"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Idade não define e nem traz maturidade


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Por Cintia Liana Reis de Silva

O norte ameriano Murray Bowen, pai da psicoterapia de família e do pensamento sistêmico-relacional, criou uma teoria que explica o processo da progressiva autonomia individual como consequência do movimento da “separação” da própria família de origem.
Bowen disse que existe uma força vital, chamada de diferenciação, que é a capacidade instintiva que impulsiona o ser humano a amadurecer e a tornar-se uma pessoa emocionalmente independente da família, apesar de que ninguém nunca será capaz de adquirir uma completa independência emocional em relação a ela. Esse fenômeno de diferenciação do self pode se iniciar na adolescência, durar por várias décadas e às vezes não se conclui nunca. Por outro lado, o sentimento de não pertencimento significa uma pseudo independência. O corte emotivo e o afastamento da família de origem é um problema que precisa ser resolvido, pois traz grandes conflitos à vida do sujeito.

Bowen criou uma escala de maturidade e nessa escala ele explica e define os níveis de maturidade, que não estão relacionados à idade ou a experiência de vida, mas que são passados de pais para filho, ou seja, quanto maior é o grau de maturidade dos pais, maior poderá ser o grau de maturidade dos filhos. A diferenciação básica é amplamente determinada por um processo emocional multigeracional. Ele fala de possibilidades e não generaliza em nenhum momento.

A criança e o adolescente são altamente influenciados pelos pais, pela forma como vivem, se relacionam, reagem, etc, e ele aprende a viver a partir desses primeiros modelos, mas não só do exemplo de comportamento, mas principalmente aprende a usar o mesmo repertório emocional, o sentimento empregado, os pensamentos, crenças, fantasmas e mecanismos intrapsíquicos.
No nível mais baixo da escala de diferenciação de Bowen, por exemplo, está quem depende totalmente dos sentimentos que os outros vivenciam em relação a ele e não se encontra capaz de diferenciar afeto de intelecto, cresce dependente da massa do Eu familiar com uma identidade emotiva conglomerada, ao longo da vida atrai outras relações de dependência das quais possa pegar emprestada a força de que precisa para funcionar. São pessoas solitárias, ansiosas, não sabem se relacionar de modo equilibrado e satisfatório com o mundo, e tem um forte sentimento de inferioridade, não cria relações duradouras e se sente desconfortável nelas. São pessoas que agem sempre no intuito de ir contra a opinião dos outros, normalmente são crianças nascidas em famílias desarmoniosas, com um alto grau de tensão, com pais desatentos e imaturos. Esses indivíduos quando crescem têm como repertório de valores e crenças opor-se a crença dos outros, são negativistas e contraditórios.

Mas o que é maturidade? É a capacidade de seguir seus próprios valores e princípios, atingindo os objetivos que se propõe, é ser responsivo, assumindo total responsabilidade sobre si e suas próprias ações. É ter um senso bem apurado de justiça, ser ético, humilde, conseguir ser racional e menos reativo, não ser levado por emoções negativas. É o que eu, como psicóloga, entendo como felicidade: é esse estado constante de tranquilidade e segurança, a capacidade de agir com sabedoria diante de todas as coisas.

Maturidade também se refere ao grau de autoconhecimento, ou seja, quanto mais alguém se conhece, também conhecerá seus pontos fracos, suas dificuldades emocionais, suas feridas infantis e no que precisa melhorar e assim terá uma melhor qualidade na relação com o mundo e com as pessoas que o cercam; criará bons filhos e com eles terá uma relação muito nutritiva; se sentirá confortável em qualquer lugar e em qualquer companhia, pois conhece seus limites, desenvolveu uma boa auto estima e um bom senso de valor de si mesmo. Não precisa de bebidas ou drogas para se sentir seguro. Quem é diferenciado procura enxergar seus modelos familiares intergeracionais adoecidos e  emaranhados, aquilo que ele quer levar e o que ele quer abandonar em relação a sua própria família, e entende que pode fazer melhor do que os seus pais fizeram, melhorado as futuras gerações.

Idade não define mesmo maturidade. Podemos, por exemplo, observar uma pessoa de 35 anos com um alto grau de autoconhecimento, que consegue aceitar e respeitar os outros e com uma vida conjugal feliz, formando um casal coeso, como podemos também encontrar uma pessoa de 65 anos dependente dos pais ou de sua imagem, reativa, com um grande sentimento de inferioridade, que não consegue aceitar os outros, que expressa um comportamento negativo e rebelde e que não sabe se relacionar com nenhum parceiro. Eles repetem com o mundo a relação que têm com eles mesmos. Quanto mais nos conhecemos, nos respeitamos e nos aceitamos, mais conseguiremos conhecer, respeitar e aceitar os outros. O mundo é um espelho de nós mesmos, ele é conosco do mesmo modo que somos com ele.

Se desenvolver e melhorar aspectos do caráter, personalidade e  temperamento, é um processo contínuo, caso seja positivo o desejo de continuar crescendo. As experiências podem ajudar nesse processo de crescimento, mas cada um passa pelas situações e as usa a seu modo. O olhar de cada observador deforma a realidade, ninguém vivencia os mesmos fatos da mesma forma, pois os seres humanos têm referenciais diversos.

Conhecer bem a história da própria família e de seus antepassados abre estradas e recursos internos inovadores, se abre uma nova consciência existencial de pertencimento e ao mesmo tempo de independência. Fazer terapia com a perspectiva familiar é um ótimo modo para se conhecer a fundo partindo da família, para mudar paradigmas e melhorar a vida, mas além do autoconhecimento, o estudo, o conhecimento geral também pode ser algo que amplie o Universo de uma pessoa, ou seja, quanto mais existir a busca do conhecimento, nas áreas humanas em especial, mais o seu repertório se amplia e assim a sua vida emocional se enriquece, deste modo se pode melhorar a relação consigo mesmo e viver emocionalmente de modo muito mais confortável no mundo.
Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia conjugal e familiar.

Um comentário:

Patricia Elisa Chipoletti Esteves disse...

Prezada Cíntia, muito enriquecedor seu artigo. Sou professora e trabalho como voluntária em uma instituição que oferece educação não formal para crianças e jovens. Sem dúvida, seu texto nos ajudará muito.