"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sábado, 25 de abril de 2015

Neuróticos normais, como nós

We heart it

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Guia Indika Bem, dia 23 de abril e 2015.

Freud disse que “de perto ninguém é normal” e que todos nós somos neuróticos. O conceito de normalidade é arbitrário. Não existe normalidade. O que pode ser normal para uns, pode parecer anormal para outros e vice e versa. No livro a “Nau dos loucos” Foucault transcorre sobre a história da loucura e discute o conceito de normalidade na sociedade.

Por que todos nós somos neuróticos? Existem três tipos de estruturas psíquicas na relação com o outro, com o externo: uma é a neurótica, na qual o indivíduo vê o outro como superior; a psicopática, na qual o indivíduio vê o outro como inferior e a psicótica, na qual o outro não existe. A estrutura mais fáci de se encontrar é a neurótica, em que o sujeito acredita, bem lá no fundo, mesmo que esconda de si mesmo, que ele não está à altura do que vê, ele desconfia que o outro queira desvalorizá-lo, que não é valorizado como deveria, que não é competente como poderia, se sente rejeitado em muitas situações, pensa que os outros são melhores ou querem derrubá-lo. No processo de amadurecimento na vida, temos que trabalhar esses fantasmas criados durante o desenvolvimento infantil em sociedade buscando o nosso senso interno de valor.

Algumas pessoas têm uma autoestima mais elevada que outras, mas nesse caso vai depender da história de vida, do grau de maturidade do pais, dos reforços positivos, dos traumas vividos, da capacidade de resiliência da cada uma, do temperamento, dos eventos da vida e de tantas outras variáveis.

No contato com o outro é importante lembrar que os neuróticos se sentem como nós, precisam de atenção, não querem se sentir desvalorizados. Lembre-se de que enquanto vocês se sente desvalorizado o outro também pode sentir exatamente o mesmo ou pior que você, então seja forte e busque ser maduro e assim quem está interagindo com você não se sentirá ameaçado, ou contrário, se sentirá seguro para se abrir. Acontecem tantos desentendimentos porque duas pessoas se sentiram ameaçadas… Quando nada de fato aconteceu de negativo e quando nenhuma das duas quis amedrontar.

Imaginem a cena de dois cachorrinhos que se encontram e um fica com medo da reação do outro. O ser humano é assim nas relações, quando se encontram eclodem todas as defesas e medos. Todas as pessoas têm as suas feridas emocionais, os seus dilemas e as suas dores e isso não faz de ninguém desequilibrado, ao contrário, isso é ser humano. Eu costumo dizer que uma pessoa madura não é aquela que tem suas dúvidas, limitações, medos, mas é aquela que procura ver e aceitar essas limitações, almejando crescer. É humilde, sábia e corajosa o suficiente para ter vontade, buscar e fazer terapia com empenho, que enfrenta a si mesma, que reconhece as suas emoções e é capaz de demonstrá-las com dignidade  e de falar sobre elas. É uma pessoa que aprende a aceitar-se e a amar-se  e assim aprende a aceitar e a amar os outros por aquilo que são. Já uma pessoa infantil, insegura e imatura é muito crítica, competitiva, rebelde, controladora, preconceituosa e invejosa. Acha que sabe tudo, não sabe escutar e nem valorizar ou aceitar o outro, porque não consegue valorizar a si mesma.
Uma que não consegue olhar e tocar a alma do outro è porque ainda não conseguiu olhar e tocar a sua própria alma. O caminho para ter amor ao próximo de verdade é antes de tudo aprender a amar, ser tolerante, generoso, sensível e verdadeiro consigo mesmo.

Como disse Carl Gustav Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. Para ser feliz é preciso despertar.

Por Cintia Liana Reis de Silva

Fonte: http://indikabem.com.br/comportamento/neuroticos-normais-como-nos

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A relação com os filhos depende da relação com os pais

Cintia Liana

Sobre o final belo do texto abaixo, "Orfandade Silenciosa" (Post anterior), da minha xará Cintia, tenho a adicionar, como profissional da mente humana, que nada mais é mais potente que o autoconhecimento.

Para travar uma relação de afeto com nossos filhos devemos nos reconciliar antes de tudo com a figura internalizada dos nossos pais, com a nossa criança ferida, com a imagem interna e regredida que temos das nossas figuras de base. Esse é o único caminho da transformação de nossas relações, afinal nós somos o produto do tipo de relação que tivemos com nossos pais nos primeiros anos de vida, num meio que é foco de neuroses para todos nós seres humanos que é a família, isso já é científico há muito tempo. E que estamos fortemente propensos e repetir os meeeeesmos erros dos nossos genitores também é fato, Bowlby já provou há muito tempo e o único jeito de mudar isso é fazendo um trabalho psicoterapêutico, nada adianta forçar de fora pra dentro, o trabalho é de dentro pra fora.

Acredito que muitos homens e mulheres não conseguem procriar porque têm muito medo do desconhecido que mora dentro deles, do que trazem da relação mal resolvida com seus pais. Como diz Bowlby, é na hora de tornar-se genitor que abrem-se feridas intergeracionais e como dar o que não se teve? Na hora de gerar, o CORPO também pode reagir e se perguntar, como posso ser mãe se não "aceito" e não sei lidar com a mãe que tenho? Com a minha mãe internalizada, se tenho conflito com o modelo de mãe que tenho? Muitas mulheres conseguem gerar depois que iniciam suas terapias, algumas também depois de provarem ser mães através da adoção.

Todos nós precisamos de terapia, afinal nenhuma família é perfeita. Vamos lá, coragem, força, por amor aos nossos filhos, por amor a nós mesmos e para descobrirmos um amor maior ainda que podemos sentir pelos nossos pais.

Cintia Liana

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Atitude adotiva: pai e mãe de verdade

Google Imagens

Publicado em 15.02.2012, à 16h16


Por Guilherme Lima Moura

É comum ouvirmos por aí expressões do tipo “Não é seu pai (ou mãe) verdadeiro”, numa referência à filiação adotiva. Estimulados por afirmativas como esta, colocamo-nos em atitude reflexiva sobre a verdade da paternidade e da maternidade. Onde estará tal verdade? Em que consistirá uma mãe ou um pai de mentira? Tais questionamentos nos fizeram recordar um episódio que vivemos.

Há algum tempo eu estava com um dos meus filhos caminhando na praia quando encontramos com um de seus amiguinhos. Na ocasião, ambos estavam com seis anos. Após o início de uma breve conversa, enquanto brincávamos na areia, o menino saiu-se com esta: “Meu pai nunca me visita!”. Ante o inesperado da revelação, pude notar na sua espontânea expressão de tristeza o efeito devastador da inexistência paterna na vida de uma criança.

Não que ele − o dito “pai verdadeiro” − seja desconhecido, não esteja mais “entre nós” ou resida em lugar incerto e não sabido. Nada disso. Ele existe, sim. Tal existência, porém, é apenas a do indivíduo. No máximo, a do responsável financeiro. A palavra “pai”, no caso em questão (como em tantos outros), é usada em substituição a “genitor”, ou seja, o provedor do material genético necessário à gestação de outro indivíduo.

Pai de verdade?

Como esclarece o psicólogo e querido amigo da adoção Luiz Schettini, “a filiação é uma experiência ética, não genética”. Acostumamo-nos a chamar de pai ou mãe aqueles que, embora tenham nos premiado com a existência física, não puderam nos oferecer a coexistência afetiva. São indivíduos que geraram outros indivíduos. Permitiram a vivência, mas não proporcionaram a convivência. Aquela é o ponto de partida biológico, a produção de um potencial humano que só chega a realizar-se nesta, o espaço relacional e afetivo em que se desenvolve.

Na vida do coleguinha do meu filho, existe um genitor, mas não existe um pai. Embora às vezes confundamos um com o outro, as crianças vivem dramaticamente essa diferença. Naquele momento, ele se sentiu provocado pela presença do meu filho que ali se encontrava agarrado com o pai, sem entender porque ele próprio também não podia ter ao seu lado a presença paterna tão desejada.

“Onde estará meu pai?”, indagava-se intimamente mais uma vez o menino infeliz. “Mas por que não me ama?! O que eu fiz de errado?!”, concluía novamente cheio de tristeza e, certamente, de uma culpa que não lhe pertence.

Alheio aos vínculos biológicos que inexistem entre meu filho e eu, enxergou com clareza que entre nós dois a filiação era viva e verdadeira porque estabelecida em profundo afeto. Isso o que lhe importava. Isso o que lhe faltava.

Pai de verdade!

O garoto, cujo relato nunca esquecerei, é mais uma criança que vive o pior tipo de orfandade: a que surge na expectativa frustrada de um potencial de pai que, embora exista sempre, não chega a se realizar nunca. Que surge no contrário do amor: o abandono afetivo.

Estará a verdade da paternidade e da maternidade, então, no laço biológico? Ela ocorre simplesmente (e necessariamente) no encontro de amorosidade entre aqueles que decidem tornarem-se pais e filhos uns dos outros, havendo ou não o vínculo genético. Ela ocorre na ADOÇÃO.

Mentira? Verdade! Qualquer criança sabe disso.



Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dimensões Familiares e Causalidade Circular

Beneath this Burning Shoreline

Por Cintia Liana Reis de Silva

Dimensões que cada família tem, que podem ser avaliadas na terapia familiar com instrumentos específicos de mensuração. *Hoje pesquisei 8 tipos de dimensões, de 8 autores diferentes.
Vejam abaixo quantas nuances guardam a família e suas relações:

Estrutura de poder
Grau de indiduação familiar
Capacidade de aceitar separação e perdas
Percepção da realidade, afeto
Conflito verbal e físico
Coesão e adaptabilidade
Capacidade de “Problem Solving” (resolução de problemas)
Organização e atmosfera emotiva
Comunicação
“Probelm Solving” (Resolução de problemas)
Papéis
Reponsividade afetiva
Co-envolvimento
Controle do comportamento
Relação, crescimento pessoal
Manutenção do sistema
Realização das funções familiares
Performance dos papéis
Comunição, expressão dos afetos
Valores e normas
Co-envolvimento emotivo familiar e críticas percebidas

*Referência:
Barow, W. James. Dare un senso alla diagnosi. Milano: Raffaello Cortina Editore, 2005.
Uma das teorias da terapia familiar:

*"Causalidade Circular"
A relação é feita de duas pessoas. Quando um filho tem um problema nunca este problema é isolado, normalmente envolve a responsabilidade dos pais e isso não e trata de culpabilizar nenhuma das partes.

Exemplo: A mãe é muito apreensiva porque a filha de 30 anos é irresponsável, a filha de 30 anos é irresponsável porque a mãe é muito apreensiva.

Se uma das duas muda o comportamento a outra muda também, por mais que o sistema insista em se manter o mesmo, mesmo que num padrão adoecido. Com a mudança de uma das partes o sistema familiar tenta se reequilibrar dentro de outro funcionamento, o importante é buscar um relacionamento saudável e respeitoso, onde todos possam ser adultos sem manipulações.

A filha entra em colisão com a sua mãe - numa tentativa de romper com o padrão que pode ter sido herdado de outras gerações, o que chamamos de padrão transgeracional - fazendo um divórcio emocional, tentando se diferenciar, ganhar espaço para amadurecer. A filha entra em crise emocional, adoece psicologicamente mas, posteriormente, se recupera e adquire uma autonomia do pensar, no sentir e agir por si mesma, como um adulto responsivo.

O que a mãe pensava que seria ruim e que a afastaria da filha só serviu para fazer da filha mais forte e responsavel diante de sua própria vida. A mãe tem que deixar a filha crescer e esta segunda tem que querer crescer.

*Meus ensaios de Terapia Famíliar para o "Psicologia e Adoção"

Por Cintia Liana

sábado, 13 de novembro de 2010

Momento de Verdade

Foto: Google Imagens

Por Priscila Gorzoni
Fonte: Revista Baby & Cia, ed. 20.

Existem questões que sempre deixam os pais inseguros, uma delas é sobre a hora de contar ao filho que ele é adotado. Nesse instante, é preciso estar atento à idade da criança e à maneira de comunicar o fato. O momento ideal para explicar com mais detalhes é quando a criança pergunta e já tem condições de entender melhor. "À medida que ela vai crescendo, faz-se necessário que tenha a resposta à altura de sua pergunta. Algumas vezes, quando mais velha, pode ser que ela queira, inclusive, conhecer a mãe biológica. É importante não impedir, pois ela carrega uma fantasia que precisa ser desvendada, revelada e discernida com muito diálogo e sabedoria. Para isso, deve-se ir ao fórum em que aconteceu a adoção com o número do processo e marcar uma conversa com a assistente social e a psicóloga", exemplifica Rose Santiago, diretora do Centro de Reestruturação para a Vida (CERVI), que trabalhou seis anos com adoção internacional.

Portanto, cada situação irá pedir um determinado comportamento dos pais. Se a criança for adotada, ainda bebê ou muito pequena, os pais devem sempre comentar que ela é filha do "coração" e que foi "escolhida" por eles. "Isso fará com que a criança ‘compreenda' a sua situação, e um canal aberto seja feito para a explicação da adoção", aconselha Lúcia Londres, psicóloga com formação em Psicodrama.

Com relação ao tempo certo de comunicar a adoção, tenha em mente que ele acontecerá quando a criança demonstrar interesse de saber. Segundo a psicóloga, o tema deve ser tratado o mais natural e afetuosamente possível. "Afinal, hoje em dia, a adoção é um assunto amplamente divulgado e estimulado."

Esconder é pior

Muitas vezes, os pais se sentem incomodados de tocar no assunto. Não sabem quando dizer e nem como fazer isso. Nesse momento, é aconselhável procurar uma ajuda especializada que facilitará o esclarecimento e saberá como conduzir o caso. Se a criança for adotada, a verdade sempre deve ser dita, em qualquer idade e a qualquer momento. "O que deve ser visto e cuidado é a forma de falar, levando-se em conta a idade da criança e seu entendimento. Deve-se sempre deixar claro à criança que ela pode e deve perguntar tudo para não ocasionar desconfianças na relação", explica Lúcia.

Em muitos casos, esconder o fato pode resultar em problemas futuros. "Conheci um casal que tentou esconder a adoção. Quando adolescente, o filho descobriu em uma briga na escola. A revolta chegou a um extremo tão grande que ele passou a agredir os professores e a tentar matar a mãe, e ter de ir a uma casa de recuperação. Lá, ele tornou-se dependente de drogas, e a adoção teve de ser cancelada, pois a família toda foi colocada em risco", esclarece Santiago.

Quando atuou por seis anos com adoção internacional, a diretora se deparou com várias dificuldades, começando pelas leis. Entretanto, nem mesmo a diferença da língua foi obstáculo para que a adoção não desse certo. "O esforço, a determinação e a garra dos pais adotivos fizeram com que a adoção se tornasse mais do que um sonho realizado - foi a certeza de algo concreto. Em contrapartida, a vontade da criança de ter pais que a amassem e as necessidades de ser aceita e pertencer a alguém fizeram com que ela ‘apostasse' na confiança", conta Santiago. Mais uma vez, comprova-se que o importante é a relação de afeto e confiança entre pais e filhos. Isso determinará que qualquer situação seja resolvida sem maiores conflitos e danos.

Dicas para uma boa relação entre pais e filhos adotados:

As consultoras Cláudia Razuk, pedagoga e coordenadora do Colégio Itatiaia, e Antoniele Fagundes, consultora familiar e idealizadora da empresa Babá Ideal, dão as dicas abaixo:

- Quanto mais cedo dizer que a criança é adotada, melhor, pois, ao demorar muito para saber a verdade, a criança pode se sentir enganada.

- Essa comunicação deve ser feita adequando as explicações à idade da criança e utilizando termos que ela entenda. Crianças bem pequenas (de 3 anos) costumam aceitar muito bem a informação, até mesmo, de maneira bem simples. Conforme forem assimilando a informação, com certeza, elas voltarão com outros questionamentos que deverão sempre ser respondidos com honestidade e naturalidade.

- O maior erro é os pais tratarem o assunto como se fosse um problema que, na realidade, não é. O comportamento da criança vai refletir no dos adultos.

- O momento ideal é sempre o mais cedo possível e quando a criança demonstrar curiosidade nas ocasiões em que ela começar a perguntar como nasceu. Desde o primeiro momento, é importante falar a verdade, sempre com naturalidade.

- A criança sempre tem o direito de saber a verdade sobre sua origem. Se os pais acharem que eles próprios não estão prontos para lidar com essa verdade, devem procurar ajuda o mais rápido possível para se prepararem para essa situação. Quanto menor a criança for ao saber a verdade, mais fácil será para ela entender. O importante é os pais deixarem sempre claro o quanto a amam e como essa opção foi importante para a felicidade de todos.

- O certo é conversar desde o começo. A sinceridade deve estar presente em todas as relações, principalmente nas familiares. O que deve mudar é a forma da abordagem, ou seja, como conversar. Exemplo: quando o filho é adotado ainda bebê, deve-se proceder exatamente da mesma forma, mas explicar cuidadosamente, de uma forma que a criança entenda aos poucos.



Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Adotar crianças maiores é mais difícil?

Foto: Getty Images

A relação com os pais adotivos será tão importante para a formação do caráter quanto o que aconteceu no passado difícil da criança, observo que até mais, pois estes é que irão conduzir a relação que esta criança terá com esse passado, a relação com o presente e a auxiliará no seu futuro.
Cintia Liana


Pais e futuros pais, fiquem atentos! Ao invés de viverem numa ansiedade infinita tentando entender até que ponto uma criança maior trás ou não traumas do seu passado e do abrigo e os vive na família, pensem antes de tudo em amadurecer, em trabalhar seus medos e dúvidas porque, em minha experiência, vejo que a base que os pais adotivos darão ao filho é mais forte que tudo.

Um filho com problemas é alguém que depende de seres humanos, de pais adotivos, que possivelmente não estão sendo capazes de lhe dar uma base suportiva eficaz, suficiente para dar conta de suas inseguranças, assim também acontece na paternidade biológica.
A criança pode vir com uma gama de problemas enormes da instituição e ser altamente otimista e resiliente mas, mesmo que não seja assim, e reaja com violência, se ela encontrar futuros pais preparados tudo será mudado.

Em meu trabalho posso perceber que a responsabilidade dos pais adotivos é imensa, pois as crianças esperam deles a base, a segurança que terão para se expressar, se fortalecer e crescer.

Adotar uma criança maior não é mais difícil, ao contrário, pode ser muito tranquilo, ela já vem sabendo de muitas coisas e com o desejo consciente de se tornar filho. Se ela tiver algum problema depois porque tem que ser atribuído a adoção? Toda criança, em algum momento, tem problemas de comportamento, de obediência, dificuldade com autoridade a depender do momento e da forma que lhe é colocada, mas se é adotiva é somente por conta disso?
Já ouvi de uma professora infantil que a única criança adotada na escola era muito carente, pegajosa e desobediente e que ela achava que era por "culpa" da adoção. Daí eu perguntei se esta criança era a única com problemas de comportamento na escola, se havia outras com comportamento parecido e ela falou que sim, com comportamento até pior, então perguntei: e se estas não são adotivas, era por responsabilidade de quê o problema de comportamento? Ela não soube me responder. No final, concordou que estava "culpando" a adoção por tudo.

Engraçado que quando um adolescente, filho biológico, apresenta problemas com drogas, é algo normal, mas se um adolescente, filho adotivo, tem o mesmo problema a "culpa" é da adoção. 
Entendo que há uma série de fatores na vida que nos levam a seguir caminhos, é uma dilética eterna entre o meio e a nossa personalidade, temperamento, caráter, livre arbítrio, oportunidades, mas a relação com os pais é fundamentalíssima neste processo, sejam eles adotivos ou biológicos.
Suzane Richthofen não era filha adotiva, mas se o fosse todos diriam que fez tudo aquilo por ser filha adotiva, por não ser "filha de verdade". Interessante foi que ninguém tentou entender como essa criatura foi criada pelos pais, como foi educada, encaminhada para a vida e para as relações. As pessoas só querem culpar e não entender para crescer.

A nossa cultura ainda é respaldada no paradigma da simplicidade e que vem acompanhada do preconceito. Não devemos ter medo de pensar, complicar, descomplicar, perguntar, conversar, ler, estudar, temos que entender o processo das coisas e não errar por preguiça ou medo do saber. Lembrem também que exsite terapia. 
Quero dizer que não adianta culpar a adoção ou a inexistência de laços biológicos, no final das contas o ser humano é uma soma do que vemos e do invisível, a subjetividade é infinita, mas a relação com os pais adotivos irá seguramente ser crucial na vida do adotado, as mensagens subliminares, entendimentos subliminares, além do desejo próprio de cada pessoa.
Em todo caso, o adotante é que passará a conduzir toda a relação que a criança terá com seu passado, que tem com o presente e que terá com seu futuro e isso é mais forte que tudo.


Por Cintia Liana

domingo, 7 de março de 2010

Politicamente Honesta [Em Português]

Foto: Cintia Liana com 9 meses

Por vezes me sinto um tanto ingênua por não saber fazer lobi. Há algum tempo comecei a desconfiar que perco muito por não conseguir simular que está tudo bem ao lado de alguma injustiça, falsidade ou preconceito.
Quando gosto de alguém me entrego a amizade, não importa a religião, nível social, cultural ou econômico, o que faz às vezes me decepcionar, pois nem todos sabem valorizar alguém simples, verdadeiro e espontâneo.
Fui criada ouvindo que é belíssimo ser sincero, e que é sinal e inteligência saber dizer o que sente e, neste sentido, cresci desejando ser bela e inteligente. Mas será que ainda sou infantil? Porque não sei ser hipócrita.
Não sou uma pessoa que se deixa levar somente pelo ímpeto emocional, sei colocar a razão a frente de tudo quando é necessário, mas se não concordo digo, se não gosto me afasto, se erro assumo, se estou triste demonstro, se estou ferida choro. Não consigo fazer vista grossa para algo desumano para conseguir o apoio de alguém, desta forma me sentiria vendida, pequena, pobre, não conseguiria me olhar no espelho, encarar meus próprios olhos.
Apesar de entender exatamente o significado de ser politicamente correto, não tenho a pretenção de ser-lo e nem tampouco de fazer a "boa moça", mas preservo a gana de ser justa, digna, nobre e honesta, mesmo que para isso eu tenha que perder alguma coisa, por que algo lá no fundo diz que tem um sentimento maior que move todas as coisas e acho que esse sentimento se chama amor.
Fazendo uso de metáfora, se depender de hipocrisia e conchavos meu programa sai do ar, viro as costas para os aplausos e vou a falência total, por que não me contento com dinheiro e imagem e muito menos sei conviver com o vazio da aparência.
Talvez seja por isso que me dou tão bem, entendo e gosto tanto de crianças.
Por Cintia Liana
["Sempre que quiser usar o texto de alguém, cite o autor. Respeite a obra alheia."]


Foto: Cintia Liana

Felizmente encontro pessoas maravilhosas nesta vida e, aproveitando, resolvi postar aqui um e-mail de uma ex-aluna minha da IBES, que me deu um feedback que me emocionou muito. Na verdade não sendo injusta com outros tão lindos e afetuosos como esse, mas como não posso postar todos de uma vez vou começar devagarzinho, afinal não quero guardar só para mim palavras tão belas e que confirmam que estou no caminho certo, quando distribuo amor por onde eu passo além, é claro, de saber brigar quando é preciso. rsrs

"Quero que saiba que sua presença marcou a vida de muitos alunos na IBES. Prova disso é que mesmo no 3º semestre vários alunos ainda comentam sobre você com outros alunos e dizem: "Professora boa era Cintia", ou então: "Você não conheceu Cintia....? Ali era professora de verdade."
Por algum motivo, mesmo quando não conhecemos alguém no convívio diário, algumas pessoas nos marcam de forma misteriosa (rsrsrsr) e nos deixam lições, impressões, não sei bem explicar..."

"Pode colocar o texto sim. Acho que também será uma forma de nós, que fomos seus alunos, sabermos que você tem conhecimento do quanto é especial.
Particularmente creio que existe uma razão especial para conhecermos cada pessoa nesta vida e, você, tem uma característica que eu acho fascinante: meiguice (em tempo integral, até quando quer parecer brava rsrsrsrsrs). Acho lindas as pessoas com jeito doce, suavidade nos gestos. Para você, minha sempre pró, deixo ainda algumas das bem aventuranças (as que tem tudo a ver com você !!!!).

Bem-aventurados os mansos (brandos), porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

Bem aventurada sou eu, pois tive a grande oportunidade de conviver com você (mesmo que só um pouco).

Bjão."

Priscila Moura de Souza

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Pri, como te falei antes, você realmente me emocionou com tuas palavras tão delicadas e saiba que te vejo assim também, tão delicada e meiga como você me vê. rsrs Seguramente essa semana estávamos muito conectadas mentalmente.

Vocês, meus queridos alunos, são e sempre serão muito especiais. Aprendi e aprendo demais com todos. Sinto-me afortudamente feliz por receber tanto carinho.

Obrigada!

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Loby, ou em Português Lobi: uma palavra muito utilizada em Portugal, mas que em muitos outros Países assume um significado muito diferente. Em Portugal esta palavra significa a utilização do poder econômico para pressionar o poder político, prática de tráfico de influências ou até mesmo corrupção activa.

No entanto, na maioria dos nosso restantes parceiros da União Europeia, onde as democracias são mais maduras, esta palavra assume outros significados. O Lóbi é encarado como "...uma actividade de pressão para influenciar decisões importantes tomadas pelo poder público..." (Marketing e Comunicação Política, 2009, pp.84). É considerada uma ferramenta indispensável da vida em Democracia.

Fonte da palavra Lobi: http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2009/09/o-que-e-um-loby-ou-em-portugues-lobi.html

Por Cintia Liana

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Relação de apego e auto-estima de crianças abrigada

Foto: Capturada do Blog "Palavra Aguda".

Em minha monografia de pós-graduaçãoem Psicologia Conjugal e Familiar, finalizada no ano passado, eu cito Alexandre e Vieira, que fizeram uma interessante pesquisa sobre relação de apego e auto-estima de crianças em abrigos.

Alexandre e Vieira (1998, p. 212), em sua pesquisa, citam algumas características de crianças que vivem em abrigos:

· Baixa auto-estima. As crianças investigadas têm uma imagem pequena em relação ao valor e aparência que elas têm de si mesmas; pensam que o “outro” é sempre melhor, o “outro” é aquele que consegue facilmente o que deseja;

· A beleza física é importante;

· Existe o desejo de ir embora, ser adotado ou voltar para a família de origem;

· O sentimento em relação a mãe biológica é de defesa ou culpa;

· Sentimento de que “Ninguém liga pra mim”; insatisfação em relação aos cuidados recebidos, que reflete a idéia de rejeição e injustiça;

· Saudade dos amigos que foram adotados ou dos irmãos que vivem em outros abrigos;

· Irmãos mais velhos se preocupam com irmãos mais novos;

· Zelo pelo amigo, preocupação com o bem estar dele o que se torno algo muito positivo;

· Cuidado em troca de benefícios;

· Agressão verbal;

· Ênfase no contato físico e busca constante pela presença do outro;

· Um amigo do abrigo passa a ser uma figura de apego;

· Crianças resilientes, sensíveis e responsivas;

· A brincadeira proporciona o exercício das relações de apego;

· Nas brincadeiras não houve a reprodução de experiências traumáticas ou do ambiente no qual elas ocorreram;

· As crianças demonstram afeto umas pelas outras.

De acordo com a lei, não é permitido entrar em abrigos para fazer visitas. Isso só pode ocorrer com a autorização do Juiz. Mas quem já entrou em um abrigo, por algum motivo, sabe que qualquer criança é uma jóia, é adotável e merecedora de todo o amor como uma outra criança qualquer, como a criança que pode nascer do nosso ventre. Elas despertam nosso amor.


Referência:

ALEXANDRE, Diuvani Tomazoni; VIEIRA, Mauro Luís. Relação de apego entre crianças institucionalizadas que vivem em situação de abrigo. Psicologia em Estud. vol. 9, nº. 2. Maringá, 1998. May/Aug. 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722004000200007. Acesso em: 03 de julho de 2008.





Por Cintia Liana