"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sexta-feira, 4 de março de 2016

Não julgue as mães. Não julgue as mães. Não julgue as mães.

RITA LISAUSKAS
01 Março 2016 | 11:54

Você não sabe nada, nada, nada sobre a vida delas

Meu filho nunca deu trabalho, não é daquelas crianças que se jogam no chão e começam a espernear no supermercado, nunca respondeu atravessado e não me faz passar vergonha. Até um dia. Mais especificamente o dia em que era comemorado o ano novo chinês de 2015.
Eu, minha irmã e ele fomos à festa na Liberdade, centro de São Paulo. Pegamos metrô e não tínhamos noção da multidão que iríamos encontrar. Era surreal. Filhote no colo porque no chão seria pisoteado, filas impraticáveis para comer e uma criança que, em poucos minutos, ficou muito, muito estressada.
Conseguimos nos abrigar em uma daquelas inúmeras galerias do bairro para relaxar e em poucos minutos fugir dali. De repente, entramos em uma lojinha de cacarecos orientais e uma vendedora, muito simpática, disse que me conhecia da televisão, onde sempre trabalhei. Como um gatilho sacana que parece ser disparado apenas quando alguém conhece você, meu filho começou a chorar. Copiosamente. Ele tinha pedido à minha irmã, madrinha dele, que comprasse um videogame que estava exposto na prateleira da loja. Ela disse que não, que a compra de um videogame não era uma decisão tomada assim de uma hora para outra. O choro histérico que até então nunca tinha acontecido é algo do qual nós, mães, nunca estamos livres. Nenhuma de nós. (Alerta de spoiler: você que ainda não é mãe e tem cer-te-za que isso não vai acontecer com você porque, imagina, você vai educar bem seu filho, fique esperta, acontece com todas nós.) Quando abaixei para conversar com meu filho e dizer que se ele queria tanto um videogame a gente ia se planejar e comprar em uma data especial ouvi a dona da loja comentar com minha irmã e para quem quisesse ouvir: Essas crianças de hoje são tão mimadas, né? Culpa das mães que dão tudo a elas e que não sabem dizer não.
Olhei com cara de ódio para a mulher, peguei meu filho no colo, já mais calmo, e saí de lá. Ela não me conhecia, nunca me viu na vida. Como podia julgar minha maternagem? De onde ela tirou que eu não sei falar “não” para o meu filho? Eu não tinha acabado de dizer um NÃO bem grande à compra do tal videogame?
Lembrei disso porque hoje li o desabafo de uma mãe cujo filho teve um ataque histérico em uma piscina de bolinhas de um shopping do Recife. O garoto tem TDO, Transtorno Opositor Desafiador, associado à paralisia cerebral. A mãe, contudo, não quer que o filho, que faz diversas terapias e toma remédios, deixe de interagir com o mundo ao seu redor. Na hora de sair do brinquedo o menino não quis e teve uma crise . “Ele berrava, esperneando no chão, enquanto as pessoas me olhavam com ar de reprovação. Esses não me incomodam. Já estou acostumada a esses olhares. Quando optei, lá no passado, de não privar meu filho da vida por conta das limitações dele, tive que aprender a conviver com os olhares e as críticas. Não é nada fácil ser mãe, trata-se de um diário salto no abismo do acerto e do erro”, contou.
A mãe levou o filho ao banheiro do shopping para tentar acalmá-lo. O que se sucedeu aí foi uma sequência lamentável de acontecimentos. As pessoas começaram a bater na porta do banheiro, mesmo ela pedindo para que deixassem ela tranquilizar o filho, que estava no meio de uma crise histérica.
“Vieram duas seguranças e me pediram para acompanhá-las. Quando sai do banheiro havia uma pequena multidão. Nos cercaram, a mim e ao meu filho. Me agrediram verbalmente, botaram dedos na minha cara, me acusando de estar espancando o menino. ‘Ele está cheio de hematomas’, um homem disse puxando o braço do me filho e tirando fotos minhas e dele. ‘Tire as mãos do meu filho, pare de fotografar ele, caso contrário eu processo você’, falei. Então o homem começou a me ofender, dizendo que eu não era mãe, dizendo que ele ficasse ‘tranquilo’ porque eu seria presa, e meu filho começou a chorar novamente, perguntando “minha mãe vai ser presa?”. A essa altura, minha mãe, uma senhora de 85 anos que esperava sentada na entrada do banheiro, veio ver o que era a confusão. E era comigo! Ela tentava explicar que os hematomas do menino são das quedas constantes. ‘Ele cai muito, faz parte do problema dele’, falava. Mas o homem – o mesmo das fotos – estava revoltado. Afirmava que ia postar fotos nas redes sociais me acusando de espancar o meu filho. Na hora o alertei que o uso indevido de imagem, bem como calúnia e difamação na internet, são crimes. E informei: “também vou fazer fotos suas, assim quando você postar as minhas terei como mandar a polícia atrás de você”. Foi aí que ele me ameaçou, disse que iria me bater. Peguei meu celular e comecei a fotografá-lo e quando viu que eu estava tirando fotos dele, desferiu um golpe. Não me acertou, mas ainda senti o ‘ventinho’. Tudo isso sob os olhares do meu filho especial de 7 anos e minha mãe, uma idosa de 85. Fui ao SAC, onde – orientada por minha amiga advogada – registrei uma ocorrência sobre o assunto. Fiquei lá por quase duas horas tentando me acalmar. Solicitei as imagens das câmeras de segurança, mas fui informada que apenas com ordem judicial. Durante as duas horas que fiquei chorando no SAC, me sentindo humilhada e impotente, lembrava da mulher que foi apedrejada até a morte no sul do País porque o ‘tribunal de rua’ achou que ela era uma suposta sequestradora de crianças. As pessoas hoje se acham detentoras da moral, da justiça e da comunicação – com seus celulares em punho e contas em redes sociais, julgando e condenando quem quer que passe pela frente.”
Antes apenas éramos julgadas em silêncio, no máximo ouvíamos cochichos de maledicência de vizinhos e conhecidos. Hoje, podemos ser apedrejadas em praça pública ou termos nossa imagem e intimidade devassadas e destruídas nas redes sociais. Foi o que quase aconteceu com essa mãe, que terminou assim seu desabafo:
“Estou contando isso aqui como um alerta, até para mim mesma. Não gosto de me expor e, muito menos, expor meu filho. Mas eu precisava fazer isso para dar esse toque mágico: não julgar. Não julgue. Não JULGUE. NÃO julgue. NÃO JULGUE!!!
Não sei o dano que isso vai deixar no meu filho. Na verdade ainda nem sei que dano vai deixar em mim. O que eu quero hoje é dormir tranquila, abraçada com ele, para que se sinta como sempre se sente comigo: protegido. Mas acho que hoje, e durante um bom tempo, ele é que vai fazer isso por mim. Vou me reconstruir no amor dele. Fé em Deus e bola pra frente.”

Em vez de julgar e fotografar (!?), coloque-se no lugar do outro. E se isso não for possível, ofereça ajuda. Não seria lindo que se em vez de dedos apontados alguém tivesse oferecido um copo de água ou abraço a essa mãe, por exemplo? Se alguém tivesse realmente se importado com tudo isso saberia que essa mulher tem vários empregos para poder oferecer todas as terapias que o filho precisa. Que se não fosse a dedicação dela, ele nunca teria saído da cama e estaria se divertindo em uma piscina de bolinhas.  Que o pai dele até paga pensão, mas não quer saber do menino.
Não julgue. Não julgue. Não julgue. Repita isso dez vezes por dia, todos os dias de sua vida.
Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/nao-julgue-as-maes-nao-julgue-as-maes-nao-julgue-as-maes/

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Para se tornar mãe nos dias de hoje

Indika Bem

Por Cintia Liana Reis de Silva
(Publicado dia 27.02.14 no Portal Indika Bem)
Na nossa cultura de hoje é duro se tornar mãe e mais duro ainda nascer. Querem acabar de vez com a natureza selvagem dos indivíduos, com o que ela tem de bom. Acabar com o parto natural, com a amamentação, com o contato livre e intenso entre mãe e bebê. Inconscientemente, as necessidades do recém nascido estão se tornando uma espécie de alergia social em prol do “não perder tempo”, do diminuir os custos nos hospitais, para que a indústria do leite artificial e farmacêutica não se enfraqueçam, para que as mulheres voltem a trabalhar mais cedo, etc.
Uma parte da literatura está sendo manipulada e a cultura popular quer ensinar imediatamente à nova mãe que o seu filho já deve nascer independente. Se eu disser aqui que os bebês, ao nascer, deveriam dormir junto ao corpo da mãe (não no meio do casal, mas ao lado da mãe), muitas pessoas vão pensar duas vezes se é verdade e se, de fato, traria benefícios aos dois, porque foram ensinadas que isso faz mal. Mas será que a bendita frase do conselho de não dormir junto com o filho nasceu do medo de que os pais fizessem sexo ao lado dele? Muito provavelmente. Nenhum estudo mostra que alguém fique mais dependente na fase adulta por ter dormido os dois primeiros anos de vida com a mãe. Ao contrário, estar em contato com o corpo da mãe a faz produzir muito mais leite e esse contato seguro dará uma bela base para que a criança cresça segura dessa relação intensamente íntima, que deve ser plenamente alimentada ao menos até os dois anos de idade, depois a criança naturalmente ganha mais autonomia psicológica e física. Tudo o que é saciado na infância dá mais força ao futuro adulto.
A mulher, que se prepara para ser mãe (os pais precisam se preparar emocionalmente), deve estar muito lúcida e segura de que precisa dar mais ouvidos à sua intuição, ao que diz a sua alma humana de mulher. Ela deva esquecer os conselhos disparados compulsivamente por quase todos, pois 99% deles são distorcidos e preconceituosos, advindos da nossa cultura ocidental capitalista. Ela não deve perder tempo com textos e livros de “receitas”, que dizem o que ela deve fazer e os passos a seguir nos cuidados com seu pequeno filho.
A mulher que se prepara para ser mãe, deveria ler o que a faz despertar para os dons da sua alma; o que motiva a sua essência a se iluminar diante de sua cria; o que a faz olhar e aceitar as suas reais necessidades; o que a faz enxergar suas feridas para não usá-las cegamente contra a criança, que a reflete de algum modo; a ver e a querer romper com seus padrões familiares adoecidos; o que a ensina a olhar amorosamente para a sua sombra, a se comunicar com ela para transformá-la em luz; o que a faz mergulhar em si mesma e a reencontra-se mais autêntica do que nunca; a reconhecer o que a faz se sentir magoada e ameaçada; que a fortaleça a ouvir a voz do seu coração e a entrar em contato sem receios com os seus medos e inseguranças; a ouvir o seu potencial criativo e curativo; a confiar em sua capacidade de entrega e doação e que a faça acreditar na força do seu amor, porque tudo o que ela sente, se reflete na psiquê do recém nascido.
Só uma mãe suficientemente fortalecida pelo verdadeiro conhecimento do ser humano, da sua mente e de seu filho, aconselhada por um psicólogo experiente e não por um médico (que só conhece a parte física), se sentindo apoiada pelo seu companheiro e por sua família, respeitada e tratada com afeto no momento do seu parto, momento em que que ela renasce, é que poderá ser capaz de fazer um filho crescer feliz e mentalmente sadio, numa relação límpida, nutritiva, madura e harmoniosa.

Cintia Liana Reis de Silva, psicóloga, especialista em psicologia de casal, família, infância e adoção, seu blog recebe mais de 15.000 visitantes ao mês, o http://www.psicologiaeadocao.blogspot.com.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Quando nasce uma nova mãe

Tumblr

Por Cintia Liana Reis de Silva

Após o parto, a mulher, ao mesmo que tempo que vive um momento especial, feliz, tenso, delicado e se vê por horas perdida tentando se encontrar neste novo cenário em meio ao choro do bebê nas horas em que menos espera, é “obrigada” a continuar a viver dentro das regras sociais, segundo, normalmente, o que esperam as pessoas ao seu redor.

Com o nascimento do filho, a mulher entra num mundo desconhecido, cheio de novas sensações, boas e assustadoras, mas que são reais e naturais. O corpo muda por algumas semanas e até meses e algumas mulheres nem se “reconhecem” mais.
No caso do parto cesário, a cicatriz inicialmente é um símbolo traumático e agressivo, já que é uma intervenção cirúrgica desnecessária, em virtude do parto natural ser o processo gravado nas mais subjetivas células do corpo e nas profundezas da mente como o natural, ainda mais para a mulher que espera parir naturalmente e tem que fazer um parto cesário de urgência por algum motivo.

Subitamente, após o nascimento do filho, sobretudo o primeiro, ocorre uma desestruturação física e emocional onde se perde os instrumentos que se usa para construir a identidade, como o trabalho, o divertimento, o contato social, substituídos pelas solicitações de um novo ser, pequeno e frágil.

A mulher puérpera começa a ver o mundo com “os olhos do bebê“, tem a capacidade de sintonizar-se na mesma frenquência dele, por isso consegue interpretar suas necessidades e, por vezes, sente-se em um outro mundo, está sensível emocionalmente e tem sentimentos confusos. Pode entrar em processos regressivos e estar mais sensível e intuitiva. No puerpério acontece uma abertura no espírito (GUTMAN, 2008).

Nos dias de hoje a mãe, mesmo com todas essas sensações, é obrigada a voltar para o mundo do trabalho como se nada tivesse acontecido, sufocar suas fragilidades e negar a necessidade de estar conectada 100% com o seu bebê. Isso gera um conflito: a profissional que deseja sentir-se a mesma com o trabalho e a mãe que deseja estar com o filho, num mundo onde existem pouquíssimos lugares confortáveis adaptados para os dois. Essa mulher deve aprender muitas coisas novas, incluindo como locomover-se com a criança (GUTMAN, 2008).
A nova mãe, incluindo as adotivas, quando está em meio a pessoas, e seu pequeno filho chora, antes dela poder observá-lo e tentar sentir o que ele necessita já tem duas ou três pessoas opinando e dizendo: “ele deve estar com cólicas!”, “será que está com fome?”, “ele está com sono!”, como se o choro do bebê fosse desconcertante, e é, já que as pessoas se sentem intimamente incomodadas, deixando a mãe agitada e nervosa. Ao invés disso, deveriam aceitar o choro como algo natural e deixá-la tranquila, encarregada de reconhecer e satisfazer as necessidades do bebê.

Com todas essas mudanças e possíveis desorientamentos na vida de um ser humano, ao invés de se disparar conselhos e críticas por toda a parte como se ela não soubesse o que fazer, a mãe puérpera ou a que acabou de adotar, precisa de contenção afetiva, acolhimento, compreensão e aceitação das suas próprias emoções. Os conselhos muitas vezes são inúteis, pois se deve levar em consideração a história emocional e familiar, os modelos intergeracionais de cada mulher, suas necessidades que provém do lugar mais profundo de seus corações, suas fragilidades, dificuldades, medos, resistências em seu ser adulto e infantil e ajudá-la a descobrí-las e não querer moldá-la, julgá-la ou fazer com que se comporte de acordo como espera a sociedade, a mãe ideal e imaginada e, ao mesmo tempo, irreal.
Quem vê de fora não consegue compreender o universo em que essa mulher está imersa e nem entender o mundo daquele pequeno ser que acabou de nascer. Os estudiosos do fenômeno fusional explicam que entre mãe e bebê se estabelecem leis incompreensíveis à lógica racional, mas que são normas para a tranquilidade dos dois (GUTMAN, 2008).
Médicos, familiares, amigos e vizinhos, muitas vezes tentam opinar, interpretar com olhos de “adultos”, pensando que estão ajudando, mas ao contrário disso causam um bruto impacto pessoal, uma sensação de antipatia e falta de respeito para a mulher que está construindo a identidade de mãe. Melhor seria oferecer informações ao outro como indivíduo único e diferenciado e ajudá-la a reconhecer, acolher e aceitar as suas necessidades e a sua intuição. E não impor que a mulher “seja como todo mundo e volte ao normal”, num mundo onde tudo corre na velocidade da luz, mas respeitar o seu novo ritmo, o seu silêncio e que ela acolha do modo que achar mais amoroso o seu filho, aquele novo ser que ela está aprendendo a amar.


Artigo da psicóloga Cintia Liana Reis de Silva publicado no site Indika Bem no dia 07 de março de 2013.
link: http://indikabem.com.br/psicologia/quando-nasce-uma-nova-mae/

GUTMAN, Laura. La maternità y el incuentro con la propria ombra. Buenos Aires: Editorial Del Nuevo Estremo, 2008.