"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 9 de março de 2016

Trinta maneiras de ensinar à crianças noções de consentimento


Por  - BuzzFeed Staff
Achei esse artigo no buzzfeed e, sendo ele de EXTREMA importância, me dei a liberdade de traduzí-lo e postá-lo aqui.
Crianças de 1 a 5 anos
1. Ensine a criança a pedir permissão antes de tocar ou abraçar um amigo. Use frases como “Sarah, vamos perguntar ao Joe se ele gostaria de um abraço de despedida.” Se Joe disser “não” para o pedido, alegremente diga ao seu filho, “Tudo bem, Sarah! Vamos acenar um tchauzinho para Joe e jogar um beijo.”
2. Ajude seu filho a criar empatia explicando como algo que eles fizeram pode ter machucado alguém. Use frases como “Eu sei que você queria aquele brinquedo, mas quando você bateu no Mikey o machucou e o fez se sentir muito triste. E nós não queremos que Mikey fique triste.”
3. Ensine as crianças a ajudar os outros quando estão com problemas. Fale com elas sobre ajudar outras crianças e a avisar adultos confiáveis quando outros precisam de ajuda. Use o animal da família como exemplo: “Oh, parece que o rabo do gatinho está preso! Precisamos ajudá-lo!”
4. Ensine seus filhos que “não” e “pare” são palavras importantes e devem ser honradas. Também ensine-os que seus "não"s devem ser honrados. Explique que assim como devemos sempre parar de fazer algo quando alguém diz “não”, nossos amigos também devem parar quando dizemos “não”.
5. Encoraje a criança a ler expressões faciais e outros sinais corporais: assustado, feliz, triste, frustrado, com raiva e etc. Jogos de charada com expressões são um ótimo jeito de ensinar as crianças a ler linguagem corporal.
6. Nunca force a criança a abraçar, tocar ou beijar qualquer um, por nenhuma razão. Se a vovó está pedindo um beijo e seu filho está resistente, sugira alternativas dizendo coisas como “Você prefere dar um ‘high-five’ na vovó? Ou jogar-lhe um beijo, talvez?” Você pode mais tarde explicar para a vovó o que está fazendo e porque.
7. Sirva de exemplo, pedindo permissão ao seu filho para ajudá-lo a lavar seu corpo. Encare com otimismo e sempre honre o desejo do seu filho de não ser tocado. “Posso lavar suas costas agora? E seus pés? Que tal seu bumbum?” Se a criança disser “não”, então dê a ela a esponja e diga “Ok! Seu bumbum precisa de uma esfregada, faça isso”.
8. Dê às crianças a oportunidade de dizer sim ou não em escolhas do dia-a-dia também. Deixe-as escolher suas roupas e ter opinião sobre o que usar, aonde brincar ou como pentear o cabelo.
9. Permita a criança a falar sobre seus corpos do jeito que quiserem, sem vergonhas. Ensine-os as palavras corretas para as genitálias e se faça de lugar-seguro para eles falarem sobre corpos e sexo. Diga “Estou tão feliz que você me perguntou isso!”. Se você não sabe como responder às suas perguntas do jeito certo, então apenas diga “Estou tão feliz que você está me perguntando sobre isso, mas eu terei que pesquisar. Podemos falar sobre isso depois do jantar?” e tenha certeza de cumprir sua palavra.
10. Fale sobre instintos. Às vezes algumas coisas nos fazem sentir estranho, ou assustado, ou com nojo e nós não sabemos o porquê. Pergunte ao seu filho se isso já aconteceu com eles e ouça atentamente enquanto explicam.
11. “Use suas palavras”. Não responda à birras. Peça ao seu filho para usar palavras, até as mais simples palavras, para explicar-lhe o que está acontecendo.
Crianças de 5 a 12 anos
1. Ensine às crianças que o jeito que seus corpos estão mudando é ótimo, mas às vezes pode ser confuso. O jeito que você fala sobre essas mudanças – tanto a perda de dentes como pelos pubianos – vai mostrar sua boa vontade para falar sobre outros assuntos sensíveis.
2. Encoraje-os a falar sobre o que os faz sentir bem e o que os faz sentir mal. Você gosta de sentir cócegas? Você gosta de se sentir tonto? O que mais? O que te faz sentir mal? Estar doente, talvez? Ou quando outras crianças te machucam? Deixe espaço para seu filho falar sobre qualquer coisa que vier à cabeça.
3. Lembre seu filho que tudo pelo que ele está passando é natural, crescer acontece com todos nós.
4. Ensine seus filhos a usar “palavras seguras” durante a brincadeira e os ajude a negociar o uso de tais palavras com os amigos. Nessa idade, dizer “não” pode ser parte da brincadeira, então eles precisam ter uma palavra que fará parar toda a atividade. Talvez uma bobinha, como “manteiga de amendoim” ou uma séria, como “eu tô falando sério!”. O que funcionar para todos eles está bom.
5. Ensine as crianças a parar sua brincadeira vez ou outra para checar os amiguinhos. Ensine-os a fazer uma pausa às vezes, para ter certeza de que todo mundo está se sentindo bem.
6. Encoraje as crianças a observar a expressão facial alheia durante a brincadeira, para ter certeza de que todos estão felizes.
7. Ajude a criança a interpretar o que ele vê no playground e com amigos. Pergunte-o o que ele pode ou poderia fazer de diferente para ajudá-los.
8. Não encha o saco das crianças pelos seus namoradinhos ou por ter paixonites. Tudo aquilo que eles sentirem é ok. Se a amizade deles com alguém parece ser uma paixonite, não mencione isso. Você pode fazer perguntas diretas, como “Como vai sua amizade com a Sarah?” e esteja preparada para falar – ou não – sobre isso.
9. Ensine às crianças que seus comportamentos afetam os outros. Peça a eles para observarem como as pessoas respondem quando outra pessoa faz barulho ou bagunça e pergunte a eles qual eles acham que será o resultado disso. Alguma outra pessoa vai ter que limpar a sujeira? Alguém vai ficar assustado? Explique às crianças como as escolhas que eles fazem pode afetar os outros e fale sobre quando é hora de fazer barulho e quais são os espaços para se bagunçar.
10. Ensine às crianças a procurar oportunidades para ajudar. Eles podem levar o lixo? Eles podem ficar quietos para não interromper a leitura de alguém no ônibus? Eles podem oferecer ajuda para carregar algo ou segurar a porta para alguém passar? Tudo isso ensina as crianças que eles têm um papel em ajudar a aliviar as cargas tanto literais quanto metafóricas
Adolescentes e jovens adultos
1. Educar sobre o “toque bom/toque ruim” continua crucial, principalmente no ensino médio. Essa é uma idade em que surgem várias “brincadeiras de toque”: bater na bunda, garotos batendo um nos genitais dos outros e beliscando os mamilos um dos outros para causar dor. Quando as crianças falam sobre essas brincadeiras, surge uma tendência onde os garotos explicam que eles acham que as garotas gostam, mas as garotas dizem que não gostam. Temos que fazê-los falar sobre as maneiras que essas brincadeiras impactam as outras pessoas.
2. Levante a autoestima dos adolescentes. No ensino médio, o bullying muda seu alvo para atingir especificamente a identidade, e a autoestima começa a despencar a partir dos treze anos. Aos dezessete anos, 78% das garotas dizem odiar seus próprios corpos. Lembre-os com frequência sobre seus talentos, suas habilidades, sua gentileza, assim como sua aparência. Mesmo se eles lhe responderem com um “Pai! Eu sei!” é sempre bom ouvir esse tipo de coisa.
3. Continue tendo as conversas sobre sexo com o adolescente, mas comece a incorporar informações sobre consentimento. Pergunte coisas como “Como você sabe se seu parceiro está pronto para te beijar?” e “Como você sabe que uma garota (ou garoto) está interessado em você?”. Essa é uma ótima hora para explicar consentimento entusiasticamente, sobre pedir permissão para beijar ou tocar um parceiro. Explique que somente “sim” significa “sim”.
4. Corte a “conversa de vestiário” pela raiz. A adolescência é a idade onde o papo sobre sexo começa em ambientes segregados por gênero, como vestiários ou festas do pijama. Suas paixonites e desejos são normais e saudáveis, mas precisamos mostrar como falar sobre nossas paixões como se elas fossem pessoas inteiras. Se você ouvir um adolescente falar “ela tem um bundão gostoso”, você pode dizer “acho que ela é mais do que uma bunda!”.
5. É comum e perfeitamente normal se sentir oprimido ou confuso com os novos sentimentos hormonais. Diga às suas crianças que não importa o que sentirem, eles podem falar com você sobre isso. Mas seus sentimentos, desejos e necessidades não são responsabilidade de ninguém além deles mesmos. Eles ainda precisam praticar bondade e respeito por todos ao seu redor.
6. Ensine aos seus filhos sobre o que é masculinidade. Pergunte o que não havia de bom na cultura de masculinidade no passado, como podemos construir uma forma de masculinidade que abranja todos os tipos de garotos: esportistas, artistas, homossexuais. Essas conversas podem encorajar a construir uma forma não-violenta de masculinidade no futuro.
7. Deixe claro que não os quer bebendo ou usando drogas, mas que você sabe que adolescentes o fazem e quer que seus filhos estejam informados. Pergunte à eles sobre como vão manter a si mesmo e aos outros seguros. Tome cuidado com as palavras que usa para falar com seus filhos sobre “festança”.
8. Continue falando sobre sexo e consentimento com adolescentes enquanto eles começam a ter relacionamentos sérios. Sim, eles irão lhe dizer que sabem de tudo, mas a continuação da conversa sobre consentimento saudável, respeitar seus parceiros e sexualidade saudável vai mostrar à eles quão importantes esses temas são pra você.
9. Adolescentes têm sede de informação. Eles querem aprender, e eles irão achar um jeito de ter informações sobre sexo. Se você está disponibilizando essa informação amorosa, honesta e consistentemente, eles irão carregá-la para o mundo com eles.
Desenhos: ’Children’s Drawings from the collection of Jean Dubuffet’ – Book, The Innocent Eye by Jonathan Fineberg

Empoderamento infantil de meninas: fortalecendo as garotas desde cedo


We Heart it
Por Mariana Miranda
É através do empoderamento pessoal que diversas mulheres estão vencendo barreiras impostas pelos padrões sociais, por meio de um maior conhecimento sobre as causas femininas, amor próprio e coletividade. Contudo, muitas traçam um caminho árduo até chegar a esse ponto, sofrendo desde a infância diversos tipos de assédios e inferiorizações. Uma boa maneira de evitar esse processo é através do empoderamento infantil, mostrando para as meninas desde muito pequenas que elas não precisam se adequar a nenhum padrão de beleza, sendo feliz com seu corpo e com a pessoa que ela é.
Infância e gênero: a divisão desde muito cedo
É justamente no período da infância que os papéis de gênero começam a ser estabelecidos. A criança é constantemente limitada e moldada pelos próprios pais e familiares para seguir regras estipuladas pela sociedade em que vive. O clássico “azul para meninos e rosa para meninas” é uma das mais conhecidas forma de divisão e caracterização do sexo físico da criança, diretamente relacionado a cor da roupinha usada. Além disso, furar a orelha das meninas ainda quando pequenas é uma cultura extremamente comum entre os pais, ignorando completamente o fato de essa ser uma prática dolorida e desnecessária.
Carina Castro é estudante de letras da USP, pesquisadora de literatura infantil e uma das moderadoras da página Empoderamento Infantil, no Facebook. “É nessa fase que o comportamento para meninas e meninos é ensinado de maneira bem distinta e dicotômica: a docilidade e controle para as meninas, a força e o estímulo para os meninos. Não se pensa de fato na infância, mas num papel que se cumprirá lá na frente”, conta. Segundo a pesquisadora, esse processo se inicia na primeira infância, fase determinante para a capacidade cognitiva e sociabilidade do indivíduo, já que o cérebro absorve todas as informações dadas. “Imagine então como essas imposições limitam o desenvolvimento da criança e como podem influenciar na maneira como entendem suas capacidades”.
Mães e o processo de empoderar: erros e tabus
Frases como “Meninas têm que se dar valor”, “Você precisa emagrecer para ficar bonita”, “Alisa esse cabelo” ou “Se arrume ou você nunca vai arrumar um namorado” ainda são direcionadas constantemente por parentes a garotas ainda crianças ou adolescentes. E o pior:  na maioria da vezes são as próprias mulheres que as falam. Segundo Carina, esse tipo de comportamento vai em direção contrária ao empoderamento infantil de meninas, já que reforça a objetificação da mulher e sua desvalorização relacionada a certos comportamentos. “Esses tipos de conselhos sempre colocam a mulher numa posição subalterna ao homem, sempre buscando a aprovação masculina. Além disso, resume a felicidade das mulheres aos homens, colocando-os como se fossem a principal meta de suas vidas e a única opção caso não queiram ficar ‘encalhadas’”, explica.
E não é apenas o machismo que é reproduzido por meio desses conselhos, como também o racismo e a heteronormatividade. “Eles podem estar coagindo com o embranquecimento de meninas negras, atitude que as mantém refém do racismo, ao invés de libertar suas mentes e mostrar como é bela sua real beleza. E também podem gerar diversos complexos, traumas, depressão, distúrbios alimentares, e a disforia de gênero no caso de crianças trans*, algo que é necessário ter ainda mais apoio e acolhimento do que repreensão e rejeição como geralmente acontece”, conta Carina.
Outro ponto complicado são os assuntos relacionados a sexualidade. Tratar de menstruação e sexo com naturalidade ainda são vistos como tabus em muitas famílias. “Existe a ideia de que não falando sobre isso, estamos preservando, mas não é bem por aí. O que protege mesmo é a informação, é a garota conhecer seu próprio corpo, saber dos riscos que corre e aprender como se proteger”, conta Carina.
A masturbação feminina é vista como impura desde muito cedo, quando os pais reprimem as garotas que se tocam, apresentando-lhes a própria vagina como algo sujo. Já os meninos ficam claramente excitados desde bebês, quando o pequeno pênis fica ereto e precisa da ajuda de um adulto para voltar ao normal. Com isso, a masturbação infantil masculina começa desde muito cedo e não é envolta em tantas polêmicas pelos familiares quanto a masturbação feminina.
Menina empoderada, mulher fortalecida… mas como empoderar?
Uma menina que é empoderada desde muito jovem certamente se tornará uma mulher muito mais preparada para lidar com o machismo cotidiano e com as pressões sociais direcionadas ao seu corpo e seus modos. Contudo, antes de começar esse processo com a filha, a própria mãe tem que se empoderar.
Para Carina, o empoderamento da mãe é fundamental, já que assim ela terá mais condições de compreender e dar uma educação consciente e livre de preconceitos. “Hoje temos muitos sites e projetos de feminismo, maternidade e afins. Existe muito material na internet, então informe-se, esteja atenta e munida de boas referências”, conta. Outro conselho que a pesquisadora dá às mães é para não deixar faltar representatividade na vida da criança, pra que assim ela possa se reconhecer nas imagens que vê e se sinta capaz de alcançar o mesmo patamar. Apresentar mulheres fortes para a criança e que tenha alguma ligação com ela, seja na cor ou na idade, farão com que a inspiração flua.
Pensar antes de aconselhar também é importante. Muitas vezes os conselhos dados reproduzem discursos nocivos ao desenvolvimento da criança e a construção da sua auto-estima, reproduzindo preconceitos enraizados. “Hoje avançamos em muitos debates e existem mais mães que conversam e empoderam suas filhas, porém ainda são poucas. A tentativa muitas vezes continua dentro dos padrões e acaba por gerar o efeito reverso”, explica.
Além disso, apoiar a menina em suas escolhas é fundamental para o empoderamento. Se ela quiser se vestir de azul e jogar bola, precisa ter o apoio e suporte dos pais, e não a repressão. Segundo Carina, brincadeiras ao ar livre em que o exercício lúdico não é distinguido pelo sexo também são muito boas para um melhor aproveitamento da infância, diferente das que apenas reproduzem atividades do lar, como se treinando a menina a exercer essa função no futuro.
Com uma auto-estima elevada e fortificada, as garotas serão mais confiantes de si mesmas e terão uma relação diferente com seus corpos e cores de pele. “Será uma relação de amor e não de ódio, como geralmente acontece devido aos padrões e imposições. Sendo elas o centro de suas vidas, não dependerão da aprovação masculina, assim como terão uma consciência mais ampla sobre suas capacidades e gostos, não se deixando submeter ao desejo alheio. A relação com outras mulheres também tende a ser outra, de solidariedade e empatia, e não de competição, o que contribui muito pro avanço de todas as mulheres”, explica Carina.
Por Mariana Miranda
Fonte: http://www.lado-m.com/empoderamento-infantil-de-meninas-fortalecendo-as-garotas-desde-cedo/

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Exupéry, Roterdã e a infância

Publicado em literatura por Mario Feitosa

Quando crianças, nosso maior sonho é ver o tempo voar e finalmente nos tornarmos adultos. Ah, se soubéssemos, naquele tempo, o que significa ser criança...

Um mergulho no entendimento da infância pelas mentes de Antoine de Saint-Exupéry e Erasmo de Roterdã e a reflexão sobre o que ela tem para nos ensinar.



"Todos sabem que a infância é a idade mais alegre e agradável", afirma Erasmo de Roterdã, em "O Elogio à Loucura". Continua: "Ao ver esses pequenos inocentes, até um inimigo se enternece e os socorre". 

Quê há no mundo de mais adorável que uma criança? E entre todas as crianças, quem, na história da literatura, foi mais adorável que o pequeno garoto de olhos brilhantes e traje engraçado, pintado por Antoine de Saint-Exupéry, em busca de um carneiro? 

Há quem diga que crianças são "pequenos adultos bêbados". Afirmação incrivelmente espirituosa e acertada. Afinal, quê são "adultos bêbados" senão seres inexplicavelmente divertidos, sem muralhas de pudor, sem "juízo"?! 

Dada a afirmação, que tal promover a atividade mais própria da criança, a brincadeira, traçando um paralelo absurdo de três pontos entre a criatura tenra e suave, de mãos e pés pequenos, olhos curiosos e brilhantes, alma pura, transbordando inocência, e as quase tão adoráveis quanto obras de Antoine de Saint-Exupéry, "O Pequeno Príncipe", e Erasmo de Roterdã, "O Elogio à Loucura"? Vamos lá? 

O Pequeno Príncipe, livreto ilustrado de Exupéry, conta a história de um piloto de avião que, enfrentando a luta pela vida ou morte, num acidente no deserto, se depara com uma misteriosa pessoinha de outro mundo, a qual, em momentos apaixonados e apaixonantes, lhe ensina as máximas de uma vida verdadeira: inocência, oposta à malícia que nos é tão própria; sinceridade, à qual nosso respeito humano nos pede ignorância, em bizarras convenções insalubres; a amizade, ou amor sincero, tão alheios ao comércio-de-tudo ao qual estamos impostos; à responsabilidade, que combate nosso usual e tão devastador egoísmo. Uma pérola! Pequena, leve, linda... Obra que caberia ser revisitada uma ou mais vezes ao ano, para remover as cracas encrustadas pela vida adulta, e reavivar a criança interior. 

Tem seu ápice na fabulosa (e que me perdoe o leitor pelo abuso da equivocidade do termo) máxima da raposa: "Te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", talvez uma das máximas universais mais exploradas ao longo dos anos, de uma profundidade ímpar. Caberiam infindáveis parágrafos de discurso para expressar todas as nuanças da afirmação, mas não seria esse o caso.


Ilustração de Antoine de Saint-Exupéry para capa de sua obra "O Pequeno Príncipe"

De outro lado, o genial rolo-compressor ético de Erasmo de Roterdã, "O Elogio à Loucura". Peça fluída, de humor sagaz e audacioso. Veste de atrevido vestido vermelho, de ampla fenda e decote sobejo, a deusa Moria, a sandice, a entrega desregrada do homem à incontinência desmedida, a doação ao prazer e estultícia, ignorando qualquer meditação profunda, a qual, aos olhos dele, franze as testas dos homens, os envelhece e os faz intragáveis. De uma maneira pitoresca e, talvez, irresponsável, Erasmo (e repare na intimidade) motiva o homem a abandonar a filosofia, o pudor, toda forma de prudência, e a dedicar-se à incontinência das paixões, num tempo de homens austeros, com muita coisa a dizer, mas que, no contexto, provavelmente, ninguém quisesse ouvir. 

Me atrevo a catalogar "O Elogio à Loucura" como a Bíblia para os desajustados, que tanto sofrem pela desaprovação social. Banhada no leite da poética mitologia grega, puxando ao riso e ao verme da consciência em cada sentença, mais que motivar ao abandono da razão, busca, convidando à tal incontinência (abominada por Aristóteles, em "Ética a Nicômaco"), questionar quanto deve o homem ignorar seu caráter animal, que corresponde a pelo menos metade de sua natureza, em troca da elevação intelectual. 

Que lindo o trecho no qual se dedica a imaginar o mundo livre do alfabeto, onde cada qual vive sua vida sem fortes preceitos senão suas necessidades, uma espécie de anarquia intelectual. E quanto condena, na progressão da peça, o desejo dos sábios de tornarem-se mais do que caberia à frágil humanidade, forçando uma transcendência impossível, e se amargando no processo. 

Mas, estendendo demais simplórios resumos das peças, que devem ser consumidas e não imaginadas, cabe retornar ao tema, sua visão de infância. 

Roterdã, enquanto convida à desistência do pudor e da aceitação das convenções sociais, volta os olhos à infância, sem ética construída, profunda sinceridade, livre das barreiras do "cabe ou não cabe ser dito", chama os pequenos humanos de "sem juízo", e oferta a essa falta da meditação do certo e errado seu maior e mais forte caractere de amabilidade.



Agora, ignorando os dois mestres, para traçar a última linha, quê são crianças senão espíritos livres? Livres das tais convenções sociais que nos privam das anteditas máximas da vida verdadeira, verdadeiramente saudáveis. Aos adultos não é adequada a alegria, porque alegria e destemperança andam de mãos dadas, e destemperança agride os preceitos morais alheios. Sinceridade? Quê haveria de ser isso senão uma forma de rudeza, que move a ferir egos?! Amizade?! Amor sincero?! Invenções de boêmios poetas que precisam justificar ao mundo sua falta de modéstia na expressão, uma vez que se doam à noite e ao vinho, ao prazer, pensando-se adolescentes quando já deviam ter abraçado a seriedade que é cabida aos maduros. 

Já às crianças tudo soa divertido, adequado, livre das cruéis métricas que a nós são aplicadas. 

Vaza, inconsciente e involuntariamente, uma profunda inveja do estado pueril, por não poder dividir com eles a livração dos extensos julgamentos de inadequação e loucura, e rótulos de desajuste e necessidade de ajuda. Mas que tipo de ajuda precisaria alguém que deseja do fundo do coração se assemelhar ao ser que, no mundo, mais próximo está da perfeição, e todos querem abraçar e ter por perto, pela formosura estampada nas bolas dos olhos livres de malícia, princípio e autora de toda monstruosidade? 

Houve, no passado, um velho sábio que, segundo dizem, nem chegou a ser tão velho de idade, mas envelheceu por sabedoria (como explicava o mesmo Roterdã) que andava a pés descalços, cantando que o certo era o amor gratuito. Dizem que o mataram, com furos nos membros e no peito, porque o mundo não precisava ouvir o que ele tinha a dizer. Segundo quem ouviu, ele ensinou que quem não fosse tal criança jamais haveria de ser verdadeiramente feliz, provavelmente sabendo que quem perde a meninice, além de perder a graça em si, perde o potencial à verdadeira vida. 

A vida adulta tem lá seus encantos. Talvez sejam eles o tabaco, o álcool, o prazer do sexo, a pompa dos títulos de Senhor e Senhora, ainda que não se saiba exatamente do quê, os carros, empregos, salários dos quais se gabar... Coisas que às crianças não cabem. Mas a elas cabem os jogos, fantasias, brinquedos, amizades desinteressadas, ainda que com amigos imaginários, os quais nem é possível saber se são, de fato, fruto de imaginação ou comunicação real com criaturas sublimes, as quais, como adultos, não seriamos capazes de ver, por termos perdido a inocência. 

Quais são as responsabilidades de um adulto, que os consomem? Contas, e casa, e casamento, e trabalho, e memorando, e mais trabalho, e mais contas, e reuniões, e celulares, e mais contas, seguidas de mais trabalho, relatórios e cálculos. E se paro para enumerar as cabidas ao infante? Meu deus, é aqui que morro de inveja: o brincar, e sonhar acordado, e aprender enquanto brinca, e o sonhar enquanto aprende, e o comer para dormir e, descansado, poder brincar, para voltar a sonhar e aprender. É suposto que a felicidade reinará! E, felizes, como ninguém mais, serão ainda mais adoráveis que suas formas físicas.


E, aqui, começa o traçado do bizarro paralelo entre os pontos anteditos, da verdadeira vida de Exupéry, da falta de juízo, de Roterdã, e da felicidade infantil desenhada pela captação da realidade: qual haveria de ser maior falta de juízo que pedir ao adulto que interrompa sua luta pela sobrevivência para desenhar um carneiro, como o fez o jovem príncipe, ao conhecer o piloto? Não são a esse ponto desajuizadas todas as crianças? E não é justamente a maluquice que permite a felicidade, como explicou Erasmo? Livres das convenções estúpidas e medíocres definidas para inflar egos alheios em amizades convenientes, gozando da liberdade dos problemas que advém de tais convenções, encarando o mundo com os olhos que têm, e vestindo os óculos da imaginação, que fazem do sol ainda mais amarelo e brilhante, das árvores ainda mais verdes e vivas, do céu ainda mais azul e repleto de animais de algodão, as crianças constroem o mundo que os adultos sempre quiseram, mas, ainda querendo, não têm coragem de fazer; pois fazê-lo exigiria a ruptura das convenções. E pedir a ruptura das cruéis regras pré-estipuladas seria deixar a saudável "adultice" em troca de uma já abominável infantilidade, que não mais os "cabe". E, a troco de não receber rótulos (porque adultos vivem de rótulos) de insanidade, e manter a faixa de status (porque adultos adoram status) e seriedade, desistem do desejo, ignoram os conselhos e guardam no bolso de traz o bloquinho de notas, onde haviam desenhado um elefante dentro de uma jibóia, por medo de que pensem ser um chapéu. 

No fim do dia, cavando o fim da vida, para não parecermos loucos aos olhos dos homens, aplicamos, como regra de nossas vidas, o maior ato de estultícia (mórbida) possível, que é ignorar nossa inclinação natural mais saudável, a de, entre reunião e relatório, entregar-nos à verdadeira vida, de sentimentos sinceros e desmedidos.



Se ouvíssemos Exupéry, que nos contou quão responsáveis somos pelo que cativamos, ou Roterdã, que gritou que quanto mais loucos fôssemos, e menos prudentes, mais felizes seríamos, imitaríamos as crianças que, na complexidade do mais simples, vivem verdadeiramente. 

Desejo ser criança para sempre. Gostaria que houvessem mais crianças adultas para brincar a vida comigo. 

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Relação de vinculação

Foto: Google Imagens

Por Mafalda Teixeira

A vinculação é a necessidade de criar e manter relações de proximidade e afectividade com os outros, de o bebé se apegar a outros seres humanos para assegurar protecção e segurança. Esta relação é uma necessidade básica/primária que é decisiva para o desenvolvimento físico e psicológico do bebé.

Para assegurar estas relações de proximidade com as figuras de vinculação/protecção, os bebés recorrem a determinados esquemas comportamentais como chorar, sorrir, mamar, etc.

Investigação de Bowlby:
Bowlby desenvolveu um conjunto de investigações sobre as relações entre as perturbações de comportamento e a história da infância. Concluiu que a proximidade física do progenitor é uma necessidade inata, primária, essencial ao desenvolvimento mental do ser humano e ao desenvolvimento da sociabilidade. Defendeu que a vinculação aos progenitores responde a duas necessidades: protecção e socialização.

Outras investigações – Teoria da Vinculação
Uma psicóloga canadiana que trabalhou com Bowlby e que desenvolveu a teoria da vinculação concluiu que se a relação com os pais gera segurança, na medida em que o bebé está certo que a relação se mantém para além da separação, a criança sente-se mais livre para descobrir o mundo, para estabelecer outras relações. A partir de uma experiência em que a investigadora registou o efeito da separação e do reencontro de bebés com as suas mães, distinguiu 3 categorias de vinculação:

•® Vinculação Segura – os bebés choram e protestam pela ausência da mãe e procura o contacto físico logo que ela se aproxima de novo (vinculação ideal)
•® Vinculação Evitante – os bebés parecem indiferentes à separação da mãe e ao seu regresso
•® Vinculação Ambivalente/Resistente – os bebés manifestam ansiedade mesmo antes da mãe sair e perturbação quando as abandona, hesitando entre a aproximação e o afastamento dela quando esta regressa

A qualidade das primeiras vinculações influencia as relações que a criança vai estabelecer no futuro. Estas serão como que um modelo do que se pode esperar dos outros.

Para estudar a relação dos bebés com os pais, a investigadora realizou a mesma experiência com o progenitor masculino e concluiu que o sofrimento era maior quando a mãe deixava a criança e a alegria maior quando ela voltava. Em idades precoces, a mãe parece mais importante.

Algumas críticas foram feitas relativamente à forma como se retiraram as conclusões da experiência, sobretudo se não se tiver em conta, para além de outros factores, as condicionantes de ordem cultural e socioeconómica.

A figura de Vinculação
O bebé estabelece laços de vinculação com a pessoa mais próxima que permanentemente cuida dele. Esta pessoa não terá de ser forçosamente a mãe biológica. Outros cuidadores podem substituir a mãe: há agentes maternantes, como os pais, outros familiares e outros elementos sociais que desempenham esse papel, funcionado como figura de vinculação.

Na sociedade actual em que as crianças estão inseridas em jardins-de-infância, são favorecidas outras relações que nos permitem falar de vinculações múltiplas.

Vinculação e Equilíbrio Psicológico:
O envolvimento físico e emocional que se estabelece na relação mãe-bebé permite que a criança cresça equilibradamente para fazer face às necessidades e dificuldades do dia-a-dia.

A mãe, ao interpretar e ao responder satisfatoriamente às necessidades orgânicas e aos estados emocionais do seu filho, não só disponibiliza prazer e satisfação no presente como influencia muitos aspectos da sua constituição psicológica, do seu espaço psíquico no futuro.

As representações relacionais que se constroem durante a primeira infância contribuem para a estruturação da sexualidade. A boa qualidade da relação com a mãe manifesta-se numa relação mais equilibrada com o seu próprio corpo, sem tensão e inibições excessivas, o que leva a uma maior proximidade com os outros significativos.

A um processo de vinculação securizante corresponderá uma melhor regulação emocional: favorece a confiança em si próprio, a capacidade em ultrapassar as dificuldades, em se sentir bem consigo mesmo e com os outros. A confiança que se pode estabelecer nestes primeiros vínculos permitirá gerir com mais segurança os desafios que as interacções com os outros implicam. Assim, um vínculo seguro e confiante propiciará interacções sociais positivas e seguras, aumenta a confiança nos outros.

Individuação – necessidade primária de o ser humano criar a sua própria identidade, a sua individualidade, de se distinguir daqueles com quem mantém laços de vinculação.

Na base do processo de individuação está a vinculação. São as figuras de vinculação que favorecerão o processo de individuação, ao desenvolverem relações de segurança e de confiança com o bebé. É o sentimento de segurança e de confiança em saber que os pais permanecem que motiva a criança a ousar explorar o meio, a afastar-se – princípio do processo de autonomia.


Com o devido crédito ao autor e publicação da fonte


Postado Por Cintia Liana