"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O parto e a dignidade, um parto natural após um cesáreo

Após 3 meses e meio sem postar, hoje senti vontade de recomeçar falando do parto da minha segunda filha, um VBAC (Vaginal Burn After Cesarian) de sucesso. É isso, eu sou uma VBAC de sucesso e vim aqui contar essa história maravilhosa para vocês.

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"O parto e a dignidade"
Um parto natural após um cesáreo

Cintia Liana

Desde o parto da minha primeira filha alimentava o desejo de ter outro bebê. Parecia que ainda faltava alguém em casa. Agora sinto a minha família completa.
Como o meu primeiro parto não teve o período de expulsão e acabei fazendo um cesário depois de muitas horas de trabalho - porque não me deixaram parir na posição que desejava, porque não senti que tive privacidade, etc. - queria muito ter um segundo parto todo natural, sem anestesia ou nada que me fizesse estar longe da espontaneidade do fenômeno do nascimento.
Ao mesmo tempo sentia medo de um novo parto, mais especificamente de um cesáreo, e só engravidei depois de me liberar completamente desses temores através de uma constelação familiar com o meu colega psicólogo Dr. Stefano Silvestri. Esses medos não eram meus. Agarrei o meu destino com determinação.
Mesmo sabendo, antes mesmo de engravidar, que poderia e tentaria um parto natural, mudei o percurso dos planos do parto na segunda metade da gestação, alterando certas escolhas quando estava com 5 meses e meio. Não queria uma abordagem médica em minha gravidez.
Trabalhei as minhas limitações, crenças, insegurança. Não as aceitava. Pedi orientação espiritual para escolher os profissionais certos. Já fazia terapia, li muito, fiz outras constelações familiares, a essa altura fazendo o curso de formação em constelações com Dr. Silvestri. Recebi aplicações de Access Bars Conscionsness. Gostei tanto que comecei a fazer o curso para me tornar operadora de Bars e passei a repetir as frases de limpeza, para mudar antigas crenças. Fiz também o curso de parto Leboyer com Letizia Galiero, aprendiz do próprio Leboyer. Abri os meus horizontes mais ainda, mudei os meus pontos de vista, acreditei em algo muito maior para mim. Num país que estou aprendendo a conhecer, em busca de um Vbac (vaginal burn after cesarian - parto vaginal após cesáreo) com profissionais realmente respeitosos. Não queria correr o risco de apressarem o meu segundo parto novamente.
Dentre três indicadas, escolhi a que seria a minha doula, mais precisamente uma obstetriz - ostetrica em italiano - ela é também naturopatapara, Monica Marino, que me encaminhou para uma clínica, a Casa di Cura Villa Maria Pia em Roma. Queria, desta segunda vez, um hospital pequeno, mas todo equipado, acolhedor, talvez um parto na água. Me dei conta de que não queria o mesmo grande hospital "renomadíssimo" da primeira experiência, onde as mulheres parecem ser mais um número.
Mas o médico que me acompanharia junto à obstetriz queria que eu fizesse um cesário, porque não era um especialista em VBAC. Discutimos a possibilidade de um cesáreo como interveção depois do início do trabalho de parto, para ser menos traumático, para esperar a hora certa do bebê. Um cesáreo porque segundo ele o espessor de minha cicatriz estava abaixo do indicado para um parto natural e com as contrações poderia se abrir. Não me conformei, pois eu sabia que poderia fazer um parto espontâneo. A minha intuição gritava e dizia "confie em teu corpo, você pode, você tem compreensão!".
Eu e meu marido fomos a uma consulta com um dos maiores especialista da Itália em parto VBAC, o Dr. Carlo Piscicelli do hospital Cristo Re em Roma, indicado por uma das obstretrizes indicadas, a Sonia Di Pascali. Ele confirmou que a minha consciência estava certa, que eu era uma forte candidata ao VBAC, porque não era obesa, minha cicatriz era horizontal e eu tinha feito o cesáreo há mais de 1 ano e meio, melhor, há mais de 4 anos. Esses três pré requisitos fazem parte do protocolo da Organização Mundial da Saúde para um parto espontâneo depois do cesáreo. Quanto a espessura da cicatriz, isso consta só nos livros, pois na prática é mais esperado que tudo corra bem e uma ecografia não é capaz de medir bem essa espessura, tanto que fiz trê e cada uma era diferente da outra.
Abandonei o velho, abracei o meu lado forte e confiei na vida, na minha intuição. Tudo fluiu na mais perfeita ordem. A pedido meu, a minha obstetriz conseguiu mudar alguns protocolos da clínica para que eu tentasse um parto espontâneo, sem epidural e assinei os documentos de rotina do protocolo VBAC.
Duas semanas antes da data prevista para o parto, no dia 3 de fevereiro, comecei a sentir as contrações, A Monica (obstetriz) foi à minha casa e me examiou, quando eu atingi quase 4 centímetros de dilatação fomos para a clínica. Ter ela perto de mim fez toda a diferença, uma mulher sábia, segura, sensível e forte. Foi um dinheiro muito bem investido. Realmente bravíssima!
Fui no carro sentindo uma dor alucinante que me levava para o mágico mundo do parto, do nascimento. Eu aceitei aquela dor, que tem todo um motivo para existir , como bem sabe a famosa psicóloga Laura Gutman.
Já tinha uma consulta marcada pelo Skype, então no percurso fui falando ao telefone com uma obstetriz de Torino e operadora Bars, a Laura Sartorio, que me ajudava com as frases de Bars, para que eu fizesse um parto rápido e todo natural, com menos dor e sem medo, para que eu tivesse toda a consciência desse momento e o vivenciasse com facilidade, felicidade e glória. A Laura publicou um livro chamado Concepire Sè, que fala em como o Access Bars Consciosness ajuda na maternidade consciente.
Chegamos na clínica, deitei na cama para a monitoragem fetal, a bolsa estourou e naturalmente começaram as contrações para a expulção. Fui para a sala de parto. Meu marido me dando todo o apoio emocional e físicamente naquele momento que exigia de mim toda a minha força física. Como um bom marido é importante! Trabalhei na água, relaxei, depois quis sair e ficar de cócoras. Foi a experiência mais forte de minha vida. Mobilizou todas as minhas moléculas. Quando peguei a minha filha nos braços, ainda quente saindo do meu ventre, molhada e com o cheiro de liquido amniótico, ainda ligadas pelo cordão umbilical fiz contato com uma parte minha ancestral fortíssima. Tudo fez sentido. Conclui também um processo que me faltou no parto de minha primeira filha.
Saí da sala de parto andando, apoiada nos ombros de meu marido, me sentido a mulher mais incrível do mundo por ter conseguido realizar o meu sonho. Senti uma dignidade inexplicável, um amor diferente por minha mãe, por ter me parido com a mesma dor. Grande prova de amor da parte dela. Uma dor que nos leva além, que nos permite fazer contato com o bebê, que nos encaminha em direção ao nascimento de uma nova mulher. Paradoxalmente, hoje até compreendo uma mulher que tem medo do parto, mas eu escolhi um caminho sem medo, os caminhos para a consciência. Me cerquei de conhecimento e autoconhecimento e esses caminhos nos elevam.
Ri e chorei por horas. Até agora sinto um respeito e um orgulho de mim que me dizem que nunca mais serei a mesma.

Cintia Liana Reis de Silva
Psicóloga
Brasileira de nascimento, italiana de casamento
Vive e trabalha na Itália

Escrevi esse texto para dar força às muheres que querem confiar em si mesmas e alimentam o sonho do parto natural.

[Vorrei ringraziare alcuni professionisti di avanguardia, che mi hanno seguito in questo ricchissimo percorso e altri che ho fatto contatto per arricchire ancora di più il mio sguardo davanti alla potenza della nascita e che hanno creduto in me.
Monica Marino Claudia Casetti Dott. Stefano Silvestri Dr. Massimo Preziuso Dr. Ricardo Chemas Laura Sartorio]

#PartoCintiaLiana #Parto #SegundaFilha #SegundoPartoCintiaLiana #OPartoeaDignidade

Livro de Laura Sartorio
Concepire Sè

Cintia Liana
12 dias após o parto

Cintia Liana
24 dias após o parto

sábado, 21 de janeiro de 2017

A descoberta do parto



Curso de parto Leboyer, di Letizia Galiero e Sonia Di Pascali.
Nepi, Roma.

E imersa em um percurso de busca da plena consciência da gravidez, parto, nascimento, e pós parto descobrimos que a sociedade não sabe absolutamente nada sobre esses temas. As mulheres estão desaprendendo a parir, o parto virou um business, ele foi “roubado” pela ciência, pela medicalização.
As pessoas não fazem ideia de como é melhor para mãe e crianças serem “preparados” pelos hormônios no parto espontâneo. De como o ser espremido na hora da passagem prepara a criança psicologicamente para enfrentar a vida. O parto é um fenômeno da natureza. Se podemos escolher, então que sejamos pela natureza.
E o que me assusta é que muitas mulheres são induzidas a caírem na armadilha do cesáreo. Tem gente que as aterrorizam. A maioria dos médicos inventam as coisas mais inimagináveis para conduzi-las ao cesáreo e elas acreditam! Por desinformação, por inexperiência, por medo. Muitas nunca se darão conta depois de que foram enganadas e as que se dão conta buscam um segundo parto natural com todas as forças, mas nem todas as estruturas de hospitais são preparadas para um parto Vbac (Vaginal Burn after Cesarian - parto vaginal depois do cesáreo), então elas têm que se desdobrar para buscar as "pessoas certas".
Parto domiciliar hoje é luxo, não só no Brasil como na Itália, mas é mais luxo ainda porque as pessoas que o procura são aquelas que têm uma compreensão diferente do parto e aquelas que se permitem o melhor.
Eu desejo às mulheres mais consciência, mais informação, mais força, que escolham experimentar a dor do parto sem medo, porque essa dor tem todo um sentido especial para existir, as auguro mais partos espontâneos e domiciliares, porque a nossa "toca" é o lugar mais seguro e acolhedor do mundo, mais hospitais humanizados, mais acolhimento, mais intimidade, sabedoria e desapego a antigas crenças a esquemas familiares para se unirem a homens que as apoiem emocionalmente e em todos os outros sentidos. Leiam Leboyer, mulheres!
Nós não podemos aceitar mais violência obstétrica em favor da ganância, da ignorância e do dinheiro, devemos ser o instrumento de força para que a mudança aconteça e que seja uma mudança para o que há de mais autêntico, saudável e verdadeiro para a humanidade.

Cintia Liana Reis de Silva, psicóloga