"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sábado, 15 de outubro de 2016

Não às palmadas

Foto página Facebook "Desconstruindo Conceitos"

Quanto mais eu trabalho, estudo e conheço o universo humano, tenho a mais absoluta convicção de que bater em uma criança é uma das mais absurdas e profundas agressões, é burrice. Só bate em uma criança quem não se enxerga como pai, como mãe e como ser humano. 

A criança não faz nada por mal, ela só reage a uma agressão que estão fazendo primeiro à ela, por instinto de preservação, por não ter aprendido ainda a argumentar. E alguns pais, ao invés de ensinarem o poder da conversa, a ensinam a crueldade impiedosa da violência, exatamente no momento em que ela mais está precisando ser compreendida e a família está precisando se ajustar. Pais sensíveis e inteligentes sabem que a criança é o termômetro da saúde familiar. <3 span="">

Cintia Liana


Cintia Liana

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A violência por traz da palmada

We Heart it
Por Cintia Liana Reis de Silva
Artigo publicado no site "Indika Bem" no dia 12 de dezembro de 2013.
Não são exatamente as palmadas que fazem das crianças rebeldes em potencial; não são exatamente elas que formam delinquentes; não são alguns “tapinhas desvalorizados” que fazem um indivíduo se tornar antiético e enraivado com a vida. Apesar de se tratar de agressões físicas "aparentemente brandas", de ser um tipo de violência, o que fere mais, é o que está por trás das palmadas: é o “cala a boca moral”, é a imposição do silêncio, quando a criança diz que algo não vai bem com ela por trás do mal comportamento, que há algo bem desconfortável acontecendo e que nem ela sabe o que é e nem sabe comunicar de outro modo, porque não tem mesmo maturidade para colocar em palavras o seu mal estar.

A birra comunica e o adulto deve metacomunicar. Espera-se que ao menos ele seja maduro e esteja em grau de ajudar a criança em sua comunicação. A palmadinha agride, mas o que agride mais é a falta de interesse, paciência, maturidade e muitas vezes a falta de amor e preparo do adulto para chegar perto do filho querendo descobrir sinceramente o que não é saudável aos seus olhos, mesmo que nessa observação venha a tona uma resposta bem desagradável sobre as crenças deles, que pensam que estão sempre muito certos.

Claro que pais não devem ser super heróis, por trás da palmada também tem o cansaço, o desespero, a falta de tempo, de energia e muitas outras coisas, é necessário paciência com todos para entender e melhorar a situação, mas como aqui falamos do que sente a criança, então continuemos…

A palmadinha dói, mas o que dói mais é a negação, a negligência e a falta de respeito, de preparo, quando a criança tenta falar através do seu comportamento rebelde, e os pais não a entendem, e nesse momento perdem a oportunidade de ensiná-la a observar a si mesma e a compreender que pode buscar respostas em seu íntimo, que pode procurar aprender a falar o que a aflige, a expressar-se sem receio ou vergonha, sem precisar sentir medo de ser reprovada ou transformar sua tristeza em raiva na forma de “birra”. Ensiná-la que abrir o seu coração é saudável e que pode confiar em seus pais, na capacidade de diálogo e compreensão desses, que pode confiar naquela relação de amor.

As birras infantis, a raiva, guardam em seu plano de fundo um descontentamento, um sentimento conflitante. As crianças não fazem birra constantes quando estão satisfeitas, verdadeiramente felizes, quando se sentem ouvidas, respeitadas, mas alguns pais podem não concordar com isso porque com certeza pensarão que está tudo bem, em seu ponto de vista, mas é em seu ponto de vista e não no da criança.

É preciso um trabalho de auto conhecimento para mergulhar em si, olhar a situação e perceber o que é necessário de fato melhorar, para o filho transformar o seu comportamento. O sistema familiar muda, se reconfigura se os seus membros se propõem a essa mudança e, como o filho quase sempre apresenta o sintoma do adoecimento familiar, ele é escolhido como o bode expiatório e ainda leva palmadas.

Vivemos numa época onde ainda existe muita ignorância sobre o mundo infantil, onde adultos tratam crianças como pequenos animais, preocupados só em dar disciplina e determinar regras, essas crianças crescem e se tornam adultos inflexíveis, sem elasticidade intelectual, emocional, relacional, se tornam intolerantes ou o contrário total, com uma rebeldia à flor da pele, querendo infringir todas as regras, são negativistas, do contra, com um alto senso de desvalorização escondido atrás de uma falsa crença de superioridade.

Uma criança de até 3 anos, por exemplo, não tem raciocínio de causa e efeito, não deve apanhar e nem entende porquê. Não é tanto o modelo de violência branda, visto em casa, que tornam indivíduos mais ou menos revoltados, infelizes e bandidos marginalizados, como se diz muito por aí, mas é o modelo de comunicação e de afeto distorcidos que marginaliza emocionalmente.

O comportamento violento é aprendido na educação familiar, absorvido na cultura, sobretudo os homens que são incentivados a bater em outros homens e até em sua companheira como forma de provar a sua masculinidade. Esse “cala a boca!” da palmada provoca feridas na relação de pais e filhos, assim como críticas ao invés de orientação, provoca mágoas, rebaixa a autoestima, traz muitas sensações ao mundo emocional da criança, como sentimento de inadequação, de rejeição, de não ser amado verdadeiramente como se espera e as dores e feridas inconscientes são as mais difíceis de acessar, normalmente só com terapia, por isso muita gente nem sabe que ela existe, só sofre em suas relações, e muitos pais passam adiante as suas dores para os filhos, fazendo a falta de consciência interna virar um ciclo de mal estar existencial.

Mas há quem repita que o filho passou por isso tudo e hoje está bem, mas com certeza porque não exercitou lucidez suficiente para enxergar os pequenos conflitos que tem com ele e os problemas e carências que carrega o filho.

De fato a violência, que é uma forma de comunicação não verbal, entra quando não existe inteligência, paciência e sensibilidade suficientes para entender e ensinar a comunicar verbalmente de maneira sã e madura. Mas o mundo continua avançando. Um dia chegaremos lá. Continuo na campanha, faça filhos, mas se prepare antes disso, afinal, ter filhos é o maior projeto de vida que um ser humano pode ter. É preciso ter consciência.

Por Cintia Liana Reis de Silva

sábado, 26 de junho de 2010

Palmadas - Efeitos do Castigo Físico

Foto: Facebook

Nos meninos e nas meninas:
• Diminui a auto-estima, gerando a sensação de que eles valem menos;
• Ensina a serem vítimas. Algumas pessoas acreditam que o sofrimento torna as pessoas mais fortes, que as prepara para a vida. Nos dias de hoje, sabemos que não só não faz as pessoas mais fortes, como também as converte em pessoas com dificuldades de sentirem-se capazes de resolver seus próprios problemas;
• Interfere no processo de aprendizagem e no desenvolvimento de sua inteligência, de seus sentidos e de suas emoções;
• Gera sentimentos de solidão, tristeza e abandono;
• Faz com que eles observem a sociedade de uma forma negativa e as pessoas como seres ameaçadores, causando dificuldade de integração social;
• Cria um muro que impede a comunicação entre os pais e filhos e prejudica os vínculos emocionais que existem entre eles;
• Cultiva sentimentos de raiva e desejo de fugir de casa;
Ensina que a violência é um modo adequado para resolver os problemas;
Dificulta a cooperação com as figuras de autoridade;
• Deixa a criança mais exposta a vários acidentes;
• Em relação aos meninos, como são mais castigados fisicamente do que as meninas para se tornarem “homens” faz com que eles sejam mais agressivos e os deixa mais vulneráveis a utilizar drogas (incluindo o álcool) no futuro;
• Em relação às meninas, a tendência é internalizar sua dor que vai acabar se manifestando emocionalmente por meio de depressão, insegurança, culpa e submissão.

Nos pais e mães:
• Produz ansiedade e culpa, inclusive nos pais que consideram esse tipo de castigo correto;
• O uso do castigo físico aumenta a probabilidade dos pais mostrarem comportamentos violentos em outras situações com maior freqüência e intensidade;
Impede sua comunicação com os filhos e dificulta as relações familiares no presente e no futuro.

Na sociedade:
A relação entre ter sido vítima de violência física na infância ou ter testemunhado este tipo de violência em sua família, faz com que exista a tendência de que seja reproduzida na fase adulta;
Incentiva as novas gerações a usarem a violência como forma de resolver um conflito;
• Faz com que se acredite que existem dois grupos de cidadãos: as crianças e os adultos. Os adultos mandam e podem agredir; as crianças obedecem e apanham;
Promove modelos familiares onde existem os que agridem e os que são agredidos. Nesses casos, os envolvidos têm dificuldade de entender a importância de uma relação de igualdade entre as pessoas, um dos pontos fundamentais da sociedade democrática;
• Dificulta a proteção à infância. Ao tolerar essa prática, a sociedade não se legitima como um espaço protetor para meninos e meninas;
• Torna os cidadãos submissos porque, em seus primeiros anos de vida, aprenderam que ser vítima é uma condição natural dos indivíduos que fazem parte daquela sociedade.

Fontes:
Educa, no Pegues. Campaña para la sensibilizació n contra el castigo físico en la familia. Madrid: Save the Children, Comité Español de UNICEF, CEAPA y CONCAPA, 2002;
Pesquisa Homens, violência de gênero e saúde sexual e reprodutiva: um estudo sobre homens no Rio de Janeiro/Brasil. Instituto PROMUNDO e Instituto NOOS, 2003.

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Até certo ponto é bem difícil de entender essas causas, mas se analisarmos sutilmente, sem querer medir quem está com a razão, percebemos que a agressão física e o aprendizado pela dor causada pelos pais só gera intolerância e revolta.

É uma consciência que se adquire com uma reflexão sem querer brigar pelo certo ou errado, sem querer brigar com a nova lei, e sim chegando a conclusões sobre a dor física.

Profissionais da área da família, experientes e com filhos, dizem que até uma palmada é desnecessário e uma vez ouvi de um expert no assunto que a palmada só aparece quando já se esgotaram todos os outros recursos e que ele nunca chegou a dar uma palmada num dos 4 filhos dele. No início não concordei, mas dois anos depois de pensar nisso concordo.

Filhos que dizem não ter sofrido com pancada creio que nunca fizeram terapia, porque a raiva que se sente quando se apanha do pai ou da mãe fica marcada no corpo, em forma de memória corporal e isso dói, a mágoa da dor emocional acompanhada da física.

Tem filho que tem uma péssima relação com seus pais autoritários e que fizeram uso de palmadas e não sabe porque e depois vem dizer que aqueles tapas foram bons para sua educação?

Penso que podemos pensar bastante em outras possibilidade mais eficazes que não passam pela dor física e sim pela tomada de consciência. A experiência com a surra é muito humilhante, é para a relação com inimigos e traz outros prejuízos de ordem moral que comprometem a relaçao com o filho. O limite em que ele terá com os outros em relação a violência física no futuro estará comprometida por uma vivência e um aprendizado de modelo educacional distorcido, onde tem pancada.

Se condeno alguém que dá uma palmada? Claro que não, mas acho que são coisas para serem pensadas. Penso que quanto maior é a ignorancia espiritual e emocional, mas os pais vão bater, o limite vai ser menor sobre a violência em casa. Por esse caminho de pensamento prefiro não bater. Sou 0% palmada.

Quando for mãe refletirei novamente, mas aí estarei em outro estágio de consciência, com mais recursos ainda para lidar com as birras e pirraças. Um comportamento ou olhar de uma mãe chateada pode ser mais eficaz, depende da proposta dela.

A questão dos padrões de violência familiares é muito séria, é um ciclo que pode começar e não acabar mais, que passa de geração em geração.


Por Cintia Liana