"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Continuação - "Procuram-se pais"

Foto: Elena Kalis

A prioridade para adotar no Brasil é de casais brasileiros residentes aqui e depois de casais brasileiros que moram no exterior. Eliminadas essas possibilidades, as crianças maiores de 5 anos podem ser encaminhadas para a adoção internacional. “Procuramos uma família para uma criança, e não uma criança para uma família”, esclarece Antonio Carlos Berlini, diretor da ONG Humanitária Amici dei Bambini para o Brasil e advogado e presidente da Comissão Especial de Direito à Adoção da OAB-SP. O processo pode levar de um a três anos. O casal encaminha o pedido à autoridade de seu país, e o juiz indica uma entidade de adoção. Os adotantes são preparados por psicólogos e assistentes sociais. A entidade faz um cruzamento de informações com alguns países, indicando as crianças que poderiam se adaptar à família. Se o casal aceitar a sugestão, um dossiê com suas informações segue para o país escolhido. No Brasil, a entidade local faz a habilitação junto à Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional (Cejai), que avalia o pedido e o encaminha ao juiz estadual. O casal entra na lista de estrangeiros habilitados à adoção. O juiz autoriza que a criança seja apresentada aos “novos” pais por meio de fotos. Diante da resposta positiva do casal, a vinda dele ao Brasil é liberada. A entidade providencia o primeiro encontro de pais e filhos na vara ou no abrigo. Começa o estágio de convivência, que leva no mínimo 30 dias, período fundamental para que pais e filhos se aproximem. Ao final da convivência, o promotor dá um parecer e o juiz emite a sentença final. Mais 15 dias para providenciar a documentação e eles podem viajar. O acompanhamento continua por dois anos com relatórios que devem ser enviados para o Brasil a cada seis meses.

Fonte: http://claudia.abril.com.br/materias/4638/?pagina6&sh=31&cnl=32&sc=

Postado Por Cintia Liana

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Continuação - "Tinha sonhado tanto com ele"

Foto: Revista Cláudia. Soleda, Yves e Leandro.

A espanhola Solédad, 50 anos, vive na França desde 1963. Há 22 anos, conheceu o francês Yves, 48, apaixonaram-se e há 12 dividem o mesmo teto.

Mãe do policial Julien, hoje com 27 anos, do primeiro casamento, Solédad queria muito ter um filho com Yves. Foram três tentativas de gravidez interrompidas.

A ideia da adoção surgiu, mas Yves não se entusiasmava, talvez por ainda nutrir a esperança de ter o próprio filho. Em janeiro de 2003, ele revelou o desejo de adotar uma criança. Os dois iniciaram, então, o processo burocrático. Sem exigências de etnia, o pedido foi encaminhado ao Brasil pela associação autorizada pelo governo francês, a Edelweiss. “Tudo o que queríamos era uma criança para amar e fazer feliz”, resume a mãe.

Começava a espera. Cada toque de telefone fazia o coração daqueles pais bater mais forte. Espalharam a notícia para os amigos e a família, prepararam um quarto lindo, colorido e cheio de brinquedos para o filho. Quantas vezes fui chorar naquela cama me perguntando: ‘Quando você estará aqui, meu pequeno?’ ”, lembra Solédad.

Em maio de 2006, um e-mail da associação avisava que haviam encontrado um menino de 5 anos, hiperativo e sociável. “Tínhamos 24 horas para dizer se queríamos. Logo respondemos sim”, conta ela. Poucos dias depois, ela recebeu em casa fotos do menino. Mais quatro meses e eles desembarcaram em Guarulhos (SP) na manhã do dia 15 de setembro. No início da tarde, foram levados ao orfanato para o tão aguardado encontro. Tinha sonhado tanto com ele, imaginado a doçura de sua pele, seu cheiro, o som da sua voz... os minutos pareciam horas”, relembra Solédad.

Quando Leandro chegou ao local onde o esperavam, ele se jogou nos braços de Yves. “Foi a primeira e única vez que vi meu marido chorar. Em seguida, ele me abraçou e ficamos assim, chorando e nos tocando por alguns minutos. Todos os nossos esforços e a espera haviam sido recompensados e os momentos de tristeza e dúvidas tinham chegado ao fim.”

Léandro tinha 5 anos e 8 meses naquela ocasião. As primeiras horas de convivência foram tranquilas, mas no dia seguinte o menino começou a se rebelar. Passou a evitar os carinhos da mãe e lhe dirigir palavrões quando se deu conta de que ela entendia o que ele dizia por ser de origem espanhola. A cada repreensão, ele respondia com mais agressividade. Com Yves, o comportamento dele não se alterou. “Comecei a pensar que ele nunca iria me amar, que a adoção não daria certo”, admite Solédad. “As quatro semanas de convivência programadas transcorreram assim, mas Yves e Solédad perceberam que o menino estava testando-os para saber até que ponto eles o queriam, se seria amado apesar do mau comportamento. Léandro já havia sido adotado uma vez por brasileiros que o devolveram ao abrigo.

No final de outubro daquele ano, a família retornou à França. Uma grande surpresa os aguardava no aeroporto. Estavam todos lá, parentes e amigos, ansiosos para conhecer o novo membro da família. Dali em diante, as férias tinham terminado e era preciso encarar a realidade. Léandro continuava a rejeitar Solédad ao mesmo tempo que se aproximava cada vez mais de Yves, o que acabou gerando conflitos entre os pais. “Fiquei com ciúme daquela cumplicidade”, confessa a mãe. Pouco a pouco, as tensões se acalmaram, e a família encontrou seu ritmo de vida normal.

“No primeiro dia de aula, diante da escola, ele apertava nossas mãos, até que ouviu um colega gritar ‘C’est Léandro qui est arrivé’ (Léandro chegou). Todos vieram recebê-lo e vimos o alívio em seu rosto. Em oito meses, ele já dominava o francês e nunca mais quis falar português. Percebemos que desejava ser como os outros. A única diferença é a cor de sua pele.

Ele é gentil, afetuoso e adorado pelos amigos”, descreve a orgulhosa mãe. “Sempre dizemos a ele que, aconteça o que acontecer, nós estaremos aqui e que o amamos muito. Quando perguntamos a ele se nos ama, ele afirma com toda força: ‘Oui’. Tenho certeza de que o destino armou esse encontro para nossa maior e grande felicidade.”



Postado Por Cintia Liana

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Continuação - "Adoção de crianças brasileiras por estrangeiros"

Foto: Elena Kalis

A linguagem do amor e do olhar

Alguém já teve a oportunidade de acompanhar um nascimento quádruplo? Pois eu, repórter, tive essa alegria. E o local do belo acontecimento que testemunhei numa cinza manhã de quarta-feira, em plena e atípica primavera paulistana, não era habitado por médicos nem enfermeiras. Tampouco tinha salas de parto e berçários. Um hotel na zona sul de São Paulo hospedava Marco*, Bruna*, Cecília* e Carolina*. Marco e Bruna, os pais. Cecília e Carolina, as filhas. Um casal de italianos na faixa dos 50 anos, juntos há 18, visivelmente felizes e unidos. Elas, duas meninas brasileiras de 6 e 7 anos, abandonadas pela mãe em um abrigo. Eles, cheios de amor para dar aos filhos que não conseguiram ter de forma natural, e elas precisando do afeto e dos cuidados paternais que a vida nunca lhes proporcionou. Naquela manhã nublada de novembro, Marco, Bruna, Cecília e Carolina estavam se reconhecendo no estágio de convivência. De um total de cerca de 50 dias que dura esse período, aquele era o 17º. O apartamento já tinha ganhado vida e estava tomado por brinquedos espalhados pelo chão e pelas vozinhas das meninas. Entre expressões por vezes assustadas com a constatação de que o sonho estava se concretizando, Marco e Bruna contaram a bela história desde o início. Há cerca de cinco anos, o casal partiu para a adoção depois de algumas tentativas malsucedidas de gravidez. Na Itália, o pedido é dirigido simultaneamente para adoção nacional e internacional. Eles não especificaram gênero, características físicas, nacionalidade, raça, mas se dispuseram a adotar uma ou duas crianças. Foram dois anos de preparação psicossocial até o telefone tocar, no dia 9 de agosto, com a notícia. “Estávamos no início das férias e a sede da entidade, a Amici dei Bambini, ligou informando que tinha encontrado as duas crianças no Brasil”, lembra Bruna. A nova tanto esperada causou um susto. Na hora, o impacto para mim não foi tão positivo”, confessa Marco. “Depois de algum tempo, fui me acalmando. Algo acendeu em mim e veio a emoção.” No final de outubro, os italianos desembarcaram em São Paulo – primeira vez no Brasil – para conhecer as meninas, cujos rostinhos tinham visto por fotos. “No caminho até a instituição, não conseguia parar de imaginar o que iria acontecer em alguns minutos”, lembra o pai. A mais velha e extrovertida, Cecília, foi logo abraçando a mãe. “Quando a vi de pertinho, achei que ela parecia menor do que na foto. Impossível descrever o primeiro abraço. Foi como um nascimento”, conta Bruna, emocionada. Emoção que só se intensifica a cada dia de convivência com as filhas. “Não é fácil, viu?”, diz Marco. Claro que não. Tudo é novidade, para eles e para elas. Afinal, eles estão se conhecendo, cada qual com sua personalidade, seus medos, suas dúvidas e desconfianças. Motivos não faltam para Cecília e Carolina: elas já haviam sido adotadas por um casal brasileiro e foram devolvidas depois de terem presenciado muitas brigas. A figura masculina, rara nos abrigos, ainda causava estranheza. “Elas ficam com vergonha”, diz Marco. No início, elas disputavam quem se aproximaria dele primeiro, até que o conflito virou briga. Peguei as mãozinhas delas, juntei às minhas e às da Bruna e disse: ‘Esta é uma família, e aqui não se deve brigar’. Foi uma surpresa, porque elas não foram castigadas.” Crianças que são, as meninas pintam e bordam. Sujam a camiseta, desarrumam o banheiro, derramam suco... O casal vai se acostumando com a rotina de dividir o espaço com as pequenas. O trabalho é longo, eles sabem. A mãe, mais paciente; o pai, mais rígido. Equilíbrio fundamental para quem educa. “Um dia, para nos agradar, elas lavaram todo o banheiro com o detergente da louça”, contam os dois, orgulhosos. Nesta fase de reconhecimento, a língua é ainda a maior barreira para o convívio. Eles falam pouco o português, mas elas já não se apertam tanto com o italiano dos pais. “É a linguagem do amor”, garante Bruna. “E do olhar, que é internacional”, emenda Marco.


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Aguardem a continuação da matéria nos próximos dois posts.


Postado Por Cintia Liana

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cintia Liana também é citada no site da Revista Cláudia

"Adoção de crianças brasileiras por estrangeiros"

Crianças brasileiras precisando de pais que as acolham e amem. Casais estrangeiros em busca dos filhos que não puderam gerar. Quando essas duas realidades se cruzam, há uma explosão de sentimentos: amores represados, alegrias, conflitos, incompreensão. Superados os obstáculos, nascem novas famílias – e uma esperança para meninos e meninas que tinham perdido a capacidade de sonhar

Silvia Braccio

Foto: Revista Cláudia

Ter um filho é uma das decisões mais importantes que se pode tomar na vida – senão a maior delas. O que dizer de quem opta por acolher um filho gerado em outro ventre? E o que dizer ainda de alguém que escolhe amar uma criança crescida, que já viveu em seus 5, 6 ou 7 anos experiências de rejeição, abandono, falta de amor? E se esses meninos e meninas ainda falarem outra língua, tiverem sido criados até ali em uma cultura completamente diversa? É desse cruzamento, de crianças que não encontraram no próprio país uma família que as acolhesse e de casais estrangeiros ávidos por doar todo seu amor ao filho que a vida não lhes deu de maneira natural, que surge a adoção internacional. Pode haver doação maior? Pessoas que não raro atravessam um oceano e movem fundos e mundos para exercer o papel de pais. Mergulham em um universo duro de dossiês e argumentos para provar que, sim, têm amor, condições psicológicas e financeiras para resgatar dos abrigos crianças abandonadas e transformá-las em filhos do coração. “O pré-requisito para uma adoção de sucesso é o desejo de amar”, resume Cintia Liana, psicóloga especialista em adoção e família, que já acompanhou mais de 50 processos internacionais no Brasil. “Há muitos preconceitos em torno da adoção de crianças mais velhas. É preciso transformar o desejo do filho ideal no do filho possível.” Qualquer adoção é baseada no princípio de que um casal não tem que ter um filho, mas toda criança tem que ter uma família. CLAUDIA apresenta quatro histórias de casais estrangeiros que sempre acreditaram nisso.

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Um encontro escrito nas estrelas

Eles eram o número 146 da lista de adoção. Queriam uma menina, recém-nascida, de olhos azuis. Era o ano de 1997, e os franceses Claude* e Francine*, que viviam no Brasil desde 1989 por causa do trabalho dele, já tinham a cidadania brasileira. Entraram, por isso, na fila nacional. Na planilha de informações que tiveram que preencher, se dispuseram a adotar duas crianças. Pronto, informação preciosa para fazê-los pular da 146ª para a sexta posição. Foram nove meses de espera até o anúncio de que dois meninos gêmeos estavam à espera de novos pais. A resposta tinha que ser dada no mesmo dia. “Liguei na hora para Claude e, se tivesse dito que eram três crianças, ele aceitaria do mesmo jeito”, acredita Francine. Faltava aguardar a aprovação do juiz, o que poderia levar uma semana. “Eu ligava todos os dias para saber se ele havia decidido, até que veio a confirmação oficial.” A história de Claude e Francine destoa de outros pais estrangeiros porque eles adotaram bebês – o que não costuma acontecer na esfera internacional, que recomenda a adoção de crianças maiores de 5 anos. Os meninos tinham 3 meses e se encontravam na extinta Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). Eram prematuros, estavam doentes, tinham asma e bronquite. “Foi amor à primeira vista.” Chegaram em casa com os dois bebês e encararam uma rotina enlouquecedora. “Ficamos quatro anos sem dormir”, conta Francine. Breno* tinha refluxo e alergia ao gato da casa, o que eles só descobriram depois de muitas noites insones. O menino não ganhava peso e, quando mamava, vomitava em seguida. Alain* crescia normalmente, mas demonstrava uma clara rejeição pela figura feminina: só queria saber do pai. “Para ele, todas as mulheres eram mães que poderiam machucá-lo e abandoná-lo”, explica Francine. Já Breno parecia ter medo de tudo e passou um ano sem esboçar um sorriso. Hoje, aos 13 anos, Breno e Alain preferem não conversar sobre a adoção, mas sempre souberam de suas origens. Claude contava uma história: “Era uma vez em São Paulo dois meninos procurando pais e dois pais em busca de dois filhos... até que nos encontramos.”

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Foto: Revista Cláudia. Catherine e Dayane na festa de 13 anos.

Mãe solteira por adoção

Sempre quis ter filhos, mas até os 40 anos isso não me preocupava. Um dia, despertei para o fato de que ainda poderia estar em tempo. Aquela ideia começou a martelar na minha cabeça, só que nem namorado eu tinha. Optei, então, pela adoção. Tenho absoluta certeza de que os laços de sangue não são fundamentais para sustentar relações fortes.

Aqui na França, trabalho como terapeuta ocupacional na reabilitação de crianças com deficiência motora e sei bem o que representa ser pai ou mãe. Comecei o processo em fevereiro de 2001 e passei nove meses me preparando por meio de encontros com assistentes sociais e psicólogos. É um período muito importante de reflexão que mexe demais com a gente. Com tudo aprovado pela Justiça, encontrei uma entidade que aceitou meu dossiê – não era tão simples assim para uma mulher solteira.

A Edelweiss, associação autorizada pelo governo francês, me colocou em contato com casais que haviam adotado crianças brasileiras. Queria uma criança em idade escolar, em torno dos 7 anos. Meu pedido seguiu para o Brasil em junho de 2002. E ali começou o infindável período de incertezas, inquietudes e esperança. Já haviam me prevenido de que a espera levaria em torno de dois anos.

No dia 15 de julho de 2003, um telefonema mudou minha vida para sempre. Lembro de cada detalhe daquela ligação: “Temos uma menina de 7 anos que se chama Dayane”. E ainda era uma menina. O presente não poderia ser mais completo. Eu poderia pensar e dar a resposta no dia seguinte. Por que esperar mais? Para ver uma foto? Eu já me sentia mãe dela. Quinze dias depois, parti para o Brasil. Não lembro absolutamente nada da viagem, dormi as 12 horas de voo. Cheguei ao Rio de Janeiro e segui para Vitória, no Espírito Santo. Na manhã seguinte, mais três horas de viagem me levariam ao encontro da minha filha em uma cidadezinha do interior. E voilà, a minha menina estava diante de mim, me descobrindo à medida que eu a descobria. A vontade era de abraçá-la, mas fui conversando calmamente até que ela me pegou pela mão e me levou para conhecer o orfanato. Assim, de mãos dadas, pegamos um táxi de volta a Vitória. Dentro do carro, a primeira coisa que me pediu foi que a levasse à Itália para encontrar sua melhor amiga, que havia sido adotada por uma família de lá. Em seguida, adormeceu deitada sobre as minhas pernas. Fiquei completamente seduzida por aquela maneira tão genuína de afeto, de confiança, de me chamar de “mamãe”.

Ali começava nosso estágio de convivência de cinco semanas, no qual experimentei momentos fantásticos e também difíceis. Ora Dayane se deixava abraçar, paparicar, me pedia para ser sua mãe, ora ela entrava em pânico porque não se fazia compreender e me rejeitava. Felizmente, esse momentos se alternavam num mesmo dia. Findo o estágio de convivência e com os documentos em mãos, era hora de embarcar de volta para a França. Muitas descobertas por vir: a casa nova, a família, os amigos, os animais – temos dois gatos e uma cachorra, a Caipirinha (Caipi), a escola, o novo ritmo de vida.

Vieram os momentos de desânimo. A escola lhe parecia difícil demais, o sol fazia falta, mas sempre conversamos muito sobre tudo. Dayane é bem franco-brasileira, orgulhosa de suas origens, mesmo que as diferenças às vezes pesem um pouco. Nossa vida juntas virou a minha de cabeça para baixo, mas era exatamente o que eu mais desejava. Me preocupo, às vezes fico chateada por ela, sou uma mãe exigente em alguns pontos, liberal em outros. Como a minha vida seria triste sem Dayane! Nossa ligação é tão evidente que fica até mesmo difícil lembrar que ela teve que ser construída. Hoje, com 14 anos, ela me faz lembrar de mim mesma quando reage dessa ou daquela maneira. Ora, claro, ela é minha filha.

Catherine, 50 anos

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Nos próximos posts colocarei todas as outras etapas da matéria.

Adoção internacional
Um encontro escrito nas estrelas
Mãe solteira por adoção
A linguagem do amor e do olhar
Tinha sonhado tanto com ele
Procuram-se pais

Postado Por Cintia Liana

domingo, 19 de dezembro de 2010

Outra parte da entrevista para a Revista Cláudia (3)

Foto: Google Imagens

Revista Cláudia - Descreva um primeiro encontro que presenciou entre pais e filho.

Cintia Liana Reis de Silva - O primeiro encontro pode ser uma explosão de alegria como um misto de timidez com sorrisos de felicidade.
Lembro de um em que o casal chegou e encontrou os três filhos brincando. As crianças olharam os pais e contrinuaram com o olhar baixo, tímido, os pais se aproximaram e entraram na brincadeira, logo surgiu a conversa e a pergunta, se queriam ir para o hotel, para poderem estar juntos e brincarem em outro lugar, se tornarem uma família. A criança já bem preparada pode ser liberada já no primeiro encontro e geralmente dá certo.

Revista Cláudia - Como se chega à conclusão de que aqueles pais são adequados àquela criança? Como é feito esse “cruzamento” emocional?

Cintia Liana Reis de Silva - Os pais se preparam para adotar uma ou mais crianças, de idades, sexo e cor já mais ou menos pré definidas, sabendo que algo pode mudar. Uma criança é disponibilizada para adoção internacional na CEJA de algum estado do Brasil, que faz contato com uma entidade cadastrada nesta CEJA e que tenha um casal que deseje adotar aquele perfil de criança.

As informações daquela criança são passadas para a entidade que informa ao casal sobre a criança e um pouco de seu histórico e comportamento, diante disso o casal diz sim ou não.

Ao mesmo tempo a CEJA avalia toda a documentação do casal, avaliações psicológicas, histórico, um verdadeiro dossiê e vê se está apto a serem pais daquele menor.

A CEJA normalmente é composta por um Desembargador Corregedor-Geral da Justiça, que a preside, por um Juiz da Infância e Juventude, por um promotor de Justiça, um representante da classe dos advogados, um representante da classe dos assistentes sociais e um representante da classe dos psicólogo.

Depois que os documentos da criança são juntados ao processo de habilitação do casal, marca-se a viagem ao Brasil onde será o encontro. Tem o estágio de convivência de no mínimo 30 dias em um hotel de escolha do casal, onde recebem regularmente visitas da equipe psicossocial do Juizado. O casal também visita a Vara da Infância para algum procedimento de avaliação, como a avaliação com a psicóloga. Depois são mais 15 dias para toda a tramitação dos papéis da adoção com a sentença do Juiz e emisão de novos documentos da criança, como passaporte e nova certidão de nascimento, mas esse prazo pode variar, depende do processo de vinculação da nova família e da deliberação do juiz responsável.

Revista Cláudia - O que acontece depois que a criança viaja com os pais para a nova casa? Ela continua tendo um acompanhamento psicológico?

Cintia Liana Reis de Silva - Toda a família continua sendo acompanhada pela entidade de adoção internacional pelos 2 anos seguintes, que emite relatórios sobre a atual situação da família para a CEJA.

A entidade na qual eu trabalho atualmente, a Senza Frontiere, procura realizar encontros, reuniões e festas com o objetivo de fazer com que as crianças se sintam familiarizadas e em companhia de outras crianças da mesma nacionalidade. Nessas festas procura-se dar ênfase a língua de nascimento e usa-se temas culturais do Brasil para cronstrução da encontro. Nós damos muita importância no que fará com que a criança se sinta mais segura possível.

Se for preciso acompanhamernto psicológico da família e da criança isso acontece com um psciólogo da entindade ou pode ser com outro de fora.

Revista Cláudia - E quando não dá certo? O que se faz?

Cintia Liana Reis de Silva - Na adoção tem que dar certo, ou depois procurar ajuda para a relação, é um parto que não tem como se voltar atrás. O casal passa a ser pais da criança a serem responsáveis por ela e não há nada que possa anular isso depois, a adoção é uma medida irrevogável, como consta no ECA. O juiz só dá a sentença se tem a certeza de que aconteceu o vínculo inicial de amor que será forte o suficiente para desenvolverem uma forte relação clássica familiar e baseia sua decisão também em cima dos laudos da equipe multiprofissional da Vara da Infância.

Quando se tem um fiho biológico que mais tarde pode apresentar algum problema de comportamento ninguém entrega ele ao Juizado de Menores dizendo que não quer mais, é a mesma coisa com o adotivo. Qualquer criança pode aprensentar algum tipo de comportamento de natureza negativa por algum motivo e passar por fases difíceis e nem por isso um pais deve desistir do filho.

Já atendi muitas crianças com problemas de comportamento e quase todas eram filhas bológicas. Já participei como perita de centenas de adoções de crianças grandes que já conviviam com suas famílias desde pequenas e que não tinham nenhum problema de comportamento e relação.

Sei que o tema adoção traz muitas questões para a criança, mas não por isso ela tem problemas. Se uma escola tem um aluno que é filho adotado e este apresenta problemas de comportamento todos dizem que é porque ele é adotado, mas se a escola tem 50 outros alunos que tem os mesmos problemas que o adotado e são filhos biológicos o problema é por causa de quê?

Revista Cláudia - Existe um prazo para se concluir que deu ou não certo?

Cintia Liana Reis de Silva - Normalamente são 30 dias para se concluir o estágio de convivência e mais uns 15 para a sentença e emisão de documentos, mas um juiz pode determinar um tempo maior, por exemplo, até 3 meses se for necessário, o problema é que os adotantes devem retornar o seu País para voltarem ao trabalho e reiniciarem a vida cotidiana junto a criança, então todos devem trabalhar com eficácia e cuidado.

Revista Cláudia - Você costuma fazer algum tipo de acompanhamento?

Cintia Liana Reis de Silva - No Brasil realizava acompanhamento de crianças, adultos e famílias, não só adotados como filhos biológicos, todos têm questões familiares de base para serem trabalhadas. Aqui na Itália iniciarei os atendimentos também, é uma área muito bonita, é na família onde encontramos muitas respostas para melhorar os dias atuais e a relação com o mundo, pois a família é o nosso primeiro grupo, o nosso primeiro contato com o mundo, com o ser humano, com os modelos de relação e isso deve ser levado muito a sério, escolher ter um filho, seja por via biológica ou por adoção é um escolha muito bonita, mas também de muita responsabilidade, se deve estar preparado para dar base e firmeza para uma vida digna e honesta e, para isso, deve-se antes de tudo ser muito honesto consigo mesmo, estar muito atento às suas limitações e possibilidades.


Por Cintia Liana

sábado, 18 de dezembro de 2010

Entrevista cedida à Revista Cláudia (2)

Foto: Revista Cláudia de dezembro de 2010

Mais uma parte na íntegra da entrevista da Psicólolga Cintia Liana cedida à Revista Cláudia para compor a matéria sobre Adoção Internacional da edição de natal.


Foto: Google Imagens

Revista Cláudia - O que um casal que decide adotar uma criança de outra nacionalidade e, portanto, de cultura e língua diferentes, deve saber?

Cintia Liana Reis de Silva - Deve conhecer a cultura em que a criança nasceu, um pouco da história do País, dos valores, informações sobre como se vive e sobretudo saber valorizar essa cultura a a língua da criança após a adoção, para que a criança fortaleça seu senso de identidade e valorize as suas origens.

Revista Cláudia - Como se preparar para isso?

Cintia Liana Reis de Silva - Aqui na Itália somente casais podem adotar. Solteiros e homossexuais não podem adotar. O casal deve primeiro formular o pedido de habilitação à adoção perante a Autoridade Central em matéria de adoção internacional no país onde habita. Se considerados aptos a adotar a Autoridade Central emitirá um relatório que contenha informações sobre a identidade, a capacidade jurídica e adequação dos solicitantes para adotar, sua situação pessoal, familiar e médica, seu meio social, os motivos que os animam e sua aptidão para assumir uma adoção internacional, tudo isso de acordo como determina o ECA - Estatuto de Criança e do Adolescente e como também ocorre numa VIJ do Brasil com os brasileiros. Depois disso, escolhe uma entidade que realiza adoções internacionais, entidade esta que mais se adequar ao seu desejo e que trabalhe com um perfil de criança dentro de suas expectativas. Aqui na Itália há mais de trinta delas.
Na entidade de adoção internacional escolhida para mediar a adoção com uma CEJA do Brasil o casal é acompanho durante todo o processo, inclusive no País escolhido, passa por entrevistas com psicólogos e, passa também por reuniões com outros casais que estão se esperando para adotar, onde se podem discutir diversos assuntos relacionados ao tema, visando o amadurecimento das questões da paternidade, maternidade, origem da criança, construção de vínculos, expectativas, medos, anseios e tudo o que se relacione com adoção, além de ouvir depoimentos de pessoas que já adotaram.

Revista Cláudia - Como esses pais são preparados do ponto de vista psicológico?

Cintia Liana Reis de Silva - Em atendimentos com a psicóloga vão sendo trabalhadas e discutidas todas as questões voltadas para adoção, enquanto isso o casal trata de trabalhar também assuntos de sua vida pessoal, com seus respectivos pais, história de vida, para que possam entender um pouco de sua vida presente e o que podem esperar de sua comportamento enquanto pais e como isso pode ser melhorado e amadurecido. Há também os encontros com grupos de discussão e para ouvir depoimentos, como já mensionado na segunda questão.

Revista Cláudia - E a criança? Como ela é preparada? Ela tem que aceitar? Ou ela tem a opção de escolha?

Cintia Liana Reis de Silva - Normalmente a criança é ouvida pelo perito psicólogo da vara da infância sobre o seu desejo em ter uma nova família e se esta família pode ser de outro País. Ela pode ser ouvida como também, a depender da necessidade, se submeter a um breve acompanhamento psicológico. Ela tem direito de escolha, tem que aceitar e desejar a adoção e é o que normalmente ocorre.

Quando trabalhava na Vara da Infância conversava e preparava a criança para entender todas as possíveis mudanças que ocorreriam em seu dia-a-dia, além da nova família, novos amigos e companhias, como língua, cultura, clima e via que isso as facinava, começando por terem pais que estavam ansiosos por vê-las, brincar, conversar, ensinar a língua e depois por pegarem um avião pela primeira vez para conhecerem a nova casa.

Alguns casais antes de chegar mandam através da CEJA (Comissão Estadual Judiciária de Adoção), que cuida da adoção internacional, um álbum de fotos de toda a família, incuindo tios e primos para que a criança se familiarize com os rostos e nomes, além de fotos da casa toda e do novo quarto todo decorado.

Revista Cláudia - Quem escolhe quem, afinal?

Cintia Liana Reis de Silva - Todos se escolhem, é um momento muito bonito o primeiro encontro e a construção dos vínulos de amor e apego durante o período de convivência. Me sinto fortunada porque acompanhava as adoções no Brasil quando trabalhava lá e agora acompanho as adoções daqui, de um outro prisma e é maravilhoso presenciar todas as belas e reais as etapas do desejo, construção e fortalecimento da nova família.

Os pais chegam ao Brasil ansiosos para conhecer o filho esperado, após anos esperando por aquele momento e a criança cheia de felicidade em conhecer os novos pais, eles tão sonhados e desejados. No primeiro contato com carinho, paciência e muita delicadeza o vínculo vai sendo construído com naturalidade, os dias de convivência no hotel fortalecem o contato e dalí o parto acontece, a nova família nasce. É emocionante, um fenômeno grandioso para quem sabe enxergar.

O papel do psicólogo, no momento da adaptação, é de extrema importância. Durante o período de convivência a nova família (adotantes e crianças) é acompanhada em alguns atendimentos psicológicos para se checar a adaptação de todos à nova realidade. Conversa-se com os adotantes, com a criança e se faz as devidas observações do vínculo que vai se estabelecendo, todos também são ouvidos separademante, para que haja mais espontaneidade, principalmente a criança frente ao seu desejo e como está se sentindo. O psicólogo faz perguntas e os adotantes podem tirar dúvidas, é um momento de acolhimento de tudo o que diz respeito àquela nova realidade.

O momento da adaptação é fundamental para o sucesso do vínculo porque acontece a integração de elementos de sentido e de significação que caracteriza a organização subjetiva de um âmbito da experiência dos sujeitos, ação, construção, história, transações, trocas sociais e culturais como configurações subjetivas da personalidade. É um complexo de articulações e possibilidades, processos de ruptura e renascimento, tudo deve ser visto com sensibilidade e não com um olhar determinista, universalista, as coisas acontecem e tudo é bem vindo para que a relação tome sua própria forma e não uma forma mágica aprendida em livros de contos de fadas. (SILVA, 2008)

A família acontece e se vivencia um verdadeiro parto, um filho que nasce, é a possibilidade real da criança, enfim, se tornar filho e os adotantes pais.

Revista Cláudia - Qual é o momento que vocês julgam adequado para que pais e a criança se conheçam?

Cintia Liana Reis de Silva - Quando tudo está organizado para o encontro, todos bem preparados e o desejo deste encontro existe. Normalmente a criança os chama imediatamente de pai e mãe e os adotantes de filho porque já existia o desejo do encontro e do vínculo, depois a relação vai tomando forma.

Revista Cláudia - Como se dá este momento? É acompanhado de psicólogos?

Cintia Liana Reis de Silva - O encontro acontece na Vara da Infância e Juventude que está responsável pelo menor em questão ou pode acontecer no próprio abrigo, isso vai depender da situação, a criança tem que se sentir segura para o enocontro.

Sobre quem acompanha o encontro, isso vai depender de cada procedimento de cada Vara da Infância, não existe uma regra, cada uma atrabalha de acordo com as regras vigentes, determinadas por seu Juiz titular. Mas, normalmente, esse primeiro encontro é acompanhado por uma assistente social e uma psicóloga, de preferência as profissonais que estavam acompanhado a criança em todas as outras etapas de preparação psicossocial.

 
Por Cintia Liana

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Possíveis desafios de adotar uma criança mais velha

Foto: Cintia Liana é citada na Revista Cláudia de dezembro de 2010

No mês de novembro cedi uma entrevista à uma das jornalistas da Revista Cláudia, Silvia Braccio. A matéria sobre adoção internacional será publicada na Edição de dezembro de 2010, que pode ser comprada nas bancas de todo o Brasil. Conta ainda quatro bonitas histórias de adoção. 
Como todos sabem, a Revista Cláudia é uma das mais vendidas em todo o País, direcionada a público feminino e com várias matérias de interesses diversos.
Fiquei muito feliz com o convite.
Como na matéria não tem espaço para publicar tudo o que falamos, ao contrário, publica uma pequena parte ou citações, resolvi postar aqui, aos poucos, partes da minha entrevista completa, cedida à jornalista.
Parabéns a revista Cláudia e a jornalista Silvia Braccio pela escolha do tema, que sempre ajuda a desmistificar muitos preconceito e, assim, possiblita mais encontros de amor, entre novos filhos e novos pais.


Foto: Google Imagens

Umas das perguntas da entrevista:
"Adoção Internacional"
Revista Cláudia - Quais os desafios de adotar uma criança mais velha?

Cintia Liana Reis de Silva - O maior desafio antes de adotar uma criança mais velha são os preconceitos e mitos que essa prática envolve. Crenças de que a criança já esteja tranzendo traumas vividos na família de origem e na instituição de onde vem; que já tragam hábitos ou vícios cotidianos difíceis de serem “retirados”. Medo de que a criança não se adapte ou que não reconheça os adotantes como “verdadeiros” pais, que rejeite os mesmos ou queira voltar para os genitores.

Há também a insegurança em achar que só com um bebê irá sentir amor, pois a chegada do bebê poderá se assemelhará ao máximo com um parto e será mais fiel aos meios e ritos “naturais” de se ter um filho.

Todas essas questões são muito corriqueiras, mas são fantasias que surgem da falta de informação e do preconceito. O pré requisito para uma adoção de sucesso é o desejo de amar, sem esse desejo não ocorre nem a adoção de um filho adotivo nem de um biológico, pois para se ter um filho biológico como um filho “verdadeiro” também precisa ocorrer um processo emocional de adoção, de acolhimento daquele ser. A única forma de assumirmos um papel e o desempenharmos bem em sua plenitude é sermos acolhidos e aceitos como tal.

Existem muitas vantagens em se adotar uma criança mais velha, por exemplo, elas desejam conscientemente uma família, já sabem que vêem de uma outra família, mas que por algum motivo não puderam permanecer com ela e precisam de pais substitutivos, estão dispostas a se doar e a amá-los como nunca.

Todas as adoções passam por fases e adotar crianças mais velhas não é mais complicado, o difícil é lidar com adotantes muito exigentes e muito metódicos, temerosos e muito inseguros, porque já bastam as inseguranças da criança, por medo de ser rejeitada mais uma vez, esta sim está ferida, mas com um grande desejo de recomeçar, de amar.

A adoção tardia é um tema que envolve muitos mitos não só imaginados pelos adotantes, mas também pela família extensa, amigos e companhias que estão em volta daqueles que desejam adotar e que muitas vezes dão conselhos respaldados numa mentalidade baseada nos dogmas ocidentais, numa visão reducionista e determinista do ser humano.

Se temos adotantes seguros, dispostos a dar amor e inicialmente não exigir que o futuro filho seja como eles esperam para ocupar este espaço, a criança se sentirá aceita e acolhida em sua totalidade e sentirá que o terreno é seguro para amar esses pais e que pode até desejar ser parecida com eles, pois são dignos deste amor e desta confiança.

Quando fui coordenadora do serviço de psicologia de uma Vara da Infância e Juventude no Brasil, em minhas reuniões, falava muito sobre adoção "tardia", sobre a necessidade de expansão do perfil, da transformação do desejo do filho ideal para o filho possível, pois não importa a idade para se tornar filho, o que conta é o desejo. Assim, via pessoas saindo da sala de reuniões dizendo que iriam direto ao serviço social mudar o perfil, pois adquiriu uma consciência de parentalidade e vínculo que não tinham antes, que não mais esperaria por uma criança que seria abandonada para estar em seus braços, mas que queriam uma criança que já estivesse esperando por eles em algum abrigo. Isso é um presente para mim enquanto profissional, é o melhor retorno, é maravilhoso!

Por Cintia Liana