa Moria, a sandice, a entrega desregrada do homem à incontinência desmedida, a doação ao prazer e estultícia, ignorando qualquer meditação profunda, a qual, aos olhos dele, franze as testas dos homens, os envelhece e os faz intragáveis. De uma maneira pitoresca e, talvez, irresponsável, Erasmo (e repare na intimidade) motiva o homem a abandonar a filosofia, o pudor, toda forma de prudência, e a dedicar-se à incontinência das paixões, num tempo de homens austeros, com muita coisa a dizer, mas que, no contexto, provavelmente, ninguém quisesse ouvir. 

Me atrevo a catalogar "O Elogio à Loucura" como a Bíblia para os desajustados, que tanto sofrem pela desaprovação social. Banhada no leite da poética mitologia grega, puxando ao riso e ao verme da consciência em cada sentença, mais que motivar ao abandono da razão, busca, convidando à tal incontinência (abominada por Aristóteles, em "Ética a Nicômaco"), questionar quanto deve o homem ignorar seu caráter animal, que corresponde a pelo menos metade de sua natureza, em troca da elevação intelectual. 

Que lindo o trecho no qual se dedica a imaginar o mundo livre do alfabeto, onde cada qual vive sua vida sem fortes preceitos senão suas necessidades, uma espécie de anarquia intelectual. E quanto condena, na progressão da peça, o desejo dos sábios de tornarem-se mais do que caberia à frágil humanidade, forçando uma transcendência impossível, e se amargando no processo. 

Mas, estendendo demais simplórios resumos das peças, que devem ser consumidas e não imaginadas, cabe retornar ao tema, sua visão de infância. 

Roterdã, enquanto convida à desistência do pudor e da aceitação das convenções sociais, volta os olhos à infância, sem ética construída, profunda sinceridade, livre das barreiras do "cabe ou não cabe ser dito", chama os pequenos humanos de "sem juízo", e oferta a essa falta da meditação do certo e errado seu maior e mais forte caractere de amabilidade.



Agora, ignorando os dois mestres, para traçar a última linha, quê são crianças senão espíritos livres? Livres das tais convenções sociais que nos privam das anteditas máximas da vida verdadeira, verdadeiramente saudáveis. Aos adultos não é adequada a alegria, porque alegria e destemperança andam de mãos dadas, e destemperança agride os preceitos morais alheios. Sinceridade? Quê haveria de ser isso senão uma forma de rudeza, que move a ferir egos?! Amizade?! Amor sincero?! Invenções de boêmios poetas que precisam justificar ao mundo sua falta de modéstia na expressão, uma vez que se doam à noite e ao vinho, ao prazer, pensando-se adolescentes quando já deviam ter abraçado a seriedade que é cabida aos maduros. 

Já às crianças tudo soa divertido, adequado, livre das cruéis métricas que a nós são aplicadas. 

Vaza, inconsciente e involuntariamente, uma profunda inveja do estado pueril, por não poder dividir com eles a livração dos extensos julgamentos de inadequação e loucura, e rótulos de desajuste e necessidade de ajuda. Mas que tipo de ajuda precisaria alguém que deseja do fundo do coração se assemelhar ao ser que, no mundo, mais próximo está da perfeição, e todos querem abraçar e ter por perto, pela formosura estampada nas bolas dos olhos livres de malícia, princípio e autora de toda monstruosidade? 

Houve, no passado, um velho sábio que, segundo dizem, nem chegou a ser tão velho de idade, mas envelheceu por sabedoria (como explicava o mesmo Roterdã) que andava a pés descalços, cantando que o certo era o amor gratuito. Dizem que o mataram, com furos nos membros e no peito, porque o mundo não precisava ouvir o que ele tinha a dizer. Segundo quem ouviu, ele ensinou que quem não fosse tal criança jamais haveria de ser verdadeiramente feliz, provavelmente sabendo que quem perde a meninice, além de perder a graça em si, perde o potencial à verdadeira vida. 

A vida adulta tem lá seus encantos. Talvez sejam eles o tabaco, o álcool, o prazer do sexo, a pompa dos títulos de Senhor e Senhora, ainda que não se saiba exatamente do quê, os carros, empregos, salários dos quais se gabar... Coisas que às crianças não cabem. Mas a elas cabem os jogos, fantasias, brinquedos, amizades desinteressadas, ainda que com amigos imaginários, os quais nem é possível saber se são, de fato, fruto de imaginação ou comunicação real com criaturas sublimes, as quais, como adultos, não seriamos capazes de ver, por termos perdido a inocência. 

Quais são as responsabilidades de um adulto, que os consomem? Contas, e casa, e casamento, e trabalho, e memorando, e mais trabalho, e mais contas, e reuniões, e celulares, e mais contas, seguidas de mais trabalho, relatórios e cálculos. E se paro para enumerar as cabidas ao infante? Meu deus, é aqui que morro de inveja: o brincar, e sonhar acordado, e aprender enquanto brinca, e o sonhar enquanto aprende, e o comer para dormir e, descansado, poder brincar, para voltar a sonhar e aprender. É suposto que a felicidade reinará! E, felizes, como ninguém mais, serão ainda mais adoráveis que suas formas físicas.


E, aqui, começa o traçado do bizarro paralelo entre os pontos anteditos, da verdadeira vida de Exupéry, da falta de juízo, de Roterdã, e da felicidade infantil desenhada pela captação da realidade: qual haveria de ser maior falta de juízo que pedir ao adulto que interrompa sua luta pela sobrevivência para desenhar um carneiro, como o fez o jovem príncipe, ao conhecer o piloto? Não são a esse ponto desajuizadas todas as crianças? E não é justamente a maluquice que permite a felicidade, como explicou Erasmo? Livres das convenções estúpidas e medíocres definidas para inflar egos alheios em amizades convenientes, gozando da liberdade dos problemas que advém de tais convenções, encarando o mundo com os olhos que têm, e vestindo os óculos da imaginação, que fazem do sol ainda mais amarelo e brilhante, das árvores ainda mais verdes e vivas, do céu ainda mais azul e repleto de animais de algodão, as crianças constroem o mundo que os adultos sempre quiseram, mas, ainda querendo, não têm coragem de fazer; pois fazê-lo exigiria a ruptura das convenções. E pedir a ruptura das cruéis regras pré-estipuladas seria deixar a saudável "adultice" em troca de uma já abominável infantilidade, que não mais os "cabe". E, a troco de não receber rótulos (porque adultos vivem de rótulos) de insanidade, e manter a faixa de status (porque adultos adoram status) e seriedade, desistem do desejo, ignoram os conselhos e guardam no bolso de traz o bloquinho de notas, onde haviam desenhado um elefante dentro de uma jibóia, por medo de que pensem ser um chapéu. 

No fim do dia, cavando o fim da vida, para não parecermos loucos aos olhos dos homens, aplicamos, como regra de nossas vidas, o maior ato de estultícia (mórbida) possível, que é ignorar nossa inclinação natural mais saudável, a de, entre reunião e relatório, entregar-nos à verdadeira vida, de sentimentos sinceros e desmedidos.



Se ouvíssemos Exupéry, que nos contou quão responsáveis somos pelo que cativamos, ou Roterdã, que gritou que quanto mais loucos fôssemos, e menos prudentes, mais felizes seríamos, imitaríamos as crianças que, na complexidade do mais simples, vivem verdadeiramente. 

Desejo ser criança para sempre. Gostaria que houvessem mais crianças adultas para brincar a vida comigo. 

©obvious: http://obviousmag.org/sete_tons_mais_tudo_que_ha_no_meio/2015/exupery-roterda-e-a-infancia.html#ixzz3psi9814n Follow us: @obvious on Twitter | obviousmagazine on Facebook

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dê muito amor e seja lúcido

Cintia Liana


Ferber ou Estivill se retratou. Se ligue! Não deixe o seu bebê chorando!

Google Imagens

Sabiam que o FERBER, o escritor daquele livro do método Ferber ou Estivill, que aconselhava os pais a deixarem o bebê chorando até cansar, se retratou? 
Pois é, após vender rios de livros com essa teoria violenta, ele veio a público dizer que a sua teoria estava errada, que faz mal, e que essa teoria serve só após os 3 anos. Pode? 

E quem deixou o filho chorar tanto, abandonado, ignorado, agora sente as consequências.



Consulte sempre um Psicólogo de Família.


Cintia Liana

Se aprofunde mais no tema com esse excelente texto:
http://psicologiaeadocao.blogspot.it/2013/11/nao-deixe-o-seu-bebe-chorando.html




sábado, 25 de abril de 2015

Neuróticos normais, como nós

We heart it

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Guia Indika Bem, dia 23 de abril e 2015.

Freud disse que “de perto ninguém é normal” e que todos nós somos neuróticos. O conceito de normalidade é arbitrário. Não existe normalidade. O que pode ser normal para uns, pode parecer anormal para outros e vice e versa. No livro a “Nau dos loucos” Foucault transcorre sobre a história da loucura e discute o conceito de normalidade na sociedade.

Por que todos nós somos neuróticos? Existem três tipos de estruturas psíquicas na relação com o outro, com o externo: uma é a neurótica, na qual o indivíduo vê o outro como superior; a psicopática, na qual o indivíduio vê o outro como inferior e a psicótica, na qual o outro não existe. A estrutura mais fáci de se encontrar é a neurótica, em que o sujeito acredita, bem lá no fundo, mesmo que esconda de si mesmo, que ele não está à altura do que vê, ele desconfia que o outro queira desvalorizá-lo, que não é valorizado como deveria, que não é competente como poderia, se sente rejeitado em muitas situações, pensa que os outros são melhores ou querem derrubá-lo. No processo de amadurecimento na vida, temos que trabalhar esses fantasmas criados durante o desenvolvimento infantil em sociedade buscando o nosso senso interno de valor.

Algumas pessoas têm uma autoestima mais elevada que outras, mas nesse caso vai depender da história de vida, do grau de maturidade do pais, dos reforços positivos, dos traumas vividos, da capacidade de resiliência da cada uma, do temperamento, dos eventos da vida e de tantas outras variáveis.

No contato com o outro é importante lembrar que os neuróticos se sentem como nós, precisam de atenção, não querem se sentir desvalorizados. Lembre-se de que enquanto vocês se sente desvalorizado o outro também pode sentir exatamente o mesmo ou pior que você, então seja forte e busque ser maduro e assim quem está interagindo com você não se sentirá ameaçado, ou contrário, se sentirá seguro para se abrir. Acontecem tantos desentendimentos porque duas pessoas se sentiram ameaçadas… Quando nada de fato aconteceu de negativo e quando nenhuma das duas quis amedrontar.

Imaginem a cena de dois cachorrinhos que se encontram e um fica com medo da reação do outro. O ser humano é assim nas relações, quando se encontram eclodem todas as defesas e medos. Todas as pessoas têm as suas feridas emocionais, os seus dilemas e as suas dores e isso não faz de ninguém desequilibrado, ao contrário, isso é ser humano. Eu costumo dizer que uma pessoa madura não é aquela que tem suas dúvidas, limitações, medos, mas é aquela que procura ver e aceitar essas limitações, almejando crescer. É humilde, sábia e corajosa o suficiente para ter vontade, buscar e fazer terapia com empenho, que enfrenta a si mesma, que reconhece as suas emoções e é capaz de demonstrá-las com dignidade  e de falar sobre elas. É uma pessoa que aprende a aceitar-se e a amar-se  e assim aprende a aceitar e a amar os outros por aquilo que são. Já uma pessoa infantil, insegura e imatura é muito crítica, competitiva, rebelde, controladora, preconceituosa e invejosa. Acha que sabe tudo, não sabe escutar e nem valorizar ou aceitar o outro, porque não consegue valorizar a si mesma.
Uma que não consegue olhar e tocar a alma do outro è porque ainda não conseguiu olhar e tocar a sua própria alma. O caminho para ter amor ao próximo de verdade é antes de tudo aprender a amar, ser tolerante, generoso, sensível e verdadeiro consigo mesmo.

Como disse Carl Gustav Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. Para ser feliz é preciso despertar.

Por Cintia Liana Reis de Silva

Fonte: http://indikabem.com.br/comportamento/neuroticos-normais-como-nos