"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

15 coisas que uma mulher só entende quando se torna mãe


Fotos: We Heart it

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Guia Indika Bem no dia 15 de janeiro

Só se pode entender o que é ser mãe quando se torna uma. Por mais que se tente imaginar antes, não dá para saber bem, e só depois a gente entende tudo o que as outras falavam e viviam. É por isso que se diz tanto por aí a frase, “quando você for mãe, você entenderá” e essa frase não é para justificar os hipotéticos erros maternos.
Eu, como psicóloga todos esses anos, sempre empatizei muito com mães e crianças, mas me tornar mãe fez toda a diferença para que eu mergulhasse nesse mundo e entendesse tudo na pele.


Assim como eu descobri, muitas outras mulheres também o fizeram, então resolvi escrever esse texto e fazer essa lista para que nos lembrássemos com prazer dessa fase onde víamos a maternidade com outros olhos, olhos de expectadora e também para que as mulheres que ainda não tiveram o gozo de experienciar a maternidade, desejo que elas tenham mais compreensão com suas amigas que já são mães.
Não generalizo absolutamente nada nesse texto, até porque já escrevi outros tantos em que explico, com base nas teorias da terapia familiar intergeracional de Murray Bowen, porque cada mulher vive a maternidade à sua maneira, mas alguns sentimentos e aspectos são bem parecidos e outros até iguais para a maioria. Por isso, uso muito a expressão “boa mãe”.
Quando nos tornamos uma mãe, ou melhor, quando somos uma “boa mãe”, nossas prioridades mudam e uma certa maturidade diferente começa a aflorar. Quando falo mãe, me refiro àquela que “adotou” o filho de todo o coração e se apossou desse posto, seja ela biológica ou não.


Então vamos as 15 principais coisas que descobrimos:
1 – O celular cheio de fotos do filho. Antes de ser mãe, não dá para entender como o celular poderá ter centenas de fotos do teu filho e quase nenhuma tua. Dá vontade de tirar fotos deles em vários momentos e de vários detalhes. Nós achamos os nossos filhos lindos e eles realmente são! Fazer um selfie fica para segundo plano, afinal eles crescem rápido e é muito amor que sentimos. Mostramos as fotos deles como se fossem as únicas crianças do mundo, pois assim sentimos a alegria que ele nos proporciona e de como ela enriquece nossas vidas. Uma criança bem amada traz muita felicidade à toda família.
2 – A casa com alguns do brinquedos em cada cantinho e não parece uma bagunça. Cada brinquedo encontrado em um ângulo da casa é um sinal da presença divina deles. Eles fazem parte de tudo, de nós, da família e cada sinal disso é um milagre, a casa fica até mais bonita colorida.
3 – Quando a criança desenha nas paredes os pais não se chateiam. Tudo isso faz parte do crescimento e das descobertas das crianças, assim como os pais vão descobrindo com alegria essas novas habilidades delas. E o que são rabiscos na parede? Eles podem ser limpos depois? E mais, cada desenho é uma foto de recordação.
4 – Quando a criança faz uma cena de “mal criação” os pais não sentem raiva. Não existe criança “mal criada”, “caprichosa” ou que faz “manha”, elas simplesmente têm desejos que não podem ser saciados e por isso protestam, porque até os 3 anos não entendem algumas coisas mesmo, não têm maturidade para ter a noção de alguns limites. Chorar é um direito delas e não vale a pena se enraivar, brigar, discutir, muito menos apelar para violência física. Paciência e firmeza que isso passa.
5 – “Pipi”, “pum” e “caquinha” não dão nojo e nem um beijo melado dá agonia. Trocamos fraudas e percebemos que é algo natural, cocô de filho não dá nojo e o “pum” deles não tem cheiro ruim. Nada disso é problema, é humano, e o que vem deles não dá nenhum nojo, trocar e limpar fazem parte, é um prazer vê-los trocados e limpinhos. Ah, e o beijo melado é uma delícia!


6 – A mãe compra roupinhas para o filho e se esquece dela. É muito gostoso ver uma roupinha bonita e imaginar o nosso filho ou filha vestida, é um prazer comprá-la, pensar no outro, ser menos auto centrada. Não encontramos nada de interessante para nós porque estávamos muito ocupados pensando no bem estar deles. Além disso, eles crescem e estão sempre precisando de algo novo.
7 – Ir a aniversários de criança com prazer. Aquela gritaria e correria no meio do salão e a gente lá, aproveitando para colocar o papo em dia com as amigas. É um momento em que aproveitamos para trocar ideias com as outras mães e ver os amigos porque temos pouco tempo. Além disso e prioritariamente, é um momento mais especial ainda para o fortalecimento dos vínculos dos nossos filhos em seus círculos de amizades, com o qual ele pode brincar, dar risada, se exercitar, gastar energia e tudo o mais que a socialização pode proporcionar, e o que é mais valioso do que vê-los sorrindo?
8 – Depois do trabalho a mãe volta correndo para casa. Todo o tempo disponível após o trabalho é para os filhos, eles precisam da atenção da figura materna (mais ainda os que estão na primeiríssima infância). Além disso, a saudade é grande e o prazer de estar junto fala mais alto.
9 – O cansaço extremo e a falta de tempo materno. Os primeiros anos de vida exigem uma grande atenção e paciência, pois isso o cansaço físico e mental são incrivelmente intensos, mais ainda para quem amamenta até perto dos 2 anos, para quem fica mais tempo em casa e não tem ou não quis uma babá. A falta de tempo para fazer as coisas mais básicas para nós mesmas é rotina, temos que ter planejamento e organização prévia para realizar o que queremos. Só quando se passa por essa fase é que entendemos o que é de fato o cansaço, que pode causar até vertigens e palpitação, aí a gente faz exames e os resultados estão perfeitos. O problema é a coluna e o cansaço mesmo, e a gente acha que isso não é possível, mas é. O que nos leva adiante é o amor e a felicidade de tê-los em nossas vidas.
10 – Quando eles ficam doentes a mãe fica mal. Tudo o que uma boa mãe deseja constantemente é que o filho seja feliz e saudável e quando tem um resfriado é como uma preocupação constante e pesada que só passa quando os vemos bem novamente, então é um grande alívio. As tias podem até sentir algo parecido, mas quado somos mães sentimos algo mais forte porque aquele ser depende prioritariamente de nós para estar bem e se sentir seguro.


11 – Porque não é fácil “educar”. As crianças têm vontade independente das regras, até uma certa idade elas não têm a mínima noção de disciplina e higiene e nem auto censura. Aprendemos que é preciso ter paciência e, muitas vezes, é mais sábio esperar o tempo delas para impor certas coisas.
12 – A bolsa cheia de brinquedos. A bolsa fica cheia de coisas que são sempre necessárias, a primeira da lista é a frauda.
13 – Porque as mães defendem os filhos. Não é para “passar a mãe na cabeça” deles, mas observamos melhor as fragilidades emocionais de cada criança pequena e nos lembramos das que tínhamos quando éramos pequenos também. Empatizamos com maior facilidade e corrigimos com uma dose de afeto.
14 – Ela não tem mais vontade de sair para se divertir como antes. O que fazia sentido antes não faz mais e adotamos novos hábitos. Queremos estar saudáveis porque os nossos filhos precisam de nós, desejamos vida longa, queremos estar bem, nos sentimos muito casadas e todo o tempo que temos queremos ir devagar, aproveitar para relaxar e fazer programas mais tranquilos e de preferência bem familiares, conversamos com os amigos e colocamos as crianças para brincar. Ter família é bom demais!
15 – Entendemos mais os nossos pais, principalmente a nossa mãe. Nós entendemos que as mães não são e nem devem ser perfeitas. Valorizamos mais o esforço que os nossos pais tiveram para nos criar, educar e dar todo o afeto importante para o fortalecimento da nossa identidade.
Agradecemos por terem nos dado a vida!


Continuo na campanha “tenha filhos, mas se prepare psicologicamente antes”, faça psicoterapia, questione os seus modelos familiares, olhe para suas dores e seus dilemas, não queira filhos para companhia, nem para salvar vidas, procure ser justo e ético. E posso dizer tantas outras coisas positivas que desejo que todos sintam após se tornarem pais, porque eu sinto que os “bons pais” se solidarizam mais com as outras pessoas, ficam mais sensíveis e tolerantes, choram com mais facilidade vendo filmes em que pais e crianças sofrem (ao menos nós mulheres), com noticiários de violência e querem fortemente um mundo melhor, também para ter maiores “garantias” de que os seus descendentes estarão bem. O mundo precisa de “bons pais”!
Hoje eu entendo o que é olhar para o outro e se sentir ao mesmo tempo forte e frágil; sei o que é sentir o teu coração bater no peito de um outro ser humano; o que é ter a felicidade dependendo da felicidade do filho. É mais forte que nós e isso não é ser dependente, é amor. Quando nos tornamos mãe renascemos para o mundo, uma parte de nós se reinventa e a nossa existência passa a ter uma dose bem maior de responsabilidade e felicidade.

http://www.indikabem.com.br/filhos/15-coisas-que-uma-mulher-so-entende-quando-se-torna-mae




Fotos: We Heart it
Mother, mom, mamy, mamãe, mãe, madre, mamma

Por que consultar sempre um psicólogo?

We Heart it

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Guia Indika Bem no dia 04 de dezembro de 2014
Quando a saúde não vai bem, a cultura ocidental ainda nos leva a pensar em procurar um médico em primeiro lugar, para entender o que está ocorrendo, e normalmente esses questionamentos sobre a saúde se freiam ali mesmo. Mas será que basta?
Vejo que o processo de cura da saúde do ser humano começou no início da história da ciência de forma errada. Começou pela saúde física e não pela saúde mental, espiritual e alimentar, de onde tudo começa, de onde tudo parte, nem começou da saúde integral.
Os nossos antepassados eram de fato muito limitados em certos aspectos. Em outros, devemos admitir que a medicina conseguiu salvar muitas vidas. Mas hoje isso não basta, já está provado o quanto as emoções fazem o ser humano adoecer, a psicossomática explica muito bem.
Partindo da verdade de que toda doença nasce das emoções, da mente, esse fato nos remete também a responsabilidade em procurar respontas em nível psíquico. Aqui na Itália, por exemplo, o preconceito em se consultar um psicólogo é bem maior do que no continente Americano.
Algumas pessoas até sentem necessidade e procuram, mas não revelam a seu círculo social.
A contrário do que pensa a maioria, é preciso ser um homem forte e inteligente para colocar suas dores em evidência, incluindo para si mesmo, e procurar respostas ocultas, pois a maioria prefere apelar para os remédios, incluindo os remédios psiquiátricos, que até podem curar os sintomas, mas as causas ficam latentes e as emoções sentidas, não vistas e não trabalhadas, continuam a incomodar e a adoecer corpo e mente.
Sem falar que existem tantas práticas excelentes e alternativas para muitos casos, como a acupuntura, por exemplo, que ainda não são devidamente acreditadas e que pode curar realmente, mas basta ter um pouco mais de instrução para saber porque a indústria farmacêutica irá sempre sabotar.
Essa valorização e reforço somente dos aspectos físicos é facilmente visto na TV, por exemplo, que quando se fala em dificuldades emocionais e relacionais mostram sempre a busca pelo psiquiatra e não fala em psicólogo.
Outro exemplo é a cultura que faz os pais procurarem somente um pediatra no início da vida do filho, quando ele inicia o seu processo de adoecimento emocional e de conflito com o que o mundo dá a ele.
Sobre a saúde das crianças, eu darei um bom conselho de psicóloga, especialista, que trabalha há mais de 14 anos com famílias e crianças: Cuidado com os conselhos de alguns pediatras prepotentes que, com falas distorcidas e preconceituosas, explicam o que é de competência do psicólogo.
Pediatras não são psicólogos e psicólogos não são médicos. Os dois estão no mesmo patamar de importância na saúde. Uma ciência não está acima da outra. Pediatras cuidam da parte física, psicólogos da parte mental e emocional, que interferem no comportamento, na educação, nas relações e na felicidade.
Darei alguns exemplos de perguntas que podem se feitas a um psicólogo infantil ou de família:
Do ponto de visto psicológico, até quando é importante amamentar?; É bom o neonato dormir com a mãe?; Como as discussões ente os pais interfere na vida emocional da criança?; Será que a creche está fazendo bem ao meu filho?; Quando ele volta da casa do avós volta diferente, o que será que ocorre e como lidar com isso?; Por que o meu filho está sempre resfriado? Será que é de fundo emocional?; Como os problemas familiares do passado podem afetar a vida do meu filho?.
São perguntas que os pais, juntamente com o psicólogo, analisarão e responderão dentro de um contexto subjetivo e respeitoso. Olhando sempre as necessidades emocionais de cada criança dentro de cada contexto e história familiar e não de modo universal e determinista. Sem contar a importância da mãe se indagar e se trabalhar, pois a criança nos primeiros 2 anos de vida é um reflexo direto do que ele sente e vive.
Consulte sempre um psicólogo, como você consulta um médico e um pediatra. O psicólogo é quem vai te dar explicações, conselhos e dicas importantes para uma vida psicológica sadia para você e seu filho, interferindo diretamente no futuro. Vamos mudar a cultura pelo bem das crianças e da humanidade. Todos atentos pelo verdadeiro bem estar da família.
Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/porque-consultar-sempre-um-psicologo

We Heart it

Do que as crianças precisam

We heart it

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no dia 06 de novembro do Guia Indika Bem

Uma criança pequena precisa de muito mais que regras, disciplina e críticas, precisa de algo que a maioria dos adultos não é capaz de exercitar nem com eles mesmos: precisa de compreensão, empatia, precisa aprender a se expressar de maneira sadia e lúcida e sentir que aquilo que se passa no coração delas tem muito valor.
Nem mesmo os pais muitas vezes nem têm noção dos seus erros, sentimentos e limitações, mas estão preocupados em exigir um comportamento excelente dos filhos. Isso é honesto? Não, e isso não é possível. A criança reflete o que ela vê e sente, mesmo que os pais não se deem conta disso.
A ciência ainda sabe muito pouco sobre a mente infantil e, para piorar, a sociedade repete frases e crenças do senso comum que não ajudam em nada pais e filhos. Criança precisa de amor, precisa que os pais se enxerguem mesmo contra a vontade deles. Criança não chora e não se rebela se não sente dor ou se não se sente triste. Até o que muitos chamam de “manha”, guarda por trás uma insatisfação emocional.
Por exemplo, uma criança muito criticada e exigida, é alguém que se sente não aceito e abandonado em suas reais necessidades, e esses são sentimentos insuportáveis e traumáticos, que farão com que se instale em sua estrutura psíquica um forte sentimento de inadequação e desvalorização que o acompanharão por toda a vida e iniciarão processos de  angústia, ansiedade e baixíssima autoestima. A partir dai vem o isolamento, acompanhados de medo e muita insegurança no contato com o outro, quando ela se tornará rebelde ou alguém que faz tudo o que o outro quer, para não decepcionar, em busca de aprovação, mas muito longe de fazer vínculos fortes e permanentes e descobrir o que ela quer e quem ela é de verdade, no que deveria ser o seu processo de progressiva autonomia individual.
Coisas importantes a serem lembradas:
• Crianças sentem a noção de respeito desde que nascem, sentem quando são enganadas e negligenciadas;
• Não tenha filhos para ser feliz, se faça feliz antes e faça filhos para fazê-los pessoas felizes e, assim, você será mais feliz ainda;
• Se prepare antes de ter filhos, eles não nasceram para te salvar e nem para servir de companhia;
• Filhos não devem carregar nas costas as memórias familiares ruins;
• Filho não traz ninguém que já foi de volta;
• Filhos devem se sentir livres das expectativas neuróticas dos pais;
• Pais que fazem terapia podem se tornar bem mais fortes e preparados;
• Se o teu filho está mal olhe para você;
• Até os 3 anos e meio é o momento em que os filhos mais precisam estar integralmente na companhia da mãe e familiares;
• Crianças até os 10 anos não deveriam sofrer, pois elas não aprendem com o sofrimento, ao contrário, situações de sofrimento fragilizam a base emocional do futuro adulto;
• As dificuldades familiares percorrem muitas gerações, então é essencial trabalhar os modelos intergeracionais.
É preciso existir um movimento de preparação antes de ter filhos, pois ninguém está preparado, ao contrário, quando nascem os filhos é que as situação trazem de volta pequenos monstrinhos do passado de quando os adultos eram crianças e, sem perceber, eles ficam perdidos, sem se dar conta que essa emoções antigas embaraçam a visão e a lucidez necessárias para não repetir os velhos modelos com as criança. São situação imperceptíveis, mas carregadas de sentimento.
Deseje o teu filho, mas busque se trabalhar, se olhar, se entender, para criar uma criança feliz e ajudar na construção de um adulto maduro.

Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/do-que-as-criancas-precisam

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ainda dormem com vocês?


Por Eva Carnero
15 de dezembro de 2014

A expressão “criação com apego” (attachment parenting), cunhada pelo pediatra norte-americano especializado em paternidade William Sears, inspira-se nos princípios da teoria do apego formulada pelo psiquiatra John Bowlby em 1969, que sustentava que a criação de um forte laço emocional com os pais durante a infância é condição prévia e imprescindível para o desenvolvimento emocional correto e o estabelecimento de relações pessoais saudáveis na idade adulta.
Há alguns anos, observa-se na sociedade uma clara tendência para a adoção dos preceitos que acompanham esse tipo de criação, como demonstram discursos públicos de mães famosas, como as atrizes Elsa Pataky e Mayim Bialik (das séries Blossom e The Big Bang Theory). Entretanto, há quem questione algumas de suas recomendações. O respeitado pediatra Carlos González, autor de numerosos livros relacionados com esse tema, entre eles Bésame Mucho – Como Criar os Seus Filhos com Amor, é uma das vozes que esclarecem: “A teoria do apego não é a mesma coisa que a criação com apego, uma expressão popular de significado incerto que parece ter se resumido em pegar a criança nos braços, amamentá-la e dormir com ela. Entretanto, a teoria do apego, a verdadeira, que se apoia nos oito princípios publicados no website da Attachment Parenting International (API), não diz isso”.
“A criança estabelece um enlace emocional com os pais quando vê que, habitualmente, suas necessidades são atendidas e seu pranto é consolado. Ou seja, quando vê que lhe fazem caso”, assinala González. Nessa mesma linha, a psicóloga clínica Laura Rojas-Marcos afirma que a chave para estabelecer um vínculo forte é que a criança se sinta “protegida, querida e segura”. Ela compartilha com Bowlby a importância do apego firme para “criar e desenvolver os pilares de que uma pessoa necessita para ter uma vida adulta com menos medo”.
Até aqui, todos de acordo. O fato de uma criança se sentir protegida terá um bom reflexo em sua vida adulta. Mas quais são os limites desse abrigo ou apego? E sua relevância? Será que o carinho é uma necessidade mais básica que o próprio alimento? O certo é que os resultados obtidos em numerosos estudos indicam que isso não está longe da verdade. Muitos dos trabalhos do psicólogo Harry Harlow concluem que o ser humano tem uma necessidade universal de contato físico, independentemente da cultura em que viva.
Para chegar a essa afirmação, o especialista se apoia em um de seus numerosos experimentos com macacos rhesus, que resultaram em sua teoria da “mãe macia”. Basicamente, nesse trabalho o psicólogo separou vários bebês de suas mães logo após o nascimento. Depois, fez dois bonecos – um de pelúcia com a mesma aparência das mães e o outro, de arame e segurando uma mamadeira. Diante das duas “mães”, o macaco bebê se aproximava da que segurava o alimento só quando queria comer, e no resto do tempo ficava junto do boneco de pelúcia, suave e quente. Havia até mesmo ocasiões em que, enquanto ele comia, uma parte de seu corpo estava em contato com a “mãe macia”.
“Obviamente, a alimentação é importante na hora de criar um vínculo, mas o que se estabelece através da sensação de carinho e proteção é a base do apego seguro”, destaca Laura Rojas-Marcos. Para isso, não é preciso dormir com seu filho, nem se estressar se ele chorar por mais de cinco minutos seguidos, nem o amamentar até os 6 anos, como defendem hoje em dia muitas associações de criação com apego.
Nessa linha se situa o chamado “leito compartilhado” – quando pais e filhos dividem a cama até que estes últimos decidam ir para seu próprio quarto. O pediatra Carlos González, embora não se oponha a essa prática, nega que exista uma relação entre dormir com seu filho e criar com ele um maior vínculo.
“E a prova é que na época em que era proibido dormir com os filhos pequenos na mesma cama [na Idade Média, por determinação da Igreja, filhos e pais não podiam dormir juntos por causa da proliferação de casos em que os lactantes morriam esmagados], a maior parte deles desenvolveu um apego firme. A única diferença que vejo é que suas mães tinham de se levantar várias vezes durante a noite para ir consolá-los. Colocar a criança em outro quarto me parece simplesmente incômodo”, afirma o especialista. Ele defende a mudança da criança para outro quarto quando ela expressar seu desejo, por comodidade para a família. Também se considera leito compartilhado encostar o berço à cama dos pais.
Já Laura Rojas-Marcos tem uma posição mais próxima à rejeição dessa prática, insistindo que é importante que as crianças durmam sozinhas. “Em minha opinião, não é bom nem para a criança nem para o casal, já que favorece o desenvolvimento de personalidades dependentes”, diz a psicóloga. Mas ela reconhece haver crianças que precisam de mais tempo para deixar o quarto de seus pais, por isso é partidária de que haja flexibilidade e perseverança. Um recente estudo da Academia Americana de Medicina do Sono conclui que compartilhar a cama com os filhos acaba fazendo com que estes tenham maior dificuldade para conciliar o sono, já que dependem mais dos mimos dos pais e não são capazes de fazer isso por conta própria.
Criação sem rótulos
Embora todos concordem quanto à importância do vínculo seguro na criação do filho, as divergências surgem na hora de escolher o caminho para chegar até ele. Aqui entra outro dos pontos fortes e mais polêmicos da criação com apego: o aleitamento materno e o tempo que ele deve durar. Os defensores dessa corrente apoiam a necessidade de que a mãe dê de mamar a seu filho até os dois ou três anos de idade, com o objetivo de criar, estreitar e afiançar sua relação. No entanto, nem Laura Rojas-Marcos nem Carlos González apoiam totalmente dessa teoria.
“Nos anos 1950, quando se propôs a teoria do apego, quase nenhuma criança ocidental mamava durante mais do que algumas poucas semanas e costumava-se aconselhar os pais a não pegar muito o filho nos braços e não o colocar nunca na cama. Apesar de tudo isso, a maioria das crianças tinha um firme apego”, explica González. “As mães carinhosas e aquelas que tratam seus filhos com ternura e respeito também lhes dão a mamadeira. Da mesma forma, as mães irritadas, bêbadas ou cruéis também dão o peito”, acrescenta.
Por outro lado, a psicóloga acredita que o tempo de aleitamento é, em grande parte, uma questão de moda. “Atualmente a tendência é estender o tempo de amamentação para mais de dois anos. Mas eu me pergunto se isso é realmente é necessário – e, além disso, fico imaginando o que ocorre com a dependência, ou até mesmo a escravidão, que significa para a mãe tomar essa decisão. É obvio que, se a mãe quiser e puder, tudo bem, mas não acredito que seja o mais saudável.” A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda amamentar o filho de forma exclusiva até os seis meses de vida e seguir com o aleitamento, juntamente com outros alimentos, até os dois anos ou mais.
“Todas as crianças têm apego”, afirma González. “Ele pode ser seguro ou inseguro, mas sempre existe. O primeiro é o mais desejável, mas o inseguro [quando o bebê chora muito, mesmo nos braços de seus pais, como definiu a psicóloga Mary Ainsworth] não é nenhuma doença mental”, acrescenta. Trata-se de que os pais ou as pessoas responsáveis pela criação de uma criança se esforcem para que a balança se incline para o lado da certeza. “Basta criá-la como sempre se fez, com muito carinho e da melhor forma que soubermos”, aconselha González.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/24/estilo/1416825746_259981.html

sábado, 29 de novembro de 2014

A moda do diagnóstico de hiperatividade


Por Cintia Liana Reis de Silva
Texto escrito para este blog em 2011 e republicado no site Indika Bem em 28 de agosto de 2014.

Ela diz:
Oi, há quanto tempo…! Conheci seu trabalho e quero te pedir uma orientação. Minha filha  está precisando de ajuda, de terapia. Disseram que é hiperativa e que agora precisa voltar a tomar os remédios, porque está pior. Você pode me orientar?
Respondo:
“Oi, querida! Obrigada pela confiança em me expor o caso. Vou ousar falar algo, mas será bem resumido. Se quiser um dia conversar mais detalhadamente me fale.
Como sou especialista em Psicologia Conjugal e Familiar, tenho uma natural tendência a enxergar o comportamento da criança num contexto maior, principalmente, na família, respaldada em teorias sistêmicas. Vejo o problema ou o comportamento desagradável como um sintoma do que podemos chamar de “adoecimento” familiar e nela mesmo, na própria família, sua estrutura e organização, encontramos muitos motivos para a criança apresentar tais sintomas.
Hoje está sendo vastamente discutido essa insistência de alguns profissionais, principalmente inexperientes ou com uma visão reducionista da psique, em rotular, classificar a criança como hiperativa e, o pior de tudo, medicá-la (não sou contra a remédios, quando necessário).
Não questiono o diagnóstico de forma tão segura porque não conheço o caso profundamente, as avaliações e exames aplicados, o diagnóstico detalhado e tampouco a idade de sua filha.
Um diagnóstico de hiperatividade para uma criança com menos de 7 anos, por exemplo, normalmente é muito precipitado e perigoso, pois até essa fase ela passa por diversas mudanças e estímulos, alterando seu comportamento de forma veloz e, mesmo a hiperatividade propriamente dita, pode ser um sintoma de um problema na família, ou a relação da criança com sua própria história de vida e ele pode vir a tona através de uma patologia ou na alteração do comportamento e sua relação com o mundo.
Atualmente, sou uma profissional que só atende a criança se os pais aceitarem fazer duas sessões ao mês de terapia comigo pois, antes de tudo, eles precisam mudar seus padrões, inclusive enxergar os intergeracionais e aprender a decifrar aspectos subjacentes de sua relação com o filho. A minha experiência e os teóricos dizem que não adianta, que é inútil tratar a criança e depois reinseri-la no mesmo ambiente “adoecido”, o ambiente que a faz adoecer.
Os pais, muitas vezes, “fogem” porque se sentem em culpa, mas se já tiveram o filho, porque não encarar a “responsabilidade” de mudar a vida de todos?
Esse adoecimento é bem mais natural do que pensamos. Como se diz muito por aí, “isso acontece nas melhores famílias”. Essa frase nos remete a um alívio, para com facilidade aceitarmos o problema e encarar as mudanças, pois é difícil ser a exceção negativa.
Temos que desmascarar essa história de que família boa e feliz é a família perfeita, porque esse é um ideal, não existe família perfeita. É ainda mais bonito ver alguém lutando para se entender e ser cada vez mais saudável.
É bem mais fácil quando se assume a responsabilidade de transformar, apesar de ser mais complicado entender todo esse processo, mas colocar o foco na criança é maquiar a verdadeira face do problema maior, entende? Isso é tão claro hoje para mim…
Espero ter ajudado, iluminado um pouquinho. Estou a disposição para conversar.

Por Cintia Liana Reis de Silva
Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/a-moda-do-diagnostico-de-hiperatividade
Fonte da imagem: www.melhoramiga.com.br (Créditos e Divulgação)

Falando de adoção com o filho


Por Cintia Liana Reis de Silva
Texto escrito para este blog em 2009 e republicado no site Indika Bem em 14 de agosto de 2014.
Não existe idade ideal para a criança saber sobre o vínculo que tem com seus pais adotivos. É muito importante e saudável que os pais já contem historinhas de adoção para a criança desde a sua chegada na família, independente da idade. Assim, ela vai se acostumando com o tema e entendendo os fatos na medida em que for amadurecendo. Mesmo que não faça muito sentido para ela, o importante é que, quando passar a entender as dimensões dos fatos e os verdadeiros significados, ela irá sentir que seus pais adotivos sempre foram muito sinceros sobre sua adoção e que esse é um assunto conhecido e, melhor ainda, “permitido” na família.
O fato de alguns pais entenderem a adoção como algo negativo não significa que a criança também entenderá desta forma, mas somente repetirá esse modelo de conduta se os pais insistirem neste erro, tratando a adoção como algo vergonhoso e negativo.
Será que é justo uma criança crescer sentindo que há “algo de errado ou de misterioso” com a sua existência, com seu nascimento, com o seu lugar no mundo e na família? Será que é bom achar que é fruto de algo vergonhoso, que a sua família substituta tem que esconder, ou não falar de sua origem, como um tabu? A criança adotiva tem que crescer num ambiente que a propicie falar sobre seus sentimentos abertamente, sem vergonha ou medo.
Eldridge (2004), explica que a criança adotiva raramente fala de forma aberta sobre sua raiva relacionada ao fato de ser adotada. Porque ela acredita que estará magoando os pais adotivos e por que ela acha que os deixará incomodados, assim ela não fala e poderá expressar isso de uma forma agressiva e anti-social em algum dado momento. Como no caso da adaptação, a criança também pode manifestar tendências anti-sociais por querer mostrar que há algo de errado com ela, por estar sofrendo algum tipo de privação ou sofrendo com algum sentimento que ela não está sabendo lidar.
Afine-se, seja cúmplice do seu filho no processo de descoberta de sua identidade, e o conhecimento e aceitação de suas origens fazem parte disso. Quando ouvir perguntas-afirmações do tipo “eu vim de sua barriga, não foi, mamãe?”, fale tranquilamente que não, mas que para amarmos alguém como filho ele não precisa “sair da barriga”, pois o amor se faz no coração. Quando perguntar sobre a família biológica tente responder o que sabe de uma maneira simples e o que a criança tem capacidade de ouvir e aceitar, mesmo que não entenda tudo, ela tem o direito de saber.
Por Cintia Liana Reis de Silva
Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/falando-de-adocao-com-o-filho
Fonte da imagem: www.somoslanoticia.com (Créditos e Divulgação)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

8 coisas que pais adotivos jamais devem fazer

Pin it (Brasil Post)

Por Ann Brenoff
Publicado me 14.11.14 pelo Brasil Post

Sou mãe de duas crianças incríveis nascidas na China. Adotamos Sophie quando ela tinha 5 anos - agora ela tem 17. Simon tinha 4 quando o adotamos; hoje ele está com 14. Baseada na minha experiência, eis oito coisas que pais adotivos jamais devem fazer.
1. Contar a história do seu filho para todo mundo.
As circunstâncias que levaram seu filho a ser adotado são parte da história dele. A história não é sua e, portanto, você nada mais é que a fofoqueira da cidade se sair falando do assunto para qualquer um que perguntar. Vivemos em uma cultura que incentiva o compartilhamento, mas não é da conta de ninguém se a mãe de sua filha era uma adolescente de 16 anos que largou o bebê num restaurante de hotel frequentado por americanos para que ele fosse encontrado e levado para os Estados Unidos.

Assumo a culpa por ter falado demais. Uma das coisas que compartilhei além da conta foi a história dos meus filhos. O fiz com a mais nobre das intenções: passei anos desfilando meus filhos com a esperança de que outras pessoas também adotassem. Estava errada, por mais honrada que fosse minha missão. Me emendei. Hoje em dia, você pode conhecer meus filhos, ver o quão incríveis eles são. Mas, se eu sentir curiosidade da sua parte, corto logo de cara. Vou me gabar das conquistas deles. Mas as histórias? São deles, e confio no julgamento dos meus filhos para decidir se elas serão compartilhadas, e com quem.
2. Negar que você é egoísta ou fingir ser abnegada.
Odeio pessoas que dizem "Deus abençoe" para mim quando veem nossa família. O que elas querem dizer, na realidade, é que eu devo ser alguma alma bondosa que resgatou esses dois pobres órfãos. Esse tipo de pensamento é ofensivo - e completamente equivocado.

Para começar, adotei meus filhos porque queria uma família, e a adoção internacional era a única alternativa possível para mim. Não foi um ato de abnegação que me levou a ser mãe; te garanto que agi somente em interesse próprio. Em segundo lugar, não resgatei ninguém. Na verdade, como dizem muitas mães adotivas, nós é que fomos salvas, não o contrário.
3. Agir como se eles não tivessem tido pais antes de você.
Meus filhos nasceram de outras pessoas. É natural que eles queiram saber quem são seus pais naturais, onde eles moram, porque decidiram doá-los. É um buraco negro no coração de toda criança adotada que precisa ser preenchido com a luz do sol. Não sinto inveja nem raiva quando minha filha acende uma vela no bolo de aniversário para lembrar da mãe biológica. Não enlouqueço quando ela escreve um bilhete para a mãe e o guarda numa caixa secreta. Digo para meus dois filhos o que eu realmente sei sobre suas famílias, o que não é muito, infelizmente. Não especulo nem conto mentiras só para que eles se sintam melhor. E, se meus filhos decidirem se juntar aos milhares de outros chineses adotados que estão começando a buscar suas famílias biológicas, darei todo apoio.

Sou plenamente ciente de que, para que eu tivesse a minha família, duas mulheres do outro lado do mundo sofreram uma perda terrível. Não consigo imaginar a dor delas. Não sei o que lhes diria. Mas não vou ignorar sua existência.
4. Esperar gratidão ou apreciação por tê-los adotado.
Você pode esperar que uma criança adotada aprecie tudo o que você faz por ela, incluindo o rodízio para levá-la à escola e as incontáveis apresentações de dança que você teve de aturar - e o mesmo vale para um filho biológico. Mas você não pode nem deve esperar que eles sintam gratidão por terem sido adotados. Eles foram uma parte da transação sem direito a voz. Foram os bens negociados. Nunca puderam dar opinião sobre o que estava acontecendo com eles ou sobre o que seria seu futuro.

Sei que minhas crianças se perguntam como teriam sido suas vidas se elas não tivessem sido adotadas. Eu também penso nisso. De maneira geral, sei que eles estariam bem, pois ambos são sobreviventes. A adoção, para eles, foi uma troca. Ter a oportunidade de ter uma família significou abrir mão da cultura, da língua e de tudo o que era familiar para eles - comida, rostos, amigos --, literalmente da noite para o dia. A gratidão é uma faca de dois gumes.
5. Dizer que você "nasceu" para ser pai ou mãe de seu filho adotivo.
Muitos pais e mães adotivos procuram ligações com a criança que adotaram. Entendo essa necessidade. O que não entendo é o desprezo pelos pais biológicos das crianças. Se você "nasceu" para ser mãe da criança, porque outra mulher a deu à luz? Será que foi um plano perverso de Deus causar sofrimento a uma mulher da Guatemala, da Coreia ou do Kansas só para que você pudesse ser feliz?

Acredito que há maneiras de demonstrar o quanto amamos nossos filhos. Digo aos meus o tempo todo que eles são a luz da minha vida, que sou honrada de ser mãe deles, que os amo mais do que minha própria vida. Mas passo longe do sobrenatural ou da intervenção divina. O que nos uniu foi um burocrata chinês casando dossiês de pais com papeis de órfãos. Nada mágico.
6. Tratar mal os idiotas.
Tenho pavio curto e, como escritora, disponho de um enorme arsenal de palavras. É sempre tentador ser grossa com os idiotas que fazem perguntas pessoais sobre seus filhos. Mas, antes de adverti-lo a não fazer esse tipo de coisa, permita-me pedir desculpas à mulher no supermercado que, em 2004, viu minha filha chinesa sentada no meu carrinho e me perguntou se o pai dela era asiático. Minha resposta: "Não sei, não reparei direito na cara dele, se é que você me entende (piscadinha)". Bom, é claro que ela saiu andando.

Me arrependo de ter me comportado assim. Me arrependo por uma única razão: milha filha viu tudo. Apesar de ela não ter entendido o sarcasmo, ela pegou o tom. A vida é curta demais para responder a idiotas.
Quem adota crianças que não se parecem consigo sempre vão ouvir perguntas. Algumas são difíceis de engolir. "Quanto ele custou?" "Por que você não adotou uma criança americana?" "Ela fala asiático?" (Por onde começar a responder uma dessas?)
Você não deve explicações a ninguém. Aprendi a lição e a ensinei aos meus filhos: a história é deles. Eles podem falar o quanto quiserem, mas não têm obrigação de responder para ninguém, mesmo que seja um adulto ou um professor quem estiver perguntando. Sim, professores são os piores na hora de invadir privacidade.
Meus filhos e eu agora respondemos as perguntas com outras perguntas. "Por que você quer saber?" geralmente serve para acabar com a conversa. Ou então explicamos que não queremos falar do assunto. "Considero sua pergunta muito pessoal." Dá vontade de gravar a reação de um adulto quando ele ouve isso de uma criança de cinco anos. É muito engraçado.
Mas a regra de não ser grossa com idiotas tem uma exceção. Essa não pode passar em branco: "Por que você não adotou uma criança americana? Muitas crianças americanas precisam de uma casa".
É uma pergunta que costuma ser feita por ignorantes. Crianças americanas são adotadas o tempo todo logo depois do nascimento. Crianças americanas mais velhas às vezes entram no sistema de assistência social - um processo considerado frustrante por muitas famílias que querem adotar. Mas, mais importante, a pessoa que fez a pergunta não tem nenhum interesse em informações sobre adoção e provavelmente está só acenando com uma bandeira patriótica na sua cara.
7. Pensar em seu filho como um filho adotivo.
Ele é seu filho. Ponto. Toda criança, não importa de onde tenha vindo, é parte da sua família. Filhos adotivos não deveriam ter esse adjetivo. Alguns podem ter problemas ligados ao fato de que foram adotados, mas a maioria, não. É melhor para todo mundo se você parar de achar que qualquer problema de desenvolvimento tem a ver com a adoção. Crianças hiperativas, adolescentes rebeldes, filhos com dificuldades para ler - nem tudo está relacionado à adoção e tudo vai ficar mais fácil se você aceitar isso.

8. Achar que dá para devolver um filho adotado.
Criar filhos - biológicos ou adotados - é o trabalho mais difícil da sua vida. Quando você dá à luz seu filho, a ideia é que você vai amá-lo e lidar com qualquer problema de saúde ou de desenvolvimento que ele venha a ter.

A ideia deveria ser a mesma nas famílias que adotam. Mas existem uma coisa chamada ruptura na adoção que me deixa nauseada. É quando uma família adota uma criança mas não dá conta dela - e aí tenta encontrar caminhos (geralmente online) para passá-la para outra família.
A Reuters publicou uma reportagem a respeito um ano atrás. Muito do problema está relacionado à falta de apoio para as famílias, que claramente não estão preparadas para as crianças. Também culpo as agências de adoção por não fazerem uma seleção mais rigorosa dos que se candidatam a adotar.
Mas o que me aterroriza é a ideia de que pais anunciem seus filhos indesejados na internet e driblem o governo para passá-los para outras famílias. Que tipo de dano acontece quando uma criança passa de casa em casa?
A adoção é só um meio para trazer uma criança para sua família. Não conheço classificados online para crianças biológicas, então como é possível que eles existam para crianças adotadas?
Muitas partes do processo de adoção não se parecem em nada com dar à luz uma criança. Mas uma coisa deveria ser idêntica: nossos filhos são nossos filhos para sempre.
Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.
Fonte: http://www.brasilpost.com.br/ann-brenoff/8-coisas-que-pais-adotivo-jamais-devem-fazer_b_6152252.html?utm_hp_ref=brasil-familia

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Veja dez perguntas que você deve se fazer antes de pensar em adoção

Fui umas das fontes de uma matéria do Portal Uol pela segunda vez. 
Essa matéria esta' o'tima. 
Confiram!

29 de outubro de 2014
Por Louise Vernier e Rita Trevisan, Do UOL, em São Paulo
A adoção deve acontecer no momento certo e ser tratada como um importante projeto de vida. É preciso que a família amadureça a ideia antes de receber a criança no lar, o que implica em refletir sobre questões centrais que envolvem a criação e a educação de um filho.
"É fundamental considerar que, embora a criança tenha sido gerada em outro ventre, ela será sempre um filho, com tudo de bom e com todas as responsabilidades que esse nome pode trazer", diz Cintia Liana Reis de Silva, psicóloga pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas, especialista em adoção.
Nesse processo, é interessante avaliar expectativas, crenças e, principalmente, a motivação para adotar. "O que vai garantir a saúde emocional da criança é um vínculo afetivo sadio com os pais. Essa criança precisa ser incluída na família como um filho, apenas isso", afirma a psicóloga Luciana Leis, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Saiba mais sobre o assunto, reflita e avalie se está preparado para dar esse importante passo.

1. Qual é a sua motivação para adotar?

Essa é uma das questões mais importantes sobre as quais você deve pensar. "A adoção não deve ser caridade, antes de tudo, deve-se ter o desejo de criar e educar um filho. Afinal, adotar significa se tornar mãe e pai para sempre, para as alegrias e para os momentos mais difíceis", afirma a psicóloga Lidia Weber, professora e pesquisadora da UFPR (Universidade Federal do Paraná), autora de 12 livros sobre relações familiares, entre eles "Pais e Filhos por Adoção no Brasil"" (editora Juruá).
Se os pais descobriram a infertilidade ou perderam um filho genético, é fundamental viver o luto e encontrar o equilíbrio emocional, antes de partir para a adoção. "A adoção nunca deve ser encarada como um último recurso e, sim, como mais um caminho para a chegada de um filho", diz Luciana.

2. Quais são as suas expectativas?

Fantasiar demais sobre a criança e o papel que ela terá na família é algo que tende a prejudicar a relação. É preciso dosar as expectativas, a começar pelo momento do primeiro encontro. "Pode ocorrer um momento mágico, em que os adotantes visitam um abrigo e a criança que vem falar com eles é aquela que eles foram conhecer, mas nem sempre é assim. Se a criança for pequena, pode estranhar, chorar, não querer ir no colo. Se for maior, também poderá se afastar", afirma Lidia.

É preciso ter em mente que a criação do vínculo emocional leva tempo e que até os pais biológicos passam por esse processo. "O amor nasce da convivência e não do parto. Toda relação de amor, para existir, precisa que as pessoas envolvidas se adotem", diz Cintia.

3. O que você sabe sobre adoção?

"Cuidar, educar, socializar e amar um filho é uma das tarefas mais difíceis e gratificantes que existe e todos que têm a pretensão de viver essa experiência, seja pele genética, seja pela adoção, devem se preparar", declara Lidia. Segundo a psicóloga, o cuidado vai além da habilitação formal, que os adotantes precisam obter nos Juizados. É interessante preparar-se tecnicamente: ouvir palestras, ler livros, conhecer histórias de quem já adotou e frequentar grupos de apoio à adoção.
"Não basta ter sido filho para saber criar um filho. No caso da adoção, é essencial se preparar para lidar com o fato de que a criança tem uma outra origem, de forma segura e leve", diz Lidia.

4. Como estão as suas emoções?

Antes de ter um filho, adotado ou não, o ideal é conhecer seus recursos e fraquezas, trabalhar as próprias carências e medos, aprimorando o autoconhecimento. "Outra questão importante é avaliar o modelo de educação recebido dos pais. E ir além da própria história de filiação: procurar não repetir erros e ainda desenvolver novas habilidades", recomenda Lidia.

5. Sua família já conhece o seu projeto?

É possível que nem todos os parentes estejam de acordo com a adoção, mas eles devem ser avisados com antecedência dos seus planos. Também vale a pena dizer que espera apoio e que não vai tolerar preconceitos e diferenças. Entre o casal, é essencial que haja um consenso sobre todas as questões que dizem respeito à adoção. "Se há alguma crise na família ou entre o casal, isso precisa ser resolvido antes da chegada da criança. Porque ela vai exigir muitos ajustes na rotina. Se já houver um problema de relacionamento, a tendência é aprofundá-lo", diz Luciana.

6. Você tem estrutura para criar um filho?

Isso implica em ter uma vida financeira equilibrada e estável, em ter espaço na casa para uma criança e em viabilizar, na rotina, alguns intervalos que possam ser dedicados exclusivamente ao filho.
"Os aspectos psicológicos também são importantes. Não basta desejar muito um filho, é necessário estar preparado para uma relação que vai durar a vida toda, estar pronto para enfrentar adversidades e também para curtir as alegrias associadas à experiência", afirma a psicóloga Lidia Weber. "Ter um filho não é igual ter uma boneca para enfeitar e mostrar aos outros: é construir uma história, é trabalho duro e exige energia, tolerância e disposição", completa a especialista.

7. Está preparado para lidar com os possíveis preconceitos?

A discriminação pode vir de quem menos se espera, de forma velada ou não. "Muitas pessoas vão apoiar, mas é muito comum que, ao anunciar a decisão de adotar, surjam comentários como: 'Nossa, que coragem!' ou 'Por que você vai fazer isso?'. O importante é que os pais se sintam absolutamente confortáveis com a decisão que tomaram. Além disso, aconselho treinar respostas adequadas para essas situações desafiadoras", diz Lidia.
Se quem adota é uma pessoa solteira ou um casal homossexual, o traquejo para lidar com comentários indelicados terá de ser ainda maior. "O preconceito que vem de fora não deve prejudicar a relação com a criança. Mas os pais precisarão estar preparados para enfrentá-lo e até para dar um suporte psicológico ao filho", explica a psicóloga Luciana Leis.

8. Você já sabe como vai contar à criança sobre a adoção?

Existe um consenso entre os especialistas de que a criança deve conhecer sua condição desde os primeiros dias no novo lar. "Seu filho tem o direito de conhecer a própria história de vida e deve se orgulhar dela, afinal, não há vergonha alguma em ter sido adotado. Além disso, é preciso considerar que é sempre melhor saber pelos próprios pais da adoção do que por meio de terceiros", diz a psicóloga Cintia Liana Reis de Silva.
Quando a criança começar a perguntar sobre a origem dos bebês, por volta dos três ou quatro anos de idade, os pais já devem introduzir a adoção como mais um caminho para a constituição da família.

9. Se seu filho pedir mais apoio emocional, como vai reagir?

A maioria das crianças que está na fila da adoção sofreu algum tipo de negligência, abandono ou maltrato em sua família de origem. Portanto, os pais adotivos deverão estar emocionalmente equilibrados para apoiar o filho sempre. "É possível que, em uma idade mais avançada, a criança, principalmente a institucionalizada, teste o vínculo. Ela tem medo de ser novamente abandonada, precisa se sentir amada e segura no novo lar", diz Luciana.
Isso não significa dizer que as crianças adotivas terão mais problemas de relacionamento com seus pais do que os filhos biológicos. "Geralmente, as crianças sabem que estão indo para uma condição muito melhor e estão prontas para se apegarem e estabelecerem laços de afeto com facilidade", afirma Lidia.

10. O que fará se, mais tarde, seu filho quiser conhecer os pais biológicos?

A psicóloga Lidia Weber, pesquisadora e autora de diversos livros sobre o assunto, afirma que, ao contrário do que se imagina, a maioria dos filhos adotivos não tem informações sobre sua família de origem nem deseja conhecê-la. "A maioria dos filhos adotivos que eu entrevisto diz que está feliz com sua família atual e tem a ideia de que a família de origem o abandonou mais por falta de condições financeiras do que por falta de amor", diz Lidia.
No entanto, se a criança quiser conhecer os pais biológicos, tem o direito de fazê-lo. "O ideal é que os pais adotivos expressem empatia pela família de origem da criança, que não mostrem raiva nem queiram apagar as experiências que ela viveu com os outros pais. Não é preciso ter medo de dividir o amor da criança com os pais biológicos, se eles forem encontrados. A filiação é garantida pela via emocional e não pela via biológica", afirma Lidia.

Fonte: http://mulher.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2014/10/29/veja-dez-perguntas-que-voce-deve-se-fazer-antes-de-pensar-em-adocao.htm