"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Quando nasce uma nova mãe

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Após o parto, a mulher, ao mesmo que tempo que vive um momento especial, feliz, tenso, delicado e se vê por horas perdida tentando se encontrar neste novo cenário em meio ao choro do bebê nas horas em que menos espera, é “obrigada” a continuar a viver dentro das regras sociais, segundo, normalmente, o que esperam as pessoas ao seu redor.

Com o nascimento do filho, a mulher entra num mundo desconhecido, cheio de novas sensações, boas e assustadoras, mas que são reais e naturais. O corpo muda por algumas semanas e até meses e algumas mulheres nem se “reconhecem” mais.
No caso do parto cesário, a cicatriz inicialmente é um símbolo traumático e agressivo, já que é uma intervenção cirúrgica desnecessária, em virtude do parto natural ser o processo gravado nas mais subjetivas células do corpo e nas profundezas da mente como o natural, ainda mais para a mulher que espera parir naturalmente e tem que fazer um parto cesário de urgência por algum motivo.

Subitamente, após o nascimento do filho, sobretudo o primeiro, ocorre uma desestruturação física e emocional onde se perde os instrumentos que se usa para construir a identidade, como o trabalho, o divertimento, o contato social, substituídos pelas solicitações de um novo ser, pequeno e frágil.

A mulher puérpera começa a ver o mundo com “os olhos do bebê“, tem a capacidade de sintonizar-se na mesma frenquência dele, por isso consegue interpretar suas necessidades e, por vezes, sente-se em um outro mundo, está sensível emocionalmente e tem sentimentos confusos. Pode entrar em processos regressivos e estar mais sensível e intuitiva. No puerpério acontece uma abertura no espírito (GUTMAN, 2008).

Nos dias de hoje a mãe, mesmo com todas essas sensações, é obrigada a voltar para o mundo do trabalho como se nada tivesse acontecido, sufocar suas fragilidades e negar a necessidade de estar conectada 100% com o seu bebê. Isso gera um conflito: a profissional que deseja sentir-se a mesma com o trabalho e a mãe que deseja estar com o filho, num mundo onde existem pouquíssimos lugares confortáveis adaptados para os dois. Essa mulher deve aprender muitas coisas novas, incluindo como locomover-se com a criança (GUTMAN, 2008).
A nova mãe, incluindo as adotivas, quando está em meio a pessoas, e seu pequeno filho chora, antes dela poder observá-lo e tentar sentir o que ele necessita já tem duas ou três pessoas opinando e dizendo: “ele deve estar com cólicas!”, “será que está com fome?”, “ele está com sono!”, como se o choro do bebê fosse desconcertante, e é, já que as pessoas se sentem intimamente incomodadas, deixando a mãe agitada e nervosa. Ao invés disso, deveriam aceitar o choro como algo natural e deixá-la tranquila, encarregada de reconhecer e satisfazer as necessidades do bebê.

Com todas essas mudanças e possíveis desorientamentos na vida de um ser humano, ao invés de se disparar conselhos e críticas por toda a parte como se ela não soubesse o que fazer, a mãe puérpera ou a que acabou de adotar, precisa de contenção afetiva, acolhimento, compreensão e aceitação das suas próprias emoções. Os conselhos muitas vezes são inúteis, pois se deve levar em consideração a história emocional e familiar, os modelos intergeracionais de cada mulher, suas necessidades que provém do lugar mais profundo de seus corações, suas fragilidades, dificuldades, medos, resistências em seu ser adulto e infantil e ajudá-la a descobrí-las e não querer moldá-la, julgá-la ou fazer com que se comporte de acordo como espera a sociedade, a mãe ideal e imaginada e, ao mesmo tempo, irreal.
Quem vê de fora não consegue compreender o universo em que essa mulher está imersa e nem entender o mundo daquele pequeno ser que acabou de nascer. Os estudiosos do fenômeno fusional explicam que entre mãe e bebê se estabelecem leis incompreensíveis à lógica racional, mas que são normas para a tranquilidade dos dois (GUTMAN, 2008).
Médicos, familiares, amigos e vizinhos, muitas vezes tentam opinar, interpretar com olhos de “adultos”, pensando que estão ajudando, mas ao contrário disso causam um bruto impacto pessoal, uma sensação de antipatia e falta de respeito para a mulher que está construindo a identidade de mãe. Melhor seria oferecer informações ao outro como indivíduo único e diferenciado e ajudá-la a reconhecer, acolher e aceitar as suas necessidades e a sua intuição. E não impor que a mulher “seja como todo mundo e volte ao normal”, num mundo onde tudo corre na velocidade da luz, mas respeitar o seu novo ritmo, o seu silêncio e que ela acolha do modo que achar mais amoroso o seu filho, aquele novo ser que ela está aprendendo a amar.


Artigo da psicóloga Cintia Liana Reis de Silva publicado no site Indika Bem no dia 07 de março de 2013.
link: http://indikabem.com.br/psicologia/quando-nasce-uma-nova-mae/

GUTMAN, Laura. La maternità y el incuentro con la propria ombra. Buenos Aires: Editorial Del Nuevo Estremo, 2008.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Restaurando a relação com os filhos e consigo mesmo

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Muitos pais e filhos levam relações conflituosas adiante por anos a fio, passando por fases mais complicadas e outras mais tranquilas, mas a problemática está alí, criando uma atmosfera familiar sempre saturada. Mas será que as pessoas estão, de fato, preocupadas em olhar com cuidado para essas dificuldades a fim de restaurar suas relações com os filhos e com o mundo?

Restaurar relações familiares acaba por ser uma tarefa de muita coragem, sobretudo com os filhos, pois para travar e reconstruir uma relação de afeto com eles se deve reconciliar antes de tudo com a figura internalizada dos pais, com a própria criança ferida, com a imagem interna e regredida que temos das nossas figuras de base. Esse é o único caminho para a transformação de nossas relações atuais, afinal nós somos o produto do tipo de relação que tivemos com nossos pais nos primeiros anos de vida, num meio que é foco de neuroses para todos nós seres humanos que é a família, isso já é científico há muito tempo. E que estamos fortemente propensos e repetir os mesmos erros dos nossos genitores também é fato, Bowlby já provou há muito tempo, e o único jeito de mudar isso é fazendo um trabalho psicoterapêutico, nada adianta forçar de fora pra dentro, o trabalho é de dentro pra fora.

Algumas teorias mostram que muitos homens e mulheres quando não conseguem procriar e não encontram nenhuma explicação médica, orgânica, é pelo fato de inconscientemente terem muito medo do desconhecido que mora dentro deles, do que trazem da relação mal resolvida com seus pais e na relação atual com o parceiro. Como diz Bowlby, “é na hora de tornar-se genitor que abrem-se feridas intergeracionais e como dar o que não se teve?”.

Na hora de gerar, o corpo reage de acordo com o conteúdo da mente e é importante que emerjam perguntas como, “como posso ser mãe se não ‘aceito’ e não sei lidar com a mãe que tenho e, consequentemente, com a minha mãe internalizada? Como posso me tornar mãe se não conheço bem os conflitos que tenho com o modelo de mãe que me foi dado?” Muitas mulheres conseguem gerar depois que iniciam suas terapias, algumas também depois de provarem ser mães através da adoção e de enfrentarem seus medos e fantasias a respeito da maternidade.

Todos nós podemos nos beneficiar com um bom trabalho psicoterapêutico, olhar para a necessidade de mudanças, de paradigmas existenciais, tocar em crenças guardadas, responder de modo mais responsivo, diferenciado e maduro às demandas da vida, aprender, reaprender, romper com tabus familiares, afinal nenhuma família é perfeita. Vamos lá, coragem, força, todos podem buscar mudanças e ajuda, por amor aos nossos filhos, por amor a nós mesmos e para descobrirmos um amor maior ainda que podemos sentir pelos nossos pais.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia de casal e família. Ela vive e trabalha na Itália.

Artigo publicado no site Indika Bem no dia 07 de fevereiro de 2013.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Primeiro artigo da psicóloga Cintia Liana publicado na Itália

Primeiro artigo da psicóloga Cintia Liana publicado na Itália

Usando a história do "não colocar muito no colo que acostuma", eu fiz um artigo com base científica provando o contrário, e será publicado no jornal "Tre" da semana que vem e mandei imprimir 500 cópias numa gráfica, para informar a algumas pessoas aqui na Itália sobre a necessidade de se respeitar as necessidades instintivas dos recém nascidos.

Já que o código de ética dos psicólogos preconiza que é nosso dever informar e levar conhecimento à  comunidade, então estou não só fazendo o meu papel de sempre, de defender as crianças, mas também seguindo a risca a ética profissional com um pênalti só. E ainda posso, com o artigo, divulgar o meu trabalho e a minha associação.

Agradeço imensamente a meus amigos e seguidores do Brasil, que só me dão força, motivação e elevam o meu nome como profissional e o apelido de "fada da adoção", que me enche de orgulho.

Sobre a tal da frase que detesto, digo que o que me incomoda me fortalece e eu uso tudo o que me faz mal para crescer, é só reagir e mudar a nossa postura de vítimas para o do guerreiro que leva a paz e o amor. E eu me identifico totalmente com a guerreira. E lembro agora que Cintia é um dos nomes da Deusa Artemis, a deusa guerreira.


Cintia Liana

"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A ética na exposição dos filhos

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Hoje em dia se fala muito sobre a ética em relação a exposição dos filhos nas diversas mídias, mas pouco se fala sobre o que está por trás desta necessidade. Primeiro, obviamente, o que vem em mente é querer mostrar a todos como ele é belo, e isso é muito natural, e daí vem o desejo de mostrá-lo, usando os veículos mais comuns, que são fotos e publicidades para a TV.

Mas será que as crianças desejam serem mostradas, expostas desta ou de outras maneiras? E que consciência elas têm desta exposição? Outras perguntas também aparecem como, que resultado isso traz para a vida de cada uma? O que isso tem a acrescentar para o seu desenvolvimento “psicoafetivosociocultural”?

Muitos pais podem procurar expor os filhos e torná-los uma espécie de celebridade com o intuito de asceder socialmente ou de buscar uma certa luz ou brilho para preencher suas próprias faltas. Iluminar o filho é como se talvez estivessem iluminando a sua infância plena de memórias de carências afetivas. Ver o filho brilhar e ser reconhecido é não só se iluminar com a mesma luz naquele momento por ser pai ou mãe daquele ser que é visto como especial, mas é, de certa forma, iluminar a criança ferida e frustrada dentro de cada um.

Dentro deste tema poderemos levantar vários aspectos a serem levados em consideração, não só os motivos subjascentes que levam os genitores a buscarem fama para os filhos, como também os diversos pontos positivos e negativos que essa exposição causa na vida objetiva do menor e em sua vida social; como ela assimila isso tudo e quais são os reflexos em seu comportamento futuro. São muitas perguntas delicadas a serem feitas.

Podemos observar várias crianças que foram protagonistas de filmes famosos que depois desapareceram da mídia porque ficaram marcadas por aquele personagem com o estigma negativo. Isso marca toda uma vida. Outras que fizeram papéis em novelas e depois buscaram outros rumos quando adolescentes. O próprio público, quando sente falta de um ator mirim na TV, imagina logo que este faliu, mas não é comum pensarem que ele pode ter escolhido outra estrada, como fazer faculdade para trabalhar em outro ramo, porque no fundo se crê que ser famoso é o que há de melhor e que esta é a forma mais confortável de provar que se tem algum valor pessoal ou social.

É importante buscar ser feliz sem precisar ser reconhecido publicamente ou por um grande número de pessoas. Não se esperar que venha dos outros e de desconhecidos o senso de valor que deve ser construído dentro de cada um é algo a se entender e isso é algo importante para dar e ensinar aos filhos em seu processo de crescimento, que o que ele faz, independente de que os outros vejam, deve fazer sentido para ele e que deve ser algo valoroso e honroso porque é digno e isso não precisa ser reconhecido externamente. O reconhecimento externo é um detalhe que pode ocorrer, mas não deve ser o principal e nem o objetivo central, senão tudo se perde.

A questão é que os pais devem estar atentos porque são eles que decidem tudo para a criança no início de sua vida, porém algo pode ser tão potente neste início e comprometer todo o seu futuro sem que a nova “pessoinha” se dê conta que quem escolheu aquele seu presente foram os pais. Algumas pessoas só entendem isso quando já têm suas vidas totalmente traçadas pelos outros e já estão vivendo coisas que não a agradaram como deveria.

Precisa ter bom senso quando se usa a imagem do filho, justamente porque este não tem consciência do que faz e do que acarretará em sua vida futura.

Se deve entender que não se nasce pronto para ser pai ou mãe, que esse é um processo que deve ser construído com sabedoria, muita reflexão e autoconhecimento, para que saibamos com inteireza que educar um filho e ajudá-lo em seu crescimento é uma tarefa muito complexa, onde se pode formar um ser que depende de aplausos para ser feliz ou outro que busca ser feliz com seus próprios recursos internos e vê os aplausos como reforços positivos, mas não como o objetivo principal.

Artigo da psicóloga Cintia Liana Reis de Silva publicado no site Indika Bem no dia 23 de janeiro de 2013

Fonte: http://indikabem.com.br/psicologia/a-etica-na-exposicao-dos-filhos/

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Revista "Isto É" sobre adoção

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Na semana passada dei uma entrevista para uma repórter da revista "Isto É". É para uma matéria sobre adoção, família e crianças, adoção interracial e o que mudou na descrição do perfil da criança pretendida na hora de adotar.
A edição estará nas bancas amanhã, dia 08 de fevereiro de 2013, de manhã. É matéria de capa. Comprem!
Espero que cada vez mais muitas crianças ganhem família, sobretudo as maiores, que esperam por anos sonhando com pais que as amem.
Vamos dar mais números e visibilidade ao universo da adoção. As crianças que esperam por suas futuras famílias e lares agradecem. ♥

Para ler a matéria completa:
http://www.istoe.com.br/reportagens/274274_ADOCAO+SEM+FRONTEIRAS

Aquele abraço negado: A importância do contato entre mãe e bebê

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Por Cintia Liana Reis de Silva

A psicologia diz que è positivo, sadio e indicado que as mães coloquem o recém nascido o máximo que puder em contato com o seu próprio corpo, para que ele sinta o seu calor e o seu olhar cuidadoso. E a psicologia não è uma religião para ser acreditada, mas è a ciência da mente, das emoções e do comportamento humano.

Bebês que têm a atenção incondicional da mãe ficam acordados no berço muito mais tranquilos e adormecem sozinhos, enquanto aqueles que não têm essa atenção podem experimentar uma sensação de pânico e solidão.

O bebê pequeno e sua mãe são um “corpo só” também depois do parto, primeiro rompimento traumático para os dois, e estarão em “fusão emocional” como dentro do útero, por ao menos os 9 meses sucessivos ao nascimento a condividir a mesma esfera mental e emocional. Se trata de uma ligação simbiótica, onde procurar o corpo da mãe è uma questão de instinto de sobrevivência, uma solicitação genuína e autêntica, que deve ser respeitada, assim como a vontade de mamar a qualquer momento. As teorias da terapia corporal e a psicologia do desenvolvimento infantil explicam bem esses argumentos. Em meu primeiro livro, publicado no Brasil em 2011 (Filhos da Esperança), falo sobre esse assunto, entre outros.

Em mais de 12 anos de experiência profissional com famílias, adultos e crianças nunca vi o excesso de colo nos primeiros meses de vida fazer mal, mas o contrário sim. O abandono, a indiferença, o deixar chorando, além de ser um abuso, formam adultos que acreditam que “o seu choro” (as suas necessidades e vontades) não tem valor, imersos numa cultura onde as crianças ficam mais e mais no carrinho de bebê com a errada idéia de educá-los e a serem autônomos desde sempre.

O ser humano está muito habituado a controlar, a querer “moldar” e a julgar. Controlar e julgar os filhos, o parceiro, os pais, os irmãos, os amigos... E pouco habituado a ler nas entrelinhas e a procurar entender as pessoas. O filho recém nascido também precisa ser entendido e respeitado. Não é porque “nasceu agora” e não entende bem o mundo que não tem vontades e necessidades. Ele começa a aprender desde já o que é a vida e a sentir a conduta das pessoas. Ele saberá o que é o sentimento de respeito e compreensão se desde que nasce for respeitado e compreendido. Esses sentimentos passam na energia de cuidado da mãe e em seu olhar direcionado a ele como um ser de direitos.

Está provado que bebês que têm um contato íntimo com a pele da mãe e a sua atenção incondicional são mais desenvolvidos na esfera emocional, intelectual e física, sem falar em como a amamentação é fundamental. Esse contato íntimo é também importante para o desenvolvimento dos órgãos internos; para o sistema imunitário; para o desenvolvimento do apego seguro descrito por John Bowlby; para a construção de uma identidade matura; para o sentimento de alegria profunda; para a capacidade de relacionar-se de maneira mais prazerosa com os adultos; para a sensação de pertencimento ao mundo e para ter uma relação mais amorosa com os pais, consigo mesmo e com a própria vida (BOADELLA apud SILVA, 2012).

A mãe que troca o choro de um bebê por manha, por um capricho e tenta “educá-lo” desde as primeiras fases da vida, cria uma criança que usará o mesmo mecanismo para relacionar-se com as pessoas e consigo mesmo. Mais sábio seria reconhecer e aceitar as suas necessidades reais. Esse choro “sem motivo” è porque os recém nascidos refletem tudo aquilo que a mãe sente, pensa, recorda, rejeita, as suas ansiedades, a sua sombra e o seu estato emocional. Neste cenário o psicólogo pode fazer um preciso diagnóstico do sistema familiar (GUTMAN, 2008).

Os bebês são “o termômetro” da mãe em virtude da condição fusional entre os dois, por esse motivo a mãe deve procurar estar bem consigo mesma, e isso significa também ter consciência das suas próprias emoções, indagar-se. Por isso, é importante conhecer e educar a si mesmo antes de ter filhos.

Não criticar, não julgar, mas dar bons exemplos. Difundir o pensamento científico e sustentar um discurso mais maduro, inteligente e sensível às nuances é mais correto. Assim os bebês sofrerão menos e talvez se tornarão adultos mais sadios. Por que “economizar” afeto, atenção e contato físico se é aquilo que as crianças mais precisam para serem adultos mais seguros e amorosos?

Peguem seus filhos no colo sem culpa, porque uma mãe que deixa o filho de poucos meses chorando, pensando que está educando-o, pode significar resistência e medo de amar, de doar-se, de responsabilizar-se e de comprometer-se verdadeiramente com aquele ser humano.

Referência:
GUTMAN, Laura. La maternità y el incuentro con la propria ombra. Buenos Aires: Editorial Del Nuevo Estremo, 2008.
SILVA, Cintia Liana Reis de Silva. Filhos da Esperança: Os Caminhos da Adoção e da Família e seus Aspectos Psicológicos. 2 ed. Salvador: Edição do Autor,  2012.

[Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta desde 2000, é especialista em psicologia de casal e família e trabalha com adoção desde 2002. O seu blog recebe mais de 20.000 visitantes ao mês, o www.psicologiaeadocao.blogspot.com]

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A excessiva cultura do carrinho de bebê

Esse foi um texto meu, publicado no dia 09 de janeiro de 2013 no site Indika Bem.
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Por Cintia Liana Reis de Silva

A vida moderna exige muitas vezes que nos adequemos aos novos hábitos e culturas, muitas vezes até importadas de outros Países, movidas pelo comércio desenfreado, sem ter a devida noção crítica, sobretudo quando se trata de nos proporcionar mais conforto e praticidade. Entendemos que na vida corrida de hoje a praticidade é um elemento fundamental, mas devemos estar atentos para que essas novas práticas não afetem direta e indiretamente a forma sadia no contato e na educação dos filhos, que estão em pleno desenvolvimento.

Um bom exemplo para a reflexão que proponho neste texto é o uso excessivo do carrinho de passeio para o bebê e para as crianças nos primeiros anos de vida.

Hoje vemos muitos bebês ficarem por horas no carrinho, porque se criou a crença de que filho no colo se torna mal educado e dependente. Ocorre que tudo deve ter um equilíbrio, até para não criarmos uma cultura inversa, onde o filho no colo seja visto como algo negativo. Na verdade, com esse pensamento extremista, o privamos de uma atmosfera afetiva ideal para a construção sã do seu “eu”, quando negamos um contato benéfico com os pais e essa interação fica comprometida, assim, por exemplo, não se pode exercitar o contato com os olhos, que o filho sinta o calor do corpo da mãe, entre em contato com a sua respiração, o ritmo da caminhada do pai, a força e a segurança nos braços dos progenitores quando são carregados e “sustentados”, tudo isso com a emoção implícita de exercitar a maternagem e a paternagem. Essas sensações, que só o contato físico direto pode proporcionar, não têm preço e é de uma riqueza simbólica ímpar no desenvolvimento pleno da criança, para os reflexos positivos em seu futuro, quando ela sente a emoção na brincadeira, no abraço, sente o calor no contato com a pele da mãe e bem de perto constata o real sorriso de ternura em seus olhos, criando o que nós especialistas em família chamamos de “apego seguro”, o que vai poder gerar uma vida adulta emocional equilibrada e segura com muito mais facilidade.

Crianças de 3, 4 e 5 anos também são empurradas no carrinho como se fossem portadoras de limitação física, podendo instituir a preguiça e os pais não se dão conta de que estas precisam caminhar, adquirir autonomia e não somente serem controladas por estarem “presas” no carrinho. Claro que às vezes pode ser bastante necessário o uso deste acessório, mas usá-lo sempre pode ser um perigo, porque o corpo da criança está em desenvolvimento, seus músculos precisam ser exercitados, fortalecidos, elas precisam gastar energia e sentir que caminhar “ao lado” dos pais pode ser bem melhor e mais educativo que “serem empurradas” por eles.

Deixar o bebê chorando por horas dentro do carrinho, por exemplo, pode acarretar uma significativa privação materna e sensorial, um “deficit de acudimento”, a ponto de desencadear patologias psicológicas, psicossomáticas e no desenvolvimento afetivo, como o autismo, por exemplo. Ser ignorado quando se chora continuamente é uma espécie de abuso contínuo e isso interfere na relação futura que a criança terá com as figuras de apego.

Somos seres movidos por sentimentos, mais ainda nos primeiros anos de vida. Os adultos não podem esquecer que quando um bebê pede por acolhimento físico se trata de uma necessidade real afetiva e não apenas de dependência ou “dengo”, inclusive porque ainda provam a fusão emocional existente entre o seu frágil corpo e o corpo da mãe, ele ainda não desenvolveu autonomia em seu sentimento de existir, seu instinto diz que ele existe através do corpo dela. Ele sente tudo o que ela sente, mesmo que inconscientemente. O seu pequeno corpo reflete suas emoções. Não podemos ignorar uma necessidade tão essencial e confundí-la com birra, devemos desenvolver empatia.

Os bebês demonstram o que precisam e ficar chorando no carrinho ou no berço só lhes mostrará uma coisa que aprenderão para a vida: que não adianta pedir, não adianta chorar, sua voz não tem força, que ele não pode confiar em ninguém, pois nem as pessoas que deveriam amá-lo dão atenção suficiente a um pedido seu, ao seu desejo de ser abraçado e acolhido naquele momento, de estar perto fisicamente de seus pais. Não ser acudido lhes mostra que suas necessidades podem não ser importantes, pois não são respeitadas e nem validadas no seio de sua própria família.

Não podemos achar que, só porque se trata de um bebê, ele não deve ser respeitado em suas vontades. As crianças não devem ser somente um depósito de “educação”, treinamento e fazer o que os pais querem, elas também expressam vontades, demandas importantes, que normalmente não são entendidas pelos adultos, que na maioria das vezes já se esqueceram o que significa ser criança e como eles sentem o mundo.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia conjugal, familiar e adoção.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Crenças equivocadas sobre parto e maternidade

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Muito se fala e repete sobre crianças, maternidade, parto e educação, mas quase todas as afirmações não passam de grandes mentiras, talvez para trazer mais conforto psicológico, comodidade aos erros alheios e menos culpa. Difícil é ver alguém indo pesquisar sobre um determinado assunto ou perguntando a um psicólogo. Fica mais fácil ouvir a repeição do senso comum, a opinião popular, baseada numa cultura capitalista, industrial e fria, que acredita naquilo que é mais lucrativo e vatajoso.
Os maiores equívocos que constato hoje estão relacionados à repetição de crenças baseadas em experiências pessoais ou o que se imagina, com origem na cultura e na fantasia. Mas muito do que falamos é o que queremos acreditar e não a verdade dos fatos. Muitas dessas crenças as pessoas nunca pararam para se perguntar de onde vêm e se são realmente válidas.
Nossa psiquê, por exemplo, nos passa a informação mais conveniente, a que nem sempre é real e quem nunca fez um trabalho de auto conhecimento, como uma psicoterapia, talvez nunca saberá quem é de verdade e quais são suas reais necessidades, feridas, dilemas e dificuldades.

Citarei alguns equívocos e mitos sobre parto e maternidade:
· “As mulheres esquecem a dor do parto” – Não, as mulheres não esquecem a dor do parto, apesar de ser uma dor muito forte. Comecemos por desconstruir a crença de que a dor do parto é negativa, pois ela não é, o sofrimento não é necessário, a dor sim. Ela é necessária neste momento de rompimento, pois transporta a mulher para outro nível de consciência, para outra dimensão e compreensão do momento de transformação pelo qual está passando. A equipe médica deve demonstrar proximidade e humanidade para que a mulher se sinta mais forte, evitando que situações de dor e medo se transformem em sofrimento e abandono. O nascimento de seu filho é  um momento de renascimento para ela, nasce uma mãe, e a dor faz com que ela entre em contato com suas necessidades, com as necessidades da criança, com a sua passagem e, sobretudo, abandone a realidade fria do hospital e dos procedimentos médicos, para pensar só em si e em seu bebê. O corpo tem memória, ele não esquece nenhuma dor, ela está alí, adormecida, mas foi necessária e é instintiva (GUTMAN, 2008).

· “O bebê nasce quando ele quer” – Não, o bebê nasce quando a mãe se dá conta de que está preparada, e juntamente com o bebê sentem a harmonia do momento oportuno de dar e ganhar vida. A psiquê materna está diretamente ligada ao corpo do bebê, este como continuidade dela, e se a mulher for sensível, pode ter um parto muito tranquilo e sereno, com a “cooperação” da criança.
        
· “O trabalho de parto rápido é o melhor” – Não, o parto rápido não é melhor que o parto lento, cada mãe e bebê têm seu tempo especial para fazer a “passagem”. Um trabalho de parto de 24 horas pode ser bom, depende de como a mulher vive aquele momento, sobretudo com consciência, aproveitando cada minuto para ser protagonista do seu processo e “reencontra-se mais autentica que nunca” (GUTMAN, 2008, p. 40). Se a mãe e o bebê precisam de 24 horas de trabalho de parto para que essa transformação aconteça, deixemos que seja assim, nada é por acaso, pode ser um processo de reconhecimento de uma situação e não podemos desrespeitar o tempo de cada mulher, ela deve ser a protagonista, a rapidez médica não importa. O parto não é um procedimento puramente cirúrgico, antes de tudo é um fenômeno humano para a vida.

· “Bebê no colo se torna dependente” – O bebê já nasce dependente. Hoje se criou uma mentalidade de que bebê que fica um pouco no colo se torna dependente, e foi esquecido que o contato direto com a mãe é algo essencial para o desenvolvimento biopsicosocioafetivo da criança, e que, se ela pede colo, é porque precisa daquele calor, da troca, do envolvimento amocional, é porque este envolvimento é necessário por algum motivo que nem sempre a mãe tem a capacidade ou a abertura para entender. Hoje os adultos censuram muito as crianças, como se elas fossem animalzinhos a ser adestrados, mas estão longe de conseguirem compreendê-las. É ideal que a criança crie um “apego seguro” (ler sobre a teoria do apego de Bowlby) com seus pais, caso contrário, isso se refletirá em seu mundo adulto, trazendo muitos prejuízos, em todos os níveis.
    
· “A bebê que chora muito não é bom” – O bebê que chora muito e adoece em continuidade está fazendo o favor de comunicar que algo não vai bem em seu ambiente. A fusão emocional com a mãe, que dura até aproximadamente os seus dois anos, faz com que ele sinta e expresse tudo o que não vai bem com ela, seus medos inconscientes, seu deconforto emocional, suas memórias negativas, suas dificuldades relacionais e qualquer rejeição que ela venha a sentir em relação ao filho, que normalemente está diretamente ligada a sua própria infância e a sua relação com sua mãe.
                        
· “Depois de parir a mãe deve se sentir feliz” – O pós parto é um momento delicado, onde cada mulher tenta reencontrar e se conectar com sua identidade, que entra em harmonia com a nova. É um momento intenso, difícil, contraditório, que pode ser triste e ao mesmo tempo feliz, um momento de ajustes psíquicos e hormonais, onde cada mulher vive da maneira que pode, de acordo com sua história de vida, devendo ser repeitada e ajudada com amor.
    
· “Não existe fómula para educar filhos” – Pode não existir uma fórmula, mas seguramente existe um caminho justo e, a depender a disponibidade interna, pode transformar-se num caminho simples. Antes de ter um filho, os futuros pais devem educar a si mesmos. Não serve de nada exigir agressivamente dos filhos aquilo que nem você consegue fazer. Muitas pessoas têm filhos para satisfazerem seus desejos, mas poucas se perguntam se podem dar mais que receberem, ou se estão prontas, completas e dispostas a darem uma base sã a quem vem ao mundo. Querendo ou não, os filhos são um reflexo de como vêm os pais, inclusive a parte negativa que muitas vezes nem eles mesmos se dão conta de que têm. É preciso trabalhar a relação com seus pais, pois esses modelos passam de geração em geração como também as feridas intergeracionais, sem as pessoas tomarem consciência da necessidade de mudar e criticar sua própria educação, que certamente não foi perfeita como se pensa. É necessário humildade para aceitar a imperfeição. Um bom exemplo é que os pais me procuram para atender em psicoterapia os filhos que apresentam dificuldades, mas poucos se colocam a disposição para entenderem no que podem estar errando com eles. O pai da teoria do apego disse, “é na hora de tornar-se progenitor que se reabrem feridas intergeracionais, e como dar ao filho algo que não se teve?” (SILVA, 2012).
               
· “Toda mulher nasceu para ser mãe” – Não, nem toda mulher quer ser mãe, nem toda mulher está pronta para ser mãe e nem toda mulher é uma boa mãe, isso vai depender da história familiar de cada uma, de sua base, de suas expectativas, de seu presente. Cada mulher vive a maternidade de um modo, ou seja, do modo que é capaz de viver, de acordo com seus referenciais de vida e cuida de seu filho do modo que pode, dando o que tem, baseado no que teve e no que reconhece em si.

·  “Mãe adotiva não é mãe de verdade” – Mãe adotiva é mãe. Não é necessário parir para se tornar e se sentir mãe, o amor maternal é desenvolvido a partir da intenção, consciência e convivência com a criança e ela se sente tão mãe como qualquer outra mãe que deseja o seu filho.
 
É muito fácil repetir crenças populares, acreditar no que nos dá mais conforto, mas o caminho correto é buscar conhecimento e sobretudo desenvolver autocrítica e sensibilidade para olhar o mundo e cada ponto com suas particularidades, independente do que aprendemos ou do que é mais confortável, é não ter medo e nem preguiça de pensar, sentir e refletir.

Referência:
GUTMAN, Laura. La maternità y el incuentro con la propria ombra. Buenos Aires: Editorial Del Nuevo Estremo, 2008.
SILVA, Cintia Liana Reis de Silva. Filhos da Esperança: Os Caminhos da Adoção e da Família e seus Aspectos Psicológicos. Salvador: Edição do Autor, 2012.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia conjugal e familiar, vive e trabalha na Itália, é autora de dois livros publicados no Brasil, seu blog conta com mais de 15.000 acessos ao mês, o www.psicologiaeadocao.blogspot.com.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A verdade é o princípio da adoção

Ser honesto com os filhos sobre todo o processo é a melhor maneira de evitar desententimentos

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09/12/2012 01:34 - MYLLENA VALENÇA

“O filho é a resultante esperada da relação homem-mulher; é como se o equilíbrio se completasse a partir de um terceiro referencial. É da interação dessas três forças (ou mais) que surge a verdadeira unidade”. O sentido da afirmação do psicólogo Luiz Schettini Filho é o ponto de partida para que muitos casais optem por a­dotar uma criança quando, por algum motivo, não podem gerá-las. Mas apesar de toda a grandiosidade e beleza da adoção, existe uma fase delicada, pe­la qual todos irão passar: a ho­ra de contar à criança a verda­de so­bre sua origem. É preciso matu­ridade para que este mo­men­to seja encarado pela fa­mí­lia com total naturalidade, evitando  traumas aos pequenos.

Em seu artigo “Uma psicologia da adoção”, Schettini diz que a criança adotada necessita do conhecimento de sua origem. “Dizer a verdade tem sido um desconforto, quando não um motivo de pânico, para alguns pais. É como se a histórica revelada pudesse destruir o afeto familiar. Porém, as dificuldades nas relações interpessoais poderão surgir muito mais pela manutenção dos segredos do que pela revelação da verdade”, garante Schettini, que é especialista em psicoterapia de crianças e adolescentes e o maior escritor do assunto no Brasil.

Esposa e parceira de Luiz em pesquisas, além de presidente do Grupo Estudo e Apoio à Adoção (Gead), no Recife, a psi­cóloga Suzana Schettini a­crescenta que a criança precisa tomar conhecimento de sua realidade mais ou menos aos 2 anos, com palavras simples e de uma forma que ela pos­sa en­tender. “Na verdade, os pa­is irão apenas confirmar o que, inconscientemente, a cri­ança já sabe. Ela tem percepções e ins­crições psicológicas da vida intrauterina e da transpo­sição pa­ra a família adotiva. Tan­to que, atualmente, não se fa­la ma­is em ‘revelar’ a história mas, sim, comunicar. Isso não de­ve angustiar os pais”, pontua Su­zana. De acordo com a psicó­loga, eles são as pessoas que devem fazer esta comunica­ção, para evitar  que a criança tome conhecimento de for­ma inadequada, através de terceiros.

Meninos e meninas terão um entendimento mais claro de sua adoção a partir dos 6 ou 7 anos e a reação deles ao fato vai depender de como lhes foi passada a sua realidade. “A criança aprende o mundo da forma como os adultos ensinam. Se estes se sentem seguros e confiantes na sua condição de pais, assim a criança também se sentirá. 

É o que acontece com a fonoaudióloga Auriany Nunes e o motorista Gustavo Souza Leão, que hoje esperam seu primeiro filho biológico, mas, primeiro, adotaram Arthur, de 4 anos, quando ele era um bebê de 3 meses. “A chegada dele só nos trouxe alegria e por isso esclarecemos os fatos naturalmente. Sobre a sua vida, não queremos deixar lacunas”.

Fundadora do Geadip, grupo de apoio à adoção, em Belo Jardim, no Agreste, Tatiana Valério tem duas meninas: Maria Júlia, 6, e Maria Alice, 4. Ela e o seu marido, o autônomo Marcos Valério, sempre procuraram a forma mais leve de falar com elas sobre o assunto. “A mais velha já entende, mas eu digo à mais nova: mamãe e papai queriam muito outra filha. Um dia, o telefone tocou e era a juíza perguntando: ‘é da casa de Marcos e Tatiana? Tem uma menina aqui esperando vocês’. E nós fomos correndo buscar você!”, conta Tatiana, que sempre põe a sinceridade em primeiro lugar. “Ela está na fase de dizer que saiu da minha barriga, mas sou firme: não, filha; os pais podem ter os filhos ou a­dotá-los e nós adotamos você!”.

Suzana Schettini resume bem toda essa questão: “A adoção é apenas uma outra forma de se chegar à família. Na verdade, to­das as crianças precisam ser a­dotadas para se tornarem filhos, porque a filiação somente acontece através dos vínculos afetivos, ou seja, pela adoção. Assim sendo, todos os filhos precisam ser adotivos, mes­mo os biológicos, ou não serão filhos de fa­to. Os pais que não adotam as suas crianças afetivamente, são apenas genitores”. 



domingo, 9 de dezembro de 2012

Propaganda de natal sobre adoção da Seara

De fato, quem se prepara, alimenta o desejo de ser mãe, ou o descobre, seja ela na gravidez biológica ou na adotiva, entende que a maternidade é um momento de renascimento, de resignificação da vida, dos valores. E quanto mais a mulher estiver consciente dessas mudanças, desta força, desses significados e simbolismos ela só cresce e amadurece. Parabéns a Seara pela linda propaganda.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Emoção de Homem

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Por Augusto César Maia

O aspecto emocional tem profunda influência sobre o desenvolvimento integral do ser humano, pois este é basicamente um ser emocional. As emoções desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da personalidade e na formação do caráter da criança. Por isso, os pais precisam reconhecer que os afetos de seus filhos são importantes para o desenvolvimento deles. O problema não está nas emoções, ou naquilo que se sente, mas nas experiências de vida que cada um teve ou tem, pois a criança se educa emocionalmente a partir dessas experiências. Nossos atos, comportamento, maneiras de pensar e sentir sofrem influência das experiências que tivemos e temos.

O olhar daqueles que cercam o bebê tem uma extrema importância em seu desenvolvimento emocional. Logo após o nascimento, os pais ensinam por meio de gestos, voz, brinquedos e roupas a que sexo o bebê pertence e quais as emoções a serem expressas em função do mesmo.

Os homens tradicionalmente passam por experiências que lhes desencorajam chorar ou a transparecer emoções. Desde cedo, são ensinados a não se “exporem”, com frases do tipo: “homem que é homem não chora”, “seja homem e pare de chorar”. Essas experiências sinalizam ao menino que revelar emoções é um sinal de fraqueza e que ser homem é ser forte. Afinal, aprendem desde cedo que “macho, que é macho, aguenta tudo firme e não dá um pio”, ou seja, “homem que é homem, suporta tudo calado”.

Contudo, existe uma exceção principal à regra de que os homens não demonstram emoções – a raiva. Os homens aprendem que é certo demonstrar raiva, pois ela é considerada um sinal de força em nossa cultura machista. Um homem pode ficar bravo, nervoso, ou uma fera, e sua atitude será interpretada como “virtudes varonis” em nossa sociedade. Afinal, homem é assim mesmo!

Montserrat Moreno, uma estudiosa contemporânea, assevera que “esta imagem, nós não a fabricamos do nada, mas a construímos a partir dos modelos que a sociedade nos oferece. E é a sociedade e não a biologia ou os genes que determina como devemos ser e nos comportar, quais são nossas possibilidades e nossos limites”. Portanto, todos nascem com a capacidade de sentir emoções. Não obstante, nem todos estão sujeitos às mesmas normas, conceitos familiares e sociais que controlam, modificam e reprimem as emoções de acordo com o sabor sociocultural da época.

Portanto, as emoções devem ser entendidas dentro de um contexto global, como um todo “biopsicossocioespiritual”, que não se desagrega.

Emoções (do latim emovere, “movimentar”, “deslocar”) são, como sua própria etimologia sugere, reações manifestas diante de condições afetivas de intensidade variável que nos mobilizam para algum tipo de ação. Ou seja, as emoções são estados afetivos ou sentimentos que experimentamos quando nossas necessidades são satisfeitas ou frustadas – algo que influencia todos os outros aspectos do nosso comportamento.

Durante o desenvolvimento emocional, de uma forma ideal, deve-se preparar as crianças para serem bem-sucedidas no que se refere a lidar com aspectos frustrantes ou desagradáveis da vida, assim como para poder apreciar os aspectos agradáveis.

As emoções influenciam nosso comportamento de várias formas importantes: podem levar-nos da passividade para um envolvimento ativo; podem dirigir o curso de nossas ações aproximado-nos ou distanciando-nos de nossos objetivos; podem ainda dificultar nossa percepção da realidade, levando-nos a agir inadequadamente.

Ligações emocionais

É uma afirmação óbvia a de que nossas relações interpessoais começam a partir da relação da criança com a pessoa que cuida dela. Inicialmente, esta interação é uma forma de assegurar a sobrevivência, alimentando-a quando tem fome, acalmando-a quando está inquieta, limpando-a quando está suja – uma relação que reforça a dependência da criança.

Por muitos anos, considerou-se que a criança estivesse passivamente envolvida nessas primeiras interações. Atualmente, sabemos que ela desempenha um papel ativo em todas as facetas de sua socialização, determinando de algum modo o que acontece com ela. Por exemplo, inicialmente, o choro da criança é sempre o mesmo, quer ela esteja com fome, sentindo dor ou algum desconforto. Com um mês de idade, identificam-se dois tipos de choro: o de fome e o de dor. Assim, a criança é capaz de comunicar aos que cuidam dela quais são suas necessidades imediatas. Isso significa participação ativa.

Entre o primeiro e segundo meses, dois comportamentos significativos aparecem: o contato olho a olho e o sorriso espontâneo, que marcam o início da ligação emocional da criança com aqueles que a cercam. Parece haver um período crítico entre os 4 e 12 meses de idade, durante o qual essa ligação precisa ser formada. Se for negada à criança a oportunidade de estabelecer um vínculo afetivo com as primeiras pessoas com quem mantém contato, possivelmente sofrerá síndrome de privação afetiva, bem como de depressão anaclítica ou hospitalismo. Esses estados patológicos foram inicialmente identificados por René Spitz, que atribuiu sua causa à privação materna, sofrida durante o período crítico para o estabelecimento da ligação. Pesquisas mais recentes sugerem que tanto a privação sensorial como a materna (ou a da pessoa que dela cuida) contribuem para essas primeiras patologias no desenvolvimento afetivo. Embora os efeitos da privação sensorial e emocional não sejam irreversíveis, como se acreditava, quanto mais tempo a criança sofre essa negligência, mais difícil será superá-la.

Os sentimentos e emoções são forças poderosas para aperfeiçoar e tornar a nossa personalidade mais atraente. Eles dão colorido e variedade à vida. Não são faróis para nos guiar, mas forças poderosas que devem ser dirigidas com sabedoria. Se as emoções forem bem canalizadas pela mente, com expressões e desabafos adequados, poderão ser de grande utilidade para todos. Quando são mal administradas, podem se tornar muito nocivas. Portanto, as ligações emocionais da criança com a mãe e o pai desde cedo são vitais para uma vida saudável.

Augusto César Maia é doutor em Psicologia
[Fonte: Vida e Saúde – Mar 2010, p.47 a 49]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O meu filho precisa mesmo de terapia?

Foi com muita alegria que estreei como colunista do site Indika Bem no dia 28 de novembro de 2012.
O Indika bem é um excelente site, onde reúne especialistas de várias áreas da ciência, filosofia e da vida cotidiana, falando de assuntos importante e de grande interesse.
Confiram o meu primeiro texto.

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Por Cintia Liana Reis de Silva

É muito comum casais procurarem terapia para o filho quando detectam que este apresenta alguns sinais persistentes de dificuldades em casa, na escola ou em outros grupos sociais, porém as teorias científicas psicológicas provam que a criança é um reflexo do que ela vive e das impressões que tem do comportamento de seus pais e até do que não é dito em casa, dos segredos, dos tabus, dos preconceitos, de como interpreta as dificulades cotidianas e sobretudo de como sente o mundo que é apresentado à ela. As crianças sentem tudo e é muito natural emitirem algum tipo de resposta ao mundo, do seu modo particular.

Poderíamos dizer que é desaconselhável e até irresponsável atender em psicoterapia uma criança pequena sem introduzir seus pais num processo de reconhecimento da origem das dificuldades. Seria como trabalhar aquele que está fazendo o favor de comunicar a existência de um desequilíbrio familiar e reintroduzí-lo no ambiente adoecido, que nem os pais se deram conta de que não está fucionando de modo justo. Nesse sentido, os pais devem ser bem orientados e aderirem à proposta do trabalho terapêutico aceitando a necessidade de se questionarem.

Devemos usar aquele que está comunicando o desequilíbrio para deflagrar mais ainda o que é de fato importante trabalhar e, a partir daí, propor o conhecimento das situações conflitantes, os motivos, os padrões, os maus hábitos de todos e caminhar em direção a possíveis mudanças.

É claro que é muito mais difícil olhar para si mesmo e admitir que algo pode não estar indo bem e que o filho está sentindo tudo, para isso é preciso humildade e trabalhar o sentimento de culpa. É difícil admitir que o sistema familiar está desorganizado e desarmonioso, afinal os adultos não querem errar, muito menos com os filhos. Talvez seja mais fácil crer que o problema nasce e acaba no filho que, aos olhos de muitos adultos, é um ser que ainda não aprendeu a viver, que não está acostumado com o mundo ou que é rebelde. É mais simples e mais ingênuo pensar assim e usar essas desculpas para não se enxergar, mas se trata de uma fantasia que não ajuda em nada.

A criança, por menor que seja, é um ser que merece respeito, ser tratada com educação. Ela muitas vezes já indica quem será quando adulto e quais são suas prioridades, vontades e tem senso de direitos. Os adultos precisam aprender a entendê-las, o que estão querendo expressar, e aceitar com humildade que eles podem estar errando. As crianças nascem com intuição, sensibilidade e emoção aguçadas, ao longo do tempo é que se pode ir perdendo tudo isso.

Se deve agir com sabedoria e fazer um diagnóstico dos sistemas em que a criança está inserida, pois ela é um reflexo de como está sentindo o mundo e sobretudo reflete quem são de fato os seus pais, seu lado positivo e negativo. Mesmo que doa, ver a sua própria imagem negativa refletida no filho é uma tarefa importante para a transformação de todos e das futuras gerações, tomar consciência deste processo e mudar. As crianças repetem o que os pais fazem de censurado socialmente e eles brigam com ela, sem ao mínimo terem se dado conta de que eles é que deram o modelo.

Tudo pode mudar quando todos resolvem colaborar e ser sinceros, reconhecendo as dificuldades, sem usar de “culpas”, promovendo mudanças sadias. Afinal, uma vida sã propõe crescimento, inteligência e coragem para enfrentar os limites com verdade. E ter filhos é uma responsabilidade muito séria, que muitas pessoas não se dão conta do tamanho desse doce e forte compromisso, nem mesmo depois de tê-los.

Cintia Liana Reis de Silva é Psicóloga e Psicoterapeuta, Especialista em casal, família e Adoção

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Vantagens do bilinguismo na infância

Mandy Lynne

Criado 20 Novembro 2012. Escrito por guiainfantil.com

Alguns pais consideram que a aprendizagem de um segundo idioma pode representar um freio e inclusive um atraso no desenvolvimento linguístico da criança, ainda que não existam provas concretas a respeito. Uma vez ou outra, a criança poderá confundir alguma palavra entre os dois idiomas, mas esses casos são normais a princípio, principalmente quando os idiomas apresentam palavras semelhantes. No entanto, essas pequenas falhas podem desaparecer com o tempo.

O bilinguismo ajuda a criança aprender outros idiomas

Segundo alguns investigadores, as crianças expostas desde muito cedo a duas línguas, crescem como se tivessem dois seres monolíngues alojados dentro do seu cérebro. Quando dois idiomas estão bem equilibrados, as crianças bilíngues têm vantagem de pensamento sobre crianças monolíngues  o que quer dizer que o bilinguismo tem efeitos positivos na inteligência e em outros aspectos da vida da criança. E que isso não representa nenhum tipo de contaminação linguística nem atraso na aprendizagem. Dizem que é muito melhor a aprendizagem precoce, ou seja, falar com as crianças ambos idiomas desde o seu nascimento, pois permite o domínio completo da língua, ao contrário do que sucede se se ensina a segunda língua a partir dos 3 anos de idade.
 
Outros afirmam que são muitas as vantagens na hora de educar uma criança para que seja bilíngue. Que tudo dependerá da forma que se introduza esse idioma. Não se pode obrigar que a criança o fale. O importante, a princípio, é que a criança ouça sempre e se familiarize com ele pouco a pouco, sem pressas nem obrigações.
 
Outros especialistas, sustentam que as crianças expostas a vários idiomas são mais criativas e desenvolvem melhor as habilidades de resolução de problemas. E além disso, falar um segundo idioma, ainda que seja só durante os primeiros anos de vida da criança, a ajudará a programar os circuitos cerebrais para que lhe seja mais fácil aprender novos idiomas no futuro.
 
Por outro lado, existem alguns científicos que continuam defendendo o atraso do treinamento linguístico e recomendam que a criança aprenda uma segunda língua somente quando tenham suficiente conhecimento da maternal.

Vantagens de ser uma criança bilíngue

  1. Comunicação. A capacidade de comunicação com os pais, familiares, e com mais pessoas quando viajam ou convivem com pessoas estrangeiras. Somando-se a isso, as crianças bilíngues têm duas vezes mais capacidade de ler e escrever, e seu conhecimento é mais amplo pelo seu maior acesso à informação global.
  2. Cultural. O acesso a duas culturas diferentes. À literatura, às histórias, a diferentes comportamentos, tradições, conversações, meios de comunicação, etc.
  3. Conhecimento. Quanto mais conhecimento, mais desenvolvido será o raciocínio de uma criança bilíngue  Através dele, podem ser mais criativos, mais flexíveis, e adquirir uma mente mais aberta ao mundo e aos demais. 
  4. Oportunidade de trabalho. As portas do mercado de trabalho se abrirão e oferecerão mais oportunidades às pessoas bilíngues.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Terapia individual sistemica (e Terapia familiar)

Mandy Lynne

Por Norma Emiliano

O indivíduo sente que está mal e não consegue entender nem superar o estado de paralisação em que se encontra. Percebe que precisa de ajuda, há o desejo de conhecer mais profundamente seus conflitos e caminhar em direção à “felicidade”.

Cada pessoa é única no que diz respeito ao seu temperamento, composição genética, percepções e necessidades. Contudo, a formação da identidade se processa através das interações familiares contínuas. Assim, o sentido que cada pessoa  atribui  à  vida, à  família, aos  relacionamentos, às  suas  expectativas, bem  como  à  sua auto-estima  estão relacionados à sua família.  O ser humano nem sempre tem consciência disto.

A Terapia Sistêmica em sua origem dirigia-se exclusivamente ao atendimento de famílias. Ao longo do tempo, com desenvolvimento teórico, técnico e clínico, a abordagem sistêmica foi se reestruturando para atender clinicamente o sistema individual.

No atendimento individual, as  histórias  familiares  fornecem o nexo dos  fenômenos e constituem  os  recursos terapêuticos. “O espelho familiar vai circulando através das diferentes gerações de uma família, constituindo-se em elo entre passado e futuro.” (Gomel).  Desta forma, parte-se de algo que é “interno” para o indivíduo e o relaciona com algo que acontece entre as pessoas. “Forças  transgeracionais  exercem uma influência crítica  sobre  as  relações intimas atuais.” (Framo).  Consideram-se todas as informações levando-se em conta três gerações da família.

O foco da terapia é favorecer o auto conhecimento e possibilitar a descoberta de saídas para o impasse em que o indivíduo se encontra (processo de autonomia e mudanças de pautas disfuncionais).

A reconstrução das histórias, a analise e definição dos padrões relacionais repetitivos, possibilitam uma visão mais ampla  do  problema  podendo  trazer à consciência fatores  que  permitam  a  elaboração  de  conflitos, perdão, resignificação de atitudes, etc.

São fundamentais o desejo de mudança e a disponibilidade  do  indivíduo, assim como, que  o  vínculo  terapêutico favoreça o processo de mudança e ajude-o a se “diferenciar”, ou seja: ter capacidade de manter separados os sistemas emocionais dos intelectuais, usar mais a razão do que os sentimentos.

As intervenções consideram as  relações  entre o indivíduo  e  os outros  e  dele consigo mesmo.  Trabalha-se com a identidade pessoal e a identidade familiar nas vertentes do pertencer e do diferenciar-se, ajudando o indivíduo a sair da massa indiferenciada da família e a poder construir seu caminho, reconhecendo outras possibilidades.

A separação  da  família  de origem  é  um  processo  gradativo  e  que  não  se  esgota.  A Terapia individual sistêmica, agregando ou não, os diversos membros familiares, é indicada quando é o indivíduo busca a terapia com objetivo de desenvolver consciência do seu padrão de funcionamento e deseja adquirir  aprendizagens  que  são necessárias no momento, ou de realizar as mudanças que se fizerem necessárias.

Referência bibliográfica
Framo J.L.(2002). Uma abordagem transgeracional à terapia de casal, à terapia de família famíliar e a terapia individidual. In M. Andolfi (org.)

Fonte: http://pensandoemfamilia.com.br/blog/terapia-de-familia/terapia-individual-sistemica/

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Uma das mais belas historinhas sobre adoção

Esta é uma linda história para usar no processo de revelação e explicação da adoção ao filho pequeno:
 
Many Lynne
 
Achei uma mamãe!
 
Há um certo tempo atrás, lá no céu, viviam muitas criancinhas correndo e brincando sem parar. E todos eram muito, mas muito felizes.

No meio daquelas crianças havia uma menina muito bonita, inteligente e esperta que percebeu que muitos de seus amiguinhos desapareciam assim, de repente, enquanto brincava com eles e sem se saber o por quê.

Então ela, que era muito inteligente, foi conversar com o "Papai do Céu" para saber o que estava acontecendo. Aproximou-se Dele e disse:
- Papai do Céu?
- Sim, minha filha.
- Por quê meus amiguinhos desaparecem no ar quando eu estou brincando com eles?
- Eles não desaparecem, minha filha. Respondeu o Papai do Céu. Eles estão indo nascer lá embaixo na Terra. Eles desaparecem aqui, mas aparecem lá.
- Então, perguntou a menina, por quê eu ainda não fui nascer lá na Terra?
- Porque Eu estou escolhendo uma mamãe e um papai para você.

A menina pensou naquelas palavras e decidiu fazer um pedido.
- Posso escolher minha mamãe e meu papai? Posso? Insistiu a menina.

Papai do Céu coçou sua longa barba branca, pensou e depois de algum tempo resmungou:
- Isso nunca foi feito. Eu sempre faço a escolha. Mas como você mostrou que é muito inteligente Eu vou deixar você escolher.

A menina saiu correndo muito feliz da sua vida e, naquele mesmo dia, passou a olhar aqui para a terra tentando escolher sua mamãe e seu papai.
Ela olhava, olhava, olhava, mas achava difícil escolher no meio de tanta gente.

Os dias foram passando até que num dado instante ela conseguiu ver uma mulher rezando aqui na terra dizendo assim:
- Papai do Céu, manda uma filhinha para mim. Eu sei que minha barriga não cresce mas manda mesmo assim. Eu vou amá-la com toda a foça do meu coração. Ela vai ser minha filha do coração e eu e meu marido seremos seu papai e mamãe do coração. Por favor Papai do Céu...

A menina ao ouvir aquelas palavras foi correndo para o Papai do Céu contar a grande novidade:
- Papai do Céu? Achei! Achei uma mamãe e um papai para mim.
Vem ver, vem ver!

A menina mostrou a mulher aqui embaixo na terra para o Papai do Céu que, depois de olhar disse:
- Minha filha, aquela mulher não pode ser sua mamãe. A barriga dela não cresce e você sabe que as crianças só nascem lá na terra se a barriga da mamãe crescer.
- Eu sei, mas eu quero ela, eu quero! O Senhor pode fazer qualquer coisa e eu quero ser Filha do Coração daquela mamãe.

A menina gritava e chorava, e mais uma vez Papai do Céu pensou e respondeu:
- Tá bom! Então vou fazer você nascer da barriga de uma outra mamãe e vou avisar sua mamãe do coração para ir te buscar.

E assim foi. Ao mesmo tempo que a menina nasceu de uma outra barriga, Papai do Céu fez a mamãe do coração dormir e sonhar. Neste sonho, Papai do Céu mostrou como era a menina e onde ela deveria buscá-la.

Ao acordar, a mamãe do coração ficou tão feliz que chamou seu marido e juntos foram buscar a menina.

Eles viajaram bastante até chegarem a uma cidade distante. Lá começaram a procurar pelo lugar onde estava a menina. Depois de muito tempo e já cansados de procurar, os dois resolveram descansar em um banco de jardim. Assim que sentaram e olharam para a frente, lá estava ela. Era a casa que o "Papai do Céu" havia mostrado no sonho e onde estava a "filhinha do Coração." Rapidamente correram para lá e entraram.

Dentro da casa havia muitos bebezinhos, cada um em sua caminha dormindo.

A mamãe do coração olhava todos eles mas não encontrava a sua filhinha.

Após olhar todos eles, a mamãe do coração, quase desistindo, viu que ainda tinha um bercinho com um bebê todo coberto e enrolado em um lençol.

Toda emocionada, ela se aproximou e puxou o lençol. Pode ver, então, o rosto da menina.

Sim, era ela, a menina que ela tinha visto no sonho.

Imediatamente ela a pegou no colo, abraçou-a e chorou de tanta felicidade.

E assim todos juntos, papai, mamãe e filha do coração voltaram para casa onde foram felizes para sempre!..."
 
(Autor desconhecido)

domingo, 11 de novembro de 2012

Gravidez: o que acontece quando a barriga não cresce!


Por Cláudia Gimenes

Quando eu falo a palavra gravidez o que vem à mente de quem lê: uma mulher com uma barriga enorme!
Sempre relacionamos palavras a imagens, entretanto as palavras nem sempre relacionam exatamente a apenas uma imagem. A palavra 'banco', por exemplo, sem nenhuma outra referência pode remeter a um banco de jardim embaixo de uma árvore numa praça ou a um banco financeiro. A imagem vai depender do foco de quem está lendo certo? Nem sempre!

Com a palavra gravidez é assim: você lê a palavra e a imagem é de uma mulher barriguda. Não tem como fugir disso, entretanto se falarmos em esperar um filho a figura associada muda? Para a maioria das pessoas não!
Quando eu digo que estou esperando mais um filho as pessoas me perguntam de quantos meses eu estou. Se eu falo que são, aproximadamente, 48 meses as pessoas mudam de assunto. Não sei, mas acham que estou debochando, entretanto eu estou esperando outro filho há aproximadamente 48 meses mesmo!

A sociedade ainda não assimilou o sentido de esperar um filho, de estar grávida do coração. Por conta disso podemos esperar nossos filhos por 3, 4, 5, 10 anos e quando eles chegam é como se tivessem aparecido por encanto, assim 'do nada'.

Vamos fazer uma analogia: gravidez biológica x gravidez do coração.
Na gravidez biológica a barriga cresce e, via de regra, dura 9 meses ou 42 semanas! Todo mundo participa, compartilha da felicidade da futura mãe, ansia pelo momento de ver a carinha do bebê, sonha com o momento de poder visitar, planeja presentes e tal. Essa é a parte social: amigos, parentes, colegas de trabalho, vizinhos, todos se envolvem com a barriga, todo mundo sempre tem algo positivo ou alguma recomendação para dar sobre o bebê e isso é legal, afinal de contas uma nova vida que chega é sempre motivo de festa. Como diz a famosa marca de fraldas: é um pequeno milagre que vem ao mundo!

A mulher grávida fica sensível pela mudança hormonal e também pela mudança real que terá em sua vida e família em poucos meses. Terá uma pessoa a mais em casa, uma pessoa totalmente dependente dela e ela passará a ter que zelar pela saúde e bem estar desta pessoa! A mulher grávida sente felicidade por estar grávida, mas conforme a barriga vai crescendo ela sente ansiedade, medos dos mais variados, tem sonhos sobre como será o seu bebê, que carinha vai ter. Tem fantasmas que povoam sua mente: como será quando chegar o momento? vai dar tudo certo? o médico estará disponível?, o hospital terá estrutura suficiente se o bebê tiver algum problema?, ele terá saúde?, terá todos os dedinhos? e se não chorar na hora que nascer? e se não me mostrarem e depois trocarem meu bebê? e se depois que chegar em casa eu não souber cuidar? e se eu não  conseguir amamentar? e se o leite for fraco? e se...e se...e se? Na cabeça de uma gestante, por mais que ela se cerque de todas as garantias e tenha certeza que está tudo certo passam todas essas perguntas e muitas outras mais.

Na gravidez do coração a barriga não cresce, o tempo de espera é indeterminado, praticamente ninguém participa da felicidade da futura mãe, pouquíssima gente se lembra que ali naquela família em algum momento vai haver uma criança nova para ser visitada. Colegas de trabalho, vizinhos, amigos e conhecidos: quase ninguém se envolve com a mãe na espera e mesmo assim, como diz a famosa marca de fraldas, este filho, assim como o biológico, é um pequeno milagre que vem ao mundo!

A grávida do coração  fica sensível também. Para ela não existem mudanças hormonais, mas as mudanças emocionais são tais e quais as da grávida biológica:  ela sabe que terá uma pessoa a mais em casa, uma pessoa totalmente dependente dela e ela passará a ter que zelar pela saúde e bem estar desta pessoa! A mulher grávida do coração sente felicidade por estar esperando um filho, e mesmo sem barriga crescendo ela sente ansiedade e medos dos mais variados, tem sonhos sobre como será o seu filho que pode não ser um bebê, tenta imaginar que carinha vai ter. Tem fantasmas que povoam sua mente, também: como será quando chegar o momento? vai dar tudo certo? o fórum ai demorar para ligar?, o abrigo estará cuidando bem da criança?, será perfeitinho? e se não gostar de mim?, e se depois que chegar em casa eu não souber cuidar? e se eu não  conseguir alimentar? e se...e se...e se? Na cabeça de uma grávida do coração, por mais que ela se cerque de todas as garantias e tenha certeza que está tudo certo passam todas essas perguntas e muitas outras mais. 

É possível perceber que existe uma diferença fisiológica grande entre a grávida biológica e a grávida do coração, entretanto na parte emocional não é muito diferente, salvo algumas peculiaridades inerentes a um estado e a outro.
Mesmo para se engravidar, seja biologicamente, seja do coração existem alguns caminhos muitos semelhantes:
- grávida biológica antes planeja o filho, para com o contraceptivo, engravida e espera.
- grávida do coração antes planeja o filho, preenche um monte de papéis, entrega no fórum e passa por processo de avaliação (fase de parar os contraceptivos e engravidar!), se habilita (engravida!) e espera.

Se por um lado na parte emocional não existe muita diferença, na parte social existe um abismo!
Uma grávida do coração não ganha um filho 'do nada'! Ela faz uma espécie de pré-natal no fórum que não é para garantir a saúde da criança e um bom parto, mas sim para terem a certeza de que ela tem saúde física e mental para ter a criança. Ela passa por uma espera tão angustiante quanto a da grávida biológica entretanto a espera dela tem prazo para começar e não tem prazo para terminar.
A grávida do coração não recebe paparicos, salvo excessões não ganha mimos para o filho e não tem muito direito de falar sobre suas ansiedades sob pena de ser taxada de obsessiva e só falar nesse assunto. Isso na melhor das hipóteses, porque se para a grávida biológica todo munto tem algo positivo para falar sobre o filho vindouro, para a grávida do coração boa parte dos conselhos são temerários!
A grávida biológica pode reduzir seu grau de ansiedade descobrindo o sexo do bebê para fazer o enxoval e o quarto, a grávida do coração sequer pode fazer enxoval a menos que tenha um perfil muito restrito, o que aumenta muito sua ansiedade.

Com essa analogia quero orientar o seguinte:
1. quando souber que uma pessoa está esperando para adotar, lembre-se que a barriga não está crescendo, mas esta pessoa está grávida emocionalmente tanto quanto uma que carrega o filho na barriga;
2. O filho recém-chegado de uma mãe do coração não surgiu 'do nada'! Ela possivelmente esperou muito mais tempo do que uma gravidez biológica regulamentar;
3. Toda grávida precisa de atenção com relação à sua espera e com a grávida do coração não é diferente.
4. A grávida do coração não é obsessiva, ela tem um grau de ansiedade um pouco maior porque sua espera é um pouco maior também;
5. Quando uma pessoa opta pela adoção ela está envolvida com a chegada de um filho e é crueldade com o seu emocional discursos preconceituosos sobre a origem da criança e seu possível futuro tenebroso. Ninguém cogita com uma grávida biológica que o filho dela pode vir a ser um marginal, um bandido, que possa matar toda a família num acesso de revolta ou de ingratidão e ninguém tem garantias que isso não vá acontecer com um biológico, nem tampouco que vá acontecer com um adotivo!

 
Eu tive 3 filhos por adoção e me senti muito, mas muito sozinha durante a espera. Não pretendo entrar em detalhes a respeito, até porque a analogia por si já diz tudo, entretanto quero deixar aqui um depoimento:
Nesta última espera vivi uma grande emoção há alguns dias: uma pessoa muito querida fez um presente para minha filha que ainda é projeto.
Saber que ela fez o mimo especialmente para minha filha e que me entregou assim, sem ter um motivo como chá de bebê ou a chegada dela foi uma sensação indescritível. Já tem um tempinho e ainda me emociono com o carinho!  Vem à minha mente como esse ditado é verdadeiro: quem beija meu filho minha boca adoça.
Esta pessoa já é alguém por quem eu nutro carinho muito especial e tanto o mimo como ver os olhos dela brilhando quando falou de sua ansiedade pela chegada da minha filha certamente fez com que esse carinho especial se multiplicasse muito mais.
Um gesto que para mim significou muito e que de certa forma amenizou todas as tristezas, mágoas e lágrimas de todas as vezes que me senti sozinha na espera pelos outros filhos!
Saber que tem alguém que sonha comigo a chegada dessa criança foi algo muito bom de experimentar!

Fonte: http://www.adocaoamorverdadeiro.blogspot.it/2012/10/gravidez-o-que-acontece-quando-barriga.html