"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Bonito é ter coragem pra fazer diferente!

Foto: Jolie com Brad Pitt e dois de seus filhos


Foto: Revista Caras, Paulo Borges, Diretor do SP Fashion Week, e seu filho Henrique, adotado em Salvador-BA


Foto: Cintia Liana com mãe e filho, Tereza e Gabriel

Foto: Cintia Liana com mãe e filha, Silvana e Mariana

 
Foto: Madonna com seus filhos

Foto: Família Jolie

Por Cintia Liana Reis de Silva

Adoção interracial é um tema importante. É precisamos entender que para ser e se sentir família não temos que ser como aquelas famílias da propaganda da Coca-Cola, onde sempre todos os membros são fisicamente iguais, se vestem da mesma forma e se comportam da mesma maneira. O sentimento de pertencimento parte da intenção, do amor e do acolhimento e passa bem longe de ter que ser igual. Essa ideia de padrão, herança física, nome igual ao pai, vem de um ideal patriarcal, capitalista e altamente ultrapassado. Cafona mesmo!

Quem tem filhos fisicamente diferentes sabe do que eu falo. O significado da relação é maior que qualquer detalhe relacionado a cor de pele, olhos, cabelos, altura, peso, idade ou até idioma.

Claro que ser parecida com a família pode tornar as coisas um pouco mais fáceis para a criança e até para os adultos que não estão acostumados a lidar com as exigências desta sociedade preconceituosa e que não aceita o diferente como natural. Mas não devemos nos curvar ao preconceito, devemos enfrentá-lo! Não deixem de adotar uma criança negra só porque você é branco ou uma criança branca só porque você é negro. Faça diferente mesmo! Ensine! Tenha coragem! O amor supera todas as diferenças!

Eu li num blog o seguinte:
"Não se trata de preconceito, mas eu considero que assim fica mais fácil para a criança integrar-se ao novo lar, e evitam-se perguntas embaraçosas no futuro, pois nem sempre a criança sente-se confortável para falar do assunto, principalmente com estranhos. Se eu adotasse uma criança oriental, por exemplo, ela teria que responder a perguntas indiscretas para o resto da vida e não sei até que ponto isso a colocaria numa posição desconfortável ao aproximar-se de estranhos ou em sua vida social.
Imagino que crianças muito diferentes dos outros membros da família podem desenvolver sentimentos de 'um estranho no ninho'. Acho que fiz a escolha certa, porque quando eu mostro a foto de meus 5 filhos, às vezes digo que um deles é adotivo e peço para a pessoa identificá-lo. Até hoje ninguém acertou."

Com todo o respeito, mas o preconceito começa da frase "não se trata de preconceito". O que é preconceito? É o que a gente "acha".
Temos que deixar crianças esperando por uma adoção que pode demorar muito ou nunca chegar só porque ela tem a cor de pele diferente da sua ou porque vai ser difícil explicar alguma coisa aos outros? Por que explicar é tão importante?

Perguntemos às crianças se elas preferem ter uma família agora ou esperar mais tempo ou a vida toda para encontrar uma família parecida com elas? Certamente iram responder: "eu quero ter um pai e/ou uma mãe, não importa sua aparência física".
O que é a cor de pele perto da necessidade vital, psicológica, existencial de ter uma família, amparo, amor, base, segurança?

Será que teremos que adotar somente crianças iguais à nossa família, só para ser mais fácil explicar aos outros depois? Por que temos que responder à essas perguntas? Não respondamos então! Eduquemos com o não, com o silêncio. Ou então falemos da adoção, ensinemos com a verdade. Não importa os outros. O que importa é aquela criança que te viu e desejou que você fosse mãe dela, aquela que está à sua espera e não exige nada de você, só amor e cuidados parentais. Ela não quer que você seja rico, branco, negro, tenha carro, nada! Ela só quer poder se sentir pertencente. Só!

Não podemos nos dar ao luxo de negar adoções só porque a cor de pele entre as pessoas é diferente. Os abrigos estão cheios e essa diferença não compromete a relação!

Tem que ter muita coragem, preparo, amadurecimento e se permitir se livrar de preconceitos para adotar um filho diferente de nós, então vamos amadurecer? Porque as crianças que esperam por vocês desejam só isso, amadurecimento, mas você está numa grande fila de adoção, esperando por um bebê branco, recém nascido, do sexo feminino e imaginando que ele não traga nenhuma lembrança de sua vida anterior. Ilusão, o bebê já traz lembranças intrauterinas e isso não faz de ninguém merecedor do abandono por maiores que sejam essas lembranças. A criança não é um produto com valor de compra e venda que corre o risco de vir com defeito.

Enquanto você espera um, dois, três, quatro anos na filha de adoção, outras pessoas já estão se realizando com seus lindos e reais filhos, porque não é só aquele bebê que vai te fazer se sentir pai e mãe. Quem faz isso é o filho e filho não tem perfil certo, basta ter um coração.

Não é preciso ser casado e heterossexual para adotar, nem é preciso ser Madonna, nem Angelina Jolie e Brad Pitt, Juca Chaves, Paulo Borges e Marcelo Antony para realizarem adoções interraciais e de crianças maiores. Existem pessoas perto de nós que fizeram isso e são muito felizes, ensinando aos outros que não tiveram a coragem de iniciar.

Não importa se é Jolie ou Madonna, bonito é ter coragem para ensinar e andar de cabeça erguida, começar um movimento mesmo correndo o risco de parecer louco aos olhos de quem não entende, fazer algo diferente porque acredita na alma daquilo, enfrentar os preconceitos por acreditar no ideal. Bonito é acreditar em si mesmo e em sua ação consciente, onde o amor sempre prevalece.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia conjugal e familiar e adoção. É autora do livro "Filhos da Esperança" e dos blogs http://www.psicologiaeadocao.blogspot.com/ e http://www.finapresenca.blogspot.com/. Ela vive na Itália, onde trabalha com adoção internacional.

Foto: Família Jolie. Famíia colorida. E viva a diversidade!

Por Cintia Liana

Livro da Psicóloga Cintia Liana sobre o percurso de construção da família através da adoção e seus aspectos psicológicos.
Para comprar ou visualizar:
http://www.agbook.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca
(2ª Edição - 2012)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Adoção "Tardia"


A expressão adoção "tardia" é vulgarmente utilizada para identificar adoções de crianças crescidas, maiores, mais velhas, após os 3 anos de idade. Crianças que uma parte de sua infância foi vivenciada em companhia da família natural, de terceiros ou em um abrigo.

O nome adoção "tardia" não é bem recebido por especialistas, pois o termo não é adequado.
Partindo do principio de que, nunca é tarde para ter um pai e/ou uma mãe, ter uma família, e que todas as crianças têm o direito a estar inseridas num grupo familiar harmonioso, a expressão é totalmente equivocada e discriminatória.
Adotar uma criança mais velha traz alguns medos acompanhados de preconceitos, fantasias e influências de pessoas que não estão vivenciando a adoção como os pleiteantes à ela.
Ao contrário de muitas expectativas, as chances da uma adoção de uma criança maior dar certo são muito grandes, pois elas têm consciência do que querem, já sabem que não têm o vínculo biológico com o adotante, sendo desnecessário o medo da revelação e são crianças que anseiam por uma família e pelo amor dos futuros pais tão sonhados.
Elas são tão áviadas pela vida em família que muitas nos primeiros dias de convivência abandonam velhos hábitos da instituição (que não necessariamente ruins) e adotam novos. Elas passam a imitar os novos pais, reconhecendo-os rapidamente como tais.
A frase que mais ouvia na avaliação psicológica na Vara de Infância nos anos de 2004, 2005 e 2006 era: "quero adotar um bebê, pois eu já vou colocando do meu jeito, moldando..."
Isso é um absurdo! Quem lhe garante que seu filho biológico será como você deseja? Quem lhe garante que seu filho adotado bebê te aceitará plenamente? Ninguém! Ainda bem! Ninguém tem que ser moldado ou achar que alguém está completamente certo e é perfeito. Temos que respeitar e valorizar nossas diferenças, sejamos biológicos ou adotivos. Amamos as pessoas por suas particularidades também, por serem únicas e especiais e não por que são como nós. Ninguém é igual, por mais que queiramos.

Os candidatos à adoção também têm que ser moldados? Não? Por que? Porque são adultos? E os adultos são perfeitos?

Esquecemos que a criança tem que ter muito peito para enfrentar dois seres adultos, que querem adotá-la e depositam muitas vezes, mesmo que inconscientemente, um milhão de expectativas nela.

[A foto ilustrativa é perfeita neste caso, todos olhando desconfiados para ela]

Foto: Google Imagens

Em 2007 e 2008 essa frase ficou menos repetida em minha jornada dária. Ainda bem! Sinal de que as coisas mudam e as pessoas vão tomando consciência.

Muitas vezes, mergulhar no universo dolorido do filho adotivo e tornar-se cúmplice de suas dores aproxima mais ainda e torna a relação de amor cada vez mais forte. Lembre você está adotando um ser humano e não comprando um sabão em pó.
Se você conhece um caso de adoção de uma criança maior mal sucedida, eu conheço de perto mais de dois mil casos muito bem sucedidos.

Por Cintia Liana