"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A adoção e o inconsciente

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Beneath this Burning Shoreline
 
Uma abordagem simbólica da psicologia Analítica
 Por Antonieta Maame Zimeo
 

“Entre a raiz e a flor há o tempo”                              
 (Carlos Drummond de Andrade)
 
 Falar sobre a adoção é sempre uma vivência carregada de muita emoção para mim, por eu estar envolvida com esse tema até a minha própria alma. E é com a linguagem da alma que exponho a presente elaboração.

Este é um trabalho de pesquisa teórico-prático que se iniciou na década de 80, e que ainda continua, sendo que, entre tantos outros aspectos analisados, neste momento serão abordados, de maneira sintética, apenas três tópicos, a saber:

1. Expressões simbólicas
2. Mitos e deuses
3. Cúmplices do destino
 
No decorrer da minha prática psicoterápica observei que muitos casos atendidos eram de adotados, e uma série de acontecimentos “coincidentes” ao tema circundaram a minha vida profissional, o que me levou a indagar o “porquê” e o “para que” desse tipo específico de paciente, tendo assim iniciada esta jornada de busca.

Faz-se mister esclarecer que, os casos a serem citados se referem à adoção mal sucedida, que denomino  “pseudoadoção”, uma adoção parcial frente à qual o adotivo vê a si próprio parcialmente, dicotomizado e cindido a nível psico-emocional. Entretanto, não intento levar ao descrédito a adoção enquanto alternativa mais válida para as crianças sem família ou institucionalizadas, uma vez que são incontáveis os casos de adoções bem sucedidas, e que, talvez por isso, não chegaram ao consultório.

1.      Expressões simbólicas

A explanação do material clínico a seguir não tem por base uma postura interpretativa, mas sim, um olhar simbólico, uma vez que os aspectos sutis a serem citados, são em última instância manifestações do inconsciente, podendo ser considerados como “entrelinhas” do processo de adoção, sendo aqui em específico focalizados os casos de não conhecimento consciente da adoção por parte do adotivo.

Esclareço que, pessoas não adotadas podem também apresentar expressões similares a estas, uma vez que os temas abandono e rejeição são universais, ou seja, são arquétipos.

Parto do princípio de que toda a relação humana é organizada, mediada, tanto por fatores conscientes quanto inconscientes e, portanto, dentro das relações que se estabelecem no processo de adoção também ocorre a interferência de fatores inconscientes, cujo reconhecimento e conscientização promovem a saúde psíquica.

A experiência tem me mostrado que quando o adotivo não sabe conscientemente que o é, sabe porém inconscientemente, e quando não se torna consciente da sua condição, o seu processo de individuação pode ser obstruído desde a infância.

O abandono é uma condição que geralmente antecede a adoção, e sendo o abandono e rejeição arquétipos, o inconsciente sabe da condição da adoção mesmo que a consciência não saiba. O inconsciente vai estar incessantemente fornecendo “avisos” de algo oculto para a consciência, através dos símbolos manifestos em sonhos, fantasias, estórias, desenhos, etc.

O símbolo é uma espécie de instância mediadora entre a incompatibilidade do inconsciente e do consciente, entre o oculto e o revelado; é, portanto, exatamente através dele que ocorre o conhecimento inconsciente da díade abandono-adoção, porém nesses casos sem poder atuar conscientemente.

Caso nº 1:   Uma menina, de 8 anos de idade, encaminhada pela escola para o atendimento psicológico, devido a problemas de aprendizagem. Durante a anamnese os pais me relataram que além deles eu era a única pessoa que então passava a saber sobre a adoção, dado que nem o próprio pediatra, parentes e amigos sabiam.

Após a confirmação da esterilidade materna, o casal decidiu adotar uma criança, porém tudo foi planejado para que ninguém soubesse. Mudaram para outra cidade, retornando para a cidade anterior quase dois anos depois, com uma menina que para todos era filha biológica deles.

Na fase do psicodiagnóstico, a mãe me telefonou em desespero contando o sonho que a menina lhe relatara: “eu ontem sonhei que você não podia ter nenê e foi pegar um numa casa que tinha um monte para escolher e você escolheu eu”.

Nesse mesmo dia, na sessão, a criança espontaneamente me contou esse sonho e lhe solicitei que o desenhasse, e na seqüência lhe perguntei o que achava do mesmo, e ela  me respondeu:  “ah! foi só um sonho, não é de verdade, é só bobagem da minha cabeça”.

A maneira como o consciente da criança adotiva (que não sabe que o é) reage, é semelhante ao de qualquer outra criança, não adotiva, que se depara com situações não informadas acerca de sua pessoa, ocasionando um conflito, um estado de sofrimento psíquico.

Segundo a Psicologia Analítica, as tentativas da consciência de entrar em contato com os complexos são inicialmente do tipo mágico-apotropáico, isto é, tentativas de exorcizá-los, considerando-os como não existentes, chamando-os de “imaginações”, constituindo assim uma forma de assimilação, ou seja, uma forma de negação, pois aquilo que se nega a existência não existe.

Entretanto, com o decorrer do tempo, essas manobras vêm a falir e então insurge um estado de descompensação e deslocamento. A consciência não é mais em condição de negar e lentamente é o complexo que se apropria da consciência, assimilando-a.

Sem o conhecimento consciente, a energia psíquica que se direciona para o inconsciente não consegue se transformar saudavelmente, reaparecendo como sintomas muitas vezes neuróticos, resultantes das informações antagônicas entre o consciente e o inconsciente.

Geralmente, como no caso acima exemplificado, o encaminhamento ao psicólogo é feito devido aos sintomas-distúrbios, e não pela adoção mal sucedida em si.

“Na sua maioria, essas crianças pareciam ter um enorme “buraco” afetivo emocional interno incapaz de ser suprido, estando sempre muito insatisfeitas”. (Zimeo, A. M. Nas entrelinhas da adoção. p.99)

Este “buraco” era simbolizado nos desenhos de diferentes maneiras. Nos testes projetivos como o HTP, era comum a árvore ser desenhada com um buraco no tronco, e as estórias versavam sobre o tema do abandono.

Caso nº 2:   Uma menina de 9 anos de idade, encaminhada pela escola por apresentar comportamento depressivo, manifesto pelo isolar-se socialmente. Após fazer o desenho da árvore com um buraco no tronco, ela conta:  “esta é uma estória triste, muito triste, porque a mamãe passarinho abandonou o ninho, porque quando foi levar comida para o filhote, o ninho estava vazio e ela foi embora... ela não viu que o ovo com o filhote tinha caído no chão... e uma cobra vai comer ele”.

A árvore de um modo geral, simboliza a evolução, o crescimento, o desenvolvimento de uma pessoa, portanto, o buraco nela inscrito representa simbolicamente um “furo” psíquico nesse desenvolvimento, pela inexistência ou deficiência afetiva da relação parental.

Sobre isso, Edinger diz:
[...] nos casos de perda de uma figura parental em tenra idade em que não houve uma substituição adequada, mantém-se uma espécie de furo na psique: uma importante imagem arquetípica não sofreu personalização, retendo por conseguinte, um poder primordial e ilimitado que ameaça inundar o ego caso este dele se aproxime. (Anatomia da Psique. p. 114)

Essa imagem arquetípica que não sofreu personalização é a mãe arquetípica que não pode ser constelada na mãe ou no pai adotantes, quando estes inconscientemente negam que a criança é adotiva, negando em última instância que é um filho; um filho adotivo.

Caso nº3:   Um menino de 8 anos de idade, encaminhado pela escola por comportamento social agressivo e distúrbios de aprendizagem. No desenho da figura humana, ao desenhar a si próprio ele diz:  “ esse sou eu e aqui tem um buraco... é um coração”.

Por detrás disso, nas “entrelinhas” existem lacunas, “buracos” afetivos não elaborados concernentes à pessoa de cada um dos pais adotantes, e que são inconscientemente repassados para a criança através da relação com esta.

Na fala e na escrita era comum a criança não utilizar o pronome possessivo, ou então usar vocábulos gerais para as relações familiares, como por exemplo: “o homem/o pai” ao invés de “meu pai”; “a mulher/a mãe” ao invés de “minha mãe”; “a mãe da mulher” ao invés de “minha avó”, etc.

Correspondentemente na fala dos pais, o distanciamento afetivo era o mesmo quando se referiam à criança, dizendo por exemplo: “o menino/a menina” ao invés de “meu filho/minha filha”.

Tanto a palavra falada quanto a escrita retratam imagens que são configurações seja de um processo simbólico intrapsíquico, quanto da dinâmica interpessoal pais-filhos adotivos, que correspondem a atributos constitutivos da emoção presente, que nos exemplos supracitados,  são frutos da defesa, da recíproca negação inconsciente do vínculo filial-parental.

Em crianças acima de 9 anos de idade, se observou freqüente e acentuada  dificuldade em desenhar a família, pois a noção de família não foi internalizada, por não ter sido de fato vivenciada afetivamente. Muitas dessas crianças, quando solicitadas, me perguntavam: “Família, como assim desenhar uma família? Não sei como é!”; e quando chegavam a desenhá-la, ou a criança não se incluía no desenho, ou se desenhava numa folha a parte, ou se localizava na mesma folha, porém, distante dos outros membros.

Ou ainda, quando raramente se incluía, era comum desenhar a si e aos pais com rostos sem face. Dessa forma, a não identidade familiar também é expressa simbolicamente nos desenhos através de rostos sem olhos, boca, nariz, manifestando a ausência, o vazio, do “eu-pai/ eu-mãe/ eu-filho”, o vazio do eu.

O adotivo por não saber de suas origens, se torna um ser alienado de si mesmo.

Face a isso como poderá esse ser alienado de si próprio, processar  a sua individuação se a sua identidade foi negada ou distorcida?

Se para ocorrer o processo de individuação se faz preliminarmente necessária a integração dos conteúdos inconscientes á consciência, e se o adotivo não sabe conscientemente que o é, esse processo já no período da infância tem um obstáculo intransponível, e o destino de “ser quem é” não se cumpre.

De acordo com Jung: 
O termo “individuação” pode [...] indicar somente um processo psicológico que realiza destinos individuais dados, ou seja, que faz do homem aquele ser singular que é. (CW. 8/2, § 174)
[...] A individualidade psicológica existe inconscientemente à priori, conscientemente ao invés somente na medida na qual subsiste o conhecimento de um peculiar modo de ser. (CW. 6, § 465)

O processo de individuação, como conota Jung, é a tomada de consciência da própria individualidade, o fazer-se indivíduo psicológico. “... Ninguém pode viver de outra coisa, senão daquilo que se é.” (CW. 14/1, § 304)

2.     Mitos e deuses
As fronteiras do processo de individuação da pessoa adotiva se expandem na mitologia, mais precisamente no “mito do herói”. Sabe-se que muitos heróis foram abandonados e adotados, e a elaboração desta tragédia constelada concretamente em suas vidas, requer o esforço psíquico para o percurso simbólico do “nascimento-morte-renascimento”.

A jornada do herói (ou da individuação), é uma jornada mítica-humana, ou seja , um percurso arquetípico e portanto, constitutivo de todo e qualquer ser humano a nível simbólico.

Na mitologia grega, são inúmeros os personagens míticos que viveram essa jornada, como por exemplo: Zeus, Apolo, Dionísio, Asclépio, Páris e tantos outros.

Será comentado o mito de Dionísio, por nele residirem aspectos simbólicos capitais similares à jornada heróica da pessoa adotiva, como os temas: duplo-nascimento; dupla-mãe; exposição; abandono; nostalgia.

Contando um pouco sobre o mito:
Dionísio, também chamado de o deus nascido duas vezes, era filho de Zeus, rei dos deuses, e de Sêmele, princesa de Tebas, porém mortal. A esposa imortal de Zeus, a deusa Hera, enfurecida com a infidelidade do marido, disfarçou-se em ama-seca e foi ao encontro de Sêmele, ainda grávida, e a persuadiu a pedir que o marido se mostrasse em todo o seu esplendor e glória divina. Zeus satisfez a vontade de Sêmele, a qual não suportando a visão do deus circundado de clarões, tombou fulminada. Zeus retirou a criança que ela gerava e ordenou que Hermes, o mensageiro dos deuses, a costurasse em sua (Zeus) coxa. Ao terminar a gestação, Dionísio nasceu, vivo e perfeito.

Contudo, Hera continuou a perseguir a estranha criança de chifres, e ordenou aos Titãs, deuses terrenos, que  matassem o menino, fazendo-o em pedaços. Zeus conseguiu resgatar o coração da criança que ainda batia, colocando-o para cozinhar, junto com sementes de romã, transformando tudo numa poção mágica, a qual deu de beber para Perséfone, que acabara de ser raptada por Hades, deus das trevas e da escuridão e que se tornaria sua esposa. Perséfone engravidou e novamente deu a luz a Dionísio, o renascido das trevas. Por esse motivo, era chamado de Dionísio-Iaco, o que nasceu duas vezes, deus da luz e do êxtase.
       
Convocado por seu pai, Zeus, para viver na terra junto com os homens e compartilhar com ele as alegrias e sofrimentos dos mortais, Dionísio foi atingido pela loucura de Hera, indo perambular pelo mundo ao lado dos sátiros selvagens, dos loucos e dos animais. Deu à humanidade o vinho e suas bênçãos, e concedeu ao êxtase da embriaguez, a redenção espiritual a todos que decidiram abandonar e renunciar à riqueza e ao poder material.

Por fim, seu pai celestial, permitiu-lhe retornar ao Olimpo, onde tomou seu lugar à direita do rei dos deuses. Nesse período, Dionísio conseguiu resgatar sua mãe Sêmele e revivê-la. (Síntese extraída de:  Sharman-Burke, J.; Greene, L.  O Tarô Mitológico.  p. 19-20)

A afabulação do duplo-nascimento, que quer dizer também dupla-gestação, remete ao esquema clássico da iniciação: nascimento-morte-renascimento.

No mito, o duplo nascimento de Dionísio configura-se seja quando é gestado na coxa de Zeus e, depois quando nasce de Perséfone.

Assim como Dionísio, os adotivos também foram rejeitados, vindo a ter uma segunda mãe, a adotiva, que simboliza desde aqui, a possibilidade do renascimento a nível psíquico.

A dupla-mãe refere-se a uma mãe humana e a outra arquetípica. Sêmele foi sua mãe mortal, porém, através de Zeus (deus) e de Perséfone (deusa) se configura a sua mãe arquetípica a qual é projetada em quem cuidou dele. O mesmo se observa com o adotivo, que tem uma mãe real e uma simbólica, e que constelará esta última na primeira. Aliás, como qualquer um de nós, adotivos ou não.

Dionísio mantém, por um certo tempo, uma conexão negativa com a mãe arquetípica representada por Hera (deusa que tudo fez para o aniquilar). A deusa Hera comporta a mãe-bruxa, a mãe má, simbolicamente a face materna da rejeição, pois ela não aceita a sua existência, que no adotivo ocorre quando a mãe e/ou o pai adotantes inconscientemente não o aceitam como filho, repetindo-se novamente o abandono na vida da criança, só que desta vez dentro do próprio contexto da adoção.

A conseqüência é trágica, pois assim como Dionísio é tomado pela loucura engendrada por Hera, o adotivo psiquicamente também se dissocia, quer por não saber conscientemente de suas origens, quer por não se sentir afetivamente filho dos pais adotantes. Dionísio fica possuído, tomado pelo aspecto negativo do arquétipo materno, representado por Hera, sendo que mítica e psicologicamente o mesmo ocorre com o adotivo quando tomado pelo arquétipo do abandono-rejeição, o que compõe o complexo materno terrorífico.

Zeus que sempre interfere a seu favor, pode ser entendido como a consciência de algo que é seu por direito, ser filho dele e herdar seu trono individuacional. É como se Zeus simbolizasse o constante chamado de quem Dionísio realmente é. A conscientização  (Zeus) desses conteúdos cindidos ou dissociados é a alternativa para a reintegração psíquica do adotivo sendo o ponto inicial para que o ego possa comungar com o Self, podendo assim o adotivo recompor quem ele de fato é.

Esta recomposição também ocorre quando Dionísio, qualificado de “touro” pelos poetas, é dilacerado pelos Titãs e sua carne devorada pelas Bacantes.

Segundo Brandão: 
[...] despedaçando animais e devorando-os, os devotos de Dionísio integram-se nele e o recompõem simbolicamente, o que consoante Jung,, configura a conscientização de conteúdos divididos [...] De fato, os Titãs comportam-se como mestres de iniciação, no sentido de que matam o neófito, a fim de fazê-lo “renascer” numa forma superior de existência [...] Dionísio é o deus da metamorphosis, quer dizer, o deus da transformação.  (Mitologia grega. vol. I. p. 137 e 135)

Mas afinal, o que é que morre e renasce no adotivo?
Algo que ele perde e reencontra, a sua identidade. Esse processo envolve uma busca para o interior de si mesmo; é a regressão da energia para o inconsciente a fim de resgatar a mãe arquetípica com quem perdeu o elo, ou melhor, que não pode ser configurada nos mãe/pai adotantes. Ele busca a si através da mãe.

Assim, Dionísio representa a criança divina que, em todos nós, vive esta eterna busca.
 
E Hillman diz:
Esta é a figura clássica do Puer Aeternus: o componente eternamente jovem de cada psique humana [...] que está sempre ansiando, e que em última análise está ligado à mãe arquetípica. Nosso pothos refere-se a nossa natureza angelical, e nossos anseios e viagens errantes pelo mar são efeitos, em nossas vidas pessoais, das imagens transpessoais que nos solicitam, nos impelem e nos forçam a imitar os destinos míticos (Estudos de psicologia arquetípica. p. 67 e 77)

É nesse sentido que podemos dizer que somos todos adotados, que em cada um de nós habita um adotado, cujas carências e temores remetem a um Deus-Pai para consolo, mas clama pela vingança do abandono, do sentimento de fraqueza. O conflito está presente e é constitutivo do ser humano. Mas, neste trabalho importa refletir sobre estes mecanismos no adotado, sobre quem abandono e sofrimento foram recair.

Dionísio executa essa busca descendo até o fundo do Hades para de lá arrancar sua mãe Sêmele e conferir-lhe a imortalidade. Hades pode simbolizar o inconsciente coletivo nas suas profundezas, e só um mergulho profundo neste vasto e infinito oceano é que nos fará re-significar a própria vida, pois nele reside a origem de tudo.

A busca das origens é um tema universal (arquetípico), um motivo mítico presente em todos nós. A criança adotiva, como qualquer outra criança, em algum momento de sua vida, naturalmente, indaga sobre de onde veio, para então poder se orientar para onde vai.

A integração do que a criança adotiva traz de suas origens e de seu passado, ao longo do seu desenvolvimento individual, só é possível se os pais e a criança aprenderem juntos a compreender esses dados. A restituição do que a criança viveu permitirá o sentimento de sua continuidade e de sua identidade. Se trata de um processo que reconstrói o passado em função do presente, com o olhar voltado para o futuro.

O adotivo poderá então cumprir o seu destino: o “quem sou” e o “para que sou”.

3. Cúmplices do destino
Confesso ser cúmplice de tudo que foi exposto, através da minha ancestralidade. Meu sobrenome paterno foi inventado há três gerações passadas. Numa das vezes que estive  na Itália, em 1989, obtive a confirmação de que meu bisavô paterno tinha vivido em um orfanato no início de sua infância, sendo adotado por um casal, que assim como ele, desconhecia sua origem biológica. Por parte materna, minha avó também italiana, foi criada pela própria mãe como sendo adotada, porque aquela acreditava que a filha morrera durante o parto, supondo que o marido lhe trouxera uma outra criança em seu lugar.

Compreendi então, “porquê” e “para que” por obra do destino, sucederam comigo tantos encontros com os adotivos. Não acredito em coincidências; por inúmeras vezes eu conseguia entender o que essas crianças queriam me dizer, mesmo que nada pronunciassem e principalmente sentir o que sentiam no seu coração.

É importante esclarecer que, quando falo em destino considero ambos os princípios, causal (“porquê) e final (“para que”), entretanto ressalto a visão simbólica desse termo, enquanto uma possibilidade  a porvir, com um sentido (Sinn).

Em 1990 comecei a ministrar palestras e a publicar artigos sobre o tema da adoção, porém nenhum adotivo chegou ao consultório através dessa divulgação, mas exatamente como antes eles continuavam vindo sem o conhecimento prévio da minha experiência profissional com a adoção.

Anos depois, me mudei de São Paulo para o Paraná, e acreditei que o meu encontro com os adotivos se romperia, e assim que recomecei o atendimento psicoterápico procurei um orfanato na nova cidade para prestar um trabalho  psicológico voluntário, mas não localizei nenhum. Após três meses, a vizinha do consultório, a qual eu não conhecia, pediu que eu atendesse uma menina órfã, que habitava no orfanato coordenado por ela.

Essas situações supracitadas são algumas, dentre  tantas outras, que me sucederam.

Como podem ser entendidas essas sucessivas “coincidências”?

Conforme Jung, esses são eventos sincronísticos sendo a sincronicidade compreendida como um “princípio de conexão acausal”. Não é uma causalidade mágica, mas sim a concomitância entre dois fatos que não são regidos pela causalidade. Uma conexão que ocorre entre a psique pessoal e o mundo material, ambos considerados apenas como diferentes formas de energia, justamente por serem regidos pelo arquétipo.

Na palavras de Jung:
[...] não apenas é possível mas até bastante provável que psique e matéria sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa. Parece-me que os fenômenos sincronísticos apontam nesta direção, pois mostram que o não psíquico comporta-se como psíquico, e vice-versa, sem que haja qualquer conexão causal entre eles. (CW. 8/2, § 418)

Em Reflexões Teóricas sobre a Natureza da Psique, Jung compara, de forma sistemática, o recurso de uma analogia entre a Física Quântica e a psique, ou seja, uma profunda convergência de perspectivas entre a Física e a Psicologia, dizendo:

[...] comparada a outras ciências naturais, a Psicologia se encontra em uma situação crítica porque lhe falta uma base colocada ao externo do seu objeto. Não pode traduzir-se ou reconhecer-se que em si mesma. Quanto mais se alarga o campo de seus objetivos, mais estes se fazem complexos, e mais lhe falta um ângulo visual distinto do seu objeto. É quando a complexidade retoma a própria complexidade do homem empírico, a sua psicologia desemboca inevitavelmente no mesmo processo psíquico. Não é mais em condições de distinguir-se desse, mas torna-se o processo idêntico. O efeito é o seguinte: o processo retoma a consciência e [...] a psicologia é o “fazer-se consciência” do processo psíquico mas não é uma explicação de tal processo, porque cada explicação do fato psíquico não pode ser outra que o próprio processo vital da psique. [...] (CW. 8/2, § 429)
OBS:  O grifo é meu e proposital.

E é exatamente nesse ponto que Jung cita a analogia entre a Física Quântica e a psique. Ele busca recursos de apoio na Física  por acreditar que em certas zonas de contato entre o físico e o psíquico fosse operativo o princípio de sincronicidade.

Em particular, o conceito de arquétipo, na sua irrepresentabilidade constitutiva – que porém está ligada com o seu operar “indireto” sobre a consciência – é que mais se beneficia, segundo Jung, das vantagens provenientes da correspondência estabelecida com certos setores de pesquisa da Física.

Assim, conforme Jung:
[...]Também a Física apresenta uma situação análoga. Existem, na Física, partículas que por si não são perceptíveis, capazes porém de efeitos em base à cuja natureza podemos construir um determinado modelo. A representação arquetípica, o assim chamado motivo ou mitologema, corresponde a uma construção do gênero [...] Quando a Psicologia hipotetiza, com base nas suas observações, a existência de certos fatores psicóides irrepresentáveis, se comporta do mesmo modo que a Física quando constrói um modelo de átomo.[...] (CW. 8/2, § 417)

A sincronicidade é quântica pelo fato de existir uma concomitância entre o físico e o psíquico, ou entre o psíquico e o psíquico. E o fato do indivíduo perceber a concomitância propicia favorecer o significado.

Assim, os fatos estão sempre interligados mas depende do “olhar” do observador para perceber a concomitância e qual o significado (subjetivo) da mesma. Esse olhar é em última instância simbólico, e a interpretação do símbolo é pessoal, ou seja, subjetiva.

Para a Física Quântica o Universo é como um mar de ondas quânticas. A energia quântica se move por ondas, as quais transportam informações, interligando tudo no Universo. Daí advém a idéia de macrocosmo e microcosmo interligados, unificados. Isto porque a energia quântica que é uma energia primitiva, tem seu deslocamento mais rápido do que a velocidade da luz, onde o todo e suas partes mantém uma recíproca inter-relação e similaridade. Poderíamos comparar o Universo (macrocosmo) como sendo um bolo e cada um de nós (microcosmo) como sendo as fatias, e portanto tudo o que está no bolo (como por exemplo, farinha, leite, ovos, etc.) está também em cada fatia. Por isso para compreendermos o Universo não precisamos buscar fora, mas sim dentro de nós mesmos. Assim como o todo contém as partes, cada parte contém o todo.

A sincronicidade seria como uma pedra que lançada num lago forma vários círculos, sendo que tudo o que se encontrar numa mesma faixa, mesmo que distante, tem a mesma informação.

Dessa forma, por destino compreende-se algo organizado sincronisticamente com uma direção.

Quando falamos em Universo nos referimos ao infinito a nível de espaço e tempo, onde não há começo e não há fim, só mudança, ou seja, um processo contínuo.

Nesse sentido, o tempo e o espaço não são absolutos, pois são na realidade uma construção do pensamento, da consciência.

Jung tenta ampliar a relatividade espaço-temporal dos eventos, para neles incluir, como ulterior elemento determinante, o “estado psíquico” , desde que este seja definido no modo mais amplo possível:
 
[...] Nas experiências com o tempo e o espaço, respectivamente, esses dois fatores reduzem-se mais ou menos a zero, como se o espaço e o tempo dependessem de condições psíquicas, ou como se existissem por si mesmos e fossem “produzidos” pela consciência. [...] Em si, o espaço e o tempo consistem em nada. São conceitos hipostasiados, nascidos da atividade discriminadora da consciência e formam as coordenadas indispensáveis para a descrição do comportamento dos corpos em movimento. São, portanto, de origem essencialmente psíquica [...] (CW. 8/3, § 840)

Assim, mais e além  do que uma tentativa da consciência de explicar o que é espaço e tempo, se poderia atribuir a estes um caráter simbólico de “pontes” uníssonas entre o antes e o depois, e entre o lá e o aqui, num todo único e continuum. Essa interconexão transcende todos os nossos sentidos, e toda e qualquer explicação se apresenta como um mero constructo teórico redutivo.

Em outras palavras, o que permanece aqui como uma questão em aberto é o fato de que tanto a Psicologia Analítica quanto a Física sabem que existe algo que não é o espaço-tempo; sabem apenas que existe algo além, mas não sabem o que é, ou seja, que permanece como um constructo teórico, fruto da consciência. O além do espaço-tempo não é físico, é imensurável.

Mas o que está além do espaço-tempo está dentro de todas as coisas, dentro de cada ponto de nós mesmos, dentro de cada ponto do Espaço (Universo). Portanto, dentro e fora simultaneamente, numa interpenetração de universos.

Esse além, essa consciência superior, jamais poderá ser atingida em sua plenitude, mas certamente ser vivenciada através dos encontros com o “outro” e “consigo mesmo”. Esse além sempre existiu e existirá além de nós e em cada um de nós, e também por infinitas vezes virá ao nosso encontro, de maneira natural, para que cumpramos o nosso destino.

E assim como um poema esse além é inesgotável.
 
          Graças quero dar ao Divino
labirinto dos afetos e das causas
pela diversidade das criaturas
que formam este singular Universo,
pela razão que não cessará de sonhar
com um plano do labirinto,
pelo amor que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade,
pelo fulgor do fogo
que nenhum ser humano pode olhar
sem um assombro antigo,
pelo pão e pelo sal,
pelo mistério da rosa
que prodiga a cor e que não a vê,
pela arte da amizade,
pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
pela manhã que nos depara a ilusão de um princípio,
pelo valor e a felicidade dos outros,
pelo fato de que o poema é inesgotável
e se confunde com a soma das criaturas
e jamais chegará ao último verso,
pelos minutos que precedem o sonho,
pela música, misteriosa forma do tempo.”
 
(Jorge Luís Borges)
 
Referências  Bibliográficas:
BRANDÃO, J. S. (1996). Mitologia grega. vol. I. Petrópolis. Vozes.
EDINGER, E. F. (1995). Anatomia da psique. São Paulo. Cultrix.
HILLMAN, J. (1981). Estudos de psicologia arquetípica. Rio de Janeiro. Achiamé.
JUNG, C. G. (1985 a). A natureza da psique. CW. 8/2. Petrópolis. Vozes.
_____. (1985 b). Mysterium coniunctionis. CW. 14/1. Petrópolis. Vozes.
_____. (1990). Sincronicidade. CW. 8/3. Petrópolis. Vozes.
_____. (1991). Tipos psicológicos. CW. 6. Petrópolis. Vozes.
SHARMAN-BURKE, J.; GREENE, L. (1988). O tarô mitológico. São Paulo. Siciliano.
ZIMEO, A. M. (1994). Nas entrelinhas da adoção: uma abordagem psicológica.  In:   FREIRE, F. Abandono e adoção. vol. 2, p.98-104. Curitiba. Terre des Homes.

Postado Por Cintia Liana 

domingo, 18 de setembro de 2011

TJ tira custódia de pais "velhos demais" na Itália

Google Imagens

16 de setembro de 2011

O juizado da infância de Turim, Itália, tirou definitivamente a guarda de uma criança de 15 meses de seus pais, que têm 58 e 70 anos, por considerá-los velhos demais, informou nesta sexta-feira a imprensa italiana.

Os juízes declararam que a menina, que nasceu em 26 de maio de 2010 em Turim por fecundação in vitro, e que vive desde um mês de idade em um centro para menores, está disponível para adoção.

Segundo a sentença, a menina é "fruto de uma aplicação distorcida das enormes possibilidades que o progresso oferece em matéria genética", e "ficará órfã cedo demais e, além disso, terá que cuidar de pais anciãos, com possíveis doenças graves".

Gabriella e Luigi De Ambrosis se casaram em 1990 quando a mulher, então com 36 anos, se submeteu a dez tentativas de fecundação in vitro na Itália e tentou a adoção em duas ocasiões, sem obter sucesso. Quando Gabriella tinha 56 anos, decidiu ir ao exterior - não revelou o país -, para se submeter a uma fecundação assistida.

Os problemas do casal começaram após um mês do nascimento da menina, quando perderam sua guarda depois que os vizinhos avisaram a polícia que o bebê havia sido deixado sozinho em um carro.

O pai afirmou que tinha deixado a criança dormindo em uma cadeira infantil no banco de trás do veículo, que estava estacionado em frente à residência do casal, enquanto descarregava compras e para não ter que acordá-la.

Para o tribunal, a menina foi abandonada por cerca de 45 minutos, "embora sem que tenha acontecido algo grave". Por esta acusação, o casal será julgado daqui a alguns meses.

Porém, devido ao episódio, o juizado de menores de Turim decidiu prosseguir com o caso para determinar outro veredicto, o de que o casal é velho demais para cuidar da criança.

O casal formado por Gabriella, uma bibliotecária, e Luigi De Ambrosis, ex-corregedor de uma pequena cidade, anunciou que vai entrar com um recurso para recuperar a guarda da filha.

Os dois alegam que, neste caso, a única vítima é a menina, que está sem o amor de seus pais desde que completou um mês de vida e só pode receber visitas a cada 15 dias.


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma Psicologia da Adoção

Beneath this Burning Shoreline

Por Luiz Schettini Filho - Psicólogo

Na experiência humana a realidade será sempre precedida de um sonho. O pensamento, a imaginação, a idéia compõem o cenário da montagem da realidade. O sonho não é antagônico à realidade. Pelo contrário, está incrustado na sua origem.

Essa observação vem a propósito da tentativa de entender o sentido do filho para a pessoa humana. O filho será sempre um sonho, mesmo que, ás vezes, se torne um pesadelo diante das fantasias e dos desejos que acalentamos em nosso psiquismo. Sonho e realidade se complementam no processo de geração e interação com o filho.

“O filho é a resultante esperada da relação homem-mulher; é como se o equilíbrio se completasse a partir de um terceiro referencial. É o filho que dá sentido ao casal. Sem dúvida, é da interação dessas três forças – que oferecem, reciprocamente, apoio e harmonia no sistema de dar e receber – que surge a verdadeira unidade. Falamos aqui, portanto, de uma triunidade, não no sentido aritmético, mas no sentido de uma dimensão ética, segundo a qual as relações interpessoais ocorrem de uma forma harmônica e complementar. É oportuno lembrar que a unidade pressupõe a diversidade, assim como a semelhança pressupõe a diferença, mas, nesse caso, as diferenças – que marcam o caráter na individualidade – aproximam e deixam transparecer o todo, o conjunto” (Cf. Schettini).

A busca do filho resulta, portanto, de uma conjunção ética e não simplesmente de uma conquista genética. É nesse ambiente que se processa a adoção. É dentro do âmbito da relação ética que se constrói a real parentalidade, conduzida pela convivência afetiva.

A adoção, porém, se inscreve em um contexto de impossibilidades. Uns adotam filhos por não poderem gerá-los. Outros os geram, mas esbarram na impossibilidade de criá-los. O poder de uns se impõe ao não-poder de outros. Essa questão, com certeza, produz interferências nas relações interpessoais de pais e filhos adotivos. A experiência clínica nos mostra, entretanto, que o apego afetivo, que se estabelece através da criação – que não se confunde com “educação” – faz da relação parental adotiva uma peça inconsútil.

Por essas razões, torna-se necessário uma incursão na dinâmica psicológica da adoção. A adoção não pode ser encarada apenas como um fenômeno operacional. Não se trata de montar um sistema operacional que leve a localizar uma criança para torná-la filho. O filho adotivo não vem de fora; vem de dentro, como de dentro vem o filho biológico. Isto é, o filho que se adota é o filho que, afetivamente, é “gestado” no psiquismo de seus novos pais.

Há alguns pressupostos que devemos examinar para compreender como o filho biológico de uma pessoa torna-se verdadeiramente filho de outra pessoa através das ligações de afeto.

Em primeiro lugar, é imprescindível que não se perca a dimensão da realidade histórica, isto é, a criança adotada necessita estabelecer ligações com sua história pessoal, o que se realiza através do conhecimento de sua origem, até porque não existe o homem real sem uma história. E isso nos leva, inevitavelmente, à exposição da verdade biográfica.

Dizer a verdade sobre a origem à criança adotada tem sido um desconforto, quando não um motivo de pânico, para alguns pais que incorporaram a parentalidade adotiva. É como se a verdade histórica revelada pudesse destruir o afeto entre pais e filhos. As dificuldades nas relações interpessoais poderão surgir muito mais pela manutenção dos segredos do que pela revelação da verdade. “Sem confiança, a convivência entre as pessoas se torna uma farsa e, por conseqüência, agressão e injustiça. Manter em segredo as coisas que estão ligadas à vida é decretar, aos poucos, morte e destruição” (Cf. Schettini). O não-dito torna-se uma crueldade. As relações entre as pessoas se deterioram muito mais pelo “não-dito” do que por aquilo que, às vezes, dizemos. Sem dúvida, a verdade não machuca quando vem acondicionada no afeto.

Em segundo lugar, não podemos dissociar a relação parental adotiva das vinculações de afeto. Aqui vale considerar, que o amor vem antes do conhecimento. Sobretudo, o amor ao filho. Não precisamos conhecê-lo para que o amemos. O amor é a conseqüência de uma disposição interna que se estabelece independente de termos um arsenal de informações a respeito do filho. Poderíamos dizer até, que ao filho amamos antes de conhecê-lo, como continuamos amando apesar de chegar a conhecê-lo. Nós o amamos apesar de não saber como ele será e, mais ainda, permanecemos amando quando sabemos quem ele é verdadeiramente.

A essa altura, cabe lembrar que o conhecimento de características pessoais e informações históricas da vida pregressa do filho adotivo, não interfere na relação de afeto que já se estabeleceu. Temos o direito de construir fantasias a respeito de nossos filhos, mas não temos o direito de exigir deles que realizem a arte-final dos esboços que concebemos. Com certeza, aplica-se aqui a observação de Ilya Prigogine: “O possível é mais rico que o real”. O filho adotivo transita dentro dessa conceituação do “possível”. Amamos o filho muito mais por suas possibilidades do que pela garantia que possa nos dar da realização de nossas fantasias.

A verdade é o fundamento de uma relação de afeto duradoura. A criança adotiva precisa ouvir a sua história para poder ouvir a si mesma. Por essa razão, não temos o direito de mutilar sua biografia.

Na relação adotiva o apego afetivo cresce de importância pela inexistência da ligação biológica na parentalidade. Isso nos leva a pensar que a verdadeira parentalidade se fundamenta no vínculo afetivo, colocando todos os filhos no mesmo nível de importância, isto é, os filhos, gerados por nós ou não, precisam, necessariamente, ser adotivos. Quem gera filhos é genitor. Para atingirmos a condição de pais, precisamos mais do que gerar; é imprescindível estabelecer uma relação afetiva. Assim, todos os filhos precisam, sem exceção, ser adotados afetivamente. O grande desafio que temos diante de nós é transformar o puramente biológico em marcadamente afetivo. O filho adotivo não é uma prótese que venha substituir uma deformidade.

Em terceiro lugar, precisamos rever o conceito de maternidade/paternidade. O alicerce da consciência parental está no sentimento de que adotar um filho implica um processo de “incorporação”. O filho adotivo é engendrado dentro de quem o adota, tanto quanto acontece com aquele que o gera biologicamente. Por essa razão, na interação com o filho, precisamos mais de expressões de afeto do que de pressões pedagógicas. É a convivência afetiva que dá sentido à relação de parentalidade.

Em quarto lugar, não podemos ignorar que a criança adotada vive, de um modo geral, uma “tríplice rejeição”.

Do seu ponto de vista, ela se sente rejeitada pela mãe de origem, independentemente da causa pela qual não a “adotou” como filha, mesmo que a impossibilidade tenha decorrido de sua morte. Essa é a primeira fonte de rejeição. A segunda surge como decorrência de seu medo de não ser aceita como filha pelos pais adotivos. A terceira resulta do reflexo, que muitas vezes existe, do receio que os pais adotivos têm de não ser aceitos pelo filho adotado. Essa síndrome de rejeição se resolve ao longo da convivência afetiva durante a primeira infância. Não existe interação pai-mãe-filho sem que haja uma relação de amor. O amor é a única emoção que precisa ser alimentada continuamente para que possa subsistir. Essa característica, ao invés de indicar fragilidade, aponta para sua importância e mostra que a vida exige uma participação vigilante para que se mantenha com sentido. Françoise Dolto diz de forma incisiva: “O sujeito morre de não ter relação”.

A “contigüidade afetiva” nos garante o embasamento para uma comunhão parental. Harold Kushner lembra: “Nenhum de nós consegue ser verdadeiramente humano em situação de isolamento. As qualidades que nos fazem humanos só emergem através das maneiras pelas quais nos relacionamos com os outros”. As dificuldades que encontramos na relação com os filhos adotivos não diferem na sua essência das mesma que enfrentamos com aqueles que não têm uma história de adoção. Percebemos, no entanto, que os adotivos têm uma história peculiar, como todos a temos por conta do nosso caráter de individualidade. As diferenças não são deficiências; são marcas pessoais, que compõem nosso patrimônio de pessoa.

Em quinto lugar, a experiência nos mostra que há pessoas com uma história de adoção, que apresentam, pelo menos por um período do seu desenvolvimento, alguma dificuldade de aceitar a aceitação (Cf. Tillich). Ser aceito torna-se uma carga, que resulta em uma responsabilidade, muitas vezes, difícil de assumir. A aceitação, para essas pessoas, é interpretada como a existência de uma fragilidade ou mesmo como uma declaração de incompetência. Novamente nos encontramos com uma questão para a qual a saída é o estabelecimento de uma relação de afeto. Amar aquele que tem dificuldade de ser amado seria a suprema demonstração da humanidade dos humanos.

Alguns outros aspectos da psicologia da adoção poderiam ser considerados, mas reservamos um espaço final para fazer uma referência a alguma coisa inacabada que fica no psiquismo da pessoa adotada que não teve a oportunidade de conhecer sua mãe de origem. Que semelhanças tem ela com a mãe que a gerou? Parece que fica um hiato na construção de sua imagem física, no sentido das ligações que “garantem” sua existência em uma comunidade familiar. Ao longo de trinta anos, acompanhando processos de psicoterapia de crianças e adolescentes com uma história de adoção, temos observado que aqueles que se tornam adultos e geram os seus próprios filhos, demonstram satisfação, e mesmo uma mudança de comportamento, quando expressam de formas muito pessoais a descoberta de que, naquele filho que geraram, existem características genéticas dos pais de origem, mesmo que não consigam identificá-las. Há, porém, uma certeza de que no filho há o registro de sua história genética.

Sem dúvida, procriar é uma condição dada pela natureza; criar é uma responsabilidade no âmbito da ética entre os homens. Procriar é um momento; criar é um processo. Procriar é fisiológico; criar é afetivo.

Referências bibliográficas:
BARLETTA, Gaetano, Il Figlio Altrui, Società Editrice Internazionalle, Torino, Italia, 1991.
DELL´ANTONIO, Annamaria, Le Problematiche Psicologiche dell´ Adozione Nacionale e Internazionalle, Giuffrè Editore, Milano, Italia, 1986.
DOLTO, Françoise, Dificuldade de Viver, Trad. de Alceu Edir Fillmann e Doris Vasconcellos, Artes Médicas, Porto Alegre, 1988.
KUSHNER, Harold S., Quando Tudo não é o Bastante, Trad. Elizabeth e Djalma Mello,
Livraria Nobel S.A., S. Paulo, 1987.
SCHETTINI, Luiz Filho, Compreendendo o Filho Adotivo, Bagaço, Recife, PE, 1995.
SCHETTINI, Luiz Filho, Adoção: Origem, Segredo e Revelação, Bagaço, Recife, PE, 1999.
TILLICH, Paul, A Coragem de Ser, Trad. Eglê Malheiros, Editora Paz e Terra S.A., S. Paulo, 1976.

Por Luiz Schettini Filho - Psicólogo

Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Adoções Internacionais: TJ promove reintegração ao ambiente familiar

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06/09/2011 | Fonte: TJBA

O Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, por meio da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (CEJA), já promoveu nove adoções internacionais em 2011, com 12 crianças e um adolescente reintegrados a um ambiente familiar. Em um mesmo processo, podem ser adotados mais de uma criança ou adolescente.

Atualmente, mais cinco processos de adoção estão em andamento, com oito crianças envolvidas, nas comarcas de Salvador, Itabuna e Ilhéus. Nos últimos quatro anos, o órgão especializado do Tribunal de Justiça registrou 38 adoções: nove em 2010, 12 em 2009, e dez em 2008.

O relatório da CEJA informa, também, que as crianças adotadas este ano têm entre sete e 11 anos de idade. O fato é considerado um avanço na quebra dos paradigmas que restringiam o processo adotivo e excluíam diversas crianças da oportunidade de um convívio familiar. "Antes, os casais só queriam bebês, com um biótipo predeterminado. Isso melhorou muito, pois estamos com adoções de crianças de todas as idades", comemora Simone de Castro, assistente social e secretária da comissão. "O número de adoção de adolescentes também crescendo", completa. Simone festeja outra tendência que deixa a comissão em festa: a adoção, cada vez mais constante, de irmãos. "Nós fazemos o possível para mantê-lo juntos, além de preservar a identidade e o bem-estar deles".

A assistente social revela que o país líder em adoção de crianças brasileiras é a Itália. Em 2009, a equipe da CEJA foi conhecer o sistema de adoção do país e gostou do que viu. "Nos surpreendemos em ver como eles são bem-preparados para a adoção. Foi um exemplo para nós, brasileiros". Ainda de acordo com Simone, o aumento no número de adoções internacionais está diretamente ligado às audiências concentradas, que consistem em um trabalho integrado de acompanhamento e análise pessoal e processual dos casos de crianças e adolescentes acolhidos em instituições especializadas.

TECNOLOGIA
A Comissão já utiliza a tecnologia para aproximar os futuros adotados dos novos pais. No início de agosto, a CEJA realizou a primeira videoconferência, pela qual uma criança teve o primeiro contato em tempo real com aquela que seria a nova família. A conversa ocorreu por meio do programa de comunicação via internet, o Skype (foto). A família que adotou E.V.B.C, de 9 anos, chegou da Itália uma semana depois, quando houve o primeiro contato físico. "A conversa por Skype foi muito importante para observarmos o início da afetividade, da intimidade entre a criança e o casal", afirma o magistrado Arnaldo José Lemos de Souza, juiz auxiliar da Corregedoria das Comarcas do Interior e presidente da CEJA. "Foi muito positivo. Ele teve contato em tempo real com o casal, pôde desmistificar possíveis fantasias e esclarecer dúvidas", concorda a psicóloga Paula Amaral, integrante da comissão.

Antes da implantação da conversa em tempo real, acompanhada por um tradutor, a criança só conhecia os futuros pais por cartas e fotos que acompanhavam um kit organizado pela CEJA, no qual os pais que tinham interesse em adotar, podiam presentear e se comunicar com as crianças.

PREPARO
A videoconferência pelo Skype integra o Programa de Preparo da Criança para a Adoção Internacional, desenvolvido pela comissão. O programa prevê etapas que antecedem o contato pessoal. Os trabalhos são iniciados com um acompanhamento psicológico assim que a criança é escolhida e, portanto, sairá do país. A comissão também faz uma apresentação da nova morada da criança, com informações sobre o idioma, o clima, gastronomia, e outras informações culturais.

ESTATUTO
A adoção internacional está prevista nos artigos 50, 51 e 52 da Lei 12.010/2009, que dispõe sobre direitos à convivência familiar estabelecidos no Estatuto da Criança e do Adolescente. Para iniciar o processo de adoção internacional, o casal interessado deve procurar o órgão responsável do país onde mora e fornecer os dados necessários para se habilitar à adoção. Em seguida, os futuros adotantes devem preparar um dossiê, com informações que atendam à legislação do seu país e do Brasil, além de respeitar os quesitos estabelecidos na Convenção da cidade de Haia, na Holanda que, em 1993, consolidou o texto da Cooperação Internacional e Proteção de Crianças e Adolescentes em Matéria de Adoção Internacional.

Fonte: TJBA


Postado Por Cintia Liana

domingo, 11 de setembro de 2011

Projeto permite adoção direta de crianças sem seguir ordem em cadastro

Beneath this Burning Shoreline

Setembro, 9, 2011

A Câmara analisa do Projeto de Lei 1212/11, do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), que permite a adoção direta de crianças e de adolescentes entregues pelos pais a conhecidos ou que tenham sido acolhidos por pessoas que venham a se interessar pela adoção, independentemente da ordem de registro no cadastro de adoção. A proposta altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069/90)

Gilberto Nascimento Carlos Bezerra: adoção precisa levar em conta afinidade e afetividade.

Atualmente, o ECA estipula que a adoção deve seguir a ordem de um cadastro nacional de família interessadas. O acolhimento da criança por interessado não garante a guarda definitiva. “Se, por um lado, a obediência à ordem de inscrição tem o mérito de coibir discriminações negativas, por outro impede a adoção em situações especiais, em prejuízo do adotando”, argumenta.

Carlos Bezerra afirma que precisam ser consideradas as peculiaridades da denominada “adoção à brasileira” – em que determinada criança é entregue pelos pais, geralmente por razões econômicas, a determinada pessoa para adoção – e do acolhimento, por determinada família, de criança abandonada e encontrada ou acolhida, que passa a ter interesse na adoção.

“O estatuto prevê que a afinidade e a afetividade devem ser levadas em consideração no pedido de apreciação do pedido, e o deferimento deve ser dado quando apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivos legítimos”, afirma.

Tramitação
A proposta, que tramita em caráter conclusivo, será analisada pelas comissões de Seguridade Social e Família; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Íntegra da proposta: PL-1212/2011
Reportagem – Rachel Librelon
Edição – Pierre Triboli
Postado Por Cintia Liana

sábado, 10 de setembro de 2011

Projeto de Lei 2011


Mandy Lynne

Projeto de Lei nº , de 2011
Do Senhor Sabino Castelo Branco
Altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, incluindo parágrafos em seu artigo 13, renumerando o artigo único, referente à entrega de filhos para adoção.

O Congresso Nacional decreta:
Art. 1º O artigo 13 da Lei 8.069 de 13 de julho de 1990, passa a vigorar com a seguinte alteração:
“Art. 13........
........§1º As gestantes ou mães que manifestem interesse em entregar seus filhos para adoção serão obrigatoriamente encaminhadas à Justiça da Infância e da Juventude podendo, caso desejem, indicar pessoa que poderá adotar o menor. (NR)

§2º O indivíduo que encontrar ou auxiliar criança ou adolescente vítima de maus tratos ou abandono, nos termos do presente artigo, poderá candidatar-se à adoção da mesma, passando a contar com prioridade na análise do processo de adoção.

CÂMARA DOS DEPUTADOS
§3º As hipóteses constantes dos parágrafos anteriores não isentam o interessado na adoção das determinantes previstas na Subseção IV da presente Lei”.

Art. 2º Esta lei entra em vigor na data de sua aprovação.

JUSTIFICATIVA
Ao longo dos anos, temos assistido a inúmeras situações onde pessoas que encontram crianças ou adolescentes abandonados ou vítimas de maus tratos, apresentam-se para adoção das mesmas, muitas vezes sem conseguir sucesso.

Do mesmo modo, mães que desejam passar a guarda de seu filho, sabendo que existe uma família capaz de dedicar à criança o carinho, atenção e o suporte que elas nunca poderiam oferecer, não têm a possibilidade de indicar tal família como receptiva para uma adoção. Isto ocorre porque a burocracia e, mais ainda, a falta de uma previsão legal clara, termina por frustrar tal nobre intenção promovendo, se não injustiças, situações que podem gerar circunstâncias menos favoráveis à criança ou adolescente que venha a ser adotado. Afinal, nada garante que a pessoa que venha a adotar tal menor tenha a mesma dedicação ou carinho para com ele do que aquele que o defendeu e o atendeu em um momento de maior dificuldade.

Por tudo isso, entendemos que a priorização no caso das adoções deve ser conferida àqueles indivíduos que realmente desejem proteger, nutrir e educar o menor abandonado ou maltratado, sem, contudo, olvidarse dos pressupostos básicos legais para que a adoção se concretize. Salta aos olhos, também, que um assunto de tal relevância tenha sido quase esquecido pelo legislador quando, ainda no ano de 1990, CÂMARA DOS DEPUTADOS houve por bem discutir e aprovar a Lei 8.069, de 13 de julho de 1990. Tal situação desnuda-se na constatação de que o tema veio à tela jurídica apenas como apêndice de um artigo, no caso o 13, no qual o caput relaciona-se com o tema apenas na superfície.

Ao apresentar a presente proposta desejamos, se não corrigir, ao menos abrir a perspectiva de um deslinde dessa distorção, promovendo, ao mesmo tempo, a verdadeira justiça entre o que mais necessita e o que mais deseja prover. Por tudo isso, solicito o apoio e aprovação dos pares a essa matéria.

Sala das Sessões, em de de 2011.
Deputado Sabino Castelo Branco

Postado por Cintia Liana

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Valor

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"Procure saber quem você é, amadureça os seus melhores desejos, busque o que você quer, valorize o que você tem e seja feliz sem culpa".

Por Cintia Liana

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Brasil multiétnico

Cintia Liana em frente ao prédio do consulado e embaixada brasileira em Roma, Itália

Aproveitando o assunto sobre a diversidade no Brasil...

Brasil: 192 milhões de habitantes, a quinta maior do mundo.
Brancos: 93 milhões de indivíduos (49,9%).
Pardos: No censo de 2005, 43,2% da população nacional se auto-declarou como sendo parda (mulatas, caboclas, cafuzas, mamelucas ou mestiças de negro com pessoa de outra raça).
Negros: cerca de 11 milhões de indivíduos (6,3%).
Índios: 0,4% da população brasileira.
Origem: 15,72% apontou origem italiana, 14,50% portuguesa, 6,42% espanhola, 5,51% alemã e 12,32% outras origens, que incluem africana, indígena, judaica e árabe.
(Fonte: IBGE, 2010)

Por Cintia Liana

Que mania que algumas pessoas têm de achar que o Brasil é composto majoritariamente de afro descendentes. Errado! Mania também de separar brancos e pardos/negros e achar que todas as pessoas de pele morena são descendestes de africanos. Errado!

Vai ter gente que vai ler isso e me chamar de racista, porque não consegue entender a riqueza etnica da qual nós somos feitos. Porque pensa que o racismo é só quando falamos do negro. Racismo vem da palavra raça. Preconceito e discriminação também têm significados diferentes.

Preconceito está em tudo, na nossa forma de ver muitas vezes distorcida, baseada em nossas próprias referências, nossa cultura, educação. Discriminação é a ação de discriminar. Se eu vir alguém discriminando qualquer pessoa por qualquer motivo eu brigo pelo oprimido, me meto mesmo, não aceito!

No Brasil também temos o descendente de índio, português, espanhol, italiano, alemão, francês, ucraniano, holandês, tem até a maior comunidade de Japoneses em São Paulo, por exemplo, e tem também o africano entre outros, mas dizer que o Brasil é africano é preconceito, discriminação com os descendentes de outros povos e é racismo.

Passar a vida achando que ter cabelo cacheado e pele morena quer dizer ser afro descendente é não conhecer outros povos que têm essas características, como o português de pele morena, por exemplo. Preconceito significa acreditar no que é baseado em algo que não é real. Ficam pessoas impondo a cultura do Brasil somente africana sem respeitar as outras etinias.

É difícil entender o Brasil, mas a ignorância dificulta o viver. Viva a igualdade e viva o conhecimento! Acabar com um preconceito não significa ter que criar outros.

Por Cintia Liana

Alguns dos comentários que recebi em meu facebook:

Adoro as suas colocações. São sempre muito intelegentes e reflexivas.
Você acredita que sempre ouço aqui em São Paulo duas frases: "Você é muito branca pra ser baiana". E a mais preconceituosa de todas: "Você é muito inteligente pra "uma baiana"!!
Realmente... a ignorância e o preconceito faz muita gente viver nas trevas!!"

"Tenho pele morena e cabelos lisos e sempre me incomodou o fato de acharem que se eu não me declarar negra, é por preconceito. Sou encantada com a cultura afro-brasileira, suas cores e batuques e sempre suspiro ao ver um belo negão! No entanto, meu avô paterno descende de italianos e portugueses e minha avó era índia. Meu avô materno também era descendente de italianos e minha avó materna era filha de um italiano com uma mestiça, descendente de negros com portugueses. Ou seja, simplificar-me como negra, seria negar mais de 90% da minha ascendência! O preconceito inverteu-se em uma Bahia que acha lindo alguém usar camisetas '100% Negro', mas que acharia absurdo se alguém usasse uma camiseta '100% Branco'. Eu sigo, sendo 100% mestiça e me orgulhando desta complexidade étnica e genética em que os brasileiros e, sobretudo, os baianos se encaixam!"

"É isso aí amiga, o Brasil não conhece o Brasil, temos uma miscigenação muito vasta e a falta de informação tende a ser simplista demais."


Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Brasil de todas as raças

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Por Cintia Liana

Quando dizemos que um povo é constituído só assim ou daquele jeito é como se estivéssemos instituindo um modelo certo ou errado de ser e estar. O Brasil é multifacetado, é a nossa marca, a mistura, a diversidade e isso é lindo, é possibilidade de inclusão, é reconhecimento do que se esconde por falta de oportunidade.

Quando estipulamos um modelo do que é comum marginalizamos todo o resto. O Brasil é colorido! Devemos aproveitar isso para incluir e aceitar o que ainda insistimos em chamar de "diferente". Nós estamos a frente em muitas discussões e posturas sobre respeito e aceitação das diferenças, na luta pelas minorias. Podemos constatar isso quando vemos um par homossexual adotando uma criança; uma família de pele clara adotando uma criança negra; quando falamos abertamente sobre adoção preocupados com as outras crianças nos abrigos. Vamos investir no rompimento de regras e barreiras. Somos maiores que o preconceito e o amor supera tudo.

Ver o Brasil de fora (da Itália) é uma experiência grandiosa e comovente. Cada vez mais vejo as dificuldades do meu País, mas este é um processo para amá-lo cada vez mais e ver o quanto ele é bonito e pleno de grandes possibilidades.

Por Cintia Liana

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O compromisso de fazer planos

Beneath this Burning Shoreline

Fazer planos é assumir um compromisso com o futuro da nossa vida. Eu faço planos sim! Comigo não tem filosofia Zeca Pagodinho e tal de "deixa a vida me levar". Eu faço as minhas escolhas, sigo os caminhos traçados, assumo a responsabilidade das minhas escolhas. No caminho amadureço, "reescolho", posso mudar de idéia, me conheço, reconheço, faço novos planos e os realizo. Assumo o compromisso comigo mesma de ser feliz de verdade tentando não me enganar.

Por Cintia Liana

domingo, 4 de setembro de 2011

Projeto em Gangú

A psicóloga Cintia Liana vistando Gangú.
Foto de Pedro Oliveira

Entidade italiana precisa de assistente social, psicóloga ou enfermeira para trabalho semi-voluntário por alguns meses, 1 ou 2 vezes por semana no vilarejo de Gangú, perto de Acajutiba-BA.

O trabalho é com crianças muito carentes, algumas necessitam de intervenção médico-cirúrgica. A profissional terá que trabalhar para colocar de pé um projeto sanitário para as crianças, acompanhá-las e discutir seu futuro com o Município.

Essas crianças são mantidas por uma equipe de voluntários liderado por duas mulheres, uma delas uma freira de origem italiana.

Interessados devam contatar a psicóloga Cintia Liana (cintialrdesilva@yahoo.com), que atua na Itália e é coordenadora das atividades da entidade Senza Frontiere voltadas para o Brasil.

Por Cintia Liana

Arrastões de menores mostram falência no atendimento a crianças, dizem especialistas

Elena Kalis

Agosto/2011
Por Bruno Bocchini
Repórter da Agência Brasil

Arrastões feitos por crianças e adolescentes e fugas recorrentes dos abrigos são indicativos da falência do Poder Público e da sociedade civil em resolver o problema dos menores em situação de rua. A opinião é de dois especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

Na última segunda-feira (22), a cidade de São Paulo registrou o segundo arrastão feito por crianças e adolescentes na Vila Mariana – bairro da zona sul de São Paulo. Após invadirem um hotel, sete menores foram apreendidos pela polícia. Alegaram ter menos de 12 anos e foram levados ao Conselho Tutelar, onde passaram a depredar o local.

“Agora que nós vemos que a coisa está degringolada, temos que começar tudo de novo chegando à raiz, chegando à origem: um Estado que traga educação pública. Tudo o que podemos fazer é paliativo. É colocar band aid em tumor”, destaca o desembargador e coordenador da área de Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo, Antonio Carlos Malheiros.
Na tarde de ontem (23), três dos sete jovens apreendidos fugiram do abrigo para onde tinham sido encaminhados. Dois foram reconhecidos como maiores de 12 anos e levados para a Fundação Casa, antiga Febem.

Segundo o desembargador, o problema não está somente no sistema de apoio aos menores, mas também na falta de estrutura das famílias, que não têm condições de educá-los. “Depois de sair da Fundação Casa, que hoje está funcionando bem, eles vão para onde? Para a mesma família desestruturada, miserável, faminta, de desempregados, de alcoólatras”.

Segundo o presidente da Fundação Criança de São Bernardo do Campo (SP) e vice-presidente da Comissão Nacional da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ariel de Castro Alves, a situação precária de atendimento às crianças mostra a ausência de programas educacionais, sociais e as falhas das próprias famílias. “É uma corresponsabilidade, que envolve as famílias, o Poder Público e a sociedade como um todo”.

“Faltou acompanhamento das famílias, acompanhamento dos programas de complementação e geração de renda, ou outros programas, de atendimento de alcoolismo, acompanhamento psicológico e social”, destaca.

Ana Paula de Oliveira, do Conselho Tutelar de Vila Marina, diz que os conselhos estão trabalhando sobrecarregados e que falta estrutura. “Hoje, são 37 conselhos tutelares em São Paulo. Há uma previsão de aumentar para 42”. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) recomenda 112 para uma cidade com a população de São Paulo.

Da Agência Brasil Em São Paulo.


Postado Por Cintia Liana