"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Decisão do STF facilita adoção e pensão para gays

Mandy Lynne

05/05/2011 - 20h38

Por Mariana Desidério
De São Paulo

O STF (Superior Tribunal de Justiça) decidiu nesta quinta-feira, por unanimidade, que a união estável homoafetiva é equivalente à união entre heterossexuais. Com isso, casais gays de todo o país têm diversos direitos assegurados.

Haverá mais facilidade para adotar crianças, por exemplo, de acordo com Adriana Galvão, vice-presidente da comissão de de diversidade sexual do conselho federal da OAB e presidente da comissão no Estado de São Paulo.

Até agora, muitos casais gays escolhiam fazer a adoção em nome de apenas um dos parceiros, por não terem sua união reconhecida, o que gera uma insegurança inclusive para a criança. "Se o pai adotivo morrer, o outro não tem nenhuma responsabilidade jurídica", diz.

A advogada explica ainda que fica assegurado aos companheiros homossexuais o direito a requerer pensão alimentícia, a fazer uma declaração conjunta do imposto de renda, ou ainda a colocar seu companheiro como dependente em clubes ou seguros.

Considerado um companheiro estável, o parceiro do mesmo sexo poderá também reconhecer a morte do parceiro e assinar documentos necessários em hospitais.

Também fica mais fácil para o companheiro do mesmo sexo ter acesso à herança em caso de morte, de acordo com Maíra Coraci Diniz, que atua no núcleo especializado de combate a à discriminação e ao preconceito da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Entretanto, para Adriana Galvão, da OAB, a questão ainda não está clara, por envolver direitos de outras pessoas da família e devido às restrições feitas pelo ministro Ricardo Lewandowski em seu voto.

De qualquer forma, a decisão traz mais segurança jurídica, diz Adriana Galvão. "Hoje vemos decisões controversas de tribunais diversos sobre questões envolvendo casais homossexuais."

A decisão do STF não é equivalente a uma lei sobre o assunto. O artigo 1.723 do Código Civil estabelece a união estável heterossexual como entidade familiar. O que o supremo fez foi estender este reconhecimento a casais gays.

Agora, se um clube vetar o nome de um companheiro homossexual como dependente, por exemplo, o casal pode entrar na Justiça e provavelmente ganhará a causa, pois os juízes tomarão sua decisão com base no que disse o STF sobre o assunto, reconhecendo a união estável.

A nova regra também tem valor simbólico, diz Maíra Coraci Diniz, da Defensoria Pública de São Paulo. "A decisão do STF reconhece uma realidade que está posta e que as pessoas preferem não falar e vai gerar uma situação que pode ensejar uma mudança legislativa", diz. Ela ressalta que o ideal seria ter uma mudança na legislação.
O que o Supremo Tribunal Federal julgou?
Os ministros do tribunal reconheceram que a relação homoafetiva é uma "família" e afirmam que um casal gay, numa união estável, tem mesmos direitos de um casal heterossexual, numa união estável.
Quais os direitos que poderão ser reconhecidos?
Adoção de filhos, pensão/aposentadoria, plano de saúde e herança são alguns dos exemplos. O casamento civil, no entanto, não foi legalizado com a votação de ontem no Supremo.
A mudança é automática?
Em alguns casos, o direito poderá ser negado, e o casal terá de recorrer à Justiça para que seja reconhecido.
E na adoção?
Segundo especialistas, ainda deve haver dificuldades para adotar crianças. A decisão do Supremo Tribunal Federal não define explicitamente esse direito, apenas reconhece direitos e deveres da união homossexual.
Como ocorria até hoje?
Até agora, cada juiz decidia sobre os direitos de casais homossexuais segundo o seu entendimento. As uniões gays, até então, não eram aceitas juridicamente como uniões familiares em alguns casos.

Fonte: http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/911819-decisao-do-stf-facilita-adocao-e-pensao-para-gays.html


Postado Por Cintia Liana

domingo, 8 de maio de 2011

Ser mãe é uma questão de atitude

Mandy Lynne

Por Cintia Liana Reis de Silva

Adotar uma criança tem diferenças de uma gravidez e essas diferenças não devem ser rejeitadas ou negligenciadas no processo de fortalecimento da identidade da família adotiva, mas esperar o filho adotivo guarda algumas semelhanças com a gestação.

As futuras mãe adotivas fazem como as biológicas, elas sonham, querem, imaginam seu futuro filho. O processo de adoção leva a uma gestação emocional que nem toda gravidez leva, pois na adoção existe o momento em que é necessário refletir sobre as expectativas e as motivações que levam uma mulher a desejar um filho naquele período de sua vida. Certamente a equipe técnica das Varas da Infância, com seus estudos técnicos, levará de algum modo as adotantes a amadurecerem seu desejo ser serem mãe, o próprio processo judicial as “obriga”, de algum modo. Se todas as mães, antes de engravidar, tivessem um estágio de reflexão como as adotivas talvez tudo fosse diferente.

Com a adoção vem um processo de reconhimento de tudo o que circunda a maternidade. Esse gestar emocional e esse tempo na adoção são importantes para se amadurecer todas as questões relacionadas não só a maternagem e relação com o filho, como também as particularidades oriundas da adoção em si, como perfil do filho desejado, revelação da adoção, posicionamento frente a história anterior do filho, relação com a sociedade e os possíveis preconceitos a serem enfrentados, então as mães devem mergulhar num universo totalmente novo, se descobrindo e entendendo que um filho não pode vir com outra função que não seja somente o de ser filho. Filho não pode servir como tábua de salvação, filho-companhia, filho-distração, fazer caridade, salvar casamento ou fazer crescer.

Esse “tornar-se mãe” normalmente ocorre paralelamente ao processo de habilitação e depois com a espera pela indicação da criança, até quando se encontra com ela e inicia-se o processo de visitação e o período de convivência, nesse momento ocorre o parto sem dor tão esperado, o parto é sem dor, mas existe muita ansiedade e expectativas voltadas para esta espera e este primeiro encontro.

O amor construído pelo filho imaginado, neste momento, pode ser direcionado para o filho real e aí vai sendo construída uma relação de amor no dia a dia, para isso é preciso maturidade e sobretudo aceitação, entender que para dar certo é preciso abertura para amar e todo o resto vai sendo conquistado com paciência. A criança, quando se sendo plenamente aceita, não tem medo de se entregar, pois sente que não haverá um segundo abandono.

Não existem diferenças entre filhos biológicos e adotivos, filho é filho e isso se dá na convivência, na relação em si, o apego vai sendo construído e fortalecido, é assim que ocorre também nas relações consanguíneas.

As pesquisas mostram que os filhos adotados se sentem amados e queridos por suas famílias e sentem seus pais adotivos como os seus de fato. Quando se chega a conhecer os biológicos existe até um estranhamento, ou seja, a parentalidade é construída na convivênvia, ela não vem no DNA.

As diferenças da gestação biológica e da adotiva estão nas particularidades sobre a forma da chegada do filho e sobre a existência de um passado em outra família, mas todo o resto é igual, assim também é o amor materno na adoção.

As possíveis dificuldades que podem ocorrer com uma criança que foi adotada não é porque ela não é do mesmo sangue dos pais, todas as crianças têm dificuldades ou apresentam algum problema em algum momento do seu desenvolvimento, o que causam grandes dificuldades são o abandono, a indiferença, a violência e esses aspectos, infelizmente, também encontramos em muitos lares biológicos.

O importante para pais adotivos que adotam crianças que apresentam dificuldades é saber encontrar as formas de lidar com as memórias, o desejo de procurar curar as feridas e o amor que se tem no presente.

A gravidez é um processo, mas não é garantia que uma mulher amadureça, se fosse assim não existiriam histórias de bebês abandonados de modo tão triste ou mães violentas. Estudiosos mostram que a gravidez não faz de ninguém mãe, pode ser um acontecimento puramente biológico, que varia de uma mulher para outra o modo de sentir, pode transformar uma, mas a outra pode rejeitar o fato. Ao contrário da adoção, onde a espera pelo filho é um forte acontecimento, existe a busca, o desejo de amar, o sonho e a reafirmação do desejo de cuidar, tudo isso é importante no processo de fortalecimento da atitude materna e pode ocorrer tanto na adoção como na gestação.

Parir um filho não faz de ninguém mãe. Uma mãe se faz pelo desejo, pela decisão e atitude.

Resposta na íntregra da entrevista de Cintia Liana cedida ao Jornal "A Gazeta" para o dia das mães de 2011.

Por Cintia Liana

sábado, 7 de maio de 2011

Quando mães cumprem um mandato familiar

Liberty Biberty

Por Cintia Liana Reis de Silva

Uma breve reflexão sobre as mães que abandonam


O próprio processo biológico de se ter um filho já faz a mulher ser obrigada a conviver mais com a gestação e com esta realidade que o homem. Algumas não têm condições de assumirem sozinhas esta empreitada ou, para outras, para este projeto, elas precisam de apoio, seja do parceiro ou de sua família extensa, o problema é quando se veem completamente sozinhas, sem nenhuma perspectiva, algumas não têm base emocional, psíquica, nem financeira para suportar tamanha responsabilidade.

As leis civis e familiares não são conhecidas nem divulgadas claramente. Educação sexual não chega para todos, ao contrário, a minoria tem acesso e dá atenção à ela. Muitas mulheres não sabem que entregar o filho para adoção não é crime, já outras abandonam às escondidas por sentirem culpa e vergonha, por não conseguirem sentir esse amor materno culturalmente mitificado. As pesquisas apontam que normalmente são mulheres que cresceram sem experimentar esse amor vindo de pais, que não foram maduros e protetores para com estas quando crianças. Quando pequenas sofreram rejeição, violência, abuso físico e moral e total abandono afetivo.

Na sociedade existe uma forte cultura que impulsiona a opinião pública a julgar e condenar, e de fato ocorrem situações hediondas e cruéis que nos mobilizam emocionalmente e revoltam muito, mas é necessário tentar entender todos esses processos humanos e quando somos levados somente pelo julgamento do ponto de vista moral perdemos de vista o essencial, que é o entendimento dos processos psicológicos que levam uma pessoa a abandonar o próprio rebento. Esse entendimento é importante também para que invistamos na cura do ser humano, da sociedade, para que nos aproximemos da compreensão da verdade.

Em meu livro, publicado no Brasil em 2011, "Filhos da Esperança", eu explico, com base na psicologia relacional sistêmica, que esses “progenitores podem ter cumprido um mandato familiar na forma de uma tradição ou de um padrão intergeracional, no qual podem ter passado, como sua mãe, a avó da criança, um padrão de rejeição e falta de acolhimento. Essa genitora pode ter sofrido um processo de projeção familiar transmitido pela imaturidade e baixo nível de diferenciação do self da sua mãe. Diferenciação esta que significa adquirir autonomia com habilidade de pensar, sentir e agir por si mesmo, como um adulto responsivo.” (ANDOLFI apud SILVA, 2011, p. 67)

Estudiosos falam sobre “o mito do amor materno”, "que o apego é inerente à mãe. Tem que existir um contexto positivo, um solo fértil para alimentar a criança e criar uma relação de apego saudável. Ela acredita que para que uma mulher possa ser a “boa mãe”, é preferível que ela tenha experimentado, em sua infância, uma evolução sexual e psicológica satisfatória, junto de uma mãe também relativamente equilibrada. Mas, se uma mulher foi educada por uma mãe perturbada, há grande probabilidade de que sinta dificuldade em assumir a sua feminilidade e maternidade. Quando for mãe, reproduzirá, diz-se, as atitudes inadequadas que foram as da sua própria mãe." (PONTES apud SILVA, 2011, p. 68)

Outras teorias mostram que "quando o indivíduo passa da condição de filho para a condição de genitor usará o mesmo modelo que foi aprendido com os pais. Quando ele desempenha este novo papel, se faz necessário algumas respostas efetivas, abrem-se feridas intergeracionais e vem a tona uma questão de base: “como se pode dar aos filhos aquele afeto verdadeiro e tangível que se pensa nunca ter recebido dos genitores, quando crianças ou adolescentes?”." (ANDOLFI apud SILVA, 2011, p. 68)

Elisabeth Banditer e outros pesquisadores, apontam que "o amor materno não é um sentimento inerente à condição de mulher, não é algo determinante, mas algo que se adquire, e esses sentimentos humanos de mãe pode variar de acordo com suas ambições ou frustrações, com a cultura e as flutuações sócio-econômicas da história. Eles explicam que “o amor materno pode existir ou não, aparecer e desaparecer, ser forte ou ser frágil, ter preferência por determinado filho ou não”. O amor materno acaba por ser “apenas um sentimento humano como outro qualquer e, como tal, incerto, frágil e imperfeito”." (SILVA, 2011)

Isso quer dizer que, não basta se tornar mãe através do parto para sentir o “maior amor do mundo”, esse sentimento não é uma regra, ele varia de uma mulher para a outra, depende da experiência de cada uma, suas particularidades e mais uma série de fatores subjetivos. Gerar um filho não faz de ninguém amoroso ou protetor, o amor materno é um amor construído na convivência, assim como nas outras relações. (SILVA, 2011, p. 69)

Figuras parentais é que proporcionam um lastro firme para o desenvolvimento sadio de um ser humano. Se este não teve exemplos de afeto, não é porque se tornou adulto e pariu um filho é que estará transformado e preparado para assumir esta responsabilidade com empenho de um afeto que desconhece, que não se teve de ninguém. Por isso, e por outras coisas é que deveríamos cuidar dessas outras crianças que estão crescendo nos abrigos sem experimentar afeto, um dia elas poderão ser pais também. Mas se, ao contrário de crescerem sem experimentar amor, tiverem uma família substituta, onde possam crescer em sua totalidade e exercitar o afeto isso poderá ser mudado. Os mandatos familiares podem ser rompidos neste investimento e assim começarmos a construir um futuro melhor para todos.

Outro aspectos importante, é que é melhor que os pais adotivos sintam empatia pela fonte do vida do filho que raiva, e essa compreensão leva a uma relação de mais harmonia com essas figuras que trouxeram essa criança ao mundo e a criança, por sua vez, também sente essa energia de gratidão que os pais adotivos nutrem pelos pais biológicos e tudo entra em ordem.

*Umas das respostas, na íntegra, da entrevista de Cintia Liana cedida ao Diário de São Paulo.

Referência:
SILVA, Cintia Liana Reis de. Filhos da Esperança: Os Caminhos da Adoção e da Família e seus Aspectos Psicológicos. Edição do autor, Salvador, 2011.
Livro: https://www.clubedeautores.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca?topic=pscicologia#.V5d2UEZ97IU

Por Cintia Liana

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Mães que abandonam seus filhos sofreram maus-tratos na infância, dizem especialistas

Mandy Lynne

"Abandonei meu filho porque queria ir no bailão". Tanto a frase quanto o ato de abandonar um bebê podem parecer absurdos, mas para psicólogos e psiquiatras acostumados a tratar mulheres com transtornos de personalidade isto é comum e deve ser compreendido.

Os especialistas concordam que mulheres que deixam seus filhos sofreram graves abusos quando eram crianças e, por isso, não desenvolvem o sentimento de amor e a relação da maternidade.

Para Joel Rennó Júnior, coordenador do projeto Pró-Mulher do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, de 10 a 25% das mulheres que têm bebês apresentam transtorno de relacionamento mãe-bebê. Este transtorno de personalidade não existe nas classificações oficiais de psiquiatria, mas deve ser incluído no novo manual de diagnóstico de saúde mental (DSM-5), que será publicado em 2013.

O psiquiatra, que presta assistência médica e psicológica a mulheres com distúrbios psíquicos relacionados ao ciclo reprodutivo feminino há mais de 10 anos, afirma que estas mulheres desenvolvem uma raiva e rejeição que atingem níveis patológicos e que não estão associados a depressão. São mulheres que sofreram rejeição, abuso físico e moral, negligência e violência na infância.

"A noção de mãe está muito desestruturada nestas mulheres. Muitas delas também não tiveram uma mãe que cuidasse delas, afirma Catalina Camas Cabrera, psiquiatra do Hospital das Clínicas, que trabalha com o grupo CA Vidas, com mulheres vítimas de abuso.

"Para se tornar um ser humano biologicamente cultural é preciso do afeto de outro ser humano, que cuide, atenda e ame. O amor foi descoberto como uma  necessidade primária. Eu não sobrevivo, ou sobrevivo muito mal, se eu não tenho cuidadores que tenham amor incondicional. Não me entendo por gente, não tenho empatia, não consigo amar outros", diz a psicóloga Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, professora da Universidade Federal do Paraná.

A frase que abre esta reportagem foi dita à Weber em uma pesquisa com mães que abandonaram seus filhos em hospitais ou deixaram para outros criarem. Foram entrevistadas 21 mulheres que seguem o perfil e outras 21 com o mesmo nível sócio-econômico, mas que criaram seus filhos. A única diferença entre elas era o tratamento que tinham recebido dos pais. "Todas tinham a mesma escolaridade, muitas tinham companheiro na época. A diferença estatística forte era que as que abandonaram tinham claramente uma história de abandono, negligência e violência em casa. Essas mães que abandonam nunca foram filhas. Elas nunca foram sujeito de afeto e não entendem isso como importante, explica Weber.

Entender em vez de condenar
A professora destaca que é preciso entender como eram as famílias dessas mães, saber como elas foram tratadas na infância. "Alguns relatos são chocantes, mas é preciso entender esse outro lado. Elas não passaram por um processo de vinculação afetiva".

Rennó concorda: "Temos que entender esse perfil, onde a mulher tem suas estruturas psíquicas abaladas. Ela foi abusada, rejeitada e isso deixa uma impressão que acaba passando para o filho. A criança traz todo o significado de rejeição, que algumas nem querem sentir", conta. Entretanto, ele destaca que o transtorno de relacionamento mãe-bebê não pode ser aplicado genericamente para todas as mães que abandonam seus filhos. "O diagnóstico é categorial, baseado em um manual com critérios que englobam sintomas psíquicos discriminadores".

Cabrera, que atende mulheres vítimas de violência desde 1998, diz que muitas dessas mulheres são entendidas como pessoas más, mas que a maioria delas tem auto-estima baixa e tomam a atitude de abandonar o bebê em um momento de desespero.

Vergonha
Uma das questões levantadas é porque estas mães não entregam o filho para o juizado ou para a adoção. Para Weber, especialista em abandono e adoção de crianças no Brasil, entregar a criança para a adoção também é um abandono e as mulheres sentem vergonha de assumir isso em público. "Muitas não sabem
que podem deixar seu bebê para adoção, que isto não é crime, e há toda a questão cultural do instinto materno, do amor, que ela não sente".

Segundo a psicóloga, a criança adotada é mais feliz do que a rejeitada que é criada pela mãe. "Uma pesquisa acompanhou o desenvolvimento de crianças por anos e concluiu que as que foram abandonadas e depois adotadas apresentam melhores resultados cognitivos e psicológicos do que aquelas que a mãe teve o
desejo de abandonar, mas não abandonou".

Depressão pós-parto
A depressão pós-parto, apontada por muitos leigos como causa para tais atos, é excluída como causa principal pelos especialistas. "Cada caso deve ser analisado individualmente, mas o que há de comum entre depressão pós-parto e este estado psicótico é que as mulheres não se acham capazes de cuidar de
seus filhos", diz Cabrera.

De acordo com Rennó, as mães com depressão pós-parto se sentem culpadas por não terem energia para cuidar do bebê e acabam deixando a tarefa para alguém da própria família. A falta de culpa é um ponto destacado pelos especialistas, o que leva também, à maior dificuldade de encontrar estas mulheres, já que elas não buscam ajuda e não são identificadas ao abandonar seus filhos. "Elas não acreditam que
alguém possa ajudá-las. São pessoas que precisam ser ajudadas e não julgadas", ressalta a psiquiatra.

O papel do Estado
Weber acredita que o Estado deve ter maior cuidado com a família. "O papel do Estado vai desde desmistificar a culpa até acompanhar e aconselhar tais mulheres. Na França existe um programa de abandono de bebês institucionalizado. A mãe pode optar em ter o bebê e entregá-lo a adoção.

Ela tem toda a assistência que necessita, que a ampara e a faz refletir". Ela acrescenta que é necessário ainda quebrar o círculo vicioso que temos hoje. "Cerca de 88% das crianças institucionalizadas dizem que apanham ou já apanharam. Há negligência e violência nas famílias, o que só aumenta a probabilidade de que um mulher abandone ou rejeite seu filho no futuro", diz. "Não há uma estatística oficial de quantas crianças são abandonadas. Grande parte delas não entra nas estatísticas porque vão para a adoção informal -- quando a própria mãe já encaminha a criança para quem tem interesse em criá-la", afirma.

Weber conclui que o abandono de crianças está presente na história da humanidade há centenas de anos. "Toda a antiga bíblia e mitos estão recheados de abandono de crianças. Era comum até o renascimento, como uma forma de minimizar o infanticídio", conta.

Fonte: Lilian Ferreira/Uol


Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 3 de maio de 2011

Fale de adoção sem traumas; Livros tratam o tema com delicadeza e carinho

Filha de amigos. Foto cedida pelos pais. Linda!
 
28/04/2011 - 14h02
 
Da Livraria da Folha
 
Falar de adoção já foi mais difícil, e de certa forma, até mais doloroso. É óbvio que a situação é incômoda e deve ser tratada com respeito, cuidado e afeto, mas hoje é grande o número de crianças adotadas e que convivem em paz com essa informação dentro da própria família, nas escolas e nas mais diversas situações.
 
Mesmo assim, na hora de falar com os filhos, é bom estar preparado para todos os tipos de situações. Afinal, a notícia aperta forte nas emoções e pode provocar angústias compreensíveis, mas também temporárias e reversíveis.
 
Para lidar com os pequenos, as palavras têm que ser bem escolhidas, a situação bem explicada. Não precisa fazer alarde com isso, nem tentar encontrar heróis ou vilões na história. É uma possibilidade bonita de vida, de se construir famílias, e o amor incondicional entre pais e filhos é o que tem que prevalecer.
 
A Livraria da Folha selecionou alguns dos títulos mais interessantes encontrados em nossa estante. Essas obras são destinadas a adultos e crianças, e elas comentam com muita delicadeza como lidar com o assunto.
 
As dicas para os pais os alertam sobre alguns passos falsos que podem deixar a situação chata, enquanto outros livros explicam para os pequenos o que significa esse universo, e o fazem com personagens carismáticos e felizes, despertando e fazendo-os compreender e aceitar com felicidade a oportunidade de ter um pai e uma mãe que os amam.
  
"Adoção, a Família da Flora"
Com bonitos poemas, o livro é destinado às crianças, e conta a história de Flora e de maneira sutil a razão por ela ter sido adotada. Do mesmo modo, a autora Carolina Coelho destaca o papel e carinho da família que cuida e se preocupa com a personagem.
 
Ao final do livro, uma série de orientações e dicas indicam para pais e educadores os aspectos mais importantes e que valem ser relidos com atenção.
 
"Somos Um do Outro"
O famoso Todd Parr também faz sua contribuição nessa história. Este livro é especial para mostrar aos pequenos que não há problema nenhum em ter uma família "diferente".
 
O personagem muito popular, querido e colorido ajuda diretamente as crianças a se sentirem bem consigo mesmas, e a enxergar que coisa boa é ter um papai e mamãe para viver momentos em família.
 
"Conversando com Crianças sobre Adoção"
Voltado para os adultos, o texto aborda o tópico do diálogo aberto com os filhos, em dar espaço para eles refletirem a respeito e fazerem as perguntas que quiserem, a fim de sentirem-se satisfeitos e compreenderem o assunto.
 
"Adoção"
Este livro também restringe a conversa com os pais. O texto serve como um verdadeiro roteiro, conduzindo toda a conversa sobre o assunto.
 
A obra aborda os assuntos relacionados à idade de contar, pais naturais, descarga emocional, afeto psicológico e como lidar com as emoções de frustração, negação e aceitação dos filhos.




Postado Por Cintia Liana

domingo, 1 de maio de 2011

A família e seus significados 2

Mandy Lynne

2ª parte, na íntegra, da entrevista de Cintia Liana, cedida ao Diário de Pernambuco

Como essas novas famílias foram se formando ao longo dos tempos? Quais seriam as futuras famílias?

"Primeiro precisamos desconstruir a crença de que o modelo patriarcal de família colonial foi o mais comum, a história, neste sentido e em muitos outros, foi manipulada." (SILVA, 2011, p. 41) 

"Corrêa (1981), em seu texto “Repensando a família patriarcal brasileira”, mostra como as elites dominaram a literatura e estabeleceram um modelo ideal dominante de estrutura familiar, impondo uma ordem pré-definida de família, sobrepujando-se a todas as outras formas de constituição familiar, consequentemente, marginalizadas no decorrer da história. O retrato que temos da família brasileira é que o modelo patriarcal de família do Brasil colonial foi substituído pelo modelo de família conjugal moderna, onde a única coisa positiva neste acontecimento foi do matrimônio deixar de ter como principal objetivo o da manutenção da propriedade comum e de interesses políticos de um grupo para dar lugar a satisfação de impulsos sexuais e afetivos." (apud SILVA, 2011, p. 41)

"Corrêa (1981) também fala que a perspectiva antropológica de família nos leva a refletir sobre a possibilidade dos grupos dominantes de uma determinada época e lugar terem camuflado e ignorado da história toda uma gama de personagens, movimentos, ramificações externas, transações internas e ter estabelecido por interesse um modelo de família conveniente e colocado sua identidade num prisma automático."  (apud SILVA, 2011, p. 42)

"Esse modelo de família brasileira faz passar uma visão de uma homogeneização histórica. Colocar este modelo de construção social do humano como uma modelo absoluto, para descrever todas as outras construções humanas e sociais, desrespeita, fere, marginaliza todas as outras que existem e ignora uma multidão de terceiros." (SILVA, 2011, p. 42)

"Penso que os grupos de poder manipulam informações para moldar as pessoas, têm a ousadia de ditar como devem ser as coisas, o que é “normal” e o que não é. Tudo isso no intuito de estabelecer uma falsa ordem social, contudo, ensinar a pensar abertamente é o caminho mais longo, porém o mais inteligente e libertador, é o único caminho que nos levará ao respeito pelo que é chamado ainda de “diferente”." (SILVA, 2011, p. 43)

Referência:
SILVA, Cintia Liana Reis de. Filhos da Esperança: Os Caminhos da Adoção e da Família e seus Aspectos Psicológicos. Agbook: Rio de Janeiro, 2011.

Observação:
Foram usadas algumas partes do meu novo livro para a composição das respostas.

Por Cintia Liana

sábado, 30 de abril de 2011

A família e seus significados 1

Mandy Lynne

1ª parte, na íntegra, da entrevista de Cintia Liana, cedida ao Diário de Pernambuco

Qual a importância da família para uma pessoa?
A família é a principal fonte de afeto e cuidados, fornece base para o contato com o mundo, ela fortalece e ensina. No futuro, o comportamento do jovem dependará, em boa parte, deste contato saudável com as primeiras figuras de apego, assim como será o reflexo do funcionamento do lar, esse funcionamento pode ser saudável ou adoecido. Depende como os pais se comportam, dos padrões familiares, intergeracionais. Se deve buscar crescer emocionalmente antes de se ter um filho e não se tornar pai e mãe com o objetivo de se transformar num adulto, um filho não merece esse fardo, de nascer para fazer um outro crescer.

Uma família tradicional, formada por pai, mãe e irmãos, seria a ideal?
" O modelo de família conjugal, homem, mulher e filhos biológicos, difundido e imposto como o ideal não é o real, o mais forte e nem o principal modelo existente, nem hoje, nem no passado. Havia uma época em que as mulheres eram as chefes de família, separadas, trabalhavam dentro e fora de casa, mas mesmo assim, a literatura da elite dominante insiste em dizer que eram famílias chefiadas e sustentadas por seus homens, neste sentido, tudo indica que os homens também fizeram um pacto de poder." (SILVA, 2011, p. 43)

"De acordo com Corrêa (1981), não seria possível a predominação de um só modelo familiar na sociedade brasileira, tendo em vista a riqueza dos processos sociais, econômicos, políticos e diferentes áreas de ocupação e momentos na história. É um grave equívoco colocar um modelo de família numa obra literária como um modelo absoluto. Dizer que o modelo patriarcal de família era o mais comum entre todas as pessoas não é só negar os fatos históricos, é também esconder a verdade e, mais que isso, é contribuir para uma marginalização das outras formas de família." (apud SILVA, 2011, p. 43 e 44)

Filhos adotados por casais gays poderiam apresentar problemas futuros ou isso é mito?
É um grande mito. As pesquisas mostram que filhos adotados e filhos de homossexuais não têm mais problemas ou dificuldades que os outros. O que gera problemas é o abandono, a rejeição, a indiferença, a falta de compreenção, de amor e isso é algo que vemos também nos lares constituídos por pais biológicos e heterossexuais.

"Quando um filho de pais biológicos comete um crime, ninguém aponta e diz que é porque ele é filho biológico, mas se ele foi adotado o fazem. Nos dois casos ninguém  vai investigar as causas daquele desequilíbrio. Vivemos em uma sociedade onde o mais fácil é rotular e encontrar culpados e não sabedoria para seguir por um caminho desvendando a subjetivdade. As pessoas têm preguiça de olhar para dentro. Quando olhamos para dentro com verdade, lidamos melhor com quem está fora, com o mundo.
Se as pessoas enfrentam os preconceitos, as outras ganham força para se mostrarem e é isso que ocorre hoje, a homossexualidade não é algo novo, nem surgiu no século passado e a adoção é uma prática milenar, as outras conquistas vêem com a evolução da ciência. O que ocorre hoje é que se tem uma maior liberdade para mostrar o que sempre existiu." (apud SILVA, 2011, p. 45)

"Algumas escolas estão acompanhando esta evolução, isso tem que acontecer porque as pessoas estão se mostrando, se arriscando, exigindo respeito e serem ouvidas, elas querem o seu espaço merecido. As escolas que não o fizeram estarão atrasadas e farão como muitos outros grupos, esconderão o que é socialmente menos aceito embaixo do tapete. Como não falar de adoção e homossexualidade nas escolas? Medo? Falta de preparo? Então vamos estudar e nos abrir para o novo! Como não incluir os pais neste discurso? O peso do segredo só traz incômodo, ignorância, intolerância e mais preconceitos."  (apud SILVA, 2011, p. 45)

Como manter a união familiar, seja ela qual for?
Olhando para a necessidade de construção de conhecimento e não de manutenção de preconceitos. É preciso diálogo com sinceridade, transparência e se trabalhar o orgulho, lançando mão de uma terapia famíliar, se necessário.
O autoconhecimento é fundamental e proporciona uma base muito forte para enfrentar e vida e lidar com o mundo. Conhecendo a si mesmo se tem como fazer progressos, melhorar a própria realidade e se educar, como isso o relacionamento com os outros muda também e tudo fica mais fácil. Educar a si mesmo é difícil, por isso se cobra sempre mais do outro. As respostas estão dentro de nós, nós somos os responssáveis pala vida que temos e o que faz ela mudar é a tomada de consciência aliada a atitude.

Referência:
SILVA, Cintia Liana Reis de. Filhos da Esperança: Os Caminhos da Adoção e da Família e seus Aspectos Psicológicos. Agbook: Rio de Janeiro, 2011.


Por Cintia Liana

sexta-feira, 29 de abril de 2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Família tenta na Justiça guarda de criança que foi abandonada pela mãe

Mandy Lynne

Casal, que perdeu dois filhos, começou a cuidar da criança que agora foi levada para abrigo

27/04/2011

Uma família está apreensiva em Alfenas. Uma mulher que teve uma criança no mês passado, resolveu entregá-la direto para um casal, sem passar pela Justiça. A nova família da criança logo entrou com a documentação pedindo a guarda definitiva do bebê, mas agora uma decisão encaminhou o recém-nascido Luiz Otávio para um abrigo.

O promotor Marcelo Fernandes dos Santos entendeu que o casal não poderia ficar com a criança, por ter desrespeitado a Lei de Adoção, determinada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O promotor pediu que o bebê fosse imediatamente retirado da família e a juíza Adriana Freire Diniz Garcia, expediu um mandado de busca e apreensão determinando que a criança fosse levada para o abrigo. Ainda segundo a promotoria, a criança será encaminhada normalmente para a adoção, que já possui cerca de 100 casais na lista de espera. Segundo o promotor, o casal ficou com a criança sem o consentimento da Justiça e agora eles não têm o direito de requerer a guarda da criança.

A advogada do casal informou que vai recorrer em Belo Horizonte. Ela pretende usar como argumento o fato da mãe biológica do menino ter assinado um documento manifestando a vontade de que a criança ficasse aos cuidados do casal Fagner e Gisele. Ela também acredita que o abrigo não é um local adequado para o menino. Já a promotoria diz que o lugar tem totais condições de cuidar das crianças até que elas sejam adotadas.

O casal Fágner e Gisele já perdeu dois filhos. Um viveu no hospital por pouco mais de um ano, antes de morrer. O outro, nasceu em dezembro do ano passado, mas não completou um dia de vida. Luiz Otávio chegou na casa deles com quatro dias de vida e foi tratado como filho legítimo. O bebê inclusive estava sendo amamentado pela nova mãe, Gisele.

Fonte e para assistir o vídeo:


Postado Por Cintia Liana

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Araranguá tem primeira adoção por casal homossexual

Mandy Lynne

18/04/2011

Uma criança de Araranguá é a primeira do Sul do Estado a ter sua certidão de nascimento registrada por duas mulheres graças a uma sentença judicial. Criança, hoje com dois anos, foi adotada pela companheira de sua mãe biológica. Decisão, divulgada esta semana pela Justiça de Santa Catarina, foi tomada pela magistrada Débora Driwin Rigger Zanini. Ela reconheceu o direito da autora depois de ficar comprovada a união da autora com a mãe da criança, em convivência harmônica e pacífica, comprovada por estudo social. As duas mulheres se conhecem e mantém uma relaçã estável desde 2008. Em 2009, a criança nasceu e a autora do processo assistiu toda a gravidez, e prestou auxílio moral e financeiro.

Na sentença, a juiza destaca que "não se pode fechar os olhos para aquilo que acontece em nossa volta, sendo certo que a união homoafetiva é algo público e notório, sendo cada vez mais presente no meio social. Por isso, deve merecer a tutela jurídica, semelhante ao que ocorre com os casais heterossexuais".

Disse ainda que, considerou necessário sepultar "velhos direitos, dotados de matriz preconceituosa", para reconhecer ao casal homossexual os mesmos direitos de qualquer casal heterossexual, em homenagem ao princípio da dignidade humana.



O nosso parabéns à juíza!

Postado Por Cintia Liana

sábado, 23 de abril de 2011

A psicóloga Cintia Liana publica seu primeiro livro

Foto: Capa do primeiro livro da psicóloga Cintia Liana

Queridos amigos e leitores, é com muita alegria que venho anunciar a publicação do meu primeiro livro, editado pela Agbook.

"Filhos da Esperança"
Os Caminhos da Adoção e da Família e seus Aspectos Psicológicos
Por: Cintia Liana Reis de Silva
A psicóloga Cintia Liana, que atua na área de família e adoção desde 2002, já foi perita de uma vara da Infância no Brasil e hoje atua na Itália com adoção internacional, escreve sobre os caminhos da adoção no Brasil, a forma de avaliar os candidatos à adoção e a situação de abandono das crianças, com um olhar crítico e preocupado.
A autora também nos traz a reflexão dos aspectos antropológicos e subjetivos no processo de construção da família, da adaptação do filho adotivo, da revelação da adoção, postura diante da história da criança e sua família de origem, assim como outros pontos importantes deste universo a serem descobertos pelo leitor.
Ela utiliza o pensamento sistêmico como base.
Se trata de um excelente guia de reflexão e amadurecimento não só para quem deseja ter um filho através da adoção e para quem já adotou, mas também para profissionais e estudantes interessados na area, que queiram entender, se atualizar e se aprofundar neste cenário.

Para comprar on line ou visualisar as primeiras 15 páginas, acesse o link:
http://www.agbook.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca

Foto: Capa completa do primeiro livro da psicóloga Cintia Liana
pela Editora Agbook, Brasil


Por Cintia Liana

Família é prato difícil de preparar

Foto: Gloria's Little Cedars

De "O Arroz de Palma", de Francisco Azevedo

Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.

Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.

O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Meuni; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é a Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.


Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Uma tragédia dentro da outra

Foto. Elena Kalis

Por Guilherme Lima Moura

Uma tragédia sem precedentes na história e na alma brasileira. O terrível episódio ocorrido recentemente na escola do Rio de Janeiro traz-nos a todos, imediatamente, um forte sentimento de consternação e compaixão pelo sofrimento de tantos. Nota-se, porém, que um evento como este produz, além de comoção, uma desenfreada busca por explicações e, quase sempre, por culpados. Diante dele, intensificamos nosso raciocínio e construímos nosso discurso com base na expressão linguístico-lógica mais representativa da razão humana: “é por causa de”. Usamos esta sentença para exercer nossa mais intrínseca e distintiva condição humana: a possibilidade de entendermos nós mesmos e o mundo. Não obstante, nem sempre produzimos este exercício de entendimento adequadamente. É quando explicações apressadas surgem aqui e ali; associações de causa e efeito infundadas são precipitadas a esmo; preconceitos infelizes são disseminados. Passa a existir, a partir de então, uma tragédia dentro da outra. A silenciosa tragédia do preconceito. É o que tem ocorrido quase subliminarmente, embora insistentemente, na descrição apresentada na mídia sobre o infeliz autor da tragédia de Realengo: “ele é filho adotivo”. A ênfase dada à condição de filho por adoção, em meio a tantas outras que poderiam ser informadas, deixa no ar um “é por causa de” que sugere a associação entre a filiação adotiva e a criminalidade, os distúrbios psicóticos, a maldade. Na esteira do preconceito, propagam-se nos círculos de convivência por todo canto esta infeliz e infundada conclusão. Filhos e pais adotivos e, sobretudo, candidatos a pais adotivos escutam admoestações pseudo-amigas: “Tá vendo?! Ele é adotado!”, vivenciando constrangimentos lamentáveis. Mas por que tal conclusão é infundada? Por que ela representa um mau uso do “é por causa de”? Porque não possui base racional em nenhuma dimensão lógica ou científica. Porque não se fundamenta em evidência estatística alguma. Porque fere mesmo o senso comum e o bom senso. Tal associação causal entre a especificidade do “fazer-se filho” e o ato criminoso não resiste à lógica. Torna-se preciso aprofundar a reflexão em busca de explicações cabíveis, evitando-se a preguiçosa prática da definição preconceituosa. Se fizermos um levantamento entre malfeitores de todos os tipos, certamente encontraremos poucos casos de adoção, por uma questão estatística: a filiação biológica tradicional corresponde à esmagadora maioria dos casos de filiação. Mas se mudarmos nossa busca e investigarmos quantos daqueles criminosos sofreram algum tipo de abandono afetivo, certamente chegaremos a números assombrosos, embora não surpreendentes. A atitude adotiva consiste no estabelecimento de uma relação de profundo afeto, que inclui o outro na relação como ele se apresenta. Que respeita a diversidade e não se prende a estereótipos e preconceitos. É justamente no abandono afetivo (ocorra ele entre pais e filhos biológicos ou adotivos, ou nos hoje famosos casos de bullying nas escolas) que residem muitas das causas das aflições humanas. O abandono afetivo é a mais cruel forma de relacionar-se com o outro. Pensemos nisso antes de buscarmos explicações para os fatos que nos assombram: em que níveis de falta de adoção, ou seja, de abandono afetivo estamos construindo nossas relações sociais? Eis um “é por causa de” que a vale a pena considerarmos...

*Guilherme Lima Moura é professor da UFPE, pai adotivo e integrante do Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife (GEAD-Recife).


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Bebê é encontrado no lixo em Praia Grande (SP)

Quarta-feira, 20/04/2011

Bebê de 10 dias é deixado em caçamba de lixo na Praia Grande, SP
SÃO PAULO - Um bebê de apenas 10 dias foi achado em uma sacola plástica, dentro de uma caçamba de lixo na Praia Grande, litoral paulista. A criança foi achada por acaso na caçamba, instalada na frente de uma escola, por um catador de lixo. O homem pediu ajuda na escola para socorrer o bebê, que passa bem e foi encaminhado a um hospital do município. A polícia tenta identificar a mãe da criança.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Jurista defende que indiazinha seja adotada

Foto: Google Imagens

Terça-feira, 12/04/2011

A adoção deve ser a melhor maneira de evitar que a pequena Yiy`y, uma criança indígena da etnia Arauweté vítima de maus-tratos pelos próprios pais, tenha sua saúde ainda mais prejudicada. De acordo com o jurista Zeno Veloso, a justiça brasileira deve tomar uma atitude em prol da defesa da criança. “Nesse caso, apesar de haver um conflito de direitos (direito do índio que está dentro do seu meio cultural e da criança que está sendo vítima de violência), é possível que a criança seja retirada dessa comunidade e destinada à adoção, com a orientação da Fundação Nacional do Índio (Funai)”, explicou.

Veloso esclareceu, ainda, que os indígenas brasileiros que não estão inseridos na chamada “civilização” são considerados incapazes, ou seja, não possuem capacidade civil nem penal e precisam viver sob regime tutelar. “Essa situação faz com que apareçam alguns problemas porque às vezes esses índios acabam por frequentar alguns espaços dos chamados ‘brancos’. E então passa a existir um conflito, um choque cultural”, disse. No caso da pequena Yiy`y, trata-se de índios que vivem em vias de integração, ou seja, não são totalmente isolados.

Perto de completar quatro anos de idade, a menina veio de Altamira, onde fica a aldeia indígena onde vive com os pais. A criança apresentava sinais de maus-tratos e desnutrição grave. Segundo a diretora-chefe da Casa do Índio de Belém, Doris Elenice Oliveira Souza, ela sofre maus-tratos há bastante tempo pelos seus pais, talvez pelo fato de ser portadora de um distúrbio de crescimento que a mantém com idade óssea muito inferior à da idade real.



Postado Por Cintia Liana

domingo, 17 de abril de 2011

Juizado da infância implanta projeto "Caminho Legal da Adoção"

Foto: Mandy Lynne

Com a finalidade de orientar e esclarecer os usuários e profissionais da saúde sobre os procedimentos da adoção e os riscos que permeiam o assédio às mães que desejam doar seus filhos a terceiros, o Juizado da Infância e Juventude da comarca de Porto Velho, por meio da Seção de Colocação Familiar, criou o Projeto Caminho Legal da Adoção.

O projeto pretende estimular a busca por inscrição cadastral dos pretensos pais adotivos, a fim de que se diminua o índice de adoções prontas ou vinculadas (aquelas em que são regularizadas depois que as crianças já estão com os pais adotivos) possibilitando assim, que os habilitados concretizem o processo de adoção conforme ordem do Cadastro Nacional de Adoção, dentro de um menor tempo de espera. Registrar uma criança como filho biológico sem o ser caracteriza crime de falsidade ideológica.

Além disso, por meio do projeto, o setor faz palestras educativas, promove oficinas, fóruns de debates (com a participação de um facilitador/palestrante), elabora e distribui material informativo (folders, cartilhas, banners, cartazes) sobre a temática da adoção ilegal e a lei da adoção nas unidades de saúde materno-infantil e planejamento familiar públicas e privadas, localizadas no município de Porto Velho. As ações são realizadas em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, com a participação de agentes comunitários de saúde e outros profissionais envolvidos no atendimento à crianças e adolescentes.

Experiência positiva

A primeira etapa do projeto foi realizada em março com os profissionais da Maternidade Municipal Mãe Esperança, em Porto Velho, e o resultado, segundo a avaliação dos participantes foi satisfatória, pois proporcionou maior esclarecimento sobre os caminhos a serem seguidos nas situações em que as mães não querem ou não podem ficar com seus filhos. Os próximos encontros ocorrerão nos meses de abril, maio e junho. Envolverão as policlínicas e os postos de saúde do município de Porto Velho.

De acordo com os profissionais da Seção de Colocação Familiar do Juizado, a previsão é de que em 2011 sejam realizados outros 19 workshops, sendo 18 direcionados aos servidores das unidades de saúde do município e 01 para os técnicos do Hospital de Base Ary Pinheiro. Ainda segundo os responsáveis pelo projeto, está previsto um Seminário com a mesma temática, que contará com a participação de profissionais de outros estados com boas experiências nessa área de Adoção. O evento será aberto a todos os profissionais da rede pública e privada de saúde e áreas afins.



Postado Por Cintia Liana

sábado, 16 de abril de 2011

Na filiação adotiva a realidade é outra

Foto: Débora Secco. Google Imagens.

Por Paulo Wanzeller

Depois que escrevi o texto sobre a tragédia no Rio de Janeiro, muitas pessoas me escreveram expressando opiniões, concordando, elogiando, percebi o quanto é bom colocar para fora algo que está preso; uma fala que poderia ser de muitas pessoas, até dizer o que muitos gostariam de ter dito; e que também dizem, quando repassam um texto uma opinião etc. Um desses contatos foi de uma amiga que me chamou a atenção especialmente. Refleti sobre o que ela escreveu e resolvi dividir ...

Não é por falso puritanismo, mas não tinha assistido ao filme “O doce veneno do escorpião”, para quem não sabe é o já “famoso” filme “Bruna Surfistinha”. Logicamente dei um jeito e assisti ao tal filme. Não recomendo. Poupem-se. Não será possível dizer: “a Débora Secco dá um show de atuação”, absolutamente, nada há de novo na miséria humana, no sentido da degradação social, se abrirmos os jornais está tudo lá, álcool, drogas, prostituição, desrespeito e tudo que envolve o submundo. Mas o que tem isso a ver? Nada! O fato é que o filme trás a mensagem subliminar de que a filha adotada, apesar de todas as condições econômicas, sociais e familiares, não se sentia no contexto daquela família, ela não se sentia parte, por isso procurou e encontrou o seu “caminho”. Alguns dirão: “ora mas é a história dela”, “ela foi realmente adotada” e ela “viveu tudo aquilo”. Com certeza ela, a Raquel, já que a Bruna é um cognome, nem se dá conta de que a mensagem negativa está lá. Com certeza os produtores estão “pouco se lixando” se as famílias formadas a partir da adoção se incomodam com mensagens negativas ligadas à adoção. Não interessa a eles. Tudo bem, este texto não é para quem não se importa, mas a nós interessa, e muito. Porque a filiação adotiva é sim especial. E é especial porque se tem como filho alguém que não se liga pelos laços da consanguinidade e nós vivemos em uma sociedade que se importa com a pseudo normose social. O parentesco por adoção se forma sem o envolvimento sexual de quem se torna o pai/mãe e pressupõe uma escolha íntima e não são raras as vezes envolvem perdas, luto e talvez uma consciência de fragilidade. Ora, se é assim, formada a filiação, e estruturada a família, não se espantem os críticos se “descobrirem” que os pais por adoção possuem igualmente um instinto de preservação da prole tão forte quanto os formados a partir da função biológica. A adoção precisa ser explicada aos filhos, é preciso dizer-lhes que a adoção é um ato de amor e que pelo amor o parentesco se desenvolve e se solidifica. Se é impossível preservar os filhos, eles precisam ser orientados. Não se pode calar diante de estereótipos sobre a adoção e silenciar diante dos filhos. São eles, e não os pais o principal alvo das distorções a todo instante nos diversos acontecimentos, por vezes até naturais da vida. Uma coisa é certa, estes exemplos não servem para educar, ao contrário, reforçam um preconceito que há muito vem sendo combatido e que hoje já se percebe menos explicitado.

Aos pais e mães por adoção, não se intimidem diante de exemplos negativos, é preciso estar atento e saber dizer aos filhos que a ficção é produto de uma imaginação, nem sempre criativa e que uma realidade não determina a outra; tais exemplos não servem para direcionar em uma família que tem no amor o principal argumento.

Texto do querido amigo e  companheiro de luta pela "cultura da adoção" Paulo Wanzeller.


Postado Por Cintia Liana

Congresso Internacional da INFAD em Roma, Itália

Foto: Cintia Liana no Congresso Internacional da INFAD em Roma, Itália

Caríssimos leitores,
quero pedir desculpas por não ter escrito e nem programado textos para esta semana. Eu estava participando do Congresso Internacional da INFAD em Roma, aqui na Itália, que por sinal teve assuntos muito interessantes na área de família, infância, adolescência, educação, escola e adoção.
Participaram prifissionais da Espanha, Portugal, Brasil, México e Itália.
Depois venho aqui contar mais sobre o evento.

Um abraço.

Por Cintia Liana