"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sábado, 5 de novembro de 2016

Um livro que fortalece e empodera as mães

Um livro que fortalece e empodera as mães.

O melhor livro que já li sobre maternidade, nascimento e vínculo entre mãe e bebê.

"A maternidade e o encontro com a própria sombra"





Por Laura Gutman
Este é um livro escrito para mulheres. Não pretende ser um guia para mães desesperadas. Ao contrário, é uma espécie de “alto lá!” no caminho para que possamos pensar como mães que estão criando seus filhos, com nossas luzes e sombras emergindo e explodindo em nossos vulcões em chamas.
Muitos aspectos ocultos de nossa psique feminina são desvelados e ativados com a chegada dos filhos. Estes momentos são, habitualmente, de revelação e de experiências místicas se estivermos dispostas a vivê-los nesse sentido tais e se encontrarmos ajuda e apoio para enfrentá-los. Também são uma oportunidade de reformularmos as ideias preconcebidas, os preconceitos e os autoritarismos encarnados em opiniões discutíveis sobre a maternidade, a criação dos filhos, a educação, as formas de criar vínculos e a comunicação entre adultos e crianças.
Este livro pretende abordar a experiência vital da maternidade como vibração energética mais do que como pensamento linear.
Trazer as experiências que todas as mulheres atravessam como se fossem únicas, sabendo, ao mesmo tempo, que são compartilhadas com as demais fêmeas humanas e fazem parte de uma rede intangível em permanente movimento. Mesmo sendo muito diferentes umas das outras, as mulheres ingressam em um território onde circula uma afinidade essencial comum a toda mãe. Refiro-me ao encontro com a experiência maternal como arquétipo, em que cada uma se procura e se encontra em um espaço universal, mas buscando também a especificidade individual.
Por meio de diversas situações cotidianas, descreveremos um leque de sensações em que qualquer mulher que se tenha tornado mãe poderá facilmente identificar. Paradoxalmente, o uso da linguagem escrita como ferramenta para transmitir essas experiências pode ser um obstáculo, pois atende a uma estrutura em que vários elementos vão se ordenando para construir um discurso. A abordagem do universo da psique feminina, que pertence a uma construção oculta do ponto de vista de nossa cultura ocidental, então se complica. Nesse sentido, para acessar e compreender este livro, serão muito úteis a intuição ou as sensações espontâneas que nos permitam fluir com o que nos acontece quando percorremos alguma página escolhida ao acaso.
De qualquer maneira, é de se imaginar que ficaremos presas à tentação de discutir calorosamente quais são os pontos em que estamos de acordo ou em profundo desacordo. Embora as discussões que venham a surgir entre as mulheres possam ampliar o pensamento, insisto em tentar uma leitura mais emocional, esperando que tenha ressonância no infinito. Ou seja, captar o conteúdo sensorial, imaginativo ou perceptivo, em vez de aprender ou avaliar os conceitos linearmente. Isso tem a ver com deixar abertas as portas sutis e estar atenta às que vibram com especial candura. Permitamos que aquelas que não nos sirvam sigam seu caminho sem nos distrair.
Suspeito que há vários pontos de partida para a leitura: o mais evidente é a partir do “ser mãe”. Espero, também, que o livro seja interessante para as profissionais de saúde, comunicação ou educação que tenham contato com mães, cada uma esperando, com suas próprias ferramentas intelectuais, obter resultados convincentes no que se refere ao comportamento e ao desenvolvimento das crianças.
Acredito que é possível conservar as duas visões simultaneamente; de fato, muitas de nós somos profissionais no campo das relações humanas e também somos mães de crianças pequenas.
Espero conseguir transmitir a energia que circula nos grupos que funcionam dentro da instituição que dirijo, nos quias as mães se permitem ser elas mesmas, rindo dos preconceitos e dos muros que erguem por medo de ser diferentes ou de não ser amadas. Ali foi gestada a maioria dos conceitos que fui nomeando nestes últimos anos e que, tocados por uma varinha mágica, começaram a existir.
Na Escuela de Capacitación Profesional de Crianza, continuamos inventando palavras para nomear o indefinível, os estados alterados de consciência do puerpério, os campos emocionais em que ingressamos com os bebês, a loucura indefectível e esse permanente não reconhecer mais a si mesma. No intercâmbio criativo, as profissionais tentam encontrar as palavras corretas para nomear o que acontece conosco. Arrependo-me de não ter filmado as aulas ou as entrevistas individuais com as mães que nos consultam, porque esse poder, esse florescer dos sentimentos femininos, raramente pode ser traduzido com exatidão pela palavra escrita. Conto, assim, com a capacidade de cada leitora de se identificar com os relatos, imaginando a essência e sentindo que, definitivamente, todas somos uma.
Por último, convido-as a fazer esta viagem juntas, preservando a liberdade de levar em consideração apenas o que nos seja útil ou possa nos apoiar. Esta é minha maneira de contribuir para gerar mais perguntas, criar espaços de encontro, de intercâmbio, de comunicação e de solidariedade entre as mulheres. Esse é meu mais sincero desejo.
Laura Gutman
Sumário

PREFÁCIO

CAPÍTULO 1
Uma emoção para dois corpos

A fusão emocional • As crianças são seres fusionais • Início da separação
emocional • Por que é importante compreender o fenômeno da
fusão emocional? • O que é a sombra? • Por que é tão árduo criar um
bebê? • As depressões pós-parto existem ou são criadas? • O caso Romina
• A perda de identidade durante o puerpério • Entre o externo e
o interno.

CAPÍTULO 2
O parto

O parto como desestruturação espiritual • Institucionalização do parto • A submissão durante o parto ocidental: rotinas • Reflexões sobre os maus-tratos • A opção de parir cercada de respeito e cuidados • Acompanhar o parto de cada mulher • Existe um lugar absolutamente ideal para parir? • Parto e sexualidade • Recordando meu segundo e terceiro partos.

CAPÍTULO 3
Lactação

Amamentar: uma forma de amar • O encontro com seu eu • O início da lactação • As rotinas que prejudicam a lactação • O bebê que não engorda • O caso Estela • Há mulheres que não têm leite? • Os bebês que dormem muito • O caso Sofia • Algumas reflexões sobre o desmame • Valéria quer desmamar sua filha.

CAPÍTULO 4
Transformar-se em puérpera

Preparação para a maternidade: ao encontro da própria sombra • A relação amorosa no pós-parto • A doula: apoio e companhia • Feminilizar a sexualidade durante o pós-parto.

CAPÍTULO 5
O bebê, a criança e sua mãe fusionada

As necessidades básicas do bebê do nascimento aos 9 meses • O olhar exclusivo • A capacidade de compreensão das crianças pequenas (falar com elas) • Recursos concretos para falar com as crianças • Estrutura emocional e construção do pensamento • Separação emocional e comunicação • Cuidados com as crianças “com problemas” • O caso Norma • O caso Constanza • Cada situação é única.

CAPÍTULO 6
Apoiar e dividir: duas funções do pai

O papel do pai como esteio emocional • Confusão de papéis nos tempos modernos • E quem apoia o pai? • O papel do pai como separador emocional • Outros separadores • O caso Pablo • Manter o lugar do pai mesmo que esteja ausente • Criar os filhos sem pai • As crianças que acordam à noite: a importância da figura paterna • Funções feminina e masculina na família.

CAPÍTULO 7
As doenças infantis como manifestação da realidade emocional da mãe

Materialização da sombra • Uma visão diferente das doenças mais frequentes na primeira infância • Os resfriados e a mucosidade • Asma • O caso Eloísa • Alergias • Infecções • O caso Rodrigo e sua mãe • Problemas digestivos • Comportamentos incômodos: o caso Florencia • O caso Marcos: fusão emocional, música e linguagem.

CAPÍTULO 8
As crianças e o direito à verdade

Verdade exterior • Verdade interior • A busca da própria verdade • A verdade nos momentos difíceis • A verdade nos casos de adoção • O caso Bárbara (dar um novo significado à morte de um ente querido) • O caso Sandra.

CAPÍTULO 9
Os limites e a comunicação

As crianças precisam de mais limites ou de mais comunicação? • Para ouvir o pedido original: acordos e desacordos • O uso do “não”, um recurso pouco eficaz • As crianças tiranas • O tempo real de dedicação exclusiva às crianças • Os “caprichos” quando nasce um irmão • As crianças e as exigências de adaptação ao mundo dos adultos • A loucura das festas de fim de ano nos jardins de infância • O estresse das crianças • O caso Rodrigo.

CAPÍTULO 10
Prazer das crianças, censura dos adultos

O controle natural dos esfíncteres e o autoritarismo dos adultos • O controle noturno dos esfíncteres • O caso Brígida • A sucção: prazer e sobrevivência • A água, essa doce sensação • Ao baleiro da esquina, com amor • Crianças, alimentação e natureza • Exigências e alternativas na hora de comer.

CAPÍTULO 11
Comportamentos familiares na hora de dormir

Transtornos do sono ou ignorância sobre o comportamento previsível do bebê humano? • A noite e os bebês de zero a dois anos • No compasso das opiniões • As crianças com mais de dois anos que acordam à noite • Procura-se um separador emocional (para ler com o homem) • As crianças também querem dormir.

CAPÍTULO 12
Crianças violentas ou crianças violentadas?

Algumas reflexões sobre a violência: ao conhecimento de si mesmo • Violência ativa e violência passiva: um guia para profissionais • O caso Roxana • Crianças agressivas: reconhecendo a própria verdade • As crianças que provêm de famílias violentas • Crianças que sofreram abusos emocionais ou sexuais: abuso entre crianças • A negação salvadora: o caso Rubén e o caso Leticia • A visão profissional.

CAPÍTULO 13
As mulheres, a maternidade e o trabalho

Maternidade, dinheiro e sexualidade • A confusão de papéis nos trabalhos maternos • As instituições educacionais • Em busca do ser essencial feminino.

EPÍLOGO

Fonte: http://www.lauragutman.com.ar/libros/a-maternidade-e-o-encontro-com-a-propria-sombra-brasil/

domingo, 18 de setembro de 2016

Sobre a maternidade e seus vícios

Blog Skopós
Por SolQS
Estava lendo um livro que me fez pensar. O livro falava sobre vícios e como nossa sociedade quebrou alguns tabus e evoluiu em relação à muitos deles. Lidamos aparentemente melhor com pessoas viciadas jogos. Lidamos melhor com pessoas viciadas em sexo e orgias. Lidamos muito melhor, a ponto de admirar, aqueles viciados em trabalho. Lidamos melhor.
Mas e os vícios da maternidade? Ah, esses não tem como lidar melhor, afinal de contas eles envolvem um pequeno ser que não tem recursos para se defender ou tomar decisões. Então é por bem que critiquemos esses vícios, essas péssimas mães viciadas em tantas coisas proibidas na maternidade. Claro, maternidade tem regras e elas devem ser seguidas. Afinal de contas, que mãe que em sã consciência dorme abraçada com o bebê em sua cama? Que mãe inconsequente que acostuma tão mal seu bebê ao ponto de ensiná-lo a dormir mamando no peito? Quanto egoísmo querer sentir o carinho que aquela mãozinha faz enquanto mama ou olhar aqueles olhinhos tão fixos nos seus. Da horror só de pensar em deixar o bebe se acostumar a ser tirado do berço ou do carrinho quando chora para acalmá-lo em seus braços. Lugar de bebê é no berço, no carrinho, na escola, mas não no colo da mãe.
Ah, e por falar em escola, não podemos esquecer daquelas que abandonam uma carreira por um ou dois anos para cuidar dos filhos e não dão à eles o exemplo de independência que deveriam dar. Afinal, um bebê precisa saber que o mundo não deve ser machista. Também existem aquelas que deixam de ir viajar e dar atenção aos seus maridos só para ficar pertinho de seu filho, um tremendo absurdo, já que o bebê precisa entender e aceitar essa separação que o marido, adulto e que optou por ser pai, não consegue.
Ah, esses vícios da maternidade. Ah, esse instinto materno que faz com que as mães insistam em dar o peito o tempo todo e em qualquer lugar para alimentar, acalmar ou estar em um contato mais íntimo com seu bebe, que faz com que as mães queiram ter seus filhos em seus braços sentindo seu calor e exercendo seu papel de protetora, que faz com que abram mão de parte de suas próprias vidas em prol de uma outra. Ah, esse instinto materno…
Certo mesmo é proibir esse contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho. Certo mesmo é facilitar a vida dessa mãe, coitada, que precisa descansar. Deixem-a então trabalhar fora por muitas horas, para chegar e cuidar da casa, do jantar e do marido. Deixem-a cuidar de suas obrigações, porque cuidar do filho, ah não, cuidar do filho do jeito que ela sente vontade é terrível demais para ele. Pode ser mal acostumado, se tornar um bebê mimado, chato e inconveniente. O bebê precisa mesmo é ir com qualquer pessoa e saber que não terá o que quer a qualquer choro. Isso sim, ah, isso sim, faz um bem enorme a sociedade. É só ver a nossa, tão egoísta, tão violenta, tão intolerante. Tão, tão, tão contraditória.
E se respeitarmos as mães ao ponto de as deixarmos livres para tomarem suas decisões baseadas em seus instintos? E se nós, mães, nos respeitarmos ao ponto de nos deixarmos livres?
Livres de livros, teorias, conselhos e julgamentos. Livre para seguirmos o nosso instinto.
“A NATUREZA NUNCA NOS ENGANA. SOMOS SEMPRE NÓS QUE NOS ENGANAMOS” (ROUSSEAU)


Fonte: https://skopospp.wordpress.com/2016/09/16/sobre-a-maternidade-e-seus-vicios/

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O desafio da maternidade

Uma jovem mãe se negou a participar da corrente do Facebook e falou a real: “Amo meu filho, odeio ser mãe”. Ela tem direito a isso.
Google Imagens

Por Matheus Pichonelli — publicado 19/02/2016 17h54


O que mais me incomoda é o consolo de ser 'apenas' pai. Não é a tarefa mais simples que já assumi, mas nada se compara à pressão enfrentada pela mãe.


Deveria ser uma hora de lazer, mas contabilizei, ao todo, quatro tentativas de homicídio.
Primeiro quando o grandão da turma decidiu empurrá-lo do escorregador.
Depois quando o amiguinho pegou as duas pás da caixa de areia e tentou acertar um golpe duplo na altura das suas orelhas.
Na última, me distrai ao celular e não percebi que o suposto melhor amigo abria dedinho por dedinho do meu filho, como se usasse uma alavanca, para ver se ele caía para poder, enfim, herdar o balanço.
Até que ele aderiu à moda – justamente com quem nada tinha com a história. Ao ver uma menina se aproximar, ele pegou um punhado de areia e jogou no cabelo dela. Diante do meu desespero, ela começou a chorar e ele, a rir.
Eu olhava para o lado na tentativa de encontrar seus pais. Nada. Quando o choro parou, ele arremessou areia no olho dela. Gritei com ele. Ele chorou. Ela voltou a chorar. E eu queria apenas me enterrar naquela areia em posição fetal e dormir até que ele completasse 20 anos.
Em casa, tento entender a ansiedade das respirações ofegantes. Minhas horas de descanso são as horas extras no trabalho. Passamos apuros, deletamos os momentos de sono, usamos as primeiras ou as últimas horas do dia para fazer coisas banais, como ver filmes ou abrir o jornal, passamos a fazer compras em dez minutos porque, caso contrário, ele se joga no chão, esperneia, grita, se bate e tenta derrubar tudo o que encontra pela frente.
Mas não é isso o que me incomoda.
O que mais me incomoda é que eu deveria estar feliz com tudo isso. Eu realmente deveria estar feliz pelo senhor ter me concedido o domingo para ir ao zoológico dar pipoca aos macacos - o problema é que, quando ele vê macacos, quer puxar o rabo. Ou subir na árvore.
E, por estar mais cansado do que feliz, passo horas do dia me penitenciando pelo péssimo pai que sou.
Minha ranhetice começa quando encontro outros pais que acabam de ter filhos. É como adentrar numa orbita em que qualquer assunto fora criança é proibido. Quantas horas dorme? Come legumes? Ainda assiste a Peppa? Onde vai ser a festinha? Quanto você pagou? Você acha isso normal? Não é o máximo?
A bateria de perguntas é, via de regra, um terreno assentado para a questão crucial: quando vem o segundo?
Em tese eu deveria gostar de todas essas perguntas. Da troca de experiências levantadas pelos mesmos amigos que, anos atrás, levantavam a sobrancelha pra saber minha nota na prova.
Eu deveria estar feliz em falar sempre no diminutivo. Em ver meu filho ser tratado como bibelô por amigos e parentes que o mandam posar, sorrir, comer todo tipo de bobagem e entopem o Facebook de fotos dele sem qualquer autorização.
Eu deveria estar, mas não estou. Estou tenso, em dúvida, mais cansado do que satisfeito.
E desconfio que só vou lidar melhor com esse desconforto quando admitir, para meu inconsciente, que não decidimos ter filhos como um cálculo de preenchimento ou satisfação. Que ele não é um investimento que logo trará retorno afetivo e existencial. Que nossa relação não precisa ser uma fabrica de neurose se as coisas não saírem como planejamos.
Falta explicar para o mundo.
Mas de tudo o que mais me incomoda nessa história não são as tentativas de homicídio no parquinho ou a obrigação de fazer de uma manhã no parque um comercial de margarina.
O que mais me incomoda é o consolo de ser “apenas” pai. Sim, não é exatamente a tarefa mais simples que já assumi, mas nada se compara à pressão enfrentada pela mãe. A começar pela métrica que separa as boas e as más mães a partir da produção de leite materno – ainda que seu filho, prematuro, tenha passado as primeiras semanas em uma incubadora, e nosso único contato físico acontecia pelas mãos.
Ao fim das visitas eu ia para casa, e a mãe era encaminhada a uma sala onde deveria, literalmente, ordenhar o próprio leite por meio de uma bombinha. Era um novo parto por sessão, e a dificuldade da missão era compensada por palavras de incentivo do tipo "pensa no teu filho", “se você o ama o suficiente você consegue” (tente urinar com um incentivo desse no seu ouvido para entender o drama) ou com mandingas e alimentos com base no milho (tipo pipoca e canjica) que estouravam estômago da mãe e só ampliavam a distância entre a autoestima e a maternidade ideal. Uma distância agravada cada vez que alguém identificava na mamadeira a prova material de um fracasso.
Passada a fase da amamentação, à mãe não faltavam dicas, telefonemas de amigos e familiares de todos os lados para saber como andava a saúde do menino. Qualquer espirro ou choro fora de hora era sintoma de um descuido. Qualquer cara feia quando alguém o entupia de bolacha era respondida com "mas coitado, ele tem vontade".
As vontades são criadas, assim, por visitas esporádicas que jamais trocaram fralda, e você supostamente deveria amar tudo isso.
No pico da agonia, eu podia sair, nadar, pescar, jogar bola e até encher a cara quando precisava desanuviar. Ninguém me telefonaria perguntando se eu estava louco. Eu jamais seria o puto que pariu e na bagagem jamais levaria a culpa, a lista de satisfações, as perguntas de sempre. Como quando voltou à dança e quase desistiu depois de ouvir uma bateria de perguntas constrangedoras sobre “como ela tinha coragem de deixar uma criança em casa”. “Ele não pede por você?”. “Ele não chora?”. “Você não sente pena?”.
Aos poucos passamos a reproduzir, dentro de casa, as assimetrias que tentamos combater fora dela. "Homem não leva jeito". "Homem não faz duas coisas ao mesmo tempo". "Homem não acorda quando criança chora".
Ela não.
Ela deveria sorrir pela manhã depois de ser acordada a cada três horas. Deveria estar linda, leve e realizada para as sessões de fotos da família doriana para postar no Facebook no dia das mães. E sorrir ao responder, pela milésima vez, se pretende MESMO seguir trabalhando ao fim da licença maternidade.
Durante a semana, uma jovem mãe se negou a participar, no Facebook, de uma corrente sobre as delícias sem dores da maternidade e decidiu falar a real: “Amo meu filho, odeio ser mãe”. Ela tem direito a isso. Tem direito a compartilhar com outras mães não apenas o peso da maternidade, mas o peso da obrigação de parecer feliz com toda a pressão existente em um dos períodos mais duros, confusos e inseguros da vida.
Ela tem direito a manifestar o desconforto pela pressão. Ela tem direito a não explodir. A não achar que há algo de errado nela por não ser feliz o tempo inteiro. De reivindicar o direito a descobrir, por si, as pequenas alegrias das novas relações criadas dentro de casa.
O que enlouquece não são as tarefas. As funções. A responsabilidade. Tudo isso é duro, mas passa. O que enlouquece são os outros. São os que veem na maternidade – e na distância entre a vida ideal e a vida vivida – a chance de minar a autoestima e a liberdade de circulação de alguém que não é (nem deveria ser) só mãe, mas mulher. Foi-se o tempo em que as palavras eram sinônimos – e, por extensão, um destino inevitável rumo ao confinamento do lar e das obrigações que nós, homens, não queremos fazer.
É preciso reconhecer a coragem de uma mãe que expõe esse desconforto - pois até o direito a reclamar tentaram tirar dela. O desconforto dela não é com o filho, mas com um destino imposto a ela a partir da maternidade. Há quem prefira atacá-la e guardar as dores numa comporta de autoengano e ressentimento. Pobres pais. Pobres filhos.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-desafio-da-maternidade

sábado, 7 de março de 2015

Você quer ser mãe ou apenas ter um bebê?

Mais um texto incrível da minha caríssima amiga Mônica Montone.


Por Mônica Montone

Reflita antes de engravidar e conheça a diferença entre ter um bebê e criar um filho.
Há aproximadamente cinco anos escrevi um texto para a Revista do jornal O Globo chamado “Filho é para quem pode”. No texto, eu não fazia nenhum tipo de apologia contra a maternidade, apenas falava sobre a minha opção de não ter filhos, apesar de ser biologicamente saudável e do imenso amor que sinto pelas crianças.
Não imaginava que o assunto fosse um tremendo tabu e pudesse gerar tanta polêmica.
Em dois dias, mais de duzentos e-mails entupiram minha caixa de entrada. A grande maioria deles era de mulheres me agradecendo por ter tomado a iniciativa de falar abertamente sobre o tema – muitas delas relatavam que estavam levando o texto dentro de suas bolsas para ler para amigos e familiares quando se sentiam pressionadas. Já outras preferiram me agredir, dizendo que eu devia ser mal comida, mal amada, que devia ter o útero seco, que devia ter uma péssima mãe, que devia ser proibida de escrever essas bobagens num grande veículo, etc, etc, etc.
Eu poderia ter me dado ao trabalho de dizer que nenhuma das afirmações era correta, que minha mãe é maravilhosa, que tenho um homem incrível ao meu lado há mais de dez anos que me devota amor e me come deliciosamente, que sou plenamente saudável e questioná-las sobre a liberdade de escolha, mas para quê?
Acabei sendo convidada a participar de programas de TV como Fantástico, Sem Censura e Happy Hour e, anos depois, quando a revista Veja fez uma matéria sobre uma pesquisa do IBGE que apontava a queda da natalidade no Brasil entre mulheres com nível universitário, fui convidada a dar minha opinião na matéria, mas declinei.

Declinei porque não levanto bandeiras, não sou contra a maternidade e acho que cada pessoa tem o direito de viver de acordo com seus sonhos e necessidades. Meu texto falava sobre a minha opção pessoal e convidava o leitor a refletir sobre alguns pontos, como:
“Filhos não são pílulas contra a monotonia, pílulas da salvação de uma vida vazia e sem sentido, pílulas “trago seu marido de volta em nove meses”. Penso que antes de cogitar a possibilidade de engravidar, toda mulher deveria se perguntar: eu sou capaz de aceitar que, apesar de dar a luz a um ser, ele não será um pedaço de mim e, portanto, não deverá ser igual a mim? Eu sou capaz de me fazer feliz sem ter alguém ao meu lado? Eu sou capaz de abrir mão de determinadas coisas em minha vida sem depois cobrar? Eu sou capaz de dizer ‘não’? Eu quero mesmo ter um filho ou simplesmente aprendi que é para isso que nascemos: para constituir família?” O texto está no meu livro A Louca do Castelo, mas pode ser lido na íntegra aqui.
Pois bem, esta semana deparei-me com um vídeo de humor no Facebook, do tipo jornalismo fake, que conta com mais de 35.000 compartilhamentos. Conteúdo do vídeo: uma mulher casada há mais de 12 anos, com três filhos e dois empregos, resolve roubar uma loja e acaba sendo presa. O marido envia um advogado, mas ela se nega a sair da prisão porque se sente feliz atrás das grades e alega: “pela primeira vez na vida estou tendo tempo, vou colocar toda a minha leitura em dia e ouvir todos os discos que tenho vontade, estou amando esse silêncio”.
Não consegui rir. Senti um profundo desalento assistindo ao vídeo. Apesar de saber que se tratava de ficção não pude deixar de fazer a pergunta: por que, ou para quê, essa mulher teve filhos?
Tenho observado que apenas 20% das mulheres que conheço e que tiveram filhos nos últimos tempos parecem felizes. A grande e esmagadora maioria, se pudesse, faria como a atriz do vídeo: fugia, ainda que fosse para a prisão. Mulheres que detestam suas novas rotinas que incluem cuidar da alimentação diária, higiene e da boa educação das crianças, levar e buscar em escola, natação, médico; passar noites sem dormir. Reclamam constantemente de suas aparências, não apenas do ganho de peso que não conseguiram se livrar após o nascimento da criança, mas também de olheiras, flacidez, unhas por fazer, cabelo por cuidar. Queixam-se de falta de envolvimento, romance e apetite sexual do parceiro (ou delas próprias).
As que abriram mão da vida profissional para cuidar dos filhos, cedo ou tarde se sentem insatisfeitas (para não dizer deprimidas) com a vida doméstica. As que tentam conciliar filho e trabalho, em geral, parecem bombas-relógios prestes a explodirem e cobram paulatinamente um envolvimento maior dos pais, o que gera muitas discussões e desgasta bastante os relacionamentos.
Ok, os pais deviam (devem!) participar ativamente da criação dos filhos, mas não tem jeito: na hora que o bicho pega a criança grita pela mãe, quer a mãe. Portanto, por mais que os pais sejam presentes e ativos, infelizmente o trabalho da mãe será sempre dobrado.
Assistindo ao vídeo e pensando nas mamães aparentemente infelizes que conheço, penso: elas não sabiam que seria assim? Elas não sabiam que suas vidas mudariam completamente?
Impossível acreditar que, em plena era da informação e da tecnologia, com milhares de revistas e blogs sobre o assunto, algumas mulheres não tenham ciência do quão trabalhoso é criar um filho. É como digo no texto “Filho é para quem pode”: “Dar a luz a um bebê é fácil, difícil é ser mãe da própria vida e iluminar as próprias escuridões”.
Conheço mulheres que detestam crianças, não têm paciência para crianças, mas dizem que querem ter filhos. Confesso que não compreendo isso. Fico me perguntando: elas querem ter um filho ou um bebê?
Sim, porque existe uma diferença enorme entre uma coisa e outra. Bebês são fofos, dengosos, cheirosos. Quem resiste ao sorriso de um bebê e a um quartinho todo decorado com girafinhas e frufrus? E os sapatinhos mimosos? Uma delícia tudo isso, não? Finalmente uma boneca de verdade. Ocorre que a boneca cresce. Torna-se um ser humano com vontades próprias. Desobedece, faz pirraça, adoece, chora, briga na escola, quer a mochila da Pepa, o tênis do Ben10. Cresce e torna-se adolescente. E na adolescência, como sabemos, o trabalho (e as preocupações) triplica. Sem esquecer os gastos que a criação de uma criança implica e lembrando que, para aquele bebê cheiroso e dengoso se tornar um ser humano digno, amável, respeitável, bem educado e de bom caráter, é preciso muito empenho, amor, carinho e dedicação integral. É preciso vigília constante, sobretudo dar bons exemplos, abrir mão de muita coisa.
Não sei, mas tenho pensado a cada dia que passa que, como tudo na vida, a maternidade pode ser uma questão de aptidão. Existem mães plenamente felizes e realizadas com suas escolhas, responsáveis, que criam seres saudáveis para a vida adulta, cercando-os de amor, carinho e compreensão; que não enxergam a dedicação diária como um peso.
Por que isso não acontece com todas as mães? Talvez porque algumas não tenham aptidão! Engravidam somente para atender a cobranças sociais, constituírem família por acreditar que não tiveram uma suficientemente boa e/ou, pior, para ter quem cuide delas na velhice – o que, convenhamos é no mínimo egoísta.
Como tudo na vida, quando estamos cientes de nossas escolhas (e motivações) e de suas consequências, a jornada se torna mais agradável. Portanto, gurias, não deixem de se perguntar nunca: quero ter um filho ou um bebê para fazer fotos engraçadinhas e postar nas redes sociais? E boa viagem, seja lá para que lado for...
Por Mônica Montone, é escritora, autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.


Fonte: http://lounge.obviousmag.org/monica_montone/2015/02/voce-quer-ser-mae-ou-apenas-ter-um-bebe.html


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

15 coisas que uma mulher só entende quando se torna mãe


Fotos: We Heart it

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Guia Indika Bem no dia 15 de janeiro

Só se pode entender o que é ser mãe quando se torna uma. Por mais que se tente imaginar antes, não dá para saber bem, e só depois a gente entende tudo o que as outras falavam e viviam. É por isso que se diz tanto por aí a frase, “quando você for mãe, você entenderá” e essa frase não é para justificar os hipotéticos erros maternos.
Eu, como psicóloga todos esses anos, sempre empatizei muito com mães e crianças, mas me tornar mãe fez toda a diferença para que eu mergulhasse nesse mundo e entendesse tudo na pele.


Assim como eu descobri, muitas outras mulheres também o fizeram, então resolvi escrever esse texto e fazer essa lista para que nos lembrássemos com prazer dessa fase onde víamos a maternidade com outros olhos, olhos de expectadora e também para que as mulheres que ainda não tiveram o gozo de experienciar a maternidade, desejo que elas tenham mais compreensão com suas amigas que já são mães.
Não generalizo absolutamente nada nesse texto, até porque já escrevi outros tantos em que explico, com base nas teorias da terapia familiar intergeracional de Murray Bowen, porque cada mulher vive a maternidade à sua maneira, mas alguns sentimentos e aspectos são bem parecidos e outros até iguais para a maioria. Por isso, uso muito a expressão “boa mãe”.
Quando nos tornamos uma mãe, ou melhor, quando somos uma “boa mãe”, nossas prioridades mudam e uma certa maturidade diferente começa a aflorar. Quando falo mãe, me refiro àquela que “adotou” o filho de todo o coração e se apossou desse posto, seja ela biológica ou não.


Então vamos as 15 principais coisas que descobrimos:
1 – O celular cheio de fotos do filho. Antes de ser mãe, não dá para entender como o celular poderá ter centenas de fotos do teu filho e quase nenhuma tua. Dá vontade de tirar fotos deles em vários momentos e de vários detalhes. Nós achamos os nossos filhos lindos e eles realmente são! Fazer um selfie fica para segundo plano, afinal eles crescem rápido e é muito amor que sentimos. Mostramos as fotos deles como se fossem as únicas crianças do mundo, pois assim sentimos a alegria que ele nos proporciona e de como ela enriquece nossas vidas. Uma criança bem amada traz muita felicidade à toda família.
2 – A casa com alguns do brinquedos em cada cantinho e não parece uma bagunça. Cada brinquedo encontrado em um ângulo da casa é um sinal da presença divina deles. Eles fazem parte de tudo, de nós, da família e cada sinal disso é um milagre, a casa fica até mais bonita colorida.
3 – Quando a criança desenha nas paredes os pais não se chateiam. Tudo isso faz parte do crescimento e das descobertas das crianças, assim como os pais vão descobrindo com alegria essas novas habilidades delas. E o que são rabiscos na parede? Eles podem ser limpos depois? E mais, cada desenho é uma foto de recordação.
4 – Quando a criança faz uma cena de “mal criação” os pais não sentem raiva. Não existe criança “mal criada”, “caprichosa” ou que faz “manha”, elas simplesmente têm desejos que não podem ser saciados e por isso protestam, porque até os 3 anos não entendem algumas coisas mesmo, não têm maturidade para ter a noção de alguns limites. Chorar é um direito delas e não vale a pena se enraivar, brigar, discutir, muito menos apelar para violência física. Paciência e firmeza que isso passa.
5 – “Pipi”, “pum” e “caquinha” não dão nojo e nem um beijo melado dá agonia. Trocamos fraudas e percebemos que é algo natural, cocô de filho não dá nojo e o “pum” deles não tem cheiro ruim. Nada disso é problema, é humano, e o que vem deles não dá nenhum nojo, trocar e limpar fazem parte, é um prazer vê-los trocados e limpinhos. Ah, e o beijo melado é uma delícia!


6 – A mãe compra roupinhas para o filho e se esquece dela. É muito gostoso ver uma roupinha bonita e imaginar o nosso filho ou filha vestida, é um prazer comprá-la, pensar no outro, ser menos auto centrada. Não encontramos nada de interessante para nós porque estávamos muito ocupados pensando no bem estar deles. Além disso, eles crescem e estão sempre precisando de algo novo.
7 – Ir a aniversários de criança com prazer. Aquela gritaria e correria no meio do salão e a gente lá, aproveitando para colocar o papo em dia com as amigas. É um momento em que aproveitamos para trocar ideias com as outras mães e ver os amigos porque temos pouco tempo. Além disso e prioritariamente, é um momento mais especial ainda para o fortalecimento dos vínculos dos nossos filhos em seus círculos de amizades, com o qual ele pode brincar, dar risada, se exercitar, gastar energia e tudo o mais que a socialização pode proporcionar, e o que é mais valioso do que vê-los sorrindo?
8 – Depois do trabalho a mãe volta correndo para casa. Todo o tempo disponível após o trabalho é para os filhos, eles precisam da atenção da figura materna (mais ainda os que estão na primeiríssima infância). Além disso, a saudade é grande e o prazer de estar junto fala mais alto.
9 – O cansaço extremo e a falta de tempo materno. Os primeiros anos de vida exigem uma grande atenção e paciência, pois isso o cansaço físico e mental são incrivelmente intensos, mais ainda para quem amamenta até perto dos 2 anos, para quem fica mais tempo em casa e não tem ou não quis uma babá. A falta de tempo para fazer as coisas mais básicas para nós mesmas é rotina, temos que ter planejamento e organização prévia para realizar o que queremos. Só quando se passa por essa fase é que entendemos o que é de fato o cansaço, que pode causar até vertigens e palpitação, aí a gente faz exames e os resultados estão perfeitos. O problema é a coluna e o cansaço mesmo, e a gente acha que isso não é possível, mas é. O que nos leva adiante é o amor e a felicidade de tê-los em nossas vidas.
10 – Quando eles ficam doentes a mãe fica mal. Tudo o que uma boa mãe deseja constantemente é que o filho seja feliz e saudável e quando tem um resfriado é como uma preocupação constante e pesada que só passa quando os vemos bem novamente, então é um grande alívio. As tias podem até sentir algo parecido, mas quado somos mães sentimos algo mais forte porque aquele ser depende prioritariamente de nós para estar bem e se sentir seguro.


11 – Porque não é fácil “educar”. As crianças têm vontade independente das regras, até uma certa idade elas não têm a mínima noção de disciplina e higiene e nem auto censura. Aprendemos que é preciso ter paciência e, muitas vezes, é mais sábio esperar o tempo delas para impor certas coisas.
12 – A bolsa cheia de brinquedos. A bolsa fica cheia de coisas que são sempre necessárias, a primeira da lista é a frauda.
13 – Porque as mães defendem os filhos. Não é para “passar a mãe na cabeça” deles, mas observamos melhor as fragilidades emocionais de cada criança pequena e nos lembramos das que tínhamos quando éramos pequenos também. Empatizamos com maior facilidade e corrigimos com uma dose de afeto.
14 – Ela não tem mais vontade de sair para se divertir como antes. O que fazia sentido antes não faz mais e adotamos novos hábitos. Queremos estar saudáveis porque os nossos filhos precisam de nós, desejamos vida longa, queremos estar bem, nos sentimos muito casadas e todo o tempo que temos queremos ir devagar, aproveitar para relaxar e fazer programas mais tranquilos e de preferência bem familiares, conversamos com os amigos e colocamos as crianças para brincar. Ter família é bom demais!
15 – Entendemos mais os nossos pais, principalmente a nossa mãe. Nós entendemos que as mães não são e nem devem ser perfeitas. Valorizamos mais o esforço que os nossos pais tiveram para nos criar, educar e dar todo o afeto importante para o fortalecimento da nossa identidade.
Agradecemos por terem nos dado a vida!


Continuo na campanha “tenha filhos, mas se prepare psicologicamente antes”, faça psicoterapia, questione os seus modelos familiares, olhe para suas dores e seus dilemas, não queira filhos para companhia, nem para salvar vidas, procure ser justo e ético. E posso dizer tantas outras coisas positivas que desejo que todos sintam após se tornarem pais, porque eu sinto que os “bons pais” se solidarizam mais com as outras pessoas, ficam mais sensíveis e tolerantes, choram com mais facilidade vendo filmes em que pais e crianças sofrem (ao menos nós mulheres), com noticiários de violência e querem fortemente um mundo melhor, também para ter maiores “garantias” de que os seus descendentes estarão bem. O mundo precisa de “bons pais”!
Hoje eu entendo o que é olhar para o outro e se sentir ao mesmo tempo forte e frágil; sei o que é sentir o teu coração bater no peito de um outro ser humano; o que é ter a felicidade dependendo da felicidade do filho. É mais forte que nós e isso não é ser dependente, é amor. Quando nos tornamos mãe renascemos para o mundo, uma parte de nós se reinventa e a nossa existência passa a ter uma dose bem maior de responsabilidade e felicidade.

http://www.indikabem.com.br/filhos/15-coisas-que-uma-mulher-so-entende-quando-se-torna-mae




Fotos: We Heart it
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O tabu da "boa mãe" e a mãe vingativa

 
Por Cintia Liana Reis de Silva
 
É muito difícil imaginar ou até aceitar que seja verdade que uma mãe possa fazer mal ao seu filho em sã consciência. É como se desconstruíssemos a ideia da beleza do nascimento, da mãe como o portal do vir ao mundo. Por esses e por tantos outros motivos é que existem vários tabus quando se fala a palavra mãe, é como se falar delas de modo ofensivo ou descuidado fosse um grave pecado, como se não fosse permitido ligar esse nome a algo de ruim. Uma insistência na necessidade em enxergar a maternidade como sagrada e ligá-la à perfeição.
 
No inconsciente social a mãe sempre é certamente boa e sempre tem a razão. Não é a toa que a guarda dos filhos é normalmente dada a elas, sem que se faça uma avaliação de sua condição psicológica antes.
 
Existem crenças nascidas há alguns séculos, que ainda não foram superadas popularmente, como acreditar que todas as mulheres nasceram para ser mãe, a existência do instinto materno e que o amor de mãe é o mais forte. Mas há alguns anos a ciência vem desconstruindo e provando que esses absolutismos sobre a maternidade  não passam de manipulação e fantasias, vêm também da relutância de enxergar as mãe como humanas. São falas nascidas na sociedade e que estão intimamente ligadas a manipulação do homem, ao pacto de poder que fizeram ao instituir o modelo da família patriarcal e estabeleceram que as mulheres deveriam estar em casa cuidando dos filhos, enquanto eles, os homens, deteriam todo o poder disponível no interno da família, na política, na cultura, na vivência da sexualidade, etc.
 
As mães são humanas e elas podem errar mesmo querendo acertar, já outras erram mesmo sabendo que estão muito erradas e que trarão sérias, graves e negativas consequências ao filho. Quem já trabalhou 8 anos numa vara da infância como eu, sabe que isso é bem verdade.
 
A maternidade é algo vivido de diferentes formas para cada mulher e isso vai depender da qualidade e do tom da relação que ela tem e teve com seus pais ou de sua lucidez, esforços e boa vontade para se melhorar e dar o que tem de melhor ao seu filho, a vontade de fazer diferente, de um modo mais sábio e sadio, além de sua disponibilidade interna em reconhecer as suas feridas e fazer terapia para superá-las, para não tentar curá-la erradamente através dos filhos, como expliquei em meu texto “Não se supera traumas através do filhos”.
 
O “Trattato Italiano di Psichiatria”, no capítulo “psicopatologia dell’età evolutiva” afirma e explica que existem mães ditas “normais” que não dariam nunca ao filho coisas que desejavam quando crianças e que não podiam ter, como forma de vingança; mães que odeiam a si mesmas e, consequentemente, os filhos, como se eles fossem uma parte dela ou sua propriedade. A preferência da mãe pelo marido, por exemplo, pode revelar um comportamento agressivo ou carência (PAPINI et MARTINETTI, 1999). Sem contar mães que permitem secretamente que o pai de seu filho ou o seu marido (padrasto da criança) abuse sexualmente deste para não “perdê-lo”.
 
Existem outros casos, também de violência contra os filhos, mais graves ou menos graves, que deixam cicatrizes para sempre, que podem ser aparentemente casos simples de negligência, como deixar o filho chorando e assim experimentar uma espécie de prazer, como se naquele instante estivesse superando algum trauma como, por exemplo, o de ter chorado muito quando criança ou ter sido muito rejeitado; como também maltratar ou abusar, como uma ação usada por adultos, em certo nível patológica, para  superar sofrimentos e traumas. Como pedófilos que já foram abusados e repetem o mesmo tipo de abuso, desta vez na pele do agressor, para provar a si mesmo que agora não é mais a vítima e sim o detentor do poder, ou mulheres que abusam de seus filhos ou são cúmplices de abusadores.
 
Embora sejam assuntos e teorias científicas amargas, indigestas e abomináveis, elas precisam ser faladas para que possamos proteger as crianças e oferecer ajuda a quem precisa. Assim como mostrar que toda mãe, incluindo as boas, podem sempre buscar se aperfeiçoar, dando de fato aos filhos o que há de mais sagrado em seus corações, o puro e verdadeiro amor consciente.
 
Por Cintia Liana Reis de Silva
 
Referência:
Papini, M. e Martinetti, M. G.. Trattato Italiano di Psichiatria. Psicopatologia dell’età evolutiva. Milano, pp. 2693-2709, 1999.