"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Inadequação de crianças adotadas, adoção ilegal e Varas da Infância

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Há diversos trabalhos e opiniões divergentes sobre o fato de quê crianças adotivas, por sua condição teriam tendência em apresentar problemas psicológicos ou de inadaptação social no ambiente escolar ou em casa, qual a sua opinião sobre este tema?
Não concordo, vejo que todos nós temos lacunas e dificuldades existencias a serem resolvidas, vistas, curadas, todos precisamos crescer.

Leio pesquisas que apontam que filhos adotivos não presentam mais dificuldades que filhos biológicos. Todos os seres humanos podem apresentar dificuldades sobre aspectos seus, o que vai diferenciar é a forma de lidar com eles, o temperamento. Um filho adotivo pode lidar com seu passado de modo muito maduro, ele precisa ser preparado e fortalecido pelos pais adotivos.

Quando um filho biológico tem problemas todos encaram como se fosse natural aquela fase ou reação, mas quando é adotivo colocam a responsabilidade na adoção, simplificam, querem achar respostas para tudo e acham logo essa. Muitas pessoas cometem atrocidades e ninguém aponta para a condição dela de filha biológica ou perguntam como foi educada pelos pais, mas se ela foi adotada jogam a “culpa” nisso. Acontece que as pessoas estão condicionadas a fazerem esta ligação do problema com a adoção.

Numa escola tem muitas crianças que apresentam os mais diversos problemas, mas todos encaram como natural, mas se entre elas tem só um adotado observem se não é o que chama mais atenção! Ele sofre preconceito e discriminação até por parte de alguns professores por ignorância profissional.

Quando existe um problema com a criança ele não começa e termina nela, ela não é a causa, se trata de um sistema dinâmico e complexo, uma combinação de todos os fatores, onde muitas vezes o problema da criança é somente um sintoma de um adoencimento maior de toda a família, que pode ser causado por algo não-dito, por um segredo, algo passado de modo indireto, uma crença errada, uma mágoa não trabalhada, excesso de expectativas, preconceitos, excesso de controle, ou a combinações de muitas dessas e outras coisas. Por esses e outros motivos que é de extrema importâcia a preparação e amadurecimento correto dos adotantes.

 Como é desenvolvido o processo adotivo com  outras instituições como por exemplo abrigos e Vara de Infância?

O processo de adoção nacional se dá exclusivamente através das Varas da Infância e Juventude (VIJ), os abrigos operam de acordo com as leis e a justiça e ouvem ordens do juiz ou juízes da infância responsáveis por aquela comarca.

A criança deve ser preparada pelos profissionais que estão perto dela e avaliada pelo psicóloga da vara, mas muitas varas operam de modo diferente, cada juiz faz suas regras dentro da lei.

O psicólogo tem algum tipo de atuação diante de casos de adoção ilegal, em caso positivo, qual a sua atuação?
Adoção ilegal entendo como aquela em que o adotante registra a criança como se filho biológico dele fosse. O psicólogo pode ser acionado para fazer uma avaliação psicológica das partes envolvidas, se o caso for denunciado e for parar na Vara da Infância e Juventude e Ministério Público.

Eu acredito que tudo deve ser feito dentro da lei, até para que a criança sinta a tranquilidade em todos os passos dados pelo futuros pais. Não acho que uma adoção ilegal possa ter um bom significado para a família, eu sou totalmente contra. A adoção deve seguir um rumo digno. A criança merece isso, ela está iniciando sua vida.

Diante do perfil das crianças a serem adotadas, geralmente sendo raro a adoção de mais velhos, como a psicologia pode atuar junto a essas crianças que ficam muito tempo em abrigos ou instituições?
Não é raro a adoção de crianças maiores de 5 anos não, já participei de muitas. Infelizmente muitas dessas crianças não fazem interface com um psicólogo. Se nem lembram de todas para lhes dar pais não lembrarão também para lhes possibilitar acompanhamento psicológico.

O trabalho a ser feito é de psicoterapia, de escuta terapêutica, fortalecimento da auto estima e identidade.

Partes da entrevista cedida a estudante da UNIP.

Por Cintia Liana

quarta-feira, 6 de abril de 2011

CNA ainda não agilizou adoções

Foto: Google Imagens

Desde 2008, só 425 crianças ganharam uma família por meio da ferramenta, média de uma a cada três dias. Muitos juízes não alimentam o banco de dados - 01/04/2011

Por Paola Carriel

Desde a criação do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), em abril de 2008, apenas 425 crianças em todo o país ganharam uma família por meio do sistema. O número, que corresponde, em média, a uma adoção a cada três dias, mostra que o cadastro ainda não cumpriu a promessa de agilizar adoções no país. O valor não representa o total de novas famílias porque a ferramenta ainda não é utilizada plenamente pelos juízes – o que deveria ser obrigatório – e ainda ocorrem procedimentos fora do CNA. Além disso, 44% das crianças inscritas desde 2008 deixaram o cadastro sem conseguir uma família.

Apesar do esforço do Conselho Nacional de Justiça (CJN), o cadastro ainda não conseguiu reunir todas as crianças aptas no país. Há estados, como Amapá e Piauí, sem nenhum menino ou menina no programa. Outros, como Acre, Tocantins e Roraima, têm menos de dez inscritos. Em Curitiba, por exemplo, há apenas 16 crianças no sistema, mas cerca de mil vivem nos abrigos da capital. Só está cadastrado quem já tem a situação jurídica definida, ou seja, quando o poder familiar já foi destituído e os pais biológicos não são mais responsáveis legalmente pelos filhos.

Essa situação mostra, na prática, que o Judiciário ainda é reticente em usar o programa. Segundo a nova Lei de Adoção, a utilização de cadastros nacionais e estaduais é obrigatória e o mesmo dizem resoluções do CNJ. Mas o baixo número de crianças inscritas, 4.427, mostra que o CNA ainda não emplacou nas comarcas brasileiras. Além disso, há o problema da superlotação dos abrigos e falta da destituição do poder familiar.

É possível que as 425 adoções realizadas por meio do sistema tenham ocorrido envolvendo pessoas de estados ou municípios diferentes, deixando os casos de pretendentes e crianças da mesma comarca fora das estatísticas. Em Curitiba, por exemplo, a prioridade é encaminhar as crianças para famílias que moram na cidade e elas acabam não entrando no cadastro.

Outro dado preocupante é que, das 8.598 crianças e adolescentes que já passaram pelo CNA, 3.784, ou cerca de 44%, deixaram o cadastro porque chegaram à maoridade sem encontrar uma família. Esse número representa 86% do total de cadastradas hoje, que é de 4,4 mil. Além dos 425 meninos e meninas já adotados, há 196 casos ainda em processo.

OPINIÕES
Na avaliação do juiz auxiliar da corregedoria do CNJ, Nicolau Lupianhes Neto, o número de adoções pelo CNA não é baixo quando se leva em conta as peculiaridades de cada estado. “O cadastro demandou um grande trabalho inicial que começa a mostrar os frutos agora”, afirma o juiz, que considera o CNA uma ferramenta importante para quem trabalha na área da infância e juventude por traçar um panorama sobre os garotos e garotas e possibilitar a criação de novas políticas públicas. Apesar da obrigatoriedade em se cadastrar os pretendentes e as crianças disponíveis para adoção, Lupianhes admite que isso ainda não acontece em todo o país. “Talvez isso ocorra ainda por uma falta de cultura de utilização da ferramenta”, diz.

Ele acredita que a tendência é o número de adoções realizadas pelo cadastro aumentar.
A presidente da Associação dos Grupos de Apoio à Adoção (Angaad), Maria Bárbara Toledo, afirma que o cadastro foi um avanço por introduzir uma uniformização. “Ele conseguiu uniformizar o procedimento em todo o país, e para isso alguém teve de fazer a lição de casa. Hoje a pessoa está habilitada em todo o território nacional e isso é positivo porque a legislação é uma só.”

Maria Bárbara questiona, no entanto, o fato de o CNJ ter decidido inserir no CNA apenas quem já teve o poder familiar destituído. “A luta do movimento é para que ao menos aquelas que já têm uma ação proposta também sejam incluídas”, afirma a presidente da Angaad, que considera positivo o número de 425 adoções desde a criação do cadastro. Ela lembra ainda que o CNA é um banco de dados que precisa ser alimentado, o que exige pessoas comprometidas, e que o cadastro é recente e alguns estados, que ainda estão se adaptando.

MÉDIA ANUAL DE CURITIBA É DE 150 ADOTADOS
Em Curitiba, o ritmo de adoções teve uma queda entre 2009 e 2010, devido a problemas burocráticos do Tribunal de Justiça, e passou de 160, em 2010, para 123 ano passado. Apesar disso, a capital manteve uma média de cerca de 150 adoções anuais. Agora juíza e a equipe técnica da 2.ª Vara da Infância, Juventude e Adoção se prepararam para tentar colocar os processos em dia. Um mutirão foi realizado para rever processos antigos e restaram 362.

O procedimento adotado na vara é oferecer as crianças em situação de adoção primeiro para os pretendentes da capital. Somente quando o garoto ou garota não se encaixa no perfil requerido por nenhum pretendente é feito o cadastro no CNA. O objetivo é possibilitar que o adotado permaneça no município de origem. Para a juíza Maria Lúcia de Paula Espíndola, a nova lei de adoção impactou na destituição do poder familiar, já que agora, além de procurar os pais, a Justiça deve questionar se a família extensa, como tios e avós, quer cuidar das crianças.

ABANDONO - 80 MIL AINDA PODEM ESTAR EM ABRIGOS
Além de ter dado mais transparência ao processo de adoção, o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) mostrou outro problema sobre a infância em situação de vulnerabilidade: o grande número de crianças esquecidas nos abrigos do país. Até hoje não existe um levantamento confiável sobre este dado, mas estimativas apontam que existem cerca de 80 mil meninos e meninas vivendo em abrigos. Eles acabam ficando em um limbo legal, já que não podem viver com a família biológica nem em uma família adotiva.

O abrigamento deveria ser uma medida excepcional, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas pesquisas mostram que muitas vezes isso ocorre por causa da pobreza dos pais. Os responsáveis por essa medida são, na maior parte dos casos, os conselheiros tutelares, mas eles devem sempre contar com o aval do Judiciário.

Esse “esquecimento” das crianças nos abrigos fez com que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criasse um segundo cadastro nacional, direcionado a identificar esses meninos e meninas, mas ele ainda foi totalmente implementado. Esse fator também contribui para o baixo número de garotos e garotas inscritos no CNA, já que as crianças continuam nos abrigos, mas o poder familiar dos pais não é destituído.

DESTITUIÇÃO
Manuela Teixeira de Melo, do grupo de apoio à adoção Quintal Casa de Ana, sediado no Rio de Janeiro, explica que a destituição do poder familiar também é uma decisão difícil para os magistrados, já que a criança perderá completamente o vínculo com os pais biológicos e haverá uma averbação na certidão de nascimento explicando a destituição. Quando há violência o processo é mais fácil, mas muitas vezes a família está envolta em problemas como uso de drogas e álcool e não necessariamente abandonou os filhos. Cortar em definitivo esses vínculos é algo que pode definir a vida dos garotos e garotas, já que a chance para os mais velhos de encontrar uma nova família é baixa.

PREFERÊNCIA É POR BRANCOS E SEM IRMÃOS
O Cadastro Nacional de Adoção (CNA) ajudou a mostrar estatisticamente como o brasileiro é preconceituoso na hora de adotar. O perfil requerido pelos pretendentes mostra um descompasso em relação aos garotos e garotas disponíveis. Há exigência por crianças pequenas, brancas e sem irmãos, mas no CNA estão disponíveis crianças pardas ou negras e com irmãos.


Só em Curitiba, cerca de mil crianças vivem em abrigos à espera de uma família, mas só 16 estão inscritas no Cadastro Nacional de Adoção.


Postado Por Cintia Liana


terça-feira, 4 de maio de 2010

Falar e Ouvir a Verdade como Processo de Cura

Foto: Ingrid Cristina (Flickir)

Caros leitores, o texto abaixo também se aplica muito acertivamente a adoção.
As marcações em rosa são minhas, para chamar a atenção para pontos chaves que podem se aplicar a crianças adotadas que sofreram maus tratos, que por algum motivo apresentam problemas de comportamento, que têm dificuldade em lidar com sua história ou com sua condicão de adotado.

Acima de tudo pais adotivos devem entender a importância da verdade sobre a adoção e sobre a história inicial da criança. A necessidade de criar um canal de diálogo aberto sobre a história dela, sobre possíveis dores vividas e a "permissão" na família para falar sobre isso até se esgotar as todas as possibilidades é fundamental.
Deve ser reconhecida a importância de uma possível busca de informações sobre as origens e também um confronto com os pais biológicos, caso esse seja o desejo do adotado.

"Todo ser humano precisa da verdade sobre a sua existência para apropriar-se desta e organizar-se dentro de sua própria vida." (Cintia Liana)

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Foto: Lubs Mary (Flickir)

DIZER A VERDADE ÀS CRIANÇAS
Alice Miller
Tradução para o francês de Pierre Vandevoorde (janeiro 2007)
Tradução em português Mirian Giannella (maio 2010)

Tento às vezes imaginar como alguém, que teria crescido em um planeta onde não vem à ideia de ninguém de bater numa criança, como poderia sentir as coisas. Um dia talvez, graças aos progressos da investigação espacial, poderemos viajar de planeta em planeta, e saber como seres com costumes completamente diferentes abordarão a nossa terra. O que passará na cabeça e coração de um deles quando vir humanos adultos e vigorosos lançar-se sobre pequenas crianças sem defesa e golpea-las num impulso de fúria?

É ainda corrente hoje crer que as crianças não têm sentimentos, e estar persuadido que o que se pode fazer-lhes sofrer não tem consequências, ou a rigor de menor importância que nos adultos, precisamente porque são “ainda crianças”. É assim que até recentemente, cirurgias em crianças sem anestesia ainda eram autorizadas. Mais ainda, circuncisão e excisão são consideradas em muitos países como costumes tradicionais legítimos, da mesma maneira que os ritos de iniciação sádicos.

Golpear adultos é tortura, golpear crianças é educação. Isto não seria suficiente para evidenciar claramente uma anomalia que perturba o cérebro da maior parte das pessoas, “uma lesão”, um buraco enorme no lugar onde deveria se encontrar a empatia, em especial PARA COM as CRIANÇAS? Esta observação é suficiente para provar a precisão da tese na qual o cérebro das crianças espancadas guarda sequelas, porque quase todos os adultos são insensíveis à violência que sofrem as crianças!

Já que as torturas que sofrem as crianças são rejeitadas e negadas por todo mundo, pode-se supor que este mecanismo (de proteção) é constitutivo da natureza humana, que poupa sofrimentos ao ser humano e teria, consequentemente, um papel positivo. Mas há pelo menos dois fatos que contradizem esta afirmação. Primeiro, é precisamente quando os maus tratos são negados que são transmitidos à geração seguinte, impedindo assim a interrupção da cadeia de violência, e em segundo lugar, é a recordação do que foi sofrido que permite o desaparecimento dos sintomas de doença.

Já foi estabelecido que colocar em palavras as agressões sofridas pela criança na presença de um testemunho que se compadece conduz ao desaparecimento dos sintomas físicos e psíquicos (como a depressão); este fato nos obriga a procurar outra forma de terapêutica, pois não é se fazendo de aliado da recusa que se encontra a via da liberação, mas confrontando-se à sua própria verdade com tudo que possa ter de doloroso.

No meu entender, as mesmas conclusões aplicam-se à terapia das crianças. Como a maior parte das pessoas, eu também, durante muito tempo estava convencida de que as crianças têm absolutamente necessidade de ilusão e de recalcamento para poder sobreviver, porque seria demasiado doloroso para elas se encontrar face à verdade. Mas, hoje, estou convencida de que o que vale para os adultos, vale para elas, também: aquele que conhece a verdade da sua história está protegido de doenças e perturbações de todas as ordens. Mas para isto, a ajuda de seus pais lhe é indispensável.

Hoje, muitas crianças apresentam problemas de comportamento, e as propostas terapêuticas são também numerosas. Infelizmente, repousam, em geral, sobre concepções pedagógicas nas quais seria possível e necessário inculcar adaptação e submissão à criança “difícil”. Trata-se da terapia comportamental mais ou menos bem sucedida, que consiste numa espécie de “reparação” da criança. Todas as alternativas tentam calar ou ignorar o fato de que cada criança com problemas exprime a história das violações a sua integridade, que começa muito cedo na sua vida, como mostra o meu trabalho de investigação (ver meu artigo de 2006 “a impotência das estatísticas”), (ainda não publicado em francês), entre zero e quatro anos, enquanto o cérebro está em formação. A maior parte do tempo, esta sua história fica recalcada. No entanto, não se pode realmente ajudar um ser mortificado a tratar suas feridas se se recusa a olhá-las de frente. Felizmente, as perspectivas de cura são melhores para um organismo jovem, o que é também verdade para o psiquismo. O primeiro passo a fazer seria, então, preparar-se para olhar as suas feridas, para leva-las a sério e deixar de negá-las. Isso não tem nada a ver com “reparar os problemas” da criança, trata-se pelo contrário de tratar das suas feridas pela empatia e informações justas e verdadeiras.

Para que a criança alcance seu pleno desenvolvimento emocional (sua maturidade verdadeira), ela precisa mais do que apenas a aprendizagem do comportamento adaptado à norma.
Para que não ganhe mais atraso, depressão, nem distúrbios de alimentação, de modo que não caia também na droga, tem necessidade de ter acesso à sua história. 

Penso que com crianças maltratadas, os esforços educativos e terapêuticos bem intencionados estão condenados ao fracasso se a humilhação vivida nunca for evocada, em outros termos se a criança permanecer sozinha com o seu vivido.

Para levantar o véu que pesa sobre este isolamento (a solidão face ao seu segredo), os pais deveriam ter a coragem de confessar o seu erro à criança. Isso alteraria completamente a situação. Durante uma discussão tranquila, poderiam, por exemplo, dizer-lhe: “Nós te batemos quando era ainda pequeno, porque nós também fomos educados assim e pensávamos que era necessário. Mas agora, sabemos que nunca deveríamos ter nos autorizado a isso e pedimos desculpas pela humilhação que te fizemos sofrer e as dores que isto te causou, nunca mais o faremos. Lembre-nos esta promessa caso a esqueçamos”.

Há 17 países nos quais esta prática já caiu sob o golpe da lei, onde é simplesmente proibida. Durante as últimas décadas, cada vez mais pessoas de fato compreenderam que uma criança espancada vive no medo, cresce no temor permanente da próxima violência. Isto altera muitas de suas funções normais. Entre outras coisas, ela não será capaz de se defender se for atacada ou então o medo provocará uma reação violenta em retorno, fora de proporção.

Uma criança que vive no medo pode dificilmente se concentrar nos seus deveres, tanto em casa como na escola. A sua atenção fica menos focada no que deveria saber e mais no comportamento dos professores ou pais, porque não sabe nunca quando a mão deles vai reagir. O comportamento dos adultos parece-lhe totalmente imprevisível, deve então estar constantemente em alerta. Perde a confiança nos pais que deveriam, como é o caso em todos os mamíferos, proteg-la das agressões externas, e em nenhum caso atacá-la. Mas sem a confiança nos pais, a criança se sente muito desprotegida e isolada porque toda a sociedade está ao lado dos pais e não ao lado das crianças.

Estas informações não são para a criança revelações, pois seu corpo sabe tudo aquilo. Mas a coragem dos pais e a decisão de não mais fugir aos fatos terá, sem dúvida, um efeito benéfico, liberador e duradouro. E é um modelo de grande importância que é apresentado, não somente em palavras, mas numa atitude de coragem de ir fundo no que pensa, e também de respeito à verdade e à dignidade da criança, e não mais violência e falta de controle de si.

Como a criança aprende com a atitude dos pais e não com as suas palavras, há apenas efeitos positivos a esperar de tal confissão. O segredo o qual a criança era a única portadora doravante foi nomeado e integrado na relação, que pode agora estabelecer- se com base no respeito mútuo e não no exercício autoritário do poder. As feridas caladas até então podem se curar porque não permanecem mais armazenadas no inconsciente. Quando crianças informadas tornam-se por sua vez pais, não correm mais o risco de reproduzir de maneira compulsiva o comportamento, às vezes, muito brutal ou perverso dos pais, não são empurrados para isso pelas suas feridas recalcadas.

O arrependimento dos pais apaga as histórias trágicas e priva-as de seu potencial perigoso. A criança espancada por seus pais aprende deles a reagir pela violência, isto é incontestável, e qualquer professor de maternal poderia confirmar se se autorizasse a ver o que lhe é dado a ver: A criança espancada em casa bate na mais fraca na escola assim como na família. E recebe uma punição quando bate no seu irmãozinho(a) , e assim não compreende nada na marcha do mundo. Não foi o que aprendeu dos pais? É assim que nasce bem cedo uma desordem que se manifesta na forma de “perturbação”, e que leva a criança à terapia.

Mas ninguém se arrisca a atacar as raízes deste mal, que, no entanto, é tão evidente. A terapia pelo jogo com terapeutas dotados de forte sensibilidade pode certamente ajudar a criança a exprimir-se e ganhar confiança em si mesma num enquadre protegido e sempre o mesmo. Mas como o terapeuta faz silêncio sobre as primeiras feridas abertas no passado, a criança permanece, em geral, sozinha com o que viveu. Mesmo o mais dotado dos terapeutas não pode levantar este véu se a preocupação de proteger os pais o faz hesitar a levar plenamente em conta as feridas dos primeiros anos. Mas não cabe a ele falar com a criança, pois suscitaria imediatamente o medo de ser punida pelos pais. O terapeuta deve trabalhar com os pais sozinhos e deve lhes explicar em que o fato de falar poderia ser liberador para eles e para a criança. Certamente, nem todos os pais vão aceitar esta proposta, ainda que lhes seja feita por terapeutas, o que seria evidentemente desejável. Alguns rirão sem dúvida desta ideia e dirão que o terapeuta é ingênuo e não sabe a que ponto as crianças são dissimuladas e procuram certamente explorar a bondade dos pais. Não é de surpreender tais reações, porque a maior parte dos pais vê nos filhos os seus próprios pais e têm medo de confessar um erro, pois antes pesadas punições o ameaçavam após os erros. Agarram-se à máscara da sua perfeição e é bem provável que sejam incapazes de se corrigir.

Quero contudo crer que todos os pais não são incorrigíveis torturadores. Penso que apesar deste medo, há muitos pais que gostariam de renunciar à esta relação de poder, que tinham há muito tempo vontade de ajudar seus filhos mas que até então não sabiam como fazer, porque sentiam medo da ideia de se abrir sinceramente à eles.

É muito provável alguns pais chegarão mais facilmente a uma discussão honesta sobre “o segredo” e que é pela reação de seu filho que farão a experiência dos efeitos positivos da revelação da verdade. Constatarão, então, por si mesmos como os valores que pregam autoritariamente são inúteis se comparados à confissão sincera dos seus erros, condição indispensável para que o adulto se veja conferir a verdadeira autoridade, por ser credível.

É evidente que qualquer criança tem necessidade de tal autoridade para encontrar o seu caminho no mundo. Uma criança a quem foi dita a verdade, que não foi educada para se acomodar com mentiras e atrocidades, pode desenvolver todas as potencialidades, como uma planta em boa terra cujas raízes não são presas de animais peçonhentos (as mentiras).

Tentei testar esta ideia com amigos, perguntei aos pais, mas também às crianças, o que pensavam. Constatei então que era mal compreendida, que os meus interlocutores interpretavam o meu propósito como se se tratasse de desculpar os pais. As crianças respondiam que era necessário ser capaz de perdoar os pais, etc.

…Mas a minha ideia está longe disso. Se os pais se desculpam, as crianças podem ter o sentimento que se espera delas o perdão para descarregar os pais e liberá-los de seus sentimentos de culpa. Seria pedir demais à criança. Em contrapartida, o que tenho em mente, é uma informação que confirma o que a criança sabe na sua carne e confira um lugar central ao que viveu. É a criança que está em foco, com os seus sentimentos e as suas necessidades. Quando a criança observa que os pais se interessam pelo que ela sentiu nos momentos de exagero, ela vive um grande alívio ligado a uma sensação confusa de justiça… Não se trata aqui de perdão, mas da evacuação de segredos que separam. Trata-se de construir uma relação nova, fundada na confiança mútua, e de levantar o véu que isolava a criança espancada, até então.
Uma vez que do lado dos pais o reconhecimento da ferida tem lugar, muitas vias obstruídas liberam-se, num processo de cura espontâneo. É dos terapeutas que se espera tal resultado, mas sem o concurso dos pais não pode acontecer.

Quando os pais se dirigem à criança com carinho e respeito, e reconhecem sinceramente a sua falta, sem dizer: “foi você que me levou a fazer aquilo pelo teu comportamento“ , muitas coisas se alteram. A criança recebe modelos que lhe permitem encontrar o seu caminho, não tenta mais evitar as realidades, o objetivo não é mais o de “reparar” de modo que agrade mais aos pais, mostra-se que se pode colocar a verdade em palavras e sentir a sua potência curativa. E, sobretudo: que ela não precisa mais se sentir culpada pelos erros dos pais já que eles reconhecem a sua culpa.

Nos adultos, tais sentimentos de culpa estão geralmente na base de muitas depressões.

Autor: Alice Miller
Embora, este texto trate das violências físicas como espancamentos, são muitos os casos em que a verdade dos abusos não é revelada, como se o pai tivesse todos os direitos sobre os filhos. Sem a nomeação do agressor a criança só pode ficar perdida. Pedir desculpas pelos exageros faz bem!
Mirian Giannella

Tradução para o português: Mirian Giannella
giannell@uol. com.br
Observatório da Clínica
http://giannell. sites.uol. com.br/EGCdoB. htm
Blog Apoio às Vítimas http://apoioasvitim as.blogspot. com

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Indicação de filme:
Hoje assisti um filme lindo na GNT. "Pelo amor de uma criança".

Pelo Amor de uma Criança
Filme / Drama
Nome Original: For the Love of a Child
Direção: Douglas Barr
Elenco: Peri Gilpin, Teri Polo, Maria del Mar, John Pyper-Ferguson, Matthew Knight, Emily Hirst, Jake D. Smith, David McNally, Rod Heatheringston, Marty Antonini
País: Canadá/EUA
Ano: 2006
Duração: 80 min
Cor: Colorido
Classificação: Programa para jovens e adultos


Sinopse:
Baseado no romance "Silence Broken", de Sara O'Meara e Yvone Fedderson, o filme conta a história de duas mulheres - interpretadas por Peri Gilpin e Teri Polo - , na luta para denunciar os maus tratos que as crianças sofrem dos adultos. Elas recolhem e tratam de crianças abusadas, órfãs, depois que encontraram Jacob, um menino que estava amarrado a uma cama. Apesar da terapia, ele não esquece dos terríveis pesadelos. Os pais saem da prisão e querem a criança de volta. Os pesadelos continuam até a descoberta de que ele foi testemunha de um assassinato cruel.

Fonte:
http://www.hagah.com.br/programacao-tv/jsp/default.jsp?uf=1&local=1®ionId=1&action=programa&canal=GNT&operadora=13&programa=0000156700&evento=000000007529866canal=GNT&operadora=13&programa=0000156700&evento=000000007529866


Por Cintia Liana