"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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domingo, 8 de julho de 2012

O ser humano adoecido

  Google Imagens

 

Por Marilena Henriques Teixeira Netto

 

Muitas são as perguntas sobre a causa de crianças e adolescentes que apresentam doenças “de adultos”.


O que acontece com eles, atualmente, que antes, não acontecia?
Nas décadas de 50, 60 e 70 as crianças eram ainda “crianças” com brincadeiras de crianças, cercadas por familiares e, principalmente, pelas mães que as mandavam para a escola somente aos 6 ou até 7 anos de idade. A diversão era na rua (na época, segura) ou mesmo dentro de casa. O apoio dos pais (onde a permanência mais duradoura dos casamentos existia) dava a essas crianças o suporte necessário para que crescessem sentindo-se seguras e amparadas.

As mudanças, já as conhecemos bem:
- no tempo dessa mãe que passa a maior parte de seu dia no trabalho;
- no casamento, onde pais separados tiveram de se dividir na atenção dos filhos e, também,
- na pessoa daquele que antes educava e que agora, passa o bastão para professores, babás. creches, etc…

O abandono se instala na percepção dessa criança que, na tentativa de se adaptar satisfatoriamente, inicia seus processos de somatização, ansiedade, angústia e autoestima fragilizada. Nesse processo, ainda, o isolamento transforma-se em “egoísmo” onde esse ser precisa pensar e focar em si mesmo nessa tentativa de adaptação.

Como consequência, no início dos relacionamentos que essa criança irá desenvolver, passa a existir a dificuldade de construir vínculos fortes e permanentes, onde a incapacidade de pensar no outro deixa de existir. Pois, afinal, aquele que passou tanto tempo investindo em si mesmo e tentando emocionalmente adaptar-se de maneira mais saudável, agora, desenvolver bons relacionamentos significa dar “tempo ao outro” e “pensar no outro”. Sacrifício demais exigido por alguém desacostumado a viver esse intercâmbio até dentro da própria casa, onde se sentia abandonado ou percebido como tal.

A prova e resultado disso são os relacionamentos desses jovens oriundos daquela geração que mal se sustentam e inviáveis de permanecerem por muito tempo. Jovens que apresentam as mais diversas consequências dessa dinâmica familiar, adoecidos, com síndrome do pânico, fobias as mais diversas, depressão, transtornos obsessivos, etc… etc…

O jovem perdido de hoje, infeliz, doente e solitário, pede socorro a esses pais que repensem seu comportamento e expectativa diante da vida e diante do o que é ser pai e mãe. Pais que aceitam a imposição moderna e o formato do mundo atual da imposição do “ter mais”, “ser mais” deixando de lado esses filhos abandonados e perdidos à procura de uma resposta para suas vidas.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nova lei de adoção empurra mais casais para a ilegalidade

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Foto: Google Imagens

25 de agosto de 2010, 2:01:24 PM
Fonte: Terra

Na adoção consentida, mesmo os pais biológicos e adotivos estando de acordo a justiça, alguns juízes não validam a ação.

Em vigor desde novembro do ano passado, a nova lei de adoções levou um maior número de casais para a ilegalidade. As adoções conhecidas como consensuais, nas quais pais biológicos e adotivos entram em acordo antes de procurar a Justiça, ficaram de fora do processo legal por meio do Cadastro Nacional de Adoção. Não há dados oficiais sobre a prática, mas os casos de adoção consentida representam 70% daqueles observados pela ONG Quintal de Ana, ligada à Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção.

"Quando a pessoa diz que quer realizar a adoção consentida, orientamos que é um processo perigoso e controverso, porque depende da interpretação da Justiça", diz Maria Dantas, advogada da ONG. Há juízes, explica ela, que concordam com o processo e validam a adoção. Mas, na letra fria da lei, esses casais que não ingressam no Cadastro Nacional estariam fora da lei.

É consenso, entretanto, que todos os desvios são causados pela demora em ser atendido por meio do cadastro. Segundo um estudo do promotor de Justiça da Infância e da Juventude da Lapa, em São Paulo, Francismar Lamenza, as pessoas que escolhem adotar ilegalmente podem ser dividas em dois grupos: os que têm medo de esperar por muito tempo na fila da adoção, e aqueles que temem ser barrados por alguma exigência judicial.

No primeiro caso, a demora é em grande parte culpa de especificações como ser uma criança branca, recém-nascida e menina. Esses casais temem que o envelhecimento os distancie da faixa etária da criança, quebrando "a mística de geração natural no seio familiar", diz o promotor. Já o segundo grupo, tem medo de ser desqualificado por falta de recursos financeiros ou psicológicos. De acordo com o estudo, são pessoas com idades entre 40 e 50 anos, de classe média, que alegam que realizaram a adoção ilegal para inclusão em planos de saúde e similares.

De acordo com a promotora responsável pela adoção na promotoria da Infância e Juventude de Curitiba, Marília Vieira Frederico Abdo, a adoção ilegal é o maior problema enfrentado pelas varas e promotorias da Infância e Juventude. Eles são, segundo Marília, um dos motivos pelos quais a fila da adoção é demorada. "As pessoas que recebem as crianças dessa forma transversal prejudicam o andamento da fila para aqueles que estão no cadastro. As pessoas deveriam confiar no sistema, porque ele funciona", sustenta.

Psicóloga especializada no assunto, a gaúcha Lisiane Cenci pondera que o processo pelo qual os candidatos passam até a inclusão no cadastro nacional "é algo realmente necessário". Porém, a nova lei tem falhas e tornou o processo mais lento. "Sabemos que tem crianças nos abrigos que já poderiam ser adotadas, mas não são porque o cadastro não funciona totalmente". Lisiane recorda o caso de um casal gaúcho que só tomou conhecimento de um grupo de irmãos (de um, quatro e sete anos) para adoção por meio de uma vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro - e não pelo Cadastro, no qual estavam inscritos. "Falta esse trabalho de aproximação, porque uma pessoa que quer adotar pode conhecer crianças com um perfil diferente do que esperava, e ainda assim adotar essa criança", observa.

Lisiane Cenci trabalha para o Instituto Amigos de Lucas, que auxilia interessados em adoção desde 1998, oferecendo orientação gratuita a candidatos a pais. "Tem pessoas que cobram por isso (os cursos), e a lei não deixa claro de que forma essa formação deve ser feita. Está se criando um mercado", completa.

O delegado responsável pela Delegacia de Polícia Para Criança e Adolescentes de Porto Alegre, Andrey Vivan, afirma que as adoções clandestinas são "um problema histórico do Brasil". Vivian apura o caso de um casal que foi encontrado com uma criança entregue pela mãe, com a ajuda de uma enfermeira. No entanto, o bebê já havia sido registrado pela mãe biológica, e a polícia investiga se houve crime no caso, como recompensa pela criança.

Por: Daniel Favero
Fonte: Terra
Postado por Juliana Simioni

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Atenção caros leitores, adoção consensual ou Intuito Personae é diferente de adoção “a brasileira” ou adoção ilegal.

Leiam o post Adoção Consensual ou Intuito Personae através do link deste blog:


Por Cintia Liana

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Entrevista para o Jornal Expresso Popular - Pergunta 2

Foto: Google Imagens

Segunda pergunta:

2) É realmente necessário que os adotantes que conseguem a guarda provisória e que, portanto, são considerados aptos pelos técnicos e pela Justiça para oferecer um lar digno a um menor sofram as vezes por mais de dois anos na incerteza se terão ou não a paternidade decretada? Como se dá isso na Itália?

Resposta na íntegra:

É muito improvável que uma adoção seja negada já em estágio de convivência, a não ser que exista algo de muito grave na relação que se está construindo entre os adotantes e o adotando, mas o que acontece é que algumas pessoas sentem muito medo de perder o filho que já passou a amar e, por isso, desenvolve muita ansiedade em torno da chegada da sentença final. É claro que não sou a favor da demora, mas nessas horas a única coisa a fazer e manter a calma e tentar conversar com os técnicos responsáveis.

Com as adoções internacionais por casais italianos acontece de outro modo, como algo contrário. Após 1, 2, 3 e até mais de 4 anos sendo habilitados, preparados e esperando por uma criança, o casal (aqui os solteiros e homossexuais não podem adotar) passa mais ou menos 30 dias pelo período de convivência no País do adotando e mais 15 dias para a sentença e emissão de papéis para voltar ao seu País de origem. Adotam a criança possível, a que lhe é oferecida, corriqueiramente crianças maiores, de etnias diferentes da sua e, às vezes, grupos de irmãos.

Cintia Liana

Repórter: Alcione Herzog
Jornal Expresso Popular


Por Cintia Liana

domingo, 18 de julho de 2010

Mitos, Medos e Preconceitos na Adoção de Crianças Maiores

Foto: Google Imagens

Por Jaqueline Araújo da Silva

A adoção está envolvida por preconceitos que se expressam através de medos, crenças, fantasias, inseguranças, entre outros. Como vimos, as pessoas interessadas em adotar optam pelos recém-nascidos ou crianças com idade menor possível. Em pesquisa realizada por Levy e Féres- Carneiro (2001), verificou-se que quando os requerentes optam pelas crianças com a idade menor possível para adotar com a justificativa de que estes são mais fáceis de serem moldados, na verdade, revelam um desejo de apagar a história passada da criança e cancelar qualquer possível herança genética que venha interferir no projeto de parentalidade.

Para Camargo (2006), os requerentes à adoção sonham acompanhar integralmente o desenvolvimento físico e psicossocial, que se manifestam desde as primeiras expressões faciais, além das primeiras falas e passos. Querem construir uma história familiar e registrá-la a partir dos primeiros dias de vida do filho. Além disso, temem que a criança com idade superior a dois anos possa não se adaptar à realidade de uma família adotante. Acreditam que a personalidade da criança já esteja formada, o caráter incorporado e já não são mais possíveis de detê-los. Neste sentido, Santos (1997) afirma:

Este é outro mito na adoção, que eventuais problemas comportamentais apresentados pelos filhos adotivos decorrem [...] do meio social onde a criança viveu seus primeiros anos (nos casos de adoções tardias) e, neste caso, evita-se o problema adotando-se recém nascidos. (SANTOS, 1997, p.163)

Segundo Camargo (2006, p.91), "[...] os mitos, que constituem a atual cultura da adoção no Brasil, apresentam-se como fortes obstáculos à realização de adoções de crianças maiores, pois potencializam crenças e expectativas negativas ligadas à prática da adoção tardia". De acordo com Vargas (1998), o preconceito social em relação à adoção de crianças maiores é fator determinante para a pouca disponibilidade de candidatos para estas adoções, pois a adoção continua sendo mais aceita quando atende a uma necessidade "natural" de um casal com impedimentos para gerar filhos, desde que estes sejam bebês e ''passíveis de serem educados".

O preconceito com relação à adoção de crianças maiores é ainda muito forte, como se todas as adoções de bebês fossem indicativos de sucesso garantido e todas as adoções de crianças maiores já representassem um fracasso (WEBER E KOSSOBUDZKI, 1996; LEVY E FÉRESCARNEIRO, 2001). Weber (1998) afirma que essas adoções nem sempre trazem problemas, porém elas são diferentes das adoções de bebês, uma vez que as crianças maiores têm um passado que, muitas vezes, deixou suas marcas. Esta autora realizou pesquisa com pais e filhos adotivos e também com a população em geral, sendo que os dados levantados indicam o grande número de preconceitos envolvendo a adoção. De acordo com o levantamento de dados:

1- as pessoas teriam medo de adotar crianças maiores (acima de seis meses) devido à
dificuldade de educação;
2- teriam medo de adotar uma criança que viveu muito tempo em acolhimento institucional pelos "vícios" que traria consigo;
3- teriam medo de que os pais biológicos pudessem requerer a criança de volta;
4- teriam medo de adotar crianças sem saber a origem de seus pais biológicos, pois a
"marginalidade" dos pais seria transmitida geneticamente;
5- pensam que uma criança adotada, cedo ou tarde, traz problemas;
6- acreditam que a adoção beneficia, primordialmente, o adotante e não a criança, sendo um último recurso para pessoas que não conseguem ter filhos biológicos;
7- acreditam que a adoção pode servir como algo para "desbloquear algum fator
psicológico" e tentar ter filhos naturais;
8- acreditam que, quando a criança não sabe que é adotiva, ocorrem menos problemas;
assim, se deve adotar bebês e "fazer de conta" que é uma família natural;
9- acreditam que as adoções realizadas através dos Juizados são demoradas, discriminatórias e burocráticas e recorreriam à “adoção à brasileira" caso decidissem;
10- finalmente, consideram que somente os laços de sangue são "fortes e verdadeiros".

Levinzon (2000) também realizou pesquisa com as famílias adotantes e os dados encontrados foram similares aos de Weber (1998). Levinzon destaca os seguintes  medos que comumente habitam o imaginário dos pais adotivos:

1- medo em relação aos pais biológicos da criança: temor que se arrependam a qualquer momento e venham lhe tomar a criança; culpa por tomar para si uma criança cujo sangue não lhes pertence; vergonha, como se tivessem cometido um delito, tendo roubado a criança;
2- medo em relação à criança: medo de que tenha uma má herança biológica; temor de
rejeição e abandono pela criança quando souber de sua verdadeira origem; medo de que a criança vá à procura dos pais biológicos;
3- medo em relação à sociedade: temor de serem censurados pela sociedade; discriminados pela ausência do processo biológico da gestação; desvalorizados por esta forma atípica de parentalidade ou sua compensação na exaltação de seu aspecto filantrópico.

Através destas pesquisas podemos constatar que dentre os inúmeros mitos que povoam o imaginário social e que constituem a atual cultura de adoção, o mito dos laços de sangue é, sem dúvida, o mais dominante, pois insere a crença de que o fator biológico gera o destino final e quase sempre trágico nos casos da adoção. Há, em torno do filho por adoção, fantasias de que ele pode ser “sangue ruim” e, consequentemente, motivo de preocupação e sofrimento para os pais adotivos. O fato de ser adotado parece que já é condição mais que suficiente para ser classificado como problemático, diferente e fora do normal.

Há uma tendência presente no imaginário social em acreditar numa certa garantia decorrente dos laços de sangue e numa fragilidade dos laços formados através da adoção. As fantasias sobre a importância "da descendência de sangue" proporcionam condições para a confusão e discriminação entre a parentalidade biológica e adotiva, atribuindo maior relevância à primeira (WEBER, 1998). Na verdade, os dois tipos de parentalidade têm exatamente a mesma importância, mas fazem parte de contingências diferentes. No entanto, a contingência de ser uma família adotiva traz características especiais que não devem ser negadas, mas, ao contrário, assumidas.

Ainda sobre o preconceito, além do imaginário social, a própria legislação brasileira, conforme debatemos no segundo capítulo, parece contribuir para o fortalecimento dos mitos de que os laços biológicos são aqueles verdadeiros. Assim, os pais adotantes tentam disfarçar ou esconder as relações adotivas e imitar uma família biológica, adotando crianças recém-nascidas e de cor semelhante a sua.

No meio científico também encontramos muitos preconceitos relacionados à adoção. Segundo Weber (2003) e Vargas (1998), as publicações científicas sobre o tema falam acerca das dificuldades encontradas em filhos adotivos. Relatam um ou dois casos de algum distúrbio e atribuem sua etiologia ao fato de a criança ser adotiva, pois a perda inicial dos pais biológicos seria irreparável e causadora de todos os problemas.

Concordamos com Zornig e Levy (2006) quando afirmam que a separação da figura materna para crianças de pouca idade, assim como o desinvestimento materno repentino, produzem efeitos traumáticos. No entanto, ressaltam a possibilidade de as crianças e os pais adotivos conseguirem criar recursos psíquicos surpreendentes. Para estas autoras, a ênfase na qualidade das relações iniciais entre a criança e seus pais deu margem à crença de que crianças abandonadas e/ou vítimas de maus tratos seriam problemáticas e, portanto, não adotáveis tardiamente.

Palácios e Sánchez (1996) realizaram uma investigação comparativa com 865 crianças entre quatro e dezesseis anos de idade, provenientes de três grupos: crianças adotadas, crianças não-adotadas da mesma região de origem das adotadas e crianças institucionalizadas. As comparações foram realizadas em três áreas: problemas de comportamento, auto-estima e rendimento acadêmico. Os resultados mostraram uma grande semelhança entre os adotados e os não-adotados, enquanto que as crianças institucionalizadas obtiveram os piores resultados no conjunto das comparações.

Através de um estudo comparativo entre um grupo de pais e filhos adotivos e outro de pais e filhos biológicos, Santos (1988) avaliou aspectos como afetividade e cooperação entre pais e filhos. Não encontrou diferenças significativas entre eles.

Em relação a adoção de crianças maiores, Weber (2003) realizou pesquisa com pais e filhos adotivos de todo o Brasil e não constatou que a idade avançada da criança no momento da adoção fosse possível fonte de problema. Os casos em que foram relatados problemas no processo adotivo estavam mais relacionados à revelação tardia da adoção para a criança do que outros fatores. Esse assunto será aprofundado no próximo capítulo quando dissertamos sobre a família adotante.

No que se refere à diferença de comportamento entre crianças adotadas quando recémnascidas e adotadas quando maiores de dois anos, Ebrahim (2000) afirma não existir uma relação direta entre problemas de comportamento e idade da criança na época da adoção. Sustenta que as adoções de crianças maiores são perfeitamente viáveis e sua concretização e manutenção dependem, entre outros aspectos, da história da criança, do fato dela desejar ou não a adoção e das ações dos pais adotivos e dos que os cercam. Corroborando este pensamento, Diniz (1994) afirma que, apesar dos primeiros meses de vida serem os mais indicados para a formação de uma relação parental substituta, isto não exclui a possibilidade da adoção de crianças maiores. A concretização da adoção dependerá da vivência da criança e dos motivos que a impossibilitaram de permanecer na sua família biológica, bem como da flexibilidade e capacidade de dedicação dos pais adotivos. Segundo o autor, o fato de a criança ter mais idade não é um elemento inviabilizador da adoção.

Levy (1999) argumenta que, por já ter vivido experiência de abandono da qual muitas vezes se lembra, a criança maior será mais ativa no processo, podendo adotar ou não os pais adotivos como pais. Andrei (2001) também ressalta que quanto mais tardia a adoção, mais vivas serão as lembranças do passado e mais enraizadas na sua memória as ilusões, os sonhos, os desejos e as frustrações dos anos de abandono. Esta autora ainda afirma que as pessoas imaginam a adoção em termos ideais. De um lado, a criança adotada extremamente grata e com o coração transbordante de amor; do outro lado, a família sentindo-se plenamente realizada e recompensada através do seu novo membro. Às vezes, é exatamente essa a situação que ocorre. Outras vezes, o fardo do passado influenciando o comportamento da criança e a surpresa da família diante de manifestações decepcionantes tornam a adoção mais parecida com um desafio.

Ainda nesta discussão, Ferreira (1994) diz que muitas vezes, é exigida da criança recémintegrada uma conduta mais correta do que a de qualquer outra criança, como se o fato de ter ganho uma família significasse a retribuição de uma automática docilidade, educação e bom comportamento. Os pais adotivos esperam atitudes adequadas e resultados imediatos, submetendo a criança a exigências exageradas, que, não podendo ser correspondidas, acabam por produzir um total desajuste em sua conduta.

Sem dúvida, como foi mencionado, a adoção de crianças maiores requer cuidados especiais, porque a criança já traz a marca do abandono inicial e do tempo que permaneceu em acolhimento institucional. Contudo, isto não quer dizer que não sejam possíveis a superação e a adoção mútua entre as crianças e os pais adotivos. Para Vargas (1998), na adoção de crianças maiores, as chances de sucesso ou fracasso das relações que se estabelecem no meio social dependem da capacidade de suporte, trocas afetivas, confiança e companheirismo entre os protagonistas. A procura por uma orientação ou um processo psicoterapêutico pode ser valiosa, auxiliando a família a encontrar um eixo comum que proporcione desenvolvimento.

Assim, é preciso desmistificar a associação errônea entre adoção e fracasso, mito de laços sanguíneos, herança genética entre outras distorções. Na verdade, a adoção não é um processo artificial, falso ou ilegítimo; pelo contrário, envolve relações humanas de afeto e amor que florescem a partir da reciprocidade entre o adotado e a família adotante. Neste sentido, Santos (1997, p. 164) afirma que “[...] faz-se necessário, iniciar um trabalho voltado para a mudança de mentalidade no que se refere à adoção de modo a possibilitar uma superação de pelo menos parte dos equívocos e preconceitos que envolvem este processo”.

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERA
Programa de Pós-graduação em Psicologia
"ADOÇÃO DE CRIANÇAS MAIORES:
Percepções e Vivências dos Adotados"
Jaqueline Araújo da Silva
Belo Horizonte
2009

 
Por Cintia Liana

quinta-feira, 3 de junho de 2010

E-mail de uma mãe sobre adoção tardia

Foto: Hudson Matos


E-mail de uma mãe indignada com a reportagem da Globo em 2007 sobre Adoção Tardia.
Junho de 2007

Olá "mães e futuras mães"

Li a reportagem sobre a adoção tardia e não concordei com alguns pontos.
Eu adotei três crianças maravilhosas, elas chegaram em abril de 2006 e as registrei em dezembro de 2006. Nomes e idades, j., menina: 05 anos, f., menina: 03 anos e m., menino: 02 anos, na época. Eles são as coisas mais lindas do mundo! Eu e meu marido nunca fomos tão felizes na vida! Em nenhum momento houve: comportamento anti-social, regressão, perda de controle e etc.

Também com relação a nova família que sonharam, muito pelo contrário da reportagem, assim que eles chegaram, nós combinamos: "Aqui será seu lar porém, aqui temos regras e essas regras devem ser seguidas". Eles entenderam perfeitamente e, graças a Deus, não tivemos nenhum problema.

Eu e meu marido sentimos que, na realidade, nós adultos é que colocamos "minhocas" na cabeça, pois nós dois ficávamos conversando tipo "o que vamos falar quando eles entrarem aqui em casa? Vamos dizer que agora é a casa deles? Vamos ficar quietos? E se eles não gostarem? Como eles vão chamar tio(s) ou pai(s)? Como vamos falar que somos seus novos pais? Enfim, uma série de coisas e sabem o que aconteceu? Nós saímos do abrigo e fomos comprar as caminhas. Depois de algumas horas juntos a do meio falou: "papai eu quero água", nós quase caímos duros de susto. Ou seja, a partir dai eles começaram no mesmo dia a nos chamar de pai e mãe e quando chegamos em casa, assim que entraram a mais velha disse: "olha nossa nova casa, tem tijolo, não tem ratos, que linda!".

Assim, eu e meu marido ficamos com cara de bobos, ou seja, não precisamos falar nada, nossos filhos é que falaram, eles que nos adotaram, eles que nos deram forças, eles que nos mostraram que barreiras são quebradas com um simples gesto de amor. Enfim, adoção tardia é uma coisa maravilhosa, não tenho como passar aqui nesse email, mas na pratica é algo divino, eu estou muito, muito feliz mesmo! E se pudesse adotar mais uns vinte, todos de maior idade...

Com relação a globo, isso é um absurdo, pois eu me considero a mãe mais linda do mundo (meus filhos me dizem isso quase todos os dias), dizem que me amam, que sou maravilhosa, que sou melhor que a mãe que eles pediam a Deus. Enfim, a globo não sabe de nada, não tem coração, sentimento, respeito, porque nós, mães adotivas, somos mães sim, mães de verdade, mães de coração, de alma, de espírito, ser mãe não é por no mundo e sim criar, educar, dar amor, carinho. As minhas meninas (J. e F.) conheceram sua genitora e em nenhum momento querem pensar em voltar com ela, pois eu, I., sou a mãe, ou seja, para mim, isso basta!

Por isso, mães adotivas ou não, mães que estão na fila, mães que estão pensando no assunto, não se importem com o racismo, com os ignorantes, pensem em vocês e na felicidade que é ter filhos, e pronto!

Beijos
I.

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E quem tem coragem de afirmar o contrário depois deste e-mail? Você é a mãe e uma mãe que demonstra ser imensamente feliz e realizada e ninguém duvida disso.
E olha como as crianças chegam tão conscientes do que querem, tão receptivas e ensinam tanto...

Esse e-mail me foi doado por uma mãe e o usei numa apresentação sobre a história social da criança, no primeiro módulo do meu curso de especialização em Psicologia Conjugal e Familiar em 2007, na matéria Antropologia. No trabalho quis mostar como o conceito e a valorização da criança vem mudando no decorrer da história.

Lindo e-mail.


Por Cintia Liana

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Adotar crianças maiores é mais difícil?

Foto: Getty Images

A relação com os pais adotivos será tão importante para a formação do caráter quanto o que aconteceu no passado difícil da criança, observo que até mais, pois estes é que irão conduzir a relação que esta criança terá com esse passado, a relação com o presente e a auxiliará no seu futuro.
Cintia Liana


Pais e futuros pais, fiquem atentos! Ao invés de viverem numa ansiedade infinita tentando entender até que ponto uma criança maior trás ou não traumas do seu passado e do abrigo e os vive na família, pensem antes de tudo em amadurecer, em trabalhar seus medos e dúvidas porque, em minha experiência, vejo que a base que os pais adotivos darão ao filho é mais forte que tudo.

Um filho com problemas é alguém que depende de seres humanos, de pais adotivos, que possivelmente não estão sendo capazes de lhe dar uma base suportiva eficaz, suficiente para dar conta de suas inseguranças, assim também acontece na paternidade biológica.
A criança pode vir com uma gama de problemas enormes da instituição e ser altamente otimista e resiliente mas, mesmo que não seja assim, e reaja com violência, se ela encontrar futuros pais preparados tudo será mudado.

Em meu trabalho posso perceber que a responsabilidade dos pais adotivos é imensa, pois as crianças esperam deles a base, a segurança que terão para se expressar, se fortalecer e crescer.

Adotar uma criança maior não é mais difícil, ao contrário, pode ser muito tranquilo, ela já vem sabendo de muitas coisas e com o desejo consciente de se tornar filho. Se ela tiver algum problema depois porque tem que ser atribuído a adoção? Toda criança, em algum momento, tem problemas de comportamento, de obediência, dificuldade com autoridade a depender do momento e da forma que lhe é colocada, mas se é adotiva é somente por conta disso?
Já ouvi de uma professora infantil que a única criança adotada na escola era muito carente, pegajosa e desobediente e que ela achava que era por "culpa" da adoção. Daí eu perguntei se esta criança era a única com problemas de comportamento na escola, se havia outras com comportamento parecido e ela falou que sim, com comportamento até pior, então perguntei: e se estas não são adotivas, era por responsabilidade de quê o problema de comportamento? Ela não soube me responder. No final, concordou que estava "culpando" a adoção por tudo.

Engraçado que quando um adolescente, filho biológico, apresenta problemas com drogas, é algo normal, mas se um adolescente, filho adotivo, tem o mesmo problema a "culpa" é da adoção. 
Entendo que há uma série de fatores na vida que nos levam a seguir caminhos, é uma dilética eterna entre o meio e a nossa personalidade, temperamento, caráter, livre arbítrio, oportunidades, mas a relação com os pais é fundamentalíssima neste processo, sejam eles adotivos ou biológicos.
Suzane Richthofen não era filha adotiva, mas se o fosse todos diriam que fez tudo aquilo por ser filha adotiva, por não ser "filha de verdade". Interessante foi que ninguém tentou entender como essa criatura foi criada pelos pais, como foi educada, encaminhada para a vida e para as relações. As pessoas só querem culpar e não entender para crescer.

A nossa cultura ainda é respaldada no paradigma da simplicidade e que vem acompanhada do preconceito. Não devemos ter medo de pensar, complicar, descomplicar, perguntar, conversar, ler, estudar, temos que entender o processo das coisas e não errar por preguiça ou medo do saber. Lembrem também que exsite terapia. 
Quero dizer que não adianta culpar a adoção ou a inexistência de laços biológicos, no final das contas o ser humano é uma soma do que vemos e do invisível, a subjetividade é infinita, mas a relação com os pais adotivos irá seguramente ser crucial na vida do adotado, as mensagens subliminares, entendimentos subliminares, além do desejo próprio de cada pessoa.
Em todo caso, o adotante é que passará a conduzir toda a relação que a criança terá com seu passado, que tem com o presente e que terá com seu futuro e isso é mais forte que tudo.


Por Cintia Liana

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Falando sobre a Adoção, os Motivos e o Abandono

Imagem: Google

Em atendimentos realizados em meu consultório ou realizados há algum tempo na Vara da Infância com jovens ou crianças adotadas observava que esses, quando sabiam que eram adotados juntamente com a informação da infertilidade dos pais, apresentavam as seguintes questões:
1. Fantasia de que, mesmo antes de nascer, mataram o filho do casal na barriga ou que eles eram os culpados pela infertilidade ou problema da mãe;
2. Acreditam que foram adotados pelos pais, por estes não terem tido outra opção de ter filhos.

Não é necessário falar que adotou porque não pôde ter um "filho da barriga". Já li alguns textos sobre esse mesmo assunto e lembro a vocês que, inicialmente, seria importante que o filho soubesse que é adotado e que foi uma escolha do casal, um projeto de vida assumido pela família, independente da infertilidade, que pode ser revelada mais tarde, quando a criança estiver mais madura.

Cuidado também ao falar sobre os possíveis motivos que levaram a mãe de origem a "abandonar" seu filho. Se colcar a responsabilidade na falta de dinheiro por, exemplo, isso pode comprometer a relação que teu filho terá com o dinheiro, afinal "ele foi o culpado pelo abandono". Sempre que você se queixar de falta de dinheiro ele poderá ficar com muita ansiedade gerada pelo medo de ser abandonado novamente. Imagina? Gente, cabeça de ser humano é muito complexa e as relações feitas por nós nem nós mesmos muitas vezes  somos capazes de alcançar e nem acerditar que imaginamos aquilo. Outro motivo é não haver a necessidade de se falar algo que não se sabe, então é melhor dizer que não sabe ao certo.

"A tranquildade de falar sobre a adoção nasce da capacidade de se desapegar das próprias crenças e medos, porque a criança está pronta para saber sobre os laços que a unem a família adotiva. Está pronta para a verdade. No fundo, ela já sabe de tudo."

Cintia Liana


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Este estudo explica e reafirma algumas falas minhas no post anteriror sobre "O Segredo na Adoção".

Foto: Google Imagens


A avaliação psicossocial no contexto da adoção: vivências das famílias adotantes

Liana Fortunato CostaI e Niva Maria Vasques Campos
Universidade Católica de Brasília e Universidade de Brasília
Serviço Psicossocial Forense do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios

Uma parte do estudo de Liana e Niva:

A importância da verdade
Na continuidade de um dos diálogos sobre a semelhança física entre adotante e adotado, as famílias apontam para a importância da criança crescer sabendo a verdade, sabendo que foi adotada. "É fundamental que a criança saiba desde pequena, que é uma criança adotada, justamente, para não ter choque". Apesar de ressaltar a importância do tema, as falas indicam que esta não é uma tarefa fácil, percebe-se que há um receio, um temor de que cedo ou tarde algum problema venha a acontecer.

Eu soube de uma história de uma moça que depois de 20 anos se revoltou, ficou sabendo e se revoltou contra a família toda. E foi um drama. Então essas coisas acontecem de verdade. E é mais fácil você encobrir o problema, mas e lá na frente?

Durante este diálogo, o esposo ressaltou: "Na adoção quanto mais certinho você fizer menos problemas você vai ter". Esta última fala parece ainda revelar o estigma do adotado e da adoção que de algum modo sempre dá problema.

O diálogo das famílias nos levou a pensar que talvez se revele a verdade mais por medo de que algo saia errado, do que por acreditar ser um direito da criança conhecer sua história de origem. Neste aspecto, é ressaltado também o caráter orientador dos estudos psicossociais, no tocante a revelação da adoção: "por isso que entra o papel da equipe de adoção, acho que eles têm obrigação de tentar evitar o máximo que o casal venha a ter problema no futuro".

As famílias trouxeram exemplos da vida real em que pais adotivos esconderam dos filhos a verdade e isto acarretou prejuízos graves às relações familiares, à confiança entre pais e filhos e a todos os envolvidos. Embora ambas as famílias tenham contado aos filhos que estes eram adotivos, uma fala indica a existência de fantasias parentais relativas aos laços de sangue que poderiam ser mais fortes e ameaçar os pais adotivos de serem trocados pelos pais biológicos: "a gente corre o risco de eles quererem conhecer os pais biológicos". Schettini (1998a) aponta a dificuldade de muitos pais adotivos enfrentarem o problema da revelação da origem, que vai sendo postergado indefinidamente. O autor alerta que comunicamos não somente através das palavras, mas também através da linguagem corporal e do inconsciente.


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Esse "comunicar" que Schettini fala é o segredo vindo a tona há todo instante. O peso dele que existe e incomoda.
É preciso amadurecer algumas questões antes de adotar, é preciso trabalhar seus próprios medos e limitações. É preciso travar com os filhos relações leves e limpas.

*Em posts anteriores vocês podem achar histórias e como revelar a adoção.




Por Cintia Liana

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Aceitando a história do filho adotivo

Foto: Google

Bert Hellinger tem uma linha de pensamento muito marcante. Ele lembra que uma adoção deve ser justificada quando a criança não tem mesmo condições de ficar com sua família natural.
Hellinger diz ainda que os pais adotivos, se não expressarem respeito pelos pais naturais, e se sentirem, de forma secreta, superioridade frente a eles, a criança, inconscientemente, poderá manifestar solidariedade para com seus pais naturais.
Os pai adotivos têm que se conscientizar que são substitutos do pais biológicos e que são capazes de entender seus filhos adotivos e aceitar que validem seus sentimentos ligados a rejeição, desta forma os pais substitutos serão melhor aceitos pela criança, ela reconhecerá a substituição como algo positivo.

Os substitutos não são inferiores aos de origem, a relação presente será mais forte.
Os novos pais também, inicialmente, poderão ser alvo do ressentimento que a criança sente por seus pais naturais, por ter sido rejeitada e esse registro é real no interior da criança. Quando isso acontece, até pode significar que a criança confia nos pais, ao ponto de se sentir a vontade para manifestar sentimentos que o incomodam.

Hellinger também fala da importância do pais adotivos aceitarem que a criança teve dois primeiros pais e que eles chegaram para realizar o que não estava ao alcance do pais naturais, então assim a criança de fato aceitará melhor os novos pais.
Vejo isso nas adoções muito bem sucedidas, quando os pais adotivos permitem e incentivam verdadeiramente que seus filhos tenham um contato amigável com seus pais de origem, exercitando o desapego. Contato esse que ocorre no momento certo e de desejo da criança ou adolescente.

Imaginem que hoje, vocês adultos, leitores (é, você mesmo!), descobre que seus pais não são seus pais de origem, biológicos. E agora? O que sentem? Algo muda? O amor a seus pais que o criaram muda? É claro que não! Nada muda, mas as perguntas surgem: e quem é minha família de origem? De onde eu vim? Como é o rosto dos meus pais? É natural!

Depois vem o questionamento: e por que não me falaram a verdade sobre minha história?
Em vários encontros de pais adotivos as perguntas vinham mais ou menos nesta sequência. Então porque seu filho também não tem esse direito? Direito de ser dono de sua própria história? Só por causa de seus medos e falta de preparo? Só pelo seu medo de ser abandonado e rejeitado por seu filho?
Precisamos nos preparar antes de adotar. Não é justo transferir nossos medos para a vida de quem está chegando. Temos que defender os direitos da criança até nesta hora.
[Bert Hellinger é um filósofo e psicoterapêuta alemão que desenvolveu a Constelação Familiar, um recente método psicoterapêutico, com abordagem sistêmica fenomenológica, de fundo filosófico. Trabalha os padrões de comportamento que se repetem nas famílias e grupos familiares ao longo de gerações. Traz à luz uma série de dificuldades sofridas, fazendo o terapeutizando tomar consciência, romper com padrões e mudar o curso de sua história.]
Por Cintia Liana

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Adotando crianças maiores

Foto: Google Imagens

Volto a falar de adoção de crianças maiores. Percebo que esse assuto é urgente. Filas imensas de pessoas que alimentam o desejo de adotar um bebê e os abrigos cheios de crianças acima de 5 anos, saudáveis, sonhando com uma família.
Mais um trecho de minha monografia:
Silva, Cintia L. R. de. Filhos da esperança: Reflexões sobre família, adoção e crianças. Monografia do curso de Especialização em Psicologia Conjugal e Familiar. Faculdade Ruy Barbosa: Salvador, Bahia, 2008.

No que tange a adoção tardia, Freire (2008, p. 6) lembra também que:
“Uma criança maior precisa compreender e aceitar uma adoção, e essa é uma experiência humana particularmente complexa. Todos aqueles sentimentos que ela não viveu, não aprendeu a viver, tais como: confiança, segurança, estabilidade, afeto, continuidade, delicadeza, pertencimento, dentre outros, de um momento para o outro, passam a fazer parte de seu cotidiano, e devem ser aprendidos, apreendidos, assimilados. Se é verdade que cabe aos pais uma grande responsabilidade, composta de muita paciência, tolerância e firmeza, na condução dessa mudança, é preciso reconhecer o imenso esforço que fazem os jovens adotados tardiamente para acreditar que, daquela vez sim, é para valer”.

A Cartilha Nacional da Adoção (2004) comenta que um dos maiores mitos e preconceitos sobre adoção é que adotar bebês é mais fácil que adotar crianças maiores em virtude do vínculo que se estabelecerá. A Cartilha esclarece que esta criança maior, se tiver tido algum problema ou trauma ela pode vir a superá-los e que um traço positivo é esta criança estar consciente das perdas que sofreu, sendo assim normalmente encontra-se disposta a investir muito mais nesse novo relacionamento familiar. A Cartilha também afirma ser incontestáveis os casos bem sucedidos de adoção tardia e os casos de insucesso se devem a outras variáveis que não estão relacionadas com a faixa etária dos adotado.
Todos nós convivemos com pessoas no nosso ambiente de trabalho, escola, faculdade, com namorados, cônjuges, enfim, pessoas já crescidas já crescidas e que não conhecíamos anteriormente e nada sabíamos do seu passado e nem por isso deixamos de criar fortes vínculos afetivos com algumas delas, a quem normalmente “adotamos”. Essas pessoas passam a fazer parte de nossas vidas.
Schettini (2006) traz que muitos adotantes alimentam o desejo de adotar um recém-nascido, com a fantasia de que assim o filho se apegará mais facilmente, não trazendo uma história anterior de possíveis traumas e sofrimentos, como geralmente acontece nas adoções de crianças maiores. A maioria dos candidatos a pais resistem em aceitar e s abrir para a adoção de crianças maiores, por terem medo dessa bagagem da criança, que pode ser trazidas da convivência com suas famílias de origem ou das instituições de acolhimento.
Os medos são muitos, como o da criança ter dificuldades em estabelecer novos vínculos com uma nova família, com os novos pais, de conseguir desenvolver amor e chamar os novos pais adotivos de pai e mãe e também medo da criança não conseguir se desligar de sua história anterior.
Schettini deixa claro que a construção da nova identidade se dará através de conflito, contestação e uma possível crise e isso deve ser encarado de frente, sem medo. Todos nós chegamos ao mundo de um jeito especial e não podemos exigir que ninguém seja uma tabula rasa. Devemos ser maduros e entender que podemos transformar a forma de lidar com nossas convicções e fazer com que aquilo que vai ser buscado no passado e reafirmado na história dessa criança pode nos ajudar a conhecer melhor a nova identidade dela enquanto filho adotivo e ajudá-la a entender como ela quer trabalhar e assumir esse passado.
Em relação ao pensamento de que a felicidade da criança pode ser vista como o resultado de um meio equilibrado, enquanto os seus fracassos poderiam ser atribuídos eventualmente a sua herança biológica, Freire (2008) acredita que hoje uma nova sensibilidade reconhece o valor e os limites da herança biológica e, ao mesmo tempo, a grande importância do meio ambiente no desenvolvimento de todas as crianças, “sejam elas filhos biológicos e adotivos”.
Ele diz também que o que se discute numa adoção é justamente essa capacidade cultural dos encontros adotivos, que são afetivos e sociais, do filho ser reconhecido por seus pais e esse filho reconhecer aqueles adultos como pai e mãe.

Freire (2008, p. 8) lembra que:

“Nas adoções que precisamos construir, o meio adquire imensa importância, pois ele precisará aceitar aquilo que é diferente do habitual, aquilo que ameaça, aquilo que desafia, falamos da construção das adoções necessárias daquelas crianças e adolescentes ainda hoje esquecidos em instituições privados do direito fundamental à convivência familiar e comunitária. Como em todas as culturas, precisamos irrigar terrenos por vezes áridos, precisamos torná-los sensíveis e receptivos, precisamos arejar, precisamos semear, na adoção, precisamos, sempre, lançar sementes de humanidade, sementes de amor, fé e esperança”.
Por Cintia Liana
Referência:
FREIRE, Fernando. As crianças que já não têm família. Disponível em: http://www.mp.rs.gov.br/infancia/doutrina/id150.htm. Acesso em: 03 de julho de 2008.
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DE PERNAMBUCO - Segunda Vara da Infância e da Juventude da Capital. Cartilha Nacional da Adoção. Perguntas mais comuns sobre adoção de crianças e adolescentes e suas respostas. 2004.
SCHETTINI, Suzana S. M.; AMAZONAS, M. C. L. de A.; DIAS, C. M. de S.. Famílias adotivas: identidade e diferença. Psicologia em Estudo. v. 11, n. 2, Maringá, maio/ago. 2006.