"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

terça-feira, 24 de junho de 2014

Não deixe um bebê chorar

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Por Kalu Brum - Blog Vila Mamífera/ Café Mãe
De todas as teorias do universo materno, as que me assustam são: não dar colo para o bebê, regular a amamentação em horários cronológicos e deixar o bebê chorando. Elas me pegam na alma.
Bebes não sabem falar, nasceram em um ambiente aquático, escuro, cheio de movimento e calor e estão do lado de fora.
Precisam ser alimentados, estranham. Descobrem no peito uma maneira de ter o aconchego pleno.

Basta ver uma cadela: quando o filhote chora a mãe corre e aconchega. Bebês não choram a toa e se choram estão pedindo:

- Por favor me ajude
Ajude a dormir, a enfrentar a solidão, a lidar com a temperatura que oscila.
Quando um bebê pede colo ele está reconhecendo que você é uma segurança.
Quando você nega esse colo ele pode se acostumar com a negligência e resignar-se. Mas ele não está feliz.
Eu adoro o conceito: permita que as crianças sejam dependentes no momento em que podem ser, para que sejam independentes para toda a vida.
O que mais vejo neste mundo são pessoas dependentes e resignadas.
Dependentes de comida, de medicamentos, de sexo, de necessidade de aceitação.
São, algumas vezes, sobreviventes de pequenos ou grandes abandonos.
Algumas vezes vendo esses programas que difundem a idéia da Torturadora de bebês eu sinto algo inexplicável: eu choro com a mãe que chora, com o filho que dorme soluçando.
Não há nada mais fácil e prazeroso para mãe e bebê do que deitar junto com o bebe e dormir agarradinho.
É tão rápido que eles crescem. O que são 3 anos diante de uma vida toda?
Queremos tanto a independência precoce, exaltamos isso como troféu e depois questionamos onde se perdeu esse fio.
Eu vejo idosos abandonados com cuidadores ou em asilos e vejo ali o reflexo de uma sociedade que fecha os olhos para os dependentes trocando o amor por tecnologia, chupeta, mamadeira, berço que balança e no fim, uma cama fria e olhos de uma profissional contratada.
Assim começa a vida, assim ela termina. No meio um grande vazio que tentamos preencher. Um vazio cultivado em nome dessa ilusória independência precoce.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O amor caótico e equivocado das novelas de Manoel Carlos

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Por Cintia Liana Reis de Silva

Vamos falar um pouquinho da dinâmica emocional de alguns “amores” da novela “Em Família”? 

As novelas de Manoel Carlos são de fato batidas e refletem os modelos de conduta, conflitos e de funcionamento relacional mais medíocres e repetitivos. Já contaram quantos triângulos amorosos tem nessa novela? Como se o delicioso da vida fosse viver assim. É preciso desenvolver mais educação e estabilidade emocional.

O autor sustenta crenças sobre o amor dramático, agressivo, passional e conflituoso (o confunde com uma paixão egoísta); sobre o ser homem; o ser mulher e sobre as relações familiares de fato mais que superficiais. O médico é o Deus que tudo pode, domina, detém todo o conhecimento e ninguém procura um bendito psicólogo para fazer uma terapia. Que desperdício. 

Já pensaram se a Helena tivesse feito terapia? Que maravilha poderia ter sido... Ela seria bem resolvida agora e talvez a filha não estivesse cumprindo um “mandato familiar” na forma de tradição. Existe alí um processo de projeção familiar transmitido pela imaturidade e baixo nível de diferenciação do self da sua mãe. 

Darei dois exemplos de crenças que se referem ao dito “amor”:
Shirley, uma mulher de inteligência mediana, pensa ser exótica, mas é leviana, sem princípios, sincera quando lhe convém e muito, mas muito competitiva. Pai alcoólatra e mãe ausente afetivamente. Teve filhos com um objetivo claro de receber um benefício secundário, que não só o de ser mãe e amá-los, mas um para ter uma “ligação” com o pai desse filho e a outra por dinheiro. Passou sua vida apegada à crença de que ama o Laerte. Mas será que ela o ama de fato? Claro que não. Ela estabeleceu lá atrás uma competição velada com a Helena e se apaixonou por viver o triângulo amoroso. Ela ama a possibilidade de vencer essa competição, de mostrar a essa outra mulher, que pode representar neste caso a sua própria mãe, que ela é melhor e para isso ela justifica essa “perseguição” por esse “amor” (paixão, pois isso não é amor) como uma coisa espiritual, exotérica, misteriosa, ou seja, quando as pessoas querem algo e não aceitam que não podem ter procuram explicações em outras vidas e nos mistérios para não aceitar o que está na frente delas, ou melhor, dentro delas, no presente, no aqui e no agora, nas próprias dificuldades emocionais, psíquicas, afetivas.

A outra é a Clara, que inicia e viver uma paixão (não tem nada a ver entrar no mérito se essa paixão é homossexual ou não) e o seu marido adoece e chega a fazer um transplante de coração. Que o marido ficou doente pelo seu estado emotivo, pelo que sentia em casa, não existe dúvidas. E nesse cenário caótico, onde afeta também o filho, ela continua a ver e a se relacionar com a pessoa que diz amar tanto quanto o marido, a viver o seu sentimento adolescente, como se não pudesse evitar algo do tipo quando se é adulto, mesmo quando isso adoece toda a família. 

Cada um pode trabalhar as suas próprias emoções e fazer escolhas conscientes e sadias, mas é preciso conhecimento, prática e terapia, ou seja, assim se pode "mandar no próprio coração". 

O Cadu, por sua vez, ao invés de se aproximar da mulher fez o contrário, agindo de forma infantil, baseado no “ego ideal”, com um baixo nível de “deferenciação do self”, começou a acusá-la e a agredí-la, se afastando ainda mais e dificultando o diálogo maduro do casal, agindo como “o rejeitado e o injustiçado”. 

Esses são pequenos e breves exemplos que nos fazem refletir como a postura das pessoas na vida real pode ser melhor, mais madura, responsável com quem diz amar e diferenciada, agindo como um adulto responsivo. 

As novelas estão longe de serem materiais educativos, mas como já fiz referência em outro texto, depende do grau de maturidade e lucidez de quem a assiste para poder tirar algum proveito. Eu aproveito para escrever um pouquinho sobre psicologia de família e trazer algum assunto interessante para o meu leitor.

Termino esse texto com uma frase minha que está sendo muito difundida na internet: “O amor não é cego, quem é cega é a paixão. O amor é intuitivo, honesto, generoso, justo. Quem experimenta o amor se ilumina. O amor é o sentimento do homens maduros”. 

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e escritora, especialista em psicologia conjugal, familiar e adoção. Seu blog recebe mais de 15.000 visitas ao mês, o www.psicologiaeadocao.blogspot.com.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pai quando dá

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Por Camila Fernandes
Mãe, meu pai vem quando?”, Queria ficar com meu pai”.
O que trago aqui é algo bem comum de se encontrar, embora seja difícil de explicar. Coisa estranha, em geral as pessoas convivem bem com este tipo de pai, ainda que saibam que o que eles fazem, ou melhor, o que não fazem, rebatem nas vidas de todos os que estão a sua volta.
Eu vou falar daquele homem que é pai quando dá.
É mais ou menos assim que a coisa se desenrola: houve uma separação, que entre trancos e barrancos se realizou. A criança fica sob a guarda da mãe, pois isto é o esperado por todos e o naturalmente aceito pela sociedade. O pai se encarrega de contribuir com a chamada pensão alimentícia, isto pode ser feito através de uma imposição de justiça ou ele pode ser um “cara legal” e “ajudar” voluntariamente. Além de contribuir com parte das despesas da criança, ele geralmente passa os finais de semana com o filho ou filha quinzenalmente. Parece que comparecer quinzenalmente é o tempo suficiente pra ser pai. Nem todos os pais quando dá são iguais, existem aqueles que aparecem durante a semana, vez em quando pegam o filho na escola, dão um sorvete.
Os julgamentos e expectativas do mundo afora são relativamente razoáveis para o pai quando dá. O pai quando dá na maioria das vezes é considerado como um bom pai, afinal, ele comparece sempre que pode. O pai quando dá também pode ser considerado como vítima, porque, coitado, ele tem que trabalhar tanto para pagar a pensão do filho, teve até que aprender a cozinhar. E para poucas pessoas, o pai quando dá é realmente um descarado, mas isto é no fundo no fundo coisa de feminista chata que reclama de tudo.
A mulher, a mãe, aquela tão conhecida, fica responsável pela criação da criança no cotidiano (cotidiano aqui resume todas as adversidades e demandas diárias geradas pela vida de uma criança). Porque, sabe? Não é sempre que o pai quando dá pode assumir este cotidiano. Porque este tipo de pai quase nunca pode ficar com seu filho. Ele tem muitos motivos para não poder: ele está reestruturando a sua vida; ele está desempregado; ele trabalha quarenta horas; ele não tem mãe nem empregada pra ajudar; a casa dele é pequena; ele não tem carro; ele é um pobre coitado; coitado dele. Vamos ser compreensivos! O pai quando dá realmente nunca pode ficar, porque ele trabalha muito, é operário, artista, engenheiro, empresário. E quando ele está desempregado, ele também não pode ficar porque está deprimido e sem dinheiro.
Mas a mulher trabalha também!”, alguns vão lembrar. Mas isto não importa. É que a mulher já está mais acostumada, sabe? Ela trabalha, cuida de criança, se preocupa, leva o lanche que a criança esqueceu em casa, auxilia no dever de casa, leva ao pediatra, arruma um cursinho naquele tempo livre que a escola não cobre, paga alguém pra ficar com o filho, adia a compra de algo para dar uma vida melhor pra criança. Enfim, ela se vira nos trinta e como se pode. Parece que mulher tem o dom natural da “viração”.
Quando a mãe tem “a sorte de casar” ou “arrumar um namorado”, porque cá entre nós, não tem coisa pior na vida do que ser “mãe solteira”. Um “título” que realmente não cai bem em ninguém e que só existe para o gênero feminino, porque até hoje eu nunca conheci um “pai solteiro”. E se conhecesse acho que isto pegaria bem pra ele, porque seria fofo e bonitinho. Pois bem, quando a mãe trata de “ajeitar” sua vida, o pai quando dá, dá logo um jeito de se fazer presente. Ele aparece para lembrar que a criança tem um pai! E que ele precisa garantir que ninguém está ali para ocupar o lugar legítimo dele. Entretanto, se a mulher tem outro filho nesta nova relação, o pai quando dá pode mudar de atitude e pode vir até a cortar a relação com o primeiro filho. Deve ser porque, se a mulher teve um filho com outro, isto quer dizer agora que ele não tem as mesmas obrigações. Porque se ela foi ter filho com outro, então ele não tem mais nada a ver com isto. Algo se rompeu na pureza da mulher, pureza esta que praticamente de nada lhe adiantava. Mas quando o pai quando dá tem outro filho com outra mulher, ele pode muitas vezes se mostrar um pai presente para o seu segundo filho. Não que isto mude qualquer coisa para a coitada da primeira criança, que teve a infelicidade de ser filho daquela mãe.
Os filhos.
Os filhos criam uma “Super Adoração” pelo pai quando dá e muitas vezes entram em conflito com a mãe, aquela que se encarrega do cuidado deles dia após dia. Convenhamos, tem coisa mais chata que ter mãe todos os dias? Aquela doida que está sempre ali preocupada, com ares de desorganização e que ás vezes transmite a nítida impressão que alguma coisa tem de errado com ela. Legal mesmo é o pai quando dá! Que encaixa a criança onde pode. Quem não exerce mais fascínio do que aquele homem herói que surge como um relâmpago e só aparece de vez em quando? Que como num lampejo de cometa se materializa, do nada, cheio de fantasias, e quando vai embora deixa apenas o arfar daquele suspiro infantil, tal qual uma abóbora que se desvanece após a badalada da meia noite. Um verdadeiro conto de fadas, um conto para crianças, de autoria do pai quando dá.
Ele não se julga, nem se acha ruim, pois sempre olha para o lado e diz: “mas o Renato é pior do que eu”, “o João nunca vê a filha”, “o Marcelo nunca deu um centavo”, “o Luis, ah! Aquele ali comeu e foi embora”. “Eu pelo menos apareço quando dá e pago o que posso.” Isto lhe faz dormir em paz.
E quando ele aparece, ele quer saber como tudo ocorreu naquela semana, ou como foi durante todo o mês em que ele esteve ausente. Ausente não! O pai quando dá não é ausente, ele é ocupado. E se algo está “dando errado” na vida da criança ele questiona, “Mas você é a mãe dela?”, “Ele tem que te respeitar!”, “A adulta é você!”, “Criança não tem vontade”. O pai quando dá entende muito de educar. O modelo de educação a distância deve ter se inspirado na pessoa do pai quando dá.
Quando ele pega o filho ou filha, naqueles momentos que são raros e que a mãe enfim poderia ficar tranquila, ele ainda dá um jeito de mostrar que as coisas não são tão fáceis assim. Ou ele dificulta a comunicação, ou nunca chega no horário combinado, ele se atrasa para chegar, ele não consegue cumprir os acordos, mas o que é isso de acordo afinal? Ele devolve o filho na hora que dá, na hora que está melhor pra ele. E quando a criança fica doente quando está com ele, à culpa é da mãe que mandou a criança doente, ele não pode ir à farmácia nem ao hospital, pois isto é coisa de mãe. Mae desnaturada.
Se a criança não come, foi à mãe, que afinal é quem fica com ela todos os dias que não a educou direito. Se a criança vai mal na escola é porque a mãe não está acompanhado nas tarefas escolares. Se a criança não passeia no final de semana é porque, como se não bastasse toda esta negligência, ainda por cima a mãe quer ter um pouco de vida própria e sair à noite com seu namorado, ou marido, ou amigos e amigas. Mas veja só, que folga! Não entendeu ainda que ser mãe é viver em função do filho e se alienar para o mundo?
A família e os amigos do pai quando dá geralmente exercem certa condescendência com este tipo social. Ninguém nunca o confronta. Ninguém nunca o questiona porque ele é pai somente quando dá. A sociedade tolera estes homens, porque se a mulher já sabia que ele era assim porque diabos foi engravidar dele, né? A culpa, é claro, foi desta desprecavida. Pensasse duas vezes na hora de escolher o pai desta criança.
É que também o pai quando dá não é uma pessoa ruim, não. Ele é um excelente companheiro de trabalho, prestativo, atento. Ele é um amigo de todas as horas. Gente “boaça”. Ele se preocupa com a política, ele ás vezes é até de esquerda, militante de um mundo melhor. Ele vive postando fotos com o filho nas redes sociais. Ele pode não comparecer toda hora, mas que ele ama, isto sim, ah, ele ama esta criança.
Ele inclusive pode estar bem próximo de você, ser até o seu marido, namorado, companheiro, que quando dá resolve lhe “ajudar”, lavando umas vasilhas, olhando as crianças enquanto você toma aquele banho tão esperado o dia inteiro.
Ele infelizmente não percebe nem enxerga que o preço de sua liberdade e de sua mobilidade se faz à custa da territorialização da mulher e do tempo feminino. E que todas às vezes que ele sai pela rua sozinho, caminhando com as suas próprias pernas, é porque tem uma mulher que está fazendo o trabalho de cuidado de seu filho. Sim, porque um dos poderes que o pai quando dá tem é de transformar a atividade de cuidado em um contínuo repleto de sacrifícios. Ele acha que ser pai no cotidiano é coisa de “país de primeiro mundo”. Porque no Brasil não tem isto não, o normal aqui é ser pai quando dá.
Triste e pálido é quando precisamos usar da ironia para provocar o reconhecimento de uma situação lancinante que ocorre não só as mães, mas a todas as mulheres e outros que cuidam daqueles que são filhos de pais quando dá. Em tempos que se discutem a plausibilidade do “abandono afetivo” e da “alienação parental”, é inegável que estas categorias jurídicas, psicológicas e sociais falam em alguma medida desta figura da ausência, do afastamento que insiste em se fazer presente. Porque existe um lugar que não foi apropriado bem como expectativas não correspondidas. Isto não quer dizer que as pessoas não recriem suas vidas, que não existam outros ricos laços para além do pai, que as trajetórias sejam dependentes da figura paterna num delírio compulsório da família nuclear, e que todos estejam fadados ao atavismo biológico incontornável e insubstituível. Não. Isto simplesmente só quer dizer que existem contextos com crianças que, sim, adorariam ter um pai que participa e intervém um pouco mais do que quando dá. E que existem mulheres que poderiam viver suas vidas de forma mais equilibrada, sem tanto sofrimento, se não fosse pelo tamanho do peso que a displicência e conveniência de uns em relação a outrem pode provocar.
E você, conhece algum pai quando dá? Estamos montando um texto colaborativo com as ideias que estamos recebendo. Envie sua história ou sugestão para paiquandoda@gmail.com.
Camila Fernandes é doutoranda em Antropologia no Museu Nacional/PPGAS/UFRJ e estuda o compartilhamento do cuidado de crianças. Email de contato: fernandesv.camila@gmail.com Ou, para quem quiser colaborar mais com esta discussão escreva para: paiquandoda@gmail.co
Fonte: http://femmaterna.com.br/pai-quando-da

sábado, 12 de abril de 2014

Ligaram-me para conhecer uma criança! E agora?

We Heart it
 
Por Rosana Ribeiro da Silva
Olá, pessoal! Voltei para falar um pouco sob os aspectos jurídicos da “ligação”! São vários pontos que devemos discutir para que tudo corra o mais tranquilamente possível. Vamos lá?
A primeira coisa que devem saber é que a criança pode ou não já estar destituída, logo é a primeira pergunta que vocês devem fazer ao técnico da vara da infância e juventude que fizer o contato.
Vejamos as respostas possíveis e suas implicações!
A criança pode ainda não estar destituída, podendo estar em processo de destituição ou ainda sequer existir ação de destituição em curso!
Se lhe disserem que a ação de destituição ainda não foi movida de regra isso significará que vocês é que deverão mover ação de destituição do poder familiar cumulada com adoção.
Importante que pergunte, se lhe disserem que a criança ainda não está destituída, se há ou não ação de destituição já iniciada pelo Ministério Público. Se não houver, questionem já neste primeiro contato se o MP moverá a ação ou se o adotante é quem deverá providenciar também a destituição.
Assim vocês poderá já decidir se aceitarão ou não a criança motivo do contato caso não queiram ter o gasto com a ação de destituição cumulada com a ação de adoção.
Bom, então temos que se a criança não estiver destituída ela poderá estar em processo de destituição movido pelo Ministério Público ou ainda sem ação em curso. Neste último caso o adotante deve questionar se o MP moverá ou se ele próprio é quem deve providenciar contratação de advogado para mover ação de adoção cumulada com destituição.
Se a ação de destituição estiver em curso movida pelo Ministério Público ou se a criança já estiver destituída a próxima pergunta a ser feita é: deverei mover ação de adoção ou a própria vara providenciará administrativamente a adoção?
Esta pergunta é importante pois há varas onde o juiz determina que a adoção, quando não cumulada com destituição do poder familiar e por isso é dito procedimento de jurisdição voluntária, se processe em cartório, dispensava a assistência de advogado.
Neste caso os adotantes ao receberem a guarda provisória da criança assinam um termo declarando que a querem adotar e a partir desta declaração, finda definitivamente a destituição, será processada a adoção e intimados os adotantes da sentença concessiva da adoção.
Todavia, este tipo de entendimento da legislação infanto-juvenil não é o mais comum. De regra os juízes entender ser necessária a propositura de ação de adoção pelos adotantes e isso implicará em contratação e advogado para propor e acompanhar o andamento do processo.
Se este for o entendimento (que é hoje majoritário) do juiz da comarca de origem da criança, a pergunta seguinte será: devo contratar advogado e propor a ação de adoção onde??
Há juízes que entendem que a ação de adoção deve ser proposta na comarca de origem da criança, pois a guarda provisória para fins de adoção só poderá ser concedida dentro de um processo de adoção já proposto. Ou seja, sem ação de adoção já proposta não seria possível a concessão da guarda provisória, logo ou você deverá contratar advogado para propor esta ação ou então assinará o termo de interesse na adoção da criança e dentro do procedimento assim instaurado terá a guarda concedida.
No caso da comarca exigir a contratação de advogado para mover a ação de adoção para nela ser concedida a guarda provisória e você for de outro Estado, você deverá decidir onde contratará. Se a ação for só de adoção, sem cumulação com destituição, o procedimento não é tão complexo e você poderá contratar o advogado de sua confiança independentemente de onde seja o seu escritório. Eventuais atos que devam ser praticados poderão ser via protocolo integrado ou por advogados colaboradores. Se houver cumulação de adoção com destituição o advogado deverá ser da cidade de origem pois é lá o domicílio dos genitores a serem destituídos.
Há, todavia, juízes que concedem a guarda provisória sem haver ainda processo de adoção em curso e, numa interpretação literal da lei (ECA), assim temos que esta ação deverá ser proposta no domicílio dos adotantes, pois são eles os guardiões da criança adotanda. Mas ainda assim há juízes que exigem que a ação de adoção, mesmo nestes casos, seja proposta na comarca de origem da criança.
O processo de adoção, por expressa previsão legal, é isento de custas. Ou seja, não haverá recolhimento de quaisquer valores a título de custa de andamento processual.
Isso, todavia não quer dizer que vocês estão dispensados de pagar honorários advocatícios!!
Uma coisa são as custas processuais e outra bem distinta são os honorários cabíveis ao advogado por sua contratação, como profissional, para condução do processo de adoção em juízo. Os honorários são devidos a todos os advogados que forem contratados para propor e acompanhar ações em juízo, inclusive as de adoção.
Há comarcas que possuem a Defensoria Pública. Em alguns Estados a DP move todas as ações de adoção pelos adotantes, mas na maioria isso não ocorre, movendo a ação apenas no caso de os adotantes serem pobre segundo critérios definidos por ela.
No Rio de Janeiro e no Distrito Federal, por exemplo, a ação de adoção poderá ser movida pela Defensoria Pública mesmo que os adotantes tenham boas condições econômicas. Isso não ocorre em outros Estados.
Assim temos resumidamente o seguinte: ao receber a ligação devo perguntar:
1. A criança já está destituída?
2. Se não, já há ação de destituição em curso movida pelo MP?
3. Se não houver, ele moverá ou eu deverei mover a ação de destituição?
4. Se a criança já estiver destituída deverei propor ação de adoção ou ela correrá administrativamente sem necessidade de contratação de advogado?
5. Se houver necessidade de propositura da ação de adoção com contratação de advogado, eu deverei propor a ação para receber a guarda da criança ou a receberei sem ainda existir processo de adoção em curso?
6. Se eu receber a guarda provisória sem ainda existir processo de adoção em curso, eu poderei mover a ação de adoção na minha comarca ou terei de propor na comarca de origem da criança?
7. Se eu tiver de mover ação de adoção (na comarca da criança ou na minha) poderei fazer uso da Defensoria Pública ou terei de contratar advogado particular?
Bom, aqui temos um resumão do que é importante, do ponto de vista jurídico, ser questionado ANTES DE DIZER SIM ao ser contatado para uma criança.
Sugiro que já tenham tudo previamente decidido antes mesmo de haver o contato, pois assim vocês economizam tempo e frustrações.
Como a regra é que deverá haver contratação de advogado, o ideal é já ir fazendo um pé de meia exclusivamente para custear os honorários que serão cobrados. Mesmo quando se decide engravidar se deve fazer um pé de meia para arcar com a gestação e parto. Não há diferença para a gestação adotiva!!
Assim que se decidirem pela adoção deem início a uma poupança mensal para arcas com estes e outros gastos com a chegada de um filho pela adoção.
Abraços e até o próximo papo.
 
Por Rosana Ribeiro da Silva

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Período de adaptação de acordo com a idade do adotado

 
Conforme o perfil escolhido para a adoção, a adaptação de pais e crianças será diferenciada. Cada comarca estipula um período para a adaptação, que poderá ser maior ou menor dependendo da idade da criança, ou do vínculo construído com os novos pais. E como funciona o período de adaptação? O casal inicialmente conhece a criança, sem informar a intenção de adoção, evitando criar qualquer tipo de expectativas. A primeira visita costuma ser acompanhada pela assistente social até o abrigo. Inicialmente o pretendente a adoção pode passar o dia com a criança, se aproximar aos poucos e verificar se existe empatia de ambas as partes. Com a proximidade, a assistente social permite que o pretendente passe a fazer passeios com a criança, depois começam a passar os finais de semana juntos, até que passam a dormir na casa dos pretendentes. Após nova análise da equipe técnica do fórum é concedida a guarda provisória.
É importante ressaltar que no momento que os pais são chamados pela assistente social para conhecer seu filho, é um direito dos pretendentes à adoção saberem da situação jurídica da criança, se já foram destituídas do poder familiar (mais explicações na seção Perguntas e Respostas), e se não foram, qual o motivo, se houve alguma preparação das crianças para a adoção e como foi, bem como o histórico da criança, físico e psicológico, é importante saber de sua história de vida.
Quanto maior a idade da criança, maior será o período de adaptação. Cada faixa etária tem suas peculiaridades, de acordo com o desenvolvimento infantil e a história de vida da criança. Como em psicologia 2 + 2 não são quatro, e cada história de vida pode ter diversas peculiaridades e variáveis, procuramos sempre falar em linhas gerais, mas lembrando sempre que cada história é uma história, e precisa ser analisada no seu todo.
De maneira geral, podemos classificar esse período de adaptação conforme abaixo:
Bebês (0 a 3 anos de idade):
Nesse período a criança não apresentará lembranças concretas de seu passado, é mais fácil se adaptar ao funcionamento dos pais. Até os 2 anos de idade em alguns estados a guarda é imediata, não há necessidade do período de convivência/adaptação. Algumas comarcas fazem a adaptação em alguns dias, para que a criança se acostume ao casal, mas geralmente existe um rápida vinculação afetiva. Nessa fase a aproximação deve acontecer como aconteceria com um bebê gerado biologicamente, muito contato físico, acolhimento das necessidades, a escolha de um pediatra de confiança e exames de rotina. Acostume seu filho desde pequeno a conhecer a sua história, é importante que ele saiba que chegou até vocês pela adoção! Conte histórias na hora de dormir sobre o quanto desejaram um filhinho, que não nasceu da barriga da mamãe, mas estava destinado a ser o seu filho. Use a sua criatividade, misture a história de vocês com a história da criança, sempre falando com naturalidade, para que ele cresça seguro de suas origens. Quanto mais natural for para você e sua família, será natural para criança.
Dos 4 aos 7 anos:
Mesmo que a criança tenha sido abrigada por um tempo, ela ainda sonha em ter uma família. A vontade de se adaptar ao casal é muito grande, mas é claro que essa adaptação depende de como o processo de aproximação será conduzido, se ainda existe contato com a família biológica, se a criança tem irmãos e eles ficarão no abrigo ou serão adotados por outras famílias. Atualmente o Poder Judiciário evita separar grupos de irmãos (desde que haja vinculo, quando os irmãos não convivem costuma-se separá-los para facilitar a adoção). Cada situação precisa ser estudada e pensada pelo casal, para que a aproximação e a vinculação aconteçam da melhor maneira possível. Geralmente nesta idade a criança chama o casal de “pai e mãe” com rapidez, adaptando-se a família de maneira relativamente tranqüila. Busca semelhanças físicas e psicológicas, perguntando se é parecido com o casal. Usualmente o período de adaptação e vinculação pode levar até dois anos, por isso é necessário que o casal esteja preparado para os altos e baixos emocionais que virão nesse período, sempre acolhendo e deixando claro que são seus pais, e esclarecendo todas as dúvidas da criança quanto a sua história de origem.
Dos 8 aos 12 anos:
São crianças que já possuem um sofrimento muito grande, é como se uma casca fosse construída para evitar novas decepções. O medo do abandono já faz parte do funcionamento deles, e o período de testes pode ser maior e mais intenso. É preciso preparo do casal, muita leitura, apoio psicológico, mas é possível uma ótima vinculação, tudo irá depender da estrutura emocional da família e do acolhimento oferecido. A criança já tem uma lembrança viva dos genitores e da própria história, é preciso orientação para que o casal lide com a carga de sofrimento que vem acoplada à criança. Dependendo da história dos genitores é possível que a criança sinta culpa por deixá-los em uma situação desfavorável. Além de participar dos grupos de apoio, é importante a psicoterapia individual e familiar. Lembrando sempre que amor, diálogo e orientação psicológica auxiliam... e muito! Conheço muitos casos felizes de adoções tardias.
Acima dos 12 anos:
Muitos preferem fazer um apadrinhamento afetivo ao invés de adotar adolescentes. Infelizmente a partir dessa idade a adoção é quase inexistente, devido ao medo dos pretendentes em não conseguir lidar com essa fase da vida. Como em qualquer um dos casos citados acima, é preciso preparo e afeto, mas principalmente direcionamento para aquela criança que cresceu em uma Instituição, ou negligenciada pelos genitores. É preciso priorizar o vínculo afetivo sempre. Muitos pais se preocupam em correr atrás do tempo perdido na parte pedagógica, mas tente ter paciência, pois seu filho passou por muitas mudanças, e precisa se sentir seguro emocionalmente para conseguir se interessar por outros assuntos. Algo muito comum nesse período é a indiferença, especialmente quando os pais tentam tirar algum benefício como forma de castigar e impor limites (internet, vídeo game, etc..). As crianças maiores e os adolescentes reagem com indiferença, como se não ligassem para nada do que é cortado. É quase como se dissessem “nunca tive nada, não me importo se você tirar o que eu não tinha antes”. O estabelecimento de limites e a vinculação são o ponto principal, e a ajuda psicológica é essencial, especialmente para fortalecer os pais nos momentos de ansiedade.
Após o período de adaptação que costuma demorar alguns meses, dependendo da idade da criança e do adolescente (quanto maior a idade, maior o período de adaptação), é preciso ter consciência de que quando se decide adotar não há volta (a não ser em casos extremos). A criança ou o adolescente passa a ser seu filho, sua responsabilidade, com as coisas boas e ruins que vieram juntos. Filho não se devolve e o amor é construído dia a dia, com a convivência. Tente diferenciar se as dificuldades que surgem na sua família são relacionadas à adoção, ou se a questão é da dinâmica familiar (que poderia acontecer com um filho biológico). O acompanhamento psicológico pode auxiliar, especialmente com um profissional que entenda a dinâmica da adoção e suas peculiaridades.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
VARGAS, Marlizete Maldonado. Adoção tardia: da família sonhada a família possível. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.
Weber, Lídia Natália Dobriansky & Kossobudzki, Lúcia Helena Milazzo Filhos da solidão: Institucionalização, abandono e adoção. Curitiba: Governo do Estado do Paraná, 1996.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Consulte sempre um Psicólogo de Família. Amamentação consciente.

Foto: We Heart it
Texto: Cintia Liana Reis de Silva
 
Amigos, vamos divulgar? As crianças merecem.
Cuidemos dos detalhes agora para que os adultos de amanhã sejam mais felizes.
 
"11 Coisas que ninguém nunca te falou sobre amamentação e desmame": http://psicologiaeadocao.blogspot.it/2014/02/11-coisas-que-ninguem-nunca-te-falou.html

A amamentação é indicada ao menos até cerca dos 2 anos. Respeitem!

We Heart it
 
Come diz a OMS, a amamentação é indicada ao menos até cerca dos 2 anos. Não há espaço para preconceitos. Respeitem e deixem em paz mãe e bebe. Se é desconfortável para você, é um problema teu! Fale com o teu terapeuta.
 
Come dice l'OMS, l'allattamento é indicato al meno fino a circa i 2 anni. Non c'è spazio per i pegiudizi. Rspettate e lasciate in pace mamma e bimbo. Se ti è scomodo e' un problema tuo! Parlane con il tuo terapeuta. 
 
Cintia Liana

Charge do Dia - 04/03/2012 - Por Lorde Lobo/ Jornal Agora Rio Grande
 
 

Eu quero dizer a minha filha que ser mãe...

Uma bela histo'ria.
 
Nós estamos sentadas, almoçando, quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em “começar uma família”.

— Nós estamos fazendo uma pesquisa — ela... diz, meio de brincadeira. — Você acha que eu deveria ter um bebê?

— Vai mudar a sua vida — eu digo, cuidadosamente, mantendo meu tom neutro.

— Eu sei — ela diz. — Nada de dormir até tarde nos finais de semana, nada de férias espontâneas…

Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãe deixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável.

Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar: “E se tivesse sido o MEU filho?”; que cada acidente de avião, cada incêndio irá lhe assombrar; que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer.

Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso e penso que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe irá reduzi-la ao nível primitivo da ursa que protege seu filhote; que um grito urgente de “Mãe!” fará com que ela derrube um suflê na sua melhor louça sem hesitar nem por um instante.

Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos investiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê. Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seu bebê está bem.

Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão rotina; que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino, ao invés do feminino, no McDonald's, se tornará um enorme dilema; que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um molestador de crianças possa estar observando no banheiro.

Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, se questionará constantemente como mãe.

Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da gravidez ela perderá eventualmente, mas que jamais se sentirá a mesma sobre si mesma; que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor quando ela tiver um filho; que ela a daria num segundo para salvar sua cria — mas que também começará a desejar mais anos de vida, não para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os deles.

Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias, se tornarão medalhas de honra.

O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ou que nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas.

Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com as mulheres que, através da história, tentaram acabar com as guerras, o preconceito e com os motoristas bêbados.

Eu espero que ela possa entender por que eu posso pensar racionalmente sobre a maioria das coisas, mas que me torno temporariamente insana quando discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro dos meus filhos.

Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho aprender a andar de bicicleta.

Quero mostrar a ela a gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Quero que ela prove a alegria que, de tão real, chega a doer.

O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos.

— Você jamais se arrependerá — digo finalmente. Então estico minha mão sobre a mesa, aperto-lhe a mão e faço uma prece silenciosa por ela e por mim e por todas as mulheres meramente mortais que encontraram em seu caminho esse que é o mais maravilhoso dos chamados; esse presente abençoado de Deus, que é ser mãe.

Autor Desconhecido

terça-feira, 4 de março de 2014

A importância da independência familiar e como criar famílias mais unidas

Aproveitei a entrevista que cedi ao Portal UOL e escrevi esse texto:

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Por Cintia Liana Reis de Silva
Hoje os indivíduos se perguntam sobre qual a importância de se manter a família unida e de como explicar isso aos familiares, mas eu, como psicóloga especialista em família, começarei a explicar conceitos bem mais essenciais e importantes que  moram atrás, na sombra dessa resposta.
O indivíduo, quando chega na adolescência, deve desenvolver o processo de progressiva autonomia individual em relação ao sistema familiar, isso não significa se separar totalmente da família de origem, nem muito menos brigar. Hoje existe uma confusão entre  autonomia e falta de ligação efetiva. O sujeito pode continuar unido à ela, mas em outro nível, pois ele deve se tornar responsivo e maduro e isso significa pensar, sentir e agir por si mesmo, de acordo com sua própria consciência, com a maior liberdade possível do que crê e do que lhe ensinou a sua família. O ideal é que ele faça melhor do que os seus antepassados fizeram.
Todo sujeito, para amadurecer de verdade, tem que passar pelo processo de questionar o que recebeu dos pais, se perguntar sobre o que recebeu de bom e o que o limita para a vida adulta, ele deve buscar entender os modelos familiares adoecidos, as profecias, os mandatos e as alianças familiares, as crenças ocultas, os segredos, os processos de projeção familiar e tentar o máximo possível se torna o principal responsável por sua felicidade e por suas escolhas, e não mais os seus pais.
O conceito de autonomia emocional é muito importante e essa autonomia é necessária para que cada indivíduo da família cresça e busque viver a sua própria história, e ainda assim se sentir pertencente a um grupo familiar no qual sente segurança e sente que é aceito e amado e que quer estar junto por prazer e não por dependência.
Infelizmente muitas famílias vivem o que chamamos na terapia familiar de identidade emotiva conglomerada, quando não se sabe onde começa o self de um e onde termina o do outro, por causa da grande interdependência existente entre os membros e ainda assim podem viver em meio a brigas e a desentendimentos. E mesmo que não briguem, quando existe um estado excessivo de coesão familiar significa que não existe liberdade para cada um viver a sua vida com independência emocional, causando sofrimentos, culpas, imaturidade e outras dependências, como a financeira.
Há uma confusão em relação ao conceito de união familiar. União não significa concordar em todos os pontos, nunca divergir ou estar sempre junto fisicamente. União significa desenvolver e sentir uma profunda noção de respeito e da necessidade desse respeito para a manutenção desses laços de amor. Para estar unido não é necessário concordar, e sim entender e aceitar. Existem famílias que são separadas por continentes e ainda assim permanecem unidas, uma dando força a outra em todos os momentos da vida.
Quando uma separação é feita através de um desentendimento não se trata de um processo de independência real e sim de um corte emotivo, uma ruptura traumática que trará muitos prejuízos a vida social de quem se separada e quando esse alguém tiver filhos essas feridas intergeracionais, se não forem tratadas, se reabrirão com os filhos. Todos precisam adquirir autonomia do sistema familiar de origem de modo sadio para se desenvolver socialmente de maneira satisfatória, sadia e madura.
O corte emotivo abrupto, a separação por uma briga ou por mágoa da família pode fazer do indivíduo mais dependente ainda desse sistema familiar, vivendo em função dele, baseando seus sentimentos em cima dessas mágoas, vivendo e alimentando essas mágoas, mesmo que não fale sobre elas, não lembre ou que não procure os membros de sua família.
É preciso que os preceitos de muitas culturas religiosas e os preconceitos sociais sejam trabalhados para que a psicologia de família atue, trazendo informações ao povo, à sociedade. Não é preciso mascarar e nem controlar as pessoas da família criando hábitos e crenças, mas fazê-las se darem conta do que as faz sofrer.
É necessário respeitar a crianças desde o seu nascimento, dar-lhe um apego seguro, atenção, afeto e disponibilidade incondicionais, encarando de frente as suas necessidades afetivas mais do que as físicas, pois desde cedo é que ela aprende o sentido de respeito e ela só poderá exercitar esse respeito com os outros se se sentiu respeitada, se experimentou na pele essa sensação de ser ouvida e aceita. É preciso estar mais atento para se trabalhar a importância e os conceitos de ética e respeito com os filhos e dar bons exemplos para no futuro termos adultos éticos que ensinar padrões comportamentais artificiais, regras de etiqueta e disciplina.
Mais do que estarem fisicamente juntas, as pessoas estão precisando tratar as suas feridas infantis, cuidar melhor das crianças que são o repositório da raiva e da ignorância de muitos pais, da falta de tempo, da falta de compromisso, de disponibilidade afetiva, que por sua vez trazem suas feridas da infância. Quem se prepara psicologicamente para ter filhos? A família precisa desenvolver mais o diálogo franco para se abrir para a disponibilidade de amar, baixar a guarda, curar essas feridas para deixarem de competir e assim andar numa mesma direção, buscando a  paz e a felicidade de todos. Quando existe investimento no autoconhecimento, diálogo e sinceridade emocional há mais espaço para o amor.
Estamos em pleno século XXI e os pais ainda procuram erradamente o pediatra, que é o médico do corpo físico, para se aconselharem, porém quando os temas são a mente, emoção, comportamento e educação esse pais deveriam procurar o psicólogo de família ou infantil, pois ele é quem está preparado e tem o devido conhecimento para responder às perguntas sobre os temas citados.
Na família acontece de membros que foram todos criados juntos se separem em determinado momento da vida, pois muitas pessoas se separam por divergências, por mágoas, pela mudança do funcionamento da dinâmica familiar, pelo falta de respeito das escolhas dos outros, pela mudanças de perspectivas, pela não aceitação das figuras de autoridade, por competição, pela falta de identificação nesse cenário de mudanças individuais, etc. Tudo o que acontece na adolescência e na fase adulta de cada membro de uma família tem base e encontramos respostas no que cada um viveu em seus primeiros anos de vida. A criança é um cristal de tão delicada, qualquer coisa a abala profundamente e a marca por toda a sua vida.
Se ao reunir toda a família acontecer uma briga, essa colisão, a depender do seu grau de intensidade e como ela será usada, pode ser vista como um acontecimento até positivo, pois manifesta um ponto tóxico. O seu conteúdo deve  ser usado para modificar o ambiente e o sentimento de todos, pois quando ela aparece mostra que já existiam mágoas antigas não manifestas, mas que deveriam vir a tona de algum modo e, como não veio através do diálogo pacífico e honesto, é porque acabou explodindo de uma forma  qualquer, numa situação onde o conflito ou a ferida foi tocada.
Nesse momento se deve encarar de frente os motivos, as causas desse conflito, indo a fundo, nem que seja no passado, onde toda a mágoa começou, para “limpar”, esclarecer o que aconteceu, dando chances às pessoas de se retratarem, pedirem desculpas e entenderem a dor alheia, só dessa forma as relações podem mudar e serem curadas, pois ninguém esquece nada do que passou, tudo fica guardado, nem que seja em nível inconsciente e é esse conteúdo, essas mágoas não vistas e entendidas de modo respeitoso é quem guia as relações cotidianas do sujeito, inclusive as de fora da família.
Para unir mais a família e se existe algum problema do passado, que fez com que os membros desta tenham se afastado, se pode motivar os membros a falarem sobre as suas mágoas, sobre o que sentem de desconfortável em cada relação e para isso é necessário se criar um ambiente de acolhimento e confiança, onde todos, com maturidade, responsabilidade e comprometimento estabeleçam um “contrato verbal e interno” de estarem alí com o mesmo objetivo, curar as feridas familiares.
Uma figura de autoridade ou uma figura muito empática da família, um ponto hiper-conector, pode propor e motivar essa conversa. Talvez os não envolvidos no desentendimento possam ajudar a promover a paz estando no momento, mas depende da posição e empenho de cada um na família e da relação de empatia que têm com os demais. Mas para isso, é sempre mais seguro ir a um sething terapêutico, um ambiente neutro, de um psicólogo especialista em terapia familiar, ele cuidará para que tudo corra bem e dê certo, na medida e que os pacientes se comprometem também em fazer “dar certo” o trabalho de autoconhecimento e reconhecimento da família.
Precisamos criar a cultura do autoconhecimento e da consulta ao psicólogo. É uma pena, nos tempos de hoje, ainda existir a falta de conhecimento do trabalho tão necessário e fundamental do psicólogo.
Para mostrar para todos a importância de se relevar as diferenças e passar a mensagem da importância da união familiar os pais devem estimular os filhos, desde pequenos, e se valorizarem pelo que têm de positivo, muito mais do que julgarem, criticarem ou apontarem os seu defeitos. Só num ambiente onde foi exercitado muito o respeito, sem comparações, sem jogos, chantagens emocionais ou manipulações é que as pessoas crescerão em harmonia e poderão estar mais unidos em outras fase da vida.
Se as famílias só se encontram em datas importantes e não em outros momentos do ano, os integrantes desta, se têm prazer de estarem juntos, se existir admiração e se condividirem os mesmo interesses, podem aproveitar para festejar datas importantes e significativas da história daquele sistema familiar. Quando existe o interesse em estar junto tudo pode ser motivo para a reunião, inclusive lembrar datas de luto em respeito aos que já se foram. Isso tem um enorme significado simbólico e afetivo para a entendimento e o fortalecimento da história da família.
Como falei no início do texto, o indivíduo deve buscar a autonomia emocional, física, financeira e em todos os outros níveis em relação a família, mas isso não significa cortas os laços com ela, mas sim vê-la de outro modo e estabelecer outro nível de importância para ela em sua vida. A hierarquia familiar continuará, a amizade, o companheirismo, a ajuda mútua, a reunião em datas importantes, as visitas, mas o adulto maduro não será dependente desses laços para viver, para tomar suas decisões, para percorrer suas estradas profissionais, para constituir a sua nova família. A sua família de origem não mais será o seu ponto de referência, pois esse ponto deve passar a ser o seu próprio eu, o seu próprio self. Ele estará junto dos seus entes por prazer e não por dependência. Ele deve ser homem da sua vida e não mais estar nas “mãos” da família.
O indivíduo que tem com a família uma relação autônoma, de respeito, de estabelecimento de fronteiras e a delimitação de seu espaço interpessoal tem a maior chance de ser menos reativo e a ser mais reflexivo, é o que chamamos de um alto nível de diferenciação básica do self. Pessoas mais dependentes da família, com pais imaturos, tendem a ser mais negativas, rebeldes e reativas e a terem um baixo nível de diferenciação básica do self, geralmente ainda precisa da confirmação e conselhos dos pais e familiares para viver e para se relacionar.
Essa frase de que “a família é a base de tudo” também é mal interpretada. O indivíduo adulto não deve alimentar um vínculo simbiótico com sua família de origem para que ela seja uma base sadia, ao contrário, uma família que dá uma base segura, um apego seguro ao filho ainda bebê, é aquela que sutilmente e delicadamente dá o que há de melhor e mais saudável para os filhos ainda pequenos, que não despejam as suas feridas infantis nesses filhos e assim eles poderão crescer mais felizes e se tornar adultos capazes de pensar, sentir e agir por si mesmo e, quem sabe, fazer melhor na vida do que os seus pais e avós foram capazes de fazer? A ideia é criar gerações mais conscientes e maduras. A base mais fácil para se criar adultos maduros é ter pais maduros.
A criação de outros vínculos multiplexos, ou seja, de outros vínculos além da família, só enriquece a vida dos seres humanos, criam outros níveis de relacionamento fazendo o indivíduo amadurecer e exercitar outras partes de sua psiquê, geram companhia social, apoio emocional, relações com outras multidimensionalidades, regulação social, acesso a  novos contatos e não deixa de ser o exercício e o aperfeiçoamento das relações que nasceram na família.
 
 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Para se tornar mãe nos dias de hoje

Indika Bem

Por Cintia Liana Reis de Silva
(Publicado dia 27.02.14 no Portal Indika Bem)
Na nossa cultura de hoje é duro se tornar mãe e mais duro ainda nascer. Querem acabar de vez com a natureza selvagem dos indivíduos, com o que ela tem de bom. Acabar com o parto natural, com a amamentação, com o contato livre e intenso entre mãe e bebê. Inconscientemente, as necessidades do recém nascido estão se tornando uma espécie de alergia social em prol do “não perder tempo”, do diminuir os custos nos hospitais, para que a indústria do leite artificial e farmacêutica não se enfraqueçam, para que as mulheres voltem a trabalhar mais cedo, etc.
Uma parte da literatura está sendo manipulada e a cultura popular quer ensinar imediatamente à nova mãe que o seu filho já deve nascer independente. Se eu disser aqui que os bebês, ao nascer, deveriam dormir junto ao corpo da mãe (não no meio do casal, mas ao lado da mãe), muitas pessoas vão pensar duas vezes se é verdade e se, de fato, traria benefícios aos dois, porque foram ensinadas que isso faz mal. Mas será que a bendita frase do conselho de não dormir junto com o filho nasceu do medo de que os pais fizessem sexo ao lado dele? Muito provavelmente. Nenhum estudo mostra que alguém fique mais dependente na fase adulta por ter dormido os dois primeiros anos de vida com a mãe. Ao contrário, estar em contato com o corpo da mãe a faz produzir muito mais leite e esse contato seguro dará uma bela base para que a criança cresça segura dessa relação intensamente íntima, que deve ser plenamente alimentada ao menos até os dois anos de idade, depois a criança naturalmente ganha mais autonomia psicológica e física. Tudo o que é saciado na infância dá mais força ao futuro adulto.
A mulher, que se prepara para ser mãe (os pais precisam se preparar emocionalmente), deve estar muito lúcida e segura de que precisa dar mais ouvidos à sua intuição, ao que diz a sua alma humana de mulher. Ela deva esquecer os conselhos disparados compulsivamente por quase todos, pois 99% deles são distorcidos e preconceituosos, advindos da nossa cultura ocidental capitalista. Ela não deve perder tempo com textos e livros de “receitas”, que dizem o que ela deve fazer e os passos a seguir nos cuidados com seu pequeno filho.
A mulher que se prepara para ser mãe, deveria ler o que a faz despertar para os dons da sua alma; o que motiva a sua essência a se iluminar diante de sua cria; o que a faz olhar e aceitar as suas reais necessidades; o que a faz enxergar suas feridas para não usá-las cegamente contra a criança, que a reflete de algum modo; a ver e a querer romper com seus padrões familiares adoecidos; o que a ensina a olhar amorosamente para a sua sombra, a se comunicar com ela para transformá-la em luz; o que a faz mergulhar em si mesma e a reencontra-se mais autêntica do que nunca; a reconhecer o que a faz se sentir magoada e ameaçada; que a fortaleça a ouvir a voz do seu coração e a entrar em contato sem receios com os seus medos e inseguranças; a ouvir o seu potencial criativo e curativo; a confiar em sua capacidade de entrega e doação e que a faça acreditar na força do seu amor, porque tudo o que ela sente, se reflete na psiquê do recém nascido.
Só uma mãe suficientemente fortalecida pelo verdadeiro conhecimento do ser humano, da sua mente e de seu filho, aconselhada por um psicólogo experiente e não por um médico (que só conhece a parte física), se sentindo apoiada pelo seu companheiro e por sua família, respeitada e tratada com afeto no momento do seu parto, momento em que que ela renasce, é que poderá ser capaz de fazer um filho crescer feliz e mentalmente sadio, numa relação límpida, nutritiva, madura e harmoniosa.

Cintia Liana Reis de Silva, psicóloga, especialista em psicologia de casal, família, infância e adoção, seu blog recebe mais de 15.000 visitantes ao mês, o http://www.psicologiaeadocao.blogspot.com.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Criando laços

 
O vínculo com o filho adotivo é construído no dia a dia, assim como com o filho biológico
Por Luciana Barrella, mãe de Luísa
30.01.2014
 
A “gravidez” de Juliana Ribeiro durou 4 anos. Isso mesmo, foi o tempo que ela ficou se preparando para receber a Lara, que chegou com 2 anos e 4 meses. A espera foi um teste difícil para Juliana, a prova de que realmente queria adotar.  O “sim” da menina, quando questionada se queria ser sua filha, foi como o momento do parto. Ali começou o vínculo entre mãe e filha. 
 
Há um período em que os pais se preparam para a chegada da criança, é a chamada “gravidez psíquica”, que os ajuda a transformarem o desejo de adotar em um ato de amor. Quando a criança chega, o vínculo não é automático. Assim como o vínculo com o filho biológico também não. Nos dois casos, é uma relação que se constrói. Aos poucos. 
 
Quem fica grávida passa os 9 meses imaginando a carinha do bebê, o som do seu choro e a sua personalidade. E, quando o bebê chega, nunca corresponde exatamente ao que os pais tinham imaginado. Não à toa, nossa diretora de redação, Mônica Figueiredo, disse para a filha, Antonia, assim que a viu na sala de parto: “Muito prazer”. 
 
Seja na maternidade ou no abrigo, o vínculo se concretiza com essa primeira apresentação. “Não existe diferença entre o vínculo materno biológico e o vínculo materno adotivo. Todas as crianças só se tornam filhos se, de fato, são acolhidas, consideradas, ou seja, adotadas”, diz Cintia Liana Reis de Silva, mãe de Flavia e psicóloga especializada em psicologia de família.
 
Suzana Barelli conta que, ao chegar ao abrigo com seu marido, Milton Gamez, e ver pela primeira vez a filha, Giovana, sentiu que ela era sua e que teria de conquistá-la. “Ela dormiu no meu colo e acordou minha filha. Foi um sentimento muito forte e intenso”. Com o segundo filho, também adotivo, o contato concretizou a percepção de ser a mãe dele. “O Igor me viu e quis vir no meu colo. Outro momento bem forte”.
 
Adotar um filho é um processo acompanhado de dúvidas e de preconceitos. Esse filho tem uma história anterior e isso pode amedrontar. “O processo emocional da adoção é o mesmo de acolher um filho biológico, mas também envolve aceitar que o filho já venha trazendo uma história precedente, da qual os pais adotivos não fizeram parte. É preciso respeitar”, diz Cintia.
 
A adoção não pode ser vista como uma alternativa de segunda linha só porque o casal não conseguiu ter filhos biológicos de nenhuma forma.  É importante desejar plenamente a adoção, se preparar e reduzir as expectativas e exigências. Muitas vezes, os pais esperam naquela criança a solução de todos os seus problemas, inclusive entre o casal. Filho, adotivo ou não, não resolve nenhum problema. Pode até causar alguns. Ou seja: é filho, vem com o pacote completo, alegrias, tristezas, conflitos. 
 
Receber uma criança é uma vitória e a realização de um desejo mútuo, já que a criança também quer ser acolhida. Aí, começa o processo de entender como será aquela família recém-formada, como os pais e os filhos vão reorganizar suas vidas para o equilíbrio daquele núcleo. “Não se trata de ensinar a criança ou adolescente a como viver ali, mas, sim, de estarem todos atentos para entender como vão se adaptar uns aos outros. Os aprendizados são de todos”, explica Maria Antonieta Pisano Motta, mãe de três filhos, psicóloga e psicanalista, coordenadora técnica do GAASP (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo). “E, como em qualquer família que se forma ou aumenta, o estabelecimento do vínculo é imprescindível. Sem o vínculo, nenhuma família, biológica ou adotiva, teria sentido”, completa.
 
Laços entre pais e filhos
Na adoção, os vínculos são construídos pelo laço de afiliação, que se constitui pela afetividade, pelo contato que vai sendo construído no encontro e na vivência de cada dia, explica a psicóloga e professora Isabel Gomes, coordenadora do grupo reflexivo de apoio a adoção na USP. 
 
Sim, a biologia tem seu papel. Quando o bebê nasce, a mãe está embebida em ocitocina, um dos hormônios responsáveis pelas contrações e, depois, ligado ao processo de amamentação. Conhecido como hormônio do amor, a ocitocina contribui para que a mãe se vincule àquele bebê. Só que o ser humano não se constitui apenas de sua dimensão biológica. E, assim, como os hormônios estimulam o vínculo, o caminho oposto também acontece: um estudo feito nos EUA em 2005 mostrou que um abraço de 20 segundos tinha o poder de elevar os níveis da substância em homens e mulheres. 
 
Agda Salles já era mãe de duas filhas, Carla e Elisângela, quando conheceu o atual marido, Helder, e explicou que não poderia mais ter filhos biológicos. Disse que gostaria de adotar. O casal se inscreveu em várias cidades, nos estados do Paraná e do Rio de Janeiro, para conseguir o terceiro filho.
 
“Eu me via esperando o resultado do teste de gravidez, como uma mãe biológica se sente a cada mês, esperando engravidar. No caso da mãe adotiva, o positivo é a aceitação do juiz, que diz se você está apta ou não para adotar”, conta Agda.
 
A primogênita não biológica, Maria Clara, nasceu prematura, há nove anos, em Barra Mansa. “Ela tinha dez dias e cheguei ao abrigo em uma sexta-feira. Ao pegá-la no colo já saí falando que era minha filha”, conta Agda. “Como a audiência era na terça, fiquei quatro dias na casa da conselheira do abrigo, cuidando da Maria. Foi mais ou menos como o período que se passa na maternidade”. O segundo filho adotivo, Davi, chegou quatro anos depois, com 28 dias de vida. “A partir do momento em que decidimos adotar, já começou a crescer um vínculo, com uma criança que não sabíamos como seria”, conta ela.
 
Quando a criança é mais velha, entre 2 e 6 anos, há um trabalho diferente de adaptação, mas os preceitos de adoção devem ser os mesmos: sem expectativas e disposição para amar.
 
“Podemos considerar ‘mais velha’ a criança que já se percebe diferenciada do outro e do mundo, que já possua certa independência para a satisfação de suas necessidades básicas”, esclarece Maria Antonieta.
 
Andriely chegou para Katya Suely com 4 anos. Ela já era mãe de Guilherme e pensava em adotar antes mesmo de casar, também porque é filha adotiva. Conta que se manteve tranquila durante o processo de adoção, pois sabia que um dia sua filha iria chegar. “O dia em que o fórum ligou foi como se rompesse a bolsa.”
 
A formação de vínculo na adoção tardia pode ou não ser mais trabalhosa, tudo depende de os adultos terem refletido e escolhido exercer a parentalidade e de como se dá o novo arranjo familiar após a adoção. “Há dois nascimentos na história da criança, o de origem e o adotivo”, diz Isabel Gomes. 
 
Vida antes da adoção 
O psiquiatra José Belizario, pai de João e Ana, desfaz o mito de que crianças adotadas são mais complicadas. “Não existe comportamento específico de filhos adotados.” Mais uma vez, filho é filho. Dá trabalho, testa a gente, quer saber se é mesmo amado. Assim como você, está criando o vínculo e testando se ele é mesmo firme ou se balança na primeira (ou segunda ou terceira…) vez que ele se comporta mal.
 
É necessário que os pais entendam e respeitem as experiências anteriores. É importante também resgatar algumas memórias com objetivo de entender o que foi vivido, as rupturas de laços, em vez de negar que eles tenham existido. Se faz parte da história do seu filho, agora faz parte da sua também.
 
Na adoção da criança maior, o processo de luto pela ‘perda’ da família de origem, pela perda ‘do que poderia ter sido’, pela dor do sentimento de abandono e rejeição vem junto com o início da adaptação.
 
A criança pode ter vivenciado as mais diferentes situações, das prazerosas até as traumáticas, sendo com seus pais biológicos ou cuidadores, nos abrigos ou não. Casos que não podem ser deixados de lado pelos pais adotivos, e nada melhor que a lida cotidiana para quebrar barreiras e construir laços. 
 
O vínculo entre os irmãos
Ao adotar uma criança que tenha irmão, o estatuto da criança e adolescente (ECA) recomenda que eles não sejam separados. Se isso acontecer, o melhor é que as famílias mantenham contato para que os irmãos convivam. Quem avalia a viabilidade desse relacionamento são os pais candidatos e o técnico que realiza as entrevistas.
 
Não são todos os irmãos que conseguem se afastar, pois entre eles ainda existe a união familiar, a força da história vivida junto, o afeto e o sentimento de pertencimento.
 
Áurea Medrado, mãe de Mariana, filha biológica, realizou a adoção tardia e compartilhada de Evelin. Isso significa que a menina tem irmãos biológicos que foram adotados por outras famílias. O vínculo entre ela e os dois irmãos foi mantido. “As crianças se encontram e sabem que são irmãos.” 
 
Quando os irmãos são adotados pela mesma família, outros cuidados devem ser tomados. Muitas vezes, o mais velho assume o papel de protetor das demais crianças e precisará ser ajudado a colocar-se no papel de filho e de criança. 
 
A adoção é um processo que leva um certo tempo para se concretizar. A convivência e o dia a dia são responsáveis pela criação dos laços, assim como com um filho biológico. A criança deve sentir que é com os pais adotivos que escreverá a sua nova história. E que, mesmo que dê um pouco de trabalho, como todo filho dá, é filho, e é muito amado. Tenha saído da barriga ou não.
 
Quem pode ajudar
Você encontrará informações com psicólogos, psicanalistas, assistentes sociais, grupos de apoio, livros e filmes. Algumas fontes de informação: 
 
Conselho Nacional de Justiça Informações sobre adoção e acesso ao Cadastro Nacional de Adoção.cnj.jus.br
 
Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo
Promove encontros, palestras e suporte de maneira geral aos pais pretendentes ou que adotaram.gaasp.org.br
 
Blog da psicóloga Cintia Liana
Especialista em psicologia de família, que se descreve como "fada da adoção". www.psicologiaeadocao.blogspot.com
 
Grupo reflexivo de apoio à adoção na USP
Grupo sobre as motivações e escolha pela adoção. Destina-se a casais heterossexuais, homoafetivos, pessoas solteiras, tios, avós, irmãos etc. Contato: adocao.usp@gmail.com 
 
Consultoria: Cintia Liana Reis de Silva, mãe de Flavia e psicóloga especializada em psicologia de família; Isabel Gomes, psicóloga, professora e coordenadora do Grupo Reflexivo de Apoio a Adoção na USP; José Belizario, pai de João e Ana, psiquiatra; Maria Antonieta Pisano Motta, psicóloga e psicanalista, coordenadora técnica do GAASP (Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo).