"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

As crianças amadas se tornam adultos que sabem amar

Foto Página da Revista Pazes
Revista Pazes, 1º fev 2016
Nossas primeiras experiências com o mundo marcam o início do nosso desenvolvimento emocional. Na infância se tece uma rede que conectará nossa mente e nosso corpo, o que determinará em grande parte o desenvolvimento da capacidade de sentir e de amar.
Neste sentido, nosso crescimento emocional dependerá dos nossos primeiros intercâmbios emocionais, que nos ensinarão o que ver e o que não ver no mundo emocional e social no qual nos encontramos.
Assim, o campo da nossa infância nos permite semear o amor de maneira natural, o que determinará que a capacidade de amar e de sermos amados cresça de maneira saudável e nos ajude a nos desenvolvermos no futuro.
“Somos seres emocionais que aprendem a pensar, não máquinas pensantes que aprendem a sentir”. Stanisla Bachrach

Se alimentarmos as crianças com amor, os medos morrerão de fome
As amostras de carinho e afeto elevam a autoestima das crianças e as ajudam a construir uma personalidade emocionalmente adaptada e inteligente. Ou seja, o nosso amor as ajuda a lidar com os medos naturais que surgem nas diferentes idades, fomentando um grau de sensibilidade saudável.

As crianças têm uma confiança natural em si mesmas. De fato, nos surpreende que frente a desvantagens insuperáveis e fracassos repetidos elas não desistam. A persistência, o otimismo, a automotivação e o entusiasmo são qualidades inatas das crianças.
Percebermos isso nos ajuda a sermos conscientes do quão importante é amarmos nossos filhos e educá-los em relação ao respeito, empatia, expressão e compreensão dos sentimentos, controle da impaciência, capacidade de adaptação, amabilidade e independência.
O que podemos fazer para criar crianças felizes e saudáveis?
O temperamento de uma criança reflete um sistema de circuitos emocionais inatos específicos no cérebro, um esquema de sua expressão emocional presente e futura, e de seu comportamento. Estes podem ser adequados ou não, por isso a educação deve se tornar um apoio e um guia para elas.
Para alcançar uma saúde emocional ideal, devemos mudar a forma como se desenvolve o cérebro das crianças. A ideia é que através do amor e da educação emocional estimulemos certas conexões neuronais saudáveis.
Ou seja, todas as crianças e todos os adultos partem de certas características determinadas que devem ser administradas em conjunto para que possamos alcançar o bem-estar físico e emocional.
Por exemplo, quando uma criança é tímida por natureza os adultos que se encontram ao seu redor a protegem exageradamente, fazendo com que ela se torne ansiosa com o passar do tempo.
A educação emocional requer uma certa “desaprendizagem” adulta. Uma criança tímida deve aprender a dar nome às suas emoções e a enfrentar o que a perturba, não deve sentir que cortamos suas asas porque ela é vulnerável.
Um adulto deve demonstrar empatia sem reforçar suas preocupações, propondo, por sua vez, novos desafios emocionais que a permitam evoluir. Deve-se proteger a saúde emocional da criança através do desenvolvimento de suas características naturais.
As chaves básicas de uma educação emocional saudável
1. Os especialistas costumam recomendar que ajudemos as crianças a falarem de suas emoções como uma maneira de compreender a si mesmas e os demais. Entretanto, as palavras só dão conta de uma pequena parte (10%) do verdadeiro significado que obtemos através da comunicação emocional.
Por essa razão, não podemos ficar só na verbalização; devemos ensiná-las a compreender o significado da postura, das expressões faciais, do tom de voz e de qualquer tipo de linguagem corporal. Isso será muito mais efetivo e completo para o seu desenvolvimento.
2. Há anos vem se promovendo o desenvolvimento da autoestima de uma criança através do elogio constante. Entretanto, isso pode fazer mais mal do que bem. Os elogios só ajudarão as nossas crianças a se sentirem bem consigo mesmas se eles estiverem relacionados a ganhos específicos e ao domínio de novas aptidões.
3. O estresse é um dos grandes inimigos da infância. Entretanto, é um inconveniente com o qual elas têm que conviver, por isso protegê-las em excesso é uma das piores coisas que podemos fazer. devem aprender a enfrentar estas dificuldades naturais de tal forma que desenvolvam novos caminhos neurais que as permitam se adaptar ao meio no qual vivem.
Não podemos tentar criar nossas crianças em um mundo da Disney de inocência e ingenuidade. O estresse e a inquietação fazem parte do mundo real e da experiência humana, tanto quanto o amor e o cuidado.
Se tentarmos eliminar esses obstáculos, impediremos que elas tenham a oportunidade de aprender e desenvolver capacidades realmente importantes que as ajudem a enfrentar desafios e decepções que são inevitáveis na vida.
Fonte: http://www.revistapazes.com/criancasamadas/

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Criança saudável é espontânea, barulhenta, inquieta, emotiva e colorida!

Resiliência Mag

Por Resiliência Humana
Uma criança não nasce para ficar quieta, para não tocar nas coisas, ser paciente ou entreter-se. Uma criança não nasce para ficar sentada a ver TV ou a jogar no tablet. Uma criança não quer ficar quieta o tempo todo.
Crianças precisam se mover, navegar, procurar notícias, criar aventuras e descobrir o mundo ao seu redor. Elas estão aprender, são esponjas, jogadores natos, caçadores de tesouros.
Elas são livres, almas puras que buscam a voar, não ficar de lado. Não as façamos escravas da vida adulta, da pressa e falta de imaginação dos mais velhos.
Não as apressemos em nosso mundo de desencanto. Impulsionemos o seu sentimento de maravilha, garantindo-lhes uma vida emocional, social e cognitiva rica em conteúdo, perfume das flores, expressão sensorial, felicidade e conhecimento.
O que acontece no cérebro de uma criança quando brinca?
Os benefícios das brincadeiras para as crianças estão presentes em todos os níveis (fisiológicos-emocionais, comportamentais e cognitivos), isso não é um mistério. Na verdade, podemos falar de múltiplas repercussões:Descrizione: https://t.dynad.net/pc/?dc=5550001580;ord=1476779771077
Regula o humor e ansiedade.
Promove atenção, aprendizagem e memória.
Reduz o stress, favorecendo a calma neuronal, bem-estar e felicidade.
Amplia a sua motivação física, graças à qual os músculos reagem impulsionando-as a brincar.
Tudo isso promove um estado ótimo de imaginação e criatividade, ajudando-as a apreciar a fantasia do que as rodeia.
A Sociedade tem alimentado a hiperpaternalidade, que é a obsessão dos pais para que seus filhos tenham habilidades específicas para assegurar uma boa profissão no futuro. Esquecemo-nos, como sociedade e como educadores, que o valor das crianças não é definido por uma nota na escola e que com os esforços para priorizar os resultados, negligenciamos as habilidades para a vida.
“O valor das nossas crianças é que desde pequenas precisam que as amemos de forma independente, elas não são definidas pelas suas realizações ou fracassos, mas por serem elas mesmas, únicas por natureza. Quando somos crianças, não somos responsáveis por aquilo que recebemos na infância, mas, quando adultos, somos inteiramente responsáveis por corrigi-lo.”
Simplificar a infância, educar bem
Dizemos sempre que cada pessoa é única, mas temos isso pouco interiorizado. Isso reflete-se num simples facto: estabelecer um conjunto de regras para educar todos os nossos filhos.
Na verdade, esse é um equívoco generalizado que não é de todo coerente com o que acreditamos ser claro (que cada pessoa é única). Portanto, não é de se estranhar que a confluência de nossas crenças e ações resultem em confusão na criança.
Por outro lado, como afirma Kim Payne, professor e conselheiro estadunidense, estamos criando nossas crianças com excesso de quatro pilares:
Muita informação.
Muitas coisas.
Muitas opções.
Muita velocidade.
Impedimo-las de explorar, refletir ou aliviar as tensões que acompanham a vida cotidiana. Enchemo-las de tecnologias, brinquedos e atividades escolares e extracurriculares, distorcemos a infância e, o que é pior, impedimo-las de brincar e se desenvolver.
Hoje em dia as crianças passam menos tempo ao ar livre do que as pessoas que estão na prisão. Por quê? Porque nós as mantemos “entretidas e ocupadas” em outras atividades que acreditamos mais necessárias, tentando fazer com que permaneçam imaculadas e sem manchas nas roupas. Isto é intolerável e, acima de tudo, extremamente preocupante.
Consideremos algumas razões pelas quais devemos mudar isso …
Higiene excessiva aumenta a probabilidade de que as crianças desenvolvam alergias, como mostra um estudo do Hospital de Gotemburgo, Suécia.
Não lhes permitimos desfrutar do ar livre é uma tortura que limita seu desenvolvimento potencial criativo.
Mantê-las “agarradas” ao telemóvel, tablet, computador ou televisão é altamente prejudicial para nível fisiológico, emocional, cognitivo e comportamental.
Poderíamos continuar, mas neste momento a maioria de nós já encontrou inúmeras razões pelas quais está destruindo a magia da infância. Como o educador Francesco Tonucci diz:
“A experiência das crianças deveria ser o alimento da escola: sua vida, suas surpresas e descobertas. O meu professor fazia-nos sempre esvaziar os bolsos na sala de aula, porque estavam cheios de testemunhas do mundo exterior: bichos, cordas, cartas… Bem, hoje devem fazer o oposto, pedir às crianças para mostrarem o que carregam em seus bolsos. Desta forma, a escola se abriria para a vida, recebendo as crianças com os seus conhecimentos e trabalhando em torno deles “.
Esta certamente é uma maneira muito mais saudável de trabalhar com elas, educá-las e assegurar o seu sucesso. Se esquecermos isso em algum momento, devemos ter bem presente o seguinte:“Se as crianças não precisam de um banho urgente, não brincaram o suficiente.” Esta a premissa fundamental de uma boa educação.

Fonte: http://www.resilienciamag.com/crianca-saudavel-e-espontanea-barulhenta-inquieta-emotiva-e-colorida/

terça-feira, 21 de junho de 2016

Do colo materno ao convívio social na psicologia de Winnicott

RESUMO Donald Woods Winnicott, cujo 120º aniversário se celebrou em abril, é tido por muitos como o principal psicanalista depois de Freud. Ainda que o pai da teoria edípica tenha servido de referência para seu trabalho, o psiquiatra britânico formulou conceitos próprios e abriu caminho para uma "revolução" psicanalítica.

Donald Woods Winnicott (1896-1971)

Zeljko Loparic
08.05.2016

No mês passado, celebraram-se os 120 anos do nascimento de Donald Woods Winnicott, considerado por muitos o mais importante psicanalista depois de Freud. Por quê? Porque ele refundou a psicanálise freudiana.
No esboço de um artigo de 1971, ano de sua morte, Winnicott escreveu: "O que pleiteio é um tipo de revolução em nosso trabalho. Vamos reexaminar o que fazemos". O que fazem os psicanalistas freudianos? Decifram o inconsciente reprimido que incomoda.
Os freudianos curam pela palavra, pela análise do discurso do paciente. Com a cura pela palavra, no entanto, as análises não terminam. A falta de eficácia das análises comuns se deve ao desconhecimento da existência de dissociações muito primitivas descobertas por Winnicott, escondidas atrás dos conflitos do inconsciente reprimido. A revolução conclamada já teria, portanto, acontecido, e consistiria em suas próprias contribuições à psicanálise.
Formado como médico pediatra e tendo observado problemas emocionais em bebês de poucas semanas, Winnicott tornou-se psiquiatra infantil e recorreu à psicanálise freudiana. Começou a modificar a psicanálise quando constatou que algo estava errado com o modelo edípico, criado e usado para tratar as neuroses dos adultos.
As mudanças decisivas foram motivadas pelo que Winnicott apreendeu das análises de psicóticos adultos, que precisaram regredir à situação de dependência: retornar aos estágios e processos muito primitivos da vida, idênticos, entendia Winnicott, aos vividos pelos bebês humanos.
AMADURECIMENTO
Quais são as principais reformulações? Substituição do Édipo, andarilho na cama da mãe, como modelo de problemas psicanalíticos, por outro – o do bebê no colo da mãe; teoria do processo de amadurecimento (crescimento, desenvolvimento, integração) mediante a qual indivíduos se transformam de bebês dependentes em pessoas inteiras capazes de vida própria; teoria da natureza humana; a psicopatologia winnicottiana, que é uma teoria das interrupções do processo de amadurecimento; teoria dos procedimentos clínicos para auxiliar indivíduos a retomar o processo de amadurecimento interrompido e a conquistar a unidade pessoal; teoria da experiência cultural. Vejamos.
Para Freud, da situação edípica surge o complexo nuclear, que estaria na origem não só da estruturação da personalidade mas de todos os problemas psicanalíticos (neuroses) e mesmo da ordem social e da cultura. Segundo Winnicott, as bases da personalidade são lançadas com o bebê ainda no colo da mãe, formando, na experiência inicial com ela, as bases de toda sua capacidade futura de se relacionar; os fracassos respectivos respondem pela estrutura básica de todas as dificuldades emocionais da vida humana.
Em Freud, a teoria da sexualidade é o carro-chefe para o estudo e o tratamento das neuroses. Em Winnicott, papel semelhante cabe à teoria do amadurecimento, espinha dorsal de seu ideário, usada no estudo e tratamento de todos os problemas maturacionais do existir humano, a natureza específica destes sendo modulada pelo seu ponto de origem na linha do amadurecimento.
Freud estuda o homem em termos de processos mentais, conscientes e inconscientes. Winnicott vê o homem como manifestação da natureza humana no tempo, caracterizada pela tendência à integração que só se realiza num ambiente facilitador (o colo da mãe, a família, o grupo social). Viver significa alcançar e manter a continuidade de ser no mundo.
Na sua psicopatologia, Freud parte das lacunas na corrente da consciência composta de conteúdos afetivos e representacionais de caráter sexual, que resultam da repressão; codificados e guardados na parte inacessível do aparelho, esses conteúdos forçam o retorno à consciência como sintomas, desordens adicionais dolorosas da vida consciente.
Na psicopatologia de Winnicott, os distúrbios não são gerados pela expulsão, para fora da consciência, daquilo que aconteceu, mas não deveria, e sim por aquilo que não aconteceu, embora precisasse acontecer. Os distúrbios são interrupções na continuidade do ser, cuja origem está nas falhas ambientais e nas reações do bebê a essas falhas, que acabam constituindo organizações defensivas mais ou menos rígidas.
Freud propõe a "talking cure", técnica que, mediante livre associação e interpretação, conecta os sintomas com os conteúdos inconscientes reprimidos, resgatando-os, assim, para a memória consciente. Uma vez que as instâncias repressivas estão sempre lá, a permanente censura de desejos cria novos distúrbios, de modo que o tratamento, em princípio, nunca chega ao fim.
Além de usar a cura pela palavra numa versão modificada, Winnicott defende e pratica um tratamento inteiramente novo: a "care-cure", cura pelo cuidado.
Quando a continuidade de ser foi interrompida pela falha ambiental, a tendência à integração desenvolve uma força poderosa para reiniciar a integração rumo à saúde. O analista precisa estar disposto a oferecer ao paciente o que este necessita para tanto – a começar, às vezes, pela etapa mais primitiva. Ele não é um decifrador, mas alguém que participa ativamente, pelo seu comportamento, da retomada do amadurecimento por seu paciente.
O tratamento consiste em facilitar a busca pelo paciente, aqui e agora, da integração não alcançada no passado. O analista só poderá proceder assim se acreditar na natureza humana e na tendência à integração que a caracteriza.
Em Freud, a ordem social e a cultura são produtos da sublimação, processo pelo qual os indivíduos e sociedades inteiras buscam resolver seus inevitáveis conflitos sexuais de caráter edípico, marcados pela ameaça da castração do filho por parte do pai e, como reação, pelo assassinato do pai pelos filhos revoltados, acometidos posteriormente de culpa.
A culpa torna-se o motor do processo cultural, basicamente o mesmo das neuroses. Sendo assim, as formas da vida social (família, grupos sociais, igrejas, povos) e da cultura humana, mesmo as mais elevadas (a moral da lei, as religiões monoteístas, as artes) possuem as mesmas propriedades que as neuroses individuais e coletivas. A família exogâmica, favorecida pela sociedade, surge da proibição do incesto, terminando com isso o drama do assassinato do pai. A moral freudiana, herdeira da moral da lei kantiana, e o monoteísmo têm a mesma origem: a divinização compensatória do pai e da vontade do pai.
DIGESTÃO
Em Winnicott, a ordem social, em particular a família, emerge em larga medida das tendências rumo à organização em uma personalidade individual. O pai, protegendo a mãe nos estágios iniciais do amadurecimento da criança, possibilita a esta suportar a culpa de seu uso excitado da mãe e, assim, ficar livre para amá-la instintivamente – sendo que os instintos, no início, não são genitais, mas relacionados à digestão. A origem e o funcionamento da família diz respeito à provisão ambiental da qual a criança necessita para se integrar.
Os elementos básicos da moralidade também são adquiridos antes das relações triangulares, que Freud chamou de edípicas, pois a criança passa cedo a sentir-se compadecida pelos estragos que, nos estados excitados, ela faz ou imagina fazer no corpo da sua mãe, que ela ama. Se esta sobrevive e não retalia –o que ela é capaz de fazer se tem saúde e é auxiliada pelo pai ou outras pessoas–, a criança descobre sua própria urgência para remendar e contribuir.
Antes e independentemente de coerção externa, a criança cria a capacidade de sentir-se culpada e de ser responsável por outras pessoas. Essa é, em Winnicott, a origem da ética –decerto, não da ética da lei (e certamente não a da lei da proibição do incesto), mas da ética do cuidado em relação a outras pessoas e a sua continuidade do ser, que pode ser aproximada do cuidado de si e dos outros, de Heidegger e de Foucault.
No que se refere à religião, suas várias formas correspondem, de acordo com Winnicott, aos sucessivos estágios do processo de amadurecimento. O monoteísmo em particular tem sua origem no estágio do "eu sou", no qual se constitui a unidade pessoal. Nesse processo, o pai, mais do que a mãe, é usado pela criança como esquema para a aquisição de um si-mesmo unitário.
A atividade artística é a continuidade do brincar, que começa muito cedo, já durante o estágio dos fenômenos transicionais (uso de ursinhos, chupetas, pontas do lençol etc.). O brincar é inerentemente excitado e precário, mas essas características não surgem da excitação instintual. Em especial não é, como quer Freud, um resultado de sublimação da repressão que resolve conflitos internos.
Diante do que apresentei, fica possível determinar com precisão o lugar de Winnicott na história da psicanálise. Ele não é freudiano (nem kleiniano, tampouco lacaniano); é o que se tornou ao viver sua vida e fazer o seu trabalho clínico dedicado a ajudar outras pessoas a se tornarem, elas também, indivíduos integrados, capazes de viver uma vida que valha a pena de ser vivida e, finalmente, de dar-se ao luxo até de morrer. Provavelmente, no caso do próprio Winnicott, de morrer tranquilo, pois a revolução à qual dedicou sua vida estava lançada.

ZELJKO LOPARIC, 76, é professor titular aposentado de filosofia da Unicamp e autor de "Winnicott e Jung" (DWW).