"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ainda dormem com vocês?


Por Eva Carnero
15 de dezembro de 2014

A expressão “criação com apego” (attachment parenting), cunhada pelo pediatra norte-americano especializado em paternidade William Sears, inspira-se nos princípios da teoria do apego formulada pelo psiquiatra John Bowlby em 1969, que sustentava que a criação de um forte laço emocional com os pais durante a infância é condição prévia e imprescindível para o desenvolvimento emocional correto e o estabelecimento de relações pessoais saudáveis na idade adulta.
Há alguns anos, observa-se na sociedade uma clara tendência para a adoção dos preceitos que acompanham esse tipo de criação, como demonstram discursos públicos de mães famosas, como as atrizes Elsa Pataky e Mayim Bialik (das séries Blossom e The Big Bang Theory). Entretanto, há quem questione algumas de suas recomendações. O respeitado pediatra Carlos González, autor de numerosos livros relacionados com esse tema, entre eles Bésame Mucho – Como Criar os Seus Filhos com Amor, é uma das vozes que esclarecem: “A teoria do apego não é a mesma coisa que a criação com apego, uma expressão popular de significado incerto que parece ter se resumido em pegar a criança nos braços, amamentá-la e dormir com ela. Entretanto, a teoria do apego, a verdadeira, que se apoia nos oito princípios publicados no website da Attachment Parenting International (API), não diz isso”.
“A criança estabelece um enlace emocional com os pais quando vê que, habitualmente, suas necessidades são atendidas e seu pranto é consolado. Ou seja, quando vê que lhe fazem caso”, assinala González. Nessa mesma linha, a psicóloga clínica Laura Rojas-Marcos afirma que a chave para estabelecer um vínculo forte é que a criança se sinta “protegida, querida e segura”. Ela compartilha com Bowlby a importância do apego firme para “criar e desenvolver os pilares de que uma pessoa necessita para ter uma vida adulta com menos medo”.
Até aqui, todos de acordo. O fato de uma criança se sentir protegida terá um bom reflexo em sua vida adulta. Mas quais são os limites desse abrigo ou apego? E sua relevância? Será que o carinho é uma necessidade mais básica que o próprio alimento? O certo é que os resultados obtidos em numerosos estudos indicam que isso não está longe da verdade. Muitos dos trabalhos do psicólogo Harry Harlow concluem que o ser humano tem uma necessidade universal de contato físico, independentemente da cultura em que viva.
Para chegar a essa afirmação, o especialista se apoia em um de seus numerosos experimentos com macacos rhesus, que resultaram em sua teoria da “mãe macia”. Basicamente, nesse trabalho o psicólogo separou vários bebês de suas mães logo após o nascimento. Depois, fez dois bonecos – um de pelúcia com a mesma aparência das mães e o outro, de arame e segurando uma mamadeira. Diante das duas “mães”, o macaco bebê se aproximava da que segurava o alimento só quando queria comer, e no resto do tempo ficava junto do boneco de pelúcia, suave e quente. Havia até mesmo ocasiões em que, enquanto ele comia, uma parte de seu corpo estava em contato com a “mãe macia”.
“Obviamente, a alimentação é importante na hora de criar um vínculo, mas o que se estabelece através da sensação de carinho e proteção é a base do apego seguro”, destaca Laura Rojas-Marcos. Para isso, não é preciso dormir com seu filho, nem se estressar se ele chorar por mais de cinco minutos seguidos, nem o amamentar até os 6 anos, como defendem hoje em dia muitas associações de criação com apego.
Nessa linha se situa o chamado “leito compartilhado” – quando pais e filhos dividem a cama até que estes últimos decidam ir para seu próprio quarto. O pediatra Carlos González, embora não se oponha a essa prática, nega que exista uma relação entre dormir com seu filho e criar com ele um maior vínculo.
“E a prova é que na época em que era proibido dormir com os filhos pequenos na mesma cama [na Idade Média, por determinação da Igreja, filhos e pais não podiam dormir juntos por causa da proliferação de casos em que os lactantes morriam esmagados], a maior parte deles desenvolveu um apego firme. A única diferença que vejo é que suas mães tinham de se levantar várias vezes durante a noite para ir consolá-los. Colocar a criança em outro quarto me parece simplesmente incômodo”, afirma o especialista. Ele defende a mudança da criança para outro quarto quando ela expressar seu desejo, por comodidade para a família. Também se considera leito compartilhado encostar o berço à cama dos pais.
Já Laura Rojas-Marcos tem uma posição mais próxima à rejeição dessa prática, insistindo que é importante que as crianças durmam sozinhas. “Em minha opinião, não é bom nem para a criança nem para o casal, já que favorece o desenvolvimento de personalidades dependentes”, diz a psicóloga. Mas ela reconhece haver crianças que precisam de mais tempo para deixar o quarto de seus pais, por isso é partidária de que haja flexibilidade e perseverança. Um recente estudo da Academia Americana de Medicina do Sono conclui que compartilhar a cama com os filhos acaba fazendo com que estes tenham maior dificuldade para conciliar o sono, já que dependem mais dos mimos dos pais e não são capazes de fazer isso por conta própria.
Criação sem rótulos
Embora todos concordem quanto à importância do vínculo seguro na criação do filho, as divergências surgem na hora de escolher o caminho para chegar até ele. Aqui entra outro dos pontos fortes e mais polêmicos da criação com apego: o aleitamento materno e o tempo que ele deve durar. Os defensores dessa corrente apoiam a necessidade de que a mãe dê de mamar a seu filho até os dois ou três anos de idade, com o objetivo de criar, estreitar e afiançar sua relação. No entanto, nem Laura Rojas-Marcos nem Carlos González apoiam totalmente dessa teoria.
“Nos anos 1950, quando se propôs a teoria do apego, quase nenhuma criança ocidental mamava durante mais do que algumas poucas semanas e costumava-se aconselhar os pais a não pegar muito o filho nos braços e não o colocar nunca na cama. Apesar de tudo isso, a maioria das crianças tinha um firme apego”, explica González. “As mães carinhosas e aquelas que tratam seus filhos com ternura e respeito também lhes dão a mamadeira. Da mesma forma, as mães irritadas, bêbadas ou cruéis também dão o peito”, acrescenta.
Por outro lado, a psicóloga acredita que o tempo de aleitamento é, em grande parte, uma questão de moda. “Atualmente a tendência é estender o tempo de amamentação para mais de dois anos. Mas eu me pergunto se isso é realmente é necessário – e, além disso, fico imaginando o que ocorre com a dependência, ou até mesmo a escravidão, que significa para a mãe tomar essa decisão. É obvio que, se a mãe quiser e puder, tudo bem, mas não acredito que seja o mais saudável.” A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda amamentar o filho de forma exclusiva até os seis meses de vida e seguir com o aleitamento, juntamente com outros alimentos, até os dois anos ou mais.
“Todas as crianças têm apego”, afirma González. “Ele pode ser seguro ou inseguro, mas sempre existe. O primeiro é o mais desejável, mas o inseguro [quando o bebê chora muito, mesmo nos braços de seus pais, como definiu a psicóloga Mary Ainsworth] não é nenhuma doença mental”, acrescenta. Trata-se de que os pais ou as pessoas responsáveis pela criação de uma criança se esforcem para que a balança se incline para o lado da certeza. “Basta criá-la como sempre se fez, com muito carinho e da melhor forma que soubermos”, aconselha González.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/24/estilo/1416825746_259981.html

sábado, 29 de novembro de 2014

A moda do diagnóstico de hiperatividade


Por Cintia Liana Reis de Silva
Texto escrito para este blog em 2011 e republicado no site Indika Bem em 28 de agosto de 2014.

Ela diz:
Oi, há quanto tempo…! Conheci seu trabalho e quero te pedir uma orientação. Minha filha  está precisando de ajuda, de terapia. Disseram que é hiperativa e que agora precisa voltar a tomar os remédios, porque está pior. Você pode me orientar?
Respondo:
“Oi, querida! Obrigada pela confiança em me expor o caso. Vou ousar falar algo, mas será bem resumido. Se quiser um dia conversar mais detalhadamente me fale.
Como sou especialista em Psicologia Conjugal e Familiar, tenho uma natural tendência a enxergar o comportamento da criança num contexto maior, principalmente, na família, respaldada em teorias sistêmicas. Vejo o problema ou o comportamento desagradável como um sintoma do que podemos chamar de “adoecimento” familiar e nela mesmo, na própria família, sua estrutura e organização, encontramos muitos motivos para a criança apresentar tais sintomas.
Hoje está sendo vastamente discutido essa insistência de alguns profissionais, principalmente inexperientes ou com uma visão reducionista da psique, em rotular, classificar a criança como hiperativa e, o pior de tudo, medicá-la (não sou contra a remédios, quando necessário).
Não questiono o diagnóstico de forma tão segura porque não conheço o caso profundamente, as avaliações e exames aplicados, o diagnóstico detalhado e tampouco a idade de sua filha.
Um diagnóstico de hiperatividade para uma criança com menos de 7 anos, por exemplo, normalmente é muito precipitado e perigoso, pois até essa fase ela passa por diversas mudanças e estímulos, alterando seu comportamento de forma veloz e, mesmo a hiperatividade propriamente dita, pode ser um sintoma de um problema na família, ou a relação da criança com sua própria história de vida e ele pode vir a tona através de uma patologia ou na alteração do comportamento e sua relação com o mundo.
Atualmente, sou uma profissional que só atende a criança se os pais aceitarem fazer duas sessões ao mês de terapia comigo pois, antes de tudo, eles precisam mudar seus padrões, inclusive enxergar os intergeracionais e aprender a decifrar aspectos subjacentes de sua relação com o filho. A minha experiência e os teóricos dizem que não adianta, que é inútil tratar a criança e depois reinseri-la no mesmo ambiente “adoecido”, o ambiente que a faz adoecer.
Os pais, muitas vezes, “fogem” porque se sentem em culpa, mas se já tiveram o filho, porque não encarar a “responsabilidade” de mudar a vida de todos?
Esse adoecimento é bem mais natural do que pensamos. Como se diz muito por aí, “isso acontece nas melhores famílias”. Essa frase nos remete a um alívio, para com facilidade aceitarmos o problema e encarar as mudanças, pois é difícil ser a exceção negativa.
Temos que desmascarar essa história de que família boa e feliz é a família perfeita, porque esse é um ideal, não existe família perfeita. É ainda mais bonito ver alguém lutando para se entender e ser cada vez mais saudável.
É bem mais fácil quando se assume a responsabilidade de transformar, apesar de ser mais complicado entender todo esse processo, mas colocar o foco na criança é maquiar a verdadeira face do problema maior, entende? Isso é tão claro hoje para mim…
Espero ter ajudado, iluminado um pouquinho. Estou a disposição para conversar.

Por Cintia Liana Reis de Silva
Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/a-moda-do-diagnostico-de-hiperatividade
Fonte da imagem: www.melhoramiga.com.br (Créditos e Divulgação)

Falando de adoção com o filho


Por Cintia Liana Reis de Silva
Texto escrito para este blog em 2009 e republicado no site Indika Bem em 14 de agosto de 2014.
Não existe idade ideal para a criança saber sobre o vínculo que tem com seus pais adotivos. É muito importante e saudável que os pais já contem historinhas de adoção para a criança desde a sua chegada na família, independente da idade. Assim, ela vai se acostumando com o tema e entendendo os fatos na medida em que for amadurecendo. Mesmo que não faça muito sentido para ela, o importante é que, quando passar a entender as dimensões dos fatos e os verdadeiros significados, ela irá sentir que seus pais adotivos sempre foram muito sinceros sobre sua adoção e que esse é um assunto conhecido e, melhor ainda, “permitido” na família.
O fato de alguns pais entenderem a adoção como algo negativo não significa que a criança também entenderá desta forma, mas somente repetirá esse modelo de conduta se os pais insistirem neste erro, tratando a adoção como algo vergonhoso e negativo.
Será que é justo uma criança crescer sentindo que há “algo de errado ou de misterioso” com a sua existência, com seu nascimento, com o seu lugar no mundo e na família? Será que é bom achar que é fruto de algo vergonhoso, que a sua família substituta tem que esconder, ou não falar de sua origem, como um tabu? A criança adotiva tem que crescer num ambiente que a propicie falar sobre seus sentimentos abertamente, sem vergonha ou medo.
Eldridge (2004), explica que a criança adotiva raramente fala de forma aberta sobre sua raiva relacionada ao fato de ser adotada. Porque ela acredita que estará magoando os pais adotivos e por que ela acha que os deixará incomodados, assim ela não fala e poderá expressar isso de uma forma agressiva e anti-social em algum dado momento. Como no caso da adaptação, a criança também pode manifestar tendências anti-sociais por querer mostrar que há algo de errado com ela, por estar sofrendo algum tipo de privação ou sofrendo com algum sentimento que ela não está sabendo lidar.
Afine-se, seja cúmplice do seu filho no processo de descoberta de sua identidade, e o conhecimento e aceitação de suas origens fazem parte disso. Quando ouvir perguntas-afirmações do tipo “eu vim de sua barriga, não foi, mamãe?”, fale tranquilamente que não, mas que para amarmos alguém como filho ele não precisa “sair da barriga”, pois o amor se faz no coração. Quando perguntar sobre a família biológica tente responder o que sabe de uma maneira simples e o que a criança tem capacidade de ouvir e aceitar, mesmo que não entenda tudo, ela tem o direito de saber.
Por Cintia Liana Reis de Silva
Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/falando-de-adocao-com-o-filho
Fonte da imagem: www.somoslanoticia.com (Créditos e Divulgação)

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

8 coisas que pais adotivos jamais devem fazer

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Por Ann Brenoff
Publicado me 14.11.14 pelo Brasil Post

Sou mãe de duas crianças incríveis nascidas na China. Adotamos Sophie quando ela tinha 5 anos - agora ela tem 17. Simon tinha 4 quando o adotamos; hoje ele está com 14. Baseada na minha experiência, eis oito coisas que pais adotivos jamais devem fazer.
1. Contar a história do seu filho para todo mundo.
As circunstâncias que levaram seu filho a ser adotado são parte da história dele. A história não é sua e, portanto, você nada mais é que a fofoqueira da cidade se sair falando do assunto para qualquer um que perguntar. Vivemos em uma cultura que incentiva o compartilhamento, mas não é da conta de ninguém se a mãe de sua filha era uma adolescente de 16 anos que largou o bebê num restaurante de hotel frequentado por americanos para que ele fosse encontrado e levado para os Estados Unidos.

Assumo a culpa por ter falado demais. Uma das coisas que compartilhei além da conta foi a história dos meus filhos. O fiz com a mais nobre das intenções: passei anos desfilando meus filhos com a esperança de que outras pessoas também adotassem. Estava errada, por mais honrada que fosse minha missão. Me emendei. Hoje em dia, você pode conhecer meus filhos, ver o quão incríveis eles são. Mas, se eu sentir curiosidade da sua parte, corto logo de cara. Vou me gabar das conquistas deles. Mas as histórias? São deles, e confio no julgamento dos meus filhos para decidir se elas serão compartilhadas, e com quem.
2. Negar que você é egoísta ou fingir ser abnegada.
Odeio pessoas que dizem "Deus abençoe" para mim quando veem nossa família. O que elas querem dizer, na realidade, é que eu devo ser alguma alma bondosa que resgatou esses dois pobres órfãos. Esse tipo de pensamento é ofensivo - e completamente equivocado.

Para começar, adotei meus filhos porque queria uma família, e a adoção internacional era a única alternativa possível para mim. Não foi um ato de abnegação que me levou a ser mãe; te garanto que agi somente em interesse próprio. Em segundo lugar, não resgatei ninguém. Na verdade, como dizem muitas mães adotivas, nós é que fomos salvas, não o contrário.
3. Agir como se eles não tivessem tido pais antes de você.
Meus filhos nasceram de outras pessoas. É natural que eles queiram saber quem são seus pais naturais, onde eles moram, porque decidiram doá-los. É um buraco negro no coração de toda criança adotada que precisa ser preenchido com a luz do sol. Não sinto inveja nem raiva quando minha filha acende uma vela no bolo de aniversário para lembrar da mãe biológica. Não enlouqueço quando ela escreve um bilhete para a mãe e o guarda numa caixa secreta. Digo para meus dois filhos o que eu realmente sei sobre suas famílias, o que não é muito, infelizmente. Não especulo nem conto mentiras só para que eles se sintam melhor. E, se meus filhos decidirem se juntar aos milhares de outros chineses adotados que estão começando a buscar suas famílias biológicas, darei todo apoio.

Sou plenamente ciente de que, para que eu tivesse a minha família, duas mulheres do outro lado do mundo sofreram uma perda terrível. Não consigo imaginar a dor delas. Não sei o que lhes diria. Mas não vou ignorar sua existência.
4. Esperar gratidão ou apreciação por tê-los adotado.
Você pode esperar que uma criança adotada aprecie tudo o que você faz por ela, incluindo o rodízio para levá-la à escola e as incontáveis apresentações de dança que você teve de aturar - e o mesmo vale para um filho biológico. Mas você não pode nem deve esperar que eles sintam gratidão por terem sido adotados. Eles foram uma parte da transação sem direito a voz. Foram os bens negociados. Nunca puderam dar opinião sobre o que estava acontecendo com eles ou sobre o que seria seu futuro.

Sei que minhas crianças se perguntam como teriam sido suas vidas se elas não tivessem sido adotadas. Eu também penso nisso. De maneira geral, sei que eles estariam bem, pois ambos são sobreviventes. A adoção, para eles, foi uma troca. Ter a oportunidade de ter uma família significou abrir mão da cultura, da língua e de tudo o que era familiar para eles - comida, rostos, amigos --, literalmente da noite para o dia. A gratidão é uma faca de dois gumes.
5. Dizer que você "nasceu" para ser pai ou mãe de seu filho adotivo.
Muitos pais e mães adotivos procuram ligações com a criança que adotaram. Entendo essa necessidade. O que não entendo é o desprezo pelos pais biológicos das crianças. Se você "nasceu" para ser mãe da criança, porque outra mulher a deu à luz? Será que foi um plano perverso de Deus causar sofrimento a uma mulher da Guatemala, da Coreia ou do Kansas só para que você pudesse ser feliz?

Acredito que há maneiras de demonstrar o quanto amamos nossos filhos. Digo aos meus o tempo todo que eles são a luz da minha vida, que sou honrada de ser mãe deles, que os amo mais do que minha própria vida. Mas passo longe do sobrenatural ou da intervenção divina. O que nos uniu foi um burocrata chinês casando dossiês de pais com papeis de órfãos. Nada mágico.
6. Tratar mal os idiotas.
Tenho pavio curto e, como escritora, disponho de um enorme arsenal de palavras. É sempre tentador ser grossa com os idiotas que fazem perguntas pessoais sobre seus filhos. Mas, antes de adverti-lo a não fazer esse tipo de coisa, permita-me pedir desculpas à mulher no supermercado que, em 2004, viu minha filha chinesa sentada no meu carrinho e me perguntou se o pai dela era asiático. Minha resposta: "Não sei, não reparei direito na cara dele, se é que você me entende (piscadinha)". Bom, é claro que ela saiu andando.

Me arrependo de ter me comportado assim. Me arrependo por uma única razão: milha filha viu tudo. Apesar de ela não ter entendido o sarcasmo, ela pegou o tom. A vida é curta demais para responder a idiotas.
Quem adota crianças que não se parecem consigo sempre vão ouvir perguntas. Algumas são difíceis de engolir. "Quanto ele custou?" "Por que você não adotou uma criança americana?" "Ela fala asiático?" (Por onde começar a responder uma dessas?)
Você não deve explicações a ninguém. Aprendi a lição e a ensinei aos meus filhos: a história é deles. Eles podem falar o quanto quiserem, mas não têm obrigação de responder para ninguém, mesmo que seja um adulto ou um professor quem estiver perguntando. Sim, professores são os piores na hora de invadir privacidade.
Meus filhos e eu agora respondemos as perguntas com outras perguntas. "Por que você quer saber?" geralmente serve para acabar com a conversa. Ou então explicamos que não queremos falar do assunto. "Considero sua pergunta muito pessoal." Dá vontade de gravar a reação de um adulto quando ele ouve isso de uma criança de cinco anos. É muito engraçado.
Mas a regra de não ser grossa com idiotas tem uma exceção. Essa não pode passar em branco: "Por que você não adotou uma criança americana? Muitas crianças americanas precisam de uma casa".
É uma pergunta que costuma ser feita por ignorantes. Crianças americanas são adotadas o tempo todo logo depois do nascimento. Crianças americanas mais velhas às vezes entram no sistema de assistência social - um processo considerado frustrante por muitas famílias que querem adotar. Mas, mais importante, a pessoa que fez a pergunta não tem nenhum interesse em informações sobre adoção e provavelmente está só acenando com uma bandeira patriótica na sua cara.
7. Pensar em seu filho como um filho adotivo.
Ele é seu filho. Ponto. Toda criança, não importa de onde tenha vindo, é parte da sua família. Filhos adotivos não deveriam ter esse adjetivo. Alguns podem ter problemas ligados ao fato de que foram adotados, mas a maioria, não. É melhor para todo mundo se você parar de achar que qualquer problema de desenvolvimento tem a ver com a adoção. Crianças hiperativas, adolescentes rebeldes, filhos com dificuldades para ler - nem tudo está relacionado à adoção e tudo vai ficar mais fácil se você aceitar isso.

8. Achar que dá para devolver um filho adotado.
Criar filhos - biológicos ou adotados - é o trabalho mais difícil da sua vida. Quando você dá à luz seu filho, a ideia é que você vai amá-lo e lidar com qualquer problema de saúde ou de desenvolvimento que ele venha a ter.

A ideia deveria ser a mesma nas famílias que adotam. Mas existem uma coisa chamada ruptura na adoção que me deixa nauseada. É quando uma família adota uma criança mas não dá conta dela - e aí tenta encontrar caminhos (geralmente online) para passá-la para outra família.
Reuters publicou uma reportagem a respeito um ano atrás. Muito do problema está relacionado à falta de apoio para as famílias, que claramente não estão preparadas para as crianças. Também culpo as agências de adoção por não fazerem uma seleção mais rigorosa dos que se candidatam a adotar.
Mas o que me aterroriza é a ideia de que pais anunciem seus filhos indesejados na internet e driblem o governo para passá-los para outras famílias. Que tipo de dano acontece quando uma criança passa de casa em casa?
A adoção é só um meio para trazer uma criança para sua família. Não conheço classificados online para crianças biológicas, então como é possível que eles existam para crianças adotadas?
Muitas partes do processo de adoção não se parecem em nada com dar à luz uma criança. Mas uma coisa deveria ser idêntica: nossos filhos são nossos filhos para sempre.
Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.
Fonte: http://www.brasilpost.com.br/ann-brenoff/8-coisas-que-pais-adotivo-jamais-devem-fazer_b_6152252.html?utm_hp_ref=brasil-familia

Por que eu quero que meus filhos me vejam nua

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Por Rita Templeton

Publicado 04.11.14 no site Brasil Post

Eu moro em uma casa cheia de meninos: quatro, para ser mais exata. Mas eles ainda são pequenos - então não existem revistas de mulher pelada escondidas em baixo dos colchões, nenhum site de pornografia é acessado com frequência que alguém se esqueceu de apagar do histórico de navegação, nada assim. Por mais que eu goste de pensar que os meus filhos não vão ter curiosidade sobre essas coisas, eu tenho consciência de que não será assim: elas virão pela frente e provavelmente acontecerão bem mais cedo do que eu gostaria (quer dizer, se o meu desejo se realizasse, eles nem pensariam em sexo até uns 25 anos).

Mas antes que tudo isso aconteça - antes deles serem expostos a peitos que são tão redondos e firmes quanto melões e a fotos de bundas durinhas, photoshopadas e sem um furinho de celulite sequer - estou expondo meus meninos a um tipo de corpo feminino diferente. 

O meu.

A modéstia não é praticada em nossa casa. Eu não ando pela casa pelada como fazem os meus filhos (e eu passo mais tempo falando "vista uma calça!" do que qualquer outra coisa) - mas eu nunca deixei de trocar de roupa na frente deles, ou de deixar a porta aberta quando eu tomo banho ou de amamentar um bebê sem me cobrir. Faço isso porque eu quero que vejam como é o real corpo de uma mulher. Pois se eu não fizer isso - e as primeiras imagens que eles tiverem de uma mulher nua forem aqueles corpos impossivelmente perfeitos das revistas ou filmes - que tipo de expectativa eles vão criar? E que mulher conseguirá atender a essas expectativas?

Cá entre nós, confesso que não gosto nem um pouco do meu corpo pós-maternidade. Mas pelo bem dos meus filhos - e das minhas futuras noras - eu minto descaradamente. Quando eles me perguntam sobre as minhas estrias, eu digo orgulhosamente como é uma tarefa árdua gerar um bebê e que as estrias são como medalhas de honra que eu conquistei (referência de jogos sempre fazem sentido para garotos, independente do quê você esteja tentando explicar). Por mais que eu tenha vontade de fazer uma careta e me afastar quando tocam na minha barriga fofa, eu deixo que eles apertem a minha banha entre seus dedos curiosos. Se eu odeio isso? Sim. Tenho vontade de berrar "Deixem a minha gordura em paz!" e me enfiar numa camiseta gigante (ou, tipo, a clínica de lipoaspiração mais próxima).

Mas não faço isso. Por que por enquanto, nesses poucos anos de formação deles, a minha banha é a única percepção do corpo feminino que eles têm. E eu quero que eles saibam que ele é lindo, mesmo com as suas imperfeições.

Falo para eles como o meu corpo é forte. Eles me vêem malhando. Eles vêem que escolho alimentos saudáveis para comer, mas ainda assim não me privo de comer os doces que tanto amo. E apesar de - como a maioria das mulheres - eu me culpar por dentro por conta da calça jeans que está ficando apertada demais, ou querer gritar de frustração com os números que eu vejo na balança, na frente dos meus meninos eu só demonstro orgulho do meu corpo. Mesmo que eu me sinta exatamente o contrário por dentro. Transmitir uma imagem corporal positiva não é uma questão exclusiva de quem tem filhas - e para meninos, tem a ver não só com ajudá-los a sentir confiança com seus próprios corpos, mas também em ensiná-los que o que é real é belo quando se trata do sexo oposto.


Não quero prejudicá-los, ou qualquer mulher que eles possam ver nua no futuro, transmitindo a eles a ideia de que peitos caídos são feios ou que algumas gordurinhas sejam razão para a pessoa se envergonhar. Quero que eles saibam que isso é normal, e que as imagens retocadas e digitalmente 'embelezadas' com as quais eles serão bombardeados não são reais. É claro que eles vão ficar de queixo caído com aqueles peitos duros, e barrigas negativas e bundas empinadas... mas a minha esperança é que, no fundo, eles saibam que aquele não é o padrão do corpo de uma mulher que eles devem esperar. Tipo, nunca.


Vai chegar um momento em que vou me cobrir quando eles estiverem por perto. Tenho certeza que em algum momento vou ouvir "ai, mãe, coloca uma roupa aí...!" e eles vão aprender a bater na porta antes de entrar no banheiro (e sinceramente - mal posso esperar esse momento). Mas até lá, vou deixar que eles passem os dedos nas minhas estrias e dar um sorrisinho e aguentar quando eles derem gargalhadas sobre como a minha bunda treme quando ando para pegar uma toalha. Por que enquanto eles são pequenos, eu quero plantar a semente - para que quando forem mais velhos e suas esposas disserem, "Queria que minhas coxas fossem menores", meus filhos possam dizer, "Elas são perfeitas do jeito que elas são". E realmente achar isso.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/rita-templeton/por-que-eu-quero-que-meus-filhos-me-vejam-nua_b_6099174.html

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Veja dez perguntas que você deve se fazer antes de pensar em adoção

Fui umas das fontes de uma matéria do Portal Uol pela segunda vez. 
Essa matéria esta' o'tima. 
Confiram!

29 de outubro de 2014
Por Louise Vernier e Rita Trevisan, Do UOL, em São Paulo
A adoção deve acontecer no momento certo e ser tratada como um importante projeto de vida. É preciso que a família amadureça a ideia antes de receber a criança no lar, o que implica em refletir sobre questões centrais que envolvem a criação e a educação de um filho.
"É fundamental considerar que, embora a criança tenha sido gerada em outro ventre, ela será sempre um filho, com tudo de bom e com todas as responsabilidades que esse nome pode trazer", diz Cintia Liana Reis de Silva, psicóloga pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas, especialista em adoção.
Nesse processo, é interessante avaliar expectativas, crenças e, principalmente, a motivação para adotar. "O que vai garantir a saúde emocional da criança é um vínculo afetivo sadio com os pais. Essa criança precisa ser incluída na família como um filho, apenas isso", afirma a psicóloga Luciana Leis, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Saiba mais sobre o assunto, reflita e avalie se está preparado para dar esse importante passo.

1. Qual é a sua motivação para adotar?

Essa é uma das questões mais importantes sobre as quais você deve pensar. "A adoção não deve ser caridade, antes de tudo, deve-se ter o desejo de criar e educar um filho. Afinal, adotar significa se tornar mãe e pai para sempre, para as alegrias e para os momentos mais difíceis", afirma a psicóloga Lidia Weber, professora e pesquisadora da UFPR (Universidade Federal do Paraná), autora de 12 livros sobre relações familiares, entre eles "Pais e Filhos por Adoção no Brasil"" (editora Juruá).
Se os pais descobriram a infertilidade ou perderam um filho genético, é fundamental viver o luto e encontrar o equilíbrio emocional, antes de partir para a adoção. "A adoção nunca deve ser encarada como um último recurso e, sim, como mais um caminho para a chegada de um filho", diz Luciana.

2. Quais são as suas expectativas?

Fantasiar demais sobre a criança e o papel que ela terá na família é algo que tende a prejudicar a relação. É preciso dosar as expectativas, a começar pelo momento do primeiro encontro. "Pode ocorrer um momento mágico, em que os adotantes visitam um abrigo e a criança que vem falar com eles é aquela que eles foram conhecer, mas nem sempre é assim. Se a criança for pequena, pode estranhar, chorar, não querer ir no colo. Se for maior, também poderá se afastar", afirma Lidia.

É preciso ter em mente que a criação do vínculo emocional leva tempo e que até os pais biológicos passam por esse processo. "O amor nasce da convivência e não do parto. Toda relação de amor, para existir, precisa que as pessoas envolvidas se adotem", diz Cintia.

3. O que você sabe sobre adoção?

"Cuidar, educar, socializar e amar um filho é uma das tarefas mais difíceis e gratificantes que existe e todos que têm a pretensão de viver essa experiência, seja pele genética, seja pela adoção, devem se preparar", declara Lidia. Segundo a psicóloga, o cuidado vai além da habilitação formal, que os adotantes precisam obter nos Juizados. É interessante preparar-se tecnicamente: ouvir palestras, ler livros, conhecer histórias de quem já adotou e frequentar grupos de apoio à adoção.
"Não basta ter sido filho para saber criar um filho. No caso da adoção, é essencial se preparar para lidar com o fato de que a criança tem uma outra origem, de forma segura e leve", diz Lidia.

4. Como estão as suas emoções?

Antes de ter um filho, adotado ou não, o ideal é conhecer seus recursos e fraquezas, trabalhar as próprias carências e medos, aprimorando o autoconhecimento. "Outra questão importante é avaliar o modelo de educação recebido dos pais. E ir além da própria história de filiação: procurar não repetir erros e ainda desenvolver novas habilidades", recomenda Lidia.

5. Sua família já conhece o seu projeto?

É possível que nem todos os parentes estejam de acordo com a adoção, mas eles devem ser avisados com antecedência dos seus planos. Também vale a pena dizer que espera apoio e que não vai tolerar preconceitos e diferenças. Entre o casal, é essencial que haja um consenso sobre todas as questões que dizem respeito à adoção. "Se há alguma crise na família ou entre o casal, isso precisa ser resolvido antes da chegada da criança. Porque ela vai exigir muitos ajustes na rotina. Se já houver um problema de relacionamento, a tendência é aprofundá-lo", diz Luciana.

6. Você tem estrutura para criar um filho?

Isso implica em ter uma vida financeira equilibrada e estável, em ter espaço na casa para uma criança e em viabilizar, na rotina, alguns intervalos que possam ser dedicados exclusivamente ao filho.
"Os aspectos psicológicos também são importantes. Não basta desejar muito um filho, é necessário estar preparado para uma relação que vai durar a vida toda, estar pronto para enfrentar adversidades e também para curtir as alegrias associadas à experiência", afirma a psicóloga Lidia Weber. "Ter um filho não é igual ter uma boneca para enfeitar e mostrar aos outros: é construir uma história, é trabalho duro e exige energia, tolerância e disposição", completa a especialista.

7. Está preparado para lidar com os possíveis preconceitos?

A discriminação pode vir de quem menos se espera, de forma velada ou não. "Muitas pessoas vão apoiar, mas é muito comum que, ao anunciar a decisão de adotar, surjam comentários como: 'Nossa, que coragem!' ou 'Por que você vai fazer isso?'. O importante é que os pais se sintam absolutamente confortáveis com a decisão que tomaram. Além disso, aconselho treinar respostas adequadas para essas situações desafiadoras", diz Lidia.
Se quem adota é uma pessoa solteira ou um casal homossexual, o traquejo para lidar com comentários indelicados terá de ser ainda maior. "O preconceito que vem de fora não deve prejudicar a relação com a criança. Mas os pais precisarão estar preparados para enfrentá-lo e até para dar um suporte psicológico ao filho", explica a psicóloga Luciana Leis.

8. Você já sabe como vai contar à criança sobre a adoção?

Existe um consenso entre os especialistas de que a criança deve conhecer sua condição desde os primeiros dias no novo lar. "Seu filho tem o direito de conhecer a própria história de vida e deve se orgulhar dela, afinal, não há vergonha alguma em ter sido adotado. Além disso, é preciso considerar que é sempre melhor saber pelos próprios pais da adoção do que por meio de terceiros", diz a psicóloga Cintia Liana Reis de Silva.
Quando a criança começar a perguntar sobre a origem dos bebês, por volta dos três ou quatro anos de idade, os pais já devem introduzir a adoção como mais um caminho para a constituição da família.

9. Se seu filho pedir mais apoio emocional, como vai reagir?

A maioria das crianças que está na fila da adoção sofreu algum tipo de negligência, abandono ou maltrato em sua família de origem. Portanto, os pais adotivos deverão estar emocionalmente equilibrados para apoiar o filho sempre. "É possível que, em uma idade mais avançada, a criança, principalmente a institucionalizada, teste o vínculo. Ela tem medo de ser novamente abandonada, precisa se sentir amada e segura no novo lar", diz Luciana.
Isso não significa dizer que as crianças adotivas terão mais problemas de relacionamento com seus pais do que os filhos biológicos. "Geralmente, as crianças sabem que estão indo para uma condição muito melhor e estão prontas para se apegarem e estabelecerem laços de afeto com facilidade", afirma Lidia.

10. O que fará se, mais tarde, seu filho quiser conhecer os pais biológicos?

A psicóloga Lidia Weber, pesquisadora e autora de diversos livros sobre o assunto, afirma que, ao contrário do que se imagina, a maioria dos filhos adotivos não tem informações sobre sua família de origem nem deseja conhecê-la. "A maioria dos filhos adotivos que eu entrevisto diz que está feliz com sua família atual e tem a ideia de que a família de origem o abandonou mais por falta de condições financeiras do que por falta de amor", diz Lidia.
No entanto, se a criança quiser conhecer os pais biológicos, tem o direito de fazê-lo. "O ideal é que os pais adotivos expressem empatia pela família de origem da criança, que não mostrem raiva nem queiram apagar as experiências que ela viveu com os outros pais. Não é preciso ter medo de dividir o amor da criança com os pais biológicos, se eles forem encontrados. A filiação é garantida pela via emocional e não pela via biológica", afirma Lidia.

Fonte: http://mulher.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2014/10/29/veja-dez-perguntas-que-voce-deve-se-fazer-antes-de-pensar-em-adocao.htm

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Cintia Liana citada na Revista Atrevida de novembro

Cintia Liana na Revista Atrevida

Aquela que "ficou pra titia" na terapia familia

We Heart it

Publicado também no site Indika Bem dia 09 de outubro de 2014

Por Cintia Liana Reis de Silva

Há algum tempo escutávamos muito mais a expressão "ela ficou para titia" ou "ela vai ficar para titia", se referindo a uma mulher que não se casou e nem teve filhos e já passava dos 25, 30 anos. Titia porque o papel de tia com os sobrinhos era o que lhe restava, já que não havia "se realizado" como mãe e mulher na visão dos outros. 

Hoje o cenário mudou muito, não só porque as mulheres estão se vendo e se sentindo cada vez mais jovens para certas escolhas e se realizando profissionalmente antes de se casarem e terem filhos depois dos 30, 35, 40 anos, mas também porque estão escolhendo bem os seus parceiros e escolhem fazer experiências precedentes ao casamento, sentindo que possuem uma certa liberdade afetivo-sexual que antes não era permitida. Mas não podemos esquecer que também existem aquelas que fizeram a opção de não terem filhos e escolheram focar na carreira e em si mesmas, mesmo que tenham seus parceiros fixos.

Mas focalizando naquela mulher que "por acaso ousou" querer constituir família e ter filhos, mas não concluiu o seu desejo, o que a terapia familiar tem a contribuir? Irei explicar resumidamente.

Os pais, os irmãos e o sistema familiar como um todo possuem um lado inconsciente e é essa face oculta que comanda em grande parte o curso da vida de cada indivíduo envolvido nesse complexo sistema. A que "ficará para a titia" é aquela irmã eleita em nível inconsciente para estar mais próxima dos pais. Esse secreto estado de coesão familiar crê que ela é a mais desprotegida, a mais frágil, a que não tem condições de "se virar" sozinha. Ela não é vista como a mais bela das irmãs - a mais bela já ganha uma outra função - e os irmãos acabam compactuando com essa aliança entre os pais e essa figura escolhida porque para eles pode ser conveniente que os pais sejam "acompanhandos" e protegidos na velhice por alguém de sua confiança. Nesse caso, existe um mandato familiar pré estabelecido. Se cria essa dinâmica que reforça esse pensamento antigo, da filha que fica destinada a essa delicada e importante função, a de cuidar dos pais. É importante estar atento a esses padrões e problemas familiares que passam através das gerações.

Essa filha, eleita para a "ser a titita", cresce e ainda preserva traços de imaturidade, porque assim é vista pela família, que transfere para ela essa imagem infantil, de dependência e não a motiva em seu processo de progressiva autonomia individual, mesmo que pense que o faz - por isso é tão imporatnte a terapia individual ou familiar. Às vezes se cria também um processo de triangulação emotiva, onde ela, por estar tão próxima dos pais emotivamente, nesse aglomerado familiar, acaba por esconder o desentedimento do casal e todas as coisas acabam sendo voltada para ela, maquiando outros problemas nesse subsistema conjugal.
Pode ocorrer da família querer até diagnosticá-la ou acreditar que é portadora de algum retardo cognitivo, mas não é, ela só tem um baixo nível de maturidade e de diferenciação do self, criado e alimentado pelos próprios pais, e esse nível pode vir a mudar, caso o ambiente mude ou ela queira crescer.

Ela pode também ser filha única, mas normalmente é a mais nova das irmãs e faz parte de uma família com uma prole relativamente grande, com no mínimo três filhas do sexo feminino. "A escolhida" pode até ter tido um filho de um relacionamento passageiro, mas não estava pronta para levar adiante um relacionamento amoroso maduro, ainda estava muito ligada à família, então volta para perto dos pais e se dedica a seus cuidados e aos do filho. Ou até mesmo pode transferir as suas responsabilidades de mãe à sua mãe e sua responsabilidade de educá-lo e a sua autoridade a seus pais. Ela está costumada a ser filha, mas também a servir, a ser companhia e a estar sempre disponível.

"A titia" foi uma espécie de vítima, super protegida não teve espaço para se desenvolver afetivamente com outras pessoas, a criar amizades muito significativas muito além da família e nem teve relacionamentos afetivo-sexuais importantes, pois a sua família estava lá, ocupando um espaço muito grande e sempre em primeiro plano em tudo. Ela ainda serve para cuidar dos sobrinhos e a dar suporte, caso algum irmão precise.

"A titia" acaba por se torna o que chamamos na terapia familiar de "filhos crônico" que, segundo Andolfi, "é aquele adulto que não consegue superar vínculos de dependência e de imaturidade em relação aos próprios genitores, permanecendo obstinadamente filho, ainda em etapas sucessivas do seu ciclo de desenvolvimento, impedindo-se, desse modo, de conquistar uma autêntica Autoridade Pessoal". Quando os pais já não estão, os irmãos passam a ser suas figuras de referência, de autoridade e de segurança.

Segundo Bowen, o pai da terapia familiar, "cada se humano deve ter o dieito de conquistar um Eu responsável, que assuma a responsabilidade da própria felicidade e do próprio bem estar e que não considere os outros responsáveis ou culpados pela própria felicidade e pelos próprios insucessos". Portanto, esse texto não serve para culpabilizar ninguém, mas serve talvez como alertar para as pessoas darem a liberdade a todos os irmãos de serem felizes e realizarem seus sonhos e projetos, assim como para uma possível "titia" estar alerta e, se quiser, dar o seu grito de liberdade. Desse modo, todos se sentirão menos culpados por serem felizes, por terem constituído suas famílias, sem ter tirado a chance do outro ser feliz, sabendo que tiveram opotunidades semelhantes e, consequentemente, a família assim funcionará de maneira mais saudável, com um maior senso de justiça e igualdade.

Por Cintia Liana Reis de Silva

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O momento ideal para iniciar a vida sócio escolar

Fonte da imagem: www.cuidardebebe.com
"O momento ideal para iniciar a vida sócio escolar"

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Site Indika Bem no dia 25 de setembro de 2014.
Cada dia que passa as crianças vão o mais cedo possível à creche ou à escola, ou melhor os bebês, pois até 2 anos o menor ainda é um bebê. Cada criança segue esse percurso de acordo com as necessidades dos pais, por causa do trabalho ou até pelo fato de desejarem ter mais tempo para eles.
A crença de que os menores precisar ir logo à escola, mesmo sem a necessidade vem não só em virtude das mães de hoje precisarem trabalhar, mas também do pensamento de que a crianças pequenas precisam se socializar o mais rápido possível, mesmo quando têm uma mãe que pode passar todo o tempo com elas. Muitos acreditam que esse intenso contato com a mãe pode ser nocivo e torná-los muito dependentes um do outro, mas não é verdade.
Quando as crianças iniciam a vida escolar, eclodem as neuroses que nasceram naturalmente no seio da família. E essas neuroses vêm a tona de forma mais forte nesse contato social intenso e desnecessário para ela. É desnecessário estar sem a família por perto para gesti-la emocionalmente, sem figuras afetivas e de apego significativas para lhe darem suporte, e é nesse momento que as crianças começam a ficar doentes, não só pelos vírus que as rodeiam. O vírus ataca a pessoa que está com baixa imunidade e a baixa imunidade é característica de alguém que não está bem emocionalmente. O não estar equilibrado emocionalmente pode ser pelo fato desse contato social intenso ter começado antes da hora, antes da criança estar madura o suficiente para essa experiência e por não ter aproveitado mais a vida cotidiana despretensiosa em seu próprio lar.
Crianças até 2 anos precisam estar muito tempo com a mãe! É uma necessidade real, existencial e vital que só faz bem.  A manutenção e o estabelecimento dessa proximidade com sua principal figura provedora de cuidados, que geralmente é a mãe, é o lastro firme para um futuro de uma mente equilibrada. O que faz mal é uma mãe super protetora e controladora, mas caso contrário, essa base e companhia, se forem sadias só darão à criança a possibilidade e a segurança de se relacionar bem com o resto do mundo. Por isso, não se sinta culpada por querer passar todo o tempo com o seu filho enquanto ele ainda é pequenino. Aproveite com sabedoria! Contra indicado é ele passar muito tempo com a “baby sitter” ou na creche.
Se ele tiver que ir a creche muito cedo, com 4 meses, tente encontrar tempo para estar próxima ao seu filho, tempo de qualidade, colocar ele para dormir sobre o teu peito. Procure não competir nas situação de conflito, não perder a paciência meio ao cansaço físico e mental. Crie alianças positivas.
É importante ter sempre em mente que a crianças refletem os medos, as ansiedades e os traumas da mãe, dos pais, do casal. No caso da mãe, muitas vezes ela se vê refletida nesse filho, projeta a sua criança ferida, conduz a relação em parte com base nesses medos e nessas feridas e fantasias, por isso faz-se necessário reflexão honesta ou até mesmo terapia para amadurecer esse olhar.
Se partirmos do princípio de que para o “apego seguro” se desenvolver bem são necessários 3 anos e meio de uma boa interação com uma disponibilidade afetiva incondicional e muito positiva com a figura de apego, de acordo com o pai da teoria do apego, John Bowlby, o ideal seria a criança passar bastante tempo com mãe até essa idade e ir a escola só após completar 3 anos e meio. Se socializar não se faz só na escola, mas dentro da família, com os primos, com os avós e tios, com os filhos dos amigos, no parque, no jardim perto de casa com outras crianças, na natação, na aula de dança.
Aproveitando, te convido a conhecer um pouco os tipos de apego. O apego em quatro padrões:
“Seguro – o bebê sinaliza a falta da mãe na separação, saúda ativamente a mãe na reunião, e então volta a brincar; Inseguro – evitante – o bebê exibe pouco ou nenhuma aflição quando separada da mãe e evita ativamente e ignora a mãe na reunião; Inseguro – resistente – o bebê sofre muito, tem muita aflição ou angústia pela separação e busca o contato na reunião, mas não pode ser acalmado pela mãe e pode exibir forte resistência; Inseguro – desorganizado – apresenta comportamento misto, ora como evitante, ora como resistente.” (Lantzman, 2014)
O apego resultante da interação bebê-mãe, varia de acordo com o tipo de cuidado materno e das características inerentes ao bebê.
Com 2 anos de idade se ganha naturalmente uma autonomia emocional maior, quando é indicado que ocorra o desmamem total para que se cresça ainda mais e sua mãe retome o seu espaço psíquico e os pais voltem a estar mais próximos como casal. Então, como tudo é algo a ser refletido e preparado com delicadeza e respeito, indico que cada mãe avalie e sinta quais são e por onde vão as suas emoções. Se ela sente que seu filho deseja estar mais tempo com outras crianças, se ele se sente seguro em passar umas 3 manhãs na creche para brincar e se ela lhe dá tempo para se adaptar a essa nova realidade, porque não? Se a mãe se sente preparada para esse passo, se está fisicamente cansada, não deve se sentir culpada e nem sentir medo de ser “abandonada”.
Se a criança for respeitada em seus medos e ansiedades, sem críticas e julgamentos, com pais que alimentam o autoconhecimento para amadurecerem com honestidade, com um envolvimento afetivo nutritivo, ela será feliz, se sentirá bem e segura e isso é o mais importante para o seu bom desenvolvimento bio-psíquico-sócio-afetivo.
Cintia Liana Reis de Silva
Referência:
Lantzman, Mauro. O apego. Disponível em: http://www.pet.vet.br/puc/oapego.pdf. Acesso em: 10 de setembro de 2014.
Fonte da imagem: www.cuidardebebe.com (Créditos e Divulgação)