"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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segunda-feira, 25 de abril de 2016

As crianças excluídas. Revista E, SESC São Paulo

Meu artigo inédito na Revista "E", do SESC São Paulo, sobre adoção no Brasil.
Em primeira mão para vocês.

Cintia Liana na Revista 'E", SESC São Paulo

 Cintia Liana na Revista 'E", SESC São Paulo




Artigo inédito da psicóloga Cintia Liana Reis de Silva 
para a Revista "E", do SESC São Paulo

"As crianças excluídas"
Por Cintia Liana Reis de Silva

Adoção é uma palavra quem vem do latim adoptare, que significa acolher, cuidar, considerar. É uma das palavras mais bonitas e mais ricas de conteúdo interpretativo do dicionário. A adoção é uma atitude instintiva e complexa, plena de requinte humano e espiritual, onde se acolhe aquele que não veio de você, mas veio para você.

Sou psicóloga e trabalho com adoção de menores desde 2002 e tenho observado que as discussões avançam, aprofundam-se, combatem tabus e educam os mais preconceituosos. E isso se dá graças ao empenho das famílias adotivas, aos grupos de apoio à adoção, a alguns meios de comunicação que tratam do tema de modo responsável e aos militantes brasileiros, que vêm enfrentando desafios, levantando bandeiras, conscientizando a população e não desistem da luta pelas crianças abandonadas por suas famílias.

Mesmo com todas as dificuldades, eu tenho orgulho do meu país, o Brasil. Eu trabalho na Itália desde 2010 e enquanto aqui se discute a aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo, no Brasil algumas já adotam. Enquanto aqui só os casais heterossexuais casados com no mínimo 3 anos de convivência comprovada podem adotar, no Brasil os solteiros também podem. Aqui na Itália a adoção é tão burocrática que os casais acabam decidindo realizar uma adoção internacional, que é custosa, quase igualmente lenta e trabalhosa.

O nosso Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA é um dos mais avançados do mundo, entretanto falta aplicar o que está escrito. Há pessoas trabalhando muito para isso, também sabemos que o contingente de pessoal é absolutamente insuficiente para um trabalho de excelência. 

Procurando facilitar o cruzamento de dados entre adotantes e crianças à espera pela adoção, foi criado em 2008 o Cadastro Nacional de Adoção, o chamado CNA, que após 6 anos de sua implementação ainda não funciona como se deve. Em 12 de maio de 2015, a nova versão, chamada de Novo CNA, foi elaborada pela Corregedoria Nacional de Justiça e, embora esse sistema seja uma ferramenta de extrema importância, ele não funciona com eficiência razoável, e o novo CNA trouxe ainda mais problemas e falhas, sem ter solucionado as deficiências do antigo.

Uma das mudanças foi que na prática se passou a encontrar "crianças para pais, o que fere diretamente os interesses da crianças e vai de encontro ao que preconiza o ECA, pois a lei é inversa, devemos encontrar "pais para uma criança". Do contrário coloca-se em risco o princípio da absoluta prioridade dos direitos da criança e do adolescente.

Embora pareça que a dificuldade em concretizar uma adoção esteja somente relacionada à morosidade da Justiça e às burocracias, Karina Machado Rocha Gurgel, servidora da VIJ-DF e mestre em Psicologia, desconstrói esse mito em seu artigo “A realidade sobre a espera pela adoção: a diferença entre o perfil desejado pelos pais adotantes e as crianças disponíveis para serem adotadas”. "Com base em dados coletados do Cadastro de Adoção do Distrito Federal, Karina demonstra que o perfil pleiteado pelos requerentes é inversamente proporcional ao perfil das crianças cadastradas para adoção, uma vez que mais de 90% das famílias preferem crianças de 0 a 3 anos, que correspondem a pouco mais de 8% das cadastradas. Destaca, ainda, que, em âmbito nacional, a situação é semelhante. (Site TJDFT, 2016)

Num artigo no jornal italiano "La Repubblica", em 19 de dezembro de 2012, o presidente da Ai.Bi. - Associazione Amici dei Bambini, Marco Griffini, explica que são 168 milhões de crianças abandonadas em todo o mundo e para entender esse número, "é necessário imaginar colocar em fila indiana, bem pertinho uma da outra: a linha humana que formam dá uma volta no mundo, é longa como a circunferência da Terra".

Não quero causar desconforto, mas é necessário que todos se imaginem quando pequenos e/ou os seus filhos, numa instituição, sozinhos, sendo cuidados por pessoas que eles não conhecem, sem vínculos afetivos parentais clássicos, tendo um contato escasso com o mundo externo, com a convivência diária com autoridades que podem ser punitivas, rotina impessoal, ordem, submissão, silêncio, colegas abusivos, falta de autonomia, etc. As crianças órfãs em todo o mundo vivem uma realidade de desamparo e sofrimento psicológico ao último grau. Imaginem essas crianças gritando e pedindo a nossa ajuda. Não se resolveu ainda o futuro delas porque passa pela tarefa de olhar para as nossas próprias fragilidades, para a nossa criança ferida interna, passa pela necessidade de sentir aquele desconforto no estômago. Mas não é virando as costas fugindo da responsabilidade - para que não nos sintamos culpados em algum nível - é que vamos modificar essa realidade. É mergulhando em nossa essência, tocando em nossa humanidade e reconhecendo a necessidade de mudar. A tarefa é de todos.

Em meu livro "Filhos da Esperança, os caminhos da adoção e da família e seus aspectos psicológicos" (2012, 2ª ed.) eu explico, entre outras coisas, porque todas as crianças são "adotáveis" e como se preparar para a adoção. Se não deve existir um modelo de família ideal para adotar, então porque achar que deve ter um perfil de criança ideal para adoção? Seria cruel. Se espera por um bebê que ainda será abandonado ou por uma criança que já está precisando nesse exato momento de pai e/ou mãe? Por que não pensar nelas agora? Nas crianças reais? Todos nós merecemos ser amados, tendo resistências e dificuldades emocionais ou não. Quem não tem seus traumas e más lembranças infantis? Alguns adotantes fecham um determinado perfil, uma criança de até 2 anos, parecida com eles, saudável, mas seguramente se eles não forem tão rígidos e exigentes e conhecerem uma, duas ou três crianças, fora daquele perfil idealizado e determinado, poderiam se "apaixonar" por elas. Além de esperar muito menos tempo na fila, e entrar nela uma só vez para ter mais de um filho, a adaptação poderia ser tão boa quanto com uma criança menorzinha, porque mais que a idade, tem que existir identificação, empatia e isso pode ser com qualquer uma, é só estar receptivo para esse encontro. Elas também já sabem o que é adoção e a desejam. Ademais, adotando crianças fisicamente diferentes, com uma etnia diversa, eles estariam enfrentando o preconceito, ao invés de se "esconderem" atrás de uma "falsa semelhança", para que a adoção não pareça tão evidente. Trabalhar os próprios preconceitos e das pessoas ao nosso redor é o primeiro passo para isso. Adote a verdade, que adotar crianças mais crescidas e irmãos não é sempre mais difícil. As adoções difíceis são aquelas feitas por adotantes muito exigentes, inseguros, imaturos, que não dão tempo à criança de se adaptar, não a aceitam e não a entendem, que demonstram uma postura ameaçadora de um possível novo abandono ou pode se tornar difícil pela complexidade das circunstâncias, mas tem sempre um grande aprendizado 

Para acontecer uma adoção é preciso o desejo de amar e fazer dar certo, sem falsas expectativas. A vida de cada um é guiada e limitada pelas crenças ocultas. Investir no autoconhecimento e trabalhar os modelos familiares intergeracionais adoecidos faz parte da preparação. leia mais, pesquise. Em meu blog www.psicologiaeadocao.blogspot.com tem dezenas de textos meus e outros mais sobre adoção e psicologia de família.

Educar e cuidar de um filho é trabalhoso, seja biológico ou adotivo, mas o que faz tudo valer a pena é o amor, a capacidade de ver o lado encantador e mágico, de entender essa dialética, de ver a riqueza desse aprendizado. Quem conhece o amor deve ser capaz de educar os filhos e o mundo aos seu redor e só esse amor pode salvar tudo. Reafirmando um trecho de uma de minhas frases, "amar se aprende".



Revista E, SESC São Paulo

sexta-feira, 4 de março de 2016

A realidade sobre a espera pela adoção: a diferença entre o perfil desejado pelos pais adotantes e o perfil das crianças disponíveis para serem adotadas

Um excelente artigo para se entender porque, entre outros fatores, a fila de adoção ainda é muito longa e lenta.
We Heart it

Servidora da VIJ-DF fala sobre a espera pela adoção
Por NG/SECOM/VIJ-DF — publicado em 03/03/2016 14:3 
Karina Machado Rocha Gurgel, servidora da Seção de Colocação em Família Substituta da VIJ-DF e mestre em Psicologia, desconstrói o mito de que a demora em concretizar a adoção está relacionada com a morosidade da Justiça e as burocracias do processo no artigo “A realidade sobre a espera pela adoção: a diferença entre o perfil desejado pelos pais adotantes e as crianças disponíveis para serem adotadas”.
Com base em dados coletados do Cadastro de Adoção do Distrito Federal, Karina demonstra que o perfil pleiteado pelos requerentes é inversamente proporcional ao perfil das crianças cadastradas para adoção, uma vez que mais de 90% das famílias preferem crianças de 0 a 3 anos, que correspondem a pouco mais de 8% das cadastradas. Destaca, ainda, que, em âmbito nacional, a situação é semelhante, de acordo com pesquisa do Conselho Nacional de Justiça.
A psicóloga ressalta o trabalho realizado pela equipe psicossocial da Vara da Infância e da Juventude do DF para sensibilizar os casais que participam dos grupos de Preparação para Habilitação a acolher grupos de irmãos e crianças maiores ou adolescentes, uma vez que os pretendentes restringem esse perfil.
“A cultura de adoção ainda tem de ser transformada. As pessoas precisam começar a pensar com mais amplitude para que os preconceitos sejam em menor número e intensidade, bem como refletirem sobre seus reais desejos, projetos e sobre a realidade”, pontua Karina.
Leia abaixo o artigo na íntegra. Esse e outros textos da área infantojuvenil estão disponíveis no link Textos e Artigos da página Infância e Juventude do site do TJDFT.
Fonte: http://www.tjdft.jus.br/institucional/imprensa/noticias/2016/marco/servidora-da-vij-df-fala-sobre-a-espera-pela-adocao
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A realidade sobre a espera pela adoção: a diferença entre o perfil desejado pelos pais adotantes e o perfil das crianças disponíveis para serem adotadas
* Karina Machado Rocha Gurgel 
Mestre em Psicologia Clínica e Servidora da Seção de Colocação em Família Substituta da VIJ-DF
O tema adoção no Brasil é cercado de mitos, os quais não correspondem à realidade. Um deles trata sobre a afirmativa da grande quantidade de crianças aptas à adoção em relação a muitos casais que aguardam um filho e, assim, justificam a demora em adotar à morosidade da Justiça e às burocracias do processo. 
O que as pessoas não sabem e se espantam é que há uma discrepância entre o perfil pretendido pelos requerentes e a realidade do Cadastro do Distrito Federal. Muitos se enganam quando afirmam que existe um grande número de crianças em instituição de acolhimento com condições de serem adotadas. A maioria está aguardando reinserção na família de origem. 
A realidade do Cadastro do DF é parecida com a do nacional. Conforme preceitua o Conselho Nacional de Justiça – CNJ (2012, p. 27), “nacionalmente, verifica-se que o perfil das crianças e adolescentes cadastrados no Cadastro Nacional de Adoção – CNA é destoante quando comparado ao perfil das crianças pretendidas, fato que reveste a questão como de grande complexidade”. 
Dados recentes, coletados do Cadastro do DF em 25/2/2016, afirmam que existe um total de 532 famílias habilitadas para adoção, enquanto que crianças e adolescentes perfazem o somatório de 91, o que resulta em 5,8 famílias para cada criança/adolescente cadastrado. Observa-se, assim, que existe um contingente significativamente maior de pessoas interessadas em adotar em relação a crianças e adolescentes aptos à adoção. 
Desse universo de 532 famílias, 515 famílias desejam crianças de 0 até 3 anos de idade, correspondente a 96,8% do total do cadastro; 242 famílias pleiteiam filhos entre 4 e 7 anos de idade, correspondente a 45% do total; 18 famílias querem crianças entre 8 e 10 anos, correspondente a 3% do total; apenas 3 famílias aceitam pré-adolescentes entre 11 e 12 anos, correspondente a 0,57% do total; e nenhuma família acolheria a faixa etária de 13 a 18 anos. 
A realidade numérica das crianças e adolescentes cadastrados para adoção é de apenas 91, sendo estes configurados da seguinte forma: 8 crianças entre 0 e 3 anos de idade, o que corresponde a 8,79% do total; 8 crianças entre 4 e 7 anos, o que corresponde a 8,79% do total; 5 crianças de 8 a 10 anos, o que corresponde a 5,49% do total, 12 crianças de 11 a 12 anos, correspondente a 13,18% da amostra; e 58 adolescentes de 13 a 18 anos, correspondente a 63,73% do total. 
ANEXO 1: (Gráfico referente ao perfil da criança pretendida no DF)

ANEXO 2: (Gráfico referente ao perfil das crianças e adolescentes cadastrados para adoção no DF)

A realidade denota que o perfil pleiteado pelos requerentes é inversamente proporcional ao perfil constante do Cadastro do DF. O gráfico a seguir, retirado de pesquisa do CNJ, é sobre a discrepância dos perfis em âmbito nacional.  
ANEXO 3: (Gráfico referente ao perfil da criança pretendida e ao das crianças e adolescentes cadastrados para adoção em âmbito nacional)
Fonte: Conselho Nacional de Justiça (Elaboração: Departamento de Pesquisas Judiciárias) 
Para cada criança cadastrada para adoção há quase 6 famílias dispostas a acolhê- la. Se for contabilizado apenas dentro do perfil desejado de até 12 anos, esse número aumenta para 16 famílias por criança. Porém, a diferença entre o perfil idealizado e o mundo real é o grande obstáculo à redução da enorme fila de espera. Importante destacar que entre as crianças disponíveis de 0 a 10 anos estão aquelas em estágio de convivência e as que fazem parte de grupos de irmãos aguardando famílias. 
Outro elemento que costuma ser sério entrave à saída de crianças e adolescentes das instituições de acolhimento é a baixa disposição dos pretendentes para acolher grupos de irmãos, principalmente os acima de dois. Entre as crianças aptas à adoção, 47%, ou seja, 43 crianças fazem parte de grupos de irmãos e a prioridade é de que elas não sejam separadas, o que diminui as chances de encontrarem família. Além disso, as condições de saúde vêm a ser outra barreira, muitas vezes difícil de ser vencida. 
As explicações para o desinteresse dos brasileiros em acolher crianças maiores ou adolescentes estão na motivação de uma família a pleitear uma adoção. Segundo Maux e Dutra (2010, p. 3): 
Em uma pesquisa realizada por Weber (2006) envolvendo famílias de vários estados do país, 50% dos entrevistados trouxeram como motivação para a adoção o fato de não terem os próprios filhos (incluindo-se aí aqueles que desejavam escolher o sexo da criança ou problemas de infertilidade para gerar o segundo filho). Para aqueles que não possuíam filhos biológicos, a infertilidade foi apresentada como motivação por mais de 80% dos respondentes. 
Outro fator a ser considerado é o tempo de acolhimento institucional da criança e o preconceito com relação às crianças maiores, pois os pais adotantes acreditam que não podem moldar o comportamento delas, uma vez que elas têm um passado, uma história e, assim, mais consciência dos traumas vivenciados, além de personalidade mais definida. Em contrapartida, a maioria das nossas relações é com pessoas de criações diferentes e, dessa forma, crescemos e aprendemos com elas. Os candidatos a pais alegam também que evitam a adoção tardia pela adaptação à família poder ser mais difícil e trabalhosa. 
Os grupos de Preparação para Habilitação orientados pela Vara da Infância e da Juventude do DF tentam sensibilizar os requerentes para adoções tardias e de grupos de irmãos, embora sempre respeitem o desejo e as condições deles, a fim de que não ocorram as indesejadas devoluções. Muitas pessoas, porém, podem até ter o sonho de adotar mais de uma criança, mas enfrentam obstáculos que vão muito além das próprias capacidades de superá-los. Por exemplo, os encargos financeiros referentes à criação de um filho. 
As sensibilizações pela adoção tardia e por grupo de irmãos têm feito crianças mais velhas e seus irmãos serem adotados com menos dificuldades. A cultura de adoção ainda tem de ser transformada. As pessoas precisam começar a pensar com mais amplitude para que os preconceitos sejam em menor número e intensidade, bem como refletirem sobre seus reais desejos, projetos e sobre a realidade. 
O fato de os pretendentes definirem um perfil clássico à adoção, que é de acolher um bebê, gera um tempo considerável de espera para que a adoção aconteça. A reflexão que os futuros pais precisam ter na hora de escolherem o perfil, no tocante à idade, precisa ser cautelosa, pois eles têm de analisar duas variáveis importantes para eles: de um lado, o desejo deles de acolher um bebê; de outro, o tempo de espera para ter seu filho. 
O perfil não deve ser definido exclusivamente em função do tempo de espera. É preciso que a família encontre um equilíbrio entre o perfil desejado – com a possível ampliação para a adoção tardia, de grupos de irmãos e de crianças com necessidades específicas de saúde ou deficiências – e os recursos emocionais ou financeiros que possui, a fim de garantir o verdadeiro acolhimento dessa criança ou adolescente como filho. 
Despertar os casais, imbuídos de desejos, para a realidade do Cadastro de Adoção e adequar os perfis às possibilidades é algo delicado, mas bastante trabalhado pela equipe psicossocial da adoção da Vara da Infância e da Juventude do DF nos grupos de Preparação para Habilitação dos casais pretendentes à adoção, muito embora ainda se torne necessário fomentar políticas públicas em prol da adoção tardia, inter-racial e intergrupal. 

REFERÊNCIAS: ENCONTROS E DESENCONTROS DA ADOÇÃO NO BRASIL: uma análise do Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça. Disponível em: Acesso em 23 fev. 2016. Maux, A. A. B e Dutra, E. A adoção no Brasil: algumas reflexões. Disponível em: Acesso em 26 fev. 2016.
Fonte: http://www.tjdft.jus.br/cidadaos/infancia-e-juventude/textos-e-artigos/a-realidade-sobre-a-espera-pela-adocao-a-diferenca-entre-o-perfil-desejado-pelos-pais-adotantes-e-as-criancas-disponiveis-para-serem-adotadas

domingo, 6 de junho de 2010

Avaliação Psicológica para Adoção

Foto: Cintia Liana com Isabela, sua estagiária de Psicologia, e Priscila, secretária, em 2007.

Os interessados em adotar passam por avaliação psicológica com perito da vara da infância, que emite um parecer favorável ou desfavorável sobre a habilitação daquela pessoa ou casal e, para isso, se respalda em teorias científicas psicológicas. Esse parecer respaldará a sentença do Juiz, mas não é determinante.

Normalmente a avaliação é feita em forma de entrevista psicológica, onde o profissional saberá o número necessário de encontros que pode variar entre uma ou mais entrevistas, onde são verificados estrutura familiar dos requerentes, comportamento, pensamentos, crenças, inseguranças, medos, preconceitos, se as expectativas condizem com a realidade, perfil da criança desejada, os motivos do desejo deste perfil, o que pensam da paternidade, maternidade e educação e a motivação verdadeira (inconsciente) que leva o requerente a pleitear a adoção, que deve ser baseada em cima de um desejo legítimo de ter um filho, não por outro motivo, por companhia ou caridade, filho não deve ser visto como companhia, ele é quem precisa de companhia e cuidados, e caridade é algo pontual e um filho é para vida toda, é uma relação fortíssima, que irá se estabelecer e fortalecer durante toda a vida, assim como na parentalidade biológica, se houver a desejo.

O psicólogo pode utilizar técnicas de avaliação como um teste projetivo de personalidade para a análise mais aprofundada da psiquê dos requentes. Eu, além das entrevistas e do teste, realizava reuniões onde dava palestras, acolhia as dúvidas, respondia a todas perguntas e conversávamos sobre os sentimentos que surgem no processo de "gestação emocional", com a espera do filho adotivo.

Para adotar se deve ter mais de 18 anos, mais velho 16 anos que o adotado, que não sejam avós ou irmãos e que ame a criança verdadeiramente como filho. É essencial que seja uma pessoa saudável, que tenha uma vida responsável, que saiba assumir compromissos, principalmente com relação a futura paternidade, que deseje vivê-la e que isso seja legitimo e não para mostrar nada a ninguém, que possa dar uma vida digna a um filho.

Adotantes casais não são mais bem parados que adotantes solteiros, heterossexuais não são mais maduros que homossexuais, tudo vai depender da pessoa e não dessas condições.

Na época em que eu era perita e coordenadora do serviço de psicologia de uma Vara da Infância e Juventude eu realizava palestras e reuniões, que muitas vezes eram confundidas com "cursos". Esse nome não era muito bem vindo, pois antes o Judiciário não podia "preparar" e há alguns meses o curso de adotantes se tornou obrigatório e o Judiciário tem que oferecer.

Acho excelente esse espaço de acolhimento, reflexão, pois todos alí estão no mesmo barco, esperando, cheios de dúvidas, medos, expectativas, alegres, vibrando com essa “gravidez emocional” e todos acham maravilhoso compartilhar emoções e sentimentos. Isso valida e mostra que o que eles sentem é importante, que não estão sozinhos e traz uma sensação de respeito por esta espera tão importante que leva ao amadurecimento de diversas questões voltadas para a parentalidade, que é sempre reafirmada com a ida ao Judiciário. Se também existissem grupos de reflexão e preparação para a paternidade biológica o mundo estaria bem diferente.

Usar a adoção para outra coisa que não seja para a realização da paternidade é algo que o perito deve avaliar também e é algo muito sério. Usar a adoção para salvar o casamento, por exemplo, pode fazer o casal se separar ainda em processo de adoção, pois tudo vem a tona, a adoção é um processo de nascimento, renascimento da família, é um "parto". Os estudos mostram que tudo pode acontecer nestes casos mas, no geral, desaconselho totalmente qualquer uso da adoção que não seja para a realização legítima da parentalidade. Se não está preparado procure ajuda, faça terapia, melhore sua realidade e só depois procure se habilitar. A criança não espera pais perfeitos, isso não existe, mas espera alguém que possa dar-lhe uma boa base suportiva para a sua caminhada, principalmente no momento de sua chegada, na adaptação.

Ao mesmo tempo que devemos ser muito rigorosos com a avaliação, os estudos mostram que é preciso enxergarmos a capacidade de aprendizado, transformação das pessoas, de reconstrução de sua própria história, de construção do apego, do fascínio da capacidade de amar e não uma compreensão moralista e alienada em relação a consciência sócio histórica da família.

Como diz Lídia Weber (2008), devemos abandonar o pensamento tradicional e desenvolver um pensamento pós-moderno, pensamento este que entende que o ser humano tem capacidade de abarcar sistemas que são móveis e esse espaço é atemporal e ilimitado e demanda e permite um pensamento híbrido, abertura e transformação em todos os setores da vida. O pensamento conquistado na pós-modernidade é o pensamento “transdisciplinar, transparente, que lida com a possibilidade do ser-e-não-ser e com as infinitas cores do jogo de luzes de um caleidoscópio”. Fluidez paradgmática também é outra característica do pensamento pós-moderno, o que não mais permite a postura maniqueísta e parcial, pois existe uma gama de solicitações existenciais. É preciso ajustar o velho com o novo e adquirirmos equilíbrio nesse momento de revolução paradigmática. Quem está apto a selecionar “bons pais” em duas ou três entrevistas psicológicas?

Neste sentido, relembro da frase do construcionismo social que diz que “o olhar do observador deforma a realidade”, ou seja, todas as nossas observações, análises sentimentos e percepções frente ao objeto, a um acontecimento, a uma pessoa, é vista e sentida de acordo com a nossa bagagem, a nossa história anterior, essa forma está relacionada com o que aprendemos. Então não existe neutralidade absoluta e que o terapeuta, por exemplo, vê o paciente de uma forma peculiar que, por mais que exercite a neutralidade, a forma como ele vê é muito própria e está influenciada, contaminada por seu olhar carregado de sua história pessoal.

O bom psicólogo deve perceber que não é infalível, deve ver a sua participação no cenário e enxergar tudo isso, além de analisar essas tantas outras variáveis. O bom psicólogo também traz dúvidas ao processo, as dúvidas podem nos trazer outras riquezas no olhar e isso deve ser discutido com o Juiz, se necessário e possível, é claro.

Nós, analistas, observadores do comportamento nunca conseguiremos fazer uma análise igual entre nós, pois os analistas são pessoas diferentes. Diz o construcionismo que não somos "experts", nem engenheiros sociais, pois a realidade não é objetiva, nem representacional. Devemos ser arquitetos do diálogo, numa relação democrática, enxergando identidades não fixas e nos dando chances sempre de melhorar tudo e mostrando ao outro que também é capaz de construir novos significados.
Bateson desenvolveu uma concepção do processo interacional e suas indagações antropológicas e compartilha com outros teóricos a importância de introjetarmos o referencial da cibernética simples e da cibernética da cibernética na relação terapêutica. Principalmente no que diz respeito a segunda, que defende a ordem de recursão e reconhece o observador como parte integral do sistema observado, afastando qualquer premissa de “objetividade”, indo além dela e da subjetividade, como propõe a cibernética da cibernética. (BATESON apud REY, 2005).

Rey (2005) explica que Bateson defende que o melhor caminho seja a ética, pois para compreendermos os elementos fundamentais da epistemologia percebemos que ao “conhecer”, devemos observar que a visão do terapeuta fala também dele mesmo, a visão do observador participa do observado.

No que diz respeito a psicoterapia propriamente dita - e que não deixa de conter nela um grau de avaliação, e avaliação essa que é feita de forma direta nos setores de adoção - a concepção de uma epistemologia auto-referencial situa o terapeuta plenamente dentro da terapia e vai de encontro com o conceito de que a família atua como uma “caixa preta” e o terapeuta não atua neste sistema. Ele declara que qualquer mecanismo está circunscrito por ordens superiores de controle de retroalimentação, ou seja, a partir do momento que o terapeuta se insere no sistema, representa uma ordem superior. Nesta ordem superior de recursão, o terapeuta faz parte do sistema como totalidade e está sujeito às implicações e restrições de sua retroalimentação. Deste modo, é impossível exercer um controle unilateral, e pode ora facilitar, ora bloquear, a auto-correção indispensável.

Ao entendermos que o terapeuta está entrelaçado com o cliente, entendemos que a descrição do observador descreve mais ele mesmo do que o acontecimento. E nesta perspectiva, poderemos aprender continuamente em nosso trabalho clínico na relação com o cliente, tendo como base nossas próprias formulações e hipóteses, contribuindo para uma epistemologia do nosso próprio trabalho, da nossa própria atuação e de nós mesmos.

Edgard Morin (apud SANTOS, s/d) diz que “a ciência não é somente uma acumulação de verdades verdadeiras (...) é um campo sempre aberto onde se combatem não só as teorias, mas também os princípios da explicação, isto é, também as visões de mundo e os postulados metafísicos”.

Santos (s/d) também cita Paulo Freire que diz, “tenho pena e, às vezes, medo do cientista demasiado seguro da segurança, senhor da verdade e que não suspeita sequer da historicidade do próprio saber”.

O bom psicólogo que avalia candidatos a adoção, além de muita sensibilidade, deve ter muito estudo e humildade. Devemos proteger as crianças e respeitar os cidadãos.


Referência:
Encontra-se completa na barra direita de livros sobre adoção.

Por Cintia Liana

Livro da Psicóloga Cintia Liana sobre o percurso de construção da família através da adoção e seus aspectos psicológicos
Para comprar ou visualizar:
http://www.agbook.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca
(2ª Edição - 2012)