"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma Linda História de Adoção Internacional

Foto: Cintia Liana com crianças que foram adotadas por um casal italiano.
Publicação da foto devidamente autorizada pelos pais. 

Por Cintia Liana Reis de Silva

Lembro de muitas histórias dentre as mais de 50 adoções internacionais que participei quando trabalhava no Brasil, quase todas com casais italianos, uma delas a de um menino de 8 anos quase 9, que estava para ser inserido em uma família brasiliera, mas sentíamos que os adotantes estavam muito receosos com a idade da criança ou quando manifestava um pouco de agressividade ou mal humor (coisas natutais de quem está se adaptando ou de qualquer outra pessoa) e, por isso, não se "entregavam" ao sentimento do menino, não aproveitavam os momentos, estavam sempre querendo analisar, controlar, estavam com muito desejo de serem pais, mas com muito medo, chegando a ameçar a criança de ser devolvida o que lhe trazia muita insegurança, por conta disso a criança foi retirada e o estágio de convivência (que precede a adoção) chegou ao fim. Foi muito sofrimento para todos, inclusive para o menino.

Ele foi indicado para adoção internacional, eu fiquei encarregada de fazer o acompanhamento psicológico dele e a preparação para a adoção internacional. Ele havia sofrido muito com a “quase adoção” que não foi finalizada, houve uma grande regressão em seu comportamento, estava muito triste, revoltado e chegava ao atendimento quase carregado, ao terminar a sessão no Juizado se recusava a andar e passava quase todo o atendimento embaixo de minha mesa, sem querer falar. No atendimento eu tentava motivá-lo a falar, a brincar com os brinquedos e depois de algum tempo comecei a falar sobre a possibilidade de um futuro diferente, com novos pais e um novo País, isso o interessou. Depois de alguns meses, com a chegada do casal, a criança ainda não havia progredido muito em seu estágio regressivo, ou seja, parecia ter menos idade que do que de fato tinha, mas de algum modo desejava a adoção, seu remédio seria a segurança e o amor incondicional dos novos pais.

Lembro que no início foi complicado porque a criança estava desconfiada se daria certo aquela nova tentativa de inserção em família substituta e continuei os atendimentos, desta vez com todo a família, avaliando todos os passos. Preparei bastante o casal para conseguir dar apoio ao menino, - nesses casos é o mais importante para o vínculo acontecer, os adotantes se fortalecerem e passarem força para a criança - este se mostrou muito receptivo e disposto a motivá-lo e a fortalecê-lo, sem pestanejar tiveram muita paciência e com 10 dias de estágio de convivência começamos a ver excelentes resultados, a criança começou a confiar nos adotantes e a lhes dar atenção de filho, então a criança os adotou.

Lembro que um dia ele apareceu para a sessão com os pais caminhando como um rapazinho, de óculos escuros, se sentou na cadeira na frente da minha e ainda cruzou as pernas como faz normalmente um adulto. Fiquei muito emocionada porque vi semanas antes um menino dilacerado pela dor da rejeição, por não entender as coisas, por não ser grande o suficiente para poder gerir sua própria vida e sim depender de todos os outros adultos para tomarem as decisões que julgavam ser as mais sábias e saudáveis para ele e semanas depois vi um pequeno rapaz caminhando de cabeça erguida, feliz, exibindo seus novos óculos escuros e dizendo que era meu namorado. Muito engraçado é passar de uma criança regredida, que se nega a andar à namorado de psicóloga de 30 anos na época, é uma grande escalada ou não é? Simbolicamente é claro, é uma grande transição num curtíssimo espaço de tempo e isso é o que o amor faz, faz o que muitos chamam de milagre.

Há pouco tempo recebi fotos dele na neve brincando com os pais, em outra foto estava feliz brincando com os primos.

Uma criança que não tinha chances de ser adotada no Brasil hoje vive como cidadão italiano de direito, com pais italianos amorosos e orgulhosos deste filho trazido de tão longe, o filho esperado e desejado por tanto tempo, que hoje cresce tranquilo, saudável e feliz na Itália.

Cintia Liana Reis de Silva
É Psicóloga formada em 2000 pela PUC-Campinas, é especialista em Psicologia Conjugal e Familiar pela Faculdade Ruy Barbosa, trabalha com adoção desde 2002, foi perita contratada do Tribunal de Justiça para uma Vara da Infância e Juventude do Brasil por 4 anos quando coordenou o serviço de psicologia, onde também trabalhou antes por 4 anos como voluntária e agora atua na Itália como coordenadora das adoções de criança brasileiras de uma entidade de adoção internacional, http://www.adozionisenzafrontiere.org. Seu blog é o www.psicologiaeadocao.blogspot.com e seu e-mail para contato é cintialrdesilva@yahoo.com.
Por Cintia Liana

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Os olhos do nosso filho

Foto: Facebook

Os olhos do nosso filho
São ainda de cor incerta
Não sei sequer se existem
Vão ser de Deus uma oferta

Existem na minha alma
Cravados no meu semblante
Os olhos do nosso filho
Que teve nascer errante

Foste esculpido a preceito
Nas entranhas de outro ser
Não vais sorver do meu peito
Este meu longo querer

E nestas voltas da vida
Cuidou-te Deus sem saber
Para que não herdes no sangue
Este meu estéril sofrer

Não vais nascer de mim
De outro ventre virás
Mas filho da minha alma
Tão amado serás!

E nesta triste incerteza
Me pergunto em desalento
Já nascente de alguém?
Ou é Deus que te traz?

(Ala dos Reis)

Lindo poema!
Aproveitem a gestação para amadurecer ao máximo.

Por Cintia Liana

segunda-feira, 19 de abril de 2010

História de um Bebê

Recebi essa linda história em 2007, de um dos pais que assistia minhas palestras sobre família e adoção, quando eu ainda trabalhava na Vara da Infância.
É de um autor desconhecido.



Foto: Google Imagens

“Ele tinha quatro meses quando foi parar numa instituição de menores e pesava 7.600Kg. De repente, não quis mais se alimentar, cerrava os lábios, fechando a boquinha. Seu peso caiu para 2.800Kg. Ficou como se fosse um feto. Cabia na palma da mão de um homem. Seu corpinho não manifestava movimento algum, estava inerte, parado, vivo, mas era como se não o estivesse. Fora abandonado pela mãe naquele lugar. Os médicos fizeram de tudo, mas perceberam que aquela criança queria morrer.

Uma funcionária da casa, vendo a situação, começou a fazer um trabalho muito sério e cheio de amor. Iniciou uma conversa com aquela criança. “Neném, a vida é linda, vale a pena viver!”. Lambendo o seu corpinho ela fazia com a criança o mesmo que um animalzinho faz com seu filhote. Passava-lhe calor, calor humano.

Passaram-se os dias, a criança começou a reagir e a aceitar o chá no conta-gotas e logo em seguida o leite. Certo dia, quando ela o carregava junto ao peito, sua mãozinha escorregou e caiu dentro de seu seio. A criança estremeceu todo o seu corpinho que até então estava inerte. Ela também sentiu uma sensação de arrepio por todo o corpo. Então percebeu que a criança queria mamar no peito. No local havia seis mães que estavam amamentando. A criança foi levada para mamar, mas recusou a todas. Sem saber o que fazer, a funcionária enfiou a mão dentro da blusa e retirando o seio o colocou na boca da criança, que imediatamente o sugou como se daquele seio saísse muito leite. Daí em diante, ela o adotou.

Esta criança mamou durante três anos. Quando a criança queria o peito, ela dizia: “Querido, mamãe não tem mais leite”. A criança respondia: “tem amor mamã...!” Hoje, essa criança tem dezesseis anos e sabe que foi salva pelo remédio mais eficaz do mundo: o amor, o amor de sua mãe substituta.
 
Autor Anônimo

*********


Confirmada!


* Caminhada pró Adoção*
16 de maio de 2010
10 horas
Rio de Janeiro - RJ, Praia de Copacabana, com saída do Posto 6.

Contamos com a presença e divulgação de todos.

Postado Por Cintia Liana

Livro da Psicóloga Cintia Liana sobre o percurso de construção da família através da adoção e seus aspectos psicológicos.
Para comprar ou visualizar:
http://www.agbook.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca
(2ª Edição - 2012)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Palhaça Psicóloga

[Fotos: Cintia Liana. Obs.: Os rostos das crianças estão pintados, para proteger a identidade das mesmas]

Em 2007, mais uma vez, fui preparar as crianças para o Programa "Dia Feliz" da Vara de Infância. Na oportunidade, ao invés de contratar um palhaço para fazer as vezes, resolvi eu mesma me fantasiar e encarar o meu lado lúdico, deixando um pouco a vaidade de lado e dando chance para ser motivo de risadas e talvez de parecer um pouco ridícula, "habilidade" e característica atribuída aos pobres palhacinhos profissionais. Tem que ter coragem para ser um palhaço.

Minha amiga Mônica Montone em seu *blog disse, "palhaços, como os anjos, não têm sexo. São essência. Podem ser essencialmente sábios ou essencialmente tolos".

Em um dos abrigos que visitei tirei fotos.
As crianças, quando me viram, ficaram agitadas, alegres. Algumas desconfiaram que era a "tia Cintia", outras tiveram certeza e outras nem podiam imaginar, devido a sua ingenuidade natural da idade.
Apresentamos uma peça de fantoches escrita pelo meu padrasto, professor e cordelista, Jotacê Freitas e contei com a participação de minha mãe, Walkiria de Andrade, Arteterapeuta, também palhaça na iniciativa, e quem confeccionou os boneco de espuma.
Mais duas funcionárias do Serviço de Psicologia também participaram da realização da idéia, Tatiana (Estagiária de Psicologia, na época) e Priscila (Secretária).

Explicamos para as crianças o objetivo do Programa e que elas passariam 6 dias na casa dos amigos, mas que não se tratava de adoção, elas iriam fazer novas amizades ou voltar a visitar os mesmos amigos que as levaram nos anos anteriores.

Esse contato com o mundo externo a instituição é muito valioso para a criança abrigada.
Ao final brincamos livremente e fizemos muitas palhaçadas. Naquele pátio, por um momento, vi que só existiam crianças, compartilhando do mesmo sentimento, com tanta esperança no coração de serem mais felizes. E eu também era mais uma criança, que esperava por um mundo melhor para elas.
Fotos: Cintia Liana

Por Cintia Liana

*Citação do blog: http://finaflormonicamontone.com