"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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domingo, 6 de novembro de 2016

A Cólica - Por Dr. Carlos González

Palavras que iluminam a vida. 
A cólica que não é cólica.

Foto: Lugar da Mulher

Por Dr. Carlos González

Os bebês ocidentais costumam chorar bastante durante os primeiros meses, o que se conhece como cólica do lactente ou cólica do primeiro trimestre. Cólica é a contração espasmódica e dolorosa de uma víscera oca; há cólicas dos rins, da vesícula e do intestino. Como o lactente não é uma vesícula oca e o primeiro trimestre muito menos, o nome logo de cara não é muito feliz. Chamavam de cólica porque se acreditava que doía a barriga dos bebês; mas isso é impossível saber. A dor não se vê, tem de ser explicada pelo paciente. 
Quando perguntam a eles: “por que você está chorando?”, os bebês insistem em não responder; quando perguntam novamente anos depois, sempre dizem que não se lembram. Então ninguém sabe se está doendo a barriga, ou a cabeça, ou as costas, ou se é coceira na sola dos pés, ou se o barulho está incomodando, ou simplesmente se estão preocupados com alguma notícia que ouviram no rádio. Por isso, os livros modernos frequentemente evitam a palavra cólica e preferem chamar de choro excessivo na infância. É lógico pensar que nem todos os bebês choram pelo mesmo motivo; alguns talvez sintam dor na barriga, mas outro pode estar com fome, ou frio, ou calor, e outros (provavelmente a maioria) simplesmente precisam de colo.

Tipicamente, o choro acontece sobretudo à tarde, de seis às dez, a hora crítica. Às vezes de oito à meia-noite, às vezes de meia-noite às quatro, e alguns parecem que estão a postos vinte e quatro horas por dia. Costuma começar depois de duas ou três semanas de vida e costuma melhorar por volta dos três meses (mas nem sempre).

Quando a mãe amamenta e o bebê chora de tarde, sempre há alguma alma caridosa que diz: “Claro! De tarde seu leite acaba!”. Mas então, por que os bebês que tomam mamadeira têm cólicas? (a incidência de cólica parece ser a mesma entre os bebês amamentados e os que tomam mamadeira). Por acaso há alguma mãe que prepare uma mamadeira de 150 ml pela manhã e de tarde uma de 90 ml somente para incomodar e para fazer o bebê chorar? Claro que não! As mamadeiras são exatamente iguais, mas o bebê que de manhã dormia mais ou menos tranquilo, à tarde chora sem parar. Não é por fome.

“Então, por que minha filha passa a tarde toda pendurada no peito e por que vejo que meus peitos estão murchos?” Quando um bebê está chorando, a mãe que dá mamadeira pode fazer várias coisas: pegar no colo, embalar, cantar, fazer carinho, colocar a chupeta, dar a mamadeira, deixar chorar (não estou dizendo que seja conveniente ou recomendável deixar chorar, só digo que é uma das coisas que a mãe poderia fazer). A mãe que amamenta pode fazer todas essas coisas (incluindo dar uma mamadeira e deixar chorar), mas, além disso, pode fazer uma exclusiva: dar o peito. A maioria das mães descobrem que dar de mamar é a maneira mais fácil e rápida de acalmar o bebê (em casa chamamos o peito de anestesia), então dão de mamar várias vezes ao longo da tarde. Claro que o peito fica murcho, mas não por falta de leite, mas sim porque todo o leite está na barriga do bebê. O bebê não tem fome alguma, pelo contrário, está entupido de leite.

Se a mãe está feliz em dar de mamar o tempo todo e não sente dor no mamilo (se o bebê pede toda hora e doem os mamilos, é provável que a pega esteja errada), e se o bebê se acalma assim, não há inconveniente. Pode dar de mamar todas as vezes e todo o tempo que quiser. Pode deitar na cama e descansar enquanto o filho mama. Mas claro, se a mãe está cansada, desesperada, farta de tanto amamentar, e se o bebê está engordando bem, não há inconveniente que diga ao pai, à avó ou ao primeiro voluntário que aparecer: “pegue este bebê, leve para passear em outro cômodo ou na rua e volte daqui a duas horas”. Porque se um bebê que mama bem e engorda normalmente mama cinco vezes em duas horas e continua chorando, podemos ter razoavelmente a certeza de que não chora de fome (outra coisa seria um bebê que engorda muito pouco ou que não estava engordando nada até dois dias atrás e agora começa a se recuperar: talvez esse bebê necessite mamar muitíssimas vezes seguidas). E sim, se pedir para alguém levar o bebê para passear, aproveite para descansar e, se possível, dormir. Nada de lavar a louça ou colocar em dia a roupa para passar, pois não adiantaria nada.

Às vezes, acontece de a mãe estar desesperada por passar horas dando de mamar, colo, peito, colo e tudo de novo. Recebe seu marido como se fosse uma cavalaria: “por favor, faça algo com essa menina, pois estou ao ponto de ficar doida”. O papai pega o bebê no colo (não sem certa apreensão, devido às circunstâncias), a menina apoia a cabecinha sobre seu ombro e “plim” pega no sono. Há várias explicações possíveis para esse fenômeno. Dizem que nós homens temos os ombros mais largos, e que se pode dormir melhor neles. Como estava há duas horas dançando, é lógico que a bebê esteja bastante cansada. Talvez precisasse de uma mudança de ares, quer dizer, de colo (e muitas vezes acontece o contrário: o pai não sabe o que fazer e a mãe consegue tranquilizar o bebê em segundos).

Tenho a impressão (mas é somente uma teoria minha, não tenho nenhuma prova) de que em alguns casos o que ocorre é que o bebê também está farto de mamar. Não tem fome, mas não é capaz de repousar a cabeça sobre o ombro de sua mãe e dormir tranqüilo. É como se não conhecesse outra forma de se relacionar com sua mãe a não ser mamando. Talvez se sinta como nós quando nos oferecem nossa sobremesa favorita depois de uma opípara refeição. Não temos como recusar, mas passamos a tarde com indigestão. No colo da mamãe é uma dúvida permanente entre querer e poder; por outro lado, com papai, não há dúvida possível: não tem mamá, então é só dormir.

Minha teoria tem muitos pontos fracos, claro. Para começar, a maior parte dos bebês do mundo estão o dia todo no colo (ou carregados nas costas) de sua mãe e, em geral, descansam tranquilos e quase não choram. Mas talvez esses bebês conheçam uma outra forma de se relacionar com suas mães, sem necessidade de mamar. Em nossa cultura fazemos de tudo para deixar o bebê no berço várias horas por dia; talvez assim lhes passemos a idéia de que só podem estar com a mãe se for para mamar.

Porque o certo é que a cólica do lactente parece ser quase exclusiva da nossa cultura. Alguns a consideram uma doença da nossa civilização, a consequência de dar aos bebês menos contato físico do que necessitam. Em outras sociedades o conceito de cólica é desconhecido. Na Coreia, o Dr. Lee não encontrou nenhum caso de cólica entre 160 lactentes. Com um mês de idade, os bebês coreanos só passavam duas horas por dia sozinhos contra as dezesseis horas dos norteamericanos. Os bebês coreanos passavam o dobro do tempo no colo que os norteamericanos e suas mães atendiam praticamente sempre que choravam. As mães norteamericanas ignoravam deliberadamente o choro de seus filhos em quase a metade das vezes.

No Canadá, Hunziker e Barr demonstraram que se podia prevenir a cólica do lactente recomendando às mães que pegassem seus bebês no colo várias horas por dia. É muito boa idéia levar os bebês pendurados, como fazem a maior parte das mães do mundo. Hoje em dia é possível comprar vários modelos de carregadores de bebês nos quais ele pode ser levado confortavelmente em casa e na rua. Não corra para colocar o bebê no berço assim que ele adormecer; ele gosta de estar com a mamãe, mesmo quando está dormindo. Não espere que o bebê comece a chorar, com duas ou três semanas de vida, para pegá-lo no colo; pode acontecer de ter “passado do ponto” e nem no colo ele se acalmar. Os bebês necessitam de muito contato físico, muito colo, desde o nascimento. Não é conveniente estarem separados de sua mãe, e muito menos sozinhos em outro cômodo. Durante o dia, se o deixar dormindo um pouco em seu bercinho, é melhor que o bercinho esteja na sala; assim ambos (mãe e filho) se sentirão mais seguros e descansarão melhor.

A nossa sociedade custa muito a reconhecer que os bebês precisam de colo, contato, afeto; que precisam da mãe. É preferível qualquer outra explicação: a imaturidade do intestino, o sistema nervoso... Prefere-se pensar que o bebê está doente, que precisa de remédios. Há algumas décadas, as farmácias espanholas vendiam medicamentos para cólicas que continham barbitúricos (se fazia efeito, claro, o bebê caía duro). Outros preferem as ervas e chás, os remédios homeopáticos, as massagens. Todos os tratamentos de que tenho notícia têm algo em comum: tem de tocar no bebê para dá-lo. O bebê está no berço chorando; a mãe o pega no colo, dá camomila e o bebê se cala. Teria se acalmado mesmo sem camomila, com o peito, ou somente com o colo. Se, ao contrário, inventassem um aparelho eletrônico para administrar camomila, ativado pelo som do choro do bebê, uma microcâmera que filmasse o berço, um administrador que identificasse a boca aberta e controlasse uma seringa que lançasse um jato de camomila direto na boca... Acredita que o bebê se acalmaria desse modo? Não é a camomila, não é o remédio homeopático! É o colo da mãe que cura a cólica.

Taubman, um pediatra americano, demonstrou que umas simples instruções para a mãe (tabela 1) faziam desaparecer a cólica em menos de duas semanas. Os bebês cujas mães os atendiam, passaram de uma média de 2,6 horas ao dia de choro para somente 0,8 horas. Enquanto isso, os do grupo de controle, que eram deixados chorando, choravam cada vez mais: de 3,1 horas passaram a 3,8 horas. Quer dizer, os bebês não choram por gosto, mas porque alguma coisa está acontecendo. Se são deixados chorando, choram mais, se tentam consolá-los, choram menos (uma coisa tão lógica! Por que tanta gente se esforça em nos fazer acreditar justo no contrário?).

Tabela 1 – Instruções para tratar a cólica, segundo Taubman (Pediatrics 1984;74:998)

1- Tente não deixar nunca o bebê chorando.
2- Para descobrir por que seu filho está chorando, tenha em conta as seguintes possibilidades:
a- O bebê tem fome e quer mamar.
b- O bebê quer sugar, mesmo sem fome.
c- O bebê quer colo.
d- O bebê está entediado e quer distração.
e- O bebê está cansado e quer dormir.
3- Se continuar chorando durante mais de cinco minutos com uma opção, tente com outra.
4- Decida você mesma em qual ordem testará as opções anteriores.
5- Não tenha medo de superalimentar seu filho. Isso não vai acontecer.
6- Não tenha medo de estragar seu filho. Isso também não vai acontecer.


No grupo de controle, as instruções eram: quando o bebê chorar e você não souber o que está acontecendo, deixe-o no berço e saia do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando, torne a entrar, verifique (um minuto) que não há nada, e volte a sair do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando etc. Se após três horas ele continuar chorando, alimente-o e recomece.

As duas últimas instruções do Dr. Taubman me parecem especialmente importantes: é impossível superalimentar um bebê por oferecer-lhe muita comida (que o digam as mães que tentam enfiar a papinha em um bebê que não quer comer); e é impossível estragar um bebê dando-lhe muita atenção. Estragar significa prejudicá-lo. Estragar uma criança é bater nela, insultá-la, ridicularizá-la, ignorar seu choro. Contrariamente, dar atenção, dar colo, acariciá-la, consolá-la, falar com ela, beijá-la, sorrir para ela são e sempre foram uma maneira de criá-la bem, não de estragá-la.

Não existe nenhuma doença mental causada por um excesso de colo, de carinho, de afagos... Não há ninguém na prisão, ou no hospício, porque recebeu colo demais, ou porque cantaram canções de ninar demais para ele, ou porque os pais deixaram que dormisse com eles. Por outro lado, há, sim, pessoas na prisão ou no hospício porque não tiveram pais, ou porque foram maltratados, abandonados ou desprezados pelos pais. E, contudo, a prevenção dessa doença mental imaginária, o estrago infantil crônico , parece ser a maior preocupação de nossa sociedade. E se não, amiga leitora, relembre e compare: quantas pessoas, desde que você ficou grávida, avisaram da importância de colocar protetores de tomada, de guardar em lugar seguro os produtos tóxicos, de usar uma cadeirinha de segurança no carro ou de vacinar seu filho contra o tétano? Quantas pessoas, por outro lado, avisaram para você não dar muito colo, não colocar para dormir na sua cama, não acostumar mal o bebê?

Lee K. The crying pattern of Korean infants and related factors. Dev Med Child Neurol. 1994; 36:601-7

Hunziker UA, Barr RG. Increased carrying reduces infant crying: a randomized controlled trial. Pediatrics 1986;77:641-8
Taubnan B. Clinical trial of treatment of colic by modification of parent-infant interaction. Pediatrics 1984;74:998-1003


Do livro Un regalo para toda la vida- Guía de la lactancia materna,Carlos González

Tradução: Fernanda Mainier

sexta-feira, 4 de março de 2016

Não julgue as mães. Não julgue as mães. Não julgue as mães.

RITA LISAUSKAS
01 Março 2016 | 11:54

Você não sabe nada, nada, nada sobre a vida delas

Meu filho nunca deu trabalho, não é daquelas crianças que se jogam no chão e começam a espernear no supermercado, nunca respondeu atravessado e não me faz passar vergonha. Até um dia. Mais especificamente o dia em que era comemorado o ano novo chinês de 2015.
Eu, minha irmã e ele fomos à festa na Liberdade, centro de São Paulo. Pegamos metrô e não tínhamos noção da multidão que iríamos encontrar. Era surreal. Filhote no colo porque no chão seria pisoteado, filas impraticáveis para comer e uma criança que, em poucos minutos, ficou muito, muito estressada.
Conseguimos nos abrigar em uma daquelas inúmeras galerias do bairro para relaxar e em poucos minutos fugir dali. De repente, entramos em uma lojinha de cacarecos orientais e uma vendedora, muito simpática, disse que me conhecia da televisão, onde sempre trabalhei. Como um gatilho sacana que parece ser disparado apenas quando alguém conhece você, meu filho começou a chorar. Copiosamente. Ele tinha pedido à minha irmã, madrinha dele, que comprasse um videogame que estava exposto na prateleira da loja. Ela disse que não, que a compra de um videogame não era uma decisão tomada assim de uma hora para outra. O choro histérico que até então nunca tinha acontecido é algo do qual nós, mães, nunca estamos livres. Nenhuma de nós. (Alerta de spoiler: você que ainda não é mãe e tem cer-te-za que isso não vai acontecer com você porque, imagina, você vai educar bem seu filho, fique esperta, acontece com todas nós.) Quando abaixei para conversar com meu filho e dizer que se ele queria tanto um videogame a gente ia se planejar e comprar em uma data especial ouvi a dona da loja comentar com minha irmã e para quem quisesse ouvir: Essas crianças de hoje são tão mimadas, né? Culpa das mães que dão tudo a elas e que não sabem dizer não.
Olhei com cara de ódio para a mulher, peguei meu filho no colo, já mais calmo, e saí de lá. Ela não me conhecia, nunca me viu na vida. Como podia julgar minha maternagem? De onde ela tirou que eu não sei falar “não” para o meu filho? Eu não tinha acabado de dizer um NÃO bem grande à compra do tal videogame?
Lembrei disso porque hoje li o desabafo de uma mãe cujo filho teve um ataque histérico em uma piscina de bolinhas de um shopping do Recife. O garoto tem TDO, Transtorno Opositor Desafiador, associado à paralisia cerebral. A mãe, contudo, não quer que o filho, que faz diversas terapias e toma remédios, deixe de interagir com o mundo ao seu redor. Na hora de sair do brinquedo o menino não quis e teve uma crise . “Ele berrava, esperneando no chão, enquanto as pessoas me olhavam com ar de reprovação. Esses não me incomodam. Já estou acostumada a esses olhares. Quando optei, lá no passado, de não privar meu filho da vida por conta das limitações dele, tive que aprender a conviver com os olhares e as críticas. Não é nada fácil ser mãe, trata-se de um diário salto no abismo do acerto e do erro”, contou.
A mãe levou o filho ao banheiro do shopping para tentar acalmá-lo. O que se sucedeu aí foi uma sequência lamentável de acontecimentos. As pessoas começaram a bater na porta do banheiro, mesmo ela pedindo para que deixassem ela tranquilizar o filho, que estava no meio de uma crise histérica.
“Vieram duas seguranças e me pediram para acompanhá-las. Quando sai do banheiro havia uma pequena multidão. Nos cercaram, a mim e ao meu filho. Me agrediram verbalmente, botaram dedos na minha cara, me acusando de estar espancando o menino. ‘Ele está cheio de hematomas’, um homem disse puxando o braço do me filho e tirando fotos minhas e dele. ‘Tire as mãos do meu filho, pare de fotografar ele, caso contrário eu processo você’, falei. Então o homem começou a me ofender, dizendo que eu não era mãe, dizendo que ele ficasse ‘tranquilo’ porque eu seria presa, e meu filho começou a chorar novamente, perguntando “minha mãe vai ser presa?”. A essa altura, minha mãe, uma senhora de 85 anos que esperava sentada na entrada do banheiro, veio ver o que era a confusão. E era comigo! Ela tentava explicar que os hematomas do menino são das quedas constantes. ‘Ele cai muito, faz parte do problema dele’, falava. Mas o homem – o mesmo das fotos – estava revoltado. Afirmava que ia postar fotos nas redes sociais me acusando de espancar o meu filho. Na hora o alertei que o uso indevido de imagem, bem como calúnia e difamação na internet, são crimes. E informei: “também vou fazer fotos suas, assim quando você postar as minhas terei como mandar a polícia atrás de você”. Foi aí que ele me ameaçou, disse que iria me bater. Peguei meu celular e comecei a fotografá-lo e quando viu que eu estava tirando fotos dele, desferiu um golpe. Não me acertou, mas ainda senti o ‘ventinho’. Tudo isso sob os olhares do meu filho especial de 7 anos e minha mãe, uma idosa de 85. Fui ao SAC, onde – orientada por minha amiga advogada – registrei uma ocorrência sobre o assunto. Fiquei lá por quase duas horas tentando me acalmar. Solicitei as imagens das câmeras de segurança, mas fui informada que apenas com ordem judicial. Durante as duas horas que fiquei chorando no SAC, me sentindo humilhada e impotente, lembrava da mulher que foi apedrejada até a morte no sul do País porque o ‘tribunal de rua’ achou que ela era uma suposta sequestradora de crianças. As pessoas hoje se acham detentoras da moral, da justiça e da comunicação – com seus celulares em punho e contas em redes sociais, julgando e condenando quem quer que passe pela frente.”
Antes apenas éramos julgadas em silêncio, no máximo ouvíamos cochichos de maledicência de vizinhos e conhecidos. Hoje, podemos ser apedrejadas em praça pública ou termos nossa imagem e intimidade devassadas e destruídas nas redes sociais. Foi o que quase aconteceu com essa mãe, que terminou assim seu desabafo:
“Estou contando isso aqui como um alerta, até para mim mesma. Não gosto de me expor e, muito menos, expor meu filho. Mas eu precisava fazer isso para dar esse toque mágico: não julgar. Não julgue. Não JULGUE. NÃO julgue. NÃO JULGUE!!!
Não sei o dano que isso vai deixar no meu filho. Na verdade ainda nem sei que dano vai deixar em mim. O que eu quero hoje é dormir tranquila, abraçada com ele, para que se sinta como sempre se sente comigo: protegido. Mas acho que hoje, e durante um bom tempo, ele é que vai fazer isso por mim. Vou me reconstruir no amor dele. Fé em Deus e bola pra frente.”

Em vez de julgar e fotografar (!?), coloque-se no lugar do outro. E se isso não for possível, ofereça ajuda. Não seria lindo que se em vez de dedos apontados alguém tivesse oferecido um copo de água ou abraço a essa mãe, por exemplo? Se alguém tivesse realmente se importado com tudo isso saberia que essa mulher tem vários empregos para poder oferecer todas as terapias que o filho precisa. Que se não fosse a dedicação dela, ele nunca teria saído da cama e estaria se divertindo em uma piscina de bolinhas.  Que o pai dele até paga pensão, mas não quer saber do menino.
Não julgue. Não julgue. Não julgue. Repita isso dez vezes por dia, todos os dias de sua vida.
Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/nao-julgue-as-maes-nao-julgue-as-maes-nao-julgue-as-maes/

segunda-feira, 16 de março de 2015

10 coisas que você nunca deve dizer à mãe de uma criança com Síndrome de Down ou qualquer deficiência

Foto: familia.com.br


Para evitar constrangimento de ambos os lados, jamais diga ou pergunte à mãe de uma criança deficiente qualquer coisa dessa lista.

Muitas pessoas ainda se sentem constrangidas na presença de pessoas deficientes, mesmo de crianças especiais com suas mães. Em virtude disso, elas ficam sem saber como agir ou o que dizer.
  • Se você não quiser causar embaraço ou mágoa, evite dizer à mãe da criança coisas como:
  • 1. "Coitadinho"

    Nenhuma mãe quer que as pessoas sintam pena de seu filho especial. Ela quer que elas sintam carinho por ele, consideração.
  • 2. "A 'doença' do seu filho"

    Cuide bem com os termos que usar. Deficiência, esse é o termo correto. Usa-se, também, o termo Necessidades Especiais ou Criança Especial, jamais doente. A não ser que a criança esteja gripada, com problemas cardíacos, respiratórios ou com outra doença qualquer.
  • 3. "Sinto muito"

    Não precisa sentir muito. Muitas mães são gratas pelos filhos especiais que têm, e não precisam que alguém lamente por elas. Para muitas é um período de aprendizado e crescimento.
  • 4. "Eu não saberia lidar com uma situação dessas"

    Ainda que você queira demonstrar sua grande admiração pela garra dessa mãe, não diga isso. Saiba que se você tivesse um filho especial, você saberia lidar com ele, sim. Toda mãe tem potencial para dar tudo de si para melhorar a vida do seu filho.
  • 5. "Ele parece tão normal"

    As mães de pessoas com Síndrome de Down ou outra deficiência têm que lidar com os conceitos "normal" e "diferente" o tempo todo. Na verdade, na maioria das vezes são os outros que as lembram disso. No dia a dia é bem comum elas se esquecerem de que há diferença entre seus filhos.
    Ao mesmo tempo, elas têm ciência das características físicas, motoras e intelectuais deles. Elas não querem que eles pareçam "normais", elas só querem que eles sejam felizes do seu próprio jeito. Se pensarmos melhor, como definir o que é normal ou não?
  • 6. "Nem percebi que ele tinha 'alguma coisa'"

    Você não precisa disfarçar. A maioria das mães não se ofende quando as pessoas percebem a deficiência do seu filho. Mas pode se ofender se elas mentem não terem percebido.
  • 7. "Por que ele nasceu assim? De quem ele herdou a deficiência?"

    É um campo perigoso de invadir. Muitas deficiências, em especial a Síndrome de Down, acontecem por acidente genético. Isso significa que qualquer casal poderá ter um filho deficiente. E ainda que houvesse uma herança genética, que diferença isso faz? É um assunto que poderá trazer à tona culpas das quais o pai ou a mãe estão tentando se livrar.
  • 8. Usar a palavra com "R" (retard...) em qualquer circunstância

    Para ofendê-la, você não precisará usar esse termo para se referir ao filho dela, basta usá-lo para se referir a qualquer pessoa, deficiente ou não. É um adjetivo bastante ofensivo para quem tem um filho com necessidades especiais. Jamais o use na frente dela. Na verdade, seria melhor se você o eliminasse do seu vocabulário.
  • 9. "Você vai arriscar outro filho?"

    Eu ouvi isso muitas vezes, quando dizia que gostaria de ter mais filhos. Um médico geneticista chegou ao cúmulo de me dizer que eu "não deveria" ter outro filho, pois haveria tanto por cento de chance de ele nascer com Síndrome de Down também. Eu questionei: "E daí? Vou amá-lo do mesmo jeito!" Ele disse com todas as letras que os médicos não querem mais crianças assim no mundo. Foi algo chocante de se ouvir.
    Bom, eu tive mais dois filhos ditos "normais", que foram uma bênção na vida do meu garotinho especial, e na minha.
  • 10. Nada

    Não dizer coisa alguma ou não fazer perguntas soa como se a presença da criança não fizesse qualquer diferença, como se ela fosse invisível. Aposto que nenhuma mãe se ofenderia com perguntas educadas ou comentários gentis sobre seu filho. Então, encontre algo positivo para falar e tudo estará bem.
  • Um conselho é simples

    Aja naturalmente. Sorria para a criança e sua mãe, pergunte seu nome. Olhe para a criança. Não tente desviar o olhar. É muito estranho ver uma pessoa se esforçando para não olhar para seu filho. Por outro lado, pior ainda é ver uma pessoa olhando-o fixamente, como se nunca tivesse visto uma pessoa deficiente antes. Tudo o que é feito naturalmente e de boa vontade tende a funcionar bem.

Fonte: http://familia.com.br/fam%C3%ADlia/10-coisas-que-voce-nunca-deve-dizer-a-mae-de-uma-crianca-com-sindrome-de-down-ou-qualquer-deficiencia

quinta-feira, 6 de março de 2014

Consulte sempre um Psicólogo de Família. Amamentação consciente.

Foto: We Heart it
Texto: Cintia Liana Reis de Silva
 
Amigos, vamos divulgar? As crianças merecem.
Cuidemos dos detalhes agora para que os adultos de amanhã sejam mais felizes.
 
"11 Coisas que ninguém nunca te falou sobre amamentação e desmame": http://psicologiaeadocao.blogspot.it/2014/02/11-coisas-que-ninguem-nunca-te-falou.html

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Não são monstros, são seres humanos

Mateus Solano no personagem Félix da novela Amor à vida
 
Por Cintia Liana Reis de Silva
 
Publicado no Portal Indika bem em 28 de novembro de 2013
 
Existem muitos conceitos confusos quando se trata de discutir sentimentos e a ética do mundo novelesco, a mesma coisa serve para a relação entre pais e filhos e quando esses dois mundos se cruzam vira polêmica. Quando o personagem é cruel, dizem que ele não tem caráter ou que é um psicopata, reafirmando teorias do senso comum pela necessidade de criar rótulos, agrupar e simplificar para ficar mais fácil o entendimento popular, mas isso só nos faz girar em círculos sem sair do ciclo vicioso que poderia levar a sociedade em busca da transformação de alguns velhos valores e crenças ingênuas.
 
Só para entender: não existe gente sem caráter, existe gente sem ética. Também se inventou os termos “bom caráter” e “mal caráter” para qualificar de modo simples a conduta de alguém, mas caráter é outra coisa. Já o comportamento ético é o seguimento de códigos de valores absorvidos e compreendidos ao longo da vida, o que pode ser prioridade para uns, mas para outros não, infelizmente. Essa orientação deve ser dada em casa, é obrigação dos pais ensinar aos filhos a serem sujeitos e cidadãos éticos e não a escola, que fará só o trabalho de reafirmar e auxiliar didaticamente nessa absorção de valores. Quando se ensina em casa, num ambiente íntimo, de escuta, compreensão e afeto, se apreende com mais facilidade a ser ético.
Caráter todos nós temos, são as características mais marcantes da personalidade. Personalidade já é outro conceito bem complexo, não existindo personalidade fraca ou forte e sim características de uma pessoa que a faz mais ou menos segura que do pensa, acredita ou sente naquele momento; mais rígida ou menos rígida e autoritária. Mas as pessoas podem mudar, o indivíduo está em constante mutação, principalmente quando está atento ao seu processo de evolução pessoal.
Agora trataremos do rótulo monstro. Todos nós podemos nos assustar com um ato de crueldade e chamar alguém de monstro, mas sabemos que ele é mais um ser humano que alimenta a maldade, dá vazão à sua parte sombra. Todo ser humano tem uma parte luz e uma parte sombra, e todos devem conhecer essa sombra para transformá-la aos poucos em luz. Todo ser humano é capaz de desejar o mal de alguém, de sentir raiva, mas nem sempre é capaz de cometer o mal, porque se é ético.
Carl Gustav Jung, pai da psicologia analítica, explicou que essa parte sombra, que todo ser humano tem, é tão feia que ela pode passar a vida inteira sem enxergá-la, mas isso não impede de uma pontinha dela vir à tona uma vez ou outra.
 
Então quando chamamos alguém de monstro nos desviamos da chance de entender que o ser humano pode ser mal e de vê-lo com suas partes obscuras, odiosas, envaidecidas, arrogantes, feridas, sofridas, cheias de dúvidas, dilemas e perdemos a chance de abrir possibilidades de questionamento de tantas certezas ingênuas e admitir que o mal vem do ser humano, como explica bem o Pathwork, uma corrente de pensamento da psicologia, o qual usa muitos ensinamentos da teoria Junguiana.
 
Se coloca os monstros em outro patamar para se diferenciar deles, pelo medo de se envolver e se igualar, porque dói ver tanta maldade no ser humanos, mas temos que encarar para transformar. Se deve ir a fundo e se perguntar aos pais: e quem cria e educa esse ser humano? Aonde você está quando esse ser humano se torna um monstro sem que você se dê conta? Dói porque ver a monstruosidade do filho remete a ter que entrar nas próprias feridas e nos próprios erros, na história familiar, nos segredos, nas convicções desmedidas e infantis, na vontade de ver no filho o que se quer e não o que ele está se tornando por conta da sombra dos próprio pais, na maioria das vezes. É por isso que sempre pergunto, quem se prepara para ter e educar filhos? É preciso encarar a verdade antes de levar adiante novas mentiras.
Tudo bem que é ficção, mas novela acaba servindo muito como exemplo, ela entra completamente na casa das pessoas, então não preciso nem falar aqui no que os pais do personagem Felix erraram ou falharam. Uma família cheia de segredos, uma mãe infantil, preconceituosa, que privilegia um dos filhos, que não quis enxergá-lo com suas sombra de dores trazidas da infância, um pai com uma sombra enorme e bem visível, que nunca o aceitou e o amou, e isso não justifica os crimes e maldades que ele cometeu, que fique bem claro que não defendo ninguém, se trata de clarificar para transformar a visão e criar o entendimento verdadeiro e não somente jogar culpas, como é a tendência.
Poderia aqui destrinchar todos os conceitos científicos de psicologia sistêmica familiar e mostrar como Felix se transformou nesse dito “monstro”, mas o texto ficaria mais longo ainda.
Nada justifica a maldade cometida por um adulto, mas vamos procurar explicações para melhorar o futuro ou vamos continuar chamando de monstros, os infelizes, cruéis e antiéticos, sem procurar mudar os valores igualmente cruéis que a sociedade alimenta? Valores esses que ferem e maltratam nossas crianças hoje, quando se considera melhor bater e punir, que ouvir ou procurar entender onde está o desconforto emocional delas.
E os casos reais? Nunca se falou sobre os pais de jovens que cometeram crimes contra eles. Não se trata de culpar ninguém, repito, o termo culpa é até infantil, mas se trata de rever conceitos e dar responsabilidades a quem as pertence a título de esclarecimento. Ninguém é perfeito. Por que o medo de questionar?
Outro conceito distorcido é o de psicopatia, que é uma desordem de personalidade caracterizada em parte por comportamento antissocial recorrente, diminuição da capacidade de empatia ou remorso e baixo controle comportamental ou, alternativamente, dominância desmedida.
Felix é neurótico e não um psicopata, até porque ele sente, e o psicopata tem como traço marcante a ausência de sentimentos. O neurótico é a maioria, como disse Freud, aquele que se sente inferior, desvalorizado e vê o outro sempre como superior. Felix sempre achou que a irmã fosse melhor que ele. O Psicopata se sente superior, mais inteligente e não tem fraquezas, mas Felix só usa a falsa crença de que é forte e superior para esconder a sua fragilidade e sofrimento por se sentir rejeitado pelo pai e usa essa dor de modo negativo sem buscar ajuda. Mas quantas pessoas não se sentem assim, por baixo, rejeitados, feridos, e passam avida inteira brigando, se escondendo dos outros e sofrendo? A neurose deve ser tratada, todos precisam de terapia, já a psicopatia não tem cura, só fazem efeito medidas sócio educativas.
As novelas trazem muitos conceitos subliminares negativos, mas trazem outros positivos, como ela vai ajudar ou desajudar vai depender da boa vontade, compromisso ético e o grau de conhecimento de quem assiste.
 
Por Cintia Liana Reis de Silva

terça-feira, 4 de junho de 2013

Maturidade para aceitar a evolução do pensamento humano


Getty Images
 
Por Cintia Liana Reis de Silva

Há algumas décadas se acreditava que os negros eram como animais, que não tinham a mesma inteligência dos homens brancos. Há tantos anos se acreditava que as mulheres não eram capazes e inteligentes como os homens. Ainda hoje existem tantos preconceitos contra a adoção, com as famílias adotivas, com as crianças que foram adotadas, acreditando que a adoção é uma filiação de segunda ordem e que as crianças adotadas terão como destino serem problemáticas. O mesmo absurdo, muito conveniente para a igreja, um pensamento ignorante, cometem aqueles que repetem e acreditam que os homossexuais não são pessoas sadias como os heterossexuais, que não têm capacidade de adotar, amar e educar bem uma criança, um filho.

Infelizmente ainda são tantas as pessoas que raciocinam com a cabeça da igreja católica e que não têm a liberdade de pensamento, não procuram estudar, ler, pesquisar, serão sempre escravos e vítimas dos que manipulam as mentes e o comportamento das grandes massas.

Mas não importa, mesmo que essas pessoas batam os pés como crianças birrentas e mal acostumadas, querendo ter razão como uma espécie de competição, de guerra para medir quem tem mais força, a ciência já provou que a homossexualidade não é uma doença ou uma disfunção e continua a estudar e a falar nos Países mais desenvolvidos e com as leis mais avançadas que as crianças que têm pais adotivos homossexuais são pessoas emocionalmente e intelectualmente tão sadias quanto as outras de famílias biológicas nucleares.

Lembrando que muitas famílias nucleares, ou seja, formadas por pais heterossexuais e filhos, também podem educar muito mal, serem agressivas, violentas e não saberem amar.

Ser um bom pai adotivo não é uma questão de ser homo ou heterossexual, e sim uma questão de maturidade e boa educação. Nós, psicólogos que avaliamos psicologicamente os candidatos a adoção, sabemos o que observar de importante e relevante nos adotantes. Com certeza podemos dizer cientificamente, com base na antropologia, sociologia, filosofia, medicina e psicologia, que uma família não é feita somente de um homem, uma mulher e filhos biológicos, mas sim de seres humanos que são capazes de ter o sentimento de pertencimento, que se aceitam por aquilo que são, que se respeitam e conseguem respeitar os outros porque têm um bom exercício de respeito em casa e sobretudo de seres que se amam. E aqueles que não querem viver ou aceitar essa verdade já provada estará sempre vivendo em atraso, de acordo com uma grande hipocrisia e a brigar com a evolução do mundo que, ainda bem, é inevitável.

O fato de fazer parte de um grupo do que chamamos de minorias, nos faz ao menos esperar que os homossexuais possam ensinar uma bela coisa a seus filhos adotados - que muitos pais heterossexuais estão esquecendo por não ter a capacidade de serem tolerantes - a respeitar as diferenças sem brigar com o mundo somente para provar a si mesmos que têm algum valor por ter razão, porque uma coisa é justa e muito boa, todos somos humanos, mas ninguém é igual.

É uma tristeza, um desgosto que ainda existam tantas crianças experimentando a dor do desamparo e da insegurança sem ter uma família em muitos Países com leis atrasadas, como as da Itália, por exemplo, também pelo fato de muitos ainda acreditarem que não poderiam ter pais homossexuais, talvez porque os seus governantes a muitos cidadãos, que não lutam para mudar as suas leis, já terem esquecido o que é ser criança.

Por Cintia Liana Reis de Silva

domingo, 16 de dezembro de 2012

Crenças equivocadas sobre parto e maternidade

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Muito se fala e repete sobre crianças, maternidade, parto e educação, mas quase todas as afirmações não passam de grandes mentiras, talvez para trazer mais conforto psicológico, comodidade aos erros alheios e menos culpa. Difícil é ver alguém indo pesquisar sobre um determinado assunto ou perguntando a um psicólogo. Fica mais fácil ouvir a repeição do senso comum, a opinião popular, baseada numa cultura capitalista, industrial e fria, que acredita naquilo que é mais lucrativo e vatajoso.
Os maiores equívocos que constato hoje estão relacionados à repetição de crenças baseadas em experiências pessoais ou o que se imagina, com origem na cultura e na fantasia. Mas muito do que falamos é o que queremos acreditar e não a verdade dos fatos. Muitas dessas crenças as pessoas nunca pararam para se perguntar de onde vêm e se são realmente válidas.
Nossa psiquê, por exemplo, nos passa a informação mais conveniente, a que nem sempre é real e quem nunca fez um trabalho de auto conhecimento, como uma psicoterapia, talvez nunca saberá quem é de verdade e quais são suas reais necessidades, feridas, dilemas e dificuldades.

Citarei alguns equívocos e mitos sobre parto e maternidade:
· “As mulheres esquecem a dor do parto” – Não, as mulheres não esquecem a dor do parto, apesar de ser uma dor muito forte. Comecemos por desconstruir a crença de que a dor do parto é negativa, pois ela não é, o sofrimento não é necessário, a dor sim. Ela é necessária neste momento de rompimento, pois transporta a mulher para outro nível de consciência, para outra dimensão e compreensão do momento de transformação pelo qual está passando. A equipe médica deve demonstrar proximidade e humanidade para que a mulher se sinta mais forte, evitando que situações de dor e medo se transformem em sofrimento e abandono. O nascimento de seu filho é  um momento de renascimento para ela, nasce uma mãe, e a dor faz com que ela entre em contato com suas necessidades, com as necessidades da criança, com a sua passagem e, sobretudo, abandone a realidade fria do hospital e dos procedimentos médicos, para pensar só em si e em seu bebê. O corpo tem memória, ele não esquece nenhuma dor, ela está alí, adormecida, mas foi necessária e é instintiva (GUTMAN, 2008).

· “O bebê nasce quando ele quer” – Não, o bebê nasce quando a mãe se dá conta de que está preparada, e juntamente com o bebê sentem a harmonia do momento oportuno de dar e ganhar vida. A psiquê materna está diretamente ligada ao corpo do bebê, este como continuidade dela, e se a mulher for sensível, pode ter um parto muito tranquilo e sereno, com a “cooperação” da criança.
        
· “O trabalho de parto rápido é o melhor” – Não, o parto rápido não é melhor que o parto lento, cada mãe e bebê têm seu tempo especial para fazer a “passagem”. Um trabalho de parto de 24 horas pode ser bom, depende de como a mulher vive aquele momento, sobretudo com consciência, aproveitando cada minuto para ser protagonista do seu processo e “reencontra-se mais autentica que nunca” (GUTMAN, 2008, p. 40). Se a mãe e o bebê precisam de 24 horas de trabalho de parto para que essa transformação aconteça, deixemos que seja assim, nada é por acaso, pode ser um processo de reconhecimento de uma situação e não podemos desrespeitar o tempo de cada mulher, ela deve ser a protagonista, a rapidez médica não importa. O parto não é um procedimento puramente cirúrgico, antes de tudo é um fenômeno humano para a vida.

· “Bebê no colo se torna dependente” – O bebê já nasce dependente. Hoje se criou uma mentalidade de que bebê que fica um pouco no colo se torna dependente, e foi esquecido que o contato direto com a mãe é algo essencial para o desenvolvimento biopsicosocioafetivo da criança, e que, se ela pede colo, é porque precisa daquele calor, da troca, do envolvimento amocional, é porque este envolvimento é necessário por algum motivo que nem sempre a mãe tem a capacidade ou a abertura para entender. Hoje os adultos censuram muito as crianças, como se elas fossem animalzinhos a ser adestrados, mas estão longe de conseguirem compreendê-las. É ideal que a criança crie um “apego seguro” (ler sobre a teoria do apego de Bowlby) com seus pais, caso contrário, isso se refletirá em seu mundo adulto, trazendo muitos prejuízos, em todos os níveis.
    
· “A bebê que chora muito não é bom” – O bebê que chora muito e adoece em continuidade está fazendo o favor de comunicar que algo não vai bem em seu ambiente. A fusão emocional com a mãe, que dura até aproximadamente os seus dois anos, faz com que ele sinta e expresse tudo o que não vai bem com ela, seus medos inconscientes, seu deconforto emocional, suas memórias negativas, suas dificuldades relacionais e qualquer rejeição que ela venha a sentir em relação ao filho, que normalemente está diretamente ligada a sua própria infância e a sua relação com sua mãe.
                        
· “Depois de parir a mãe deve se sentir feliz” – O pós parto é um momento delicado, onde cada mulher tenta reencontrar e se conectar com sua identidade, que entra em harmonia com a nova. É um momento intenso, difícil, contraditório, que pode ser triste e ao mesmo tempo feliz, um momento de ajustes psíquicos e hormonais, onde cada mulher vive da maneira que pode, de acordo com sua história de vida, devendo ser repeitada e ajudada com amor.
    
· “Não existe fómula para educar filhos” – Pode não existir uma fórmula, mas seguramente existe um caminho justo e, a depender a disponibidade interna, pode transformar-se num caminho simples. Antes de ter um filho, os futuros pais devem educar a si mesmos. Não serve de nada exigir agressivamente dos filhos aquilo que nem você consegue fazer. Muitas pessoas têm filhos para satisfazerem seus desejos, mas poucas se perguntam se podem dar mais que receberem, ou se estão prontas, completas e dispostas a darem uma base sã a quem vem ao mundo. Querendo ou não, os filhos são um reflexo de como vêm os pais, inclusive a parte negativa que muitas vezes nem eles mesmos se dão conta de que têm. É preciso trabalhar a relação com seus pais, pois esses modelos passam de geração em geração como também as feridas intergeracionais, sem as pessoas tomarem consciência da necessidade de mudar e criticar sua própria educação, que certamente não foi perfeita como se pensa. É necessário humildade para aceitar a imperfeição. Um bom exemplo é que os pais me procuram para atender em psicoterapia os filhos que apresentam dificuldades, mas poucos se colocam a disposição para entenderem no que podem estar errando com eles. O pai da teoria do apego disse, “é na hora de tornar-se progenitor que se reabrem feridas intergeracionais, e como dar ao filho algo que não se teve?” (SILVA, 2012).
               
· “Toda mulher nasceu para ser mãe” – Não, nem toda mulher quer ser mãe, nem toda mulher está pronta para ser mãe e nem toda mulher é uma boa mãe, isso vai depender da história familiar de cada uma, de sua base, de suas expectativas, de seu presente. Cada mulher vive a maternidade de um modo, ou seja, do modo que é capaz de viver, de acordo com seus referenciais de vida e cuida de seu filho do modo que pode, dando o que tem, baseado no que teve e no que reconhece em si.

·  “Mãe adotiva não é mãe de verdade” – Mãe adotiva é mãe. Não é necessário parir para se tornar e se sentir mãe, o amor maternal é desenvolvido a partir da intenção, consciência e convivência com a criança e ela se sente tão mãe como qualquer outra mãe que deseja o seu filho.
 
É muito fácil repetir crenças populares, acreditar no que nos dá mais conforto, mas o caminho correto é buscar conhecimento e sobretudo desenvolver autocrítica e sensibilidade para olhar o mundo e cada ponto com suas particularidades, independente do que aprendemos ou do que é mais confortável, é não ter medo e nem preguiça de pensar, sentir e refletir.

Referência:
GUTMAN, Laura. La maternità y el incuentro con la propria ombra. Buenos Aires: Editorial Del Nuevo Estremo, 2008.
SILVA, Cintia Liana Reis de Silva. Filhos da Esperança: Os Caminhos da Adoção e da Família e seus Aspectos Psicológicos. Salvador: Edição do Autor, 2012.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia conjugal e familiar, vive e trabalha na Itália, é autora de dois livros publicados no Brasil, seu blog conta com mais de 15.000 acessos ao mês, o www.psicologiaeadocao.blogspot.com.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Preparação e preconceitos: adotando crianças de outra etnia

Mandy Lynne

No caso de candidatos de etnia branca, o ideal seria que eles adotassem uma criança da mesma etnia para evitar que ela sofra descriminação da família extensa, e de outros segmentos da sociedade?

Por Cintia Liana Reis de Silva

É claro que aparentemente seria bem mais fácil a adoção de uma criança com características semelhantes as dos pais adotivos, para que diminuissem as chances de comparação e que não se evidenciasse tanto o elo não consaguíneo, porém só este pensamento já seria negar implicitamente ou esconder o elo puramente de amor e escolha consciente feitas no ato de se ter um filho através da adoção.

As pessoas não devem deixar de adotar filhos de etnias diferentes para não sofrerem com o preconceito, isso seria eceitá-lo, seria compactuar com ele, acatar a sua eterna existência. Quem alimenta preconceitos é que deve ser questionado e reeducado a entender de modo mais maduro o que chamamos de “diferente”.

No Brasil existem muitas crianças negras e pardas para serem adotadas e seria muita injustiça fazê-las crescer sem pais pelo simples motivo de não poderem ter pais brancos. Devemos lutar contra o preconceito, e uma das formas de fazer isso é não vivendo de acordo com ele, é enfrentá-lo no dia a dia de modo leve e seguro e não tomar outras estradas, se moldando de acordo com seus princípios, isso seria empobrecer demais a vida.

Pesquisas mostram que crianças sofrem preconceito por terem sido adotadas e não por terem uma cor de pele diferente da dos pais.

Os pais devem dar uma base muito segura para que a criança encare essa diferença como algo natural, é um processo cotidiano. Existem sim outros pontos neste cenário, como o modo como esta criança lida com essas diferenças, mas a segurança dos pais é passada de modo sutil ao filho dentro do lar, nos mínimso detalhes, como na postura e no olhar.

Quanto mais preparados, seguros e bem resolvidos são os pais mais eles estarão protegidos por este clima de certeza deste amor e desta coesão familiar. Quando é desenvolvido a  certeza e tranquilidade frente as facetas da adoção nada pode abalar o núcleo familiar, no máximo pode ser motivo de diálogo e maiores descobertas desses fenômenos sociais.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em casal e família, trabalha com adoção há 10 anos. Vive na Itália.