"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pai quando dá

Google Imagens
Por Camila Fernandes
Mãe, meu pai vem quando?”, “Queria ficar com meu pai”.
O que trago aqui é algo bem comum de se encontrar, embora seja difícil de explicar. Coisa estranha, em geral as pessoas convivem bem com este tipo de pai, ainda que saibam que o que eles fazem, ou melhor, o que não fazem, rebatem nas vidas de todos os que estão a sua volta.
Eu vou falar daquele homem que é pai quando dá.
É mais ou menos assim que a coisa se desenrola: houve uma separação, que entre trancos e barrancos se realizou. A criança fica sob a guarda da mãe, pois isto é o esperado por todos e o naturalmente aceito pela sociedade. O pai se encarrega de contribuir com a chamada pensão alimentícia, isto pode ser feito através de uma imposição de justiça ou ele pode ser um “cara legal” e “ajudar” voluntariamente. Além de contribuir com parte das despesas da criança, ele geralmente passa os finais de semana com o filho ou filha quinzenalmente. Parece que comparecer quinzenalmente é o tempo suficiente pra ser pai. Nem todos os pais quando dá são iguais, existem aqueles que aparecem durante a semana, vez em quando pegam o filho na escola, dão um sorvete.
Os julgamentos e expectativas do mundo afora são relativamente razoáveis para o pai quando dá. O pai quando dá na maioria das vezes é considerado como um bom pai, afinal, ele comparece sempre que pode. O pai quando dá também pode ser considerado como vítima, porque, coitado, ele tem que trabalhar tanto para pagar a pensão do filho, teve até que aprender a cozinhar. E para poucas pessoas, o pai quando dá é realmente um descarado, mas isto é no fundo no fundo coisa de feminista chata que reclama de tudo.
A mulher, a mãe, aquela tão conhecida, fica responsável pela criação da criança no cotidiano (cotidiano aqui resume todas as adversidades e demandas diárias geradas pela vida de uma criança). Porque, sabe? Não é sempre que o pai quando dá pode assumir este cotidiano. Porque este tipo de pai quase nunca pode ficar com seu filho. Ele tem muitos motivos para não poder: ele está reestruturando a sua vida; ele está desempregado; ele trabalha quarenta horas; ele não tem mãe nem empregada pra ajudar; a casa dele é pequena; ele não tem carro; ele é um pobre coitado; coitado dele. Vamos ser compreensivos! O pai quando dá realmente nunca pode ficar, porque ele trabalha muito, é operário, artista, engenheiro, empresário. E quando ele está desempregado, ele também não pode ficar porque está deprimido e sem dinheiro.
“Mas a mulher trabalha também!”, alguns vão lembrar. Mas isto não importa. É que a mulher já está mais acostumada, sabe? Ela trabalha, cuida de criança, se preocupa, leva o lanche que a criança esqueceu em casa, auxilia no dever de casa, leva ao pediatra, arruma um cursinho naquele tempo livre que a escola não cobre, paga alguém pra ficar com o filho, adia a compra de algo para dar uma vida melhor pra criança. Enfim, ela se vira nos trinta e como se pode. Parece que mulher tem o dom natural da “viração”.
Quando a mãe tem “a sorte de casar” ou “arrumar um namorado”, porque cá entre nós, não tem coisa pior na vida do que ser “mãe solteira”. Um “título” que realmente não cai bem em ninguém e que só existe para o gênero feminino, porque até hoje eu nunca conheci um “pai solteiro”. E se conhecesse acho que isto pegaria bem pra ele, porque seria fofo e bonitinho. Pois bem, quando a mãe trata de “ajeitar” sua vida, o pai quando dá, dá logo um jeito de se fazer presente. Ele aparece para lembrar que a criança tem um pai! E que ele precisa garantir que ninguém está ali para ocupar o lugar legítimo dele. Entretanto, se a mulher tem outro filho nesta nova relação, o pai quando dá pode mudar de atitude e pode vir até a cortar a relação com o primeiro filho. Deve ser porque, se a mulher teve um filho com outro, isto quer dizer agora que ele não tem as mesmas obrigações. Porque se ela foi ter filho com outro, então ele não tem mais nada a ver com isto. Algo se rompeu na pureza da mulher, pureza esta que praticamente de nada lhe adiantava. Mas quando o pai quando dá tem outro filho com outra mulher, ele pode muitas vezes se mostrar um pai presente para o seu segundo filho. Não que isto mude qualquer coisa para a coitada da primeira criança, que teve a infelicidade de ser filho daquela mãe.
Os filhos.
Os filhos criam uma “Super Adoração” pelo pai quando dá e muitas vezes entram em conflito com a mãe, aquela que se encarrega do cuidado deles dia após dia. Convenhamos, tem coisa mais chata que ter mãe todos os dias? Aquela doida que está sempre ali preocupada, com ares de desorganização e que ás vezes transmite a nítida impressão que alguma coisa tem de errado com ela. Legal mesmo é o pai quando dá! Que encaixa a criança onde pode. Quem não exerce mais fascínio do que aquele homem herói que surge como um relâmpago e só aparece de vez em quando? Que como num lampejo de cometa se materializa, do nada, cheio de fantasias, e quando vai embora deixa apenas o arfar daquele suspiro infantil, tal qual uma abóbora que se desvanece após a badalada da meia noite. Um verdadeiro conto de fadas, um conto para crianças, de autoria do pai quando dá.
Ele não se julga, nem se acha ruim, pois sempre olha para o lado e diz: “mas o Renato é pior do que eu”, “o João nunca vê a filha”, “o Marcelo nunca deu um centavo”, “o Luis, ah! Aquele ali comeu e foi embora”. “Eu pelo menos apareço quando dá e pago o que posso.” Isto lhe faz dormir em paz.
E quando ele aparece, ele quer saber como tudo ocorreu naquela semana, ou como foi durante todo o mês em que ele esteve ausente. Ausente não! O pai quando dá não é ausente, ele é ocupado. E se algo está “dando errado” na vida da criança ele questiona, “Mas você é a mãe dela?”, “Ele tem que te respeitar!”, “A adulta é você!”, “Criança não tem vontade”. O pai quando dá entende muito de educar. O modelo de educação a distância deve ter se inspirado na pessoa do pai quando dá.
Quando ele pega o filho ou filha, naqueles momentos que são raros e que a mãe enfim poderia ficar tranquila, ele ainda dá um jeito de mostrar que as coisas não são tão fáceis assim. Ou ele dificulta a comunicação, ou nunca chega no horário combinado, ele se atrasa para chegar, ele não consegue cumprir os acordos, mas o que é isso de acordo afinal? Ele devolve o filho na hora que dá, na hora que está melhor pra ele. E quando a criança fica doente quando está com ele, à culpa é da mãe que mandou a criança doente, ele não pode ir à farmácia nem ao hospital, pois isto é coisa de mãe. Mae desnaturada.
Se a criança não come, foi à mãe, que afinal é quem fica com ela todos os dias que não a educou direito. Se a criança vai mal na escola é porque a mãe não está acompanhado nas tarefas escolares. Se a criança não passeia no final de semana é porque, como se não bastasse toda esta negligência, ainda por cima a mãe quer ter um pouco de vida própria e sair à noite com seu namorado, ou marido, ou amigos e amigas. Mas veja só, que folga! Não entendeu ainda que ser mãe é viver em função do filho e se alienar para o mundo?
A família e os amigos do pai quando dá geralmente exercem certa condescendência com este tipo social. Ninguém nunca o confronta. Ninguém nunca o questiona porque ele é pai somente quando dá. A sociedade tolera estes homens, porque se a mulher já sabia que ele era assim porque diabos foi engravidar dele, né? A culpa, é claro, foi desta desprecavida. Pensasse duas vezes na hora de escolher o pai desta criança.
É que também o pai quando dá não é uma pessoa ruim, não. Ele é um excelente companheiro de trabalho, prestativo, atento. Ele é um amigo de todas as horas. Gente “boaça”. Ele se preocupa com a política, ele ás vezes é até de esquerda, militante de um mundo melhor. Ele vive postando fotos com o filho nas redes sociais. Ele pode não comparecer toda hora, mas que ele ama, isto sim, ah, ele ama esta criança.
Ele inclusive pode estar bem próximo de você, ser até o seu marido, namorado, companheiro, que quando dá resolve lhe “ajudar”, lavando umas vasilhas, olhando as crianças enquanto você toma aquele banho tão esperado o dia inteiro.
Ele infelizmente não percebe nem enxerga que o preço de sua liberdade e de sua mobilidade se faz à custa da territorialização da mulher e do tempo feminino. E que todas às vezes que ele sai pela rua sozinho, caminhando com as suas próprias pernas, é porque tem uma mulher que está fazendo o trabalho de cuidado de seu filho. Sim, porque um dos poderes que o pai quando dá tem é de transformar a atividade de cuidado em um contínuo repleto de sacrifícios. Ele acha que ser pai no cotidiano é coisa de “país de primeiro mundo”. Porque no Brasil não tem isto não, o normal aqui é ser pai quando dá.
…
Triste e pálido é quando precisamos usar da ironia para provocar o reconhecimento de uma situação lancinante que ocorre não só as mães, mas a todas as mulheres e outros que cuidam daqueles que são filhos de pais quando dá. Em tempos que se discutem a plausibilidade do “abandono afetivo” e da “alienação parental”, é inegável que estas categorias jurídicas, psicológicas e sociais falam em alguma medida desta figura da ausência, do afastamento que insiste em se fazer presente. Porque existe um lugar que não foi apropriado bem como expectativas não correspondidas. Isto não quer dizer que as pessoas não recriem suas vidas, que não existam outros ricos laços para além do pai, que as trajetórias sejam dependentes da figura paterna num delírio compulsório da família nuclear, e que todos estejam fadados ao atavismo biológico incontornável e insubstituível. Não. Isto simplesmente só quer dizer que existem contextos com crianças que, sim, adorariam ter um pai que participa e intervém um pouco mais do que quando dá. E que existem mulheres que poderiam viver suas vidas de forma mais equilibrada, sem tanto sofrimento, se não fosse pelo tamanho do peso que a displicência e conveniência de uns em relação a outrem pode provocar.
E você, conhece algum pai quando dá? Estamos montando um texto colaborativo com as ideias que estamos recebendo. Envie sua história ou sugestão para paiquandoda@gmail.com.
Camila Fernandes é doutoranda em Antropologia no Museu Nacional/PPGAS/UFRJ e estuda o compartilhamento do cuidado de crianças. Email de contato: fernandesv.camila@gmail.com Ou, para quem quiser colaborar mais com esta discussão escreva para: paiquandoda@gmail.co
Fonte: http://femmaterna.com.br/pai-quando-da

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O imperfeito amor materno

Cintia Liana durante entrevista

Por Cintia Liana Reis de Silva

Definitivamente o amor materno não é perfeito e nem tem que ser. Elizabeth Banditer, pesquisadora, conhecida por escrever sobre o mito do amor materno, diz que o amor é inerente a condição de mãe, que ele não é determinante. O amor de mãe pode variar de acordo com a consciência de cada uma, de acordo com as ambições, frustrações, cultura, ele pode ser fraco ou forte, existir ou não existir, aparecer e desaparecer, pode ser bom ou ruim, ter preferência por um filho ou não.

Existem mães de todos os jeitos, mãe não é tudo igual. Existe mãe que sufoca, mãe egoísta, descuidada, superprotetora, patologicamente medrosa, controladora, chantagista, competitiva, que faz da vida do filho um verdadeiro inferno, fazendo ele depender dela porque tem medo de perder a sua companhia, por exemplo. Existem também as que sabem amar, as que se questionam. As mãe são humanas.

Nos escondemos por trás dessas frases para não questionarmos a nossa própria educação, os nossos próprios valores. Se diz “é coisa de mãe”, como um modo de desculpar a má educação que se dá, sem ter nenhuma responsabilidade com as consequências. É como se o outro não fosse capaz de entender esse amor tão mitizado, desconsiderando o olhar assustado que quem vê a cena absurda, de quem ouve a mãe falar aquela bobagem. Ser mãe não é deliciar o próprio ego narcizista e infantil, para fortalecer e perdurar convicções, mesmo que para isso tenha que fazer o filho sofrer. Ser mãe é educar para a vida, para o convívio com outras pessoas, cada ser humano é peça fundamental na sociedade, a soma deles é a paz ou o caos.

Uma mulher consciente busca educar o filho para ser um adulto responsável e efetuoso com sua vida e com os outros. É tarefa difícil, precisa de jogo de cintura, entender o comportamento psicológico, temperamento, personalidade, ir lapidando com cuidado e reflexão esta nova alma. Precisa de tempo e amor saudável. Não dá para colocar filho no mundo para alimentar o próprio ego sem pensar nas consequências, para somente se realizar, para provar que é capaz de parir. Ser mãe, assim como ser pai, é tarefa de grande responsabilidade, é  preciso senso de justiça apurado. É preciso ir muitas vezes contra as nossas próprias convicções.

Geralmente é mais fácil achar que sempre estamos certos, mudar de postura dá muito trabalho, exige energia, desapego. Acreditar que nossos pais não são perfeitos magoa. Preferimos acreditar que eles são perfeitos e quem sabe assim também o seremos?

Existem mães que sabem educar, já outras não. Mães que olham seus filhos como pequenos coitadinhos, outras que mostram a eles que podem ser fortes e vencedores, sem passar por cima de niguém. Mães que trabalham as suas frustrações para não colocá-las em cima do filho. Existem pessoas lúcidas e outras não, como também existem mães lúcidas e outras não. O fato de ter um filho não precisa torna ninguém estúpida, embreagada de amor materno e isso nãe é desculpa para fazer besteiras, usar os filhos como cobaias para tentar acertar. Muito menos precisam ser super heroína, portadora do amor mais poderoso do universo.

Existem formas diferentes de ser mãe e ela não tem que ser perfeita. Estudos mostram que mulheres conseguem mais facilmente ser boas mães se também tiveram um solo fértil e equilibrado em sua infância, explica John Bowlby, o pai da teoria do apego. É mais fácil se dar aquilo que se teve, dar aquilo que se conhece e experimentou. As que sofreram normalmente reproduzem o modelo que tiveram, aquilo que conhecem, a não ser que façam um trabalho de autoconhecimento para não cair no erro de repetir os padrões intergeracionais, e isso é possível, a tomada de consciência é totalmente possível.

Mães erram sim. Há aquelas que ainda colocam fraldas, dão bico e mamadeira a filhos de 5 anos, sufocando o seu crescimento com a busca incessante de fazê-lo estagnar naquela fase para não perder o seu bebê tão amado. Pai e mãe que colocam o filho para dormir entre eles na cama matrimonial; casais que fazem amor com o filho dormindo ao lado, sem querer perceber que o filho vê, acorda e sente a energia do sexo. Erram sim.

Pais superprotetores que passam os seus medos ou querem que seus filhos se tornem superdependentes e que acreditam que eles devem ser os super heróis dos filhos, quando esses pais nem mesmo conseguiram enfrentar e nem dar conta de seus próprios fantasmas.

Pais erram e criam crianças egoístas, agressivas, que não conseguem enxergar o outro porque dentro de suas casas são tratados como o centro do mundo. Ou o oposto, crianças depressivas, inseguras, sofridas, que não têm a atenção e afeto que precisam.

Pai e mãe consciente é aquele que se permite ter dúvidas e se pergunta: “estamos sendo justos?”, “estamos sentindo pena do nosso filhos?”, “como os meus sentimentos de culpa e preconceitos inflenciam na educação dele?”, “estou educando bem?”, “no que posso melhorar independente do que acredito ou quero acreditar?”, “como minhas neuroses e medos podem influenciar na vida emocional de meu filho?”, “de que modo isso pode influenciar no seu futuro, no seu comportamento?”. Esses buscam estar conscientes, se questionam, que educam sem estar apegados a suas crenças antigas e a própria educação que tiveram de seus pais.

Tem também aqueles pais que perguntam a um amigo psicólogo o que acha da educação que dão. Quando o amigo psicólogo chega a falar, depois de muita insistência por parte dos pais, eles não querem ouvir, mudam de assunto, ou começam a se desculpar, justificar. Quem quer de fato melhorar não pergunta opinião de um amigo psicólogo, vai direto a um terapeuta de família,  paga pela sessão, ouve tudo o que não quer ouvir. Muda. Em mais de 12 anos de experiência clínica só o segundo ouve e muda. O que pede opinião geralmente não passa de um curioso querendo ouvir elogios tecnicos.

É mais fácil não se questionar, mas pais criam filhos como Suzane Richthofen e depois da crueldade que fazem, a mídia, em nenhum momento, propõe uma discussão sobre como ela deve ter sido educada. Nem conseguiram jogar a culpa na adoção, como em geral o fazem, porque ela era filha biológica. Não se trata de culpabilizar os pais, nem ninguém, mas de dar algumas responsabilidades e de entender como podemos criar melhor as futuras gerações, de questionar o nosso egoísmo, o nosso apego em relação a algumas crenças e farsas sociais.

Poucos estudiosos e escritores questionam o mito do amor materno, pouco se fala sobre ele. Acredito que, como motivo inconsciente, não queiramos tocar de algum modo no arquétipo de grande mãe, na imagem da Virgem Maria, da Nossa Senhora, mas não podemos nos comparar a ela, mesmo com o desejo de ser uma boa mãe, com toda a bondade, amor e pureza que ela representa. Mais nobre é encarar a nossa humanidade, tentando ser cada vez mais justa, para ter filhos psicologicamante mais saudáveis.

Há quem diga que a dor de parir influencia no amor que a mãe alimentará por seu filho, mas ele não é determinante, se fosse assim não veríamos bebês de mulheres que acabaram de parir jogados no lixo. Não veríamos mães adotivas tão apaixonada e  educando tão bem seus filhos que não pariram e nem, tampouco, veríamos pais tão maravilhosos, que dão todo o amor que uma criança precisa para estar no mundo experimentando segurança emocional plena. Ser pai e mãe é um processo de descobertas de si mesmo, é tentar ser melhor para educar melhor, mas exige preparo. Não é certo ter um filho para aprender com ele a terefa de ser gente. Uma criança não merece tamanha crueldade e responsabilidade.

Nós humanos adoramos frases feitas, ideais perfeitos, fórmulas do amor e verdades absolutas para nos proteger de nossas falhas e fragilidades. Mas ainda acredito que tantar aguçar um olhar analítico para alcançar outras verdades, mesmo que elas nos desagradem, mesmo que isso doa, é o caminho mais rico e que nos leva a crescer e melhorar a nossa própria realidade, fazendo outros serem humanos que dependem de nós mais felizes.

Cintia Liana Reis de Silva, é psicóloga, psicoterapeuta, especialista em casal e família. Já acompanhou e teve contato com mais de 2.000 casos.

domingo, 30 de outubro de 2011

Família não é tudo igual

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Por Anna Paula Uziel
 
No Brasil, em 2010, uma em cada quatro crianças tinha apenas o nome da mãe na certidão de nascimento, segundo reportagem de O Globo do Dia dos Pais, que noticiou também que, no Rio de Janeiro, 83.307 crianças encontram-se nesta mesma situação. As histórias relatadas demonstram o quanto a participação de pessoas envolvidas afetivamente com as crianças faz diferença na vida delas e aponta para os impactos legais e simbólicos da inclusão do nome do pai biológico ou do padrasto no documento de identidade dos filhos. Em alguns casos, mesmo com os genitores mortos, tem sido possível garantir bens e benefícios para as crianças e adolescentes que têm a paternidade reconhecida. Um projeto em Volta Redonda e outras iniciativas no país promovem, com apoio do Ministério Público, a inscrição do nome do pai no documento dos filhos.
 
É um direito da criança saber o nome do pai. Entretanto, garantir o direito da criança a sua filiação, fundamental para todos, não pode significar imprimir um único modelo de família.
 
A Constituição Federal de 1988 passou a não considerar mais o casamento entre um homem e uma mulher como condição necessária para a constituição da família. Acabou também com os diferentes estatutos que tinham os filhos, classificados como biológicos, adulterinos, ilegítimos, adotivos, entre outros. Desde 1990, com o Estatuto da Ciança e do Adolescente (ECA), o estado civil não é mais impedimento ou restrição à adoção. Assim, é possível um homem ou uma mulher decidir ser pai ou mãe solteiro/a.
 
Além disso, em muitas comarcas brasileiras tem sido possível a adoção de crianças por casais de mesmo sexo. Com a decisão recente do STF pelo reconhecimento da união estável homossexual isso tende a aumentar. Nesses casos, nas certidões de nascimento constam os nomes de duas mulheres ou de dois homens.
 
Com o avanço tecnológico dos últimos 20 anos, é cada vez mais possível prescindir de corpos e pessoas para a geração de crianças. Ainda que não representem estatisticamente um número expressivo, casais heterossexuais, casais de mulheres e mulheres solteiras conseguem realizar o sonho da maternidade e da paternidade através das técnicas de reprodução assistida. Acrescentam-se ainda decisões recentes de adoção unilateral: a companheira da mulher que faz a inseminação consegue adotar a criança gerada.
 
Por sua vez, a lei 11.294 de 2009 permite a adoção do nome do padrasto pelo enteado que reconhece nessa figura uma relação de filiação. Reconhecimento da parentalidade sócio-afetiva.
 
Todos esses exemplos apontam para a pluralidade das famílias. Toda vez em que um pai existir, ele deve ser procurado. Quando um pai novo aparecer, deve ser considerado. E quando for o caso de uma inseminação com material de doador anônimo ou de uma adoção feita por uma mulher ou por um casal de mulheres, elas não podem passar pelo constrangimento de serem interpeladas pela suposta falta do pai. O direito das crianças a um pai não pode se transformar em uma exigência de um determinado modelo de família único ou obrigatório.
 
Anna Paula Uziel - Professora do Instituto de Psicologia da UERJ e Pesquisadora do CLAM/IMS/UERJ
 
 
Postado Por Cintia Liana

domingo, 28 de agosto de 2011

Licença de 90 dias para pai adotivo

Mandy Lynne

Recife, sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Decisão inédita do TJPE atendeu a pedido de técnico judiciário que está com filho de quatro meses

Por Raphael Guerra

Justiça de Pernambuco concedeu, pela primeira vez, uma licença de 90 dias para um pai adotivo cuidar do filho em tempo integral. O pedido foi feito por um técnico judiciário. Um pai solteiro que adotou um bebê de apenas quatro meses. A lei prevê 15 dias para pais adotivos e 5 dias úteis para os biológicos. A decisão inédita do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) se baseou em outros três casos semelhantes que aconteceram na Bahia, Rondônia e São Paulo.

Para o presidente do TJPE, desembargador José Fernandes de Lemos, o prazo de 15 dias é curto para o contato e adaptação entre pai e filho. Na decisão judicial, ele se respaldou nos três casos já conhecidos. “Quando uma criança é adotada, principalmente em idade tão delicada, precisa de uma atenção especial nos primeiros meses de vida. Esse acompanhamento, efetivo e afetivo, vai ser determinante para toda a sua vida”, justificou.

A decisão do desembargador foi publicada no Diário Oficial de ontem. O técnico judiciário comemorou a decisão com o filho. “É da natureza humana o desejo pela procriação. Mas, para mim, a razão de procriar não está apenas baseada na genética, e sim no amor imensurável e incondicional ao outro”, disse.

O doutor em psicologia social Benedito Medrado, da ONG Instituto Papai, afirmou que a decisão inédita demonstra a importância que o homem também exerce na criação dos filhos, principalmente aqueles com poucos meses de vida. “O Brasil está acostumado a seguir dois modelos organizacionais: heteronormativos e da família nuclear. Isso significa que o cuidado infantil é de responsabilidade exclusiva da mulher. Dessa forma, os direitos do pai estão sendo negados”, argumentou. Segundo a lei, quando um casal tem um filho, a mãe tem de 120 a 180 dias de licença. “O prazo de cinco dias para os homens é muito curto. A mulher precisa de ajuda na divisão das tarefas”, disse Medrado.

Como o filho adotivo já tinha quatro meses de vida, o tempo de licença paternidade para o técnico judiciário foi reduzido à metade, como exige a lei. Por e-mail, o novo pai resumiu o tamanho do amor que já sente por um filho que acabou de “nascer” na vida dele: “exercer o papel de pai e mãe não é tarefa fácil, mas quando há amor é extremamente prazeroso. A cada dia um aprendizado diferente. É voltar no tempo e relembrar as cantigas cantadas por nossos pais”.

Campanha
Com a decisão do TJPE, a ONG Instituto Papai pretende mobilizar a sociedade civil e os deputados federais para que uma lei seja aprovada e os homens tenham direito ao mesmo tempo de licença maternidade que atualmente é concedido às mulheres. No Congresso Nacional, tramitam pelo menos dez projetos para aumentar a licença paternidade para 15 ou 30 dias. “Queremos 180. Já estamos em contato com nossos advogados para discutir o assunto”, contou Benedito Medrado.


Recife, sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Entrevista com Dr Luiz Carlos Figueirêdo, Coordenador da Infância e Juventude de Pernambuco
Por Raphael Guerra

“O direito é igual para todos”
Quais argumentos embasaram a decisão para que um pai solteiro tivesse três meses de licença para cuidar do filho adotivo?

Se a interpretação fosse literal, o pai só teria 15 dias de licença. Se fosse um casal, bastaria a mãe ter direito aos 90 dias para se dedicar à criança. Mas, nesse caso inédito, a decisão é importante pois o pai precisa de um tempo maior para cuidar do filho, já que ele é solteiro. Ele assume o papel de mãe também. Precisa de adaptação da criança. A decisão do presidente do Tribunal de Justiça (de Pernambuco) é uma jurisprudência administrativa. Não está escrita em nenhuma lei. É baseada em casos semelhantes de outros estados. Outra novidade é que o beneficiário possui um cargo comissionado. Nos outros casos, o funcionário era efetivo.

O TJPE tem observado o interesse de pais e mães solteiros em adotar crianças?

Sim. O TJPE não cobra que a adoção seja feita apenas por um casal. Pode ser realizada por pessoas solteiras, desde que elas passem por todo o processo comum de adoção no Juizado da Infância ou na comarca do município. O tempo de conclusão do processo varia bastante de um estado para o outro. Há algum tempo, ninguém imaginava um pai solteiro adotando uma criança. Hoje, a lei está mais aberta, mais ampla. O direito é igual para todos os cidadãos.

O processo de adoção tem se tornado mais simples?

Existem várias etapas que os pais precisam passar durante o processo. Eles preenchem uma ficha e apresentam uma série de documentos. Depois precisam se submeter a entrevistas com especialistas, entre eles psicólogos e assistentes sociais. Precisamos identificar se este homem não é um pedófilo, por exemplo. Atualmente, os pais adotivos ainda passam por um treinamento obrigatório.


Postado Por Cintia Liana

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Adoção e paternidade

Cacau Waller

No próximo domingo se comemora o dia dos pais e paternidade é uma relação afetiva que liga a criança ao outro, ao mundo externo. O pai, diz a psicologia, é quem dá o limite, o contorno do diferente. Hoje, garantem os psicólogos, os homens estão mais conscientes do seu papel e buscam cada vez mais atuar na construção psico-afetiva dos filhos, não apenas sendo o provedor do sustento como já foi no passado.

Esse desejo de cuidar se reflete também na adoção. A psicóloga Soraya Pereira, presidente da ONG Aconchego que há 15 anos trabalha com a adoção no Distrito Federal, diz que o homem, quando toma a decisão de adotar, ou ser pai, é mais consciente. "Ele sabe do seu desejo e da batalha para realizá-lo e o que temos percebido nesses 15 anos é um desempenho cada vez melhor e mais proveitoso desses pais."

Soraya explica que "hoje temos mais homens querendo exercer a paternidade e que buscam realizar este desejo." Nos encontros sobre adoção realizados pela ONG é cada vez maior o número de homens interessados no assunto - principalmente na adoção tardia, quando o candidato não está a procura de um recém nascido. Segundo Soraya "eles são mais tolerantes e investem no aprendizado da paternidade com muito carinho e disciplina."

ALGUNS EXEMPLOS
Dr. Benedito é médico e pai por adoção de João Paulo. E conta como a vida dele se transformou quando conheceu o filho: "Membro da Associação dos Voluntários, que criamos no HUB, certo dia fui instado por uma dedicada voluntária que visitasse uma criança na Enfermaria da Clínica de Cirurgia Pediátrica, já a seus cuidados. Lá chegando, veio à meu encontro uma criança correndo, trôpega, cabelos ralos, desnutrido, aparentando 1 a 2 anos, com colostomia, sonda na bexiga e arrastava uma bolsa coletora de urina, abraçou-me e disse: “papai”.Médico há 38 anos, àquela época já acostumado a ver maselas humanas, fui tocado pelo seu olhar que me convidava à uma grande e surpreendente viagem.

Ele transmitia-me: olhe bem nos meus olhos, olhe forte e veja eu tenho um problema, mas não sou um problema. Venha, siga-me, eu o levarei a um mundo por todos sonhado, mas habitado por poucos. Um mundo de tolerância, generosidade, solidariedade e compaixão. Mesmo com meu sofrimento eu sou feliz e gostaria que você também experimentasse as emoções de amor e felicidade. Eu não preciso de pena ou caridade, mas de uma oportunidade de me tornar uma pessoa e ser útil ao mundo no qual eu vivo.

Naquela época, aos 64 anos, vivendo sozinho, pai de quatro filhos já adultos e avô de seis netos, mesmo sabendo do enorme desafio não hesitei em aceitar aquele convite. Começou aí então, uma longa história de superação. Em vários momentos ele se confrontou com sua finitude, seu corpo esteve severamente enfermo. Vieram inúmeras intervenções cirúrgicas e muito, muito sofrimento. João Paulo viveu em 20 metros no corredor daquela enfermaria por 3 anos. " Hoje João Paulo é um adolescente de 15 anos e continua ensinando e aprendendo junto com o pai as grandes lições do amor incondicional. E o próprio médico é quem diz "Hoje decididamente não sou a mesma pessoa. A cada momento me convenço que acertei em aceitar aquele convite. Ele tem me ensinado o amor incondicional.

Amor incondicional não é um sentimento focal, direcionado à uma pessoa ou coisa, é difusa, passa-se a gostar mais da vida, a acreditar que a raça humana é viável, ele é terapêutico na medida em que cura nossos medos, dá verdadeiro sentido a vida, ele é transcendente, não é estático é dinâmico, gera anseio de evoluir através dele."

Deusdedit é pai de nove filhos. Quatro biológicos e cinco adotivos. Entre eles, gêmeos que chegaram em casa com quase 5 anos de idade. Hoje os meninos que têm 16 anos riem ao lembrar do quanto chamava a atenção aquela família tão diferente, com pais brancos e filhos brancos e negros. Separado, hoje Deusddedit vive com cinco dos nove filhos, três adotados e dois biológicos - mas os laços de sangue não fazem a menor diferença para eles. Geraldo vai ser pai no final do mês. Murilo será o primeiro menino de uma família também construída pela paternidade biológica e adotiva. Isadora, a filha mais velha tem 10 anos. Depois veio Maria Vitória, que chegou por meio da adoção. A menina que está com quase três anos tem deficiência auditiva. Mas para Geraldo também não existe diferença.

Benedito, Deusdedit, Geraldo são apenas alguns pais modernos que acreditam e exercitam com consciência e determinação o cuidar, tão fundamental na vida de uma criança. São homens interessados em acertar e fortalecer a filiação e a paternidade. E acreditam que a adoção é apenas uma outra maneira de ser pai!
SERVIÇO:

O Aconchego faz palestras sobre adoção, abertas à comunidade, todo segundo sábado do mês às 17 horas no Colégio Leonardo da Vinci - Asa Sul (703 Sul)O Grupo de Adoção Tardia (para quem pretende adotar crianças com mais de 2 anos de idade) se reúne duas vezes por mês. Na primeira sexta-feira, às 19 horas, na sede do Aconchego CLN 106 bloco A - subsolo - loja 38). E no terceiro sábado do mês, às 9 horas no Colégio Leonardo da Vinci da Asa Sul.A entrada é sempre gratuita.



Postado Por Cintia Liana