"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

sábado, 22 de maio de 2010

Adoção: Um direito de todos e todas

Foto: Getty Images

Postarei aqui a publicação completa "Adoção: Um direito de todos e todas".
Trata-se de um material produzido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), uma compilação de sete artigos de psicólogos das mais diversas linhas teóricas, com reconhecida produção e atuação profissional sobre adoção homoparental.

Adoção: um direito de todos e todas. Conselho Federal de Psicologia (CFP). -- Brasília, CFP, 2008. 52p.

É permitida a reprodução parcial ou total deste documento por todos os meios, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial.


O Conselho Federal de Psicologia e a Comissão Nacional de Direitos Humanos do CFP esperam, com esta cartilha, trazer as contribuições da Psicologia para tão importante e atual discussão e, desta forma, auxiliar na concretização dos direitos já obtidos por meio da Constituição Federal Brasileira.

Na elaboração desta publicação, buscamos psicólogos das mais diversas linhas teóricas, com reconhecida produção sobre o tema e atuação profissional. Estes representam, também, as diversidades regionais do país. A eles foi solicitado responder à seguinte pergunta: o que você tem a nos dizer sobre a adoção por pessoas homossexuais e/ou casais homoafetivos?

Ao final do documento são encontrados os fundamentos jurídicos e a jurisprudência nacional e a respeito da questão.

Para falarmos, hoje, sobre a adoção por homossexuais ou em casamentos homoafetivos, é preciso dar visibilidade para as novas relações, para os laços sociais e para as configurações familiares, na contemporaneidade. Mas, acima de tudo, faz-se necessário desconstruir preconceitos, muitas vezes estimulados por conceitos estigmatizantes, formulados anteriormente pela própria Psicologia. Ao contrário, como poderá ser constatado nos artigos aqui apresentados, inexiste fundamento teórico, científico ou psicológico condicionando a orientação sexual como fator determinante para o exercício da parentalidade.

Discute-se, sim, as condições subjetivas de pessoas, de qualquer orientação sexual, para desempenharem os papéis de pais e de se vincularem afetivamente a crianças ou adolescentes.

É sempre importante lembrar a Declaração Universal de Direitos Humanos, que completará 60 anos em 2008: livres e iguais em dignidade e direitos nascem todos os homens e todas as mulheres. Portanto, desejamos contribuir para que as conquistas dos direitos dos gays e lésbicas não sejam somente garantias legais, mas direitos efetivamente vivenciados.

Intentamos, também, possibilitar que, cada vez mais, crianças tenham o direito de possuir uma família, onde recebam afeto e cuidados, independentemente do tipo de formação desse núcleo familiar.

Lembramos que a origem da palavra adotar, vinda do latim adotare, significa “optar ou decidir-se por, escolher, preferir”. Neste sentido, escolhemos, preferimos e nos comprometemos com a construção de uma sociedade igualitária, justa, inclusiva, livre de preconceitos e mais fraterna, onde as diversidades e as diferenças sejam realmente respeitadas.

Brasília, junho de 2008.
Humberto Verona
Presidente do Conselho Federal de Psicologia
Ana Luiza de Souza Castro
Coordenadora da CNDH do CFP

Vamos conhecer mais o assunto.

Por Cintia Liana

sexta-feira, 21 de maio de 2010

E-mail de Duas Mães

Foto: Gatty Images
Resolvi postar aqui dois e-mails que recebi há algum tempo. Não quero guardá-los só para mim, pois tenho orgulho deles. São sementes que plantamos que se transformam em flores e nos dizem que estamos dando o melhor de nós. Amigos que conquisto nesta caminhada da adoção, verdadeiras riquezas que não têm valor estimado.

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Olá a todos,
me chamo A.C., sou de Salvador, mãe de 2 lindas crianças (7 anos - biológica e 3 anos - adotiva) ambas igualmente amadas e desejadas, e grávida de outra menina para completar o trio das superpoderosas.
Também sou advogada e atuo junto a Vara da Infância e Juventude nos processos de adoção, em especial os internacionais, em conexão com duas agências italianas.
Por experiência com diversos casais de outros estados desde 2002, acredito realmente que somos privilegiados pela ótima atuação do juizado de Salvador.
Quero agradecer ao convite de Cintia, psicóloga maravilhosa que moralizou e revolucionou o setor de psicologia do juizado, especialmente por sua sensibilidade ao lidar com as crianças e os casais na espera do encontro da família.
Um abraço aos casais em espera, fase de grande ansiedade, mas, como em qualquer gestação, de extremo aprendizado e preparo para o recebimento do filho.
bjs,
A.C.

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Foto: Facebook

Querida Cintia,

Às vezes, a vida nos dá alguns motivos pra chorar, nessa hora nós não sabemos bem o que fazer e nem pra onde ir. Mas quando a vida nós dá vários motivos pra sorrir, com certeza tem alguém muito especial por trás dessa felicidade, no meu caso, essa pessoa é você.
Você não é apenas uma psicóloga, você é uma grande amiga, uma fada madrinha, que realiza sonhos e que transforma pessoas em pais e crianças filhos, "você tem noção do que é isso"? Você é um presente que Deus enviou a terra e com toda certeza apenas os merecedores chegarão a você.
Nosso filho é a coisa mais importante de nossas vidas, ele é a flor que faltava pro nosso jardim.
Um grande beijo.
Obrigada por tudo, nós te amamos muito.
Jaci

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Pessoas especiais que são parte integrante de minha vida. A adoção proporciona coisas maravilhosas a todos que estão envolvidos nela.

Como disse Mônica Montone citando Walt Whitman: “‘Eu não faço nada por obrigação, eu faço por impulso de vida’ [como haveria eu de fazer por obrigação os gestos do coração?].”

"Eu até que gostaria de ser uma máquina de criatividade que jorra palavras, sentimentos, esperança, sabores e aromas ao vento todas as manhãs, mas sou apenas um ser humano inquieto com alma de criança - não me contento com uma bala de marmelo, quero sempre provar os outros doces da loja, mesmo que minha barriga doa ao final do passeio.” (Montone)

Tudo o que compartilho com as famílias também me deixa muito feliz e alimenta minha alma de criança que sonha com a felicidade das outras crianças.


Por Cintia Liana

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Consultoria em Adoção para Brasileiros e Estrangeiros

Fotos: Getty Imagens e Google Imagens. Painel: Cintia Liana

"O milagre da vida é o amor."
[Il miracolo della vitta è l'amore]
Cintia Liana

Prezados leitores,

após ter recebido diversas solicitações venho informar que além de tirar dúvidas por e-mail, aceitar sugestões de posts, dar entrevistas a estudantes de graduação e pós-graduação de diversas áreas e indicar as mais diversas leituras sobre o tema aqui proposto, informo que passo a dar consultoria a pessoas que desejam adotar e pretendem tirar dúvidas, este último é em caráter particular.

Após todos esses anos trabalhando com adoção, já acompanhei mais de 2.000 famílias no processo de adoção, não só na época em que fui perita de uma Vara da Infância, mas também na clínica, com acompanhamento psicológico e, após o blog, meu trabalho na internet se tornou demasiadamente extenso e tomando grande parte do meu tempo. As pessoas solicitam um tempo individual, onde eu me debruce em cima de casos específicos, então resolvi me dedicar a essas consultas on line, onde procuro tirar todas as dúvidas de pessoas que desejam adotar crianças brasileiras, são pessoas não só de todo o Brasil, como também da Itália, EUA e Portugal.

Não se trata de psicoterapia e sim de um atendimento personalizado de consultoria voltado para as dúvidas sobre adoção no Brasil, todo o processo burocrático, indicação de profissionais sérios, entidades de adoção internacional até informações sobre como se dá o contato do ponto de vista psicológico com a criança e o que pensam os profissionais das Varas da Infância e Juventude, psicólogos, assistentes sociais, promotores, Juízes e advogados.

Aproveito e lembro que a via direta para a adoção é a Vara da Infância e Juventude de sua cidade. Não eceite indicação de pessoas querendo doar filhos. Quem quer doar o filho para a adoção deve procurar também uma vara da Infância e este órgão é quem tem poder para unir o adotante ao adotado atrávés de medidas legais. Essas medidas legais são importante para que se preserve a segurança dos adotantes e adotados. É necessário para que se evite o possível tráfico de crianças. Tudo deve ocorrer no contexto legal, inclusive o primeiro encontro com a criança disponível para adoção, que é o Judiciário que tem poder para indicar.

As consultas via skype pelo endereço "adocao" são de 40 minutos e devem ser agendadas inicialmente via e-mail: cintialrdesilva@yahoo.com.

Por Cintia Liana

Adotar crianças maiores é mais difícil?

Foto: Getty Images

A relação com os pais adotivos será tão importante para a formação do caráter quanto o que aconteceu no passado difícil da criança, observo que até mais, pois estes é que irão conduzir a relação que esta criança terá com esse passado, a relação com o presente e a auxiliará no seu futuro.
Cintia Liana


Pais e futuros pais, fiquem atentos! Ao invés de viverem numa ansiedade infinita tentando entender até que ponto uma criança maior trás ou não traumas do seu passado e do abrigo e os vive na família, pensem antes de tudo em amadurecer, em trabalhar seus medos e dúvidas porque, em minha experiência, vejo que a base que os pais adotivos darão ao filho é mais forte que tudo.

Um filho com problemas é alguém que depende de seres humanos, de pais adotivos, que possivelmente não estão sendo capazes de lhe dar uma base suportiva eficaz, suficiente para dar conta de suas inseguranças, assim também acontece na paternidade biológica.
A criança pode vir com uma gama de problemas enormes da instituição e ser altamente otimista e resiliente mas, mesmo que não seja assim, e reaja com violência, se ela encontrar futuros pais preparados tudo será mudado.

Em meu trabalho posso perceber que a responsabilidade dos pais adotivos é imensa, pois as crianças esperam deles a base, a segurança que terão para se expressar, se fortalecer e crescer.

Adotar uma criança maior não é mais difícil, ao contrário, pode ser muito tranquilo, ela já vem sabendo de muitas coisas e com o desejo consciente de se tornar filho. Se ela tiver algum problema depois porque tem que ser atribuído a adoção? Toda criança, em algum momento, tem problemas de comportamento, de obediência, dificuldade com autoridade a depender do momento e da forma que lhe é colocada, mas se é adotiva é somente por conta disso?
Já ouvi de uma professora infantil que a única criança adotada na escola era muito carente, pegajosa e desobediente e que ela achava que era por "culpa" da adoção. Daí eu perguntei se esta criança era a única com problemas de comportamento na escola, se havia outras com comportamento parecido e ela falou que sim, com comportamento até pior, então perguntei: e se estas não são adotivas, era por responsabilidade de quê o problema de comportamento? Ela não soube me responder. No final, concordou que estava "culpando" a adoção por tudo.

Engraçado que quando um adolescente, filho biológico, apresenta problemas com drogas, é algo normal, mas se um adolescente, filho adotivo, tem o mesmo problema a "culpa" é da adoção. 
Entendo que há uma série de fatores na vida que nos levam a seguir caminhos, é uma dilética eterna entre o meio e a nossa personalidade, temperamento, caráter, livre arbítrio, oportunidades, mas a relação com os pais é fundamentalíssima neste processo, sejam eles adotivos ou biológicos.
Suzane Richthofen não era filha adotiva, mas se o fosse todos diriam que fez tudo aquilo por ser filha adotiva, por não ser "filha de verdade". Interessante foi que ninguém tentou entender como essa criatura foi criada pelos pais, como foi educada, encaminhada para a vida e para as relações. As pessoas só querem culpar e não entender para crescer.

A nossa cultura ainda é respaldada no paradigma da simplicidade e que vem acompanhada do preconceito. Não devemos ter medo de pensar, complicar, descomplicar, perguntar, conversar, ler, estudar, temos que entender o processo das coisas e não errar por preguiça ou medo do saber. Lembrem também que exsite terapia. 
Quero dizer que não adianta culpar a adoção ou a inexistência de laços biológicos, no final das contas o ser humano é uma soma do que vemos e do invisível, a subjetividade é infinita, mas a relação com os pais adotivos irá seguramente ser crucial na vida do adotado, as mensagens subliminares, entendimentos subliminares, além do desejo próprio de cada pessoa.
Em todo caso, o adotante é que passará a conduzir toda a relação que a criança terá com seu passado, que tem com o presente e que terá com seu futuro e isso é mais forte que tudo.


Por Cintia Liana

domingo, 16 de maio de 2010

Coração e Verdade

Foto: Facebook

Encontrei este texto no Portal da Família e resolvi postá-lo. Vem fortalecer as nossa últimas leituras sobre a importância da verdade.


Por Mercedes Malavé Gonzáles

O que vou dizer agora não é uma metáfora, apesar de parecer um pouco abstrato: não existe nada neste mundo que seja mais purificador para o coração do que a verdade: a verdade acerca de nós mesmos - daquilo que realmente somos -, a verdade acerca das pessoas e dos compromissos assumidos.

O amor que temos à verdade da vida e à estabilidade definitiva dos compromissos que assumimos produz uma força tal que nos impulsiona a sair de nós mesmos, a nos abrirmos para a realidade, a descobrirmos tudo o que existe de bem e de bom no mundo e nas pessoas ao redor, em cada momento de nossa vida.

Esta verdade possui um efeito curador, uma capacidade de cura, desde o sentido mais profundo de nossa existência até o mais superficial e exterior, como a maneira de nos comportarmos individual e socialmente.

A verdade é revelada através da razão, a qual não existe apenas para nos fazer compreender aquelas realidades de caráter técnico ou científico, mas também para nos ensinar a viver - por e a permanecer em - nosso amor, naquilo que devemos amar; a nos mantermos fiéis, a partir do coração, ao verdadeiro amor, ao dom que nos foi dado de sermos realmente nós mesmos.

É na verdade que se encontra também a força do perdão. Reconhecer que nem sempre nos comportamos com generosidade, que temos sido possessivos e, com isso, sufocado o amor, apoderando-nos injustamente do projeto de vida das pessoas à nossa volta – dos filhos, do esposo ou da esposa, dos amigos - por não termos corrigido ou retificado a tempo nossos desejos egoístas e o afã desordenado de dominar o ser amado. Tudo isso pode nos motivar a buscar o perdão, a recomeçar a amar com um coração renovado, purificado, desprendido.

Quando admitimos que temos sido egoístas ou descuidados, e assumimos as obsessões e outros complexos que permanecem em nossa memória emocional; quando nos decidimos a depurar a consciência de tudo o que invade a nossa memória e manifesta uma visão egoísta da vida, dos projetos que esboçamos a princípio, experimentamos então a alegria de nos sentirmos livres dos grilhões que oprimem o nosso coração. Nada consegue aprisionar o coração - nem o sofrimento mais terrível, nem a solidão mais prolongada - a não ser o próprio ser humano. Talvez nisto consista a opção radical que assumiram muitos santos, tendo sofrido o mesmo - ou, quem sabe, mais - do que os maiores tiranos e os homens mais impiedosos, implacáveis, da história dos últimos séculos.

Uma memória purificada num coração limpo e renovado é a de quem se perdoou de suas más inclinações, porque todos nós necessitamos – além de perdoar - ser perdoados. Não existe ser humano completamente inocente em seus pensamentos interiores, todos nós temos uma enorme necessidade de perdão.

Finalizando, a verdade que liberta o coração das cadeias do ódio, do desejo de vingança, dos apegos obsessivos etc. está relacionada com a recordação constante de que nada nesta terra é definitivo, pois todos vamos morrer um dia.

Leon Kass, cientista, nomeado diretor da Comissão Presidencial de Bioética dos Estados Unidos pelo Presidente Bush, estudou com afinco o tema da morte e de sua aceitação por parte da ciência moderna, empenhada em encontrar a fórmula da imortalidade, para que as pessoas possam desfrutar cada vez mais das satisfações da vida. Em suas reflexões, Kass sugere que as pessoas não deveriam pensar na imortalidade como uma bênção. Antes, pelo contrário, a verdadeira bênção é o fato de sermos seres mortais; porque é impossível prolongar a satisfação neste mundo, é impossível preencher as aspirações de completude do ser humano, por mais que as condições sejam as melhores e mais promissoras possíveis: “A limitação de nosso tempo de vida - questiona-se Leon Kass - não é a razão pela qual levamos a vida muito a sério e a vivemos apaixonadamente? Quando os Salmos da Bíblia nos convidam a «contar nossos dias» para que tenhamos «um coração sábio», o salmista nos ensina uma verdade e tanto!”.

Reconhecer a verdade de nossa vida e daquilo que somos capazes de amar, é o caminho que nos conduz à felicidade O coração experimenta desejos de eternidade, que se traduzem em profundas ânsias de amor e satisfação que só chegarão à sua verdadeira e única completude quando alcançarmos o momento pleno de totalidade em um amor que seja de fato eterno.

Viver a vida apaixonadamente, aprender a possuir um coração aberto e livre, fiel aos compromissos assumidos, jovem o suficiente para se deixar atrair por cada ser que se nos apresenta ao longo da vida.

Vale a pena esforçar-se para ter um coração dessa magnitude, desse quilate!


Fonte inicial: Mujer Nueva - http://www.mujernueva.org/
Tradução: Maria do Carmo Ferreira
Publicado no Portal da Família em 16/03/2009
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Nós podemos sim, exigir o melhor de nós mesmos!

Dêem uma olhada nesta matéria:
"Casal que queria um filho adotou cinco de uma vez só"
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1591410-15605,00-CASAL+QUE+QUERIA+UM+FILHO+ADOTOU+CINCO+DE+UMA+VEZ+SO.html

Por Cintia Liana

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Falando sobre a Adoção, os Motivos e o Abandono

Imagem: Google

Em atendimentos realizados em meu consultório ou realizados há algum tempo na Vara da Infância com jovens ou crianças adotadas observava que esses, quando sabiam que eram adotados juntamente com a informação da infertilidade dos pais, apresentavam as seguintes questões:
1. Fantasia de que, mesmo antes de nascer, mataram o filho do casal na barriga ou que eles eram os culpados pela infertilidade ou problema da mãe;
2. Acreditam que foram adotados pelos pais, por estes não terem tido outra opção de ter filhos.

Não é necessário falar que adotou porque não pôde ter um "filho da barriga". Já li alguns textos sobre esse mesmo assunto e lembro a vocês que, inicialmente, seria importante que o filho soubesse que é adotado e que foi uma escolha do casal, um projeto de vida assumido pela família, independente da infertilidade, que pode ser revelada mais tarde, quando a criança estiver mais madura.

Cuidado também ao falar sobre os possíveis motivos que levaram a mãe de origem a "abandonar" seu filho. Se colcar a responsabilidade na falta de dinheiro por, exemplo, isso pode comprometer a relação que teu filho terá com o dinheiro, afinal "ele foi o culpado pelo abandono". Sempre que você se queixar de falta de dinheiro ele poderá ficar com muita ansiedade gerada pelo medo de ser abandonado novamente. Imagina? Gente, cabeça de ser humano é muito complexa e as relações feitas por nós nem nós mesmos muitas vezes  somos capazes de alcançar e nem acerditar que imaginamos aquilo. Outro motivo é não haver a necessidade de se falar algo que não se sabe, então é melhor dizer que não sabe ao certo.

"A tranquildade de falar sobre a adoção nasce da capacidade de se desapegar das próprias crenças e medos, porque a criança está pronta para saber sobre os laços que a unem a família adotiva. Está pronta para a verdade. No fundo, ela já sabe de tudo."

Cintia Liana


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Este estudo explica e reafirma algumas falas minhas no post anteriror sobre "O Segredo na Adoção".

Foto: Google Imagens


A avaliação psicossocial no contexto da adoção: vivências das famílias adotantes

Liana Fortunato CostaI e Niva Maria Vasques Campos
Universidade Católica de Brasília e Universidade de Brasília
Serviço Psicossocial Forense do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios

Uma parte do estudo de Liana e Niva:

A importância da verdade
Na continuidade de um dos diálogos sobre a semelhança física entre adotante e adotado, as famílias apontam para a importância da criança crescer sabendo a verdade, sabendo que foi adotada. "É fundamental que a criança saiba desde pequena, que é uma criança adotada, justamente, para não ter choque". Apesar de ressaltar a importância do tema, as falas indicam que esta não é uma tarefa fácil, percebe-se que há um receio, um temor de que cedo ou tarde algum problema venha a acontecer.

Eu soube de uma história de uma moça que depois de 20 anos se revoltou, ficou sabendo e se revoltou contra a família toda. E foi um drama. Então essas coisas acontecem de verdade. E é mais fácil você encobrir o problema, mas e lá na frente?

Durante este diálogo, o esposo ressaltou: "Na adoção quanto mais certinho você fizer menos problemas você vai ter". Esta última fala parece ainda revelar o estigma do adotado e da adoção que de algum modo sempre dá problema.

O diálogo das famílias nos levou a pensar que talvez se revele a verdade mais por medo de que algo saia errado, do que por acreditar ser um direito da criança conhecer sua história de origem. Neste aspecto, é ressaltado também o caráter orientador dos estudos psicossociais, no tocante a revelação da adoção: "por isso que entra o papel da equipe de adoção, acho que eles têm obrigação de tentar evitar o máximo que o casal venha a ter problema no futuro".

As famílias trouxeram exemplos da vida real em que pais adotivos esconderam dos filhos a verdade e isto acarretou prejuízos graves às relações familiares, à confiança entre pais e filhos e a todos os envolvidos. Embora ambas as famílias tenham contado aos filhos que estes eram adotivos, uma fala indica a existência de fantasias parentais relativas aos laços de sangue que poderiam ser mais fortes e ameaçar os pais adotivos de serem trocados pelos pais biológicos: "a gente corre o risco de eles quererem conhecer os pais biológicos". Schettini (1998a) aponta a dificuldade de muitos pais adotivos enfrentarem o problema da revelação da origem, que vai sendo postergado indefinidamente. O autor alerta que comunicamos não somente através das palavras, mas também através da linguagem corporal e do inconsciente.


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Esse "comunicar" que Schettini fala é o segredo vindo a tona há todo instante. O peso dele que existe e incomoda.
É preciso amadurecer algumas questões antes de adotar, é preciso trabalhar seus próprios medos e limitações. É preciso travar com os filhos relações leves e limpas.

*Em posts anteriores vocês podem achar histórias e como revelar a adoção.




Por Cintia Liana

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Segredo na Adoção

Foto: Cintia Liana com amigos


"Todo ser humano precisa da verdade sobre a sua existência para apropriar-se desta e organizar-se dentro de sua própria vida." (Cintia Liana)


A chegada do filho, que é trazido pelos pais adotivos, é tão perfeita como no parto. Na adoção existe a substituição completa da família de origem, exceto a nível biológico. (FLARTMAN, 1994)

O Segredo na adoção pode significar sinal de insegurança dos pais ou de que nem eles mesmos vêem ou acreditam na beleza da relação adotiva. Medo? Vontade de encobrir uma possível infertilidade? Receio do filho sofrer preconceito? Sim, isso é real, mas é algo que precisa ser trabalhado e não levar os pais a trazerem um outro problema para o filho, ou seja, colocarem nas costas do filho "o peso insuportável e incômodo do segredo".

A criança já cresce sentindo um mal estar, um tabu relacionado a sua existência, algo que não é falado, pois é entendido como "feio". O problema que o que não se fala é a história dela, da criança. Mais que complicado crescer sem saber o que te aflige inconscientemente é esse mal estar voltado para a sua própria história de vida, para o seu nascimento, ou seja, o sentimento em torno de sua vida e a forma em como chegou está contaminado por algo que não é dito, que nem os pais, que deveriam ser fortes o suficiente  e enfrentar os seus fantasmas, estão dando conta.

No fundo essa história pode ser um eterno fantasma, um peso para toda a família, motivo de repúdio e fazer com que a criança cresça sentindo um mal estar que ela nunca conseguirá decifrar, só sentirá que sua vida está ligada a um segredo indesvendável, segredo este que envolve a forma como ele foi gerado e que compromete a relação de respeito e confiança com as pessoas que ele deveria mais confiar, os pais (adotivos, é claro!).

Um ser humano estigmatizado é protegido por um segredo, mas o segredo também promove a estigmatização. (FLARTMAN, 1994)

Os pais acham que sabem esconder bem, mas a linguagem vai muito além da falada, da consciente. Há a linguagem do olhar, do toque, dos gestos e toda a infinidade de linguagens inconscientes que vão além de nosso controle e entendimento.

Como será tocar no filho e pensar, "eu não te conto que você nasceu de outra barriga porque tenho medo de você não me amar como uma mãe de verdade". Será que, em primeiro lugar, ela tem a certeza de que é a mãe de verdade? Deve ser muito mais difícil pensar isso todas as vezes que abraçar o filho e crescer nesta culpa, ao invés de abrir a alma, o corpo, a voz e todas as portas do universo para a verdade mais justa e tranquila, a verdade que o filho merece, a verdade que não pode ser roubada dele.

Será que é mais fácil fazer assim que preparar o filho para ser um grande homem, enxergando todo o lado positivo da adoção e lamentar o que se deve de fato? O segredo serve para quê, proteger o filho de sua própria história?

A verdade ninguém muda, por pior que ela seja é a única que existe, o que pode mudar é a nossa postura diante dela, assim tudo pode ficar mais leve e mais bonito. 

Se alimentarmos o segredo, além de plantarmos em nosso lar a desconfiança estamos, desta forma, aceitando o preconceito de achar que a relação adotiva é inferior à biológica.

Sobre o segredo e a dificuldade em dar o espaço merecido à verdade, o adotado fala de uma sensação de vazio, de um vácuo que causa perturabação e dor.
Deve ser muito assustador e desnorteante não fazer contato consciente como sua própria história de vida. Muitas coisas parecem não fazer sentido. A identidade do adotado estará intimamente ligada ao segredo.

As pesquisas científicas revelam que pais adotivos que discutem abertamente e compartilham informações criam adultos mais seguros e com um senso firme de self. (FLARTMAN, 1994)

A aceitação da diferença é uma variável importante na previsão de adoções bem sucedidas. Isso deve ser de grande importância aos olhos do técnicos que avaliam os candidatos a habilitação.

Sobre todos os aspectos da adoção, a crianças deve sentir que sua chegada ao mundo foi um acontecimemto especial e que a sua vida vale a pena ser contada. 

Cintia Liana

Referência:
FLARTMAN, A. Segredos na família e na terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.











Por Cintia Liana

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Polícia prendeu e soltou procuradora acusada de agredir menor

Foto: Google Imagens (meramente ilustrativa)


A procuradora Vera Lúcia Santa´Anna Gomes, indiciada por tortura e racismo, chegou a ser detida em sua casa na cidade de Búzios na manha da quarta-feira, mas depois foi liberada pela polícia.

Chegando à delegacia, os policiais souberam que o mandado de prisão ainda não havia sido expedido e tiveram que deixá-la. Na tarde de quarta, Guilherme Shilling Pollo Duarte, juiz da 32ª Vara Criminal do Rio, decretou a prisão preventiva da ex-procuradora.

Acusada de torturar uma criança que pretendia adotar, Vera Lúcia está foragida desde ontem, garante a delegada Monique Vidal, da 13ª DP, de Ipanema, central onde o caso foi registrado.

Com o mandado em mãos, os policiais foram ao apartamento de Vera Lúcia em Ipanema, na Zona Sul, e voltaram a Búzios, mas não a encontraram. "Claro que é foragida. Já tem mandado de prisão na rua e ela não se apresentou", insiste Monique.

Schilling justificou assim sua decisão: "A ré vem exercendo atos de coação e intimidação contra testemunhas essenciais para o esclarecimento da verdade dos fatos, impondo-se a segregação provisória com o fito de preservar a imaculada colheita de provas, garantindo a escorreita tramitação do feito. O caso vertente vem merecendo especial destaque no meio social, não apenas em razão da natureza hedionda do delito, mas também diante das peculiares condições da vítima e da denunciada. Por tais motivos, decreto a prisão preventiva da acusada".

A defesa de Vera Lúcia afirmou que ela permanecerá foragida até que consigam o habeas corpus. "Pretendo impetrar um habeas corpus para tentar anular a decisão que mandou prendê-la", comentou Jair Leite Pereira, advogado que defende a procuradora.

O Ministério Público impôs à Justiça que condene a aposentada a pagar indenização por danos morais de mil salários mínimos (R$ 510 mil), pensão mensal de 10 salários mínimos até que a vítima complete 18 anos.

Redação: Helton Gomes

Fonte: http://www.band.com.br/jornalismo/cidades/conteudo.asp?ID=298589

Os promotores requerem também que, de imediato (em caráter de tutela antecipada), Vera Lúcia seja obrigada a pagar, além da pensão mensal, o tratamento psicológico ou psiquiátrico para a criança em unidade da rede particular de saúde, no valor de 10% de seus rendimentos. Eles pedem ainda estudo psicológico para verificar o dano emocional sofrido pela na criança.

Processo por danos morais
"Levaram ela e depois pediram desculpas. É abuso de autoridade e acarreta danos morais. Estou estudando entrar com um processo, inclusive fazer um requerimento à Corregedoria Geral da União para que providências administrativas sejam tomadas", disse o advogado Jair Leite Pereira, que defende a procuradora.

Segundo a delegada Monique Vidal, da 13ª DP (Ipanema), responsável pelas investigações, há equipes nas ruas atrás de Vera Lúcia Gomes. Além de ser suspeita de tortura, ela também foi indiciada por racismo contra empregados domésticos. Vidal pede ainda que quem tiver informaçoes do paradeiro da procuradora deve ligar para (21) 2332-2018.

Fonte:
http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2010/05/procuradora-chegou-ser-detida-antes-do-mandado-de-prisao.html

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Depois de dois abandonos, a esperança de ter um lar

Apesar de ter apenas 2 anos, a vida de T. nunca foi fácil. Abandonada duas vezes pela mãe biológica, a menina morou em abrigos quase todo o seu tempo de vida e há dois meses passou a receber as visitas da procuradora, depois de autorização da Justiça. Carinhosa, T. rapidamente se afeiçoou a Vera Lúcia, a quem já chamava de mãe. O novo lar confortável e a nova mãe pareciam ser perfeitos.

Para conseguir a guarda provisória de menina, a procuradora passou por um rigoroso e longo processo. Durante um ano, ela participou de reuniões mensais com membros do Conselho Tutelar e profissionais da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, passou por avaliação psicológica e por uma pesquisa social até, finalmente, obter a habilitação para adoção, quando o juiz autoriza o candidato a ter visitas com a criança.

"Ela passou por todas as etapas e foi considerada apta. O que aconteceu foi um choque para todos. O processo de adoção tem que ser por amor e não por ver a criança como uma mercadoria que você pega da prateleira para experimentar. Mais de 90% dos casos são bem sucedidos. O pior desse caso é que tinha um casal também habilitado e muito interessado pela menina", disse a magistrada Ivone Ferreira Caetano. Há na vara 800 pessoas inscritas para adotar uma criança.

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História que está causando indignação e revolta em todo o País. As pessoas estão desejando que este caso não passe em branco no final.
O cidadão brasileiro, preocupado com as crianças, está ansioso por essa prisão. Não podemos aceitar que essa promotora não seja punida pelos tantos crimes que cometeu. Como ela, existem outros tantos loucos por aí que cometem injustiças contra pessoas de bem.
Ela, além de ser presa, tem que indenizar a criança, como foi pedido pelo MP.
Temos que exigir justiça.


Por Cintia Liana

terça-feira, 4 de maio de 2010

Falar e Ouvir a Verdade como Processo de Cura

Foto: Ingrid Cristina (Flickir)

Caros leitores, o texto abaixo também se aplica muito acertivamente a adoção.
As marcações em rosa são minhas, para chamar a atenção para pontos chaves que podem se aplicar a crianças adotadas que sofreram maus tratos, que por algum motivo apresentam problemas de comportamento, que têm dificuldade em lidar com sua história ou com sua condicão de adotado.

Acima de tudo pais adotivos devem entender a importância da verdade sobre a adoção e sobre a história inicial da criança. A necessidade de criar um canal de diálogo aberto sobre a história dela, sobre possíveis dores vividas e a "permissão" na família para falar sobre isso até se esgotar as todas as possibilidades é fundamental.
Deve ser reconhecida a importância de uma possível busca de informações sobre as origens e também um confronto com os pais biológicos, caso esse seja o desejo do adotado.

"Todo ser humano precisa da verdade sobre a sua existência para apropriar-se desta e organizar-se dentro de sua própria vida." (Cintia Liana)

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Foto: Lubs Mary (Flickir)

DIZER A VERDADE ÀS CRIANÇAS
Alice Miller
Tradução para o francês de Pierre Vandevoorde (janeiro 2007)
Tradução em português Mirian Giannella (maio 2010)

Tento às vezes imaginar como alguém, que teria crescido em um planeta onde não vem à ideia de ninguém de bater numa criança, como poderia sentir as coisas. Um dia talvez, graças aos progressos da investigação espacial, poderemos viajar de planeta em planeta, e saber como seres com costumes completamente diferentes abordarão a nossa terra. O que passará na cabeça e coração de um deles quando vir humanos adultos e vigorosos lançar-se sobre pequenas crianças sem defesa e golpea-las num impulso de fúria?

É ainda corrente hoje crer que as crianças não têm sentimentos, e estar persuadido que o que se pode fazer-lhes sofrer não tem consequências, ou a rigor de menor importância que nos adultos, precisamente porque são “ainda crianças”. É assim que até recentemente, cirurgias em crianças sem anestesia ainda eram autorizadas. Mais ainda, circuncisão e excisão são consideradas em muitos países como costumes tradicionais legítimos, da mesma maneira que os ritos de iniciação sádicos.

Golpear adultos é tortura, golpear crianças é educação. Isto não seria suficiente para evidenciar claramente uma anomalia que perturba o cérebro da maior parte das pessoas, “uma lesão”, um buraco enorme no lugar onde deveria se encontrar a empatia, em especial PARA COM as CRIANÇAS? Esta observação é suficiente para provar a precisão da tese na qual o cérebro das crianças espancadas guarda sequelas, porque quase todos os adultos são insensíveis à violência que sofrem as crianças!

Já que as torturas que sofrem as crianças são rejeitadas e negadas por todo mundo, pode-se supor que este mecanismo (de proteção) é constitutivo da natureza humana, que poupa sofrimentos ao ser humano e teria, consequentemente, um papel positivo. Mas há pelo menos dois fatos que contradizem esta afirmação. Primeiro, é precisamente quando os maus tratos são negados que são transmitidos à geração seguinte, impedindo assim a interrupção da cadeia de violência, e em segundo lugar, é a recordação do que foi sofrido que permite o desaparecimento dos sintomas de doença.

Já foi estabelecido que colocar em palavras as agressões sofridas pela criança na presença de um testemunho que se compadece conduz ao desaparecimento dos sintomas físicos e psíquicos (como a depressão); este fato nos obriga a procurar outra forma de terapêutica, pois não é se fazendo de aliado da recusa que se encontra a via da liberação, mas confrontando-se à sua própria verdade com tudo que possa ter de doloroso.

No meu entender, as mesmas conclusões aplicam-se à terapia das crianças. Como a maior parte das pessoas, eu também, durante muito tempo estava convencida de que as crianças têm absolutamente necessidade de ilusão e de recalcamento para poder sobreviver, porque seria demasiado doloroso para elas se encontrar face à verdade. Mas, hoje, estou convencida de que o que vale para os adultos, vale para elas, também: aquele que conhece a verdade da sua história está protegido de doenças e perturbações de todas as ordens. Mas para isto, a ajuda de seus pais lhe é indispensável.

Hoje, muitas crianças apresentam problemas de comportamento, e as propostas terapêuticas são também numerosas. Infelizmente, repousam, em geral, sobre concepções pedagógicas nas quais seria possível e necessário inculcar adaptação e submissão à criança “difícil”. Trata-se da terapia comportamental mais ou menos bem sucedida, que consiste numa espécie de “reparação” da criança. Todas as alternativas tentam calar ou ignorar o fato de que cada criança com problemas exprime a história das violações a sua integridade, que começa muito cedo na sua vida, como mostra o meu trabalho de investigação (ver meu artigo de 2006 “a impotência das estatísticas”), (ainda não publicado em francês), entre zero e quatro anos, enquanto o cérebro está em formação. A maior parte do tempo, esta sua história fica recalcada. No entanto, não se pode realmente ajudar um ser mortificado a tratar suas feridas se se recusa a olhá-las de frente. Felizmente, as perspectivas de cura são melhores para um organismo jovem, o que é também verdade para o psiquismo. O primeiro passo a fazer seria, então, preparar-se para olhar as suas feridas, para leva-las a sério e deixar de negá-las. Isso não tem nada a ver com “reparar os problemas” da criança, trata-se pelo contrário de tratar das suas feridas pela empatia e informações justas e verdadeiras.

Para que a criança alcance seu pleno desenvolvimento emocional (sua maturidade verdadeira), ela precisa mais do que apenas a aprendizagem do comportamento adaptado à norma.
Para que não ganhe mais atraso, depressão, nem distúrbios de alimentação, de modo que não caia também na droga, tem necessidade de ter acesso à sua história. 

Penso que com crianças maltratadas, os esforços educativos e terapêuticos bem intencionados estão condenados ao fracasso se a humilhação vivida nunca for evocada, em outros termos se a criança permanecer sozinha com o seu vivido.

Para levantar o véu que pesa sobre este isolamento (a solidão face ao seu segredo), os pais deveriam ter a coragem de confessar o seu erro à criança. Isso alteraria completamente a situação. Durante uma discussão tranquila, poderiam, por exemplo, dizer-lhe: “Nós te batemos quando era ainda pequeno, porque nós também fomos educados assim e pensávamos que era necessário. Mas agora, sabemos que nunca deveríamos ter nos autorizado a isso e pedimos desculpas pela humilhação que te fizemos sofrer e as dores que isto te causou, nunca mais o faremos. Lembre-nos esta promessa caso a esqueçamos”.

Há 17 países nos quais esta prática já caiu sob o golpe da lei, onde é simplesmente proibida. Durante as últimas décadas, cada vez mais pessoas de fato compreenderam que uma criança espancada vive no medo, cresce no temor permanente da próxima violência. Isto altera muitas de suas funções normais. Entre outras coisas, ela não será capaz de se defender se for atacada ou então o medo provocará uma reação violenta em retorno, fora de proporção.

Uma criança que vive no medo pode dificilmente se concentrar nos seus deveres, tanto em casa como na escola. A sua atenção fica menos focada no que deveria saber e mais no comportamento dos professores ou pais, porque não sabe nunca quando a mão deles vai reagir. O comportamento dos adultos parece-lhe totalmente imprevisível, deve então estar constantemente em alerta. Perde a confiança nos pais que deveriam, como é o caso em todos os mamíferos, proteg-la das agressões externas, e em nenhum caso atacá-la. Mas sem a confiança nos pais, a criança se sente muito desprotegida e isolada porque toda a sociedade está ao lado dos pais e não ao lado das crianças.

Estas informações não são para a criança revelações, pois seu corpo sabe tudo aquilo. Mas a coragem dos pais e a decisão de não mais fugir aos fatos terá, sem dúvida, um efeito benéfico, liberador e duradouro. E é um modelo de grande importância que é apresentado, não somente em palavras, mas numa atitude de coragem de ir fundo no que pensa, e também de respeito à verdade e à dignidade da criança, e não mais violência e falta de controle de si.

Como a criança aprende com a atitude dos pais e não com as suas palavras, há apenas efeitos positivos a esperar de tal confissão. O segredo o qual a criança era a única portadora doravante foi nomeado e integrado na relação, que pode agora estabelecer- se com base no respeito mútuo e não no exercício autoritário do poder. As feridas caladas até então podem se curar porque não permanecem mais armazenadas no inconsciente. Quando crianças informadas tornam-se por sua vez pais, não correm mais o risco de reproduzir de maneira compulsiva o comportamento, às vezes, muito brutal ou perverso dos pais, não são empurrados para isso pelas suas feridas recalcadas.

O arrependimento dos pais apaga as histórias trágicas e priva-as de seu potencial perigoso. A criança espancada por seus pais aprende deles a reagir pela violência, isto é incontestável, e qualquer professor de maternal poderia confirmar se se autorizasse a ver o que lhe é dado a ver: A criança espancada em casa bate na mais fraca na escola assim como na família. E recebe uma punição quando bate no seu irmãozinho(a) , e assim não compreende nada na marcha do mundo. Não foi o que aprendeu dos pais? É assim que nasce bem cedo uma desordem que se manifesta na forma de “perturbação”, e que leva a criança à terapia.

Mas ninguém se arrisca a atacar as raízes deste mal, que, no entanto, é tão evidente. A terapia pelo jogo com terapeutas dotados de forte sensibilidade pode certamente ajudar a criança a exprimir-se e ganhar confiança em si mesma num enquadre protegido e sempre o mesmo. Mas como o terapeuta faz silêncio sobre as primeiras feridas abertas no passado, a criança permanece, em geral, sozinha com o que viveu. Mesmo o mais dotado dos terapeutas não pode levantar este véu se a preocupação de proteger os pais o faz hesitar a levar plenamente em conta as feridas dos primeiros anos. Mas não cabe a ele falar com a criança, pois suscitaria imediatamente o medo de ser punida pelos pais. O terapeuta deve trabalhar com os pais sozinhos e deve lhes explicar em que o fato de falar poderia ser liberador para eles e para a criança. Certamente, nem todos os pais vão aceitar esta proposta, ainda que lhes seja feita por terapeutas, o que seria evidentemente desejável. Alguns rirão sem dúvida desta ideia e dirão que o terapeuta é ingênuo e não sabe a que ponto as crianças são dissimuladas e procuram certamente explorar a bondade dos pais. Não é de surpreender tais reações, porque a maior parte dos pais vê nos filhos os seus próprios pais e têm medo de confessar um erro, pois antes pesadas punições o ameaçavam após os erros. Agarram-se à máscara da sua perfeição e é bem provável que sejam incapazes de se corrigir.

Quero contudo crer que todos os pais não são incorrigíveis torturadores. Penso que apesar deste medo, há muitos pais que gostariam de renunciar à esta relação de poder, que tinham há muito tempo vontade de ajudar seus filhos mas que até então não sabiam como fazer, porque sentiam medo da ideia de se abrir sinceramente à eles.

É muito provável alguns pais chegarão mais facilmente a uma discussão honesta sobre “o segredo” e que é pela reação de seu filho que farão a experiência dos efeitos positivos da revelação da verdade. Constatarão, então, por si mesmos como os valores que pregam autoritariamente são inúteis se comparados à confissão sincera dos seus erros, condição indispensável para que o adulto se veja conferir a verdadeira autoridade, por ser credível.

É evidente que qualquer criança tem necessidade de tal autoridade para encontrar o seu caminho no mundo. Uma criança a quem foi dita a verdade, que não foi educada para se acomodar com mentiras e atrocidades, pode desenvolver todas as potencialidades, como uma planta em boa terra cujas raízes não são presas de animais peçonhentos (as mentiras).

Tentei testar esta ideia com amigos, perguntei aos pais, mas também às crianças, o que pensavam. Constatei então que era mal compreendida, que os meus interlocutores interpretavam o meu propósito como se se tratasse de desculpar os pais. As crianças respondiam que era necessário ser capaz de perdoar os pais, etc.

…Mas a minha ideia está longe disso. Se os pais se desculpam, as crianças podem ter o sentimento que se espera delas o perdão para descarregar os pais e liberá-los de seus sentimentos de culpa. Seria pedir demais à criança. Em contrapartida, o que tenho em mente, é uma informação que confirma o que a criança sabe na sua carne e confira um lugar central ao que viveu. É a criança que está em foco, com os seus sentimentos e as suas necessidades. Quando a criança observa que os pais se interessam pelo que ela sentiu nos momentos de exagero, ela vive um grande alívio ligado a uma sensação confusa de justiça… Não se trata aqui de perdão, mas da evacuação de segredos que separam. Trata-se de construir uma relação nova, fundada na confiança mútua, e de levantar o véu que isolava a criança espancada, até então.
Uma vez que do lado dos pais o reconhecimento da ferida tem lugar, muitas vias obstruídas liberam-se, num processo de cura espontâneo. É dos terapeutas que se espera tal resultado, mas sem o concurso dos pais não pode acontecer.

Quando os pais se dirigem à criança com carinho e respeito, e reconhecem sinceramente a sua falta, sem dizer: “foi você que me levou a fazer aquilo pelo teu comportamento“ , muitas coisas se alteram. A criança recebe modelos que lhe permitem encontrar o seu caminho, não tenta mais evitar as realidades, o objetivo não é mais o de “reparar” de modo que agrade mais aos pais, mostra-se que se pode colocar a verdade em palavras e sentir a sua potência curativa. E, sobretudo: que ela não precisa mais se sentir culpada pelos erros dos pais já que eles reconhecem a sua culpa.

Nos adultos, tais sentimentos de culpa estão geralmente na base de muitas depressões.

Autor: Alice Miller
Embora, este texto trate das violências físicas como espancamentos, são muitos os casos em que a verdade dos abusos não é revelada, como se o pai tivesse todos os direitos sobre os filhos. Sem a nomeação do agressor a criança só pode ficar perdida. Pedir desculpas pelos exageros faz bem!
Mirian Giannella

Tradução para o português: Mirian Giannella
giannell@uol. com.br
Observatório da Clínica
http://giannell. sites.uol. com.br/EGCdoB. htm
Blog Apoio às Vítimas http://apoioasvitim as.blogspot. com

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Indicação de filme:
Hoje assisti um filme lindo na GNT. "Pelo amor de uma criança".

Pelo Amor de uma Criança
Filme / Drama
Nome Original: For the Love of a Child
Direção: Douglas Barr
Elenco: Peri Gilpin, Teri Polo, Maria del Mar, John Pyper-Ferguson, Matthew Knight, Emily Hirst, Jake D. Smith, David McNally, Rod Heatheringston, Marty Antonini
País: Canadá/EUA
Ano: 2006
Duração: 80 min
Cor: Colorido
Classificação: Programa para jovens e adultos


Sinopse:
Baseado no romance "Silence Broken", de Sara O'Meara e Yvone Fedderson, o filme conta a história de duas mulheres - interpretadas por Peri Gilpin e Teri Polo - , na luta para denunciar os maus tratos que as crianças sofrem dos adultos. Elas recolhem e tratam de crianças abusadas, órfãs, depois que encontraram Jacob, um menino que estava amarrado a uma cama. Apesar da terapia, ele não esquece dos terríveis pesadelos. Os pais saem da prisão e querem a criança de volta. Os pesadelos continuam até a descoberta de que ele foi testemunha de um assassinato cruel.

Fonte:
http://www.hagah.com.br/programacao-tv/jsp/default.jsp?uf=1&local=1®ionId=1&action=programa&canal=GNT&operadora=13&programa=0000156700&evento=000000007529866canal=GNT&operadora=13&programa=0000156700&evento=000000007529866


Por Cintia Liana

sábado, 1 de maio de 2010

Sonho e Luta pelas Crianças

Foto: Google Imagens


E por falar em Procuradora que agrediu filha adotiva de 2 anos... Por falar em "autoridade"...


No dia 31 de outubro de 2008 enviei o seguinte e-mail a alguns conhecidos, profissionais da área da infância, dizendo que não se tratava de nada pessoal (é claro que não!), mas de mais um dos meus apontamentos para pensarmos na vida das crianças abrigadas e em como poderíamos ajudar mais, refletindo sobre aossa postura enquanto profissionais, muito provavelmente seguros de nossas convicções secretas.

"Pesquisas com famílias adotivas revelaram dados surpreendentes em relação à questão das motivações inadequadas ou adequadas para o exercício da paternidade adotiva. A análise dos resultados mostrou que não existe correlação entre a motivação dos adotantes e o sucesso da adoção. Isso significa, a grosso modo, que a construção do vínculo afetivo pode ser tão poderosa e importante na dinâmica familiar que deixa em segundo plano a “inadequação” do motivo inicial ou outros motivos, pois outra história é capaz de ser construída posteriormente; exatamente ao contrário do que supõem muitos técnicos, ao afirmarem que a apreciação das motivações tem um interesse capital". (WEBER, 1997)

"Um casal que deseja adotar uma criança porque seu filho biológico faleceu pode parecer realmente inadequado. Os técnicos diriam que eles 'estão querendo substituir o filho falecido'. No entanto é preciso levar em conta a capacidade de reconstrução de sua própria história, de construção do apego, do fascínio da capacidade de amar". (WEBER, 1997)

Entendo que temos que ter cuidado com pseudo-análises psicológicas, principalmente feita por profissionais que não são psicólogos e se acham muito sensíveis como se esse fosse exclusivamente o único pré-requisito para ser tal profissional (sensibilidade).
Psicologismos baratos são desastrosos, principalmente se feitos por advogados, juízes e promotores, que podem usar o seu poder inadequadamente nesses casos. Maior desastre ainda, quando se trata da vida de crianças que não podem ser defendidas por suas mães e sim pelo Poder Público, que não lhe dispensa amor, muito menos materno, capacidade inerente ao ser humano e não a um sistema.
Vamos ter humildade e assumir o posto que nos foi dado, de acordo com nossa formação. Se quisermos ser psicólogos temos que fazer a faculdade, pós-graduação e não simplesmente nos acharmos preparados ou com vocação para a subjetividade. Isso é muito pouco, o caminho é muito mais longo.
Existe algo muito maior. Temos que dar conta de crianças que estão sofrendo nas instituições esperando por um pai e/ou uma mãe. Ninguém é capaz de mensurar essa dor.
Quem somos nós para dizer que uma pessoa "não está apta a adotar por estar, talvez, querendo substituir o filho falecido", enquanto milhares de crianças sofrem por desamparo? (WEBER, 1997)
Lembro que antes de tudo deve existir o desejo de adotar. Este sim faz a diferença, o desejo.

(E-mail enviado por Cintia Liana)

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Complemento que faria hoje:

O contrário penso também que seja muito perigoso e anti ético, juízes desqualificarem o parecer de um psicólogo que diz que alguém, por motivo "comprometedor", não encontra-se apto psicologicamente a adotar uma criança. O outro, só porque tem mais autoridade, diz que "acha" que o cidadão tem sim "capacidade" de adotar. Se o psicólogo, que tem estudo específico e aprofundado na área para opinar, já atestou que não, a "autoridade" se baseia em que psicologia para desrespeitar a palavra do perito e, ainda por cima, colocar em risco a vida e o futuro da criança a ser adotada?

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A promotora furiosa, levando para o lado pessoal, e usando propositalmente palavras difíceis, escreveu:

Foto: Google Imagens

“Em que pese você não ter formação jurídica, mas se interferiu no jurídico ao discorrer sobre profissionais da área, existe determinação na lei processual civil-Código de Processo Civil, que o aplicador do direito não está vinculado ao laudo técnico, sendo o mesmo, em algumas hipóteses, dispensável.”

A promotora explicou que o Juiz não tem que tomar sua decisão em cima do laudo pericial e sim formar sua convicção em cima de outros elementos ou fatos provados nos autos (CPC, artigo 436), já que “em algum caso, a opinião do perito poderá substituir-se à do Juiz, vinculando-se juridicialmente a convicção, mesmo quando a perícia é legalmente obrigatória. O laudo pericial não oferece prova, mas tão somente elementos para a convicção quanto aos fatos da causa. Como as demais provas, a perícia se sujeita à livre apreciação do Juiz (artigo 131 do CPC), pois é este quem, com exclusividade, procede à avaliação jurídica do fato.”

Discorreu sobre ela entender o quão é complexa a formação do psicólogo, mas que ela estava muito feliz com a escolha dela, que era concursada, bem sucedida, blá, blá, blá.
No final ela conclui de forma mais alienada ainda, dizendo que mesmo sem eu ter pedido para ela me dar um conselho ela me daria assim mesmo. Disse que eu devia aproveitar meu tempo livre para estudar e obter aprovação em concurso público, tornar-me independente.

Uma pessoa dessa pensa o que da vida? Que passar em concurso público é algo tão importante? Deve ser uma ambição? Com todo respeito aos que desejam passar em concurso público, nunca nem cogitei a possibilidade, nunca foi um desejo meu. Minhas ambições são outras que considero bem mais interessantes. Cada qual faz suas escolhas, não condeno a de ninguém mas, obviamente, prefiro as minhas.
Ela disse ainda para eu não perder tempo com bobagens, conjecturas, fantasias. Para eu colocar minha “cabeça no lugar” e que ela usava esse termo por ignorar o termo psicológico. Por final, disse que eu tenho valores, que eu os reconheça, que me desarme e que eu sorria para a vida. Ainda teve a hipocrisia de me desejar sucesso e dizer que estava torcendo por mim, mesmo morrendo de raiva de mim por eu ter enfrentado ela.

Enfim, ela se revoltou, como se meu texto inicial fosse uma afronta pessoal e quis me ofender. Acabei respondendo ao e-mail agressivo dela.

Foto: Gety Imagens


Respondi:
A minha vida, minha missão não é ficar sentada atrás de uma mesa de órgão público, garantindo um salário razoável, uma pseudo independência e fechando os olhos para as injustiças e negligências do Estado. Não generalizo e não falaria isso para todos, afinal tem concursado que trabalha muito e se preocupa de verdade.
Falei que a lei, em algumas situações, é muito arbitrária e incoerente. "Autoridades" são seres humanos e também são falhos.

Falei que eu era independente e que para isso não precisava de cargo público, que eu tinha uma mente livre com idéias igualmente libertadoras e que era uma pensadora, mobilizadora, profissional crítica e responsável com meus ideais, que trabalhava com amor e que escrever era uma terapia e não perder tempo como ela falou e que isso é que é viver com total independência.
A maior independência que podemos ter é a intelectual, a da alma e não a financeira, apesar desta última também ser importante. É a paz de saber que estamos agindo corretamente, ajudando pessoas.

Eu disse que eu não estava ali para falar mal de ninguém, que também sou humana e falha, mas que minha fala era de denúncia, de indignação e que tinha fundamento, que se não fizéssemos isso para melhorar algo o que faríamos? Ficaríamos comprando jóias caras, como fazem muitas vezes, no ambiente de trabalho? Esta última pergunta talvez tenha sido um pouco pessoal.

Escrevi de modo educado, se é que dá para ler isso e entender como algo educado.


Foto: Google Imagens

Entendi perfeitamente que, infelizmente o que fazemos aqui, por exemplo, a luta, a mobilização, a voz de esperança, de denúncia, em tantos lugares, para muitos deles - que estão lá com seu salariozinho garantido de R$ 10.000,00 e respaldados pela lei - é perda de tempo, coisa de gente que não tem o que fazer, que abrir a boca para denunciar, falar e desejar mudar alguma coisa está errado, é uma coisa absurda.

Ouvi dizer que até hoje ela fala mal de mim, que mandei ela ficar atrás de uma mesa. Mas o que ela não sabe, dentro da sua cabeça burguesa, vazia e alienada, é que tudo o que eu falei é coisa que só é dita por pessoas emocionalmente inteligentes, esperançosas, que podem até não ter a fantasia de mudar o mundo, mas que têm a gana de ajudar algumas pessoas. A indignação desta senhora, com o que eu quis contribuir com as sábias palavras de Lídia Weber (uma “perita” no assunto), é totalmente emburrecida.
De fato, a humanidade ainda tem muito o que crescer e dividir.

Até hoje tenho vontade de publicar essa discussão em alguma revista, suprimindo os nomes, é claro, pois poderia e nem gostaria de identificá-la. Mas nem que se tratasse de uma discussão pessoal eu não faria isso. O fato é que precisamos incentivar a abertura de consciência de algumas pessoas para que elas possam desejar melhorar as decisões para a sociedade mudar.
Infelizmente a sociedade depende, em parte, de gente que pensa pequeno desse jeito, que acha que querer melhorar e refletir sobre possíveis saídas mais eficazes para a resolução do problema do desamparo infantil é besteira e perda de tempo. Ela pensa pequeno, que devemos passar em concurso público para garantir um bom salário e independência financeira, só! A vida desta senhora é só isso! E o que seu dinheiro pode comprar. Pobre coitada.

Essa "autoridades"...

Enquanto uns querem acabar com a inspiração, a esperança, eu peço ao universo que conserve e fortaleça essa minha incansável vocação, esse dom e qualidade de saber sonhar e valorizar a importância da fantasia que leva a gana de realizar. Assim o sonho ganha sentido e sonho que se sonha junto é realidade. Sou feliz de conhecer tanta gente boa, preocupada com as crianças sem família. A nós, fortunados e ocupados com o próximo, que possamos sempre trazer riquezas para esse duro e lindo mundo.

Foto: Google Imagens

Percebo que existe um descaso profundo, como se muita gente não quisesse fazer contato com a dor das crianças. Se eles, ao menos, visitassem um abrigo e parassem tudo para ouvir o choro de uma dessas crianças...
Muitas pessoas ditas “autoridades” nunca entraram num abrigo de crianças, ou entraram com medo. Será que eles pensam, "não são meus filhos...?”, "O que os olhos não vêm o coração não sente", "não é comigo, não é com minha família, o que eu tenho a ver com isso?”, “Faço o que puder e dentro da lei".

Isso é muito injusto, uma nação deixar crianças crescendo em abrigos, que para elas são verdadeiros presídios infantis, são excluídos mesmo, por mais que o abrigo seja cuidadoso. Eles não têm uma vida livre, normal, eles são os abandonados sociais, os esquecidos, a minoria, se sentem o resto das crianças do mundo. Eu já ouvi isso e já percebi na fala de muitas crianças. Muitos sentem que não têm valor, que não são merecedores de amor.

O governo tinha que ser severo com esses pais biológicos e priorizar a criança e seu desenvolvimento e não deixá-las esperando por anos até esses pais poderem "pegá-las" de volta e reinserí-las num lar que pode continuar adoecido.
O que parece, a princípio, é que se defende primeiro o direito dos pais biológicos de não perderem o filho e não dos filhos terem uma chance de serem felizes fora do abrigo, constituindo nova família. Será que vale a pena passar 2 anos num abrigo, antes da nova lei 5, 10, 15 anos, num abrigo só para não separar a criança da família biológica? Que raio de laço de sangue é esse que faz sofrer? Que dilacera? Que tira o que pode haver de mais básico para o ser humano, que é o amor de pais e um lar digno?

Conheci adolescentes abrigados (de mais de um estado) que me disseram que chegaram no abrigo com 2, 3, 4 anos de idade e já estavam com 14, 15, 16 anos e só havia recebido visitas escassas de um ou outro familiar durante todos esses anos, estava esperando completar 18 para sair do abrigo e voltar a morar com a família de origem. Que garantia ele tem de que será bem recebido? Se não foi amado durante 18 anos porque será amado agora? Quem garante? Foram 18 anos vivendo no desamparo.

Eles acham que estão defendendo as crianças para não perderem a família biológica, mas será que já pararam para se perguntar se elas querem esperar anos pela família biológica? Já perguntaram o que elas perderam?E que família é essa que não faz parte, que não faz questão, que não cuida, protege e que não está ao lado?

Foto: Cintia Liana e o pequeno João, filho de uma amiga. Amizade esta conquistada durante palestras sobre adoção.

Devemos colocar a frente não somente os nossos conhecimentos técnicos, mas também a intuição, sensibilidade e o amor pelas pessoas, isso é essencial para o desempenho de um bom e consciente trabalho. Cautela e humildade também. Esqueçamos o poder, poder de quê? O poder tem que ser usado para o bem! Temos que criticar o sistema e sentir também como se do outro lado estivéssemos, do lado da comunidade. As pessoas precisam de apoio e auxílio antes de tudo e não de convicções ou bases em paradigmas ultrapassados sobre hereditariedade e laços consanguíneos.
Ter muito cuidado com a interferência dos nossos preconceitos no destino dos outros ainda é muito pouco para a realização de um trabalho deste nível.

Nós técnicos, analistas do homem, da mente, por exemplo, nunca devemos nos esquecer de uma frase maravilhosa do cronstrucionismo social "o olhar do observador deforma a realidade" e isso nos diz um pouco de nós, nos revela. Nunca vamos fazer uma análise igual, pois os analistas são pessoas diferentes, com referenciais diferentes.

Não somos "experts", nem engenheiros sociais, pois a realidade não é objetiva, nem representacional. Devemos ser arquitetos do diálogo, numa relação democrática, enxergando identidades não fixas e nos dando chances sempre de melhorar tudo e mostrando ao outro que também é capaz de construir novos significados.

Infelizmente alguns profissionais existentes em todas as áreas ainda insistem em permanecer com suas mentes respaldada nos paradigmas científicos ocidentais, empobrecendo e lentificando ainda mais ainda o desenvolvimento humano.
Alguns colegas se diferenciam, ganham destaque e são realmente especiais, iluminados e desapegados, querem conhecer mais do que lhe colocam como possibilidade nesta sociedade atrasada.

É bom lembrar, como diz o sábio Morin (2000), ainda estamos na pré-história da mente humana e, para ele, essa é uma perspectiva muito otimista.

Foto: Flávio Chiarini

Se vivemos histórias de adoção e temos a consciência conquistada através desta participação nessas histórias temos o dever de abraçar a causa das crianças abandonadas. Abraçar o ideal e a luta, para ver, um dia, todas as crianças inseridas em uma família substituta. Como os abrigos irão sobreviver sem essa clientela? Danem-se os abrigos! Devemos exterminá-lo e criar uma política eficaz do amor, da prioridade pelo humano menor. Essas crianças institucionalizadas também são nossa responsabilidade, são nossos filhos. Todos nós merecemos ser amados, crescer com dignidade, nos sentindo protegidos. Não tem amanhã, é agora!

Meu sonho não é passar em concurso público, nem garantir um salário razoável, meu sonho é bem maior, cara senhora. É correr o mundo, compartilhando o desejo e a luta por uma sociedade mais consciente, é ver, um dia, essas crianças da foto sorrindo ao lado e um pai e/ou uma mãe, como já tive o prazer de ver muitas, se sentindo completas e amparadas. Para isso, conto com muitos amigos de verdade, que mesmo sem salário ou pagamento material se preocupam com as crianças.
Amor pela causa das crianças desamparadas não é sonho, não é fantasia, é a chave para a realização, para uma mudança efetiva.


Fotos e composição de painel: Cintia Liana, no Dia das Crianças em 2007.


Observação sobre as fotos do post:
Nesta última foto do post, o painel, optei por preservar a identidade das crianças fotografadas cobrindo os olhinhos que são nossa maior forma identificação, no entanto conservei na foto as boquinhas com os sorrisos de um dia no parque de diversões do Salvador Shopping. Proposta do dia das crianças promovida pela Vara da Infância em 2007.
As fotos foram tiradas com a minha câmera fotográfica, mais um motivo para não expor o rosto das crianças sem a devida autorização.
Fora a minha foto com a criança, autorizada pela mãe, as outras são ilustrativas, fotos achadas no Google.

Por Cintia Liana