"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Os ninguéns

Pensei que fosse um texto mais longo, mas quando li esse pequeno texto poético e realista tive que dividir do mesmo jeito com voces.

Revista Pazes
11 de março de 2016
Por Eduardo Galeano
As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
Por Eduardo Galeano
Fonte: http://www.revistapazes.com/2200-2/

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Abandonados, novamente

Elena Kalis

Apesar de mais exigências de preparação dos pais e melhora na avaliação de quem pode ou não adotar, “devolução” ainda ocorre
Publicado em 22/05/2012 | BRUNA MAESTRI WALTER


ADOÇÃo
A chegada a uma família adotiva nem sempre é garantia de um desfecho feliz na vida das crianças e adolescentes órfãos. Os adotados podem ficar sujeitos a uma situação que,  Segundo especialistas, ocorre com mais frequência do que se imagina: a “devolução”. Não há números sobre o assunto, mas a experiência de profissionais envolvidos no processo evidencia a necessidade de ações de prevenção, pela gravidade desse tipo de situação.

Recentemente, um casal de Minas Gerais foi condenado na Justiça pelo abandono de um garoto. Adotado aos 4 anos, o menino foi devolvido dois anos depois. Em abril deste ano, uma sentença judicial impôs aos pais o pagamento de 15% do salário mínimo de pensão alimentícia e R$ 15 mil por danos morais à vítima, que atualmente está com 17 anos e continua vivendo em um abrigo.

Reflexão
O sucesso de um processo de adoção depende de algumas medidas, segundo os especialistas:
Procure profissionais da área da adoção. Converse com eles, troque ideias, pergunte sobre os prós e contras relacionados ao assunto e avalie bem a situação.
Reflita sobre o significado da paternidade e maternidade e a motivação da adoção, para que ela possa ser genuína, conscientizada e sustentada.
Tenha consciência de que adotar uma criança é o mesmo que gerar um filho, um gesto para a vida inteira.
Pense como seria a rotina com essa criança.
Lembre-se de que o percurso da relação afetiva entre pais e filhos não é fácil e que dificuldades podem ocorrer nesta adaptação.


Incremento
TJ-PR contrata novas equipes para atender postulantes à adoção
No Paraná, algumas comarcas careciam de equipes técnicas, sem psicólogos e assistentes sociais para o preparo dos postulantes à adoção. A informação é do juiz Fábio Ribeiro Brandão, dirigente da Coordenadoria da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR). Ele completa que, para combater a defasagem, foram feitas novas contratações. No fim de abril, o presidente do TJ-PR, Miguel Kfouri Neto, assinou decreto de nomeação de 75 profissionais das áreas de Psicologia e Serviço Social aprovados em concurso público. Segundo o TJ, as nomeações representam um acréscimo de 80% às equipes existentes no estado. Está prevista ainda a contratação de mais 75 profissionais em 2013 e outros 75 em 2014, totalizando, ao fim do triênio, 225 novas nomeações.

Segundo a psicóloga e psicanalista Maria Luiza Ghirardi, o caso mostra que é necessário investir em medidas preventivas, com a preparação dos pais e a instrumentalização dos psicólogos e assistentes sociais que acompanham o processo de avaliação dos casais. “[A devolução] ocorre muitas vezes devido a uma intensa relação conflitiva entre os pais e a criança, em que pai e mãe não conseguem ver outra alternativa senão devolvê-la”, diz.
Em 2008, Maria Luiza desenvolveu uma pesquisa de mestrado na Universidade de São Paulo (USP) para saber as motivações dos pais adotivos que abandonam a criança adotada. Chegou à conclusão de que muitas vezes ocorrem conflitos quando uma adoção é fortemente baseada em sentimentos ligados ao altruísmo. “A criança passa a ser vista de maneira muito idealizada, uma visão pouco realista e pouco consciente das dificuldades que podem ser encontradas.” Também podem surgir conflitos quando há a expectativa de que a adoção da criança ajude a resolver problemas pessoais, se existe dificuldade em lidar com as origens da criança ou se não ocorre uma aceitação plena da infertilidade do casal, completa a psicóloga.
Segundo o presidente da Associação dos Filhos Adotivos do Brasil, Ricardo Fischer, o abandono acontece pela falta de preparo das pessoas em saber o que é uma adoção. Fischer, que é filho adotivo e adotou duas crianças, afirma que uma adoção devolvida representa um processo mal realizado. A preparação para os que pretendem se habilitar a adotar está prevista na lei nacional de adoção (12.010, de 2009), mas, segundo Fischer, na prática ela não é feita em muitos casos pelo país.
No Paraná
De acordo com o juiz Fábio Ribeiro Brandão, dirigente da Coordenadoria da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça do Paraná, a exigência de preparação e o aprimoramento dos mecanismos de controle e verificação de quem pode ou não adotar têm reduzido as “devoluções”. Como juiz da infância, ele estima que as ações de abandono não ultrapassam 3% dos casos por ele atendidos. “A imensa maioria delas costuma ser exitosa.”
A presidente do Grupo de Apoio à Adoção Consciente, Halia Pauliv de Souza, também observa que a devolução diminuiu bastante com a preparação dos casais. “A solução está na paciência: os pais devem dar o tempo necessário à hora de esperar, à aceitação da criança e à substituição do desejo de gerar pelo de ser pai e mãe”, conclui.

domingo, 15 de abril de 2012

O que as crianças que moram em internatos sentem

Cintia Liana e Lídia Weber em Roma,
no Congresso Internacional da INFAD.
Abril de 2011

Por Lídia Weber

MAGNO E MONTENEGRO (2002), em uma matéria jornalística, enfatizaram que as crianças que vivem em abrigo são sedentas por alguém que as escute. “A maioria das crianças gosta de conversar com visitantes, tocá-los ou ficar quietinho por perto, pois o que há de mais precioso na vida delas é o fato de serem objeto de afeição de alguém, mesmo que seja por alguns minutos” (WEBER, 1997, p. 45).

Uma pesquisa (WEBER, MOREIRA, TERRA & MESSIAS, 1999), cujo objetivo era identificar os sentimentos em relação aos pais biológicos e às expectativas sobre o futuro de crianças institucionalizadas entre 7 a 18 anos e sem vínculo familiar, revelou que 61% das crianças estão na instituição de 3 anos a 18 anos. A maioria absoluta nunca recebeu visitas de seus pais (67%), atribui valoração negativa aos pais genéticos (66%). As respostas relativas às expectativas de futuro são estereotipadas e inconsistentes;  apenas 50% dos internos desejam casar ou ter filhos, sendo que 53% preferem morar na instituição que com sua família biológica, mas o maior desejo de todos é ser adotado (80%). Os dados também apontam que: 1) o afastamento da família biológica e o caráter negativo da experiência familiar pregressa determinaram a valoração negativa atribuída por essas crianças e adolescentes a seus pais biológicos; 2) a dificuldade em planejar e refletir sobre o futuro e o pessimismo sobre o plano afetivo está intimamente ligado ao abandono e à impossibilidade de criar novos vínculos; 3) a necessidade de apego seguro, sob a forma de adoção, revelou-se premente nestas crianças institucionalizadas que desejam ser amadas na condição de filhas.

A maioria das crianças entrevistadas sentiu muita tristeza no momento em que foi deixada na instituição: “Eu fiquei triste; minha mãe disse que vinha me buscar no sábado e não veio” (João, 10 anos); “Eu chorei, tava com medo de dormir, aí eu fui me acostumando; agora não estou mais reclamando” (Marcos, 8 anos); “Senti assim: não vou ser feliz, minha mãe não me quer” (LUIZA, 13 anos).

Ao verificar se as crianças passam a amar alguém no internato, as respostas revelaram que após a separação de sua família, estas crianças tentam encontrar outras figuras de apego, mas a criação e, ou, manutenção de vínculos afetivos nas instituições é bastante restrita principalmente por transferências dos internos para diferentes instituições: 56% dos entrevistados já moraram em dois ou mais internatos diferentes. A maioria absoluta dos entrevistados respondeu que havia encontrado uma figura de apego (geralmente um colega de internato ou um funcionário), mas em 98% dos casos o contato com essa pessoa foi perdido.

Os internos tentam encontrar novamente outras vinculações afetivas e, novamente, correm o risco de perdê-las, num processo doloroso em que revivem inúmeras vezes o abandono.

Verificamos que, às vezes, não existem sequer documentos sobre a criança, quanto mais dados específicos sobre a sua história de vida. O discurso dos internos deixa transparecer total desconhecimento de sua situação legal, pessoal, familiar e, conseqüentemente, eles tecem fantasias sobre suas perspectivas futuras (WEBER et al., 1999) e querem uma família, mas às vezes a esperança já não existe mais:

“Acho eu não vou ser adotado porque já passei da idade; só adotam até 14 anos” (Fernando, 15 anos; “Acho que não vou ser adotada, acho que desisti, eles eram pra ter arrumado família pra mim faz tempo. (Maria, 9 anos; “Ainda não fui adotada porque sou nova aqui; tem que ficar bastante tempo” (Ana, 12 anos); “Não fui adotada ainda porque meu caso ainda não foi visto pelas pessoas que arrumam pais pra gente” (Olivia, 12 anos).

Certas vezes a realidade e a fantasiam misturam-se na esperança de ser filho de alguém:

“Eu acho que vou ser adotada, porque sim, porque eu tenho certeza, porque nunca se deve perder a esperança” (Karina, 12 anos); “Eu sei que vou ser adotada, mas não sei o dia que o Juiz vai me chamar. Acho que vai demorar um pouco. (Silvia, 10 anos); “Acho que vou ser adotada porque eu já tirei três fotos pra mostrar pro Juiz” (Camila, 13 anos); “Eu vou ser adotada porque a gente tem fé em Deus e pode conseguir” (Tatiana, 15 anos); “Eu acho que vou ser adotada porque é a terceira vez que a minha foto vai pra Itália e para os Estados Unidos” (Cintia, 12 anos); “Eu acho que vou ser adotada porque já está na hora de ir embora, meus pais já vão chegar...”. (Denise, 10 anos).

Alguns depoimentos mostram o pensamento mais freqüente das crianças, uma infância repleta de sofrimento:

“Tenho 13 anos e cheguei aos nove anos. Nunca recebi visita de ninguém. Vim pra cá porque minha mãe me batia. Se tivesse com minha mãe estaria apanhando, então eu estou mais feliz aqui. Meu maior desejo é ter uma família nova. Queria ser adotado, daí eu ia para uma casa que ninguém me batesse e teria alguém para me fazer carinho” (Roberto, 13 anos). “Eu tinha 8 anos quando vim para cá. Foi o carro do Juizado que me trouxe aqui. Já morei em três internatos diferentes. Meu pai é alcoólatra e minha mãe morreu e eu nunca recebi visitas de ninguém. Meus três maiores desejos? Eu queria ser adotada e ganhar um pai na Itália, uma mãe e uma bicicleta! Eu seria mais feliz” (Mariana, 11 anos, institucionalizada desde os 8 anos).

Um dos capítulos de um artigo de Lídia Weber
Weber, L.N.D. (2005). Abandono, institucionalização e adoção no Brasil: problemas e soluções.
O Social em Questão, 14, 53-70.

AbandonoinstitucionalizacaoeadocaonoBrasilproblemasesolucoes.pdf


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Pais adotivos que devolvem os filhos devem ser punidos?

Mandy Lynne

Para ler matéria completa do Portal IG, onde fui citada:

Por Danielle Nordi, iG São Paulo | 29/09/2011 06:00

[A psicóloga especialista em adoção Cíntia Liana afirma que é comum essas crianças sofrerem com ansiedade, sensação de insegurança, baixa autoestima e algumas ficam bastante agressivas. “Tudo isso pode vir acompanhado de outros comportamentos negativos, que, no geral, podem ser superados com o devido acompanhamento psicológico.”]

Postado Por Cintia Liana

domingo, 25 de setembro de 2011

Abandono no processo de adoção e sistema familiar

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Uma das respostas de Cintia Liana ao Portal IG para compor matéria sobre adoção

É mais benéfico para a criança ser devolvida ou continuar numa família onde o ambiente pode lhe ser hostil e onde ela não é bem quista?

Essa é uma pergunta difícil porque as duas situações causam sofrimento. Mas acredito que se a criança já estiver na família há muito tempo é melhor todos se submeterem a terapia para mudar a dinâmica, porque as relações não devem ser banalizadas ou descartadas.

Mas se for uma adoção no inicio e não houver outro modo, acredito ser melhor a retirada da criança da família, investir imediatamente em acompanhamento psicológico, já pensado no momento ideal para uma futura inserção em família substituta, mas que esta esteja preparada e decidida em acolher um filho, sem alimentar exigências de como a criança deve se comportar.

A criança que sente que só será aceita se fizer o que os novos pais querem não consegue sentir segurança neles. Para ela aprender a amar esses pais inicialmente também querem se sentir amadas pelo que são. Com esta base feita tudo pode ser construído de modo saudável.

Podemos dizer que quem devolve uma criança não adotou com o propósito correto, afinal a gente só “devolve” o que não é nosso de verdade?

É importantíssimo os candidatos a habilitação se perguntarem o que de fato estão buscando com a adoção, o que desejam com ela e que tipo de pais imaginam que serão. Devem também se imaginar como se filhos deles fossem, não como sendo o que eles querem, mas sendo os pais que talvez um filho não deseje que eles sejam, tantando ver o que precisam mudar para serem mais maduros nesta nova jornada. A partir destas reflexões se amadurece a maternagem e paternagem.

A adoção não foi feita para atender as exigências dos pais, foi feita para dar uma família a uma criança e essa criança traz as particuliridades da adoção, mas antes de tudo são crianças como qualquer outra, como a que poderia nascer do ventre das mães que adotam, então não tem porque fazer exigências. O mais importante é que são humanos adotando humanos, partindo disso tudo é possível e se trata de um processo dinâmico onde todos os envolvidos contam.

Quando existe o vínculo de amor, a aceitação incondicional da criança, independente das ixigências que os pais têm e a maturidade para seguir, ninguém é capaz de devolver. Até a mãe biológica quando faz um plano de adoção para o filho, normalmente, é porque ela não se vê mãe ou é capaz de ser mãe naquele momento.

Quando existe um problema com a criança ele não começa e termina nela, ela não é a causa, se trata de um sistema dinâmico e complexo, uma combinação de todos os fatores, onde muitas vezes o problema da criança é somente um sintoma de um adoecimento maior de toda a família, que pode ser causado por algo não-dito justamente, por um segredo, algo passado de modo indireto, uma crença errada, uma mágoa não trabalhada, excesso de expectativas, preconceitos, excesso de controle, ou a combinações de muitas dessas e outras coisas.

Um dos nossos entrevistados – um juiz da Vara de Infância e Juventude de São Paulo – nos disse que apesar da notícia da devolução de uma criança adotada causar mais espanto, elas são mais raras do que a entrega de filhos biológicos por parte de pais que não querem ou não têm mais condições de cuidar das crianças. Em que essas duas situações são diferentes, se é que são?

De fato, as duas situações são dolorosas para a criança, independente da idade, até porque um bebê recém nascido sente quando é abadonado, mas sucessivos abandonos são sempre mais dolorosos, é como se a criança confirmasse a sua premissa que está sendo fortalecida pelos fatos, de que ela não merece ser amada e isso causa muito sofrimento. Após isso, deve existir muito investimento de amor para que ela possa superar a dor experimentada no desamparo.

Parte da entrevista cedida ao Portal IG no dia 22 de setembro.

Por Cintia Liana

sábado, 24 de setembro de 2011

Quando a criança é "devolvida", suas características e acompanhamento psicológico

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Primeiro precisamos definir bem o que é ser devolvida após ser adotada, porque têm crianças que são entregues ao Juizado ainda no estágio de convivência, sem ter sido concluída a adoção, mas mesmo assim é uma situação de sofrimento psicológico e afetivo para a criança, pelo fato dela já estar ligada a estas pessoas de algum modo.

Depois que a adoção ocorre em todos os níveis, a sentença já foi dada e os laços afeitivos já existem é muito mais doloroso um novo corte de vínculos para todos, mas sobretudo para a criança, que está em plena formação e desenvolvimento bio-psico-afetivo-social.

Há estudiosos que apontam um sério risco de aparecimento de quadros psicóticos e outros problemas, como depressão, no futuro em crianças que sofrem cortes sucessivos de vínculos. Isso é só para vermos o quanto é grave para um criança não só viver no abandono, mas também experimentar a rejeição e o abandono por diversas vezes.

É comum, nestes casos, crianças experimentarem ansiedade, sensação de insegurança, baixa auto estima e algumas apresentam agressividade, acompanhados de outros comportamentos negativos, que podem ser superados com o devido acompanhamento de futuros pais e profissionais.

Existe tratamento psicológico para essas crianças e suas famílias. Com relação ao judiciário, infelizmente não são todas as varas da infância que têm psicólogos disponíveis e nem pessoal em número suficiente para atender a toda a demanda de trabalho. O judiciário tinha que contratar mais gente.

O acompanhamento deve ser feito no sentido de fortalecer a criança e as pessoas que a cercam para dar apoio. Algo importante é fazê-la entender que ela não é culpada e nem responsável pelos abandonos que sofreu, que ela não é um criança má, que isso não significa que ela não tem valor. Fazê-la sentir que merece ser amada e que, de fato, é amada pelas pessoas que estão próximas, independente de não ter pais adotivos naquele momento, daí o importante papel do profissional, que envolve o valor da relação de ajuda e de confiança que estabelece com esta criança.

Trabalhar com a criança - através da arte, da brincadeira e da fala - a sua auto estima e validar a sua dor. Ela deve compreender quais foram suas perdas e como pode lidar com elas, resignificando sua realidade e a forma de sentir, mas isso é um processo de fortalecimento e tomada de consciência que precisa de tempo e investimento.

Uma criança que é adotada por pais suficientemente seguros e maduros consegue superar muito mais facilmente suas dificuldades iniciais, mas tudo vai depender também do temperamento dela, da capacidade de resiliência e otimismo.

Parte de respostas na íntegra a entrevista cedida no dia 22 de setembro ao Portal IG.

Por Cintia Liana

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Bebê abandonado é devolvido aos pais em Conceição do Jacuípe

A polícia suspeita que a criança tenha sido abandonada no mesmo dia em que nasceu

Foto: Divulgação/Assessoria PMCJ

Criança voltou aos cuidados dos pais

Redação CORREIO

O bebê que foi abandonado pela mãe em maio deste ano em Conceição do Jacuípe, na região de Feira de Santana, já está em poder dos pais biológicos, segundo confirmou nesta segunda-feira (29) a Secretaria de Assistência Social da cidade.

Segundo informações do Acorda Cidade, na última semana um exame de DNA confirmou que a pequena Sofia Vitória é de fato filha do casal que se apresentou buscando sua guarda - a mãe é suspeita de ter abandonado a criança.

O juiz Isaia Vinicius de Castro Simões, da Comarca da cidade, decidiu devolver a criança para a família estabelecendo compromissos e critérios que preferiu não detalhes, alegando que o caso corre sob segredo de Justiça. A Secretaria vai acompanhar se a criança está sendo bem cuidada com a família e a guarda ainda não é considerada definitiva.

Antes de ser entregue aos pais, Sofia estava sob cuidados de uma família da cidade.

Caso
A recém-nascida foi encontrada na porta de uma casa em Conceição do Jacuípe, a 97 km de Salvador, e levada para o Hospital Antônio Carlos Magalhões, de onde recebeu alta no mesmo dia.

O bebê foi deixado na porta da casa de Alexandra Cerqueira, 28 anos, que chamou a polícia, responsável por encaminhar a menina para o hospital.

Em depoimento para a TV Subaé, Alexandra, que 'deu' o nome Sófia Vitória para a criança, disse que está feliz pela menina não correr mais riscos e lamentou o ocorrido. "É muito triste, é uma situação que nunca pensamos que pudesse acontecer. Eu vou acompanhar ela por todos os lugares que passar daqui em diante”, diz.

A polícia suspeita que a criança tenha sido abandonada no mesmo dia em que nasceu, pois ainda estava suja de sangue e com o cordão umbilical.



Postado Por Cintia Liana

domingo, 31 de julho de 2011

Um abrigo para bebês abandonados

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A roda dos enjeitados – local onde as crianças eram colocadas para doação – era um processo civilizador em uma sociedade que não considerava o infanticídio crime.

Publicado em 16/07/2011 | Por Pollianna Milan

O abandono de crianças é uma prática antiga, tendo registros na Bíblia, no caso de Moisés, e na tragédia grega, com Édipo Rei. Mas foi depois da Peste Negra (1348) que o número de bebês deixados à própria sorte se multiplicou pelas cidades europeias. Coube à Itália criar as primeiras rodas dos “enjeitados” (ou expostos), nome dado às crianças abandonadas pelos pais. As Santas Casas de Misericórdia tinham cilindros de madeira giratórios fixados na parede que serviam de contato com o mundo externo. Inicialmente, eram usados para receber doações e mantimentos, mas com o tempo passaram a ser o destino de recém-nascidos rejeitados. Normalmente a criança era abandonada na calada da noite e a mãe, assim, tinha a identidade preservada. Ao colocar o bebê, tocava-se uma campainha e a rodeira da instituição cristã vinha recolher o rebento.

O Brasil passou a adotar a roda dos enjeitados como uma herança do reino português. O primeiro registro de que se tem notícia de uma Casa de Enjeitados no país é na capital baiana, Salvador (1726); depois aparece uma no Rio de Janeiro (1738) e outra no Recife (1791). Segundo o professor de arquivologia Renato Pinto Venancio, da Universidade Federal de Minas Gerais, durante o Brasil colonial existiram quatro rodas (fora as citadas, havia uma em Campos-RJ). “Mas, após 1840, elas chegaram a ser 14, depois começaram a fechar. A última foi a de São Paulo, que encerrou as atividades em 1950”, diz.

Como o número de crianças abandonadas crescia no Brasil, entre os séculos 18 e 19, a corte portuguesa inicialmente se preocupou em resolver o problema, já que o infanticídio não era visto como crime, mas pecado. “Ao saber que as crianças expostas eram devoradas por cães e porcos, isso se tornou um incômodo aos administradores portugueses”, afirma a historiadora Alcileide Cabral do Nas­­cimento, da Universidade Fe­­deral Rural de Pernambuco. A roda foi também um processo civilizador. “O Estado começa a desestimular as práticas infanticidas, pois não era aceitável uma selvageria dessas”, lembra Alicileide. Como as crianças normalmente eram abandonadas perto de rios, em monturos (lixões da época) ou até na beira das praias, muitas morriam sem ao menos receber o batismo. Por isso, o acolhimento em instituições católicas seria favorável para, pelo menos, as crianças receberem a “salvação”. “Criou-se um medo entre os adultos de que as almas das crianças ficassem penando naquele lugar de espera eterna”, diz Alcileide.

Precocidade
Aos 7 anos, crianças iam trabalhar
Crianças abandonadas nas rodas dos expostos ficavam na instituição religiosa ou iam viver com uma ama de leite até completar cerca de 3 anos. Isso porque a casa costumava ficar cheia e, quando a demanda era muito grande, restava às câmaras municipais contratar amas para o cuidado das crianças. Quando não tinha condições de amamentar, ela era chamada de ama-seca.

As crianças ficavam nas rodas até os 7 anos. Depois disso, elas começavam a trabalhar. Os meninos iam para agricultura, para as escolas de ofício, internatos e alguns foram preparados até para a guerra (garotos deixados na roda chegaram a ser enviados à Guerra do Paraguai). Já as meninas viravam empregadas domésticas. O problema é que muitas sofriam maus-tratos e eram violentadas sexualmente, por isso fugiam e retornavam à roda.

Já no início do século 20, a roda dos expostos começou a enfrentar outros problemas, porque crianças maiores, com 7, 10 e 12 anos eram simplesmente abandonadas em frente às instituições. Foi também por causa disso que o governo se viu obrigado a criar os orfanatos.

Venancio lembra ainda que as rodas estavam em instituições religiosas porque, como parte das crianças abandonadas eram pobres, entendia-se que “as desigualdades sociais eram um desígnio de Deus, para proporcionar a salvação das almas daqueles que vivem na fortuna.” “Hoje, isso parece estranho, mas era assim que funcionava na sociedade da época”, explica.

Motivações
Entre os séculos 18 e 19, as rodas do Rio e de Salvador receberam 40 mil crianças abandonadas. De acordo com Venancio, a expectativa, na época, era de que 10% dos recém-nascidos eram enjeitados. E isso ocorria principalmente por dois fatores: miséria ou honra. As mulheres brancas e livres da elite que se arriscavam em encontros clandestinos e amorosos, e que ficavam grávidas, abandonavam os filhos para ter a garantia de um matrimônio bem sucedido, afinal mulher solteira que virava mãe era por fruto do pecado. Mulheres e homens casados que tinham amantes e geravam filhos ilegítimos também os abandonavam por uma questão de honra familiar.

Oportunidade
As escravas viram na roda uma maneira de livrar os filhos da escravidão. Por isso algumas usaram o sistema para libertar os pequenos, abandonando-os. Alcileide também encontrou nos documentos que pesquisou viúvos que largaram o filho na roda porque a mãe havia morrido no parto, bem como crianças com deficiências físicas e mentais. “Neste período, os pais que tinham filhos deficientes eram vistos como pecadores, por isso era uma vergonha apresentar os pequenos à sociedade”, explica a historiadora.

Casais pobres com muitas crianças deixavam bebês na roda até que pudessem ter condições de criá-los. E, para identificar as crianças, as rodas montaram fichas de identificação. No livro de entrada (de registro), as crianças recebiam um nome (quando não vinham com o nome escrito em um bilhete) e ali se detalhava qual o horário que o pequeno chegou, quanto aparentava ter de dias ou meses de vida e que roupas vestia. Assim, se a família voltasse para procurar a crianças, seria mais fácil identificá-la.

Bilhetes pediam o batismo dos recém-nascidos
Muitas crianças chegavam à roda dos expostos com um bilhetinho junto ao corpo: na maioria das vezes um pedido dos pais para que a criança fosse batizada. “A preocupação central era a salvação espiritual”, afirma o professor de arquivologia Renato Pinto Venancio, da Universidade Federal de Minas Gerais. Às vezes, o bilhete vinha com uma justificativa do abandono: em geral, por causa da morte dos pais, doenças familiares, vergonha do filho ilegítimo e até abandono por necessidade de viagem. “Houve pais que deixaram um bilhete dizendo que mais tarde buscariam o filho, porque naquele momento não tinham condições de criar”, lembra a historiadora Alcileide Cabral do Nascimento, da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Ao contrário do que se imagina, inicialmente os enjeitados eram, em sua maioria, crianças brancas. Alcileide explica que aparentemente não houve preferência dos pais em abandonar filhos em decorrência do sexo. “A exceção vem de Porto Alegre, onde, entre 1845 e 1856, foram expostas mais meninas (62,4%) do que meninos (37,6%).” Só no século 19 é que há uma tendência de diminuição das crianças brancas e um aumento das mestiças. “Na segunda metade do século 19 existe a difusão das teorias racistas no Brasil e as crianças negras e mestiças eram vistas como raças degeneradas”, afirma Alcileide.

Mortes
O acesso às rodas dos enjeitados também não era garantia de sobrevivência. Alcileide lembra que 70% dos rebentos morriam depois de serem abandonados na roda, seja porque adquiriam doenças, como a sífilis, das amas-de-leite (mulheres contratadas pelo Estado para amamentar os abandonados), porque eram maltratados e até por falta de higiene. “É como se o Estado chamasse para si o direito de matar, porque as crianças morriam sob responsabilidade dele.” Venan­­cio lembra ainda que a mortalidade também estava atrelada à amamentação artificial: “Não se sabia como eliminar os microorganismos do leite de vaca, por meio da fervura. Isso só foi descoberto depois do século 19.”

Mudança
As rodas fecharam na Europa no século 19 e, no Brasil, só um século depois: a última funcionou em São Paulo até 1950. Isto porque, houve uma valorização da maternidade e na normatização da sexualidade feminina. “O discurso médico passou a ser que a maternidade é natureza de qualquer mulher”, explica Alcileide. As amas de leite, antes vistas como salvadoras das crianças abandonadas (e disputadas até pelas mulheres de grandes fazendeiros, para a amamentação dos filhos), passaram a ser vistas como um ato de desamor.



Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Mães que abandonam seus filhos sofreram maus-tratos na infância, dizem especialistas

Mandy Lynne

"Abandonei meu filho porque queria ir no bailão". Tanto a frase quanto o ato de abandonar um bebê podem parecer absurdos, mas para psicólogos e psiquiatras acostumados a tratar mulheres com transtornos de personalidade isto é comum e deve ser compreendido.

Os especialistas concordam que mulheres que deixam seus filhos sofreram graves abusos quando eram crianças e, por isso, não desenvolvem o sentimento de amor e a relação da maternidade.

Para Joel Rennó Júnior, coordenador do projeto Pró-Mulher do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, de 10 a 25% das mulheres que têm bebês apresentam transtorno de relacionamento mãe-bebê. Este transtorno de personalidade não existe nas classificações oficiais de psiquiatria, mas deve ser incluído no novo manual de diagnóstico de saúde mental (DSM-5), que será publicado em 2013.

O psiquiatra, que presta assistência médica e psicológica a mulheres com distúrbios psíquicos relacionados ao ciclo reprodutivo feminino há mais de 10 anos, afirma que estas mulheres desenvolvem uma raiva e rejeição que atingem níveis patológicos e que não estão associados a depressão. São mulheres que sofreram rejeição, abuso físico e moral, negligência e violência na infância.

"A noção de mãe está muito desestruturada nestas mulheres. Muitas delas também não tiveram uma mãe que cuidasse delas, afirma Catalina Camas Cabrera, psiquiatra do Hospital das Clínicas, que trabalha com o grupo CA Vidas, com mulheres vítimas de abuso.

"Para se tornar um ser humano biologicamente cultural é preciso do afeto de outro ser humano, que cuide, atenda e ame. O amor foi descoberto como uma  necessidade primária. Eu não sobrevivo, ou sobrevivo muito mal, se eu não tenho cuidadores que tenham amor incondicional. Não me entendo por gente, não tenho empatia, não consigo amar outros", diz a psicóloga Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, professora da Universidade Federal do Paraná.

A frase que abre esta reportagem foi dita à Weber em uma pesquisa com mães que abandonaram seus filhos em hospitais ou deixaram para outros criarem. Foram entrevistadas 21 mulheres que seguem o perfil e outras 21 com o mesmo nível sócio-econômico, mas que criaram seus filhos. A única diferença entre elas era o tratamento que tinham recebido dos pais. "Todas tinham a mesma escolaridade, muitas tinham companheiro na época. A diferença estatística forte era que as que abandonaram tinham claramente uma história de abandono, negligência e violência em casa. Essas mães que abandonam nunca foram filhas. Elas nunca foram sujeito de afeto e não entendem isso como importante, explica Weber.

Entender em vez de condenar
A professora destaca que é preciso entender como eram as famílias dessas mães, saber como elas foram tratadas na infância. "Alguns relatos são chocantes, mas é preciso entender esse outro lado. Elas não passaram por um processo de vinculação afetiva".

Rennó concorda: "Temos que entender esse perfil, onde a mulher tem suas estruturas psíquicas abaladas. Ela foi abusada, rejeitada e isso deixa uma impressão que acaba passando para o filho. A criança traz todo o significado de rejeição, que algumas nem querem sentir", conta. Entretanto, ele destaca que o transtorno de relacionamento mãe-bebê não pode ser aplicado genericamente para todas as mães que abandonam seus filhos. "O diagnóstico é categorial, baseado em um manual com critérios que englobam sintomas psíquicos discriminadores".

Cabrera, que atende mulheres vítimas de violência desde 1998, diz que muitas dessas mulheres são entendidas como pessoas más, mas que a maioria delas tem auto-estima baixa e tomam a atitude de abandonar o bebê em um momento de desespero.

Vergonha
Uma das questões levantadas é porque estas mães não entregam o filho para o juizado ou para a adoção. Para Weber, especialista em abandono e adoção de crianças no Brasil, entregar a criança para a adoção também é um abandono e as mulheres sentem vergonha de assumir isso em público. "Muitas não sabem
que podem deixar seu bebê para adoção, que isto não é crime, e há toda a questão cultural do instinto materno, do amor, que ela não sente".

Segundo a psicóloga, a criança adotada é mais feliz do que a rejeitada que é criada pela mãe. "Uma pesquisa acompanhou o desenvolvimento de crianças por anos e concluiu que as que foram abandonadas e depois adotadas apresentam melhores resultados cognitivos e psicológicos do que aquelas que a mãe teve o
desejo de abandonar, mas não abandonou".

Depressão pós-parto
A depressão pós-parto, apontada por muitos leigos como causa para tais atos, é excluída como causa principal pelos especialistas. "Cada caso deve ser analisado individualmente, mas o que há de comum entre depressão pós-parto e este estado psicótico é que as mulheres não se acham capazes de cuidar de
seus filhos", diz Cabrera.

De acordo com Rennó, as mães com depressão pós-parto se sentem culpadas por não terem energia para cuidar do bebê e acabam deixando a tarefa para alguém da própria família. A falta de culpa é um ponto destacado pelos especialistas, o que leva também, à maior dificuldade de encontrar estas mulheres, já que elas não buscam ajuda e não são identificadas ao abandonar seus filhos. "Elas não acreditam que
alguém possa ajudá-las. São pessoas que precisam ser ajudadas e não julgadas", ressalta a psiquiatra.

O papel do Estado
Weber acredita que o Estado deve ter maior cuidado com a família. "O papel do Estado vai desde desmistificar a culpa até acompanhar e aconselhar tais mulheres. Na França existe um programa de abandono de bebês institucionalizado. A mãe pode optar em ter o bebê e entregá-lo a adoção.

Ela tem toda a assistência que necessita, que a ampara e a faz refletir". Ela acrescenta que é necessário ainda quebrar o círculo vicioso que temos hoje. "Cerca de 88% das crianças institucionalizadas dizem que apanham ou já apanharam. Há negligência e violência nas famílias, o que só aumenta a probabilidade de que um mulher abandone ou rejeite seu filho no futuro", diz. "Não há uma estatística oficial de quantas crianças são abandonadas. Grande parte delas não entra nas estatísticas porque vão para a adoção informal -- quando a própria mãe já encaminha a criança para quem tem interesse em criá-la", afirma.

Weber conclui que o abandono de crianças está presente na história da humanidade há centenas de anos. "Toda a antiga bíblia e mitos estão recheados de abandono de crianças. Era comum até o renascimento, como uma forma de minimizar o infanticídio", conta.

Fonte: Lilian Ferreira/Uol


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Família tenta na Justiça guarda de criança que foi abandonada pela mãe

Mandy Lynne

Casal, que perdeu dois filhos, começou a cuidar da criança que agora foi levada para abrigo

27/04/2011

Uma família está apreensiva em Alfenas. Uma mulher que teve uma criança no mês passado, resolveu entregá-la direto para um casal, sem passar pela Justiça. A nova família da criança logo entrou com a documentação pedindo a guarda definitiva do bebê, mas agora uma decisão encaminhou o recém-nascido Luiz Otávio para um abrigo.

O promotor Marcelo Fernandes dos Santos entendeu que o casal não poderia ficar com a criança, por ter desrespeitado a Lei de Adoção, determinada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O promotor pediu que o bebê fosse imediatamente retirado da família e a juíza Adriana Freire Diniz Garcia, expediu um mandado de busca e apreensão determinando que a criança fosse levada para o abrigo. Ainda segundo a promotoria, a criança será encaminhada normalmente para a adoção, que já possui cerca de 100 casais na lista de espera. Segundo o promotor, o casal ficou com a criança sem o consentimento da Justiça e agora eles não têm o direito de requerer a guarda da criança.

A advogada do casal informou que vai recorrer em Belo Horizonte. Ela pretende usar como argumento o fato da mãe biológica do menino ter assinado um documento manifestando a vontade de que a criança ficasse aos cuidados do casal Fagner e Gisele. Ela também acredita que o abrigo não é um local adequado para o menino. Já a promotoria diz que o lugar tem totais condições de cuidar das crianças até que elas sejam adotadas.

O casal Fágner e Gisele já perdeu dois filhos. Um viveu no hospital por pouco mais de um ano, antes de morrer. O outro, nasceu em dezembro do ano passado, mas não completou um dia de vida. Luiz Otávio chegou na casa deles com quatro dias de vida e foi tratado como filho legítimo. O bebê inclusive estava sendo amamentado pela nova mãe, Gisele.

Fonte e para assistir o vídeo:


Postado Por Cintia Liana

domingo, 3 de abril de 2011

Pais fazem inseminação artificial e rejeitam um dos bebês, diz médico

Foto: Google Imagens

01/04/2011 13h03 - Atualizado em 01/04/2011 19h15

Pais fizeram tratamento para o nascimento de dois bebês; nasceram três.
Após o nascimento, pai rejeitou 1 dos bebês; os três foram levados para abrigo.

Três meninas que nasceram por inseminação artificial foram levadas pelo Conselho Tutelar para um abrigo, em Curitiba, depois de serem rejeitadas pelo pai após o nascimento.

De acordo com o geneticista que implantou os embriões na paciente, Dr.Karan Abou Saad, o pai teria rejeitado uma das meninas porque esperava que o tratamento resultasse no nascimento de no máximo dois bebês. As crianças nasceram no dia 24 de janeiro deste ano. A maternidade não quis comentar o assunto.

O médico explicou que nos primeiros exames de gravidez os pais já sabiam que seriam três bebês, mas quando eles nasceram o pai se recusou a levar para casa a terceira criança. Ele foi impedido pelo hospital de levar somente duas crianças. A maternidade acionou o Ministério Público e uma liminar determinou que as três crianças fossem levadas para o Conselho Tutelar. O caso segue em segredo de justiça.

Em entrevista ao G1, Dr. Karan disse também que em 36 anos de profissão nunca tinha visto uma situação destas. "Pra mim é uma novidade, nunca vi um casal rejeitar um filho após um tratamento para engravidar", afirmou.

A advogada da família informou que os pais não querem comentar sobre o assunto porque o caso está em segredo de justiça.



Foto: Google Imagens

01/04/2011 19h14 - Atualizado em 01/04/2011 20h05

Tudo está sendo 'coisificado', diz psicóloga sobre abandono de bebê

Pais não quiseram levar um dos trigêmeos para casa, mas perderam todos.
O MP pediu à Justiça que os bebês fossem para o Conselho Tutelar.

Especialistas em comportamento ouvidos pelo G1 classificaram o abandono de um dos trigêmeos por um casal que esperava dois filhos como “tratar seres humanos como coisas” e “questão maquiavélica”.

Nascido no último dia 24 de janeiro, depois de um tratamento de fertilização, um dos três gêmeos teria sido rejeitado pelo pai – o homem queria deixar o bebê na maternidade, mas foi impedido. As informações são do médico responsável pelo tratamento, o geneticista Karan Abou Saad. Ele disse nunca ter visto algo assim em 36 anos de profissão.

A maternidade não quis se pronunciar sobre o assunto, mas foi a responsável em informar o Ministério Público. As três crianças, por determinação da Justiça, foram levadas pelo Conselho Tutelar. A ação está protegida pelo segredo de justiça.

A psicóloga Clodete Azzolin considera que essa rejeição “é fruto de uma sociedade movida pelo excesso de racionalidade, onde tudo está sendo coisificado, inclusive o ser humano”. Ela diz ainda que “agindo assim, o ser humano se afasta cada vez mais de sua natureza, comprometendo inclusive a manutenção dos instintos naturais”.

Ao explicar o que é “coisificar”, Clodete faz alusão à compra de vasos de flor para a sacada: “Se o entregador chega com três, tenho de mandar um de volta para a loja. Não tem espaço para três, só para dois”.

Nos 30 anos de profissão, o psicólogo Guilherme Falcão repete a história de Saad: “Nunca vi nada assim, nem parecido. Vi, na verdade, bem o contrário. O casal fez tratamento para engravidar, mas o bebê morreu ao nascer. Então eles adotaram duas crianças”.

Para ele, “a questão é muito mais de caráter do que de doença. (...) Mas de qualquer forma o Ministério Público tinha ainda que obrigar esses pais a um tratamento psicológico e psiquiátrico. (...) Alguém tinha que tentar descobrir que coisa é essa de ter obsessão em ter filhos, ao ponto de fazer um tratamento tão caro, e depois abandonar”.

Falcão ressalta que “ninguém sabe os detalhes da história, mas foi uma maneira de descartar um ser humano que não pediu para nascer. Se alguém pode sustentar dois [filhos], pode sustentar três”.

A advogada dos pais dos trigêmeos informou, por telefone, que o casal teria se arrependido e tentaria reaver a guarda das crianças na Justiça.



Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O ciclo recursivo do abandono

Foto: Google Imagens

Considerações Finais do estudo "O ciclo recursivo do abandono" de Juliana Fernandes Pereira e Liana Fortunato Costa

Gostaríamos de ressaltar, para concluir, as três principais conseqüências do processo de fragmentação e abandono da rede de atendimento, identificadas a partir da investigação: a) a ausência de alternativas à institucionalização: “A família se desorganizou e elas se viram em situação de completo abandono, né? (...) Quer dizer, a sociedade, o governo, a Vara da Infância encaminha, né? Não tem outra saída, elas têm que viver em instituição.” (Beloto); b) as dificuldades para trabalhar com a reintegração familiar: “A gente tem muito pouco apoio na rede social, a gente que trabalha na Justiça, pra estar encaixando e melhorando a situação de vida das pessoas pra ter os filhos de volta.” (Luíza); c) e, finalmente, as dificuldades para trabalhar com a colocação de crianças maiores e adolescentes em lares substitutos: “Já teve o abandono dos pais e está tendo o abandono do Estado.” (Luíza).

O efeito mais grave do quadro observado é a continuidade do “abrigo depósito” — a exemplo da Roda dos Expostos — no qual crianças tornam-se adolescentes abandonados pela família, pelo Estado e pela sociedade. Em última instância, sofrendo as tensões do ciclo de abandono vivido nos diferentes níveis do sistema de atendimento, estão, portanto, a criança e o adolescente que, diariamente, enfrentam a ruptura dos laços afetivos construídos na instituição e a ação do tempo, que diminui substancialmente as possibilidades de retorno à família de origem ou encaminhamento para um lar substituto. Dessa maneira, como explica Enriquez (1991, 77), o modelo real pode diferir substancialmente “do arcabouço estrutural criado para lhes dar vida”, ou seja, “Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta” (Art. 19) (ECA) e, ainda, “o abrigo é medida provisória e excepcional” (Art. 101, § único).

A principal contribuição da investigação se refere à necessidade de ultrapassarmos a visão reducionista do abandono — como relacionado apenas à díade família/criança ou adolescente — para se atingir uma visão mais complexa e contextualizada do fenômeno. Desse modo, o mesmo não deve ser visto apenas sob a ótica das relações familiares, mas compreendido como um processo co-construído, do qual participam também o contexto social, institucional, jurídico, econômico, político e cultural brasileiro. É notável a situação de vulnerabilidade das famílias e de crianças e adolescentes abrigados quando a rede de atendimento não consegue responder à demanda que deu origem à intervenção da Justiça.

A ausência de uma política de atendimento profícua, de órgãos e profissionais qualificados que possam atender às prerrogativas do ECA dificulta, assim, a realização de um trabalho eficaz, seja de reintegração familiar ou de encaminhamento para lar substituto. Tais aspectos contribuem substancialmente para que se instale um processo gradativo de um abandono co-construído, que priva crianças e adolescentes institucionalizados do direito à convivência familiar. Desse modo, o próprio modelo de tratamento do abandono em nossa realidade acaba contribuindo para a instalação de um ciclo recursivo do abandono que re-vitimiza crianças e adolescentes, transformando-os nos “Filhos do Abrigo”, como outrora definiu Beloto.


O ciclo recursivo do abandono
Juliana Fernandes Pereira e Liana Fortunato Costa
lianaf@zaz.com.br
"Juliana Pereira é Mestre em Psicologia Clínica e Psicóloga colaboradora do Projeto Aconchego: Grupo de Apoio à Adoção de Brasília e do Programa de Apadrinhamento Afetivo de Crianças e Adolescentes Institucionalizados. Liana Costa é Psicóloga, Terapeuta Familiar.

Trabalho baseado na dissertação de mestrado intitulada “A Adoção Tardia frente aos Desafios na Garantia do Direito à Convivência Familiar” - realizada pela primeira autora sob a orientação da segunda - defendida na Universidade de Brasília, Distrito Federal, Brasil, em Maio de 2003.

Para ler estudo completo:


Postado Por Cintia Liana

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Nas Trilhas de João e Maria

Foto: Google Imagens

Por Lídia Weber

Breve reflexão sobre o abandono de crianças no Brasil

Em um país não muito distante, numa época de grande carestia, viviam um lenhador, seus dois filhos e a madrasta deles – muito malvada e sem coração, um jargão da representação das madrastas das histórias infantis. Chegou uma época em que o preço das coisas subiu demais, a comida foi acabando e a mulher teve a cruel idéia de diminuir os gastos abandonando João e Maria no meio da floresta. O pai ficou com o coração partido mas acabou concordando com a esposa.

Um dia de inverno de 1997 na cidade de Curitiba. Eram 6h30 quando uma moradora do bairro de Uberaba ouviu um som parecido com um choro de criança. Ao verificar no terreno baldio existente ao lado de sua casa, avistou um bebê recém-nascido junto a um monte de lixo.

Sofia é uma menina de 10 anos de idade e mora em orfanatos desde os dois anos. No seu prontuário consta que a sua mãe, que tinha mais três filhos, a deixou lá "somente por um tempo, até encontrar um emprego". Hoje Sofia tem o adjetivo de "institucionalizada", pois sua mãe nunca mais voltou para buscá-la. Ela não sabe responder porque está morando em um orfanato e não lembra nem de sua mãe nem de seus irmãos. Nesses oito anos, ela já morou em três instituições diferentes e nunca recebeu visita de ninguém. Quando lhe perguntamos qual era o seu maior desejo, o maior presente que ela poderia ganhar, Sofia respondeu: "Uma família". Depois de alguns segundos pensativa, ela completou: "eu queria alguém que me chamasse de filha, queria dormir numa cama aconchegante e ser feliz para sempre".

Três dramas humanos. Três histórias. Qual é a mais improvável? Sempre ouvimos dizer que a arte e a literatura representam a vida, e isso também ocorre, diretamente ou simbolicamente, em historietas infantis. Para compreendermos os determinantes das duas histórias verídicas, tão próximas do conto de fadas escrito pelos Irmãos Grimm no século passado, é preciso não esquecer da realidade brasileira. Não é possível analisar somente as variáveis psicológicas e emocionais da mãe que abandona, especialmente quando ela mora em um país onde boa parte da população pode ser considerada abandonada pelo Estado. Ainda assim, como é possível que uma mãe, que tenha carregado um filho em seu próprio corpo jogue-o no lixo ou deixe-o em uma instituição e nunca venha sequer visitá-lo? Como podemos definir "abandono"? Entrega, renúncia, desamparo? Uma mãe que entrega o seu filho para adoção é diferente daquela que joga o seu filho no lixo?

Essa é uma questão cuja resposta é extremamente complexa e é preciso tomar cuidado para não se julgar esta atitude somente como uma transgressão moral (Ariès, 1978 e Badinter, 1980) ou um distúrbio patológico (Martínez Ruiz & Paúl Ochotorena, 1993; Audusseau-Pouchard, 1997). Existe uma rede de determinantes, tais como as de nível sócio-econômico, estrutrais, psicossociais, culturais, entre outras. É preciso analisar não somente a mãe que abandona, mas as condições abandonantes de sua existência.

E as condições sociais do Brasil?... O Brasil está na 10ª posição em relação à economia internacional, mas, apesar do desenvolvimento econômico a sua estrutura social não sofreu evolução, fazendo com que se tornasse o campeão mundial da desigualdade. De acordo com dados do Banco Mundial, temos a pior concentração de renda do planeta, pois 10% dos mais ricos detém 54% da renda nacional; a concentração de terra ainda é maior do que a concentração de renda: a metade das terras está nas mãos de 2% dos proprietários. Os dados mostram que 59% da população são pobres e excluídos; existem 19 milhões de analfabetos no país; quase quatro milhões de crianças entre 5 e 14 anos trabalham (o que é proibido pela Constituição), geralmente num processo de exploração de mão de obra barata, e deixam de conhecer a infância e, estamos em segundo lugar no mundo em relação à prostituição infantil, que geralmente passa de mãe para filha, num processo de escravidão virtual.

O que pode levar uma mãe a chegar ao ponto de desistir de um filho e deixá-lo em um terreno baldio? A questão não é simples: exclusão, impossibilidade de abortar legalmente, incredulidade em relação às autoridades competentes que poderiam levá-la a entregar o filho nos Juizados da Infância e da Juventude, medo, ausência de amor, falta de estrutura familiar, desespero... Como nesses casos, a mãe dificilmente é localizada, torna-se impossível traçar seu perfil, mas é possível traçar um paralelo com o perfil das mães que doam o seu bebê para adoção: solteira, mais de 20 anos, educação primária incompleta, trabalha esporadicamente como empregada doméstica e não conta com o apoio da família extensa. Geralmente ela engravida em uma relação eventual e, na maior parte dos casos, essa mãe doadora já teve outros filhos, que também foram doados ou estão em instituições.

Talvez a organização psíquica de uma mãe que não vê perspectivas em melhorar de vida e que não tem espaço nem para o sofrimento, comece a desmoronar. Essa mãe que a todo momento está recebendo claras mensagens sociais de que ela não tem como sair do seu estado de miséria, cujas necessidades básicas e direitos como cidadã estão fora do seu alcance e que está sob uma doutrina de dominação, tem grande probabilidade de fazer coisas violentas e primitivas. É uma perpetuação de um ciclo cruel: o abandonado abandona. Não lhe foram proporcionadas chances de construir vínculos sócio-afetivos em sua existência.

O abandono de crianças nos orfanatos é um tragédia de igual proporção. A princípio, a institucionalização foi criada com o objetivo de "proteger a infância", mas o que tal medida consegue de fato é somente a segregação/exclusão de "produtos sociais indesejáveis. Estimativas não oficiais indicam que cerca de um milhão de crianças estão sendo atendidas por instituições, eufemisticamente chamadas de Unidades de Abrigo, sendo a maioria mantida por entidades religiosas. Na primeira pesquisa (Weber e Kossobudzki, 1996) realizada com a totalidade das crianças e adolescentes de um Estado do país (Paraná) os dados revelaram que a maioria absoluta dos internos (64%) têm entre 7 e 17 anos e o que menos há nesses orfanatos são crianças órfãs. Somente 5% são órfãs bilaterais e somente 14% das crianças vieram de um lar onde o pai e a mãe estavam vivendo juntos. O restante dos internos provém de famílias monoparentais, chefiadas por mulheres (a maior parte foi abandonada pelo marido e outra parte refere-se à mães solteiras). Assim como na história de João e Maria, a crise do abandono nos orfanatos é desencadeada, primordialmente por "falta de recursos financeiros". Assim como no conto de fadas existe a bela casa da bruxa, na vida real as crianças vão para instituições e recebem cama e comida. No caso da história infantil, a bruxa quer devorar as crianças. No caso da realidade, a própria vida encarrega-se disso.

A princípio o internamento é colocado como uma medida a curto prazo. No entanto, como a existência de outros meios que auxiliem estas famílias a manter os filhos junto de si são ainda incipientes, a prática da institucionalização tem se mostrado um incentivo ao abandono. Crianças e adolescentes institucionalizados, que estavam há mais de um ano sem receber visitas de sua família, foram entrevistados (Weber, 1996) e verificou-se que cerca de 70% deles nunca receberam visitas e, os outros 30%, receberam algumas visitas no início, mas elas cessaram por completo. Geralmente a família desaparece para não ser encontrada pelo Serviço Social. Ainda existe outra tragédia na vida dessas crianças: o descaso das autoridades competentes (Instituições de Abrigo, poder Judiciário e Promotoria Pública) em relação à tutela dessas crianças. Supõem-se que se não foi possível um retorno à sua família de origem, se elas estão abandonadas, então podem ser colocadas para a adoção, certo? Errado. Apesar de estarem esquecidas nas instituições, de não receberem visitas de sua família e do seu maior desejo configurar-se na adoção, somente 8% dos pais dessas crianças foram destituídos do pátrio poder e somente elas estão legalmente disponíveis para adoção. As outras crianças, que nunca sequer receberam uma visita de suas famílias, não são consideradas oficialmente "abandonadas", pois seus pais ainda detém o pátrio poder. Poderiam ser classificadas como "esquecidas", "filhos de ninguém", "filhos do Estado" ou alguma outra expressão que possa defina a falta de compreensão sobre o desenvolvimento infantil, a lentidão burocrática e o desapreço dos poderes constituídos.

O Brasil, apesar de ter sido o último país a acabar com a escravidão e com a Roda dos Enjeitados foi o primeiro país a criar uma lei específica para crianças e adolescentes após a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança em 1989. Em 1990 foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, um dos mecanismos mais avançados do mundo de proteção à infância, fruto de uma grande mobilização da sociedade civil. No entanto, percebe-se que não basta haver leis se os mecanismos sociais que produzem as tragédias não são modificados. Na história de João e Maria, os dois irmãos conseguiram escapar da instituição, digo, da enganosa casa da bruxa, voltaram para casa e para seu pai (a madrastra havia morrido). O bebê encontrado no terreno baldio foi levado a um hospital, está fora de perigo e existem muitos candidatos à sua adoção. A menina Sofia continua na casa da bruxa, digo, na instituição. Ela é considerada uma "criança inadotável" aqui no Brasil. Ela, como Pandora, tem sempre esperança...

Para haver mudanças significativas, é preciso uma conscientização social para um compromisso verdadeiro, e não virtual, de todos os segmentos da população. E o psicólogo deve fazer parte deste compromisso. E mais ainda. O compromisso do psicólogo não deve ser apenas de natureza assistencialista ou paternalista. A sua participação deve ser em ajudar a promover esta consciência social frente à exclusão. Não adianta somente revoltar-se, ou como ressalta Jabor (1997), dizer que a injustiça é sempre feita pelos "outros" e sentir-se salvo por ter-se indignado e esquecer o assunto. Todos os "excluídos" querem ser constantemente lembrados. É preciso falar deles, pensar neles, e procurar encontrar meios de engajamento, principalmente quando se fala de crianças. Denunciar as injustiças e repensar a miséria e a tragédia cotidiana dessas crianças é uma reivindicação dos direitos da infância, mas também e simplesmente o direito à infância. Todos nós, os "incluídos", psicólogos principalmente, devemos parar de dizer que nós não sabíamos...

Referências Bibliográficas:
Ariès, P. (1978). L'enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime. Paris: Editions du Seuil.
Audusseau-Pouchard, M. (1997). Adoptar um hijo hoy. Barcelona: Editorial Planeta.
Badinter, E. (1980). L'amour en plus. Paris: Flammarion.
Jabor, A (1997). Sanduíches de realidade. Rio de Janeiro: Objetiva.
Martínez Roig, A & Paúl Ochotorena, J. (1993). Maltrato y abandono en la infancia. Barcelona: Martínez Roca.
Weber, L.N.D. (1996). Des enfants sans famille au Brésil. XXVI Congrès International de Psychologie. Montreal, 16-21 août.
Weber, L.N.D. & Kossobudzki, L.H.M. (1996). Filhos da solidão: institucionalização, abandono e adoção. Curitiba: Governo do Estado do Paraná/Secretaria da Cultura.

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, Psicóloga (CRP 08/0774); Professora e Pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná; Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo.

Fonte: http://br.geocities.com/jeanprofessor/doutrina.html


Postado Por Cintia Liana