"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Campanha Adote essa Ideia

Foto: Campanha "Adote essa Ideia"

Agnelo Pacheco retoma a campanha “Adote essa Ideia”

Ter, 26 de Outubro de 2010 13:00

Segunda fase do projeto busca alertar a sociedade sobre a importância de uma adoção consciente.
Devido ao grande sucesso da campanha “Adote essa Ideia”, a OAB-SP por meio da Comissão Especial de Direito à Adoção, solicitou que a agência Agnelo a retomasse com o intuito de desmitificar a problemática do preconceito dos candidatos a adotantes, tanto em relação à idade quanto a etnia da criança.

A ideia surgiu em decorrência da nova Lei de Adoção - sancionada pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva. Cujo principal objetivo é impedir que crianças e adolescentes permaneçam em abrigos por longos períodos.

A campanha tem como objetivo mobilizar a população sobre a importância da adoção. O intuito é estimular a sociedade a adotar sem exigências quanto à idade, etnia e sexo da criança, o que acaba dificultando e torna lento o processo.

Assim como a primeira fase de divulgação, “Adote essa Ideia” apresenta cartazes e cartões postais, que trazem como mote o fim do preconceito representado por uma mulher branca abraçada a uma criança afro-descendente. A novidade é o desenvolvimento de uma cartilha a respeito do assunto.

Ficha Técnica
Título: Adote essa idéia
Cliente: OAB -SP
Produto: Institucional
Peças: cartaz, postal, banner
Criação: Agnelo Pacheco, Ricardo Paoliello, Luiz Catapano.
Direção de Criação: Agnelo Pacheco
Planejamento: Agnelo Pacheco
Atendimento: Renata Botene
Aprovação: Luiz Flávio Borges D’Urso



Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 22 de junho de 2010

Os Desafios da Adoção no Brasil - Construindo uma Nova Cultura

Foto: Facebook

Título: Os Desafios da Adoção no Brasil - Construindo uma Nova Cultura
Autor: Fernando Freire
Fonte: in Reencontro com a Esperança – Decebal Andrei – Londrina/PR - 1999

O debate atual sobre a adoção no Brasil assinala um extenso arco de possibilidades, de questões, de olhares, de discursos, de informações, de análises que vão constituindo e tomando sensível uma proposta cultural especificamente brasileira. Pensemos essa experiência.

No fundo, uma razão fundamental motiva a realização de trabalhos como este: a necessidade de transformação. Queremos a mudança - individual e cultural - queremos transformar os métodos existentes para lidar com a infância no Brasil. Buscamos os caminhos, construímos esses caminhos.

Pretendo aqui lançar algumas questões, reunir alguns aspectos e problemas da nossa experiência. Levo em consideração o fato de que o nosso país vem sendo inventado por iniciativas diversas há muito tempo, e que, em tudo o que fazemos, há sempre o sentido de desbravamento e identificação.

Nosso projeto civilizatório, nossas necessidades socio-políticas, nossas iniciativas individuais, mobilizam energias e esperanças, mobilizam um generoso processo que busca o conhecimento, que reconhece as dificuldades do desafio que enfrenta.

Contribuir e interferir nesse processo esse é o nosso objetivo. Qual é o significado e o destino de nosso trabalho em favor da infância, em favor do direito à convivência familiar e comunitária?

Uma questão me parece fundamental: não podemos aceitar nossa realidade atual como uma fatalidade histórica. Consideremos a diversidade cultural de nosso país, e as potencialidades humanas e sociais ainda inexploradas.

As diversas experiências por que passam todos os que vivem a adoção no Brasil propõem diversos tratamentos, diferentes enfoques, que se interceptam, produzindo às vezes conexões inesperadas, na tentativa de tomar visível e real o nosso desejo de transformação.

* * *

500 anos depois, é urgente descobrir o Brasil, o Brasil profundo. Essa é uma tarefa imensa, ainda e sempre inacabada, apesar de todos os esforços das gerações de brasileiros que se sucederam ao longo do tempo.

Sabemos que as experiências vão deixando pegadas com as quais construímos a trilha de nosso trabalho. Na adoção trata-se de traçar um itinerário visível dentro de um território ambíguo, de horizontes pouco definidos, de muitos segredos e mentiras, ficções, de incompreensões, mas também, um espaço no qual são vivenciadas profundas manifestações de humanidade.

Nesse terreno, a cada delimitação que alcançamos fazer (mapeamento), pode corresponder a uma exclusão. Conhecer e trabalhar pela adoção não nos levaria a fortalecer a exclusão, simbólica e real, daquelas famílias que entregam seus filhos? Esse conflito lembra os diversos condicionantes relacionados ao exercício pleno da cidadania no país.

Mapear, aqui, tem o sentido de "buscar entender ". Demarcar o local de nossa ação é o primeiro passo para a afinação civilizatória que pretendemos alcançar no sentido de promover uma cultura da adoção PARA a criança. Dessa afirmação emergirá aquilo que nos é possível fazer na luta contra o abandono e também aquilo que não podemos fazer para que a adoção não seja manchada pela procura de uma criança a qualquer preço.

É preciso reafirmar a necessidade da utopia, (da possibilidade de realização das adoções nacionais para todas as crianças brasileiras) como ultima fronteira do um posicionamento ético diante do pragmatismo cínico daqueles que querem ver a adoção como um direito (ao qual corresponderia o dever do abandono) e da adoção internacional como uma resposta permanente, como um projeto de sociedade.

Precisamos ver na adoção aquilo que ela de fato representa, um espelho da sociedade brasileira, uma expressão de nossas esperanças, ponte possível entre desejo e frustração, entre sonho e realidade. Abandono e adoção, um diálogo feito de contrastes: a dor e a alegria, o individual e o coletivo, o público e o privado, a vida e a morte.

Experiência e Destino
Nossa ambição não é pequena: que todas as crianças possam crescer, felizes e protegidas, amadas e respeitadas em suas famílias. Queremos discutir, mais do que propor, alguns caminhos para que isso se torne possível em nosso país. Acreditar que podemos tomar real esse sonho faz parte de uma intuição profunda, uma intuição nem sempre explícita.

Precisamos sempre lembrar de tudo aquilo que ainda nos separa, na visão que temos do papel da adoção no Brasil, e também, lembrar daquilo que nos une. Nos une a consciência que temos da importância de uma família para uma criança. Pode nos separar as diferentes análises e avaliações quanto à possibilidade de manutenção ou não dos vínculos entre a criança e sua família de origem, da necessidade ou não de sua colocação em família substituta, das chances de êxito na procura de candidatos capazes para as adoções tardias, inter-raciais, de grupos de irmãos, de crianças com necessidades especiais.

Na adoção, como em outras áreas, precisamos pensar globalmente e agir localmente. Podemos reunir as experiências de outras países, e adequá-las (adaptando-as à nossa realidade social, mas precisamos, fundamentalmente, criar soluções locais, nascidas da nossa experiência, das nossas necessidades, dos nossos problemas e da nossa capacidade de resolvê-los.

Precisamos continuar impulsionando a atividade acadêmica, que continuamente refina novos enfoques de abordagem do tema da adoção.

Analisemos alguns tópicos relacionados ao trabalho com adoção:
1. Qual o objetivo maior que queremos alcançar;
2. Qual a questão central a enfrentar;
3. Que enfoque cultural devemos privilegiar;
4. Qual o método;
5. Qual o âmbito preferencial para sua implementação;
6. Quais as táticas possíveis para a realização desses objetivos.
1. Objetivo: construir uma nova cultura

O que entendemos por "uma nova cultura"? O que queremos ver implementado? Que cultura queremos? Cultura, para quê?

A cultura que buscamos é aquela que contribua para a formação e o desenvolvimento das adoções voltadas essencialmente PARA o interesse da criança, para a realização das adoções de crianças que perderam definitivamente a proteção de sua família de origem.

Cultura é aquilo que nos permite conviver em sociedade. Hoje, a cultura é aquilo que une os diversos setores da sociedade, na busca de um entendimento mínimo, básico.

A cultura da adoção que desejamos construir a partir dos esforços de todos os que vivenciam suas diversas expressões, é a cultura que faz a ponte entre três universos: o da cultura hoje dominante - a da satisfação do desejo dos candidatos, a da imitação da biologia, a da naturalização do abandono -, o da sociedade, que se esforça para encontrar novos métodos para lidar com as famílias em situação de risco, desenvolvendo mecanismos de solidariedade, e o da personalidade, onde encontramos os espaços dos desejos e das necessidades individuais. Criar possibilidades de diálogo entre esses três universos é o que nos permitirá construir uma nova cultura que tenha chances de ser aceita e assimilada pelo conjunto da sociedade.

Na adoção, precisamos construir a cultura da solidariedade, da coragem, e da competência técnica, - das adoções tardias, inter-raciais, de grupos de irmãos, de crianças com necessidades especiais -, para tornar possível, no futuro, o que parece difícil, ou impossível, hoje.

2. Uma questão central: a formação de nossa identidade cultural.
A ponte entre sociedade-personalidade e cultura dominante, para ser construída, deve envolver aquilo que é cultura em sentido estrito (livros, revistas, radio, televisão) e aquilo que a leva para horizontes mais amplos - a ação cultural transformadora.

Adaptada às necessidades e possibilidades de cada cidade, uma ação em defesa do direito à convivência familiar e comunitária - reintegração à família de origem ou colocação em família substituta - sustentará os esforços no sentido de :
definir noções de identidade (e responsabilidade) social, reforçando a percepção de toda a sociedade para a urgência dessa luta, reconhecendo a diversidade sócio-cultural, promovendo os valores da cidadania. (direito a ter direitos);

contribuir para o aumento da qualidade de vida, renunciando ao egoísmo e à indiferença que corroem o tecido moral de uma sociedade, tornando as cidades mais solidárias, mais participativas, formando cidadãos, aumentando as chances de integração social para uma parte importante da população infantil;

colaborar para a formação de uma cidadania atenta para as situações em que determinadas crianças perdem a proteçãofundamental de seu meio de origem, ou passam a ser por ele ameaçados em sua integridade física e moral, promovendo o diálogo e a compreensão, desenvolvendo competências nas escolas e no trabalho, estimulando a liberdade de pensamento e o intercâmbio aberto de idéias e valores.

3. Qual cultura privilegiar?
A cultura do direito à convivência familiar e comunitária, da colaboração entre os agentes do Estado e a sociedade civil organizada (associações e grupos). Essa colaboração é de fundamental importância, principalmente porque um dos papéis do Estado, ainda é o de não permitir que tudo se reduza a interesses privados. Na adoção, a simples satisfação das necessidades dos candidatos.

A cultura da adoção PARA a criança será construída pelo diálogo permanente - pela criação de espaços próprios para que ele ocorra - entre todos os que vivem essa realidade.

4. O método
Produzir cultura: livros, revistas, organização de eventos, seminários, cursos, congressos. Incentivar a realização de estudos e pesquisas sobre os diversos aspectos do processo adotivo. Socializar a informação. Criar um sistema de comunicação permanente, um sistema de produção cultural, fazendo surgir, e mantendo, um movimento de criação teórica relacionada aos múltiplos aspectos da adoção com suas correspondentes medidas de ordem prática. Ocupar os espaços públicos, fazer uma política social de atenção à criança sem família.

5. O âmbito preferencial (para a ação)
A cultura da adoção PARA a criança deve ser realizada em todas as cidades em que existirem crianças sem família, crianças definitivamente desvinculadas do seu meio de origem (esquecidas em instituições). Sua implementação é dificultada por uma serie de fatores diversos: o amadorismo, o voluntarismo, a inconsistência teórico-prática, o assistencialismo, a falta de consciência, o messianismo, o oportunismo, o cinismo pragmático, o muro do silêncio e das mentiras. Precisamos lembrar que, num país com tamanhas desigualdades sociais, os cenários e os roteiros, são amplos demais, demasiadamente complexos. Desistir, ou avançar com muita lentidão, limitando a ação àquilo que é mais fácil, são os riscos de todas as iniciativas nessa área do trabalho social.

As cidades, com suas características próprias, são os espaços preferenciais para a ação. Em cada uma delas, da megalópole ao mais longínquo vilarejo, devemos fazer surgir o movimento de defesa do direito à família de todas as crianças.

A experiência de uma cidade, passando para outra, e dessa para uma terceira, e assim progressivamente, nas diferentes regiões brasileiras, criando uma REDE relacional, construindo um "nós", "nós" que trabalhamos por esse direito fundamental, um "nós" em cujo interior possam crescer os diferentes "eus" individuais, com suas necessidades e desejos.

Fortalecer os espaços públicos propiciadores de encontros, onde as pessoas estabelecem uma troca de experiências vividas em comum. São nesses espaços construídos para o encontros que as pessoas trabalharão pelo desenvolvimento de uma nova cultura da adoção. Esses espaços devem ser criados, apoiados e fortalecidos. Promover os contatos humanos diretos e prolongados, para a construção de um projeto comum.

A ação deve ser um convite ao diálogo a respeito do inaceitável sofrimento em que vivem as crianças sem família, deve chamar a atenção do resto da sociedade para esse fato, deve provocar uma reação, deve desarmar as atitudes discriminatórias e preconceituosas, deve facilitar a aproximação. A ação de todos que vivem os desafios da adoção, tem como um de seus principais objetivos.... humanizar.

6. As táticas possíveis
Insistir na importância de levar a "cultura da adoção", de forma sistemática e permanente aos mais diversos setores da sociedade através de todos os meios disponíveis. Essas táticas devem ser vistas como andaimes, e elas são, constituídas por todos os avanços já conquistados nos últimos tempos: maior número de publicações, multiplicação de eventos, presença nos meios de comunicação, participação da sociedade civil organizada.

É preciso:
1. Convencer governantes, empresários e a sociedade em geral, de que a cultura da adoção PARA a criança permitirá uma renovação dos valores éticos de regem a vida em sociedade, com beneficies para todos. Lembrar que o desenvolvimento cultural tem exigências próprias que precisam ser atendidas, e que não podem ficar sujeitas a inércia administrativa e burocrática. Prestigiar o trabalho daqueles que promovem a integração familiar de crianças institucionalizadas, tomar esse trabalho um valor social. Trabalhar na formação de um banco de dados.

Um resultado a esperar desse processo de conscientização será o aumento dos financiamentos, públicos e privados, para os trabalhos nessa área.

2. Incentivar o aparecimento e desenvolvimento de esferas de análise e decisão que congreguem, ao redor da luta contra o abandono e a exclusão de crianças, os setores governamentais e não governamentais. Reuniões de análise e discussões a respeito da realidade atual, em todo o país, da criança institucionalizada, de suas famílias, das possibilidades de reintegração, dos limites ainda existentes relacionados à adoção nacional.

3. Criar um sistema de informação cultural de âmbito nacional, utilizando os avanços recentes da comunicação eletrônica. Essa possibilidade continua reduzida em seu alcance porque ainda é grande a ignorância quanto aos seus beneficios. Ainda uma grande parte da população brasileira não sabe o que é feito nessa área, nem o que é possível fazer, nem o que já está disponível. Uma forma privilegiada para promover esse sistema é, sem dúvida, uma maior e melhor utilização dos meios eletrônicos de comunicação. A presença de informação relacionada à adoção em páginas eletrônicas, tem aumentado o contato e as ocasiões de cooperação entre pessoas das mais diferentes regiões brasileiras.

4. Ampliar a presença da "cultura da adoção " no sistema educativo.
O trabalho pelas adoções necessárias adquire o seu pleno significado apenas quando é apresentado às pessoas e aos grupos de uma determinada comunidade. Essa proposta precisa ser mais marcante para que a pessoa ou o grupo possam se apoderar da idéia, possam compreender o seu sentido maior, e aumentar as referências (idéias, conceitos e experiências) relacionadas ao trabalho que realizarão. É preciso que as pessoas saibam para que serve uma cultura da adoção PARA a criançaOs sistemas de ensino no Brasil ainda estão, em grande parte, alienados, afastados da realidade social em que vivem amplas parcelas da sociedade brasileira, com destaque para a população infantil marginalizada. É preciso superar essa alienação, e promover o contato entre esse sistema educativo, formador de opiniões e valores, e a realidade social. Esse contato preparará as pessoas para uma espécie de auto-aprendizado dos valores da cidadania e da solidariedade, tomando-as aptas a selecionar a informação que recebem e analisá-las criticamente. Nunca será demais ressaltar a importância da inclusão da educação em todo o trabalho de defesa dos direitos da criança.

Precisamos traçar um mapa confiável dos desafios, dos avanços e dos obstáculos da adoção no Brasil.

O trabalho em prol de uma cultura, qualquer que ela seja, não tem como prever e garantir resultados. Precisaremos sempre considerar o pluralismo da sociedade brasileira, suas profundas diferenças, suas imensas contradições. Podemos, e devemos, buscar um intercâmbio cultural mais intenso e mais estimulante, precisamos irrigar o terreno ainda árido das consciências adormecidas ou insensíveis. Renovar, arejar, são propostas necessárias.

Todas as iniciativas que favoreçam a integração da população brasileira excluída são necessárias, as que defendem o direito à convivência familiar e comunitária de todas as crianças e adolescentes abandonados o são por ainda mais fortes razões, aqui, essa integração pode significar pelo menos um pouco da luz que nos permitirá continuar sendo....... humanidade.

Autor: Fernando Freire



Por Cintia Liana

sábado, 1 de maio de 2010

Sonho e Luta pelas Crianças

Foto: Google Imagens


E por falar em Procuradora que agrediu filha adotiva de 2 anos... Por falar em "autoridade"...


No dia 31 de outubro de 2008 enviei o seguinte e-mail a alguns conhecidos, profissionais da área da infância, dizendo que não se tratava de nada pessoal (é claro que não!), mas de mais um dos meus apontamentos para pensarmos na vida das crianças abrigadas e em como poderíamos ajudar mais, refletindo sobre aossa postura enquanto profissionais, muito provavelmente seguros de nossas convicções secretas.

"Pesquisas com famílias adotivas revelaram dados surpreendentes em relação à questão das motivações inadequadas ou adequadas para o exercício da paternidade adotiva. A análise dos resultados mostrou que não existe correlação entre a motivação dos adotantes e o sucesso da adoção. Isso significa, a grosso modo, que a construção do vínculo afetivo pode ser tão poderosa e importante na dinâmica familiar que deixa em segundo plano a “inadequação” do motivo inicial ou outros motivos, pois outra história é capaz de ser construída posteriormente; exatamente ao contrário do que supõem muitos técnicos, ao afirmarem que a apreciação das motivações tem um interesse capital". (WEBER, 1997)

"Um casal que deseja adotar uma criança porque seu filho biológico faleceu pode parecer realmente inadequado. Os técnicos diriam que eles 'estão querendo substituir o filho falecido'. No entanto é preciso levar em conta a capacidade de reconstrução de sua própria história, de construção do apego, do fascínio da capacidade de amar". (WEBER, 1997)

Entendo que temos que ter cuidado com pseudo-análises psicológicas, principalmente feita por profissionais que não são psicólogos e se acham muito sensíveis como se esse fosse exclusivamente o único pré-requisito para ser tal profissional (sensibilidade).
Psicologismos baratos são desastrosos, principalmente se feitos por advogados, juízes e promotores, que podem usar o seu poder inadequadamente nesses casos. Maior desastre ainda, quando se trata da vida de crianças que não podem ser defendidas por suas mães e sim pelo Poder Público, que não lhe dispensa amor, muito menos materno, capacidade inerente ao ser humano e não a um sistema.
Vamos ter humildade e assumir o posto que nos foi dado, de acordo com nossa formação. Se quisermos ser psicólogos temos que fazer a faculdade, pós-graduação e não simplesmente nos acharmos preparados ou com vocação para a subjetividade. Isso é muito pouco, o caminho é muito mais longo.
Existe algo muito maior. Temos que dar conta de crianças que estão sofrendo nas instituições esperando por um pai e/ou uma mãe. Ninguém é capaz de mensurar essa dor.
Quem somos nós para dizer que uma pessoa "não está apta a adotar por estar, talvez, querendo substituir o filho falecido", enquanto milhares de crianças sofrem por desamparo? (WEBER, 1997)
Lembro que antes de tudo deve existir o desejo de adotar. Este sim faz a diferença, o desejo.

(E-mail enviado por Cintia Liana)

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Complemento que faria hoje:

O contrário penso também que seja muito perigoso e anti ético, juízes desqualificarem o parecer de um psicólogo que diz que alguém, por motivo "comprometedor", não encontra-se apto psicologicamente a adotar uma criança. O outro, só porque tem mais autoridade, diz que "acha" que o cidadão tem sim "capacidade" de adotar. Se o psicólogo, que tem estudo específico e aprofundado na área para opinar, já atestou que não, a "autoridade" se baseia em que psicologia para desrespeitar a palavra do perito e, ainda por cima, colocar em risco a vida e o futuro da criança a ser adotada?

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A promotora furiosa, levando para o lado pessoal, e usando propositalmente palavras difíceis, escreveu:

Foto: Google Imagens

“Em que pese você não ter formação jurídica, mas se interferiu no jurídico ao discorrer sobre profissionais da área, existe determinação na lei processual civil-Código de Processo Civil, que o aplicador do direito não está vinculado ao laudo técnico, sendo o mesmo, em algumas hipóteses, dispensável.”

A promotora explicou que o Juiz não tem que tomar sua decisão em cima do laudo pericial e sim formar sua convicção em cima de outros elementos ou fatos provados nos autos (CPC, artigo 436), já que “em algum caso, a opinião do perito poderá substituir-se à do Juiz, vinculando-se juridicialmente a convicção, mesmo quando a perícia é legalmente obrigatória. O laudo pericial não oferece prova, mas tão somente elementos para a convicção quanto aos fatos da causa. Como as demais provas, a perícia se sujeita à livre apreciação do Juiz (artigo 131 do CPC), pois é este quem, com exclusividade, procede à avaliação jurídica do fato.”

Discorreu sobre ela entender o quão é complexa a formação do psicólogo, mas que ela estava muito feliz com a escolha dela, que era concursada, bem sucedida, blá, blá, blá.
No final ela conclui de forma mais alienada ainda, dizendo que mesmo sem eu ter pedido para ela me dar um conselho ela me daria assim mesmo. Disse que eu devia aproveitar meu tempo livre para estudar e obter aprovação em concurso público, tornar-me independente.

Uma pessoa dessa pensa o que da vida? Que passar em concurso público é algo tão importante? Deve ser uma ambição? Com todo respeito aos que desejam passar em concurso público, nunca nem cogitei a possibilidade, nunca foi um desejo meu. Minhas ambições são outras que considero bem mais interessantes. Cada qual faz suas escolhas, não condeno a de ninguém mas, obviamente, prefiro as minhas.
Ela disse ainda para eu não perder tempo com bobagens, conjecturas, fantasias. Para eu colocar minha “cabeça no lugar” e que ela usava esse termo por ignorar o termo psicológico. Por final, disse que eu tenho valores, que eu os reconheça, que me desarme e que eu sorria para a vida. Ainda teve a hipocrisia de me desejar sucesso e dizer que estava torcendo por mim, mesmo morrendo de raiva de mim por eu ter enfrentado ela.

Enfim, ela se revoltou, como se meu texto inicial fosse uma afronta pessoal e quis me ofender. Acabei respondendo ao e-mail agressivo dela.

Foto: Gety Imagens


Respondi:
A minha vida, minha missão não é ficar sentada atrás de uma mesa de órgão público, garantindo um salário razoável, uma pseudo independência e fechando os olhos para as injustiças e negligências do Estado. Não generalizo e não falaria isso para todos, afinal tem concursado que trabalha muito e se preocupa de verdade.
Falei que a lei, em algumas situações, é muito arbitrária e incoerente. "Autoridades" são seres humanos e também são falhos.

Falei que eu era independente e que para isso não precisava de cargo público, que eu tinha uma mente livre com idéias igualmente libertadoras e que era uma pensadora, mobilizadora, profissional crítica e responsável com meus ideais, que trabalhava com amor e que escrever era uma terapia e não perder tempo como ela falou e que isso é que é viver com total independência.
A maior independência que podemos ter é a intelectual, a da alma e não a financeira, apesar desta última também ser importante. É a paz de saber que estamos agindo corretamente, ajudando pessoas.

Eu disse que eu não estava ali para falar mal de ninguém, que também sou humana e falha, mas que minha fala era de denúncia, de indignação e que tinha fundamento, que se não fizéssemos isso para melhorar algo o que faríamos? Ficaríamos comprando jóias caras, como fazem muitas vezes, no ambiente de trabalho? Esta última pergunta talvez tenha sido um pouco pessoal.

Escrevi de modo educado, se é que dá para ler isso e entender como algo educado.


Foto: Google Imagens

Entendi perfeitamente que, infelizmente o que fazemos aqui, por exemplo, a luta, a mobilização, a voz de esperança, de denúncia, em tantos lugares, para muitos deles - que estão lá com seu salariozinho garantido de R$ 10.000,00 e respaldados pela lei - é perda de tempo, coisa de gente que não tem o que fazer, que abrir a boca para denunciar, falar e desejar mudar alguma coisa está errado, é uma coisa absurda.

Ouvi dizer que até hoje ela fala mal de mim, que mandei ela ficar atrás de uma mesa. Mas o que ela não sabe, dentro da sua cabeça burguesa, vazia e alienada, é que tudo o que eu falei é coisa que só é dita por pessoas emocionalmente inteligentes, esperançosas, que podem até não ter a fantasia de mudar o mundo, mas que têm a gana de ajudar algumas pessoas. A indignação desta senhora, com o que eu quis contribuir com as sábias palavras de Lídia Weber (uma “perita” no assunto), é totalmente emburrecida.
De fato, a humanidade ainda tem muito o que crescer e dividir.

Até hoje tenho vontade de publicar essa discussão em alguma revista, suprimindo os nomes, é claro, pois poderia e nem gostaria de identificá-la. Mas nem que se tratasse de uma discussão pessoal eu não faria isso. O fato é que precisamos incentivar a abertura de consciência de algumas pessoas para que elas possam desejar melhorar as decisões para a sociedade mudar.
Infelizmente a sociedade depende, em parte, de gente que pensa pequeno desse jeito, que acha que querer melhorar e refletir sobre possíveis saídas mais eficazes para a resolução do problema do desamparo infantil é besteira e perda de tempo. Ela pensa pequeno, que devemos passar em concurso público para garantir um bom salário e independência financeira, só! A vida desta senhora é só isso! E o que seu dinheiro pode comprar. Pobre coitada.

Essa "autoridades"...

Enquanto uns querem acabar com a inspiração, a esperança, eu peço ao universo que conserve e fortaleça essa minha incansável vocação, esse dom e qualidade de saber sonhar e valorizar a importância da fantasia que leva a gana de realizar. Assim o sonho ganha sentido e sonho que se sonha junto é realidade. Sou feliz de conhecer tanta gente boa, preocupada com as crianças sem família. A nós, fortunados e ocupados com o próximo, que possamos sempre trazer riquezas para esse duro e lindo mundo.

Foto: Google Imagens

Percebo que existe um descaso profundo, como se muita gente não quisesse fazer contato com a dor das crianças. Se eles, ao menos, visitassem um abrigo e parassem tudo para ouvir o choro de uma dessas crianças...
Muitas pessoas ditas “autoridades” nunca entraram num abrigo de crianças, ou entraram com medo. Será que eles pensam, "não são meus filhos...?”, "O que os olhos não vêm o coração não sente", "não é comigo, não é com minha família, o que eu tenho a ver com isso?”, “Faço o que puder e dentro da lei".

Isso é muito injusto, uma nação deixar crianças crescendo em abrigos, que para elas são verdadeiros presídios infantis, são excluídos mesmo, por mais que o abrigo seja cuidadoso. Eles não têm uma vida livre, normal, eles são os abandonados sociais, os esquecidos, a minoria, se sentem o resto das crianças do mundo. Eu já ouvi isso e já percebi na fala de muitas crianças. Muitos sentem que não têm valor, que não são merecedores de amor.

O governo tinha que ser severo com esses pais biológicos e priorizar a criança e seu desenvolvimento e não deixá-las esperando por anos até esses pais poderem "pegá-las" de volta e reinserí-las num lar que pode continuar adoecido.
O que parece, a princípio, é que se defende primeiro o direito dos pais biológicos de não perderem o filho e não dos filhos terem uma chance de serem felizes fora do abrigo, constituindo nova família. Será que vale a pena passar 2 anos num abrigo, antes da nova lei 5, 10, 15 anos, num abrigo só para não separar a criança da família biológica? Que raio de laço de sangue é esse que faz sofrer? Que dilacera? Que tira o que pode haver de mais básico para o ser humano, que é o amor de pais e um lar digno?

Conheci adolescentes abrigados (de mais de um estado) que me disseram que chegaram no abrigo com 2, 3, 4 anos de idade e já estavam com 14, 15, 16 anos e só havia recebido visitas escassas de um ou outro familiar durante todos esses anos, estava esperando completar 18 para sair do abrigo e voltar a morar com a família de origem. Que garantia ele tem de que será bem recebido? Se não foi amado durante 18 anos porque será amado agora? Quem garante? Foram 18 anos vivendo no desamparo.

Eles acham que estão defendendo as crianças para não perderem a família biológica, mas será que já pararam para se perguntar se elas querem esperar anos pela família biológica? Já perguntaram o que elas perderam?E que família é essa que não faz parte, que não faz questão, que não cuida, protege e que não está ao lado?

Foto: Cintia Liana e o pequeno João, filho de uma amiga. Amizade esta conquistada durante palestras sobre adoção.

Devemos colocar a frente não somente os nossos conhecimentos técnicos, mas também a intuição, sensibilidade e o amor pelas pessoas, isso é essencial para o desempenho de um bom e consciente trabalho. Cautela e humildade também. Esqueçamos o poder, poder de quê? O poder tem que ser usado para o bem! Temos que criticar o sistema e sentir também como se do outro lado estivéssemos, do lado da comunidade. As pessoas precisam de apoio e auxílio antes de tudo e não de convicções ou bases em paradigmas ultrapassados sobre hereditariedade e laços consanguíneos.
Ter muito cuidado com a interferência dos nossos preconceitos no destino dos outros ainda é muito pouco para a realização de um trabalho deste nível.

Nós técnicos, analistas do homem, da mente, por exemplo, nunca devemos nos esquecer de uma frase maravilhosa do cronstrucionismo social "o olhar do observador deforma a realidade" e isso nos diz um pouco de nós, nos revela. Nunca vamos fazer uma análise igual, pois os analistas são pessoas diferentes, com referenciais diferentes.

Não somos "experts", nem engenheiros sociais, pois a realidade não é objetiva, nem representacional. Devemos ser arquitetos do diálogo, numa relação democrática, enxergando identidades não fixas e nos dando chances sempre de melhorar tudo e mostrando ao outro que também é capaz de construir novos significados.

Infelizmente alguns profissionais existentes em todas as áreas ainda insistem em permanecer com suas mentes respaldada nos paradigmas científicos ocidentais, empobrecendo e lentificando ainda mais ainda o desenvolvimento humano.
Alguns colegas se diferenciam, ganham destaque e são realmente especiais, iluminados e desapegados, querem conhecer mais do que lhe colocam como possibilidade nesta sociedade atrasada.

É bom lembrar, como diz o sábio Morin (2000), ainda estamos na pré-história da mente humana e, para ele, essa é uma perspectiva muito otimista.

Foto: Flávio Chiarini

Se vivemos histórias de adoção e temos a consciência conquistada através desta participação nessas histórias temos o dever de abraçar a causa das crianças abandonadas. Abraçar o ideal e a luta, para ver, um dia, todas as crianças inseridas em uma família substituta. Como os abrigos irão sobreviver sem essa clientela? Danem-se os abrigos! Devemos exterminá-lo e criar uma política eficaz do amor, da prioridade pelo humano menor. Essas crianças institucionalizadas também são nossa responsabilidade, são nossos filhos. Todos nós merecemos ser amados, crescer com dignidade, nos sentindo protegidos. Não tem amanhã, é agora!

Meu sonho não é passar em concurso público, nem garantir um salário razoável, meu sonho é bem maior, cara senhora. É correr o mundo, compartilhando o desejo e a luta por uma sociedade mais consciente, é ver, um dia, essas crianças da foto sorrindo ao lado e um pai e/ou uma mãe, como já tive o prazer de ver muitas, se sentindo completas e amparadas. Para isso, conto com muitos amigos de verdade, que mesmo sem salário ou pagamento material se preocupam com as crianças.
Amor pela causa das crianças desamparadas não é sonho, não é fantasia, é a chave para a realização, para uma mudança efetiva.


Fotos e composição de painel: Cintia Liana, no Dia das Crianças em 2007.


Observação sobre as fotos do post:
Nesta última foto do post, o painel, optei por preservar a identidade das crianças fotografadas cobrindo os olhinhos que são nossa maior forma identificação, no entanto conservei na foto as boquinhas com os sorrisos de um dia no parque de diversões do Salvador Shopping. Proposta do dia das crianças promovida pela Vara da Infância em 2007.
As fotos foram tiradas com a minha câmera fotográfica, mais um motivo para não expor o rosto das crianças sem a devida autorização.
Fora a minha foto com a criança, autorizada pela mãe, as outras são ilustrativas, fotos achadas no Google.

Por Cintia Liana