"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sábado, 29 de outubro de 2016

Carta a uma professora (Artigo escrito na Itália)


 Carta a uma professora
(Escrita na Itália)

Por Cintia Liana Reis de Silva

Cara professora, gostaria de dizer que o meu marido respeitamos o seu profissionalismo e o seu conhecimento, mas adotamos uma atitude diferente da maioria das pessoas, especialmente ao que se refere à educação infantil.

A senhora nos fez entender que devemos impor à nossa filha de permanecer na escola mesmo se, em alguma ocasião, seja contra a vontade dela. Para nós, as crianças devem ser vistas independente de nossas pretensões. Se são respeitadas, as crianças aprendem o verdadeiro significado de respeito. Me baseio na complexa teoria do apego de John Bowlby e na psicologia do desenvolvimento para afirmar algo do tipo. O respeito pela minha filha está acima de qualquer protocolo ou etiqueta. Nós respeitamos o seu tempo e seus sentimentos. Ela nunca será forçada a ficar por obrigação, porque neste período, antes dos 5 anos, a escola deve ser apenas um prazer, porque, felizmente para nós, não precisamos de uma estrutura de apoio para deixá-la, já que podemos ficar com ela pela manhã, por isso a escola deve ser somente uma alternativa válida a mais.

Olhando para a nossa sociedade, o que se vê é uma declarada presunção, um grande autoritarismo de adultos que ainda precisam crescer, quando nos atrevemos a dizer o que é "normal" ou não, o que é "saudável" ou não, ignorando a idade da criança e as suas peculiaridades, culpando os pais de não dar limites, como se uma criança precisasse só de limites. Quantas pessoas já leram sobre a “ansiedade de separação”, por exemplo? As crianças não devem ser soldadinhos ou robôs, são sujeitos de direitos e estão desenvolvendo agora a sua autonomia psíquica. Se uma criança está indo bem na escola, com pessoas que passam segurança e afeto, e se a vida familiar vai bem, ela se sente segura e irá voluntariamente para a escola, mas se ela não quer ir ou é porque ela é muito imatura e tem necessidade de ficar com a mãe por uma necessidade existencial e vital, para desenvolver a confiança antes de enfrentar a vida ou é porque há uma real ameaça, e temos de tentar entender o que acontece. Porque mesmo contra os interesses egoístas dos adultos, aquilo o que as crianças sentem é importante e, necessariamente, deve ser, porque são seres humanos e sentem, tantas vezes muito mais do que nós, pobres adultos, que aprendemos a sentir e a intuir sempre menos, sempre mais insensíveis, em uma sociedade que nos faz perder nossas qualidades mais sutis, aquela de compreender, de olhar, de esperar e de amar, em detrimento do dinheiro.

Se a senhora fosse mãe ou pudesse ouvir e ver algumas das minhas pacientes que choram por culpa e tristeza e se queixam de ter de deixar o seu filho na escola que choram copiosamente, porque não têm outra alternativa, porque elas têm que correr para trabalhar, "sentiria" melhor o significado das minhas palavras. As mães inteligentes que se abrem para viver esta experiência de maneira verdadeira e que escolhem fazer terapia para serem mais conscientes de sua maternidade e de si mesmas, sabem que, quando levam os seus filhos para a escola, inevitavelmente, entraram em contacto com as suas antigas feridas infantis e traumáticas da primeira escola. E acredite, a escola, antes da idade certa, é sempre, sempre um trauma.

Pais e professores deveriam conhecer os diferentes tipos de choro. Uma criança geralmente não chora por manha, como insiste o senso comum, mas por uma sensação de impotência, de incapacidade de reagir de uma maneira efetiva e decisiva diante de uma frustração, o que para nós pode não ser nada, mas que para ela pode ser um sentimento monstruoso. O pranto de medo, por exemplo, é aterrorizante. Os adultos também  choram em uma grande variedade de situações, por raiva, humilhação, culpa ou ansiedade, após uma falha, um conflito, uma decepção ou desânimo, por empatia, de alegria e não apenas por um capricho. E quantos adultos caprichosas encontramos... Esses sim, sabem fingir muito bem e manipular, porque têm esse padrão de comportamento, mas as crianças são transparentes, mesmo quando "fingem" de maneira tão ingênua.

Minha filha nunca chorou e nem adoeceu, porque é segura, porque sabe que dentro de casa tem diálogo e não há brigas ou gritos, porque acolhemos os seus limites, porque sente que estamos do seu lado, porque tentamos compreendê-la sem preconceitos, porque sabe que receberá ajuda quando tiver necessidade e não quando nós pretendemos, consequentemente não alimenta o fantasma de ser abandonada em nenhuma situação e certamente será uma grande mulher, forte, amorosa e muito segura do seu valor, daquilo o que ela representa para a sua família, que deve ser a sua primeira base segura na vida, para sentir o mundo inteiro tornam-se para ela uma terra onde se sentirá aceita e acolhida, um mundo com o qual ela poderá argumentar e relacionar-se sem medo e sem raiva de ser ignorada, e se acaso for, fará como a mãe, talvez escreverá uma carta respeitosa ou um artigo científico para alertar as pessoas sobre a necessidade de não perderem nunca a humanidade.

A sociedade ainda precisa evoluir muito, sem o medo de sentir, e estudar o suficiente para acompanhar a sutileza da comunicação das crianças. As pessoas que ignoram as crianças são talvez aquelas que são inconscientes da raiva que nutrem de não terem recebido o suficiente de seus pais. E aquilo o que não se tem na infância permanece pendente e nunca será satisfeito na fase adulta. Para se criar bem uma criança é necessário generosidade, sensibilidade, coragem de enxergar-se e uma ampla visão.


Cintia Liana Reis de Silva é uma psicóloga brasileira. Autora de dois livros. Vive e trabalha na Itália desde 2010. Tornou-se um dos quatro psicólogos mais conhecidos no Brasil, experts em adoção, chamada de "Fada da Adoção" pelos meios de comunicação e pelos pais pela sua postura ativista na causa de menores. Formou-se no Brasil em 2000, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, São Paulo, Brasil, uma das melhores universidades do país. É especialista em psicologia de casal e família. Trabalha também com a terapia familiar, bem como a terapia individual com adultos e crianças filhos e com orientação aos pais. Respondeu a dezenas de entrevistas sobre psicologia, adoção e da família na TV, jornais, revistas nacionais e locais e portais internet. É citada em vários livros e artigos nos meios de comunicação e em teses acadêmicas no Brasil e em Portugal. Contribui para pesquisas e teses sobre temas relacionados à infância e à adoção. Seu blog www.psicologiaeadocao.blogspot.com recebe mais de 20.000 visitantes ao mês.

quinta-feira, 10 de março de 2016

8 frases para nunca dizer em discussões na frente das crianças

Uma matéria muito útil em que fui uma das fontes entrevistadas.

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Brigar na frente dos filhos sempre é ruim, mas certas frases não devem ser ditas

Matéria Portal UOL, SP - 10/03/2016
Casais que brigam na frente dos filhos, sejam crianças ou adolescentes, transmitem a eles não apenas um profundo sentimento de insegurança e mágoa, mas também um exemplo de conduta inadequado.
Os conflitos só geram algum tipo de aprendizado para a criança quando os pais conseguem manter o respeito, mesmo que não partilhem do mesmo ponto de vista. "É possível discordar sem ofender. Quando está difícil segurar as emoções negativas, o melhor é se afastar e deixar a discussão para depois, quando os filhos não estiverem por perto", afirma a pedagoga Taís Bento, especialista em aprendizagem pela Universidade de San Diego.
É nessas horas que é preciso evitar reações desmedidas e frases de efeito, muitas vezes ditas sem pensar. Além de magoar o outro, elas podem ferir –e muito– as crianças, que nada têm a ver com a situação.
A seguir, veja o que não dizer nem mesmo sob forte emoção, se quiser poupar seus filhos.




1

 

"Foi você quem quis ter filhos"

"Então, eu não fui desejado pela minha mãe ou pelo meu pai?" É isso o que pensa uma criança ou adolescente ao ouvir essa frase, segundo a psicóloga Cintia Liana Reis de Silva, uma das fundadoras do Grupo de Trabalho de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia e do Sergipe. "Nesse momento, o filho poderá se considerar um erro e sentirá que não merece ser amado", afirma. Como consequência, a criança pode até desenvolver um complexo de inferioridade por conta da rejeição.


2

 

"Se continuar assim, vamos ter de nos separar"

A insegurança que se instala em crianças ou adolescentes que escutam essa frase pode afetá-los futuramente. "Da adolescência para a vida adulta, o sentimento pode desencadear o medo de se relacionar", declara o psicanalista Paulo Miguel Velasco, professor do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, Ciências Humanas e Sociais.


3

 

"Só não me separo de você por causa das crianças"

Dizer isso na frente dos filhos é jogar uma enorme responsabilidade nas costas de quem não têm nada a ver com a relação do casal. "O filho pode passar a ter um comportamento que visa apenas o bem-estar dos pais. Mais tarde, se o casal decidir pela separação, o peso da culpa e o sentimento de fracasso poderão perdurar na criança até a vida adulta", afirma Taís.


4

 

"Se você não mudar, vou embora e não volto nunca mais"

A criança pode levar a frase ao pé da letra e, ao considerar que um dos pais se ausentará, o risco de desenvolver um quadro de ansiedade aumenta. "Nessa situação, a cada separação do pai ou da mãe, o medo de que a pessoa não volte dominará a criança", diz Taís. Em casos mais graves, o filho pode resistir a sair de casa por ter medo de que, ao retornar, não encontrará mais o responsável pela ameaça. "Há crianças que desenvolvem medo de ir à escola e até de passear na casa de familiares e amigos por conta desse tipo de experiência", afirma a pedagoga.


5

 

"Você não está nem aí para as crianças"

Quando escuta essa frase, a autoestima do filho vai lá para baixo. Ele conclui que não é importante o suficiente para o pai ou a mãe. "Geralmente, depois das brigas, o casal que se ama contorna a situação e fica tudo bem. Já a criança pode ficar fragilizada e assustada por vários dias", diz Velasco.


6

 

"Nosso filho puxou a preguiça de você"

Nada de positivo pode ser tirado de comparações negativas como essa. O filho pode tomar como verdade absoluta o rótulo criado pelos pais --de preguiçoso, esfomeado ou desleixado, por exemplo-- e persistir no comportamento criticado. Outro risco é a criança entender que o pai ou a mãe não servem como exemplo e, portanto, devem ser rejeitados.


7

 

"Não fala mais comigo, quero distância de você"

Ainda que a frase faça menção ao par, a criança pode sentir medo de que o sentimento seja transferido para ela. "A rejeição é um prato cheio para o desenvolvimento do isolamento e da depressão", diz o psicanalista.


8

 

"Nunca vou perdoar você por isso"

A palavra "nunca" tem um impacto forte demais para a criança. "Por não ter maturidade para lidar com conflitos, ela passa a viver em constante estado de alerta, já que fica ansiosa para saber como será o próximo momento em família", afirma a pedagoga.

Fonte: http://mulher.uol.com.br/gravidez-e-filhos/listas/8-frases-para-nunca-dizer-em-discussoes-na-frente-das-criancas.htm

sábado, 11 de abril de 2015

O que acontece na infância, não fica na infância…

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Por Carolina Vila Nova
Há tempos, sabemos da importância da infância para uma vida adulta feliz e saudável. Recentemente, li algo sobre o assunto, que citava o seguinte exemplo: se uma criança, que chora e pede para ser alimentada, é ignorada pela mãe no momento do choro, mas é atendida quando espera em silêncio, esta criança grava em seu subconsciente, que quando quer alguma coisa não deve pedir e nem chorar, mas esperar, pois alguém vai perceber sua necessidade apenas em seu silêncio. Achei o exemplo esplêndido, porque apesar de fazer muito sentido e parecer lógico, é algo tão cruel, que eu não havia pensado nisso. Esta criança se tornará um adulto que não luta pelo que quer, mas que espera silenciosamente. Percebi o quanto pequenas atitudes podem influenciar o comportamento de um individuo a sua vida inteira, sem que o mesmo nem se dê conta.
Certa vez, tive a seguinte experiência com vizinhos de apartamento: as paredes não eram maciças o bastante para abafar os sons mais altos. Todos os dias, a mãe das crianças parecia um anjo enquanto o marido estava em casa: falava baixinho e parecia a melhor mãe do mundo, além de esposa exemplar. Porém, assim que o marido saía de casa, a mulher começava a gritar freneticamente com as crianças. Por vezes, trancava-as no banheiro ou no quarto para limpar a casa. O caso era claro: o casamento não ia bem, a mulher estava sempre competindo com a ex-mulher do marido e tentava a todo custo manter a casa na mais perfeita ordem. Quando o homem chegava em casa, a mesma estava impecável e a mulher parecia ser tranquila.
Eu me pergunto: o que aquelas duas crianças vão levar para suas vidas adultas sobre essas experiências com sua mãe? Será que sempre verão no pai, o falso herói, que era capaz de transformar a mãe nervosa em uma pessoa calma e prestativa? Será que se darão conta algum dia, da oscilação terrível de humor a que eram submetidos diariamente, por conta da insegurança da mãe? De que forma esse tipo de experiência afeta a vida das pessoas quando já adultas? Será que todo estudo de psicologia e psicanálise nos permite mesmo olhar para trás e trabalhar o que nos foi feito quando ainda éramos tão vulneráveis e vazios de aprendizado?
Não conheço as respostas para essas questões, mas gosto das dúvidas que elas proporcionam. Conheço uma psicóloga que decidiu pausar sua vida profissional, quando se tornou mãe. Ela sabia da importância fundamental dos dias infantis de sua filha, para que a mesma pudesse se tornar uma adulta feliz e segura, sem traumas e com comportamentos oriundos de uma infância mal vivida. Certamente, muitas mães fariam o mesmo, se soubessem do grau tão elevado de importância da infância, na vida de um ser humano.
Quer um filho saudável, feliz e bem sucedido? Proteja sua infância. Viva seus dias com ele e para ele. O proteja de atitudes bobas como a da mãe que maltratava seus filhos, toda vez que o marido saía de casa.
Ser criança é ser um indivíduo vazio, pronto para aprender com seus pais, absorvendo tudo, sem possibilidade de filtrar o que é bom e o que é ruim. Se na maioria das vezes, nem mesmo os pais percebem o quão falhos são, quem dirá as crianças?
Não somos responsáveis por nossa infância e nem pelo que fizeram conosco. Sobre isso e para isso, utilizamos os recursos da psicologia. Mas somos sim, totalmente responsáveis pela infância de nossos filhos.
Que todo amor seja destinado aos nossos. E quando necessário, vale buscar ajuda profissional, já que o assunto é tão sério, delicado e difícil.
Porque o que acontece na infância, não fica na infância.
Mas fica… para a vida toda!
Fonte: http://www.contioutra.com/o-que-acontece-na-infancia-nao-fica-na-infancia/

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Por que crianças até 10 anos não deveriam sofrer



Google Imagens

Por Cintia Liana Reis de Silva


Quanto mais me aprofundo no estudo da mente humana e infantil constato que adultos e crianças são vítimas de uma educação completamente equivocada, desrespeitosa, onde ainda não existe espaço para a psicologia, a ciência da mente.

A minha preocupação central neste texto é explicar porque crianças até os 10 anos não deveriam sofrer ou experimentar vivências traumáticas, de estresse ou de tristeza. Mas isso é possível? E Porque? Sim. É possível criar um ambiente saudável e sereno para o crescimento dos filhos, conhecendo a mente infantil, e isso vai depender da saúde emocional dos pais e do preparo que tiveram e buscam para viver este papel.

E porque crianças não deveriam sofrer? Estudos clínicos já estabelecem a profunda relação entre as patologias modernas, dependências, impulsos, etc, com a vivência de sentimentos negativos na infância, até os 10 anos de idade.

Experiências traumáticas são todas as experiências que trazem sentimentos desagradáveis à mente infantil, ao contrário do que se pensa comumente, que se tratam somente de experiências muito fortes na ótica do adulto. Acontece que na ótica da criança existe uma amplificação do impacto do sofrimento, por causa da vulnerabilidade emocional e pelas características da sua própria estrutura mental imatura.

Posso dar exemplos de traumas, como: Separação dos pais, onde ela é privada de conviver mais ativamente com umas das figuras e não entende bem a situação, confundindo com abandono e sentindo intensamente como tal; o desmame abrupto ou quando a criança ainda não está pronta; quando é obrigada a ir e a ficar na escola nos primeiros dias, sem que ela queira ou que haja um período de adaptação; quando tem pais competitivos, que medem forças com ela por medo de não desenvolverem o senso de autoridade e impõem o uso do poder em pequenas tarefas e situações do cotidiano causando pequenas brigas, ao invés de flexibilizar quando se deve para que não ocorra conflitos; a falta afetiva de uma figura paterna ou materna (mesmo que substitutiva); ser obrigado a dormir na própria cama quando se está com medo de dormir sozinho por algum motivo, chegando a vivenciar uma sensação de pânico, como num centro de concentração; chorar muito e repetidamente no berço nos primeiros meses de vida, quando o natural é querer colo e o aconchego dos braços maternos; ser abusado sexualmente, etc. Não digo que a criança não deva se frustrar, a frustração faz parte da vida, o "não" também, eu falo de sofrimento desnecessário. Essas tristezas, choros e faltas para a mente infantil são monstros que se criam e crescem, verdadeiros vazios, lacunas que nunca mais poderão ser preenchidas em outros momentos ou etapas da vida do indivíduo.

Devo lembrar que crianças castigadas ou maltratadas desenvolvem uma falta de integração do ego, que fica isolado sem ser sintetizado ao interno da memória autobiográfica. (CARETTI e BARBERA, 2012)

Essas e outras experiências traumáticas vividas na infância podem patologizar as defesas dissociativas, isto é, as tendências naturais do sujeito de regular suas emoções de modo saudável. Essas defesas dissociativas têm uma função mental que possuem mecanismos que colocam em reparo a consciência ordinária através de um excesso de estímulos dolorosos, quando ao mesmo tempo recebe uma carga de hormônios característicos. (CARETTI e BARBERA, 2012)

Quando os traumas e tristezas que as crianças são submetidas colocam abaixo as defesas naturais, o adulto de amanhã encontra-se sem defesas para suportar estresses do presente e as memórias passadas, que não são esquecidas jamais, ao contrário, elas latejam pela eternidade e aparecem, mesmo que inconscientemente, em novas situações que lhe parecem já conhecida, como nas novas relações amorosas pode reaparecer o medo de ser abandonado ou o sentimento de rejeição, por exemplo.

A figura de apego deve passar segurança e constância, como também ser uma base de bons sentimentos, para que a criança desenvolva uma mente organizada e diminua as chances de um déficit metacognitivo nessa dialética. A desorganização psíquica emerge de um apego traumatizado e incide na capacidade de integração de aspectos emocionais e da experiência. O sentido de desintegração psíquica é provocado pelas emoções dolorosas. (CARETTI e BARBERA, 2012)

A formação do adulto maduro depende diretamente da boa relação com as figuras de base e do nível de maturidade dessas.

Essa desorganização, desintegração psíquica, a vulnerabilidade ao estresse, provocadas pela falta das defesas dissociativas em virtude das experiência traumáticas e desgostosas infantis levam o indivíduo ao craving, conceito muito analisado na literatura científica, e foi definido como uma “urgência patológica”, uma “fome irresistível”, uma “necessidade imperiosa”. (CARETTI e BARBERA, 2012)

O craving é visto nas dependências comportamentais ou de substâncias, como de substâncias estupefacientes, nos toxicomaníacos, como alcoolistas, usuários de drogas; nos maníacos por compras, sexo, internet, assim como nos impulsivos e obsessivos, que podem estar nesses maníacos já citados; ou até nos que se sentem desconfortáveis socialmente, buscando o isolamento por ser incapaz de relacionar-se de forma prazerosa com os outros. Ou seja, o craving é encontrado em uma dependência patológica, na qual o indivíduo tem um desejo incontrolável através um estímulo de reforço como forma de atenuar as suas dores e frustrações, já que as suas defesas naturais lhe foram tiradas lá no início de sua vida com os sofrimentos vividos.

Existem muitos tipos de terapias, métodos e técnicas terapêuticas que podem trabalhar esses traumas de forma rápida e eficaz, como as constelações familiares, a terapia floral, a somatic experiense, o Acess Bars, o EFT, a Logosintesi, etc. Em alguns casos, é necessário o uso de farmacoterapia atrelada ao tratamento psicológico, porém devo dizer que o acompanhamento psicológico é a saída mais saudável e é insubstituível, porque o indivíduo precisa se conscientizar de seu processo e resignificá-lo. É preciso se dar conta e tocar nessas feridas para curá-las.

O adulto feliz, maduro, que busca se realizar e ter um equilíbrio emocional de um modo mais fácil, normalmente foi uma crianças que cresceu sem precisar guerrilhar e combater tanto com pais infantis, egoístas, competitivos e raivosos. Todo ser humano tem traumas, mesmo que não os tenha visto ou se dado conta ainda, alguns mais, outros menos e se acredita muito na capacidade de resiliência desse ser humano. O importante é conhecer-se para crescer e se preparar para ter filhos mentalmente saudáveis para serem adultos felizes.

Quem já tem filhos, cuide hoje do adulto de amanhã. Consulte sempre um psicólogo, pois o médico conhece e cuida somente do físico, o psicólogo entende e cuida da mente, e eduque com consciência, justiça e respeito.

Referência: Caretti, V e Barbera, D. La. Le nuove dipendenze: diagnosi e clinica. Carocci Editore, Roma, 2012.


Cintia Liana Reis de Silva, psicóloga, especialista em psicologia de casal, família, infância e adoção, seu blog recebe mais de 15.000 visitantes ao mês, o http://www.psicologiaeadocao.blogspot.com.