"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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domingo, 26 de junho de 2011

Mesmo com mãe e avó, criança é listada para adoção

Emma English Home

Sábado, 25 de julho de 2011
Por Pedro Canário

Mesmo tendo mãe e avó, uma criança foi incluída pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro nos cadastros de adoção nacional e internacional. A corte entendeu que a mãe, presa, não tem condições de cuidar da filha. Já a avó, possível guardiã, não tem interesse na guarda da menor. A decisão, unânime, seguiu voto do relator, desembargador José Carlos Paes, que confirmou sentença da primeira instância. A mãe havia recorrido.

A mãe foi presa por tráfico de drogas e, “desde adolescente, é envolvida com consumo de drogas”, segundo o Ministério Público do Rio. O órgão fez o pedido para que a guarda fosse tirada. Ela cumpre pena no Presídio Carlos Tinoco da Fonseca, na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ). O MP ainda pediu que a mãe fosse multada, o que foi indeferido.

Para a autora do recurso, a avó tinha interesse e plenas condições financeiras para cuidar da criança. A mãe também afirmou que o juiz de primeira instância queria puni-la por causa de sua “condição social inferior”.

Ouvida pelo TJ-RJ, a avó deu “declarações contraditórias”, segundo o relator. Ela disse que tinha interesse em cuidar da criança, desde que fosse inscrita em programas de benefícios sociais, mas recusou todos os programas sugeridos. Depois, disse que não tinha condições financeiras de cuidar da menina, ao contrário do que sua filha dissera.

Também questionado no TJ fluminense, o marido da avó disse que ela não tinha tempo para cuidar da criança, pois passava o dia inteiro trabalhando como empregada doméstica. Declarou, por fim, que a menina não seria aceita em sua casa.

José Carlos Paes negou o caráter social da sentença, argumentando que “o que se defende, acima de tudo, é o interesse da criança, que não recebeu os cuidados necessários durante sua gestação”. A manutenção da sentença, segundo Paes, serviu para “resguardar crescimento seguro e saudável a uma criança que, em razão de um infortúnio, restou desabrigada do seio familiar”.

O desembargador disse ainda que os problemas sociais da mãe “não podem servir de justificativa” para que “não sejam asseguradas condições saudáveis para o desenvolvimento”. Para ele, a intenção “não é afastar a criança de sua família pobre, mas sim protegê-la do abandono em que, na verdade, se encontra desde os primeiros dias de vida”.



Postado Por Cintia Liana

domingo, 29 de maio de 2011

Mudança em favor do amor - Matéria com a participação da Psicóloga Cintia Liana

Por Amanda Corrêa
Fotos Retrato 3 Estúdio
Ilustração Paulo Werner

Dados do Cadastro Nacional de Adoção apontam queda da procura por crianças brancas. A revista Star conta histórias emocionantes de quem nunca se importou com o preconceito.

De acordo com os dados do Cadastro Nacional de Adoção de 2008, 70% dos adotantes exigiam crianças brancas na hora de adotar. Em 2010, este percentual caiu para 38%, onde 29,6% são indiferentes à cor e 1,93% aceita apenas crianças negras. Os dados apontam uma mudança na mentalidade dos candidatos a adotante. Entre crianças e adolescentes que esperam a adoção, 65% são negros, pardos, indígenas ou asiáticos.

“A queda da preferência por crianças brancas significa um avanço social tremendo. Acredito que isso tenha a ver com o Cadastro Nacional de Adoção e a nova lei da adoção (veja quadro na página 26). O processo acelerou porque o encontro entre adotantes e crianças à espera de adoção começou a ser mais ágil”, explica a defensora pública e coordenadora dos defensores públicos na área de família e civil, Marta Juliana Marques Rosado. “Toda criança tem direito a convivência familiar. Estas crianças negras estavam sendo preteridas disso, bem como as que tinham alguma deficiência física. Quando nunca, elas ficavam o resto da sua infância e adolescência no abrigo, até completar 18 anos”, conclui o defensor público da infância e da juventude de Belo Horizonte, Wellerson Eduardo Corrêa.

Mas, ainda assim, a diferença entre o número de candidatos a adotante e o número de crianças à espera da adoção é alarmante. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, 5.369 crianças de 0 a 17 anos foram registradas no Cadastro Nacional de Adoção em todo o Brasil até o dia 12 de agosto deste ano. Entre elas, 2.939 são meninos e 2.355 são meninas. O total de pais candidatos a adoção é bem maior: 28.988. Esta equação não fecha porque, além da questão racial, existem ainda outras barreiras. “O que observamos é que a criança que passa dos seis, sete anos de idade, já não consegue acolhimento na família substituta nacional. Aí, elas vão para famílias substitutas estrangeiras. O brasileiro possui resistência em adotar crianças mais velhas, o que chamamos de adoção tardia”, explica Corrêa.

Quebra de paradigma

A psicóloga Cintia Liana Reis de Silva atua como especialista em psicologia conjugal e familiar. Ela trabalha com adoção desde 2002 e foi perita da Vara da Infância e Juventude de Salvador - BA, um dos Estados brasileiros com a maior proporção de negros na população. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, PNAD, 14,4% da população baiana são negros e 64,4% pardos. Atualmente, Cintia atua na Itália como colaboradora de uma entidade de adoção internacional.

Segundo a psicóloga, um dos motivos que levaram à mudança nos dados do Cadastro Nacional de Adoção é a falta de crianças com os perfis procurados pelos candidatos a adotantes. “Em 2004, quando comecei a coordenar o serviço de psicologia da Vara da Infância e Juventude, existia um grande número de adotantes querendo meninas, brancas e recém nascidas. Em 2008, o quadro era completamente diferente. Muitas pessoas buscavam um perfil mais flexível, sem preferência de sexo ou cor de pele, além de crianças maiores de dois anos. Lembro-me que um casal alterou seu pedido no Cadastro Nacional de Adoção de uma criança de até dois anos, para uma de até 12. Acabaram adotando um menino negro de sete anos. Eles nutriam um amor imenso e hoje, três anos depois, estão muito felizes. Para a criança, o que importa é o amor que recebe, o amparo, os cuidados e a proteção. Não importa se terá só pai ou só mãe, se estes serão brancos ou negros ou que classe social terão”.

O medo de que as crianças mais velhas tragam alguma carga emocional da convivência que tiveram com os pais biológicos ou na instituição ou abrigo onde elas se encontravam antes de serem adotadas é um dos motivos que levam os candidatos a exigir crianças mais novas. “As pessoas acham que quanto menor a criança, mais absorverá a nova educação e mais se assemelhará a um filho biológico. Como acham que a criança ainda não tem uma personalidade formada, acreditam que não trará tantas recordações desagradáveis e hábitos da instituição ou da família de origem. São fantasias sociais, grandes mitos”.

Cintia explica que quando a criança se sente verdadeiramente amada e aceita, ela quer se tornar parecida com os novos pais. E isso, de fato, ocorre, independentemente da idade. “Se idade fosse assim tão importante para o vínculo, não existiriam tantos filhos biológicos com tantos problemas e se voltando contra os pais. Não existe uma fórmula. Existem situações complexas que devem ser tratadas com cuidado e afetividade”.

Para a psicóloga, a mudança nas exigências no Cadastro Nacional de Adoção pode ser explicada também pelo fato de que muitas celebridades como Madonna, Sandra Bullock e Angelina Jolie, têm adotado crianças negras. Existe uma imitação, mesmo que inconsciente, do comportamento de pessoas a quem se admira. “Quando alguém respeitado, conhecido e bem-sucedido adota, sempre abre novos caminhos e fortalece desejos. Isso faz com que as pessoas vejam como uma espécie de moda e como algo muito valioso, que só alguém bem resolvido e bem estruturado faz. E isso todo mundo quer ser”, afirma.

Para os defensores públicos, Wellerson Corrêa e Marta Rosado, a adoção é um ato de amor. “Os pretendentes têm que comprovar que estão amadurecidos para a paternidade. São pessoas que estão dispostas e sabem amar. A adoção é um desafio. Uma caixinha de surpresas. Mas é um processo irrevogável, como uma maternidade ou paternidade natural. A criança não virá pronta. Virá como um filho biológico, com todas as virtudes, mas também com todos os defeitos”, explica Corrêa. “As pessoas têm que estar preparadas para, quando aparecerem os defeitos, não colocarem a culpa na adoção”, completa Rosado. “É como aquele ditado: você ama não por causa de, você ama apesar de, não é?”, finaliza Corrêa.


Casos de amor

A empresária Silvia Rocha Veloso, de 49 anos, nunca havia pensado em adotar. Seus dois filhos já estavam crescidos quando ela conheceu Luana, então com dois anos, enquanto trabalhava como voluntária na extinta Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, Febem, em 2004. Como Silvia e a menina nutriram carinho uma pela outra, a empresária resolveu apadrinhá-la.

Luana e seu irmão, Jacson, então com oito meses de idade, tinham sido levados à Febem depois de uma denúncia de maus tratos por parte de seus pais. Enquanto estavam na instituição, sobre proteção do Juizado da Infância, os irmãos esperavam pela decisão da justiça, que fazia um trabalho de reintegração familiar. A dúvida era se seriam entregues de volta à família ou iriam para a lista de adoção.

O juiz responsável pelo caso decidiu que as crianças não tinham condições de voltar a viver com os pais biológicos. Luana e Jacson foram para a lista de crianças disponíveis para adoção e Silvia, com o apoio do marido Eugênio e dos filhos, pediu a guarda da menina. “Quando saiu a guarda eu falei para a Luana que, a partir daquele dia, não era pra ela me chamar mais de tia, que poderia me chamar de mãe. Perguntei: ‘você quer que eu seja sua mãe?’, e ela respondeu: ‘quero!’. Assim que eu virei as costas, era mãe pra cá, mãe pra lá. Ela tinha três anos e meio, mais ou menos”.

Depois de conseguida a guarda, a advogada de Silvia registrou um pedido de adoção, e ela e o marido passaram por entrevistas e visitas de assistentes sociais. Posteriormente à finalização do processo, uma assistente do juiz da Vara Civil da Infância e da Juventude de Belo Horizonte entrou em contato com Silvia para saber se ela gostaria de adotar o irmão da filha, Jacson. “Infelizmente, nem financeiramente nem psicologicamente eu poderia adotá-lo. Eu não tinha estrutura para ter duas crianças. Soube depois que um casal sem filhos adotou o Jacson”. Uma das assistentes sociais do processo do casal adotivo de Jacson entrou em contato com Silvia, certa vez, pedindo que ela desse seus contatos aos pretendentes caso eles ou o Jacson, mais tarde, quisessem entrar em contato com sua filha, Luana. Silvia autorizou e passou todos os contatos, mas nunca foi procurada.

A história de amor de Eneida Cabral de Lacerda e Silva, de 40 anos, com seu filho Gustavo também teve início em uma visita a um abrigo. Lá, a servidora pública conheceu e se apaixonou pelo menino, então com um ano e 11 meses. Ela já tinha um filho, Rafael, que sofre de deficiência mental, e havia tentado engravidar várias vezes, sem sucesso. Conheceu Gustavo, hoje com oito anos, quando já tinha desistido de tentar a segunda gravidez. “Quando cheguei, vi o Gustavo e me apaixonei. Não fui com intenção de buscar uma criança e nem de adotar. Foi a presença dele que me fez querê-lo. Foi um encontro lindo. Ele era um pouco desconfiado, mas pegou na minha mão e me chamou para passear com ele no primeiro momento que me viu”.

O processo de adoção de Gustavo teve início como o de Luana, com o apadrinhamento. Enquanto cuidavam do menino durante três meses concedidos pela justiça, Eneida e o ex-marido, Márcio, decidiram adotá-lo. Mas o processo teve um contratempo. Gustavo ainda estava vinculado ao poder do pai biológico. “O processo correu bem, a assistente veio aqui em casa, tudo aconteceu direitinho, mas ela me disse que o Gustavo não estava na fila de adoção, porque o pai ainda tinha sua guarda. Só a mãe que não”. A adoção só aconteceu depois do pedido de destituição e da autorização do pai. “Quase morri quando ela disse que, se o Gustavo fosse para a fila de adoção, ele seria adotado logo, logo por outra pessoa”.

Entre pais e filhos

Eneida e Silvia concordam que a paternidade e a maternidade através da adoção não é uma escolha racional. É algo inexplicável, uma escolha do coração. “No dia em que meu pai faleceu, saiu a adoção definitiva do Gustavo”, conta Eneida. “Ele é uma criança extremamente amável comigo, com os irmãos e com o pai. Ele sempre me fala: ‘mãe, quando eu nasci você estava nos meus sonhos’”.

O preconceito é uma das barreiras que as mães e as crianças têm que enfrentar. Silvia conta que sofre com o julgamento dos outros, mas que é Luana quem mais sente. “Vejo pessoas, até dentro da minha família, que têm preconceito por que os primos da Luana são todos loirinhos. Tentei afastar ela dessas pessoas e até da família, mas a psicóloga me aconselhou a não fazer isso. Disse que ela tinha que aprender a conviver com essas coisas. E a Luana sente. Ela já me pediu para pintar o cabelo dela de amarelo, porque ela queria ficar igual a mim e à irmã dela. Eu, meu marido e os irmãos dela falamos sempre que ela é linda, que a cor dela é linda”, diz.

As mães contam que a adoção é mais que um ato em favor da criança. É um ato em favor de si, da família e do amor nutrido entre pais e filhos. “O Gustavo completa a gente. Completa a nossa família. Lógico que não é fácil, mas nenhuma criança é. Escuto muita gente falando que fui corajosa ou que fiz um ato muito bonito, mas eu não vejo por este lado. Fiz pelo prazer em tê-lo. E digo sempre que quem ganhou nesta história fui eu. Olho para o Gustavo e choro de paixão. Não tem diferença entre ele e os outros filhos. O carinho é exatamente o mesmo”.

Para Silvia, sua vida, hoje, é em função da filha, mas nunca se arrependeu da adoção. “Nossa rotina mudou. Minha vida é totalmente tumultuada por causa da Luana, por ter escolinha de novo, ter que levá-la à psicóloga, psicopedagoga, neurologista. Mas vale muito a pena. Em nenhum momento, por mais trabalho que a Luana me dá, eu e meu marido nos arrependemos. É muito gratificante. Ela é muito carinhosa, amável. Acho que, no final, a gente ganha muito mais do que dá para ela. O retorno é muito bom”.



Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 24 de maio de 2011

Mãe do Coração

Achados de Decoração

A comovente história de mulheres que enfrentaram seus medos e angústias e abriram seus lares para receber filhos adotivos.

Por Daniela Costa
Fotos: Paulo Márcio, Geraldo Goulart e Cláudio Cunha

Domingo, 22 de maio de 2011

Mulheres diferentes, histórias diferentes. Mas todas dispostas a falar sobre as dificuldades que enfrentaram e as alegrias que vivem ao lado de seus filhos – ainda que não biológicos. Para elas, não importa como eles chegaram e nem de onde vieram, mas sim que sejam seus filhos de coração.

A psicopedagoga Níblia Soares Moreira Leite que o diga. Ela passou por angustiantes processos de inseminação artificial. “Cada dia para mim era uma tormenta. Minha vida era chorar”. Após um ano de tentativas, ela e o marido, o professor Marcus Vinícius Leite, chegaram a uma conclusão: “Queríamos uma criança independentemente da maneira como ela viesse”. Cadastraram-se no programa de adoção solicitando um bebê. Depois ampliaram a faixa etária para crianças de até 4 anos. Hoje com 10 anos, Larissa já não é mais filha única. Quando estava com 4 anos e os pais tentavam uma nova adoção veio a surpresa: “Descobri que estava grávida do Nicolas, que hoje tem 5 anos”. Três anos depois, outra novidade. “Engravidei novamente, desta vez do Henrique, que está com 3 anos e meio. Agora a família está completa, não falta mais ninguém”, diz Níblia.

Segundo o Cadastro Nacional de Adoção, há 252 meninas e 298 meninos a espera de uma família em Minas Gerais – até abril. Metade dessas crianças (274) têm de 13 a 18 anos e se enquadram na chamada adoção tardia, que tem início a partir dos 2 anos. Para Marcos Flávio Lucas Padula, juiz de Direito da Vara Cível da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, a preferência por crianças menores ainda é predominante no Brasil. “Apesar de ter havido mudanças na lei de adoção, ainda é necessário mudar a questão cultural. Os candidatos a pais adotivos devem se conscientizar sobre a necessidade de também procurarem crianças mais velhas”, afirma.

Esforço compensado
Foi de forma inesperada e não programada que a professora Luciana Haas Leivas Laboissière, 35 anos, adotou sua filha Raiane, hoje com 8 anos. Até que uma amiga indicou a menina – Miguel, filho biológico, tinha na época 3 anos e meio. Raiane, por sua vez, tinha 2 anos e meio e havia passado por experiências difíceis, como ter sofrido maus tratos quando bebê. A guarda provisória demorou sete meses para sair, mas o esforço valeu a pena, garante a professora. “É gratificante perceber melhoras em uma criança com histórico de problemas”, diz Luciana.

Contrariando as estatísticas, a engenheira Júnia Elaine Martins Guerra Turra, 53 anos, e seu marido, o empresário Ivan Cabral Turra, venceram preconceitos e optaram pela adoção de uma criança de 7 anos. Na época, eles já tinham dois filhos biológicos. “Comecei a fazer trabalhos voluntários em abrigos e foi lá que conheci minha filha, Taynara, que hoje está com 12 anos”. Negra e vinda de uma família humilde com 12 irmãos, a criança apresentava traumas. A adaptação ao novo lar foi difícil. “A convivência inicial foi complicada, porque você adota a criança, mas ela também tem que adotá-lo”. Para Júnia, a dificuldade maior é lidar com o preconceito. Leonardo, seu filho mais velho, afirma: “Nem me lembro de que a Taynara é adotada. Para mim, ela é minha irmã de sangue, como o Felipe também é”.

Perante a lei, essa diferença realmente não existe. A advogada especialista em direito de família, Fabiana Coelho Simões, esclarece que algumas pessoas ainda confundem filhos de criação com filhos adotivos e explica: “Os filhos adotivos adquirem um novo registro de nascimento e possuem os mesmos direitos legais de um filho biológico. Já os filhos de criação não são registrados pelas famílias e não possuem direitos legítimos”.

Foi na porta de um ferro velho no centro de Belo Horizonte que a secretária Sandra Regina da Silva Andrade Machado, 45 anos, conheceu sua filha. “Quando completei 6 anos de casada comecei a tentar ter filhos biológicos, mas não conseguia engravidar”. Após três anos de tentativas por meio de inseminação artificial, Sandra começou a pensar na adoção. Pouco tempo depois, uma amiga lhe telefonou dizendo que sabia de uma moça que queria doar uma menina, filha de um morador de rua. Ligou para o marido, o psicólogo Rogério Alves Machado, e informou que estava indo para o local. “Quando me viu, a mãe nem esperou eu me apresentar e foi logo dizendo: ‘Toma, a menina é essa aqui’”.

Orientada sobre os procedimentos legais, Sandra sabia que teria de conseguir uma declaração da mãe de próprio punho, dizendo que abria mão da criança, juntamente com a cópia de seus documentos e assinatura de duas testemunhas. Só havia um problema: a moça não sabia escrever. No desespero, a secretária pensou rápido. Escreveu o texto em um papel e pacientemente aguardou que a mãe da criança copiasse palavra por palavra. Aos 40 anos, outra reviravolta em sua vida: milagrosamente ela estava grávida de seu primeiro filho, Felipe. Com cinco meses de gestação recebeu mais uma surpreendente notícia: “Haviam encontrado Kathleen. Ela já estava com 6 anos”. Kathleen era irmã de Karine e, anos antes, havia sido procurada por Sandra. Com tantos acontecimentos inesperados, o resultado foi um parto prematuro e a chegada de dois novos filhos. “Digo que em dois anos eu pari três”, brinca.

Por que não?
Suzana Gouvêa Simões, 57 anos, tem dois filhos adotivos: Carolina, hoje com 27 anos, e Bernardo, 20. “Quando eu e o Rui (Simões de Almeida, industriário, marido de Suzana) compramos uma casa em Ipatinga, sentimos que lá era o local ideal para termos filhos”, afirma Suzana. Mas um problema que os médicos não conseguiam identificar não permitia que ela engravidasse. “Fizemos todos os exames possíveis e todos davam ‘normal’.” Somente mais tarde descobriram incompatibilidade genética no casal. “Nunca havíamos pensado na hipótese de adoção, mas pela primeira vez pensei na possibilidade”, relembra a professora. Ela e o marido foram informados de que havia uma gestante que iria doar seu bebê assim que nascesse. Suzana parou para pensar e disse: “Por que não?”. O casal de meninos não reclama, pelo contrário. “Tenho uma família como qualquer outra”, diz Carolina. Bernardo concorda: “Não trocaria meus pais por outros”.
Não são somente famílias tradicionais compostas por pai e mãe como a de Sandra que podem adotar uma criança. Segundo a advogada Fabiana Coelho Simões, a família pós-moderna aceita vários estereótipos de candidatos, desde que sejam maiores de 18 anos e 16 anos mais velhos que o adotando. “Em geral, é feita uma análise no contexto econômico e principalmente moral do candidato a pai ou mãe, não importando se ele é solteiro ou casado”, explica.

Aproveitando a oportunidade, a pediatra Cláudia Valadares Meireles Martins da Costa, 50 anos, solteira, há cinco meses virou mãe. “A Ana Vitória chegou em novembro de 2010, com 3 anos e meio”. A médica assume a solteirice, diz que nunca pensou em casamento e muito menos em ter filhos. “Sempre viajei muito, curti, namorei e, com isso, o tempo foi passando. Até que, aos 47 anos, começou a bater aquela vontade de ser mãe, mas eu já estava na menopausa”. “A Ana foi o melhor presente de 50 anos que eu poderia ter”.

A turismóloga Liliane Rosa Gomes Afonso passou por situação diferente. Em seu caso, desde o início ela e o marido, o fotógrafo Oswaldo Afonso, tinham consciência de que não poderiam ter filhos biológicos. “A princípio, a única chance era fazermos inseminação artificial, mas não queríamos. E também nem cogitávamos adotar.” Liliane acabou mudando de ideia. “Começamos a nos preparar psicologicamente para ter um filho. Mudamos nossa rotina, nos transferimos para uma casa maior com muitas árvores no quintal e espalhamos a notícia para os familiares e amigos”. Liliane ainda não sabia, mas seu filho Aquiles, que hoje está com 7 anos, viria de longe, do interior de Minas. Na ocasião, tinha apenas 36 horas de vida. “Quando ele chegou, já tínhamos toda a infrainstrutura preparada para recebê-lo. Foi maravilhoso”. O filho, que ao contrário de sua família é negro, foi extremamente bem acolhido. “Sempre contamos a verdade. Temos muito respeito por sua história”.

Adotar não é um ato simples. A psicóloga judicial Mônica Gonçalves Fonseca Pinheiro explica: “O processo leva em média seis meses, desde a data em que o adotante se cadastra no Juizado da Infância e Juventude até o deferimento da adoção pelo juiz”, afirma. “E pode ser ainda mais demorado.” O tempo é usado na análise da documentação dos candidatados, na participação de palestras que orientam os candidatos a pais sobre o assunto, e na avaliação dos aspectos socioeconômicos e psicossociais dos pretendentes. Em seguida, o relatório é encaminhado à promotoria, que emite um parecer favorável ou não. A decisão final fica por conta do juiz. Todos esses procedimentos visam evitar traumas como a devolução infantil.

A professora Luciana Haas Leivas Laboissière, 35 anos, e seu marido, o eletricista Lúcio Laboissière, foram, de certo modo, surpreendidos com a chegada de Raiane. “Nós sempre cogitávamos a possibilidade de ter filhos adotivos, mas nunca levamos a ideia a sério”, lembra Luciana. Até que uma amiga indicou Raiane ao casal – Miguel, filho biológico deles, tinha na época 3 anos e meio. A menina, por sua vez, tinha 2 anos e meio e havia passado por experiências difíceis, como ter sofrido maus tratos quando bebê. A guarda provisória demorou sete meses para sair, mas o esforço valeu a pena, garante o casal. “É muito gratificante perceber melhoras em uma criança com histórico de problemas”, diz Luciana.


Postado Por Cintia Liana

sábado, 3 de julho de 2010

Como vai a família?

Foto: facebook

"Sou P., casado com B. e pai de G. que veio ao nosso encontro perto de completar 2 anos e hoje tem 4.

Entre a entrada dos documentos e chegada do meu filho foram 9 meses. Neste intervalo de tempo buscamos nos preparar, lendo muito, buscando preparar todos para a chegada dele e, se considero hoje a nossa história feliz, certamente foi por termos conhecido pessoas maravilhosas que não somente nos passaram a experiência que já tinham, como dividiram as dúvidas e dificuldades conosco.

Estou falando para que os que estão ainda somente habilitados. Curtam a paisagem que isso vai ser fundamental na chegada.

O periodo de adaptação dele, logo no inicio, foi difícil, mas estávamos preparados e amparados pelos amigos e em pouco mais de 1 mês, meu filho estava totalmente "em casa".

Hoje, após quase dois anos, parece que ele sempre esteve conosco e o amor entre nós todos é reciproco e contagiante."

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Quem assina é um pai muito feliz e realizado, um grande amigo meu. Com B. forma um lindo e jovem casal que conheci em 2008.

Por Cintia Liana

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mãe da Barriga, Mãe do Coração

Foto: Facebook

E-mail de uma mãe:

"Vc abriu o seu coração e agora vou abrir o meu.
Eu só entendi a maternidade depois que fui mãe. E fui mãe das duas formas.

Me perguntaram um dia desses se era a mesma coisa, um filho biológico de um adotivo. Eu dei a resposta padrão: “é claro”. Mas claro que não é. O processo da adoção trás emoções que nenhuma gravidez traria. Conhecer a criança, ir buscar, o primeiro dia, este amor, a biologia não explica.

A gravidez também traz emoções que a adoção não traz. O “se sentir normal”, ter um filho com a cara do marido, saber que você espera 9 meses e não tem fila, o mexer na barriga. Mas é só. A partir do momento que a criança chega nos braços fica tudo igual.

Quando leozinho veio para meus braços pela primeira vez foi tão emocionante quanto quando Isabelle veio pra meus braços. E a partir daí, eu sou mãe, sou responsável por aquela criatura, não importa de onde ela veio.

C., quando leio mensagens como a sua, eu me pergunto se estou agindo certo com o meu filho. Não sei se você sabe, tenho 2 filhos. O mais velho, Leozinho, adotivo, de quase 3 anos e a mais nova Isabelle, biológica de 3 meses. Não quero nunca que ele pense que não o amo de verdade, ou que amo mais a irmã. Comecei a refletir nestas coisas depois que uma amiga descobriu que era filha adotiva. Ela ficou tão revoltada, e eu não conseguia entender o motivo, porque ela era tão amada que nunca desconfiou e levou um susto quando soube. Mas só você e ela sabem dizer o que se passa dentro de vocês.

Não acredito em “o sangue fala”, se não pessoas boas não gerariam filhos bandidos, não acredito em “índole do pai bandido”, porque eu acredito que o amor e a educação mudam qualquer pessoa. Eu só quero é que meu filho nunca na vida dele duvide do meu amor por ele.

Quantas vezes chorei sozinha depois que disciplinei Leozinho? Quantas vezes achei que fui dura demais, ou orei pra Deus curar ele de alguma febre? E pedi a Deus pra ficar doente no lugar dele?

Eu me preocupo não porque espero qualquer tipo de gratidão, jamais, mas porque quero que ele curta a vida dele, com a cabeça sempre erguida, porque ele é um menino maravilhoso, carinhoso e vai ser um homem maravilhoso, eu tenho certeza. Não quero que ele fique sofrendo com algo que não é verdade. Eu o amo demais.

Então, se vc puder falar mais sobre este seu sentimento, vai me ajudar muito.

Só pra encerrar, depois de ter passado por uma gravidez recente, sabe qual é a única coisa que eu senti falta por não ter parido Leozinho? Senti falta dos 13 meses que meu filho esteve longe de mim (9 de gestação da biológica + 4 de nascido) que eu não sei como o trataram, se o alimentaram, se ele precisou de mim e eu não estive lá. Foi a única coisa que dei falta na minha “gestação” dele."

Bia

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"Eu sentia um chamado, sabia que ele me aguardava. A busca por meu filho foi além de tentativas de engravidar. Foi na adoção que o encontrei. E esta certeza incontestável, inclusive juridicamente, de que ele é meu filho, filho da minha alma, do meu coração, foi o que me inpulsionou a prosseguir na busca. Só mesmo o amor de uma mãe e de seu filho pode explicar os laços que os unem."

Bia Maia

Blog de Bia:
http://maedabarrigamaedocoracao.blogspot.com/

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O e-mail acima foi um dos mais lindos que já li.

Observação: O e-mail foi cedido por Bia, a autora, amiga e companheira de adoção.
Disse que eu poderia preservar os nomes dela e dos filhos e que poderia postar fotos deles. Neste post não usei fotos da família dela.

Obrigada sempre Bia, pelo carinho, confiança, amizade e parabéns pela linda mãe que você é, e teve o presente de o ser das duas formas.

Por Cintia Liana

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Adoção Tardia é Tudo de Bom!

Foto: Google Imagens

Uma cara amiga, que conheci nessa luta pelas crianças e pela adoção, nos cedeu sua história de adoção tardia, encontrou há pouco tempo sua filha de 12 anos.
Os nomes foram omitidos para preservar a identidade das pessoas envolvidas.
Quero parabenizá-la por toda sua maturidade e doação.
É para essas pessoas que temos que olhar e aprender, nessas pessoa que doam amor e que ao invés de alimentar o preconceito preferem pensar sobre possibilidades e transcender qualquer tipo de obstáculo, deixando prevalecer sempre o sentimento e o desejo de ter um filho. Para essas pessoas não existem barreiras.
Amiga, muita saúde para vocês e sua linda filha, que ela cresça em paz e se torne um adulto responsivo, responsável, diferenciado, feliz e que com certeza fará e já está fazendo outras pessoas muito felizes. Sei que com uma mãe como você “será tudo de bom”! Um abraço.


*Por uma mãe de verdade

Quem busca um filho busca a construção de um amor incondicional. E quanto mais idealizações forem construídas sobre a imagem desse filho, mais barreiras à satisfação haverá, ou seja, a idealização sobre o filho desejado limita as possibilidades de felicidade surpreendentes e espontâneas da vida. O que quero dizer é que, mesmo reconhecendo a naturalidade que há em se idealizar um filho, trabalhar nossas emoções para não tentar determinar como ele será abre um colorido leque de satisfação pessoal tanto nos pais quanto na criança. Um pouco de abnegação não faz mal a ninguém; pelo contrário, torna melhores as pessoas, e libertar-se do narcisismo ajuda a ser mais feliz.


Mas o que desejo, aqui, neste momento, é contar minha história de adoção.
Sou professora, tenho 34 anos de idade, e vivo uma relação conjugal muito boa há 12 anos. Eu e meu marido sempre gostamos de crianças e nosso desejo por filhos existiu desde o início do casamento, mas adiamos essa nossa felicidade por medo das dificuldades que enfrentaríamos como, por exemplo, falta de dinheiro para o sustento da criança e falta de tempo para nos dedicarmos à educação dela. Mas os anos se passaram tão rapidamente que, quando nos demos conta, já havia passado uma década de casamento. Nós continuávamos com dificuldades financeiras, porém já com um pouco mais de tempo livre. Decidimos, então, que eu tentaria engravidar. O bebê não veio. Fizemos exames, mas nenhum problema de infertilidade foi detectado. Mesmo assim, o bebê não veio. Não houve desespero por isso, até porque a ideia de adoção já era certa nos nossos planos mesmo se tivéssemos filho biológico.
Nós nos inscrevemos no Cadastro Nacional de Adoção, fomos nos informando sobre adoção através de literatura especializada e em grupos de apoio à adoção. Isso nos ajudou muito.
Decidimos que a idade da criança não deveria ser uma barreira para adoção, pois importaria que houvesse identificação entre nós e ela. Decidimos dar preferência para menina, pois ter uma filhinha já era um sonho antigo do meu marido. Mas a espera na “fila de adoção” é sempre angustiante. Em algumas comarcas, mesmo hoje sob a nova lei, a espera é muito demorada! Durante a espera, é comum que nos abata profunda tristeza. Parece uma gravidez sem fim e incerta.
É claro que os medos apareceram, medos diversos: pela idade da criança, pelo temperamento, pelas observações erradas que muitos fazem, pela aceitação da família, os preconceitos, os tabus, medo de ser infeliz, etc. Não nos permitíamos abater pelos medos, mas tivemos que conviver com eles até o dia em que decidimos adotar a nossa princesinha.
Viajamos mais de 2.000 km para conhecer nossa filhinha! Isso mesmo: mais de dois mil quilômetros. Tivemos essa indicação por meio de uma amiga muito querida que mantivera contato com a assistente social da comarca em que se encontrava nosso bebê de 12 anos.
Viajamos com a cara, a coragem, o amor e a fé. Prevaleceram o amor e a fé. Estamos muito felizes por isso!
Antes de chegarmos até a comarca, tivemos informações acerca da menina: 11 anos de idade (até então), magrinha, tímida, estava abrigada havia 3 anos aproximadamente e, a pior notícia, era vítima de abuso sexual. Depois, ainda soubemos que ela precisava fazer uso de antidepressivo. Claro, se um adulto faria uso desse tipo de medicamento, quanto mais uma criança naquela situação!
Ficamos temerosos principalmente por causa dos comentários preconceituosos de outrora que já povoavam nossas mentes. Mesmo assim, sabíamos que não seria certo desistir com base em ideias distorcidas de outras pessoas. Precisávamos entender o que Deus havia preparado para nós. Então viajamos.
Já no Fórum da cidade onde estava abrigada a nossa filha, nosso primeiro encontro foi especial, mas não houve sinos tocando, nem estrelinhas piscando, nem trombetas soando. Foi especial porque estavam ali pessoas que selariam destinos. Havia, na sala, uma criança frágil (já com 12 anos de idade), com mãozinhas geladas e tremidas e um semblante de profunda tristeza. O olhar triste e temeroso dela não dá para esquecer.
Se, para nós, aquela circunstância era difícil, para a menina era ainda pior. Isso é o que todos sempre deveriam lembrar. A criança é sempre mais frágil. É a criança quem mais sofre.
Saíamos os três todos os dias durante o período que estivemos lá. Conversávamos, passeávamos, e víamos nela uma menina normal, bastante meiga, inteligente, mas com falta de estímulos para aprendizagem e profunda carência afetiva. Víamos nela, também, as respostas positivas através do comportamento para as situações que provocávamos. Era uma criança sedenta por um referencial. Era o que precisávamos. Havíamos encontrado nossa filhinha!
Foi com lágrimas nos olhos e o coração aliviado que pedimos a guarda da nossa princesa de 12 anos.
Estamos muito felizes que a decisão foi tomada com base no amor e na fé.
Nossa filha não precisa mais dos antidepressivos, pois vive feliz e sorridente; ela não tem mais o semblante triste; já nos abraça e nos enche de beijinhos; corresponde aos nossos carinhos com desenvoltura e se relaciona muito bem com as pessoas; aprendeu muitas coisas e gosta de tudo que ensinamos. Alimenta-se bem, dorme bem, brinca bastante. Ela ficou mais bonita, mais educada, engordou mais de 4 quilos em apenas 1 mês. É muito meiga! O passado triste está se distanciando dela bem depressa.
Nós, os pais, sentimo-nos tão plenos e tão realizados que parece um sonho! As dificuldades que passamos são mínimas e as felicidades são imensas. A adaptação dela à nova vida foi mais simples do que imaginávamos.
Sentimos como se ela sempre estivera conosco, não conseguimos imaginar nossas vidas sem ela. Não nos fazem falta as fraldas que não trocamos, pois nos preenche totalmente o amor do hoje, do agora. A voz dela é música para meus ouvidos, a risadinha dela alegra a minha alma, o cheirinho dela me faz bem, vê-la dormindo tão serena é a mais doce visão. É minha filha, minha princesa meu bebê, e assim será pelo futuro. É alta, tem quase a minha altura, mas é meu meigo bebê, meu amorzinho, minha flor. O presente e o futuro são nossos, o passado não atrapalha nossa alegria.
Só há um adjetivo para resumir a experiência pela qual estamos passando: sublime.
Adoção tardia é tudo de bom! É preciso que o amor vença o medo ainda no coração de muitas pessoas.

Obrigada, meu Deus, pela vida dela em minha vida!

*C. S.


Foto: Google Imagens


Por Cintia Liana

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Descobrindo que é adotado

Foto: Google Imagens

"Descobri que sou adotado"
(Matéria da revista enfoque - Por Nilza Valéria)


Berenice Silveira viu seu mundo desmontar quando tinha 12 anos. Sentada junto com primos e colegas na porta de casa, em Porto Velho, a conversa girava em torno das semelhanças que cada um tinha com seus pais. “Tenho o cabelo da minha mãe”, disse uma. Meu pé é igual ao do meu pai”, afirmou outro. Na vez de Berenice, depois de um silêncio, ela disse que seu jeito de andar era igual ao da mãe. Aí alguém retrucou: “Você pode ter aprendido a andar como ela, mas você não é filha dela.”

Até hoje, mais de 15 anos depois, Berenice não sabe quem falou aquilo. Possivelmente, uma prima mais velha. Mas foi como se abrisse um grande buraco e ela caísse dentro. “Aquela frase respondia tudo. Era a resposta perfeita para tudo o que eu sentia. Eu sabia que havia alguma coisa diferente comigo, mas não sabia o que era”, lembra. Hoje, com 28 anos, a advogada Berenice superou o trauma de ter descoberto ser filha adotiva numa brincadeira. “Não foi fácil. Dos 12 aos 16 anos, exigi dos meus pais uma explicação, queria saber de onde tinha vindo, por que eles tinham me escolhido e por que me esconderam a minha história.” A mãe de Berenice afirmou, e ainda afirma, que jamais contaria a verdade se a filha não tivesse descoberto: “Ela é minha filha e isso é tudo o que importa. Que diferença faz se sou loura e ela morena? Eu a amo e ponto final.” Berenice sabe que é amada. “Eles, meus pais, são a coisa mais importante da minha vida. Nunca duvidei de que era amada. Fui uma criança com uma infância feliz. Apenas notava que as diferenças físicas eram grandes e isso gerava uma inquietação. Quando parentes vinham nos visitar havia muito sussurro em casa, olhavam para mim e falavam baixo, como se houvesse segredos.”

ACERTANDO AS CONTAS COM O PASSADO

De acordo com a psicopedagoga Mirta Videla, é direito de toda criança conhecer a verdade acerca de sua origem. “Esta verdade pertence à criança tanto quanto a sua própria vida. Quando se adota uma criança, começa uma outra história, a partir de sua chegada. Mas, antes disso, a criança teve uma pré-história, de sangue, de recém-nascida em outros braços, de cultura, de parentesco. As razões pelas quais ela perdeu tudo isso podem ser de diferentes ordens, mas ninguém pode negar-lhe o direito de estar informada a respeito.”

Analisando o caso de Berenice e de tantos outros que sua vivência profissional já a fez ter contato, Mirta afirma que o sentimento de vazio, de diferença até os 12 anos de Berenice foi gerado pelos segredos familiares, que provocam um clima de tensão permanente. “A criança que percebe algo oculto, misterioso e proibido, não se atreve a perguntar. E ela fica se sentindo como protagonista de um quebra-cabeça que nunca consegue montar, porque faltam peças que estão ‘nas mãos dos outros’, os pais adotivos.”

POR QUE NÃO NASCI DE SUA BARRIGA?

Salvador de Rossi Anhaia, 23 anos, também foi adotado. E sempre soube disso. “Mesmo antes de eu entender, minha mãe falava que eu era adotado. Nunca fui tratado diferentemente e não entrei em crise por isso.” Quando chegou, recém-nascido, o casal já tinha três filhas naturais. “Meus pais desejavam um menino e não queriam tentar mais. Falo para todo mundo com muito orgulho da minha família.”

Karina Souza, 25 anos, foi adotada com menos de 1 mês de idade. Apesar da diferença racial – é negra, e os pais brancos –, diz nunca ter ficado em crise por ser adotiva, apesar de os pais só terem conversado com ela quando tinha 11 anos. “Quando me falaram, eu já sabia, e ia ficar mal por quê? Eles me deram tudo.” A mãe adotiva se colocou à disposição para apresentar a mãe biológica, caso Karina quisesse conhecê-la. “Nunca tive curiosidade. Eu amo a minha família.”

Salvador Anhaia diz que em alguns momentos sente curiosidade de conhecer a família biológica, mas não tem motivação para procurá-la “Imagino que eles não deviam ter condições de me criar. Às vezes, queria saber se tenho irmãos, mas nada que me faça virar o mundo para achá-los.” Com a mãe adotiva cristã, Salvador reconhece que Deus sabia que ele tinha de ser filho de quem é. “Havia um casal na fila de adoção antes dos meus pais. Eles ficaram comigo por um dia e depois fui levado para a minha família. Deus já sabia de quem eu devia ser filho.” Nem mesmo a separação dos pais, quando tinha 13 anos, abalou o orgulho de pertencer à família que o adotou. “Nunca me senti rejeitado. Eu sofri como sofre qualquer menino quando o pai sai de casa.”

Eduardo Lemos teve curiosidade. E muita. Apesar de saber da adoção desde os 4 anos de idade, quando completou 17 decidiu que queria encontrar a mãe, saber se tinha irmãos, queria entender sua história. “Meus pais não conseguiam entender por que eu estava fazendo aquilo. Eles achavam que o amor e tudo que me davam deveria ser suficiente para eu ser feliz. Só que pirei em saber que minha mãe de sangue me abandonou. Passei a beber, a me meter em encrenca.” Quando Lemos descobriu que a mãe biológica morreu de cirrose e quase foi enterrada como indigente, decidiu que sua história era outra. “Foi lendo o documento de óbito da minha mãe, onde se registrava que não deixou filhos, que me dei conta de que ser filho do coração foi o caminho que Deus usou para me salvar.” Dona Graça, a mãe adotiva de Eduardo, diz que sempre contou ao filho que o amor é o mais importante. “Eu dizia a ele do grande amor de Deus, que nos tornou Seus filhos, por adoção. Hoje ele entende plenamente isso. Tanto do nosso amor e principalmente do amor de Deus.”

NA REVOLTA

Gustavo foi adotado com 6 anos. E dois anos depois, devolvido à instituição. Os pais adotivos alegaram problemas financeiros. Aos 8 anos, uma nova adoção. “Você acha que é fácil saber que fui abandonado?”, indaga. Com 15 anos, ainda teme que a família adotiva não seja para sempre. “Não dá para saber até quando vão ficar comigo. Há uns parentes que acham que posso ser mau porque imaginam que meu pai biológico pode ser um cara mau. Tem uma irmã da minha mãe que tem medo que eu roube a bolsa dela. É muito esquisito. Até na igreja existe gente que acha que meus pais me fizeram um favor.”

Para Raniere Pontes, presbiteriano, que abandonou o curso de Teologia para se dedicar à promoção de direitos da criança e do adolescente, é latente, no caso de Gustavo, o sentimento de soltura que o impede de criar vínculos profundos. “O adotado também precisa aceitar a família que o adotou. E como na relação com Deus, em que nos tornamos filhos dEle por adoção, por meio de Cristo, temos de aceitar isso”, ensina Raniere, assessor de operações da ONG Visão Mundial.

Karina é jornalista. Quando estava na faculdade levou um grupo de amigas, com quem já convivia há meses, para assistir a um filme em casa. Dentro do carro, a caminho do bairro onde morava, no subúrbio do Rio, fez a revelação: “Preciso dizer para vocês que sou adotada, por isso, não estranhem por eu ser negra e meus pais brancos.” A revelação foi feita como quem conta o que comeu no jantar. “Era tão normal e tão natural para ela ser filha adotiva, ou ser filha, que ela quis evitar nosso constrangimento. Em todo período do curso de Jornalismo, ela fez uma ou duas menções sobre a adoção e muitas sobre a família. O quanto a mãe ‘pegava no pé’, o quanto exigia, o quanto era desconfiada com namorados. Foi legal perceber o quanto a mãe dela era igual à minha mãe”, afirma Ione Souza, casada, dois filhos e na fila de adoção, em São Paulo.





Por Cintia Liana