"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sábado, 15 de dezembro de 2012

A verdade é o princípio da adoção

Ser honesto com os filhos sobre todo o processo é a melhor maneira de evitar desententimentos

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09/12/2012 01:34 - MYLLENA VALENÇA

“O filho é a resultante esperada da relação homem-mulher; é como se o equilíbrio se completasse a partir de um terceiro referencial. É da interação dessas três forças (ou mais) que surge a verdadeira unidade”. O sentido da afirmação do psicólogo Luiz Schettini Filho é o ponto de partida para que muitos casais optem por a­dotar uma criança quando, por algum motivo, não podem gerá-las. Mas apesar de toda a grandiosidade e beleza da adoção, existe uma fase delicada, pe­la qual todos irão passar: a ho­ra de contar à criança a verda­de so­bre sua origem. É preciso matu­ridade para que este mo­men­to seja encarado pela fa­mí­lia com total naturalidade, evitando  traumas aos pequenos.

Em seu artigo “Uma psicologia da adoção”, Schettini diz que a criança adotada necessita do conhecimento de sua origem. “Dizer a verdade tem sido um desconforto, quando não um motivo de pânico, para alguns pais. É como se a histórica revelada pudesse destruir o afeto familiar. Porém, as dificuldades nas relações interpessoais poderão surgir muito mais pela manutenção dos segredos do que pela revelação da verdade”, garante Schettini, que é especialista em psicoterapia de crianças e adolescentes e o maior escritor do assunto no Brasil.

Esposa e parceira de Luiz em pesquisas, além de presidente do Grupo Estudo e Apoio à Adoção (Gead), no Recife, a psi­cóloga Suzana Schettini a­crescenta que a criança precisa tomar conhecimento de sua realidade mais ou menos aos 2 anos, com palavras simples e de uma forma que ela pos­sa en­tender. “Na verdade, os pa­is irão apenas confirmar o que, inconscientemente, a cri­ança já sabe. Ela tem percepções e ins­crições psicológicas da vida intrauterina e da transpo­sição pa­ra a família adotiva. Tan­to que, atualmente, não se fa­la ma­is em ‘revelar’ a história mas, sim, comunicar. Isso não de­ve angustiar os pais”, pontua Su­zana. De acordo com a psicó­loga, eles são as pessoas que devem fazer esta comunica­ção, para evitar  que a criança tome conhecimento de for­ma inadequada, através de terceiros.

Meninos e meninas terão um entendimento mais claro de sua adoção a partir dos 6 ou 7 anos e a reação deles ao fato vai depender de como lhes foi passada a sua realidade. “A criança aprende o mundo da forma como os adultos ensinam. Se estes se sentem seguros e confiantes na sua condição de pais, assim a criança também se sentirá. 

É o que acontece com a fonoaudióloga Auriany Nunes e o motorista Gustavo Souza Leão, que hoje esperam seu primeiro filho biológico, mas, primeiro, adotaram Arthur, de 4 anos, quando ele era um bebê de 3 meses. “A chegada dele só nos trouxe alegria e por isso esclarecemos os fatos naturalmente. Sobre a sua vida, não queremos deixar lacunas”.

Fundadora do Geadip, grupo de apoio à adoção, em Belo Jardim, no Agreste, Tatiana Valério tem duas meninas: Maria Júlia, 6, e Maria Alice, 4. Ela e o seu marido, o autônomo Marcos Valério, sempre procuraram a forma mais leve de falar com elas sobre o assunto. “A mais velha já entende, mas eu digo à mais nova: mamãe e papai queriam muito outra filha. Um dia, o telefone tocou e era a juíza perguntando: ‘é da casa de Marcos e Tatiana? Tem uma menina aqui esperando vocês’. E nós fomos correndo buscar você!”, conta Tatiana, que sempre põe a sinceridade em primeiro lugar. “Ela está na fase de dizer que saiu da minha barriga, mas sou firme: não, filha; os pais podem ter os filhos ou a­dotá-los e nós adotamos você!”.

Suzana Schettini resume bem toda essa questão: “A adoção é apenas uma outra forma de se chegar à família. Na verdade, to­das as crianças precisam ser a­dotadas para se tornarem filhos, porque a filiação somente acontece através dos vínculos afetivos, ou seja, pela adoção. Assim sendo, todos os filhos precisam ser adotivos, mes­mo os biológicos, ou não serão filhos de fa­to. Os pais que não adotam as suas crianças afetivamente, são apenas genitores”. 



sexta-feira, 2 de março de 2012

A revelação da adoção

Google Imagens
02.03.2012
Por Guilherme Lima Moura

Na nossa casa, adoção é assunto do dia a dia. Minha esposa, nossos filhos e eu falamos sobre o tema com naturalidade porque a atitude adotiva é parte intrínseca da educação que lhes damos, como o é da própria constituição da nossa família. Essa naturalidade foi também introduzida desde o início aos demais familiares: avós, tios, primos. E igualmente nos nossos círculos mais próximos de convivência.
O resultado disso é que nossos filhos se apropriaram naturalmente do conceito de adoção e fazem uso dele em várias situações. Eles entenderam que a filiação é sempre e necessariamente adotiva. E também que precisamos adotar uns aos outros, a natureza, o planeta. Entenderam que a adoção é o amor em ação e, como tal, se expressa na relação que estabelecemos em todos os contextos. Entenderam, sobretudo, que a atitude adotiva é um processo relacional inspirador para a vida ou, no dizer do biólogo Humberto Maturana, é uma postura que “aceita o outro como legítimo na relação”.
Importante dizer que aprendemos esta forma natural de tratar do assunto (como muito do que sabemos hoje sobre o fazer-se pai/mãe) na convivência regular com os amigos do Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife (Gead Recife). Nas nossas conversas, compartilhando experiências e, particularmente, pelo privilégio de poder contar com a palavra esclarecedora de Luiz Schettini, com suas muitas primaveras vividas na adoção como psicólogo e como pai.
Nos nossos encontros mensais do Gead, um dos assuntos recorrentes, pela natural rotatividade dos participantes, é o que ficou conhecido como “a revelação”: quando e como contar aos filhos sobre a adoção? E a resposta: deve-se contar desde sempre. Simples assim.
Temos vivido essa experiência há cerca de sete anos. Explicamos que nossos filhos nasceram da barriga de outras mulheres (sua genitoras) e que elas não puderam ser suas mães. “Aí papai e mamãe foram buscar vocês para serem nossos filhos amados”, completamos. Tudo narrado de acordo com a maturidade que a idade permite.
De tempos em tempos o assunto surge naturalmente e nós, também naturalmente, narramos mais uma vez a história. Falamos de detalhes interessantes e emocionantes do nosso primeiro encontro. Rimos juntos. É um momento mágico. E assim eles vão elaborando o conceito no tempo deles, sem que haja tabus ou “indiscutíveis” na nossa relação. Como diz a querida amiga e presidente do Gead Recife, Suzana Schettini, “os filhos terão a naturalidade e a segurança que observarem em seus pais”. Pura verdade.
Infelizmente, muitos pais adotivos cometem o equívoco de esconder a adoção de seus filhos. E, ao fazerem isso, terminam por lhes negar o acesso à sua própria história. Com a intenção de protegê-los de algum tipo de sofrimento, terminam abrindo mão de construir com eles uma história afetiva baseada em verdade. Omitindo-lhes parte tão relevante de seu passado, elaboram com eles um presente sempre incompleto e melindroso − porque há sempre uma verdade no ar que ninguém pode expor, mas que os filhos parecem intuir.
A experiência clínica de muitos psicólogos, bem como as conclusões de diversos estudos sobre o assunto, demonstram que, quando os filhos adotivos têm acesso à sua história através de terceiros ou descobrindo sozinhos, quase sempre reagem muito mal. Entretanto o motivo de tal reação não é a condição adotiva em si, mas o fato de terem sido enganados por aqueles que sempre foram sua referência primária de confiança, verdade e honestidade. E terminam por deduzir que se esse fato lhe foi escondido é porque se trata de algo feio ou errado.
O que cada um fará em tal circunstância é tão variável quanto o é a própria diversidade humana. Supor causalidade entre a especificidade da filiação e a maldade é tão equivocado quanto cruel. É discriminatório. É mais provável, isso sim, que a maldade humana se manifeste onde não haja adoção, considerando que a filiação é construída sempre no afeto, existam ou não os laços biológicos.
Até quando apontaremos na direção errada? Até quando acreditaremos que o sangue é capaz de nos oferecer aquilo que só podemos construir na convivência amorosa?!
A adoção é o amor em ação. Então porque escondê-la? O que é tão lindo tem mais é que ser dito e vivido com a cabeça erguida e o sorriso no rosto: “Sou filho adotivo, sim. Bom seria que todos fossem...”
Guilherme Lima Moura é pai adotivo, integrante do Gead (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife) e professor da UFPE
Fonte: http://ne10.uol.com.br/coluna/atitude-adotiva/noticia/2012/03/02/a-revelacao-da-adocao-329761.php
 
Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 12 de julho de 2011

A auto estima do seu filho

Cacau Waller

Por Milagros Pérez Oliva

Conseguir que os filhos tenham auto-estima elevada é um dos objetivos que se colocam muitos pais, mas nem sempre os métodos que utilizam para tanto são os mais adequados. Às vezes, querendo cultivar a auto-estima, o que fazem é fomentar a egolatria. A linha que separa a auto-estima da egolatria se origina nas primeiras relações que a criança tem com seu entorno.

Todos os pais querem que seus filhos sejam felizes e estão dispostos a fazer o possível para consegui-lo, mas muitas vezes tentam pelo caminho errado. Conscientes de que a base da felicidade está em uma boa auto-estima, muitos pais se preocupam em seguir estratégias que permitam cultivar a auto-estima dos filhos, mas às vezes erram o caminho e, em vez de uma criança feliz e equilibrada, acabam cultivando um ególatra, um pequeno tirano. Saber encontrar a linha divisória entre auto-estima e egolatria é um dos nós da psicologia evolutiva.

Dorothy Corkille, em "El niño feliz" (ed. Gedisa) , obra que já tem 31 edições, estabelece uma primeira diferença: "Auto-estima é o que cada pessoa sente por si mesma. Seu julgamento geral sobre si mesma, na medida em que sua própria pessoa lhe agrada. Auto-estima elevada não consiste em uma presunção ruidosa. É, sobretudo, um respeito silencioso por si mesmo, a sensação do próprio valor. Quando alguém a sente no fundo de seu ser, alegra-se por ser quem é. A presunção, em troca, não passa de uma capa delgada que cobre a falta de auto-estima. Aquele cuja auto-estima é elevada não perde tempo em impressionar os demais: sabe que tem valor".

Esse é o ponto de chegada, mas qual é o caminho? O caminho começa no próprio momento em que a criança abre os olhos e começa a ver o mundo. A psicanalista Isabel Menéndez afirma: "Entende-se por auto-estima que a criança tenha uma percepção de si mesma como alguém valioso e querido, especialmente pelos pais. Ela é construída quando os adultos acompanham a criança no crescimento, impondo-lhe limites, quer dizer, educando-a e formando sua personalidade. E fazendo-o com respeito, que consiste em não forçar a criança, mas sim motivá-la para que aja de determinada maneira".

"Auto-estima é a capacidade de estar bem consigo mesmo e com o entorno, em um sentido profundo, íntimo", acrescenta Lurdes Cestero, psicóloga clínica. "Às vezes se confunde auto-estima com egolatria. A egolatria é uma estima inflada, baseada em ouvir 'você é maravilhoso', 'você nunca tem culpa de nada'. Na realidade, o que a criança percebe é que seus pais negam suas verdadeiras necessidades, que no fundo a ignoram, com o que estão lhe dizendo que não tem valor."

As crianças nascem sem nenhum sentido do eu. Vão construindo-o conforme vivem, mas como constroem a idéia de si mesmas? Corkille utiliza uma metáfora muito bonita para explicar isso, a teoria dos espelhos: as crianças constroem sua identidade a partir das imagens de si mesmas que observam projetadas nos outros. O primeiro espelho no qual se olham é o olhar da mãe, o rosto do pai, as emoções que sua mera existência provoca neles. Os pais são um espelho psicológico no qual os filhos se vêem; vão se construindo por dentro em função do que observam de si mesmos no espelho que são os pais e as pessoas próximas.

Se percebem que são valiosos para seus pais, se sentirão valiosos. Mas o espelho é feito de um vidro emocional muito delicado. Não é feito só de palavras; por isso não basta dizer cem vezes à criança "eu a amo" se o espelho do olhar, da expressão, o discurso não-falado, o que nunca engana, diz outra coisa. "Para sentir-se completamente bem por dentro, as crianças precisam de experiências vitais que provem que elas são valiosas e dignas de serem amadas", diz Corkille.

"Os pais são o modelo para tudo, tanto pelo que dizem como pelo que não dizem, e principalmente pelo que fazem", acrescenta Cestero. Ela observou em seu consultório que o amor e a atenção geram um círculo virtuoso, às vezes em ambas as direções: "Em geral, se a auto-estima dos pais está bem, a da criança também costuma estar", explica. "Para alguns pais, o fato de ter um filho é um motivo para fazer uma grande mudança interior. O amor pela criança os ajuda a modificar coisas que não gostam em si mesmos. E se a mudança funciona e é gratificante, se consolida."

Mas a auto-estima pode se ressentir se a imagem que a criança percebe no espelho das pessoas das quais depende for distorcida ou negativa. "Às vezes a origem do problema é que os pais transferem para os filhos suas próprias insatisfações", explica Menéndez, e alguns, mais que amor, lhes dão consentimento. Os pais que, querendo dar amor, consentem tudo, não estão cultivando a auto-estima dos filhos, mas sua egolatria. "Uma criança ególatra é aquela que foi colocada num pedestal", continua.

"São crianças às quais não se impuseram limites e que acabam sendo tiranas. Pode haver tiranos porque os adultos dão demasiado ou porque dão muito pouco. Também há falta de auto-estima por excesso de proteção. A superproteção não protege realmente a criança. A mãe superprotetora é mais dependente do filho, este percebe isso e pede cada vez mais. Acredita que a mãe é todo-poderosa e pensa que todo mundo é assim e que está à sua disposição. Um ególatra é uma criança que não foi frustrada adequadamente no momento em que era preciso fazê-lo, e no fundo também pode haver um grande sentimento de abandono, porque deixá-la fazer o que quer é na realidade abandoná-la."

Muitos pais não sabem ou não levam em conta que impor limites a seus filhos é amá-los. "Muitas vezes, quando os pais não colocam limites, na realidade estão depositando seu próprio narcisismo no filho", afirma Menéndez. "São pessoas que se sentem frustradas por não poder fazer o que querem e compensam essa sensação deixando que seu filho faça o que quiser."

Cestero insiste na importância do princípio de aceitação e acompanhamento."Para que a criança se sinta valorizada, é muito importante diferenciar entre o comportamento da criança e a própria criança." Uma coisa é o que ela faz, algo que pode ser modificado, e outra o que ela é. Quando é corrigida, é preciso incidir sobre o que ela faz, sem questionar o que é. Ela é sempre amada pelo que é, mas é corrigida pelo que faz. É uma distinção sutil, mas de grande alcance. "É preciso dizer: 'isso que você fez não está certo', mas mantendo a conexão amorosa."

Essa distinção entre o ser e o fazer deve se refletir tanto na atitude quanto na linguagem. Não é a mesma coisa repreender uma criança que quebrou uma coisa dizendo-lhe que não deve pegá-la assim porque quebra, ou lhe dizer que é uma desastrada. Que uma coisa se quebre é um acidente, que alguém seja desastrado é um atributo que o define.

Menéndez descreve alguns dos sinais que podem alertar sobre a baixa auto-estima. Por exemplo, fazer constantemente coisas transgressivas só para chamar a atenção; ou a necessidade excessiva de destaque e de liderança também pode esconder uma criança narcisista com baixa auto-estima. "Como não se sente bem por dentro, tem necessidade de buscar constantemente a aprovação externa", explica. Isso também pode se expressar, no caso de crianças muito tímidas, na dificuldade para expressar seus sentimentos, em uma tendência a fechar-se.

O resumo seria que a auto-estima se constrói quando os pais apóiam seu filho com todas as suas conseqüências, seja como for, com as limitações que tenha, mesmo que não se adapte ao que eles esperavam. A criança deve perceber um amor incondicional, mas para que o perceba o amor deve ser efetivamente incondicional. Stanley Coopersmith, uma das referências em psicologia infantil, demonstrou com seus estudos que a auto-estima não tem a ver com a posição econômica da família, nem com a educação, nem com o lugar onde se nasce ou se vive. Não tem a ver com o nível educacional dos pais nem com o fato de a mãe trabalhar ou não. "Depende simplesmente da qualidade das relações que existem entre a criança e as pessoas que desempenham papéis importantes em sua vida", escreveu.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Aproveito para lembrar que os pontos levantados no texto sobre sentir segurança no que é e em sua importância também servem para a condição de adotado. Se os pais estão bem com esta realidade e expressam esta sensação, é muito mais fácil do filho também se sentir assim.

 
Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dimensões Familiares e Causalidade Circular

Beneath this Burning Shoreline

Por Cintia Liana Reis de Silva

Dimensões que cada família tem, que podem ser avaliadas na terapia familiar com instrumentos específicos de mensuração. *Hoje pesquisei 8 tipos de dimensões, de 8 autores diferentes.
Vejam abaixo quantas nuances guardam a família e suas relações:

Estrutura de poder
Grau de indiduação familiar
Capacidade de aceitar separação e perdas
Percepção da realidade, afeto
Conflito verbal e físico
Coesão e adaptabilidade
Capacidade de “Problem Solving” (resolução de problemas)
Organização e atmosfera emotiva
Comunicação
“Probelm Solving” (Resolução de problemas)
Papéis
Reponsividade afetiva
Co-envolvimento
Controle do comportamento
Relação, crescimento pessoal
Manutenção do sistema
Realização das funções familiares
Performance dos papéis
Comunição, expressão dos afetos
Valores e normas
Co-envolvimento emotivo familiar e críticas percebidas

*Referência:
Barow, W. James. Dare un senso alla diagnosi. Milano: Raffaello Cortina Editore, 2005.
Uma das teorias da terapia familiar:

*"Causalidade Circular"
A relação é feita de duas pessoas. Quando um filho tem um problema nunca este problema é isolado, normalmente envolve a responsabilidade dos pais e isso não e trata de culpabilizar nenhuma das partes.

Exemplo: A mãe é muito apreensiva porque a filha de 30 anos é irresponsável, a filha de 30 anos é irresponsável porque a mãe é muito apreensiva.

Se uma das duas muda o comportamento a outra muda também, por mais que o sistema insista em se manter o mesmo, mesmo que num padrão adoecido. Com a mudança de uma das partes o sistema familiar tenta se reequilibrar dentro de outro funcionamento, o importante é buscar um relacionamento saudável e respeitoso, onde todos possam ser adultos sem manipulações.

A filha entra em colisão com a sua mãe - numa tentativa de romper com o padrão que pode ter sido herdado de outras gerações, o que chamamos de padrão transgeracional - fazendo um divórcio emocional, tentando se diferenciar, ganhar espaço para amadurecer. A filha entra em crise emocional, adoece psicologicamente mas, posteriormente, se recupera e adquire uma autonomia do pensar, no sentir e agir por si mesma, como um adulto responsivo.

O que a mãe pensava que seria ruim e que a afastaria da filha só serviu para fazer da filha mais forte e responsavel diante de sua própria vida. A mãe tem que deixar a filha crescer e esta segunda tem que querer crescer.

*Meus ensaios de Terapia Famíliar para o "Psicologia e Adoção"

Por Cintia Liana

sábado, 13 de novembro de 2010

Momento de Verdade

Foto: Google Imagens

Por Priscila Gorzoni
Fonte: Revista Baby & Cia, ed. 20.

Existem questões que sempre deixam os pais inseguros, uma delas é sobre a hora de contar ao filho que ele é adotado. Nesse instante, é preciso estar atento à idade da criança e à maneira de comunicar o fato. O momento ideal para explicar com mais detalhes é quando a criança pergunta e já tem condições de entender melhor. "À medida que ela vai crescendo, faz-se necessário que tenha a resposta à altura de sua pergunta. Algumas vezes, quando mais velha, pode ser que ela queira, inclusive, conhecer a mãe biológica. É importante não impedir, pois ela carrega uma fantasia que precisa ser desvendada, revelada e discernida com muito diálogo e sabedoria. Para isso, deve-se ir ao fórum em que aconteceu a adoção com o número do processo e marcar uma conversa com a assistente social e a psicóloga", exemplifica Rose Santiago, diretora do Centro de Reestruturação para a Vida (CERVI), que trabalhou seis anos com adoção internacional.

Portanto, cada situação irá pedir um determinado comportamento dos pais. Se a criança for adotada, ainda bebê ou muito pequena, os pais devem sempre comentar que ela é filha do "coração" e que foi "escolhida" por eles. "Isso fará com que a criança ‘compreenda' a sua situação, e um canal aberto seja feito para a explicação da adoção", aconselha Lúcia Londres, psicóloga com formação em Psicodrama.

Com relação ao tempo certo de comunicar a adoção, tenha em mente que ele acontecerá quando a criança demonstrar interesse de saber. Segundo a psicóloga, o tema deve ser tratado o mais natural e afetuosamente possível. "Afinal, hoje em dia, a adoção é um assunto amplamente divulgado e estimulado."

Esconder é pior

Muitas vezes, os pais se sentem incomodados de tocar no assunto. Não sabem quando dizer e nem como fazer isso. Nesse momento, é aconselhável procurar uma ajuda especializada que facilitará o esclarecimento e saberá como conduzir o caso. Se a criança for adotada, a verdade sempre deve ser dita, em qualquer idade e a qualquer momento. "O que deve ser visto e cuidado é a forma de falar, levando-se em conta a idade da criança e seu entendimento. Deve-se sempre deixar claro à criança que ela pode e deve perguntar tudo para não ocasionar desconfianças na relação", explica Lúcia.

Em muitos casos, esconder o fato pode resultar em problemas futuros. "Conheci um casal que tentou esconder a adoção. Quando adolescente, o filho descobriu em uma briga na escola. A revolta chegou a um extremo tão grande que ele passou a agredir os professores e a tentar matar a mãe, e ter de ir a uma casa de recuperação. Lá, ele tornou-se dependente de drogas, e a adoção teve de ser cancelada, pois a família toda foi colocada em risco", esclarece Santiago.

Quando atuou por seis anos com adoção internacional, a diretora se deparou com várias dificuldades, começando pelas leis. Entretanto, nem mesmo a diferença da língua foi obstáculo para que a adoção não desse certo. "O esforço, a determinação e a garra dos pais adotivos fizeram com que a adoção se tornasse mais do que um sonho realizado - foi a certeza de algo concreto. Em contrapartida, a vontade da criança de ter pais que a amassem e as necessidades de ser aceita e pertencer a alguém fizeram com que ela ‘apostasse' na confiança", conta Santiago. Mais uma vez, comprova-se que o importante é a relação de afeto e confiança entre pais e filhos. Isso determinará que qualquer situação seja resolvida sem maiores conflitos e danos.

Dicas para uma boa relação entre pais e filhos adotados:

As consultoras Cláudia Razuk, pedagoga e coordenadora do Colégio Itatiaia, e Antoniele Fagundes, consultora familiar e idealizadora da empresa Babá Ideal, dão as dicas abaixo:

- Quanto mais cedo dizer que a criança é adotada, melhor, pois, ao demorar muito para saber a verdade, a criança pode se sentir enganada.

- Essa comunicação deve ser feita adequando as explicações à idade da criança e utilizando termos que ela entenda. Crianças bem pequenas (de 3 anos) costumam aceitar muito bem a informação, até mesmo, de maneira bem simples. Conforme forem assimilando a informação, com certeza, elas voltarão com outros questionamentos que deverão sempre ser respondidos com honestidade e naturalidade.

- O maior erro é os pais tratarem o assunto como se fosse um problema que, na realidade, não é. O comportamento da criança vai refletir no dos adultos.

- O momento ideal é sempre o mais cedo possível e quando a criança demonstrar curiosidade nas ocasiões em que ela começar a perguntar como nasceu. Desde o primeiro momento, é importante falar a verdade, sempre com naturalidade.

- A criança sempre tem o direito de saber a verdade sobre sua origem. Se os pais acharem que eles próprios não estão prontos para lidar com essa verdade, devem procurar ajuda o mais rápido possível para se prepararem para essa situação. Quanto menor a criança for ao saber a verdade, mais fácil será para ela entender. O importante é os pais deixarem sempre claro o quanto a amam e como essa opção foi importante para a felicidade de todos.

- O certo é conversar desde o começo. A sinceridade deve estar presente em todas as relações, principalmente nas familiares. O que deve mudar é a forma da abordagem, ou seja, como conversar. Exemplo: quando o filho é adotado ainda bebê, deve-se proceder exatamente da mesma forma, mas explicar cuidadosamente, de uma forma que a criança entenda aos poucos.



Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Notícias de uma adoção

Foto: Google Imagens


Um bom exemplo de adoção de crianças maiores (12 anos). Muito amor faz dar certo.

E-mail:

Estou bem e feliz com minha princesinha C.. Ela já está mais alta do que eu...e ainda brinca com as bonecas... hehehe...

Ela já está conosco fará 9 meses. E nossos sentimentos por ela são de que sempre esteve conosco.

C. está muito bem adaptada, está renascida.

No abrigo ela era um bichinho acuado, traumatizado e alienado do mundo. Não que a maltratassem lá. Não. Ela era muito bem tratada. Mas todos sabem que a realidade de abrigo não é a mesma de uma família.

Tivemos muito trabalho para ajudá-la a renascer nestes 9 meses. Muito trabalho meeeesmo. E olhem que ela é uma menina extremamente meiga. Mas valeu muito a pena! Faria tudo novamente mil vezes... hehehe...

E nessa certeza eu reafirmo que pretendo adotar mais. É maravilhosa a condição materna. É inexplicável ter tanto trabalho, sofrer, chorar às vezes, e ser mais feliz.

Nosso processo de adoção está perto de ser concluído. Nós três não vemos a hora de termos a nova certidão de nascimento da C.. Os olhinhos dela brilham só de pensar nisso. Ela demonstra a enorme importância que terá a chegada desse documento na vida dela. É para ela uma representação concreta do que já está construído no psicológico: a libertação, a transformação, o renascimento.

Deus é muito bom! Ele nos deu C.!

Queremos adotar mais. Não sei quando. Mas isso acontecerá.

Sobre a adaptação familiar, minha mãe é a única que ainda demonstra não aceitá-la realmente como nossa filha. Mas ela faz isso longe da C.. Pelo menos, ela tem esse cuidado.

Minha mãe já chegou a dizer que eu ainda não sei o que é "ser mãe", pois não "pari" e adotei uma menina "grande". Ela diz que eu apenas estou "criando" a C..

Minha mãe quase nunca me visita e não sabe do nosso convívio, não sabe dos detalhes maravilhosos que tenho vivido. Quando tento contar, ela me interrompe e muda de assunto. Ela é estranha. Mas ela sempre foi estranha para os sentimentos, nunca foi muito chegada a carinho mesmo.

Ela detesta que a C. esteja a cada dia mais linda e mais alta; e demonstra irritação quando vê a C. com roupa nova.

Mamãe sempre me diz, "coloca a C. para ajudar em casa!", "em breve a C. estará uma moçona!", "ensina a C. a cozinhar!". Isso torra a minha paciência, mas vou levando.

O fato é que eu, meu marido e C. estamos a cada dia mais em harmonia. Graças a Deus!

Abraços,

L.


Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Família e o processo de diferenciação na perspectiva de Murray Bowen

Foto: Google Imagens


Elizabeth Medeiros de Almeida MartinsI; Elaine Pedreira RabinovichI; Célia Nunes SilvaI,II

I Universidade Católica do Salvador, Brasil
II Universidade Federal da Bahia, Brasil

(...)
Bowen foi um estudioso, investigador e professor considerado um teórico inovador da terapia de família. Seu arcabouço teórico concentra-se em torno de duas forças vitais que se contrabalançam: aquelas que levam a pessoa à união com sua família e aquelas que a impulsionam para se libertar rumo à individuação. Quando ocorre um desequilíbrio dessas forças em direção à união, ocorre fusão, aglutinação e indiferenciação. Essas noções estão imbricadas, no estudo da complexidade da formação emocional do indivíduo, em torno dos conceitos de massa indiferenciada do ego; diferenciação do self; processo de projeção familiar; processo de transmissão multigeracional; posição entre irmãos; e triângulo, que apresentaremos a seguir (Bowen, 1989; Kerr & Bowen, 1989). São esses conceitos que exporemos a seguir, baseados no autor e em autores que o complementam.

Bowen e sua equipe, a partir de estudos sobre a esquizofrenia, em 1954, observaram um apego simbiótico do paciente à sua mãe, ampliando essa hipótese para os demais membros da família. Desse olhar para a família e para o seu processo emocional, Bowen construiu seus principais conceitos.

O conceito de massa indiferenciada remete ao de fusão ou aglutinação, termo utilizado por Minuchin (1982) para se referir a um estilo transacional caracterizado por um “sentimento de pertencimento que requer uma máxima renúncia de autonomia” (p. 60). Essa força de aglutinação em permanente tensão, exposta aos fatores externos que também exercem influência nas relações familiares, existe em todas as famílias, em variados graus de intensidade. O estresse originado de diferentes fatores psicossociais aumenta a força de união que age sobre a massa indiferenciada do ego, propiciando uma maior aglutinação de seus membros.

Foley (1990) refere-se a três maneiras utilizadas pelo casal para controlar a intensidade da fusão do ego com a massa do ego da família. A primeira se expressa pelo conflito conjugal. A segunda é marcada pelo aparecimento de uma disfunção em um dos cônjuges – assim, um deles cederá ao outro, tornando-se dependente. A terceira maneira usada pela díade conjugal, visando aliviar a situação estressante, é a transmissão da tensão para um ou mais dos filhos, que apresentará algum sintoma.

Toda criança nasce fusionada, indiferenciada em relação à sua família. Durante seu desenvolvimento, sua principal tarefa será diferenciar-se para alcançar autonomia e independência. Na família, as crianças experimentam tanto o pertencimento quanto a diferenciação. Pertencer significa participar, saber-se membro desta família, partilhar as suas crenças, valores, regras, mitos e segredos. Diferenciar refere-se à afirmação de sua singularidade, à sua individuação e ao seu direito de pensar e expressar-se independentemente dos valores defendidos por sua família.

Segundo Nichols e Schwartz (1998), a diferenciação do self, pedra fundamental da teoria de Bowen, é ao mesmo tempo um conceito intrapsíquico e interpessoal. “A diferenciação intrapsíquica é a capacidade de separar o sentimento do pensamento” (p. 312). Kerr e Bowen (1988) denominaram reação à resposta impulsiva.

A escala de diferenciação do self ajuda a compreender o processo de amadurecimento do indivíduo, as respostas significativas, o funcionamento e as disfunções ocorridas nos processos relacionais. Essa escala, de uma importância teórica mais do que classificatória, é dividida em quatro quadrantes: no quadrante inferior, a diferenciação do eu é mínima. As pessoas que funcionam nessa categoria vivem em um mundo de sentimentos e são quase inteiramente dependentes das demais. São pessoas incapazes de distinguirem a emoção da razão. São extremamente reativas e apresentam dificuldades relacionais. No segundo quadrante (25-50), estão aquelas pessoas ainda pobremente diferenciadas, mas capazes de funcionarem de maneira limitada. São pessoas facilmente influenciadas, pois não têm opiniões próprias. No terceiro quadrante (situado entre 50 e 75), estão pessoas que têm opiniões bem diferenciadas, conseguem assumir a “posição eu” e apoiar-se menos no julgamento dos outros. No quarto quadrante (situado entre 75-100), estariam aquelas dotadas de uma plena maturidade, que funcionariam com alto grau de independência. São pessoas seguras de si, com opinião bem definida, embora não necessitem expressá-las de forma dogmática ou rígida. Assumem responsabilidade por seus atos, são tolerantes a opiniões divergentes e não entram em debates para provar que estão certas.

A família é considerada uma unidade emocional. Segundo Papero (1998), “seus membros acham-se ligados uns aos outros de tal maneira que o funcionamento de cada um automaticamente afeta o dos demais” (p. 72). O sistema emocional responde de acordo com forças externas à família, incluindo a família ampliada, situações de trabalho e fatores sociais. “Para um indivíduo ou grupo em particular, as seqüências comportamentais e interacionais que refletem o sistema emocional possuem uma característica de repetição” (Papero, 1998, p. 74).

O sistema emocional humano é passível de ser influenciado pela ansiedade crônica, (Kerr & Bowen, 1988), um estado ou condição crônica de existência, independente de qualquer situação ou estímulo, gerando o apego ansioso, “uma forma patológica de ligação orientada pela ansiedade e pela emocionalidade que subvertem a razão e o autocontrole” (Nichols & Schwartz, 1998, p. 310).

Nichols e Schwartz (1998) ressaltam que o apego emocional é um dos aspectos fundamentais da diferenciação. A dinâmica básica subjacente ao apego emocional seria a alternância entre ansiedade de separação e de incorporação. “A fusão emocional entre a mãe e o filho(a) pode assumir a forma de um vínculo dependente afetivo ou uma luta conflituosa” (p. 314).

Projeção familiar é o processo pelo qual os pais transmitem aos filhos sua imaturidade e sua indiferenciação conforme expressas no relacionamento (Kerr & Bowen, 1988). A projeção é diferente do “cuidado” e se caracteriza por uma preocupação ansiosa, confusa e excessiva com um ou mais filhos ou filhas. O filho escolhido, objeto da projeção dos pais, torna-se o mais ligado a eles e, conseqüentemente, aquele com um nível mais baixo de diferenciação do self. Esse filho busca ativamente o papel de bode expiatório e “apesar disso, a ‘vítima’ recebe seu carinho, ainda que negativo” (Foley, 1990, p. 105).

A mãe transmite sua ansiedade ao transferir para o filho uma carga emocional de suas frustrações, ao invés de estimulá-lo no seu processo de diferenciação. Dessa forma, prejudica emocionalmente o filho, que se torna infantilizado, desenvolvendo aos poucos sintomas de imaturidade psicológica.

O processo de transmissão multigeracional, também exposto por Kerr e Bowen (1988), corresponde à passagem do processo emocional da família através de várias gerações, tanto do marido quanto da mulher. O fluxo de ansiedade de uma família pode ser tanto vertical quanto horizontal.

O fluxo vertical em um sistema inclui padrões de relacionamento e funcionamento que são transmitidos para as gerações seguintes de uma família principalmente através do mecanismo de triangulação emocional... questões opressivas familiares com os quais nós crescemos... O fluxo horizontal no relacionamento familiar inclui a ansiedade produzida pelo estresse na família conforme ela avança no tempo, lidando com as mudanças e transições do ciclo de vida familiar. (Carter & Mc Goldrick, 1995, pp. 11-12)

Eventos estressantes podem levar a família à disfunção por várias gerações posteriores. Retratam uma situação de aumento das tensões familiares eventos tais como: morte prematura, nascimento de uma criança deficiente, enfermidade, acidente, entre outros. Segundo Papero (1998), aplica-se o conceito de processo de transmissão multigeracional “ao modo pelos quais os processos de projeção familiar, repetidos de geração em geração durante longos períodos de tempo, levam diferentes ramos de uma família a alcançar níveis mais baixos ou mais altos de diferenciação” (p. 87).

A escolha do parceiro no matrimônio está relacionada ao nível de diferenciação do eu. A pessoa tende a escolher o parceiro com nível de diferenciação semelhante ao seu. Os vários filhos podem ter níveis diversos de diferenciação, mas não muito distantes daqueles alcançados pelos pais.

É importante a posição da pessoa na família de origem e nas relações futuras com o cônjuge (Bowen, 1991). A posição fraterna pode predizer algumas dificuldades conjugais. Aqueles que contraem matrimônio com cônjuge da mesma posição fraterna terão mais dificuldades de adaptar-se ao casamento do que aqueles que se casam com cônjuge de posição complementar. A relação entre irmãos é considerada “o primeiro laboratório social, no qual as crianças podem experimentar relações com iguais. Dentro desse contexto, as crianças apóiam, isolam, escolhem um bode expiatório e aprendem umas com as outras” (Minuchin, 1982, p. 63).

O conceito de triangulação se refere a um sistema inter-relacional entre três pessoas, envolvendo sempre uma díade e um terceiro, que será convocado a participar quando o nível de desconforto e de ansiedade aumentar entre as duas pessoas. Uma delas, então, buscará uma terceira para aliviar a tensão. Os triângulos aparecem no processo emocional interacional que se estabelece no sistema familiar e transgeracional. Calil (1987) considera o triângulo como “um bloqueador das emoções de um sistema” (p. 103).

Sair das triangulações orienta o outro a um relacionamento em nível superior de maturidade. Os triângulos, para Kerr e Bowen (1988), “são para sempre” (p. 135). Em situações de menor tensão, permanecem latentes, reaparecendo quando os conflitos recrudescem. Assim, os triângulos são susceptíveis à ansiedade, tornando-se mais ou menos ativos em situações de tensão. Nesse sentido, o processo de triangulação constitui um mecanismo de resposta que acontece nos processos relacionais ante situações estressantes.

Na família, observam-se vários triângulos que se formam e se desfazem de forma repetitiva. Os triângulos não são fixos nem estáticos, sofrendo deslocamentos, a depender do nível de ansiedade e da dinâmica interna da família. É importante ressaltar que estão ligados a uma unidade emocional mais ampla, de onde também recebem influência, denominada triângulos entrelaçados, onde “a ansiedade, incapaz de ser contida dentro de um triângulo, se expande para um ou outro triângulo” (Kerr & Bowen, 1988, p. 139). Esses autores denominam esse processo de ativação de triângulos imbricados, que podem ser de difícil observação.

Para Andolfi e Ângelo (1988), compreender a entrada de um terceiro elemento nas díades em situação de conflito “acrescenta uma dimensão desconhecida à interação, viabilizando alianças, além de uma nova relação de inclusão-exclusão... como também pode estimular a manifestação de recursos individuais ocultos e a evolução do sistema” (p. 33).

O entendimento dos processos de triangulação está ligado à compreensão de como se dá o processo de comunicação, como a partir da linguagem não-verbal – tom de voz, mudanças na postura corporal e outros sinais não verbais – que podem ou não ativar os triângulos.

A teoria boweniana enfatiza que, para compreender a família, é necessário desvelar o que acontece nas gerações que a precederam e ampliar o olhar para a família extensa, elucidando vários nós que, no estudo estritamente da família nuclear, podem permanecer obscurecidos. Cada indivíduo:

é parte de uma rede de relações que envolvem as respectivas famílias de origem.... Através de interações que permitem a cada pessoa experimentar o que é e o que não é admissível na relação, é criada a base de uma unidade sistêmica. (Andolfi, Ângelo, Menghi, & Corigliano, 1984, p. 18)

Não existem famílias isoladas, e sim uma complexidade social, econômica e política em que essas famílias estão imbricadas (Rabinovich, 2002). Pensar a diferenciação do self familiar atualmente requer entender as novas configurações da família em suas várias expressões do processo emocional societário. Note-se que o pólo de tensão nas famílias aumenta, complexifica-se e expande-se rapidamente, mediado pelos meios de comunicação e pelos avanços tecnológicos que ocorrem na sociedade contemporânea.

As famílias constituídas hoje passam por mudanças sucessivas, de modo que, “se reconhecermos que há novos e diversos tipos de famílias, também deveríamos, no mínimo reconhecer que o ciclo pelos quais elas passam também pode ser diferente” (Molina-Loza, 1998, p. 69). Na medida que há uma complexificação dos modos de vida devido a vários estresses, como o desemprego e a exclusão, Andolfi e Nichilo (1991, p. 11) consideram que a retomada das gerações anteriores, conforme proposto por Bowen, encontra uma variável não prevista por ele – o tempo – quando os valores das gerações anteriores não são mais compreendidos pelas gerações atuais.

Assim, compreender o limite da teoria de diferenciação do self passa pela compreensão da forma como as famílias estão estruturadas nos dias atuais.

Exporemos, a seguir, o estudo de caso a partir do qual os conceitos acima expostos serão apresentados e elaborados.

1 Dissertação apresentada à Universidade Católica do Salvador, em 2005, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Família na Sociedade Contemporânea. Orientação de Elaine Pedreira Rabinovich. Co-orientação de Célia Nunes Silva.
2 COFAM - Pertencente ao Movimento Familiar Cristão (MFC) de Salvador-BA, onde funciona o Curso de Especialização e Formação em Terapia de Família da Universidade Católica do Salvador (UCSAL).

Elizabeth Medeiros de Almeida Martins, Assistente Social, Docente da Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Endereço eletrônico: elizabeth.martins@hotmail.com
Elaine Pedreira Rabinovich, Docente da Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Endereço para correspondência: Rua Maranhão, 101. CEP 01240-001 - São Paulo-SP. Endereço eletrônico: elainepr@clas.com.br
Célia Nunes Silva, Médica, especilaista em terapia familiar. Docente da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Católica do Salvador. Endereço eletrônico: celianunessilva@yahoo.com.br


Postado Por Cintia Liana

domingo, 18 de julho de 2010

Mitos, Medos e Preconceitos na Adoção de Crianças Maiores

Foto: Google Imagens

Por Jaqueline Araújo da Silva

A adoção está envolvida por preconceitos que se expressam através de medos, crenças, fantasias, inseguranças, entre outros. Como vimos, as pessoas interessadas em adotar optam pelos recém-nascidos ou crianças com idade menor possível. Em pesquisa realizada por Levy e Féres- Carneiro (2001), verificou-se que quando os requerentes optam pelas crianças com a idade menor possível para adotar com a justificativa de que estes são mais fáceis de serem moldados, na verdade, revelam um desejo de apagar a história passada da criança e cancelar qualquer possível herança genética que venha interferir no projeto de parentalidade.

Para Camargo (2006), os requerentes à adoção sonham acompanhar integralmente o desenvolvimento físico e psicossocial, que se manifestam desde as primeiras expressões faciais, além das primeiras falas e passos. Querem construir uma história familiar e registrá-la a partir dos primeiros dias de vida do filho. Além disso, temem que a criança com idade superior a dois anos possa não se adaptar à realidade de uma família adotante. Acreditam que a personalidade da criança já esteja formada, o caráter incorporado e já não são mais possíveis de detê-los. Neste sentido, Santos (1997) afirma:

Este é outro mito na adoção, que eventuais problemas comportamentais apresentados pelos filhos adotivos decorrem [...] do meio social onde a criança viveu seus primeiros anos (nos casos de adoções tardias) e, neste caso, evita-se o problema adotando-se recém nascidos. (SANTOS, 1997, p.163)

Segundo Camargo (2006, p.91), "[...] os mitos, que constituem a atual cultura da adoção no Brasil, apresentam-se como fortes obstáculos à realização de adoções de crianças maiores, pois potencializam crenças e expectativas negativas ligadas à prática da adoção tardia". De acordo com Vargas (1998), o preconceito social em relação à adoção de crianças maiores é fator determinante para a pouca disponibilidade de candidatos para estas adoções, pois a adoção continua sendo mais aceita quando atende a uma necessidade "natural" de um casal com impedimentos para gerar filhos, desde que estes sejam bebês e ''passíveis de serem educados".

O preconceito com relação à adoção de crianças maiores é ainda muito forte, como se todas as adoções de bebês fossem indicativos de sucesso garantido e todas as adoções de crianças maiores já representassem um fracasso (WEBER E KOSSOBUDZKI, 1996; LEVY E FÉRESCARNEIRO, 2001). Weber (1998) afirma que essas adoções nem sempre trazem problemas, porém elas são diferentes das adoções de bebês, uma vez que as crianças maiores têm um passado que, muitas vezes, deixou suas marcas. Esta autora realizou pesquisa com pais e filhos adotivos e também com a população em geral, sendo que os dados levantados indicam o grande número de preconceitos envolvendo a adoção. De acordo com o levantamento de dados:

1- as pessoas teriam medo de adotar crianças maiores (acima de seis meses) devido à
dificuldade de educação;
2- teriam medo de adotar uma criança que viveu muito tempo em acolhimento institucional pelos "vícios" que traria consigo;
3- teriam medo de que os pais biológicos pudessem requerer a criança de volta;
4- teriam medo de adotar crianças sem saber a origem de seus pais biológicos, pois a
"marginalidade" dos pais seria transmitida geneticamente;
5- pensam que uma criança adotada, cedo ou tarde, traz problemas;
6- acreditam que a adoção beneficia, primordialmente, o adotante e não a criança, sendo um último recurso para pessoas que não conseguem ter filhos biológicos;
7- acreditam que a adoção pode servir como algo para "desbloquear algum fator
psicológico" e tentar ter filhos naturais;
8- acreditam que, quando a criança não sabe que é adotiva, ocorrem menos problemas;
assim, se deve adotar bebês e "fazer de conta" que é uma família natural;
9- acreditam que as adoções realizadas através dos Juizados são demoradas, discriminatórias e burocráticas e recorreriam à “adoção à brasileira" caso decidissem;
10- finalmente, consideram que somente os laços de sangue são "fortes e verdadeiros".

Levinzon (2000) também realizou pesquisa com as famílias adotantes e os dados encontrados foram similares aos de Weber (1998). Levinzon destaca os seguintes  medos que comumente habitam o imaginário dos pais adotivos:

1- medo em relação aos pais biológicos da criança: temor que se arrependam a qualquer momento e venham lhe tomar a criança; culpa por tomar para si uma criança cujo sangue não lhes pertence; vergonha, como se tivessem cometido um delito, tendo roubado a criança;
2- medo em relação à criança: medo de que tenha uma má herança biológica; temor de
rejeição e abandono pela criança quando souber de sua verdadeira origem; medo de que a criança vá à procura dos pais biológicos;
3- medo em relação à sociedade: temor de serem censurados pela sociedade; discriminados pela ausência do processo biológico da gestação; desvalorizados por esta forma atípica de parentalidade ou sua compensação na exaltação de seu aspecto filantrópico.

Através destas pesquisas podemos constatar que dentre os inúmeros mitos que povoam o imaginário social e que constituem a atual cultura de adoção, o mito dos laços de sangue é, sem dúvida, o mais dominante, pois insere a crença de que o fator biológico gera o destino final e quase sempre trágico nos casos da adoção. Há, em torno do filho por adoção, fantasias de que ele pode ser “sangue ruim” e, consequentemente, motivo de preocupação e sofrimento para os pais adotivos. O fato de ser adotado parece que já é condição mais que suficiente para ser classificado como problemático, diferente e fora do normal.

Há uma tendência presente no imaginário social em acreditar numa certa garantia decorrente dos laços de sangue e numa fragilidade dos laços formados através da adoção. As fantasias sobre a importância "da descendência de sangue" proporcionam condições para a confusão e discriminação entre a parentalidade biológica e adotiva, atribuindo maior relevância à primeira (WEBER, 1998). Na verdade, os dois tipos de parentalidade têm exatamente a mesma importância, mas fazem parte de contingências diferentes. No entanto, a contingência de ser uma família adotiva traz características especiais que não devem ser negadas, mas, ao contrário, assumidas.

Ainda sobre o preconceito, além do imaginário social, a própria legislação brasileira, conforme debatemos no segundo capítulo, parece contribuir para o fortalecimento dos mitos de que os laços biológicos são aqueles verdadeiros. Assim, os pais adotantes tentam disfarçar ou esconder as relações adotivas e imitar uma família biológica, adotando crianças recém-nascidas e de cor semelhante a sua.

No meio científico também encontramos muitos preconceitos relacionados à adoção. Segundo Weber (2003) e Vargas (1998), as publicações científicas sobre o tema falam acerca das dificuldades encontradas em filhos adotivos. Relatam um ou dois casos de algum distúrbio e atribuem sua etiologia ao fato de a criança ser adotiva, pois a perda inicial dos pais biológicos seria irreparável e causadora de todos os problemas.

Concordamos com Zornig e Levy (2006) quando afirmam que a separação da figura materna para crianças de pouca idade, assim como o desinvestimento materno repentino, produzem efeitos traumáticos. No entanto, ressaltam a possibilidade de as crianças e os pais adotivos conseguirem criar recursos psíquicos surpreendentes. Para estas autoras, a ênfase na qualidade das relações iniciais entre a criança e seus pais deu margem à crença de que crianças abandonadas e/ou vítimas de maus tratos seriam problemáticas e, portanto, não adotáveis tardiamente.

Palácios e Sánchez (1996) realizaram uma investigação comparativa com 865 crianças entre quatro e dezesseis anos de idade, provenientes de três grupos: crianças adotadas, crianças não-adotadas da mesma região de origem das adotadas e crianças institucionalizadas. As comparações foram realizadas em três áreas: problemas de comportamento, auto-estima e rendimento acadêmico. Os resultados mostraram uma grande semelhança entre os adotados e os não-adotados, enquanto que as crianças institucionalizadas obtiveram os piores resultados no conjunto das comparações.

Através de um estudo comparativo entre um grupo de pais e filhos adotivos e outro de pais e filhos biológicos, Santos (1988) avaliou aspectos como afetividade e cooperação entre pais e filhos. Não encontrou diferenças significativas entre eles.

Em relação a adoção de crianças maiores, Weber (2003) realizou pesquisa com pais e filhos adotivos de todo o Brasil e não constatou que a idade avançada da criança no momento da adoção fosse possível fonte de problema. Os casos em que foram relatados problemas no processo adotivo estavam mais relacionados à revelação tardia da adoção para a criança do que outros fatores. Esse assunto será aprofundado no próximo capítulo quando dissertamos sobre a família adotante.

No que se refere à diferença de comportamento entre crianças adotadas quando recémnascidas e adotadas quando maiores de dois anos, Ebrahim (2000) afirma não existir uma relação direta entre problemas de comportamento e idade da criança na época da adoção. Sustenta que as adoções de crianças maiores são perfeitamente viáveis e sua concretização e manutenção dependem, entre outros aspectos, da história da criança, do fato dela desejar ou não a adoção e das ações dos pais adotivos e dos que os cercam. Corroborando este pensamento, Diniz (1994) afirma que, apesar dos primeiros meses de vida serem os mais indicados para a formação de uma relação parental substituta, isto não exclui a possibilidade da adoção de crianças maiores. A concretização da adoção dependerá da vivência da criança e dos motivos que a impossibilitaram de permanecer na sua família biológica, bem como da flexibilidade e capacidade de dedicação dos pais adotivos. Segundo o autor, o fato de a criança ter mais idade não é um elemento inviabilizador da adoção.

Levy (1999) argumenta que, por já ter vivido experiência de abandono da qual muitas vezes se lembra, a criança maior será mais ativa no processo, podendo adotar ou não os pais adotivos como pais. Andrei (2001) também ressalta que quanto mais tardia a adoção, mais vivas serão as lembranças do passado e mais enraizadas na sua memória as ilusões, os sonhos, os desejos e as frustrações dos anos de abandono. Esta autora ainda afirma que as pessoas imaginam a adoção em termos ideais. De um lado, a criança adotada extremamente grata e com o coração transbordante de amor; do outro lado, a família sentindo-se plenamente realizada e recompensada através do seu novo membro. Às vezes, é exatamente essa a situação que ocorre. Outras vezes, o fardo do passado influenciando o comportamento da criança e a surpresa da família diante de manifestações decepcionantes tornam a adoção mais parecida com um desafio.

Ainda nesta discussão, Ferreira (1994) diz que muitas vezes, é exigida da criança recémintegrada uma conduta mais correta do que a de qualquer outra criança, como se o fato de ter ganho uma família significasse a retribuição de uma automática docilidade, educação e bom comportamento. Os pais adotivos esperam atitudes adequadas e resultados imediatos, submetendo a criança a exigências exageradas, que, não podendo ser correspondidas, acabam por produzir um total desajuste em sua conduta.

Sem dúvida, como foi mencionado, a adoção de crianças maiores requer cuidados especiais, porque a criança já traz a marca do abandono inicial e do tempo que permaneceu em acolhimento institucional. Contudo, isto não quer dizer que não sejam possíveis a superação e a adoção mútua entre as crianças e os pais adotivos. Para Vargas (1998), na adoção de crianças maiores, as chances de sucesso ou fracasso das relações que se estabelecem no meio social dependem da capacidade de suporte, trocas afetivas, confiança e companheirismo entre os protagonistas. A procura por uma orientação ou um processo psicoterapêutico pode ser valiosa, auxiliando a família a encontrar um eixo comum que proporcione desenvolvimento.

Assim, é preciso desmistificar a associação errônea entre adoção e fracasso, mito de laços sanguíneos, herança genética entre outras distorções. Na verdade, a adoção não é um processo artificial, falso ou ilegítimo; pelo contrário, envolve relações humanas de afeto e amor que florescem a partir da reciprocidade entre o adotado e a família adotante. Neste sentido, Santos (1997, p. 164) afirma que “[...] faz-se necessário, iniciar um trabalho voltado para a mudança de mentalidade no que se refere à adoção de modo a possibilitar uma superação de pelo menos parte dos equívocos e preconceitos que envolvem este processo”.

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERA
Programa de Pós-graduação em Psicologia
"ADOÇÃO DE CRIANÇAS MAIORES:
Percepções e Vivências dos Adotados"
Jaqueline Araújo da Silva
Belo Horizonte
2009

 
Por Cintia Liana

sábado, 3 de julho de 2010

Como vai a família?

Foto: facebook

"Sou P., casado com B. e pai de G. que veio ao nosso encontro perto de completar 2 anos e hoje tem 4.

Entre a entrada dos documentos e chegada do meu filho foram 9 meses. Neste intervalo de tempo buscamos nos preparar, lendo muito, buscando preparar todos para a chegada dele e, se considero hoje a nossa história feliz, certamente foi por termos conhecido pessoas maravilhosas que não somente nos passaram a experiência que já tinham, como dividiram as dúvidas e dificuldades conosco.

Estou falando para que os que estão ainda somente habilitados. Curtam a paisagem que isso vai ser fundamental na chegada.

O periodo de adaptação dele, logo no inicio, foi difícil, mas estávamos preparados e amparados pelos amigos e em pouco mais de 1 mês, meu filho estava totalmente "em casa".

Hoje, após quase dois anos, parece que ele sempre esteve conosco e o amor entre nós todos é reciproco e contagiante."

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Quem assina é um pai muito feliz e realizado, um grande amigo meu. Com B. forma um lindo e jovem casal que conheci em 2008.

Por Cintia Liana

sábado, 26 de junho de 2010

Palmadas - Efeitos do Castigo Físico

Foto: Facebook

Nos meninos e nas meninas:
• Diminui a auto-estima, gerando a sensação de que eles valem menos;
• Ensina a serem vítimas. Algumas pessoas acreditam que o sofrimento torna as pessoas mais fortes, que as prepara para a vida. Nos dias de hoje, sabemos que não só não faz as pessoas mais fortes, como também as converte em pessoas com dificuldades de sentirem-se capazes de resolver seus próprios problemas;
• Interfere no processo de aprendizagem e no desenvolvimento de sua inteligência, de seus sentidos e de suas emoções;
• Gera sentimentos de solidão, tristeza e abandono;
• Faz com que eles observem a sociedade de uma forma negativa e as pessoas como seres ameaçadores, causando dificuldade de integração social;
• Cria um muro que impede a comunicação entre os pais e filhos e prejudica os vínculos emocionais que existem entre eles;
• Cultiva sentimentos de raiva e desejo de fugir de casa;
Ensina que a violência é um modo adequado para resolver os problemas;
Dificulta a cooperação com as figuras de autoridade;
• Deixa a criança mais exposta a vários acidentes;
• Em relação aos meninos, como são mais castigados fisicamente do que as meninas para se tornarem “homens” faz com que eles sejam mais agressivos e os deixa mais vulneráveis a utilizar drogas (incluindo o álcool) no futuro;
• Em relação às meninas, a tendência é internalizar sua dor que vai acabar se manifestando emocionalmente por meio de depressão, insegurança, culpa e submissão.

Nos pais e mães:
• Produz ansiedade e culpa, inclusive nos pais que consideram esse tipo de castigo correto;
• O uso do castigo físico aumenta a probabilidade dos pais mostrarem comportamentos violentos em outras situações com maior freqüência e intensidade;
Impede sua comunicação com os filhos e dificulta as relações familiares no presente e no futuro.

Na sociedade:
A relação entre ter sido vítima de violência física na infância ou ter testemunhado este tipo de violência em sua família, faz com que exista a tendência de que seja reproduzida na fase adulta;
Incentiva as novas gerações a usarem a violência como forma de resolver um conflito;
• Faz com que se acredite que existem dois grupos de cidadãos: as crianças e os adultos. Os adultos mandam e podem agredir; as crianças obedecem e apanham;
Promove modelos familiares onde existem os que agridem e os que são agredidos. Nesses casos, os envolvidos têm dificuldade de entender a importância de uma relação de igualdade entre as pessoas, um dos pontos fundamentais da sociedade democrática;
• Dificulta a proteção à infância. Ao tolerar essa prática, a sociedade não se legitima como um espaço protetor para meninos e meninas;
• Torna os cidadãos submissos porque, em seus primeiros anos de vida, aprenderam que ser vítima é uma condição natural dos indivíduos que fazem parte daquela sociedade.

Fontes:
Educa, no Pegues. Campaña para la sensibilizació n contra el castigo físico en la familia. Madrid: Save the Children, Comité Español de UNICEF, CEAPA y CONCAPA, 2002;
Pesquisa Homens, violência de gênero e saúde sexual e reprodutiva: um estudo sobre homens no Rio de Janeiro/Brasil. Instituto PROMUNDO e Instituto NOOS, 2003.

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Até certo ponto é bem difícil de entender essas causas, mas se analisarmos sutilmente, sem querer medir quem está com a razão, percebemos que a agressão física e o aprendizado pela dor causada pelos pais só gera intolerância e revolta.

É uma consciência que se adquire com uma reflexão sem querer brigar pelo certo ou errado, sem querer brigar com a nova lei, e sim chegando a conclusões sobre a dor física.

Profissionais da área da família, experientes e com filhos, dizem que até uma palmada é desnecessário e uma vez ouvi de um expert no assunto que a palmada só aparece quando já se esgotaram todos os outros recursos e que ele nunca chegou a dar uma palmada num dos 4 filhos dele. No início não concordei, mas dois anos depois de pensar nisso concordo.

Filhos que dizem não ter sofrido com pancada creio que nunca fizeram terapia, porque a raiva que se sente quando se apanha do pai ou da mãe fica marcada no corpo, em forma de memória corporal e isso dói, a mágoa da dor emocional acompanhada da física.

Tem filho que tem uma péssima relação com seus pais autoritários e que fizeram uso de palmadas e não sabe porque e depois vem dizer que aqueles tapas foram bons para sua educação?

Penso que podemos pensar bastante em outras possibilidade mais eficazes que não passam pela dor física e sim pela tomada de consciência. A experiência com a surra é muito humilhante, é para a relação com inimigos e traz outros prejuízos de ordem moral que comprometem a relaçao com o filho. O limite em que ele terá com os outros em relação a violência física no futuro estará comprometida por uma vivência e um aprendizado de modelo educacional distorcido, onde tem pancada.

Se condeno alguém que dá uma palmada? Claro que não, mas acho que são coisas para serem pensadas. Penso que quanto maior é a ignorancia espiritual e emocional, mas os pais vão bater, o limite vai ser menor sobre a violência em casa. Por esse caminho de pensamento prefiro não bater. Sou 0% palmada.

Quando for mãe refletirei novamente, mas aí estarei em outro estágio de consciência, com mais recursos ainda para lidar com as birras e pirraças. Um comportamento ou olhar de uma mãe chateada pode ser mais eficaz, depende da proposta dela.

A questão dos padrões de violência familiares é muito séria, é um ciclo que pode começar e não acabar mais, que passa de geração em geração.


Por Cintia Liana

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Vamos enfrentar o preconceito!

Foto: Facebook

Tenho que repetir aqui um dos parágrafos do texto anterior, de Fernando Nazaré.

Como assinala Rolim (...):

“Temos, no Brasil, cerca de 200 mil crianças institucionalizadas em abrigos e orfanatos. A esmagadora maioria delas permanecerá nesses espaços de mortificação e desamor até completarem 18 anos, porque estão fora da faixa de adoção provável. Tudo o que essas crianças esperam e sonham é o direito de terem uma família no interior das quais sejam amadas e respeitadas. Graças ao preconceito e a tudo aquilo que ele oferece de violência e intolerância, entretanto, essas crianças não poderão, em regra, ser adotadas por casais homossexuais. Alguém poderia me dizer por quê? Será possível que a estupidez histórica construída escrupulosamente por séculos de moral lusitana seja forte o suficiente para dizer: - “Sim, é preferível que essas crianças não tenham qualquer família a serem adotadas por casais homossexuais”? Ora, tenham a santa paciência. O que todas as crianças precisam é cuidado, carinho e amor. Aquelas que foram abandonadas, foram espancadas, negligenciadas e/ou abusadas sexualmente por suas famílias biológicas. Por óbvio, aqueles que as maltrataram por surras e suplícios que ultrapassam a imaginação dos torturadores; que as deixaram sem terem o que comer ou o que beber, amarradas tantas vezes ao pé da cama; que as obrigaram a manter relações sexuais ou atos libidinosos, eram heterossexuais, não é mesmo? Dois neurônios seriam, então, suficientes para concluir que a orientação sexual dos pais não informa nada de relevante quando o assunto é cuidado e amor para com as crianças. Poderíamos acrescentar que aquela circunstância também não agrega nada de relevante, inclusive quanto à futura orientação sexual das próprias crianças, mas isso já seria outro tema. Por hora, me parece o bastante apontar para o preconceito vigente contra as adoções por casais homossexuais com base numa pergunta: - que valor moral é esse que se faz cúmplice do abandono e do sofrimento de milhares de crianças?”

Referência:
Adoção: um direito de todos e todas. Conselho Federal de Psicologia (CFP). -- Brasília, CFP, 2008. 52p. Capítulo 7 (ultimo).
Documento disponível em: http://www.pol.org.br

Perfeito! Adorei o que li.

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Completo, dizendo:

Quer dizer então que tem gente que considera mais justo uma criança crescer num abrigo e sair de lá com 18 anos sem ter para onde ir, correndo riscos de se corromper pelo abandono, que crescer tendo pais homossexuais? É isso mesmo? Eu entendi?

O que tem de tão asqueroso e de tão repugnante em um casal homossexual? Por que eles estão menos preparados para serem pais? Por que não são capazes de constituir família e dar amor à um filho?

Vocês já se imaginaram "presos" num abrigo, crescendo sem família?

O que de tão horrível poderá acontecer a uma criança se for criada por pais homossexuais? Elas se tornarem igualmente homossexuais? Mas eu nunca vi um filho homossexual com pais homossexuais, assim como nunca vi adultos homossexuais terem filhos homossexuais, por mais que nessa relação ainda inclua a parte biológica. Se a convivência fosse assim tão determinante para educar filhos para serem homossexuais, para definir a orientação sexual de uma criança, então aliada a parte biológica deveria ser algo exato, não teria erro.

De todo modo, esse pensamento também já é preconceituoso. Mas digamos que pais homossexuais tenham o poder milagroso e tão manipulador de tornar seus filhos adotivos homossexuais, o que é melhor: ser homossexual ou se tornar um ladrão ou assaltante? Não que todas as crianças que saem dos abrigos se tornem pessoas ruins, mas é algo a se pensar.

Perguntem a uma criança de 8 anos o que ela prefere, estar em um abrigo ou ter pais homossexuais. Tenho certeza que ela já sabe o que significa.
Quem acha que é ruim para a criança, por que ela sofrerá preconceito, eu digo que o preconceito já começa em que tem medo dele. Será que não podemos combater o preconceito? Será que o preconceito e as pessoas de mente fechada são maiores que a nossa força de transformação para enfrentá-las?

Acho que temos que caminhar para frente e não deixar de fazer nada por medo de preconceito, até porque as pesquisas mostram que a criança adotiva que sofre preconceito, o sofre por ser adotada e não por ser filha de homossexual ou de pai solteiro.

As crianças precisam de amor, que as preparemos e não crescer em abrigos para que não ouçam piadas de gente medríocre na escola. Ou vamos deixar os medíocres e preconceituosos manipularem nossas ações, definir as nossas vidas?

Cintia Liana

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Conheci Marcos Rolim neste artigo citado e trago aqui seu breve currículo.

"Marcos Rolim iniciou seu trabalho em Direitos Humanos como membro da Anistia Internacional. Sua formação política deu-se na luta contra a ditadura militar em várias frentes de atuação. Liderança estudantil de destaque, foi eleito vereador em 1982, em Santa Maria, RS, com a maior votação da cidade. Na Câmara de Vereadores criou a Comissão de Direitos Humanos, presidindo-a por dois anos."
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"Eleito Deputado Estadual pelo Partido dos Trabalhadores em 1990 e reeleito para um segundo mandato em 1994, desenvolveu um intenso trabalho em Direitos Humanos que alcançou reconhecimento internacional."
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"O Deputado Marcos Rolim foi autor da primeira legislação da história Brasileira de "Reforma Psiquiátrica e de Proteção aos que Padecem de Sofrimento Psíquico", em 1992.
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Eleito deputado federal em 1998, assumiu a titularidade da Comissão de Constituição e Justiça e da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e uma das vice- lideranças da bancada do PT."
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"Marcos Rolim tem mantido uma sólida relação com instituições e entidades internacionais na área de Direitos Humanos."
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"Marcos Rolim é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria. Ensaísta e colaborador de inúmeros jornais e revistas brasileiras, é autor de "A Imitação da Política", um estudo sobre a burocratização dos partidos políticos e de "Teses Para Uma Esquerda Humanista", recente publicação crítica à ideologia tradicional da esquerda e de afirmação do paradigma dos Direitos Humanos. Marcos Rolim tem 40 anos, casado com Jussara Bordin e pai de Maíra (16) e Sofia (3)."

Fonte:


Por Cintia Liana