"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desânimo com o Processo de Adoção

Foto: Google Imagens

Depoimento de Cida Vasconcelos

Somos, eu e meu marido, um casal saudável, com 44 e 45 anos respectivamente, que tivemos a frustração de não poder gerar nossos próprios filhos biológicos, mas não desistimos e mesmo depois de muita frustração, dor e sofrimento com gravidezes e perdas, decidimos adotar, não como uma saída para nossa frustração, isso é muito claro pra nós, pois, apesar do desejo, somos felizes em nossa vida do jeito que ela é e queremos um filho ou filha pra sermos mais completos, mas não por sermos incompletos. Acreditamos na vontade Divina e esperamos nele o nosso futuro.
Mas, apesar disso tudo, e tendo seguido o processo de qualificação e "entrada na fila" como manda o figurino, é, neste momento de desânimo com a burocracia, lentidão, aparente falta de interesse e dedicação do nosso Judiciário com este processo.

Estamos há exatos 14 meses entre entrevistas, visitas, documentação, telefonemas e visitas ao Fórum e nem sequer entramos na fila. Teoricamente fomos qualificados pela psicóloga e pela assistente social, mas nada do Sr. Digníssimo Juiz se dar ao trabalho de pelo menos nos notificar de algo. Isso porque, além do mais, optamos por uma criança mais velha, sem restrição de cor, origem, doenças, etc. Isso mesmo, não somos o casal clichê que quer uma menina branca com menos de 2 anos. Ao contrário.

Não que eu ache que estão escondendo crianças, mas não há real interesse em resolver o assunto. Na minha opinião há desleixo, preguiça e falta de interesse, pois queremos adotar, temos condição e disposição, principalmente emocional e não nos dão NENHUMA satisfação, como se estivéssemos pedindo um favor ao sistema, quando estamos apenas solicitando um serviço deste sistema pago por nós mesmos.

É difícil acreditar em quem tem recessos de 3 meses no ano (não sei se Vara de Infância tem, mas no geral é o que vemos), em funcionário 9 às 6, quando a maioria de nós que é trabalhador privado e que recolhe os salários deles, fica às vezes 14 horas num escritório contando impostos pra este sistema emperrado e sem noção.

É revoltante ouvir matérias e artigos em revistas e televisão falando das crianças carentes nos abrigos, ir ao Fórum e ter que ouví-los dizendo que buscam em primeiro lugar o interesse das crianças e saber que no fundo estão se lixando em fazer um pouco mais do que cumprir tabela e ainda se sentirem os benfeitores do mundo.

Estas crianças poderiam estar bem melhor e nós, os casais mais felizes, se eles, os "servidores" públicos, fizessem melhor e mais eficientemente o seu trabalho, fazendo valer os nossos impostos e trabalho.

Desculpem, mas definitivamente, só crendo em Deus pra seguir adiante. Não se pode crer em mais nada, muito menos no sistema e neste Governo tacanho.
Obrigada por este espaço, é muito difícil falar e pelo menos saber que há um lugar específico para isso.
Bos Sorte e fiquem com Deus.



Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma Linda História de Adoção Internacional

Foto: Cintia Liana com crianças que foram adotadas por um casal italiano.
Publicação da foto devidamente autorizada pelos pais. 

Por Cintia Liana Reis de Silva

Lembro de muitas histórias dentre as mais de 50 adoções internacionais que participei quando trabalhava no Brasil, quase todas com casais italianos, uma delas a de um menino de 8 anos quase 9, que estava para ser inserido em uma família brasiliera, mas sentíamos que os adotantes estavam muito receosos com a idade da criança ou quando manifestava um pouco de agressividade ou mal humor (coisas natutais de quem está se adaptando ou de qualquer outra pessoa) e, por isso, não se "entregavam" ao sentimento do menino, não aproveitavam os momentos, estavam sempre querendo analisar, controlar, estavam com muito desejo de serem pais, mas com muito medo, chegando a ameçar a criança de ser devolvida o que lhe trazia muita insegurança, por conta disso a criança foi retirada e o estágio de convivência (que precede a adoção) chegou ao fim. Foi muito sofrimento para todos, inclusive para o menino.

Ele foi indicado para adoção internacional, eu fiquei encarregada de fazer o acompanhamento psicológico dele e a preparação para a adoção internacional. Ele havia sofrido muito com a “quase adoção” que não foi finalizada, houve uma grande regressão em seu comportamento, estava muito triste, revoltado e chegava ao atendimento quase carregado, ao terminar a sessão no Juizado se recusava a andar e passava quase todo o atendimento embaixo de minha mesa, sem querer falar. No atendimento eu tentava motivá-lo a falar, a brincar com os brinquedos e depois de algum tempo comecei a falar sobre a possibilidade de um futuro diferente, com novos pais e um novo País, isso o interessou. Depois de alguns meses, com a chegada do casal, a criança ainda não havia progredido muito em seu estágio regressivo, ou seja, parecia ter menos idade que do que de fato tinha, mas de algum modo desejava a adoção, seu remédio seria a segurança e o amor incondicional dos novos pais.

Lembro que no início foi complicado porque a criança estava desconfiada se daria certo aquela nova tentativa de inserção em família substituta e continuei os atendimentos, desta vez com todo a família, avaliando todos os passos. Preparei bastante o casal para conseguir dar apoio ao menino, - nesses casos é o mais importante para o vínculo acontecer, os adotantes se fortalecerem e passarem força para a criança - este se mostrou muito receptivo e disposto a motivá-lo e a fortalecê-lo, sem pestanejar tiveram muita paciência e com 10 dias de estágio de convivência começamos a ver excelentes resultados, a criança começou a confiar nos adotantes e a lhes dar atenção de filho, então a criança os adotou.

Lembro que um dia ele apareceu para a sessão com os pais caminhando como um rapazinho, de óculos escuros, se sentou na cadeira na frente da minha e ainda cruzou as pernas como faz normalmente um adulto. Fiquei muito emocionada porque vi semanas antes um menino dilacerado pela dor da rejeição, por não entender as coisas, por não ser grande o suficiente para poder gerir sua própria vida e sim depender de todos os outros adultos para tomarem as decisões que julgavam ser as mais sábias e saudáveis para ele e semanas depois vi um pequeno rapaz caminhando de cabeça erguida, feliz, exibindo seus novos óculos escuros e dizendo que era meu namorado. Muito engraçado é passar de uma criança regredida, que se nega a andar à namorado de psicóloga de 30 anos na época, é uma grande escalada ou não é? Simbolicamente é claro, é uma grande transição num curtíssimo espaço de tempo e isso é o que o amor faz, faz o que muitos chamam de milagre.

Há pouco tempo recebi fotos dele na neve brincando com os pais, em outra foto estava feliz brincando com os primos.

Uma criança que não tinha chances de ser adotada no Brasil hoje vive como cidadão italiano de direito, com pais italianos amorosos e orgulhosos deste filho trazido de tão longe, o filho esperado e desejado por tanto tempo, que hoje cresce tranquilo, saudável e feliz na Itália.

Cintia Liana Reis de Silva
É Psicóloga formada em 2000 pela PUC-Campinas, é especialista em Psicologia Conjugal e Familiar pela Faculdade Ruy Barbosa, trabalha com adoção desde 2002, foi perita contratada do Tribunal de Justiça para uma Vara da Infância e Juventude do Brasil por 4 anos quando coordenou o serviço de psicologia, onde também trabalhou antes por 4 anos como voluntária e agora atua na Itália como coordenadora das adoções de criança brasileiras de uma entidade de adoção internacional, http://www.adozionisenzafrontiere.org. Seu blog é o www.psicologiaeadocao.blogspot.com e seu e-mail para contato é cintialrdesilva@yahoo.com.
Por Cintia Liana

domingo, 3 de outubro de 2010

Mãe é tudo igual e mãe é mãe!

Foto: Google Imagens

Por Cláudia Gimenes

Fui convidada pela Glauciana para escrever artigos para a coluna “Mãe é tudo Igual” e fiquei pensando sobre que tema falar. Como a coluna tem um nome bem significativo, vou reforçar que mãe é tudo igual e que “mãe é mãe”!

Sabe, eu não gerei meus filhos. A vida não me deu esta oportunidade, até porque eu não fui atrás de fazer com que ela me desse! Não quis fazer tratamentos nem exames doloridos. Achava que para ser mãe eu não precisaria sofrer mais do que pela espera por eles.

Eu sabia que tinha filhos para mim em algum lugar e que eram 4, mas eu não sentia que precisasse sentir dor, me submeter a doses massissas de hormônios, piorar ainda mais o que já é ruim em mim em questão hormonal, piorar ainda mais meu problema de obesidade, gastar um dinheiro que eu não tinha para ter um filho. Eu sabia que eles viriam e a adoção era o caminho!!!

E agora vou falar algumas coisas à respeito da maternidade escolhida através da adoção!

Quando decidimos adotar um filho e comunicamos isso a parentes e amigos, todo mundo faz festa, boa parte nos cumprimenta dizendo: “ah, admiro vocês… que gesto nobre”.

E aí, por mais que você explique que não é um gesto nobre, que é a espera por um filho, ninguém compreende. As pessoas passam a te olhar com um olhar que vai da admiração à pena e você vê nos olhares reticentes o pensamento de “coitada, não pode ter filhos”.

E passamos a sentir nossa gravidez de uma forma solitária, sem os paparicos de uma grávida biológica, porque ou somos criticadas ou somos exaltadas, colocadas à altura de santas por estarmos, apenas, desejando ser mães!!!

Isso aconteceu comigo! Não tive paparicos, não tive chá de bebê organizado pelas cunhadas – que organizavam chás para todas as crianças prestes a chegar na família -, mas tudo bem. o filho que eu esperava era meu, não dos outros!

Quando o filho chega, todo mundo vem, olha com cara de pena para o seu filho e diz: “coitadinho, né?!? Como a mãe teve coragem de largar um bebê tão lindo?!?”. Mas, espera aí. Quem é a MÃE? Você está diante de uma mãe que acaba de ganhar um filho e diz uma frase destas? Meu coração se partia a cada comentário “sem maldade”, advindo da total falta de senso, caridade e amor, referidos à minha filha. Eu era A MÃE! Ela teve uma progenitora e uma mãe em duas pessoas diferentes. A mãe sou eu!

E aí seu filho vai crescendo e você vai ouvindo: “mas você não tem medo que ela vá procurar a mãe verdadeira?”. E mais uma vez eu digo: “Quem é a MÃE VERDADEIRA? Aquela que gerou e não pôde ou não quis ficar ou você que está convivendo no dia a dia com a criança?”

Então posso afirmar que “mãe verdadeira” não existe, porque se aceitarmos o conceito de “mãe verdaderia” teremos que admitir que existe uma “mãe falsa”. Tá, eu sempre fui considerada a mãe falsa pela sociedade, mas pela linguagem popular, sou a mãe verdadeira!!! rss

Muita gente fala: “mãe é quem cria”, mas estas mesmas bocas te perguntam se você não tem medo que seu filho procure a progenitora, referindo-se a ela como “a mãe verdadeira”. Hipocrisia! Sendo assim, vamos fazer deste desabafo um momento de esclarecimento. O que existe são: mães biológicas e mães adotivas. Nenhuma delas é falsa.

E quando você decide ter o segundo filho, ouve: “você vai adotar outra vez? Porque não tenta ter um filho seu?!”. Para tudo!!! Porque eu não tento ter um filho meu?! A outra filha que eu tenho é de quem, afinal de contas?! Eu sou a mãe, ela é minha filha! Qual a dúvida?

E aí as bocas “sem maldade” completam seus questionamentos com um “ah, claro que ela é sua filha, afinal de contas você é quem cria, mas você já fez uma caridade, agora precisa tentar ter um filho seu mesmo, de verdade, do seu sangue”.

E quando você escuta coisas assim, cai sua ficha! Você é mãe, tem um filho, está esperando outro filho e não é considerada mãe, nem seus filhos considerados filhos! Somos pais e filhos de segunda linha em uma sociedade cheia de preconceitos enrustidos.

Quem disse que quando eu adotei pensei em fazer caridade?! Adotei para ser MÃE, oras. Caridade a gente faz doando dinheiro para asilos, abrigos, abrigos de cães, fazendo trabalho voluntário em hospitais e comunidades carentes. Quem adota, adota para ter um filho, tal e qual quem engravida. Quem adota não pensa em fazer caridade, em salvar uma vida do mundo do crime, em tirar um coitadinho da rua, da miséria ou seja lá de onde for. Quem adota o faz para ser MÃE.

E de mais a mais, quem disse que sangue diz alguma coisa na relação mãe x filhos, pai x filhos? Quem crê que sim, basta relembrar o caso da mocinha Suzane R., filha biológica, advinda de uma gravidez planejada, bem criada e tal…

Apesar de pessoas assim, você segue sua vida e quando decide ter seu terceiro filho, pouca gente é comunicada, menos gente ainda participa. Você já cansou do verniz que as pessoas usam no preconceito e na discriminação e, como sua gestação é sem barriga e sem paparicos, você decide que será sem encheção de saco também.

O terceiro filho pouca gente visita, quase não ganha presentes. Você, definitivamente, é louca perante a sociedade, principalmente se seu filho chegar doente, afinal de contas se você pode escolher, porque aceitou uma criança doente?

O quarto filho só pessoas muuuito próximas e não necessariamente parentes, ficam sabendo. Você só conta para pessoas que compartilham o desejo de adotar, mesmo, e nem faz ideia como será quando este filho chegar. Provavelmente será festejado só em casa, mesmo, entre papai, mamãe, irmãos e alguns pouquíssimos amigos de longe, que nunca te viram pessoalmente.

Se eu tenho mágoas disso tudo?! Não, não tenho!!! Aprendi a conviver e descobri que o preconceito existe, sim, que está mais presente em nossa sociedade do que as pessoas imaginam e que se você não for forte, você é engolido por ele, sucumbe à depressão.

Por isso não me dou o direito de ter preconceito contra nada, também não me dou o direito de julgar as decisões alheias. Escolhas são direito inalienáveis do ser. Você pode até não concordar com algumas escolhas das pessoas que ama, mas tem obrigação de respeitar.

Por isso, aproveito sempre que posso para falar sobre o assunto, porque acredito que somente com informações é que se acaba com o preconceito! Pior do que isso tudo que eu passei é ver meus filhos, agora entrando na adolescência, serem bombardeados com perguntas movidas pela falta de conhecimento do que seja uma relação de filiação verdadeira.

Hoje já não perguntam mais para mim se não tenho medo que eles queiram procurar a mãe verdadeira. Hoje os amigos deles perguntam se eles não têm curiosidade de conhecer suas mães verdadeiras. E o preconceito vai sendo passado de geração a geração.

Eles são bem orientados em casa e são multiplicadores dos conceitos corretos, explicam com paciência para os amigos sobre a inexistência de uma “mãe verdadeira” e colocam os conceitos em seus lugares, mas na minha modesta opinião, se não existisse de verdade preconceito, não haveriam mais crianças e adolescentes fazendo esse tipo de pergunta.

E só para constar: não, eu não tenho medo!!! Se um dia eles quiserem procurar suas mães biológicas eu os ajudarei. Amor é algo que se conquista com a convivência do dia a dia e eu não tenho porque temer um encontro deles com uma desconhecida – que lhes deu à vida -, mas uma desconhecida.

Isso tudo para dizer que mãe é tudo igual, que mãe é mãe, não importa de que forma ela se torna mãe. Se você teve a paciência de ler tudo isso, vou me atrever a deixar algumas dicas se, por acaso, você for pego de surpresa com a notícia de que alguém próximo vai adotar:

- Não olhe com compaixão, nem pena. Adotar não é uma sentença, é uma escolha!

- Não exalte o ato de adotar como algo sublime, não coloque a pessoa em questão nos pés de uma santa, porque isso magoa e ofende.

- Trate seu parente ou amigo que vai adotar tal e qual trataria se ele estivesse esperando um filho biológico. Nós, mães adotivas, também gostamos de ganhar mimos para nossos filhos.

- Quando visitar a família na chegada da criança, jamais olhe com pena nem diga “coitadinha, né?!”. Nenhuma mãe gosta de ouvir que seu filho é coitadinho! Se, por um lado, ele foi abandonado, por outro foi muito esperado e amado antes mesmo de nascer, então não existe nenhum coitadinho.

Foto: Cláudia Gimenez com seus filhos

Claudia Gimenes, 41 anos, casada, mãe (24 horas por opção) de 3 filhos, e à espera de mais uma. Minhas atribuições diárias são: mãetorista, mãesicóloga, mãefessora, mãerientadora, mãeselheira, mãeducadora, mãezinheira, mãe, mãe, mãe… Também é mãe do blog Adoção Amor Verdadeiro.

Fonte: http://www.coisademae.com/2010/09/mae-e-tudo-igual-e-mae-e-mae/page016/

Tenho orgulho de ser amiga desta mãe e mulher!
Um forte abraço, Cláu!


Postado Por Cintia Liana

sábado, 2 de outubro de 2010

Posso registrar a criança com o meu nome?

Foto: Google Imagens

Olá Cintia, Como vai você?
Fiquei encantada com seu carinho por esse universo tão lindo que é o da adoção.

Bom, sou um pouco leiga no assunto.
Tive problemas na gravidez e perdi meu filho com 2 dias de vida, enfim, venho superando tudo, pois confio muito no Deus. Há alguns dias tive uma notícia que me deixou feliz, mas com dúvidas.
Conheci uma senhora que quer doar seu filho em adoção, ela já tem 9 filhos e não tem condições de criar mais um, na verdade já deu 3 bebês antes e, por isso, que quer dar mais outro.
A mãe me daria o bebê ainda na maternidade, eu sairia de lá e faria o registro me meu nome.
 Posso adotar desta forma? Esse tipo de ato é natural? Posso inserir essa criança no plano de saúde empresarial da empresa que meu esposo trabalha?

Deixo um super abraço e aguardo um breve retorno.
Bjs,
B.
____________________________

Cara B., muito obrigada pelo carinho.

Querida, em primeiro lugar te alerto que registrar uma criança como nascida de teu ventre é crime previsto em código penal.
Ok, ninguém pode nunca saber, mas não deixa de ser um crime, pois coisas podem acontecer e você pode fazer diferente, tudo pelo meio legal, mesmo que isso demore um pouco mais.

Você pode fazer assim, a mãe de origem registra a criança e te entrega, isso não é crime.
Você e teu esposo entram com o pedido de habilitação imediatamente (agora), pois só pode adotar quem fez isso e depois de alguns meses entra com o pedido de adoção com sua habilitação.
Ou então espera alguns meses (após estabelecimento de vínculos fortes com a criança) e entra com o pedido de adoção especial para legalizar uma situação familiar já existente.
Se você entrar com o pedido de adoção agora o juiz poderá ver com maus olhos, pois hoje em dia muitos (juízes) pegam a criança e entregam para o primeiro da fila, pois entendem que você está passando na frente na fila de uma pessoa que já espera há anos por um bebê.

No mais, você deve ler muito sobre adoção e conversar com profissionais e pessoas que adotaram. Deve também se observar muito e ver se é isso mesmo que vc quer. Na verdade você só tem que ver se está pronta para ser mãe, porque o amor pelo teu futuro filho adotivo será fortíssimo.
Antes de vocês concluírem a adoção podem incluí-lo no plano de saúde, com os papéis de entrada da adoção.
No passado registrar a criança como filho biológico era mais comum, antes do novo ECA de 1992, chama-se adoção a brasileira, mas hoje é vista de outro modo porque o ECA melhorou e existem meios mais seguros de se fazer uma adoção.
Sou contra a adoção a brasileira, ela é ilegal. Essa prática pode fortalecer o tráfico de crianças.

Não seria bom começar a vida do teu filho e a relação de vcs com esse ranço de ilegalidade. Há quem ache bobagem, mas se eu achasse bobagem eu não seria psicóloga ou seria uma péssima e não daria a mínima para esses aspectos mais sutis da vida e seria uma pessoa descrente nos meios mais honestos, tudo tem um sentido para existir. Vejo sempre o lado da segurança dos pequenos e no que pode refletir na vida dos outros que virão.

Pense e decida o que for melhor. Pode me escrever mais se precisar.
Tudo de bom e muita saúde para o teu futuro filho.
Um abraço.


Por Cintia Liana

Livro da Psicóloga Cintia Liana sobre o percurso de construção da família através da adoção e seus aspectos psicológicos
Para comprar ou visualizar:
http://www.agbook.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca
(2ª Edição - 2012)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Notícias de uma adoção

Foto: Google Imagens


Um bom exemplo de adoção de crianças maiores (12 anos). Muito amor faz dar certo.

E-mail:

Estou bem e feliz com minha princesinha C.. Ela já está mais alta do que eu...e ainda brinca com as bonecas... hehehe...

Ela já está conosco fará 9 meses. E nossos sentimentos por ela são de que sempre esteve conosco.

C. está muito bem adaptada, está renascida.

No abrigo ela era um bichinho acuado, traumatizado e alienado do mundo. Não que a maltratassem lá. Não. Ela era muito bem tratada. Mas todos sabem que a realidade de abrigo não é a mesma de uma família.

Tivemos muito trabalho para ajudá-la a renascer nestes 9 meses. Muito trabalho meeeesmo. E olhem que ela é uma menina extremamente meiga. Mas valeu muito a pena! Faria tudo novamente mil vezes... hehehe...

E nessa certeza eu reafirmo que pretendo adotar mais. É maravilhosa a condição materna. É inexplicável ter tanto trabalho, sofrer, chorar às vezes, e ser mais feliz.

Nosso processo de adoção está perto de ser concluído. Nós três não vemos a hora de termos a nova certidão de nascimento da C.. Os olhinhos dela brilham só de pensar nisso. Ela demonstra a enorme importância que terá a chegada desse documento na vida dela. É para ela uma representação concreta do que já está construído no psicológico: a libertação, a transformação, o renascimento.

Deus é muito bom! Ele nos deu C.!

Queremos adotar mais. Não sei quando. Mas isso acontecerá.

Sobre a adaptação familiar, minha mãe é a única que ainda demonstra não aceitá-la realmente como nossa filha. Mas ela faz isso longe da C.. Pelo menos, ela tem esse cuidado.

Minha mãe já chegou a dizer que eu ainda não sei o que é "ser mãe", pois não "pari" e adotei uma menina "grande". Ela diz que eu apenas estou "criando" a C..

Minha mãe quase nunca me visita e não sabe do nosso convívio, não sabe dos detalhes maravilhosos que tenho vivido. Quando tento contar, ela me interrompe e muda de assunto. Ela é estranha. Mas ela sempre foi estranha para os sentimentos, nunca foi muito chegada a carinho mesmo.

Ela detesta que a C. esteja a cada dia mais linda e mais alta; e demonstra irritação quando vê a C. com roupa nova.

Mamãe sempre me diz, "coloca a C. para ajudar em casa!", "em breve a C. estará uma moçona!", "ensina a C. a cozinhar!". Isso torra a minha paciência, mas vou levando.

O fato é que eu, meu marido e C. estamos a cada dia mais em harmonia. Graças a Deus!

Abraços,

L.


Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 21 de setembro de 2010

História 7

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

"O bom é que tem bastante festa de natal por aqui." – Fernando

Rosto miúdo, sorriso generoso, Fernando Tobias Vitório de Oliveira, de 9 anos, é um menino que já fabula. Basta dar atenção e ele emenda uma história atrás da outra. Sempre com a fantasia pintando cores que sua realidade não tem. "Eu tinha um cachorro doberman chamado 'Snoopy'", começa a narrar. "Ele era bonzinho, aí veio um bêbado e deu uma paulada na cabeça dele. Encontrei ele morto quando fui comprar pão e leite, enterrei e nunca mais quis outro cachorro." Depois vem com lembranças da mãe: "Ela contava histórias para mim e meus irmãos na hora de dormir, e a gente ouvia uma caixinha de música". Isso tudo foi antes de ele e seus três irmãos menores irem para o Solar da Alegria, no bairro do Belém, uma das três unidades de abrigo e encaminhamento que a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, Febem, mantém na cidade. A mãe perdeu a guarda dos quatro meninos por não ter condições de sustentá-los.

O Solar é um abrigo temporário para menores de 0 a 6 anos. Eles podem ficar lá até três meses. Depois disso, retornam às famílias ou são encaminhados para uma entidade que admita permanência longa. Pela idade, Fernando não poderia estar no Solar. No início ficou lá para não se separar dos irmãos. Depois, por estar cursando uma escola vizinha — apesar de os irmãos terem seguido para outra instituição.

"O bom é que tem bastante festa de Natal por aqui", diz, falando dos eventos agendados com antecedência por benfeitores. "Perdi algumas porque vou visitar meus irmãos no domingo." Nesses dias, ele se reúne com a mãe e os irmãos por algumas horas. Não é o bastante. Por isso, pede duas coisas ao velhinho de barbas brancas, desenhado com capricho em seu caderno: uma bicicleta e poder festejar o Natal com a família. Um pouco do que ele quer deve tornar-se realidade. Nesta semana ele se juntará aos irmãos na outra instituição.

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

domingo, 19 de setembro de 2010

História 6

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

"Eu quero o anjinho para me proteger." – Angélica

A frase sai direta, misturando alegria com inquietação, naquele jeito ingênuo de criança. "Minha vó quer me levar", diz Angélica Ramos, 9 anos. Logo depois, seus olhos refletem a incerteza. Como seria passar a morar com dois irmãos menores, na casa da avó que mal conhece?

Angeliquinha, como gosta de ser chamada, está na Casa Vida desde os 3 anos. No confortável sobrado construído especialmente para abrigar catorze meninos e meninas portadores do HIV, ela se sente realmente em casa. Escolhe o CD, canta, dança, elogia as duplas sertanejas, sorri encabulada ao falar do grupo musical Hanson. Mostra, nos seis quartos, quem dorme em cada uma das camas — cuidadosamente arrumadas, com brinquedos sobre o travesseiro. Abre as portas e explica o funcionamento desse lar. "Aqui é a sala de estudos, aqui a farmácia, aqui o escritório..." Na lavanderia, fica emburrada ao ver que o tênis não estará seco até a hora da escola. Logo renova a pose, enquanto desfila pelo corredor com o uniforme do colégio. Chama de pai o padre Julio Lancellotti, que criou a instituição em 1991 e ainda hoje comanda o trabalho nas duas casas (na outra ficam vinte crianças de até 6 anos). A coordenadora Rosana Soares Ribeiro ela chama de mãe. Namora o Anjo do Gugu, boneco que permanece na caixa até que um adulto tome a difícil decisão de escolher quem será contemplado com o cobiçado presente.

Agora, Angélica terá uma primeira oportunidade de se acostumar com a avó. Na noite de Natal estará com ela e os dois irmãos que vivem em outra instituição. "Natal? É a festa do menino Jesus, o aniversário dele", diz. "Tem também o Papai Noel, que traz uns presentes. A gente não pode pedir porque é falta de educação, mas pode querer. Eu quero o anjinho para me proteger."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

História 5

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

"Esse lugar é tão grande, deve ter uma chaminé." - Jaqueline

No quarto das meninas do Lar de Infância Nice, encharcado da luz do sol que entra pelas janelas altas e sem cortinas, a cena é dominada por bonecas e bichos de pelúcia. São muitos, espalhados sobre as dezoito camas tubulares cor-de-rosa arrumadas com colchas de estampa delicada.

Logo na entrada fica a de Jaqueline Nucci de Souza, de 9 anos. Desde os 3 ela vive na instituição fundada pelo Centro Espírita Irmã Nice na década de 60 — uma época em que não se falava em abrigo, mas em orfanato, e as crianças cumpriam uma espécie de sentença de prisão dentro das casas assistenciais. Ela garante que esses tempos não têm nada a ver com sua rotina. Vai à escola, nada em um clube municipal nos finais de semana e, de vez em quando, recebe amiguinhas em seu quarto. Suas roupas, compartilhadas com as outras internas, estão sempre limpas e passadas.

Jaqueline tem dois sonhos. Um é o de tornar-se salva-vidas. O outro é de um dia ser adotada por uma família argentina, só para ter mais chance de conhecer as Chiquititas. "Se não der, tudo bem, sou muito feliz aqui", diz a menina, abandonada ao nascer.

Sua única referência familiar é a avó materna, que a visita uma vez por ano. Nem a ela Jaqueline pergunta dos pais que nunca conheceu. "Tenho um monte de mães, tias e irmãos. A gente se adora." Com eles, montou o presépio com mais de trinta peças e a árvore de Natal colocada na entrada dos visitantes. Nesta semana todos se reunirão na festa natalina oferecida por benfeitores da entidade. "É o dia mais feliz do ano", ela garante, mexendo nos brinquedos que recebeu nos últimos dias. Tem uma Barbie, um bambolê, sapatos e vestidos. "A bicicleta eu acho que é o Papai Noel quem vai trazer." Preocupada com a chegada do velhinho, ela pensa por onde ele poderia entrar. Logo se acalma. "Esse lugar é tão grande, deve ter uma chaminé em algum canto."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

História 4

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo


"Se ela me der um brinquedo e fizer uma lasanha vai ser a melhor coisa do mundo." - Márcio

A mala já está pronta. Marcio Felix de Carvalho não agüenta de ansiedade. No dia 22, ele pegará o ônibus com a avó materna para passar o Natal na casa dela, em São Manuel, a 291 quilômetros da capital. Será a primeira viagem dos seus 8 anos de vida, e também a primeira visita à casa de um parente após três anos de afastamento.

Desde 1996, ele e o irmão Romário, de 6 anos, estão sob a guarda e os cuidados do Movimento de Assistência aos Encarcerados do Estado de São Paulo, o Maesp, criado por um grupo de evangélicos. Não sabem do paradeiro dos pais, e pouco lembram do passado. Marcio diz apenas que sua história não é boa. "Agora é bem melhor, tenho comida quentinha e até ganhei uma camiseta do Batman", conta.

Apesar do aperto financeiro pelo qual passa a instituição, ali ninguém tem fome ou vive com roupa rasgada. Para manter as contas em dia, os funcionários promovem jantares, bazares e venda de quadros pintados pelos pequenos. As doações são cada vez mais escassas. O que ajuda é o corpo de voluntários. Alguns até levam as crianças para suas casas na semana do Natal e Ano Novo, quando o abrigo fica fechado.

No ano passado, Marcio passou essas datas junto com a família de uma das mulheres do voluntariado. Aprendeu a mexer em computador e surpreendeu a todos com sua habilidade. Ainda assim, finca pé na intenção de ser jogador de futebol. Estuda duro de manhã, para poder treinar seus chutes na Escola de Futebol do Marcelinho, no Ipiranga, à tarde. Nesta semana de Natal, ele pretende exibir suas qualidades de boleiro à avó. Em troca, espera recompensas simples. "Se ela me der um brinquedo e fizer uma lasanha vai ser a melhor coisa do mundo."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

domingo, 12 de setembro de 2010

História 3


Foto: Irene Lamprakou

Revista Veja São Paulo


"A gente só ganha se alguém der dinheiro para comprar" – Alaíde

Este Natal promete ser bem melhor para Alaíde Marques Miranda, de 8 anos, uma das 85 crianças que vivem na Aldeia SOS de Rio Bonito, no Jardim Colonial. Há dois meses, ela ganhou uma madrinha dinamarquesa. A mulher de falar estranho veio ao Brasil só para conhecê-la, passou horas a seu lado, tirou fotos e deixou na afilhada a esperança de receber um presente até o dia 25.

No Natal passado, sem madrinha, Alaíde ficou de mãos vazias. "Acho que vai chegar dinheiro para minha mãe social comprar uma Barbie", acredita. A mãe social, no caso, é Adelaide Tonon da Silva, de 52 anos. Funcionária da organização não governamental criada na Áustria em 1949 e presente em diversos países,

Adelaide é encarregada de administrar uma das onze casas de três quartos, sala, cozinha e banheiro. Mora lá, cuidando de Alaíde e de outras sete crianças. Como se fosse uma família, sem pai. Recebe mensalmente 800 reais. Com essa quantia deve garantir aos pequenos comida, roupa, educação e higiene. Para brinquedos, dificilmente sobra algum.

É o segundo final de ano que Alaíde passa com a família social. "Natal é um dia legal, com uma festa bonita em salão e comida diferente", define. "Eu como muita uva e melancia."

Quando tinha 3 anos, Alaíde perdeu a mãe biológica. Sem parentes, foi encaminhada à adoção. Quatro anos depois, em 1997, alegando dificuldades para cuidar da menina, os pais adotivos a entregaram à instituição. Entre as poucas lembranças desse passado conturbado que ela comenta, fala de um certo Papai Noel que viu na escola, antes de chegar à Aldeia. "Ele é bom, traz presentes, mas sei que é um homem disfarçado", diz. Pela própria experiência, ela não tem ilusões quanto à origem dos brinquedos que chegam. "A gente só ganha se alguém der o dinheiro para comprar", descobriu.

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

História 2

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo


"Tenho muita vontade de conhecer o mar..." – Keila

Desde quando era bebê, há onze anos, Keila Suzana Carvalho de Andrade vive no rígido ambiente religioso da Casa de Maria, um abrigo com 150 crianças que mantém a austera disciplina de antigos orfanatos católicos.

Keila acorda às 5h30, toma banho e veste o uniforme da instituição — calça de moletom cinza, camiseta e tênis brancos. Vai para a escola e, na volta, assiste ao capítulo da novela Chiquititas gravado na noite anterior. Às 19h, recolhe-se ao quarto. É hora de conversar com as amigas. Nada de TV. Nos poucos domingos em que ficou diante da telinha até mais tarde acabou dormindo na oração matinal.

Em meio a tal rotina, Keila não encontrou espaço para acreditar em Papai Noel. Quando era pequena, alguém disse que ele havia subido em um avião, saltado e morrido. Para ela, pareceu convincente.

Keila aprendeu a não sentir falta da mãe biológica. Só sabe que ela a deixou no orfanato e nunca mais voltou. "Não me interesso porque nem a conheci", diz, com a naturalidade de quem se habituou a ausências, rigidez e renúncias. Alegra-se com coisas simples.

Como sua roupa predileta, a de domingo: saia comprida, listrada de branco e azul, e camisa de algodão branca com a imagem de Nossa Senhora e o Menino Jesus. Sabe que na ceia de Natal todos estarão comendo na imensa mesa do quintal, onde serão distribuídos os presentes doados à Casa de Maria. Não faz pedidos, mas tem lá suas preferências. "Seria bom ganhar um fichário com uma estampa do gato Frajola", sonha. "Também tenho muita vontade de conhecer o mar..."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes


Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

Existem na cidade de São Paulo muitos abrigos destinados a cuidar de crianças que, por algum motivo, não têm um ambiente familiar que as acolha. Já não se usa mais a palavra orfanato para definir esses lugares, pois o que produz menores carentes não é somente a morte dos pais, mas também outros dramas, como o abandono, a miséria, os maus-tratos. Desde 1990, quando foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, as entidades sérias dedicadas a esse tipo de proteção mudaram de nome e de objetivos. Deixaram de ser depósitos de rejeitados para tentar mudar o destino dos internos, seja encontrando pais adotivos, seja promovendo seu retorno à família original. Passaram a dar-lhes, enfim, o direito de ter esperança num futuro melhor. É por isso que, apesar das agruras, meninos e meninas nessa situação ainda encontram motivos para sorrir — especialmente na época do Natal, quando o espírito solidário motiva a chegada de presentes, visitas e festas preparadas só para eles.

Ricardo, Keila, Alaíde, Marcio, Jaqueline, Angélica e Fernando, que você conhecerá melhor nas próximas páginas, expressam bem essa alegria. Há muitas formas de ajudá-los e aos milhares de pequenos que vivem nas centenas de abrigos na cidade. Em muitos casos, o melhor a fazer é cercá-los com o calor que só existe de verdade na relação entre pais e filhos. Nem sempre, porém, a adoção é possível. Algo que pode ser feito em favor de toda essa gente miúda são doações às entidades que cuidam deles.

Para conhecer algumas das mais sérias, basta consultar as relações existentes no site do projeto Bem Eficiente (http://www.melhores.com.br) ou falar com o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente ( 225-9077, ramal 23 ou 24). Pode-se também apoiá-las como voluntário (cadastrando-se pelo site http://www.voluntarios.com.br) ou até ficar com um dos abrigados em casa na época do Natal. Se nada disso estiver a seu alcance, agende uma visita à entidade. Não custa nada e vale muito. Toda criança adora ver que alguém pensou nela.

Com reportagem de Anna Paula Buchalla, Gabriel Pillar Grossi, Gabriela Erbetta, Iracy Paulina e Viviane Kulczynski.


Seguem 7 histórias reais, uma por postagem.


História 1

"Quero um trem, um boneco, reportagem de capa uma mãe e um irmão" – Ricardo

Saber quem é o velhinho que traz os presentes no dia de Natal não é a única curiosidade que Ricardo Martins expressa no olhar. Há muitas outras, entre as quais descobrir algum detalhe sobre o próprio passado. Acometido de uma espécie de amnésia, ele não se lembra da família nem sabe dizer quanto tempo esteve abandonado nas ruas da cidade. Perambulava pelo centro, em meados do ano passado, quando foi recolhido, levado a uma unidade da Febem e encaminhado ao abrigo do Movimento de Apoio à Integração Social, Mais. Desde então tem recebido o cuidado da entidade e de seus 120 voluntários, encarregados de dar a melhor vida possível às oitenta crianças que aguardam um destino — seja a adoção, seja o retorno à família de origem. Segundo exames médicos, Ricardo tem por volta de 7 anos.

Sentado junto do pinheirinho enfeitado no saguão, ele fala sobre o Natal do ano passado, o único que ficou gravado em sua memória. "Papai Noel chegou de helicóptero e distribuiu presentes para todos", conta. "Ele mora longe, precisa vir voando."

Fã de Ronaldinho e dos personagens de desenho animado Rei Leão e Hércules, o garoto procura imitar um pouco de cada um. Cortou o cabelo bem curto, como o craque. Adora a natureza, como o leãozinho dos estúdios Disney. De Hércules, copiou a coragem. "Nunca tive medo de nada, nem quando dormia em casa abandonada", diz.

Matriculado no pré-primário, descobriu a magia do lápis e do giz de cera. Vive desenhando. Já rabisca algumas letras e exibe orgulhoso, num pedaço de papel, as iniciais de seu nome. Ainda não consegue escrever uma lista de presentes. "Não precisa, né?", conclui. "Papai Noel sabe que eu quero um trem de plástico, um boneco, uma mãe e um irmão", pede. "Se não der, tudo bem, já ganhei uma bola mesmo."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana