"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Vantagens do bilinguismo na infância

Mandy Lynne

Criado 20 Novembro 2012. Escrito por guiainfantil.com

Alguns pais consideram que a aprendizagem de um segundo idioma pode representar um freio e inclusive um atraso no desenvolvimento linguístico da criança, ainda que não existam provas concretas a respeito. Uma vez ou outra, a criança poderá confundir alguma palavra entre os dois idiomas, mas esses casos são normais a princípio, principalmente quando os idiomas apresentam palavras semelhantes. No entanto, essas pequenas falhas podem desaparecer com o tempo.

O bilinguismo ajuda a criança aprender outros idiomas

Segundo alguns investigadores, as crianças expostas desde muito cedo a duas línguas, crescem como se tivessem dois seres monolíngues alojados dentro do seu cérebro. Quando dois idiomas estão bem equilibrados, as crianças bilíngues têm vantagem de pensamento sobre crianças monolíngues  o que quer dizer que o bilinguismo tem efeitos positivos na inteligência e em outros aspectos da vida da criança. E que isso não representa nenhum tipo de contaminação linguística nem atraso na aprendizagem. Dizem que é muito melhor a aprendizagem precoce, ou seja, falar com as crianças ambos idiomas desde o seu nascimento, pois permite o domínio completo da língua, ao contrário do que sucede se se ensina a segunda língua a partir dos 3 anos de idade.
 
Outros afirmam que são muitas as vantagens na hora de educar uma criança para que seja bilíngue. Que tudo dependerá da forma que se introduza esse idioma. Não se pode obrigar que a criança o fale. O importante, a princípio, é que a criança ouça sempre e se familiarize com ele pouco a pouco, sem pressas nem obrigações.
 
Outros especialistas, sustentam que as crianças expostas a vários idiomas são mais criativas e desenvolvem melhor as habilidades de resolução de problemas. E além disso, falar um segundo idioma, ainda que seja só durante os primeiros anos de vida da criança, a ajudará a programar os circuitos cerebrais para que lhe seja mais fácil aprender novos idiomas no futuro.
 
Por outro lado, existem alguns científicos que continuam defendendo o atraso do treinamento linguístico e recomendam que a criança aprenda uma segunda língua somente quando tenham suficiente conhecimento da maternal.

Vantagens de ser uma criança bilíngue

  1. Comunicação. A capacidade de comunicação com os pais, familiares, e com mais pessoas quando viajam ou convivem com pessoas estrangeiras. Somando-se a isso, as crianças bilíngues têm duas vezes mais capacidade de ler e escrever, e seu conhecimento é mais amplo pelo seu maior acesso à informação global.
  2. Cultural. O acesso a duas culturas diferentes. À literatura, às histórias, a diferentes comportamentos, tradições, conversações, meios de comunicação, etc.
  3. Conhecimento. Quanto mais conhecimento, mais desenvolvido será o raciocínio de uma criança bilíngue  Através dele, podem ser mais criativos, mais flexíveis, e adquirir uma mente mais aberta ao mundo e aos demais. 
  4. Oportunidade de trabalho. As portas do mercado de trabalho se abrirão e oferecerão mais oportunidades às pessoas bilíngues.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Doze maneiras de aumentar a auto-estima de seu filho

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A auto-estima é um ingrediente importante para uma vida feliz e bem-sucedida. A pessoa pode ser abençoada com inteligência e talento, mas se carece de auto-estima, este pode ser um obstáculo em ter sucesso num emprego, num relacionamento e praticamente em todas as áreas da vida.

Os primeiros anos de uma criança são o alicerce para uma auto-estima positiva.

Como pais, não podemos controlar tudo que nosso filho vê, ouve ou pensa, e que contribuirá para sua auto-imagem. Porém há muito que podemos fazer.

Temos a criança nos primeiros anos de vida; Deus nos deu um presente especial – um novo ser humano com uma "lousa em branco". Durante os primeiros anos, aquilo que passa pela cabeça da criança a deixa muito impressionada. Os pais, portanto, têm uma oportunidade de estabelecer uma "conta bancária de auto-estima" na qual a criança armazena muitas coisas positivas sobre si mesma. Nos anos e décadas que virão, esta "conta bancária" compensará as experiências negativas, que são inevitáveis.

Como então fazemos depósitos na conta de nosso filho? Como podemos nós, os pais, construir para a auto-estima de nosso filho? Aqui estão algumas sugestões:

1. Demonstre amor e afeição. Tudo que fazemos com nossos filhos, desde a mais tenra infância, deve ser com afeição e amor. Um bebê tratado com carinho terá um sentimento subconsciente de que é valioso e importante o suficiente para ser amado.

2. Elogie seu filho. Faça elogios ao seu filho sempre que possível, toda vez que ele fizer algo bem feito. Diga: "Estou orgulhoso de você. Você é muito especial. Gostei da sua maneira de fazer isto."

3. Torne seus elogios críveis. É importante, no entanto, que ele acredite nos elogios. Frases exageradas como "Você é o melhor do mundo. Você é a pessoa melhor que já existiu" podem na verdade ser contra-produtivos. A criança desenvolverá um ego inflado, e isso pode afetar seu relacionamento com os amigos, o que a longo prazo terá um efeito negativo sobre sua auto-estima.

4. Estabeleça metas para seu filho. A meta deve ser algo passível de atingir – vestir-se sozinho, conseguir uma determinada nota na próxima prova escolar. Estabeleça metas que sejam apropriadas para a idade e capacidade da criança (estabelecer um objetivo inatingível terá um efeito negativo). À medida que a criança se aproxima da meta, estimule-a e elogie cada sucesso ao longo do caminho. Quando a criança atinge a meta, cumprimente-a e reforce sua auto-imagem como realizadora.

5. Critique a ação, não a pessoa. Quando a criança faz algo negativo, diga: "Você é uma criança especial e muito boa, não deveria estar fazendo isso", em vez de dizer "Você é mau".

6. Confirme os sentimentos do seu filho. Quando seu filho recebe um golpe na sua auto-estima, é importante validar seus sentimentos. Por exemplo, se a criança se ofendeu com um comentário maldoso de um amigo ou professor, diga a ela: "Sim, você ficou ofendida por aquilo que a pessoa disse" ou "Você se ofendeu com o fato de que a outra pessoa não gosta de você". Somente depois que a criança sentir que seus sentimentos foram validados, ela se abrirá, permitindo que você lhe aumente a auto-estima, apontando pessoas que gostam dela, e as coisas positivas que outros disseram a respeito dela.

7. Tenha orgulho do seu filho. De maneira regular, você deve lembrar-se de dizer ao seu filho como você se sente feliz e orgulhoso por ser pai/mãe dele.

8. Fale positivamente sobre seu filho na presença de pessoas importantes na vida dele, como avós, professores, amigos, etc.

9. Nunca compare seu filho com outras crianças, dizendo: "Por que você não é como Carlinhos?" Quando esse tipo de comparação for feita por outras pessoas, diga ao seu filho que ele é especial e único à sua maneira.

10. Assegure que outras pessoas que lidam com seu filho conheçam seus pontos positivos. No início do ano escolar, fale com os professores de seu filho e diga-lhes quais são seus pontos fortes, assim a professora terá uma atitude positiva neste aspecto e continuará a reforçar aqueles pontos fortes.

11. Diga ao seu filho, sempre, que o ama incondicionalmente. Quando eles falham, ou fazem algo errado, lembre-se de dizer: "Você é especial para mim, e sempre o amarei, não importa o que aconteça
!"

12. Cuide de sua própria auto-estima. Você precisa enxergar-se sob uma luz positiva. Pais que não têm auto-estima terão dificuldades em criar um filho com uma elevada auto-estima. Um pai positivo é aquele que sabe que não é perfeito, mas se valoriza, e está sempre tentando crescer e melhorar.


Fonte: http://www.chabad.org.br

Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A menina que não quis ser adotada

Este texto foi escrito por uma jovem que, quando mais nova, atendi algumas vezes quando era perita de uma Vara da infância e juventude no Brasil. Ela me pediu que o publicasse. Talvez na tentativa de achar a sua mãe.
Observem a fidelidade e aliança que ela tem com a figura materna. Ela, de fato, nunca aceitaria a adoção.
É o outro lado, para a gente ver como funciona.
A partir do terceiro parágrafo ela começa a contar a sua história de modo objetivo.
Eu fiz algumas correções ortográficas, mas não muitas para não descaracterizar o texto. Tirei todos os nomes próprios, incluisve dos abrigos onde ela passou e de lugares que pudessem identificá-la por outros, que não a própria mãe.
Boa leitura. Para a gente fica a reflexão e o respeito por esta jovem, que decidiu doar a vida a procura da mãe perdida, que nunca se despediu dela.
We heart it

Viva a Vida
Sei que a partir do momento que você posta algo sobre você, algo pessoal, esse algo sobre você, fica exposto para que todos vejam mais eu decidi me abrir com o mundo passar um pouco do que vivi através das palavras, mas não julguem estamos aptos a erros, passados e lembranças, afinal a vida muda a cada minuto... Falamos tanto em status e não nos preocupamos com o  necessário, aquilo que construímos de nós mesmo, definir é o que tempo faz com cada um de nós, porém se basear no que a mídia quer que você seja é uma forma de plagiar o que quer ser e não o que realmente se é, porém não me encaixo nesse padrão plagiar, para  a maioria é tão simples julgar quando na verdade não se sabe o que se passa dentro de cada mente, de cada ser e cada vivência.
Na vida aprendemos que nada é como queremos, porém toda experiência é um aprendizado único da qual partilharemos e aprenderemos que nada se julga antes mesmo de ser conhecido, pois todo obstáculo contém uma enorme quantidade de aprendizado, onde nada se perde e tudo se aprende!
Tudo começou quando minha mãe se envolveu com pessoas erradas, tal amiga dela, que dizia ser amiga, mas quando estávamos em casa essa que se dizia SER amiga tentou matá-la, mas minha única sorte é que eu estava dormindo e minha mãe estava acordada, só que quando ela ouviu chiados e olhou pela brecha da janela, ela viu a tal amiga armada descendo com dois rapazes para matá-la, então se pôs embaixo da cama e rezou para que jamais a encontrasse, arrombaram a porta, mas por algo forte não acordei, não sei pela graça de quem... E minha mãe debaixo da cama desesperada, orando para que nada me acontecesse, eles haviam pensado que ela havia saído e me deixado em casa trancada... Apenas olharam e saíram, pois naquela época eu era pequena, quando saíram minha mãe desesperada enrolou de uma ladeira abaixo atrás de ajuda, mais a única que pôde nos ajudar era uma vizinha, que via meus prantos de medo e aflição... Aprendemos que nada na vida é em vão, de tudo se obtém um aprendizado!

Então minha mãe decidiu viajar sem permissão dos meus familiares para um lugar chamado Salvador (Bahia), como era pequena não podia recusar pensava em apenas estar com ela, pois a amava e a amo. Digito isso com lágrimas nos olhos que a cada palavra me fazem derramar o que sinto. Viajamos de carona ela com malas na mão e correndo risco com apenas uma criança que jamais sabia para onde estava indo, por muitas vezes tive que dormir na rua, até que então cheguei a Bahia, em Salvador, ou seja, no 2 de Julho, onde minha mãe passou a usar químicas e a se prostitui devido a falta de grana, e ela me tratava com muito amor e carinho apesar disso, mas como ela trabalhava a noite ela me deixava com alguém, mas que também se metia em muitas confusões, que por várias vezes vi minha mãe ser agredida por homens onde nada pude fazer, mas haviam coisas como as drogas que tornavam minha mãe uma pessoa agressiva e violenta, ela me batia quando estava sob efeito.. até que um dia eu fugi de casa, fui pra rodoviária, com o intuito de voltar para Recife para onde estavam meus dois irmão e minha família, mas foi quando o Juizado me pegou e minha mãe que nem uma desesperada a minha procura sem saber onde estava, foi que me puseram no abrigo para menores chamado (...).
E muitos diziam que minha mãe voltaria para me buscar, mas sempre me pus a esperar e nada, e nesse abrigo entrei com 9 anos de idade fiquei nele por anos à esperar e nada de minha mãe aparecer, até que me puseram para adoção, só que não fiquei, pois a única coisa a ficar em minha mente era voltar para minha mãe, fui para muitos psicólogos e os anos iam se passando quando tentaram me adotar mais uma vez e aí embarquei só que não fiquei pois ainda me perturbava o fato de que se minha mãe for no Juizado me procurar, eu estando adotada, ela jamais me encontraria, então fui para um outro abrigo, ou seja, orfanato para meninas, só que de freira a (...), onde fiquei com 15 anos de idade. Fugi e me pegaram, mas me puseram em outro abrigo (...), mas dessa vez fugi e jamais conseguiram me encontrar, porém o tempo me mostrou que não existe impossibilidade quando se tem um sonho e quando lutamos por ele, foi o que ocorreu ao me levar para perto da pessoa mais íntima de minha mãe biológica, mas logo em seguida soube da parte dela que minha mãe havia sumido, mas acredito que o tempo é sábio e esperar é um dom que Deus me permitiu possuir e, às vezes, o medo de me deparar com uma realidade cruel me domina, é algo que vai além de qualquer crença, porém explicar ainda é complexo, fugir pra tentar construir uma vida e procurar minha  mãe.
Encontrei meu ex-marido que me ajudou e me ensinou o que é a vida, passei fome, fui humilhada, fiquei como uma andarilha na casa de um e outro, mas meu único refúgio era (...) onde aprendi que pra ser feliz não precisa de dinheiro, que a felicidade se manifesta nas pequenas coisas que Deus nos oferece, não por querer, porém aprendi a encarar as coisas como aprendizado, porém evitar os erros ainda é inevitável, mais por falta de opção, mas minha vida hoje, digo de minha infância pra cá, foram e está sendo o maior inferno, pois não tenho conseguido superar mais nada, pois minha vida está parada, pois meus documentos estão na mão do Ministério Público, onde ele dará apenas a um namorado meu, só que de maior.
Tenho tentado esconder mas em meu rosto demonstra o rosto de cansado e um olhar amargurado, muitas pessoas podem me olhar com olhar criticado, mas se tem uma coisa a qual busco são objetivos que venho tentando encontrar! OU SEJA, MÃE, ONDE VOCÊ ESTÁ?!

É na caminhada do fracasso que aprendemos a valorizar pequenas conquistas e que conhecimento não se adquire do nada, é necessário passar primeiro pela linha do fracasso para se obter conhecimento, saberia não se dá, se conquista!
Voltei ao abrigo onde convivi por um longo tempo, revi pessoas e ouvir negatividades da parte das pessoas. Se você não acredita em si mesmo as pessoas nunca poderão acreditar, escolher entre o sucesso e o fracasso, optaria pelo fracasso, pois é com ele que você aprende a valorizar as pequenas vitórias que a vida te dá, e aprende que sorrisos às vezes vem de pessoas que não nos querem bem, por trás de sorrisos pode haver maldades.
Devemos encarar as circunstâncias como pequenos passos para um futuro brilhante, nenhum vencedor chega ao ponto de chegada sem antes ter passado pela linha do fracasso, somos seres em busca de horizontes, experiências e aprendizado, e chorar não é admitir o fracasso, mas ter a coragem de abrir com os olhos o que o coração não pode dizer com as palavras, e amar o próximo deve estar além de qualquer circunstância, por mais magoada(o) que você fique e por mais que as pessoas machuquem, por que deixar de amar é como deixar de existir, e na caminhada percorrida as pessoas nunca vão admitir nossas qualidades, elas sempre observarão nosso defeitos e apontarão sempre nossos erros, e aprenda a ser sempre você sem diminuir os outros, pois da mesma forma que se pode estar por cima, pode estar por baixo, a vida é um jogo da qual as coisas planejadas nunca saem conforme dito, a vida sempre dá um jeito de nos surpreender, e saudades deixam aqueles que partem sem se despedir, e partir sem dizer adeus é uma forma de deixar um até logo.
As circunstâncias foram longas e os obstáculos cada vez maiores, me impulsionando á desistência, e a dor dentro de mim passou a ser maior, então optei pelo ato mutilátorio (cortes), que para muitos foram atos de tolice, sem questionar o que havia por trás de tal ato, somos seres questionadores em busca de soluções óbvias acerca da vida, erramos e aprendemos com isso, mas as pessoas que nos cercam nos condenam como feito erro eterno, as pessoas julgam as outras se olhando no reflexo do próprio espelho, definição é o que na verdade não temos acerca de nós mesmo, nos destruímos, cigarros, bebidas, drogas é o que nos faz parecer diante daquele que tachamos como tolo.
Foram tentativas, medo, ódio e ao mesmo tempo amor e desejo em busca de um futuro incerto, você nunca saberá se não tentar, mas em meio aos caminhos tortuosos encontrei pessoas que se puseram a me ajudar, e pela minha criatividade de escrita muitos foram os que duvidaram do que passei, mas tenho certeza que minha vida não se baseia nas dúvidas das pessoas, mas no aprendizado, aprendi a reconhecer a grandiosidade de Deus nas pequenas coisas acrescentadas a mim, e ao contrário do ano 2010, meu 2011 está sendo repletos de conquistas, aprendizados e pessoas que durante toda á minha trajetória nunca me deixaram de lado e sempre me aceitaram da forma que sou, enquanto a sociedade julga-me pela aparência os verdadeiros me julgam  pelo que sou, porém somos quem quisermos ser!
Aprendemos que não se pode mudar  o passado, porém o  presente existe para se fazer diferença!

E na caminhada sempre há experiências que deixa cicatrizes, uma ferida nunca sara sem deixar pequenas cicatrizes assim são as experiências o tempo não é capaz de curar apenas ameniza, mas deixam aprendizado, assim como a sabedoria que não se compra, mas se adquire ao logo do tempo, dando a cada um de nós um pouco de maturidade e por muitas vezes por escolha optei por estar só, tentei esconder de muitas pessoas quem sou por causa de muitos medos, mas devemos ser nós mesmos sem nos mascarar por que por mais que o tempo demore as máscaras sempre caem!
(O nome da autora é protegido)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A importância dos vínculos afetivos no desenvolvimento e nas dificuldades de aprendizagem

Google Imagens

Por David Léo Levisky


O desenvolvimento das funções psíquicas, entre elas o aprendizado, depende de questões ligadas ao equipamento biopsicológico, e ao investimento afetivo dessas funções.
 
Aprender tem origem latina: “ ex-ducere” - colocar para fora, um processo que vem do interior para o exterior. Entende-se interior o mundo mental, interno, dos afetos, das emoções, dos sentimentos, dos pensamentos, sonhos e fantasias. São elementos que constituem a subjetividade individual, cada vez mais singular na cultura contemporânea. Considero aprendizado o desenvolvimento de um conjunto de funções cognitivo-afetivas que envolvem processos e sistemas neuropsicoafetivos e sócio-culturais que participam da vida adaptativa do sujeito ao meio e às suas necessidades, dentro dos seus limites, na busca de maior autonomia. São sistemas interligados que sofrem influências externas tanto do ambiente físico quanto do psicossocial. Tais sistemas se estimulam de forma recíproca e adquirem no decorrer do processo de desenvolvimento relativa autonomia funcional que depende de capacidades integrativas das experiências objetivas e subjetivas do sujeito.

Nesta oportunidade não serão abordadas as dificuldades de aprendizagem decorrentes de causas orgânicas congênitas ou adquiridas (seqüelas traumáticas ou infecciosas), mas aquelas decorrentes de distúrbios relacionais ao nível dos investimentos afetivos durante o desenvolvimento da criança.

A clínica psiquiátrica de orientação psicanalítica põe em evidência dificuldades de aprendizado, global e específica, como conseqüência da vida relacional, não raro, a partir das primeiras relações afetivas ou, até mesmo antes do nascimento e, em função do imaginário dos pais e do meio circundante. Distúrbios neuroperceptivos pré-existentes contribuem na organização e na dinâmica das dificuldades relacionais. Nos processos precoces de desenvolvimento e no estudo dos seus desvios torna-se difícil determinar qual fator teve início primeiro. De qualquer forma, são situações interdependentes que demandam atenção global e não apenas voltadas para as dificuldades específicas.

As dificuldades de aprendizagem podem ter causas específicas que levam a problemas emocionais emocionais. Mas o inverso também é verdadeiro, questões psicoemocionais gerando dificuldades específicas. As dificuldades de aprendizado podem ser a expressão de sintomas de conflitos psíquicos inconscientes decorrentes de inibições, repressões, cisões, projeções, ansiedades, fobias que interferem nos processos de simbolização e de representação. Há casos cuja dificuldade de aprendizagem é conseqüente à não aquisição ou à aquisição deficitária ou distorcida na construção do mundo interno, da organização egoica e superegoica, das vicissitudes da vida pulsional. São fenômenos que interferem nos processos de simbolização, ligados aos mecanismos de defesa do ego, à estruturação do self, ao processo de identificação, às características das relações objetais e à baixa tolerância às frustrações.

As dificuldades de percepção e de discriminação que se manifestam precocemente ou durante a vida escolar de modo a interferir na pedagogia formal e no comportamento como expressão de conflitos inconscientes que afetam as funções egóicas, inclusive a organização do pensamento, a leitura e a escrita, a compreensão e a expressão do mundo simbólico. Lembrar sempre que estamos falando de seres em desenvolvimento cujas funções estão em processo de estruturação biológica e funcional. Todos nós temos a experiência de ter passado por momentos de angústia e sentido sua interferência na percepção do mundo interno e externo. São situações que afetam a capacidade de pensar, de analisar, associar. Uma criança que sofra estados repetitivos ou crônicos de ansiedade, e mesmo de angústia, pode resultar em perturbações na apreensão da realidade interna e externa bem como na organização de respostas catárticas ou elaboradas.

Regressões, fixações, organizações defensivas caracteriais, inibições interferem no desenvolvimento psicopedagógico e comprometem o desenvolvimento das potencialidades agressivas, destrutivas e reparadoras, da criatividade, da capacidade de brincar e das capacidades instrumentais da criança, podendo se cristalizar.

Para um desenvolvimento adequado das potencialidades psíquicas, e, portanto, das funções ligadas ao aprendizado, é fundamental a existência de um bom vínculo inicial parental por meio do qual se estabelece o sentimento de confiança básica. A qualidade das relações afetivas interfere no desenvolvimento dos processos biológicos, na mielinização, no desenvolvimento das terminações sinápticas, nas defesas imunológicas, no ganho pôndero-estatural, por exemplo. Através da relação dual mãe-bebê, acrescida da função paterna complementar às necessidades de sustentação das funções maternas e determinante no processo de triangulação, o bebê terá condições para desenvolver o que Winnicott chamou de espaço transicional no qual a cultura, o conhecimento e o aprendizado terão lugar. Dependendo das características de desenvolvimento e resolução desta triangulação, exemplificada pela elaboração da relação simbiótica entre o bebê e sua mãe com a separação proporcionada pela entrada do terceiro elemento, o pai é que se estabelecem as noções do eu, tu, ele; a percepção do espaço bi e tridimensionais fundamentais para a formação e o desenvolvimento da atividade simbólica, da linguagem em suas diferentes formas de expressão.

Winnicott mostra a importância do espaço, do objeto e dos fenômenos transicionais para o desenvolvimento dos elementos simbólicos e consequentemente da cultura. A capacidade simbólica pode ser compreendida “como a capacidade de experimentar a perda do objeto e o desejo de recriá-lo no interior de si mesmo dão ao indivíduo uma liberdade inconsciente na utilização dos símbolos; o fato de que o indivíduo a experimenta como uma de suas próprias criações permite-lhe sua livre utilização. A formação do símbolo reina sobre a capacidade de comunicar, pois toda comunicação é feita através de um símbolo”(Hanna Segal, 1957).

Viver o espaço da ilusão e da realidade, usar, brincar, fantasiar, confrontar experiências a partir do contato com o objeto real externo, a mãe ou sua representante afetiva, inicialmente representada pelo corpo materno, são as bases para o aprendizado criativo.

Os distúrbios da aprendizagem se manifestam, com frequência, sobre aquelas funções em franco desenvolvimento por estarem recebendo maior investimento afetivo. Distúrbios de orientação têmporo-espacial, por exemplo, pode ser uma decorrência da falta de sincronismo nos ritmos existentes na relação mãe-bebê ao perturbar a capacidade de continência das tensões emocionais.

Para o diagnóstico das dificuldades de aprendizagem não basta uma coleta cuidadosa dos sintomas e da história do paciente. É preciso diagnosticar a qualidade das relações emocionais do presente e do passado-presente, isto é, dos aspectos infantis presentes nas relações. Assim, será possível, levantar hipóteses sobre a existência de fatores psicológicos e emocionais na organização psíquica do sujeito. Não basta conhecer a criança. É fundamental compreender a criança que está na cabeça dos pais e os pais que estão na cabeça da criança: expectativas, papéis, fantasias, condições sócio-culturais e emocionais mesmo antes do nascimento e, principalmente, durante os primeiros anos de vida.

A compreensão da dinâmica familiar interfere na constituição do espaço interno e na formação e desenvolvimento dos objetos representativos dos afetos e do mundo exterior. Tais elementos participam do processo de aprendizagem e da dinâmica na mediação entre o sujeito e o mundo ao seu redor. Ansiedades existentes na relação do casal ou num dos pais é apreendida pela criança interferindo e mobilizando fantasias ou mesmo perturbando o desenvolvimento de funções como dar e receber, unir e separar, dividir e multiplicar, experimentar ou evitar a experiência emocional.

A aquisição do aprendizado e do conhecimento depende da capacidade para suportar tensão e frustração na aquisição do novo. Portanto, é fundamental que se tenha a preocupação de procurar entender a gênese do fenômeno: se as dificuldades apresentadas pela criança são expressão de conflitos emocionais da criança, da família, do meio sócio-cultural ou uma resultante de um conjunto no qual a criança é o emergente, o sintoma de uma rede complexa de relações perturbadoras que interferem no processo de aprendizagem.

Não se pode avaliar as dificuldades de aprendizagem desvinculada dos processos relacionais familiares e sócio-culturais com o risco de se fragmentar o sujeito e favorecer o desenvolvimento de sentimentos de exclusão.

Para ilustrar estas questões complexas que envolvem as primeiras relações afetivas e a aprendizagem apresentarei o caso de um rapaz de 15 anos. As inúmeras dificuldades sociais e de aprendizagem conduziram-no a se submeter à psicoterapia psicanalítica e ao um trabalho psicopedagógico, complementares entre si.

João é muito tímido, aspecto frágil e aparenta um ar deficitário. Envergonha-se ao fazer algo errado. É repetente por duas vezes. Desde o início do primeiro grau necessitou de reforço pedagógico. Suas dificuldades escolares se intensificaram na quinta série, em desenho geométrico, depois em matemática e ciências. Relaciona-se, de preferência, com crianças menores. É motivo de gozação entre os colegas. Primogênito e único homem de uma prole de 3 filhos. Tem pouca iniciativa. Mantém-se distante das irmãs e pouco se relaciona com o pai, mais descontraído quando em companhia da mãe. Queixa-se de pesadelos após filmes de terror, apesar de sentir grande atração. Imagina-se futebolista profissional no futuro, mas não tem tenacidade. Desiste ao ter de enfrentar dificuldades, mesmo as mais comuns. Tem poucos colegas e não se mantém em grupo. Suas qualidades esportivas não correspondem às suas expectativas. É motivo de agressão entre os colegas. Inúmeros medos. Fez várias tentativas de tratamento psicoterápico e psicopedagógico com resultados medíocres. Apresenta-se dependente e com pouca autonomia. Quer sempre agradar e tem pavor de errar. O envolvimento afetivo é superficial e não demonstra grande curiosidade cognitiva. Seu ritmo é extremamente lento, sem energia. O conteúdo adquirido é de forma mecânica. Não apresenta déficits de compreensão, manejos gramaticais ou semânticos; bom vocabulário ativo, denotando dificuldades para a “metalinguagem”, isto é, para explicar o significado das palavras. Acentuada disgrafia. A leitura é adequada quanto a entonação, expressividade, velocidade e pontuação. Sua visão dos fatos é rígida e não reflexiva, com pouca mobilidade do pensamento. A elaboração oral é melhor do que a escrita. Dificuldades de análise e síntese.

Em sua história de vida existem fatos relevantes que permitem suspeitar da importância da qualidade dos vínculos precoces na relação mãe-bebê-família. A sucessão de situações traumáticas resultou na vivência angustiante e catastrófica de sua relação com o mundo, com as novas experiências. O paciente, muito esperado, nasceu num ambiente de alta expectativa intelectual. Os pais, durante o período gestacional, estavam muito preocupados com a mudança para o exterior, dedicando-se pouco à gravidez. Surgiram graves conflitos entre o casal. Por ocasião do seu nascimento a mãe entrou em importante quadro depressivo. O período adaptativo no exterior foi muito difícil, o mesmo ocorrendo no retorno para o país.

Tudo isto para reproduzir o texto de Winnicott intitulado “Tudo começa em casa” no qual aborda a importância das primeiras relações afetivas na constituição do sentimento de ser e das possibilidades para o desenvolvimento das potencialidades psíquicas. Só existe um bebê lá onde existe o outro para lhe dar significado. É através de trocas complexas entre mãe e bebê que se organiza um continente psíquico no qual poderão emergir e evoluir as potencialidades psíquicas construtivas, destrutivas e reparadoras. O uso pelo bebê do objeto afetivo, seguido de frustrações adequadas, permite prazer e desprazer em níveis suportáveis para o bebê possa integrar e modular aspectos contraditórios e sintônicos do self. Esse processo evolutivo depende da capacidade de ilusão e de desilusão, elementos participativos do processo de simbolização. Ele ocorre por ocasião da incorporação e projeção dos objetos do mundo interno (símbolos representativos dos objetos reais e concretos da vida afetiva do bebê). Por meio desses processos iniciais adequados, da continência afetivo acolhedora o bebê desenvolve conhecimento e aprendizado concomitantes ao processo de identificação, imitativos e criativos, re-significados pelos pais e meio ambiente, durante os sucessivos intercâmbios que ocorrem na vida relacional.

Bibliografia
Levisky, D.L.: “ Algumas contribuições da psicanálise à psicopedagogia” In Scoz (org) Psicopedagogia: contextualização, formação e atuação profissional Porto Alegre Artes Médicas 1992

”Ética, psicanálise e responsabilidade social na educação” trabalho apresentado no “El umbral del milenio” Lima-Peru 15 a20 abril de 1998 Sociedad Psicoanalítica del Peru.

Levisky,R.B. “Possíveis relações entre a psicodinâmica familiar e o processo de aprendizagem” Psicopedagogia – Avanços teóricos e práticos –escola-família – aprendizagem. Anais do V Congresso Brasileiro de Psicopedagogia São Paulo Vetor editora psico-pedagógica Ltda. Pag.272-279. 2000.

Segal, H.: “Notes on symbol formation”Int. J. Psychoanal.38, 391-397 1957

Agradeço a colaboração de Tânia Maria Campos Freitas que realizou a avaliação psicopedagógica deste caso.

David Léo Levisky


Postado Por Cintia Liana

domingo, 12 de dezembro de 2010

A idade da criança como fator que dificulta a adoção: Realidade ou mito?

Falando novamente sobre adoção de crianças maiores, posto aqui uma entrevista cedida a aluna Caroline Folster, para o seu trabalho de conclusão de curso de Graduação em Bacharelado em Direito pela Faculdade Campo Limpo Paulista - FACCAMP.

Tema: A idade da criança como fator que dificulta a adoção: Realidade ou mito?

Foto: Google Imagens

Caroline Folster - Qual a maior causa de abandono de crianças brasileiras hoje?

Cintia Liana Reis de Silva - Quando eu trabalhava na Vara da Infância e Juventude de Salvador via que os motivos para uma mãe entregar o seu filho para adoção eram a falta de estrutura financeira e falta de apoio familiar e do genitor da criança. Geralmente eram mulheres que já tinham uma história familiar mal resolvida, eram emocionalmente desorganizadas, desestruturadas e sem a capacidade de assumir o compromisso de ser mãe, assim como não tinham uma relação estável com o pai da criança.

Caroline Folster - Como fica o psicológico de crianças abandonadas, ou mesmo tiradas de suas casas por maus tratos?

Cintia Liana Reis de Silva - As crianças sentem muita dor, não entendem o que está acontecendo de fato e nem o por quê passam por aquilo, algumas até sentem culpa por se sentirem o motivo pelo qual a mãe provavelmente será punida, elas acreditam que pode existir uma punição. Experimentam a dor do desamparo, medo de ficar sozinhas sem o amor de quem ama e por não entender bem a dimensão dos fatos.

No sething terapêutico muitas vezes não gostam de falar sobre o assunto, muito menos de uma situação delicada em que passou. Algumas conseguem responder a algumas perguntas, mas geralmente se mostram fechadas para tocar em determinados assuntos dolorosos, só após estabelecerem uma relaçao de maior confiança conseguem se abrir e chorar, mas tudo depende do caráter da criança e de sua abertura para falar.

Caroline Folster - Como a criança se comporta em um processo de adoção? O processo de adaptação com a nova família é difícil?

Cintia Liana Reis de Silva - Normalmente as crianças já desejam a adoção e esperam ansiosas por sua nova família, família esta idealizada e verbalizada sempre.

As maiores nem sempre acreditam que possam ser adotadas, pois dizem que as pessoas só querem adotar bebês. Ficam desesperançosos, mas outros já são mais otimistas.

Dentro do abrigo há crianças que demonstram sentir um pouco de revolta e algumas experimentam extrema ansiedade, mas geralmente sempre estão com um sorriso no rosto, dispostas abraçar a quem chegar e der um pouco de atenção e carinho.

Muitas vezes são atendidas pelo psicólogo (perito) da VIJ (Vara da Infância e Juventude) antes ou acompanhada por psicólogo do abrigo em que está, quando poderá ser feita uma avaliação psicológica para ser anexada ao futuro processo de adoção. Acontece tudo tranquilamente na maioria das vezes, pois o desejo existe e é ele quem faz acontecer a relação de amor e a abertura para que tudo dê certo.

Poucas crianças apresentam um comportamento aversivo ao processo de adoção, pois é normal que queiram uma família a ficar numa instituição.

É claro que quando começa a convivência antes de ser dada a sentença pode acontecer alguns desajustes para que ocorram os ajustes, é natural que algumas coisas aconteçam neste momento de adaptação.

Caroline Folster - Algumas pessoas, não generalizando, tem preconceito com crianças que são adotadas “tardiamente” ou seja, com mais de dois anos. Como é desenvolvimento do psicológico de crianças nessa idade? É possível uma adaptação ocorrer mais fácil?

Cintia Liana Reis de Silva - O que pode dificultar o estabelecimento de um vínculo não é exatamente a idade, mas a forma como a criança lida com suas emoções no período de adaptação, um pouco do temperamento pode influenciar, mas o mais importante é a forma em que o casal ou adotante solteiro vai lidar com algumas dificuldades que possam emergir de ambas as partes no período de adaptação, coisa que é normalíssima, pois estão se conhecendo e formando uma família, flexibilizando, se habituando. Quanto mais preparados a acolher as dificuldades e a superá-las desenvolvendo amor, maiores são as chances de sucesso de uma adoção, seja com uma criança pequena, grande ou até mesmo com uma criança que venha a apresentar extrema revolta, todas elas são capazes de mudar neste período, basta sentir que podem contar de verdade com os adultos e com o amor que desejam receber, que não há pré-requisitos para serem amadas e que não serão abandonadas novamente, elas querem crer nesta nova relação parental, querem não sentir medo de se entregar.

Casais italianos vão para o Brasil adotar crianças maiores, que já esgotaram todas as possibilidades de inserção em família brasileiras. Essas adoções têm sucesso mesmo com crianças acima de 10 anos, porque os casais chegam desejosos e fazem tudo para que a relação dê certo em um mês de convivência e conhecimento em um hotel para o estabelecimento de vínculos antes da audiência final, depois são mais 15 dias, aproximadamente, para a saídas dos documentos e voltam para a Itália . Já ouvi algumas vezes de casais chorando: “não teria filho melhor para nós do que esse”, “é como se ele já fosse nosso a vida toda”.

Devemos desmistificas preconceitos e preparam bem os adotantes, assim nada será dificuldade.

Caroline Folster - Como é realizado o trabalho de psicólogos, perante a nova família e a criança?

Cintia Liana Reis de Silva - Durante o período de convivência a nova família (adotantes e crianças) é acompanhada em alguns atendimentos psicológicos para checar a adaptação de todos à nova realidade. Se conversa com os adotantes, com a criança e se faz as devidas observações do vínculo que vai se estabelecendo. O psicólogo faz perguntas e os adotantes podem tirar dúvidas, é um momento de acolhimento de tudo o que diz respeito àquela nova realidade.

Este momento é muito importante porque acontece a integração de elementos de sentido e de significação que caracteriza a organização subjetiva de um âmbito da experiência dos sujeitos, ação, construção, história, transações e trocas sociais e cultura como configurações subjetivas da personalidade. É um complexo de articulações e possibilidades contraditórias e processos de ruptura e renascimento, tudo deve ser visto com sensibilidade e não com um olhar determinista, universalista, as coisas acontecem e tudo é bem vindo para que a relação tome sua própria forma e não uma forma mágica aprendida em livros de contos de fadas. (SILVA, 2008)

Caroline Folster - Qual sua opinião referente ao tema da monografia?

Cintia Liana Reis de Silva - Penso que este é um tema importantíssimo, pois iniciativas como essas ajudam a desmistificar os preconceitos que ainda insistem em fazer parte do discurso e da mentalidade das pessoas na hora de adotar, é um tema que envolve muitos mitos não só imaginados pelos adotantes, mas também pela família extensa, amigos e companhias que estão em volta daqueles que desejam adotar e que muitas vezes dão conselhos respaldados numa mentalidade baseada nos paradigmas ocidentais, numa visão reducionista do ser humano e determinista.

Precisamos investir na ciência, pesquisa, cultura e informação, usar mais a mídia para fazer o bem e unir os seres humanos em seu próprio benefício, pois as pessoas ainda estão alienadas aos processos sociais, econômicos, culturais, políticos e ideológicos. As pessoas insistem em encaixar as relações numa visão monolítica, elementar, cartesiana, construto-individualista, onde a irregularidade e o singular são marginalizados. Ou seja, o pensamento científico tem sido dominado pelo paradigma da simplicidade, então devemos investir em pesquisa e estudo, ainda mais se vamos ajudar tantas crianças a terem uma família. (Rey apud SILVA, 2008)

Parabéns pelo tema e pelo trabalho! Boa sorte e sucesso em sua profissão, que você possa usá-la para beneficiar a todos.

Referência:
Silva, Cintia L. R. de. Filhos da Esperança: Reflexões sobre família, adoção e crianças. Monografia do curso de Especialização em Psicologia Conjugal e Familiar. Faculdade Ruy Barbosa: Salvador, 2008, 58 p.

Por Cintia Liana

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ensinando a Amar

Foto: Google Imagens

"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto.
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta."

(Nelson Mandela)


Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

História real de adoção homoafetiva - Parte 2

Foto: Google Imagens

Parte 2

3) O Processo de adoção: Ligo para o fórum da pequena cidade e explico a situação, fui muito bem atendido e pediram para ligar para o Conselho Tutelar para maiores informações.

Achando que tinha todas as informações (fui informado que ele estava para adoção e não existiam pessoas interessadas), fui para o interior cheio de esperanças, porém quando chego lá e localizam o processo, descubro algo que foi um banho de água fria. Não existia a sentença de Destituição e sim tão somente uma Decisão Interlocutória (Ou seja, não estava para adoção ainda).

Fiquei meio frustrado, parei quase uma hora olhando para o nada, sentado na calçada, depois levantei, sacudi a poeira, voltei ao fórum, Li o processo junto com a técnica Judiciária e a Conselheira Tutelar e fiz a pergunta que mudou a direção das coisas. Qual o melhor advogado da Região? De posse desta informação e honorários acertados em 2 ou 3 semanas tinha a guarda de meu filho, mas a adoção final demorou quase um ano pois ainda tinha que destituir também o poder familiar. Quando por fim terminou esta parte e ele já era legalmente o meu filho, fui a comarca do interior, peguei trêmulo a certidão dele constando meu nome como pai e quando finalmente voltando para Natal e o meu celular volta a funcionar (não pegava na cidade), paro o carro e ligo para meus familiares para avisar, minha mãe ficou aliviada e disse: “-Ainda bem que tudo terminou” e ai eu respondi: “-Ainda não mãe, falta outro nome nesta certidão” e fomos para a parte final.


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

História real de adoção homoafetiva - Parte 1

Foto: Google Imagens

Parte 1

1 ) Depois de todo o processo que nós tivemos que passar para entender sobre adoção e tirar os mitos, que creio todos os adotantes tem no começo, veio a primeira etapa, a minha habilitação.

Desde o início da minha habilitação sempre deixamos claro à Vara da Infância e Juventude que caso eu conseguisse adotar, meu companheiro entraria com um segundo processo para que fosse também juridicamente reconhecido como pai.

Nunca sentimos preconceito algum por parte de nenhum membro da VIJ de Natal, ao contrário, sempre fomos MUITO bem tratados (inclusive parecia que torciam por nós), desde o pessoal de apoio, passando pela Assistente Social, Psicóloga e findando no Juiz e Ministério Público.


2 ) Pronto, estou habilitado para uma menina branca de até 2 anos, sem problemas de saúde, a famosa visão de criança perfeita, e agora? Bom, agora tenho que estabelecer contato com crianças para entender mais sobre elas (apesar de ser tio de 14 e na época tio-avô de 1, hoje 2).

Comecei a fazer trabalho voluntário em um abrigo, ia ao menos 4 vezes por semana, levava balas, brinquedos e muito carinho.

Depois de um certo tempo entra no abrigo um caboclo que eu ainda não tinha conhecido, pois no horário que eu ia ao abrigo ele estava na creche. Brinquei muito com ele e comecei a ir em horários que sabia que ele estava lá, porém tinha na minha cabeça que não poderia criar expectativas pois eu teria que ser chamado pela VIJ e não conhecer uma criança e tentar a adoção. Mas às vezes as coisas conspiram ao nosso favor e um dia veio algo que me deixou bambo. Eu já estava no abrigo quando essa criança (hoje meu filho) estava chegando e veio correndo para me abraçar e me chamando de PAI. Desmontei na hora.

A responsável pelo abrigo, percebendo o vínculo que estava sendo formado, me chamou para conversar e foi quando ela me informou que a comarca dele não era Natal e sim uma pequena comarca do interior que não existia fila (ainda estava meio informal). Bingo. Sai de lá para falar com meu companheiro que em primeiro momento achou que fugia muito do perfil inicial (e fugia mesmo, mas às vezes o perfil inicial esta fora do que o destino nos prepara) e então resolvemos que iríamos passar um dia (junto com alguém do abrigo) com as crianças maiores que 4 anos do abrigo. Neste dia meu companheiro entendeu por que eu estava tão ligado a criança. De todas foi a que mais se divertiu, brincou, cativou e sorriu (apesar de na época ter graves problemas dentários). O vínculo estava feito e meu companheiro concordava. Vamos a luta.


No próximo post a continuação desta linda história.

Este é um texto cedido por um novo amigo meu da adoção. Em nome da luta pela adoção ele me enviou um texto adaptado  em um curso virtual em uma comunidade na internet - GVAA - Adoção,um exemplo de amor - com 43.763 membros.

O autor se coloca a inteira disposição para responder à perguntas. Podem deixar suas perguntas na parte de comentários e se preferirem coloquem seus respectivos e-mail, se não, ele responderá também na parte de comentários.

Texto original da exposição:

Agradeço o texto e parabenizo esta pessoa tão guerreira, que corre atrás de seus direitos enfrentando todos os obstáculos e se realizando enquanto pai e homem no mundo. 


Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Família e o processo de diferenciação na perspectiva de Murray Bowen

Foto: Google Imagens


Elizabeth Medeiros de Almeida MartinsI; Elaine Pedreira RabinovichI; Célia Nunes SilvaI,II

I Universidade Católica do Salvador, Brasil
II Universidade Federal da Bahia, Brasil

(...)
Bowen foi um estudioso, investigador e professor considerado um teórico inovador da terapia de família. Seu arcabouço teórico concentra-se em torno de duas forças vitais que se contrabalançam: aquelas que levam a pessoa à união com sua família e aquelas que a impulsionam para se libertar rumo à individuação. Quando ocorre um desequilíbrio dessas forças em direção à união, ocorre fusão, aglutinação e indiferenciação. Essas noções estão imbricadas, no estudo da complexidade da formação emocional do indivíduo, em torno dos conceitos de massa indiferenciada do ego; diferenciação do self; processo de projeção familiar; processo de transmissão multigeracional; posição entre irmãos; e triângulo, que apresentaremos a seguir (Bowen, 1989; Kerr & Bowen, 1989). São esses conceitos que exporemos a seguir, baseados no autor e em autores que o complementam.

Bowen e sua equipe, a partir de estudos sobre a esquizofrenia, em 1954, observaram um apego simbiótico do paciente à sua mãe, ampliando essa hipótese para os demais membros da família. Desse olhar para a família e para o seu processo emocional, Bowen construiu seus principais conceitos.

O conceito de massa indiferenciada remete ao de fusão ou aglutinação, termo utilizado por Minuchin (1982) para se referir a um estilo transacional caracterizado por um “sentimento de pertencimento que requer uma máxima renúncia de autonomia” (p. 60). Essa força de aglutinação em permanente tensão, exposta aos fatores externos que também exercem influência nas relações familiares, existe em todas as famílias, em variados graus de intensidade. O estresse originado de diferentes fatores psicossociais aumenta a força de união que age sobre a massa indiferenciada do ego, propiciando uma maior aglutinação de seus membros.

Foley (1990) refere-se a três maneiras utilizadas pelo casal para controlar a intensidade da fusão do ego com a massa do ego da família. A primeira se expressa pelo conflito conjugal. A segunda é marcada pelo aparecimento de uma disfunção em um dos cônjuges – assim, um deles cederá ao outro, tornando-se dependente. A terceira maneira usada pela díade conjugal, visando aliviar a situação estressante, é a transmissão da tensão para um ou mais dos filhos, que apresentará algum sintoma.

Toda criança nasce fusionada, indiferenciada em relação à sua família. Durante seu desenvolvimento, sua principal tarefa será diferenciar-se para alcançar autonomia e independência. Na família, as crianças experimentam tanto o pertencimento quanto a diferenciação. Pertencer significa participar, saber-se membro desta família, partilhar as suas crenças, valores, regras, mitos e segredos. Diferenciar refere-se à afirmação de sua singularidade, à sua individuação e ao seu direito de pensar e expressar-se independentemente dos valores defendidos por sua família.

Segundo Nichols e Schwartz (1998), a diferenciação do self, pedra fundamental da teoria de Bowen, é ao mesmo tempo um conceito intrapsíquico e interpessoal. “A diferenciação intrapsíquica é a capacidade de separar o sentimento do pensamento” (p. 312). Kerr e Bowen (1988) denominaram reação à resposta impulsiva.

A escala de diferenciação do self ajuda a compreender o processo de amadurecimento do indivíduo, as respostas significativas, o funcionamento e as disfunções ocorridas nos processos relacionais. Essa escala, de uma importância teórica mais do que classificatória, é dividida em quatro quadrantes: no quadrante inferior, a diferenciação do eu é mínima. As pessoas que funcionam nessa categoria vivem em um mundo de sentimentos e são quase inteiramente dependentes das demais. São pessoas incapazes de distinguirem a emoção da razão. São extremamente reativas e apresentam dificuldades relacionais. No segundo quadrante (25-50), estão aquelas pessoas ainda pobremente diferenciadas, mas capazes de funcionarem de maneira limitada. São pessoas facilmente influenciadas, pois não têm opiniões próprias. No terceiro quadrante (situado entre 50 e 75), estão pessoas que têm opiniões bem diferenciadas, conseguem assumir a “posição eu” e apoiar-se menos no julgamento dos outros. No quarto quadrante (situado entre 75-100), estariam aquelas dotadas de uma plena maturidade, que funcionariam com alto grau de independência. São pessoas seguras de si, com opinião bem definida, embora não necessitem expressá-las de forma dogmática ou rígida. Assumem responsabilidade por seus atos, são tolerantes a opiniões divergentes e não entram em debates para provar que estão certas.

A família é considerada uma unidade emocional. Segundo Papero (1998), “seus membros acham-se ligados uns aos outros de tal maneira que o funcionamento de cada um automaticamente afeta o dos demais” (p. 72). O sistema emocional responde de acordo com forças externas à família, incluindo a família ampliada, situações de trabalho e fatores sociais. “Para um indivíduo ou grupo em particular, as seqüências comportamentais e interacionais que refletem o sistema emocional possuem uma característica de repetição” (Papero, 1998, p. 74).

O sistema emocional humano é passível de ser influenciado pela ansiedade crônica, (Kerr & Bowen, 1988), um estado ou condição crônica de existência, independente de qualquer situação ou estímulo, gerando o apego ansioso, “uma forma patológica de ligação orientada pela ansiedade e pela emocionalidade que subvertem a razão e o autocontrole” (Nichols & Schwartz, 1998, p. 310).

Nichols e Schwartz (1998) ressaltam que o apego emocional é um dos aspectos fundamentais da diferenciação. A dinâmica básica subjacente ao apego emocional seria a alternância entre ansiedade de separação e de incorporação. “A fusão emocional entre a mãe e o filho(a) pode assumir a forma de um vínculo dependente afetivo ou uma luta conflituosa” (p. 314).

Projeção familiar é o processo pelo qual os pais transmitem aos filhos sua imaturidade e sua indiferenciação conforme expressas no relacionamento (Kerr & Bowen, 1988). A projeção é diferente do “cuidado” e se caracteriza por uma preocupação ansiosa, confusa e excessiva com um ou mais filhos ou filhas. O filho escolhido, objeto da projeção dos pais, torna-se o mais ligado a eles e, conseqüentemente, aquele com um nível mais baixo de diferenciação do self. Esse filho busca ativamente o papel de bode expiatório e “apesar disso, a ‘vítima’ recebe seu carinho, ainda que negativo” (Foley, 1990, p. 105).

A mãe transmite sua ansiedade ao transferir para o filho uma carga emocional de suas frustrações, ao invés de estimulá-lo no seu processo de diferenciação. Dessa forma, prejudica emocionalmente o filho, que se torna infantilizado, desenvolvendo aos poucos sintomas de imaturidade psicológica.

O processo de transmissão multigeracional, também exposto por Kerr e Bowen (1988), corresponde à passagem do processo emocional da família através de várias gerações, tanto do marido quanto da mulher. O fluxo de ansiedade de uma família pode ser tanto vertical quanto horizontal.

O fluxo vertical em um sistema inclui padrões de relacionamento e funcionamento que são transmitidos para as gerações seguintes de uma família principalmente através do mecanismo de triangulação emocional... questões opressivas familiares com os quais nós crescemos... O fluxo horizontal no relacionamento familiar inclui a ansiedade produzida pelo estresse na família conforme ela avança no tempo, lidando com as mudanças e transições do ciclo de vida familiar. (Carter & Mc Goldrick, 1995, pp. 11-12)

Eventos estressantes podem levar a família à disfunção por várias gerações posteriores. Retratam uma situação de aumento das tensões familiares eventos tais como: morte prematura, nascimento de uma criança deficiente, enfermidade, acidente, entre outros. Segundo Papero (1998), aplica-se o conceito de processo de transmissão multigeracional “ao modo pelos quais os processos de projeção familiar, repetidos de geração em geração durante longos períodos de tempo, levam diferentes ramos de uma família a alcançar níveis mais baixos ou mais altos de diferenciação” (p. 87).

A escolha do parceiro no matrimônio está relacionada ao nível de diferenciação do eu. A pessoa tende a escolher o parceiro com nível de diferenciação semelhante ao seu. Os vários filhos podem ter níveis diversos de diferenciação, mas não muito distantes daqueles alcançados pelos pais.

É importante a posição da pessoa na família de origem e nas relações futuras com o cônjuge (Bowen, 1991). A posição fraterna pode predizer algumas dificuldades conjugais. Aqueles que contraem matrimônio com cônjuge da mesma posição fraterna terão mais dificuldades de adaptar-se ao casamento do que aqueles que se casam com cônjuge de posição complementar. A relação entre irmãos é considerada “o primeiro laboratório social, no qual as crianças podem experimentar relações com iguais. Dentro desse contexto, as crianças apóiam, isolam, escolhem um bode expiatório e aprendem umas com as outras” (Minuchin, 1982, p. 63).

O conceito de triangulação se refere a um sistema inter-relacional entre três pessoas, envolvendo sempre uma díade e um terceiro, que será convocado a participar quando o nível de desconforto e de ansiedade aumentar entre as duas pessoas. Uma delas, então, buscará uma terceira para aliviar a tensão. Os triângulos aparecem no processo emocional interacional que se estabelece no sistema familiar e transgeracional. Calil (1987) considera o triângulo como “um bloqueador das emoções de um sistema” (p. 103).

Sair das triangulações orienta o outro a um relacionamento em nível superior de maturidade. Os triângulos, para Kerr e Bowen (1988), “são para sempre” (p. 135). Em situações de menor tensão, permanecem latentes, reaparecendo quando os conflitos recrudescem. Assim, os triângulos são susceptíveis à ansiedade, tornando-se mais ou menos ativos em situações de tensão. Nesse sentido, o processo de triangulação constitui um mecanismo de resposta que acontece nos processos relacionais ante situações estressantes.

Na família, observam-se vários triângulos que se formam e se desfazem de forma repetitiva. Os triângulos não são fixos nem estáticos, sofrendo deslocamentos, a depender do nível de ansiedade e da dinâmica interna da família. É importante ressaltar que estão ligados a uma unidade emocional mais ampla, de onde também recebem influência, denominada triângulos entrelaçados, onde “a ansiedade, incapaz de ser contida dentro de um triângulo, se expande para um ou outro triângulo” (Kerr & Bowen, 1988, p. 139). Esses autores denominam esse processo de ativação de triângulos imbricados, que podem ser de difícil observação.

Para Andolfi e Ângelo (1988), compreender a entrada de um terceiro elemento nas díades em situação de conflito “acrescenta uma dimensão desconhecida à interação, viabilizando alianças, além de uma nova relação de inclusão-exclusão... como também pode estimular a manifestação de recursos individuais ocultos e a evolução do sistema” (p. 33).

O entendimento dos processos de triangulação está ligado à compreensão de como se dá o processo de comunicação, como a partir da linguagem não-verbal – tom de voz, mudanças na postura corporal e outros sinais não verbais – que podem ou não ativar os triângulos.

A teoria boweniana enfatiza que, para compreender a família, é necessário desvelar o que acontece nas gerações que a precederam e ampliar o olhar para a família extensa, elucidando vários nós que, no estudo estritamente da família nuclear, podem permanecer obscurecidos. Cada indivíduo:

é parte de uma rede de relações que envolvem as respectivas famílias de origem.... Através de interações que permitem a cada pessoa experimentar o que é e o que não é admissível na relação, é criada a base de uma unidade sistêmica. (Andolfi, Ângelo, Menghi, & Corigliano, 1984, p. 18)

Não existem famílias isoladas, e sim uma complexidade social, econômica e política em que essas famílias estão imbricadas (Rabinovich, 2002). Pensar a diferenciação do self familiar atualmente requer entender as novas configurações da família em suas várias expressões do processo emocional societário. Note-se que o pólo de tensão nas famílias aumenta, complexifica-se e expande-se rapidamente, mediado pelos meios de comunicação e pelos avanços tecnológicos que ocorrem na sociedade contemporânea.

As famílias constituídas hoje passam por mudanças sucessivas, de modo que, “se reconhecermos que há novos e diversos tipos de famílias, também deveríamos, no mínimo reconhecer que o ciclo pelos quais elas passam também pode ser diferente” (Molina-Loza, 1998, p. 69). Na medida que há uma complexificação dos modos de vida devido a vários estresses, como o desemprego e a exclusão, Andolfi e Nichilo (1991, p. 11) consideram que a retomada das gerações anteriores, conforme proposto por Bowen, encontra uma variável não prevista por ele – o tempo – quando os valores das gerações anteriores não são mais compreendidos pelas gerações atuais.

Assim, compreender o limite da teoria de diferenciação do self passa pela compreensão da forma como as famílias estão estruturadas nos dias atuais.

Exporemos, a seguir, o estudo de caso a partir do qual os conceitos acima expostos serão apresentados e elaborados.

1 Dissertação apresentada à Universidade Católica do Salvador, em 2005, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Família na Sociedade Contemporânea. Orientação de Elaine Pedreira Rabinovich. Co-orientação de Célia Nunes Silva.
2 COFAM - Pertencente ao Movimento Familiar Cristão (MFC) de Salvador-BA, onde funciona o Curso de Especialização e Formação em Terapia de Família da Universidade Católica do Salvador (UCSAL).

Elizabeth Medeiros de Almeida Martins, Assistente Social, Docente da Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Endereço eletrônico: elizabeth.martins@hotmail.com
Elaine Pedreira Rabinovich, Docente da Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Endereço para correspondência: Rua Maranhão, 101. CEP 01240-001 - São Paulo-SP. Endereço eletrônico: elainepr@clas.com.br
Célia Nunes Silva, Médica, especilaista em terapia familiar. Docente da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Católica do Salvador. Endereço eletrônico: celianunessilva@yahoo.com.br


Postado Por Cintia Liana

domingo, 25 de julho de 2010

Moldar uma criança?

Foto: Google Imagens

Ouvi algumas vezes adotantes dizerem que queriam adotar um bebê por ser mais fácil de moldar e de colocar do seu jeito.

Desculpe se pareço grosseira, mas considero esse tipo de pensamento uma grandessíssima ignorância e a expressão moldar muito grotesca.

Considero muito egoísmo pensar nisso, pois nem filho biológico a gente molda. Sei que podemos educar, passar um bom exemplo, crescer ao lado desde filho, mas moldar me parece uma palavra que vem acompanhada da frase: “Eu te adoto, mas você deverá ser do jeito que eu quero!”.

Pura ilusão, não só porque nem filho biológico se molda, mas também porque os bebês adotados já vêem com uma história intra ulterina. Ninguém pode nos dar garantia de nada, nem de que uma pessoa será boa ou má, até porque esta classificação simplista é estúpida.

O ser humano se constrói de modo complexo e particular a cada um, a cada história, a cada modo de ver e sentir o mundo. O ambiente e os estímulos contidos nele serão muito mais importantes. Concentrem-se nisto, em dar a teu filho o melhor. Seja firme, se permita amadurecer com a experiência também e tenha a certeza que ele te aceitará do jeito que você é e sentirá amor por você se ele também se sentir verdadeiramente aceito. Ele irá querer ser como você e o achará a melhor pessoa do mundo, mesmo sabendo que tem tuas falhas e sabemos que todos nós temos muitas, não é?

Vamos tirar nossas máscaras, comecemos por aqui e tudo fica mais fácil. Ninguém é perfeito nem do jeito que queremos, tudo é aceitação, exemplo e diálogo, só assim exercitaremos o amor, através do respeito. Nós todos já viemos nos moldes de Deus.

Por Cintia Liana

terça-feira, 20 de julho de 2010

Adoção Consensual ou Intuito Personae

Foto: Luz Art. Google Imagens.

Adoção "à brasileira" é aquela onde se registra a criança como sua filha biológica. Esta modalidade de “adoção” é crime previsto em lei. Se descoberta depois os responsáveis podem ser indiciados, responder a processo penal e podem ser presos.

Já a adoção consensual ou intuito personae é aquela onde a criança é entregue por sua família natural diretamente para aos interessados em adotá-la e estes, por sua vez, se dirigem a uma vara da infância para efetuar a adoção. Esta modalidade não é crime, mas já não é vista com bons olhos por muitos Juízes de comarcas brasileiras.

Alguns genitores alegam que desejavam entregar a criança para pessoas indicadas por conhecidos e que assim estariam mais tranqüilos em torno da segurança do filho e em menor culpa ao doá-lo para alguém de procedêcia conhecida. Mas outros fazem uma tentativa de chantagem com as pessoas que estão ansiosas por adotarem seu filho a qualquer custo, o que se torna um perigo que pode se transformar numa guerra perante o Juiz.

Como psicóloga, com larga experiência em VIJ (Vara da Infância e Juventude), não aconselho adoções consensuais por um motivo evidente: esta modalidade de adoção, de algum modo, pode influenciar a venda de crianças e isso, por sua vez, contribuiria para a volta de tráfico de órgãos.

Sou totalmente a favor do que chamam de “busca ativa”. Habilitados que fazem contatos com pessoas que sabem de crianças em poder do Judiciário, que muitas vezes estão esquecidas em abrigos, e comunicam ao Juiz desta possibilidade, mas ficar buscando crianças que serão ou estão sendo doadas por seus genitores é outra coisa.

Interessados em adotar, ao chegar com uma criança doada pelos genitores alguns juízes entregam esta criança para o primeiro da filha de sua comarca, ou a abrigam, após obviamente verificar a procedência da criança e o eventual interesse que sua família extensa de origem desejar obter a guarda do menor, como avós ou tios.

É previsto no ECA que é de direito da crianças permanecer em sua família de origem e quando esta possibilidade é esgotada é que se busca a adoção como medida de substituição plena desta.

Os juízes não vêem a adoção consensual com bons olhos porque não têm como saber o que de fato ocorreu no trâmite daquela doação. Eles hoje vêem assim por existir pessoas com todo o tipo de escrúpulo. Você pode ser alguém honesto, tentando ajudar, sentindo que encontrou teu filho tão esperado, mas a justiça não tem como saber ao certo se não houve a compra da criança e ele sabe que tem muitas outras pessoas devidamente habilitadas na fila de espera.

Sabemos que cada caso é muito especial, mas para tudo correr dentro da lei e as crianças não correrem nenhum tipo de risco é mais acertado e melhor os genitores entenderem que não é crime entregar o filho para a adoção e as pessoas interessadas em adotar devem esperar a criança através da VIJ, mesmo fazendo a “busca ativa”, assim as nossas crianças estarão bem mais seguras.

Reflitam, não é só você que busca um filho, são milhares de pessoas, e se todas buscarem fora da lei virará uma grande bagunça e as crianças estarão em risco, serão vendidas e irão para mãos de pessoas más que não terão o intuito de adotá-las e sim de fazerem mal. Parece muito egoísmo ficar pensando em satisfazer o próprio desejo de ter um bebê e passar por cima de tudo, esta pessoa não está pronta para educar e nem para amar. Se não consegue pensar na proteção das crianças órfãs porque pensará de modo maduro em seu filho? O amor começa no próximo desconhecido, em qualquer criança. Uma pessoa consciente disso está pronto para adotar um filho, é esta pessoa que nós técnicos da adoção procuramos. A lei é clara, se deve achar uma boa família para uma criança e não uma criança para uma família.

A outra variável é que muitas pessoas vão ter filhos com o intuito de vendê-los, pois verão como algo rentável. Pensem nas crianças que estarão em risco e em não somente satisfazer o teu desejo de ser pai e mãe. Nós sabemos nos proteger, as crianças não.

Entendo que buscando auxílio, trabalhado teu sentimento, tua ansiedade, no momento justo a assistente social te telefonará dizendo que tem uma criança especial para você conhecer.

Por Cintia Liana

Livro da Psicóloga Cintia Liana sobre o percurso de construção da família através da adoção e seus aspectos psicológicos
Para comprar ou visualizar:
http://www.agbook.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca
(2ª Edição - 2012)

sábado, 3 de julho de 2010

Como vai a família?

Foto: facebook

"Sou P., casado com B. e pai de G. que veio ao nosso encontro perto de completar 2 anos e hoje tem 4.

Entre a entrada dos documentos e chegada do meu filho foram 9 meses. Neste intervalo de tempo buscamos nos preparar, lendo muito, buscando preparar todos para a chegada dele e, se considero hoje a nossa história feliz, certamente foi por termos conhecido pessoas maravilhosas que não somente nos passaram a experiência que já tinham, como dividiram as dúvidas e dificuldades conosco.

Estou falando para que os que estão ainda somente habilitados. Curtam a paisagem que isso vai ser fundamental na chegada.

O periodo de adaptação dele, logo no inicio, foi difícil, mas estávamos preparados e amparados pelos amigos e em pouco mais de 1 mês, meu filho estava totalmente "em casa".

Hoje, após quase dois anos, parece que ele sempre esteve conosco e o amor entre nós todos é reciproco e contagiante."

*******************

Quem assina é um pai muito feliz e realizado, um grande amigo meu. Com B. forma um lindo e jovem casal que conheci em 2008.

Por Cintia Liana