"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

O valor da adoção e da verdade

We Heart it


Por Cintia Liana Reis de Silva para a Revista Negócios & Cia (Salvador-BA) e para o Guia Indika Bem (Publicado o dia 25 de junho de 2015)

A cada ano que passa é muito mais fácil ver pais ou futuros pais que entendem o valor de se instaurar a verdade sobre a adoção no lar, que sabem que esse é o caminho a ser trilhado na educação dos filhos, afinal hoje a adoção é um assunto cada vez mais debatido, cujos tabus vêm sendo rompidos e trabalhados. Já escrevi muitos textos sobre o assunto. Não há vergonha alguma em ter sido adotado, ao contrário, houve uma escolha consciente para se formar uma família, onde não foi o acaso que falou mais alto, foi o amor.

Mas como nunca é demais tocar novamente no assunto, proponho mais reflexões.

Os pais devem sempre se lembrar que é preciso falar sobre o processo de tornar-se pai, mãe e filho desde que a criança chega no lar, mesmo que pequenininha. Ela deve saber que os vínculos de amor se formam na convivência e na intenção de amar, de acolher, ou seja, na atitude adotiva. Com todos os membros da família é assim, até com os filhos biológicos.

Não espere que o seu filho pergunte. Se ele não sentir que você está seguro em falar sobre a chegada dele, ele não te perguntará. Então se prepare e entenda que mesmo sem vínculos consanguíneos vocês se amam e nada mudará isso. Faça questão do amor do seu filho, esteja seguro desse amor, esteja seguro de que você o merece. Isso fará bem a todos. Se você não se sente seguro, procure um terapeuta e invista em seu crescimento pessoal, isso certamente refletirá na felicidade do seu filho.

Reflita. Se você descobrisse hoje que o seu filho não é seu filho biológico, isso mudaria o teu amor por ele? Mas seria um choque descobrir isso após 10 anos, não? Então acredite, ser adotado ou não, não muda em nada o amor que o seu filho sente por você, mas saber disso após os dez anos de idade pode ser bem desagradável e traumático.

Ser adotado não é uma deficiência, não é um problema. Se os outros são preconceituosos é um problema deles. Os preconceituosos é que têm uma deficiência. O preconceito reflete um forte dificit de inteligência e visão, é uma grande limitação. Ensine o seu filho a educar as pessoas, a ser um formador de opinião, a falar sobre adoção de uma forma bonita (isso não inclui contar a todos a história dele). O ensine a incluir e a acolher as pessoas que merecem, ao invés de se marginalizar, como se ele fosse um coitadinho, uma vítima do destino. Incluam também a escola nesse diálogo.

Concordando com a psicóloga argentina Laura Gutman, em seu livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra” (Editoral Del Nuovo Estremo, Buenos Aires, 2008, p. 145), parece que as crianças que foram adotadas possuem uma força excepcional e uma determinação enorme para superar dificuldades. Gutman crê que esta qualidade as faz de qualquer maneira donos dessa luz que os outros não veem e de um poder que os outros não detém. Ela diz também que estes encontros devem ser celebrados com um encantamento especial, já que aconteceram porque existiu o desejo de cuidar e amar um filho, e graças a um “chamado insistente” da criança, que de qualquer modo endereçou os pais até ela. São acontecimentos a serem valorizados, compartilhados, festejados como um matrimônio, como um nascimento, como formaturas e não a esconder ou dizer em voz baixa. Merecem ser festejados como uma maravihosa manifestação da força humana.

Já escutei e participei de centenas de histórias de adoção e já senti o quanto essas histórias são fortes e carregadas de amor e intensa emoção: quando se encontra pela primeira vez o filho, quando recebe a certidão de nascimento nova nas mãos, o quanto se festeja e se chora. Então é essa emoção que deve permanecer, que deve ser festejada a cada ano, que deve ser lembrada sempre e que deve servir para incluir as pessoas nessa felicidade.

Os seres humanos, em sua estrutura psíquica neurótica (quando não são psicóticos ou psicopatas), crescem com a sensação de inferioridade e tendem sempre a compreender que o mundo trabalha contra eles, que os desvaloriza, então é um exercício muito importante trabalhar esse padrão neurótico que todos têm e compreender que o outro, assim como nós, tende a achar que o diminuímos, que ele está sendo desvalorizado. A grande tarefa é nos sentirmos importantes por aquilo que representamos de bom, buscando internamente o nosso senso de valor, de humanidade, e só assim poderemos valorizar os outros, criando uma energia de gentileza e respeito que fará bem a todos. Quero dizer com isso que, não olhe para o seu filho como um pobrezinho, pois ele sente e se sente como você o vê. Olhe para ele como um grande homem e passe valores de um grande homem, contado a verdade sobre a sua origem de acordo com o seu grau de maturidade, pois todo ser humano merece integrar e entender a sua história para se sentir dono da sua própria vida, forte e inteiro.

Por Cintia Liana Reis de Silva para a Revista Negócios & Cia (Salvador-BA) e para o Guia Indika Bem (Publicado no dia 25 de junho de 2015)

Fonte: http://indikabem.com.br/filhos/o-valor-da-adocao-e-da-verdade

sábado, 29 de novembro de 2014

Falando de adoção com o filho


Por Cintia Liana Reis de Silva
Texto escrito para este blog em 2009 e republicado no site Indika Bem em 14 de agosto de 2014.
Não existe idade ideal para a criança saber sobre o vínculo que tem com seus pais adotivos. É muito importante e saudável que os pais já contem historinhas de adoção para a criança desde a sua chegada na família, independente da idade. Assim, ela vai se acostumando com o tema e entendendo os fatos na medida em que for amadurecendo. Mesmo que não faça muito sentido para ela, o importante é que, quando passar a entender as dimensões dos fatos e os verdadeiros significados, ela irá sentir que seus pais adotivos sempre foram muito sinceros sobre sua adoção e que esse é um assunto conhecido e, melhor ainda, “permitido” na família.
O fato de alguns pais entenderem a adoção como algo negativo não significa que a criança também entenderá desta forma, mas somente repetirá esse modelo de conduta se os pais insistirem neste erro, tratando a adoção como algo vergonhoso e negativo.
Será que é justo uma criança crescer sentindo que há “algo de errado ou de misterioso” com a sua existência, com seu nascimento, com o seu lugar no mundo e na família? Será que é bom achar que é fruto de algo vergonhoso, que a sua família substituta tem que esconder, ou não falar de sua origem, como um tabu? A criança adotiva tem que crescer num ambiente que a propicie falar sobre seus sentimentos abertamente, sem vergonha ou medo.
Eldridge (2004), explica que a criança adotiva raramente fala de forma aberta sobre sua raiva relacionada ao fato de ser adotada. Porque ela acredita que estará magoando os pais adotivos e por que ela acha que os deixará incomodados, assim ela não fala e poderá expressar isso de uma forma agressiva e anti-social em algum dado momento. Como no caso da adaptação, a criança também pode manifestar tendências anti-sociais por querer mostrar que há algo de errado com ela, por estar sofrendo algum tipo de privação ou sofrendo com algum sentimento que ela não está sabendo lidar.
Afine-se, seja cúmplice do seu filho no processo de descoberta de sua identidade, e o conhecimento e aceitação de suas origens fazem parte disso. Quando ouvir perguntas-afirmações do tipo “eu vim de sua barriga, não foi, mamãe?”, fale tranquilamente que não, mas que para amarmos alguém como filho ele não precisa “sair da barriga”, pois o amor se faz no coração. Quando perguntar sobre a família biológica tente responder o que sabe de uma maneira simples e o que a criança tem capacidade de ouvir e aceitar, mesmo que não entenda tudo, ela tem o direito de saber.
Por Cintia Liana Reis de Silva
Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/falando-de-adocao-com-o-filho
Fonte da imagem: www.somoslanoticia.com (Créditos e Divulgação)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O peso do segredo na adoção


Google Imagens
Por Cintia Liana Reis de Silva

"Todo ser humano precisa da verdade sobre a sua existência para apropriar-se desta e organizar-se dentro de sua própria vida". (Cintia Liana)

A chegada do filho, que é trazido pelos pais adotivos, é tão perfeita como no parto. Na adoção existe a substituição completa da família de origem, exceto a nível biológico. (FLARTMAN, 1994)

O Segredo na adoção pode significar sinal de insegurança dos pais ou de que nem eles mesmos vêem ou acreditam na beleza da relação adotiva. Medo? Vontade de encobrir uma possível infertilidade? Receio do filho sofrer preconceito? Sim, isso é real, mas é algo que precisa ser trabalhado e não levar os pais a trazerem um outro problema para o filho, ou seja, colocarem nas costas dele "o peso insuportável e incômodo do segredo".

A criança já cresce sentindo um mal estar, um tabu relacionado a sua existência, algo que não é falado, pois é entendido como "feio". O problema que não é falado é a história dela, da criança. Mais que complicado crescer sem saber o que te aflige inconscientemente é esse mal estar voltado para a sua própria história de vida, para o seu nascimento, ou seja, o sentimento em torno de sua vida e a forma em como chegou está contaminado por algo que não é dito, que nem os pais, que deveriam ser fortes o suficiente  e enfrentar os seus fantasmas, estão dando conta.

No fundo, essa história pode ser um eterno fantasma, um peso para toda a família, motivo de repúdio e fazer com que a criança cresça sentindo um mal estar que ela nunca conseguirá decifrar, só sentirá que sua vida está ligada a um segredo indesvendável, segredo este que envolve a forma como ela foi gerada e que compromete a relação de respeito e confiança com as pessoas que ele deveria mais confiar, os pais adotivos.

Um ser humano estigmatizado é protegido por um segredo, mas o segredo também promove a estigmatização. (FLARTMAN, 1994)

Os pais acham que sabem esconder bem, mas a linguagem vai muito além da falada, da consciente. Há a linguagem do olhar, do toque, dos gestos e toda a infinidade de linguagens inconscientes que vão além de nosso controle e entendimento.

Como será tocar no filho e pensar, "eu não te conto que você nasceu de outra barriga porque tenho medo de você não me amar como uma mãe de verdade". Ela mesma já se sente a "mãe de mentira". E quem é a mãe de verdade? Não é aquela que está junto? Deve ser muito mais difícil pensar isso todas as vezes que abraçar o filho e crescer nesta culpa, ao invés de abrir a alma, o corpo, a voz e todas as portas do universo para a verdade mais justa e tranquila, a verdade que o filho merece, a verdade que não pode ser roubada dele.

Será que é mais fácil omitir, mentir ou preparar o filho para ser um grande homem, enxergando todo o lado positivo da adoção e lamentar o que se deve de fato? O segredo serve para quê, proteger o filho de sua própria história?

A verdade ninguém muda, por pior que ela seja é a única que existe, o que pode mudar é a nossa postura diante dela, assim tudo pode ficar mais leve e mais bonito. 

Se alimantarmos o segredo, além de plantarmos em nosso lar a desconfiança estamos, desta forma, aceitando o preconceito de achar que a relação adotiva é inferior a biológica.

Sobre o segredo e a dificuldade em dar o espaço merecido à verdade, o adotado fala de uma sensação de vazio, de um vácuo que causa perturabação e dor. Deve mesmo ser muito assustador e desnorteante não fazer contato consciente com a sua própria história de vida. Muitas coisas parecem não fazer sentido. A identidade do adotado estará intimamente ligada ao segredo.

As pesquisas científicas revelam que pais adotivos que discutem abertamente e compartilham informações criam adultos mais seguros e com um senso firme de self. (FLARTMAN, 1994)

A aceitação da diferença é uma variável importante na previsão de adoções bem sucedidas. Isso é também de grande importância aos olhos do técnicos que avaliam os candidatos a habilitação.

Sobre todos os aspectos da adoção, a crianças deve sentir que sua chegada ao mundo foi um acontecimemto especial e que a sua vida vale a pena ser contada. 

Referência:
FLARTMAN, A. Segredos na família e na terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A verdade é o princípio da adoção

Ser honesto com os filhos sobre todo o processo é a melhor maneira de evitar desententimentos

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09/12/2012 01:34 - MYLLENA VALENÇA

“O filho é a resultante esperada da relação homem-mulher; é como se o equilíbrio se completasse a partir de um terceiro referencial. É da interação dessas três forças (ou mais) que surge a verdadeira unidade”. O sentido da afirmação do psicólogo Luiz Schettini Filho é o ponto de partida para que muitos casais optem por a­dotar uma criança quando, por algum motivo, não podem gerá-las. Mas apesar de toda a grandiosidade e beleza da adoção, existe uma fase delicada, pe­la qual todos irão passar: a ho­ra de contar à criança a verda­de so­bre sua origem. É preciso matu­ridade para que este mo­men­to seja encarado pela fa­mí­lia com total naturalidade, evitando  traumas aos pequenos.

Em seu artigo “Uma psicologia da adoção”, Schettini diz que a criança adotada necessita do conhecimento de sua origem. “Dizer a verdade tem sido um desconforto, quando não um motivo de pânico, para alguns pais. É como se a histórica revelada pudesse destruir o afeto familiar. Porém, as dificuldades nas relações interpessoais poderão surgir muito mais pela manutenção dos segredos do que pela revelação da verdade”, garante Schettini, que é especialista em psicoterapia de crianças e adolescentes e o maior escritor do assunto no Brasil.

Esposa e parceira de Luiz em pesquisas, além de presidente do Grupo Estudo e Apoio à Adoção (Gead), no Recife, a psi­cóloga Suzana Schettini a­crescenta que a criança precisa tomar conhecimento de sua realidade mais ou menos aos 2 anos, com palavras simples e de uma forma que ela pos­sa en­tender. “Na verdade, os pa­is irão apenas confirmar o que, inconscientemente, a cri­ança já sabe. Ela tem percepções e ins­crições psicológicas da vida intrauterina e da transpo­sição pa­ra a família adotiva. Tan­to que, atualmente, não se fa­la ma­is em ‘revelar’ a história mas, sim, comunicar. Isso não de­ve angustiar os pais”, pontua Su­zana. De acordo com a psicó­loga, eles são as pessoas que devem fazer esta comunica­ção, para evitar  que a criança tome conhecimento de for­ma inadequada, através de terceiros.

Meninos e meninas terão um entendimento mais claro de sua adoção a partir dos 6 ou 7 anos e a reação deles ao fato vai depender de como lhes foi passada a sua realidade. “A criança aprende o mundo da forma como os adultos ensinam. Se estes se sentem seguros e confiantes na sua condição de pais, assim a criança também se sentirá. 

É o que acontece com a fonoaudióloga Auriany Nunes e o motorista Gustavo Souza Leão, que hoje esperam seu primeiro filho biológico, mas, primeiro, adotaram Arthur, de 4 anos, quando ele era um bebê de 3 meses. “A chegada dele só nos trouxe alegria e por isso esclarecemos os fatos naturalmente. Sobre a sua vida, não queremos deixar lacunas”.

Fundadora do Geadip, grupo de apoio à adoção, em Belo Jardim, no Agreste, Tatiana Valério tem duas meninas: Maria Júlia, 6, e Maria Alice, 4. Ela e o seu marido, o autônomo Marcos Valério, sempre procuraram a forma mais leve de falar com elas sobre o assunto. “A mais velha já entende, mas eu digo à mais nova: mamãe e papai queriam muito outra filha. Um dia, o telefone tocou e era a juíza perguntando: ‘é da casa de Marcos e Tatiana? Tem uma menina aqui esperando vocês’. E nós fomos correndo buscar você!”, conta Tatiana, que sempre põe a sinceridade em primeiro lugar. “Ela está na fase de dizer que saiu da minha barriga, mas sou firme: não, filha; os pais podem ter os filhos ou a­dotá-los e nós adotamos você!”.

Suzana Schettini resume bem toda essa questão: “A adoção é apenas uma outra forma de se chegar à família. Na verdade, to­das as crianças precisam ser a­dotadas para se tornarem filhos, porque a filiação somente acontece através dos vínculos afetivos, ou seja, pela adoção. Assim sendo, todos os filhos precisam ser adotivos, mes­mo os biológicos, ou não serão filhos de fa­to. Os pais que não adotam as suas crianças afetivamente, são apenas genitores”. 



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Uma das mais belas historinhas sobre adoção

Esta é uma linda história para usar no processo de revelação e explicação da adoção ao filho pequeno:
 
Many Lynne
 
Achei uma mamãe!
 
Há um certo tempo atrás, lá no céu, viviam muitas criancinhas correndo e brincando sem parar. E todos eram muito, mas muito felizes.

No meio daquelas crianças havia uma menina muito bonita, inteligente e esperta que percebeu que muitos de seus amiguinhos desapareciam assim, de repente, enquanto brincava com eles e sem se saber o por quê.

Então ela, que era muito inteligente, foi conversar com o "Papai do Céu" para saber o que estava acontecendo. Aproximou-se Dele e disse:
- Papai do Céu?
- Sim, minha filha.
- Por quê meus amiguinhos desaparecem no ar quando eu estou brincando com eles?
- Eles não desaparecem, minha filha. Respondeu o Papai do Céu. Eles estão indo nascer lá embaixo na Terra. Eles desaparecem aqui, mas aparecem lá.
- Então, perguntou a menina, por quê eu ainda não fui nascer lá na Terra?
- Porque Eu estou escolhendo uma mamãe e um papai para você.

A menina pensou naquelas palavras e decidiu fazer um pedido.
- Posso escolher minha mamãe e meu papai? Posso? Insistiu a menina.

Papai do Céu coçou sua longa barba branca, pensou e depois de algum tempo resmungou:
- Isso nunca foi feito. Eu sempre faço a escolha. Mas como você mostrou que é muito inteligente Eu vou deixar você escolher.

A menina saiu correndo muito feliz da sua vida e, naquele mesmo dia, passou a olhar aqui para a terra tentando escolher sua mamãe e seu papai.
Ela olhava, olhava, olhava, mas achava difícil escolher no meio de tanta gente.

Os dias foram passando até que num dado instante ela conseguiu ver uma mulher rezando aqui na terra dizendo assim:
- Papai do Céu, manda uma filhinha para mim. Eu sei que minha barriga não cresce mas manda mesmo assim. Eu vou amá-la com toda a foça do meu coração. Ela vai ser minha filha do coração e eu e meu marido seremos seu papai e mamãe do coração. Por favor Papai do Céu...

A menina ao ouvir aquelas palavras foi correndo para o Papai do Céu contar a grande novidade:
- Papai do Céu? Achei! Achei uma mamãe e um papai para mim.
Vem ver, vem ver!

A menina mostrou a mulher aqui embaixo na terra para o Papai do Céu que, depois de olhar disse:
- Minha filha, aquela mulher não pode ser sua mamãe. A barriga dela não cresce e você sabe que as crianças só nascem lá na terra se a barriga da mamãe crescer.
- Eu sei, mas eu quero ela, eu quero! O Senhor pode fazer qualquer coisa e eu quero ser Filha do Coração daquela mamãe.

A menina gritava e chorava, e mais uma vez Papai do Céu pensou e respondeu:
- Tá bom! Então vou fazer você nascer da barriga de uma outra mamãe e vou avisar sua mamãe do coração para ir te buscar.

E assim foi. Ao mesmo tempo que a menina nasceu de uma outra barriga, Papai do Céu fez a mamãe do coração dormir e sonhar. Neste sonho, Papai do Céu mostrou como era a menina e onde ela deveria buscá-la.

Ao acordar, a mamãe do coração ficou tão feliz que chamou seu marido e juntos foram buscar a menina.

Eles viajaram bastante até chegarem a uma cidade distante. Lá começaram a procurar pelo lugar onde estava a menina. Depois de muito tempo e já cansados de procurar, os dois resolveram descansar em um banco de jardim. Assim que sentaram e olharam para a frente, lá estava ela. Era a casa que o "Papai do Céu" havia mostrado no sonho e onde estava a "filhinha do Coração." Rapidamente correram para lá e entraram.

Dentro da casa havia muitos bebezinhos, cada um em sua caminha dormindo.

A mamãe do coração olhava todos eles mas não encontrava a sua filhinha.

Após olhar todos eles, a mamãe do coração, quase desistindo, viu que ainda tinha um bercinho com um bebê todo coberto e enrolado em um lençol.

Toda emocionada, ela se aproximou e puxou o lençol. Pode ver, então, o rosto da menina.

Sim, era ela, a menina que ela tinha visto no sonho.

Imediatamente ela a pegou no colo, abraçou-a e chorou de tanta felicidade.

E assim todos juntos, papai, mamãe e filha do coração voltaram para casa onde foram felizes para sempre!..."
 
(Autor desconhecido)

sexta-feira, 2 de março de 2012

A revelação da adoção

Google Imagens
02.03.2012
Por Guilherme Lima Moura

Na nossa casa, adoção é assunto do dia a dia. Minha esposa, nossos filhos e eu falamos sobre o tema com naturalidade porque a atitude adotiva é parte intrínseca da educação que lhes damos, como o é da própria constituição da nossa família. Essa naturalidade foi também introduzida desde o início aos demais familiares: avós, tios, primos. E igualmente nos nossos círculos mais próximos de convivência.
O resultado disso é que nossos filhos se apropriaram naturalmente do conceito de adoção e fazem uso dele em várias situações. Eles entenderam que a filiação é sempre e necessariamente adotiva. E também que precisamos adotar uns aos outros, a natureza, o planeta. Entenderam que a adoção é o amor em ação e, como tal, se expressa na relação que estabelecemos em todos os contextos. Entenderam, sobretudo, que a atitude adotiva é um processo relacional inspirador para a vida ou, no dizer do biólogo Humberto Maturana, é uma postura que “aceita o outro como legítimo na relação”.
Importante dizer que aprendemos esta forma natural de tratar do assunto (como muito do que sabemos hoje sobre o fazer-se pai/mãe) na convivência regular com os amigos do Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife (Gead Recife). Nas nossas conversas, compartilhando experiências e, particularmente, pelo privilégio de poder contar com a palavra esclarecedora de Luiz Schettini, com suas muitas primaveras vividas na adoção como psicólogo e como pai.
Nos nossos encontros mensais do Gead, um dos assuntos recorrentes, pela natural rotatividade dos participantes, é o que ficou conhecido como “a revelação”: quando e como contar aos filhos sobre a adoção? E a resposta: deve-se contar desde sempre. Simples assim.
Temos vivido essa experiência há cerca de sete anos. Explicamos que nossos filhos nasceram da barriga de outras mulheres (sua genitoras) e que elas não puderam ser suas mães. “Aí papai e mamãe foram buscar vocês para serem nossos filhos amados”, completamos. Tudo narrado de acordo com a maturidade que a idade permite.
De tempos em tempos o assunto surge naturalmente e nós, também naturalmente, narramos mais uma vez a história. Falamos de detalhes interessantes e emocionantes do nosso primeiro encontro. Rimos juntos. É um momento mágico. E assim eles vão elaborando o conceito no tempo deles, sem que haja tabus ou “indiscutíveis” na nossa relação. Como diz a querida amiga e presidente do Gead Recife, Suzana Schettini, “os filhos terão a naturalidade e a segurança que observarem em seus pais”. Pura verdade.
Infelizmente, muitos pais adotivos cometem o equívoco de esconder a adoção de seus filhos. E, ao fazerem isso, terminam por lhes negar o acesso à sua própria história. Com a intenção de protegê-los de algum tipo de sofrimento, terminam abrindo mão de construir com eles uma história afetiva baseada em verdade. Omitindo-lhes parte tão relevante de seu passado, elaboram com eles um presente sempre incompleto e melindroso − porque há sempre uma verdade no ar que ninguém pode expor, mas que os filhos parecem intuir.
A experiência clínica de muitos psicólogos, bem como as conclusões de diversos estudos sobre o assunto, demonstram que, quando os filhos adotivos têm acesso à sua história através de terceiros ou descobrindo sozinhos, quase sempre reagem muito mal. Entretanto o motivo de tal reação não é a condição adotiva em si, mas o fato de terem sido enganados por aqueles que sempre foram sua referência primária de confiança, verdade e honestidade. E terminam por deduzir que se esse fato lhe foi escondido é porque se trata de algo feio ou errado.
O que cada um fará em tal circunstância é tão variável quanto o é a própria diversidade humana. Supor causalidade entre a especificidade da filiação e a maldade é tão equivocado quanto cruel. É discriminatório. É mais provável, isso sim, que a maldade humana se manifeste onde não haja adoção, considerando que a filiação é construída sempre no afeto, existam ou não os laços biológicos.
Até quando apontaremos na direção errada? Até quando acreditaremos que o sangue é capaz de nos oferecer aquilo que só podemos construir na convivência amorosa?!
A adoção é o amor em ação. Então porque escondê-la? O que é tão lindo tem mais é que ser dito e vivido com a cabeça erguida e o sorriso no rosto: “Sou filho adotivo, sim. Bom seria que todos fossem...”
Guilherme Lima Moura é pai adotivo, integrante do Gead (Grupo de Estudos e Apoio à Adoção do Recife) e professor da UFPE
Fonte: http://ne10.uol.com.br/coluna/atitude-adotiva/noticia/2012/03/02/a-revelacao-da-adocao-329761.php
 
Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O neto da empregada

Julie de Waroqui

Por Thaís Machado em 07/02/2012 na edição 680

Não sou noveleira. Não sou noveleira. Não sou noveleira.

Apesar de amar acompanhar de tudo um pouco na TV, uma das coisas que mais me irritam (especialmente nas produções brasileiras) são as novelas. Sempre cheias de clichês, atores medianos, merchandisings baratos e trilhas pagas pelas gravadoras, elas estão muito além do que pode ser considerado ruim. Mesmo assim, é difícil passar ileso pelas fofocas que cercam os encerramentos desses “folhetins”.
Um exemplo atual é o “segredo de Tereza Cristina”, a personagem vivida por Cristiane Torloni na atração global Fina Estampa. Há enquetes nos sites, concursos nas emissoras de rádio, comentários nos corredores das empresas. O que será que uma das personagens principais da trama esconde? Como deixei claro no início deste post, não vi sequer ¼ da novela, mas ontem (2/02), diante da divulgação do capítulo em que o mistério seria revelado, me propus a assistir. Foi quando deparei com uma das cenas mais estúpidas dos últimos anos: o garoto, filho da tal vilã, aos prantos, porque acabara de descobrir que era “neto da empregada”.

Mais prêmios, mais longevidade...

Sim, é isso mesmo que você leu. O menino chorava soluçando porque a mãe lhe contou sua origem (filha de uma doméstica, havia sido adotada ainda pequena pela família rica e quatrocentona). E a partir dessa confissão, todos os outros diálogos nos vários núcleos de personagens foram pautados pelo “escândalo”. Um momento! Desde quando ser adotado é vergonhoso? Quem decidiu que ser “rico” é ser “melhor”? Entendi que esse é o princípio de um mistério que ainda vai esclarecer muitos pontos confusos na trajetória daquela mulher e que o tal segredo não é de fato o “xis” da questão; mas dedicar quase uma hora em horário nobre para discutir que a fulana não tem “direito” de ser a vilã que é porque não tem em seus genes um sobrenome conhecido?!
Depois querem me convencer que esse tipo de programa discute assuntos importantes para a democracia como o preconceito, o aborto, a violência doméstica etc. As novelas são (e sempre foram) a principal influência na cultura brasileira. Elas ditam moda, elegem as “personalidades do ano”, destacam hábitos arraigados da população e uma série de outras funções que deveriam ser denotadas a qualquer outro instrumento de comunicação, menos às historinhas contadas por autores cansados e genialmente equivocados.
E a pior parte disso tudo é que, a cada dia, elas ganham mais prêmios, mais força e mais longevidade...

[Thaís Machado é jornalista, São José do Rio Preto, SP]



Postado por Cintia Liana

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Psicólogos aprovam adoção por gays

Organic

Especialistas dizem que mais importante que a orientação sexual, é o vínculo dos pais com a criança

Por Lecticia Maggi, iG São Paulo | 01/05/2010 09:50

A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), da última terça-feira, de permitir que duas mulheres do Rio Grande do Sul registrassem os filhos adotivos no nome das duas reacendeu a polêmica em torno da adoção de crianças por casais do mesmo sexo.
Foi a primeira vez que o STJ se manifestou sobre o assunto e, com isso, abriu jurisprudência para que outros casais também obtenham decisão favorável na Justiça. Rapidamente, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se manifestou contra o STJ. O padre Luiz Antônio Bento, assessor da comissão para vida e família da CNBB, disse que a decisão tira da criança a possibilidade de crescer em um ambiente familiar formado por pai e mãe. “Nem sempre o que é legal é moral e ético”, afirma.

De acordo com psicólogos ouvidos pelo iG, ser criado por dois pais ou duas mães não prejudica o desenvolvimento da criança nem faz com que ela se torne homossexual também. “O desenvolvimento independe dos pais serem hetero ou gays. A criança precisa se identificar com uma figura que lhe dê carinho, apoio e educação. O que importa é o vínculo e se aqueles pais realmente quiseram adotá-la”, afirma a psicóloga Mariana de Oliveira Farias, autora do livro “Adoção por Homossexuais - a família homoparental sob o olhar da psicologia jurídica”. Segundo ela, é importante que a criança tenha contato com pessoas de ambos os sexos, mas elas podem ser avós, tios e primos.

Segundo a psicóloga e advogada Tereza Maria Costa, que por mais de 10 anos atuou na Vara da Infância e Juventude de Juiz de Fora (MG), não há nenhum estudo que comprove que crianças criadas por pais gays também tenham tendência à homossexualidade. Para Tereza, a orientação sexual tem mais a ver com questões biológicas do que com o meio em que a pessoa vive. “Com todo o preconceito que existe, tenho certeza que se alguém pudesse optar escolheria ser hetero”, diz. “Não vejo como escolha. Ou a pessoa assume e tenta viver bem ou passa a vida camuflada”, diz.

Como contar
Uma das questões recorrentes é como e quando contar ao filho que ele possui dois pais ou duas mães. Segundo Mariana de Oliveira, não há uma idade certa para que o assunto seja discutido. “Os pais devem responder sempre de acordo com as perguntas que forem feitas, mas tomando cuidado para não ultrapassar os limites que a criança possa entender. Às vezes, a ansiedade dos adultos é maior que a dos filhos”, afirma.

Há várias formas se de contar, mas uma delas, diz, é explicar, primeiramente, que não há só um tipo de família e com certeza a criança deve ter um coleguinha com pais separados ou criado pela avó. “Pode-se dizer que a família que a concebeu por algum motivo não pôde ficar com ela, mas o casal a procurou, a ama muito e por isso a adotou”, afirma Mariana.

Tereza acrescenta também que é importante tratar a questão como natural, apesar de não ser convencional. “Isso faz com que, desde cedo, o filho aprenda a ter respeito pela diversidade”, diz ela, e completa que, se o assunto for bem trabalhado, a própria criança passará a defender os pais caso seja alvo de preconceito. “Flui normalmente, ela passa a admirá-los pelo que eles são e a homossexualidade vira 2º plano”.

As especialistas concordam em dizer que nunca se deve ser negada a adoção a um casal pelo simples fato de eles serem homoafetivos, mas é preciso avaliação. “Como há casais heteros que não tem estrutura e condições de criar um filho, também tem casais homos que não têm".



Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Daniela Escobar é criticada por dizer que esconderia adoção: "Até barriga falsa colocaria"

Google Imagens
  
05.10.2011

Atriz causou polêmica entre colegas de 'A Vida da Gente' ao falar sobre tema, vivido por ela na trama


Atriz causou polêmica com declaração.
Daniela Escobar foi muito criticada pelos colegas de elenco de "A Vida da Gente", na qual interpreta Suzana, mãe de uma menina adotada, quando opinou sobre o tema "adoção" em uma visita a um psicanalista para discutir os personagens.
"Lá questionaram este tema, e eu disse que jamais contaria a verdade, porque ia querer que a criança se sentisse meu filho, ia querer dar essa chance a ela. E aí todo mundo veio em cima de mim, dizendo que eu estava errada", detalha, em entrevista ao jornal "Diário de São Paulo".
A atriz, ex-mulher de Jayme Monjardim, com quem teve André, de 13 anos, continua: "Me perguntaram se eu minto para o André, e eu disse que não, nunca. Eu sou assim, a favor da verdade sempre, mas não me convenci de que é melhor contar. Acho que se eu adotasse, até barriga falsa colocaria", diz.
Daniela está de volta ao Rio de Janeiro e a telinha depois de cinco anos morando em Los Angeles. Desde sua atuação em "América", em 2005, ela não havia mais feito nenhuma novela inteira, apenas participações, como em "Ti-Ti-Ti". As informações são do Ego.



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Esta senhora não conseguiria nem se habilitar com um discurso e uma crença desta, nenhum psicóloga daria um parecer favorável frente a uma postura manipuladora como esta.
Para adotar se precisa antes der tudo trabalhar as fantasias que se tem em torno deste universo e encarar a relação futura como positiva e não a relação consanguínea como mais forte.
É muita responsabilidade ter um filho pela adoção, se precisa ser maduro e acreditar naquela relação, afinal o filho no fundo terá suas convicções a respeito da relação de acordo com o que percebe subjetivamente nos pais e como eles enxergam este tema.
Adotar é acreditar que o amor não está no sangue, é entender e sentir que ele é construído.

Por Cintia Liana

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma Psicologia da Adoção

Beneath this Burning Shoreline

Por Luiz Schettini Filho - Psicólogo

Na experiência humana a realidade será sempre precedida de um sonho. O pensamento, a imaginação, a idéia compõem o cenário da montagem da realidade. O sonho não é antagônico à realidade. Pelo contrário, está incrustado na sua origem.

Essa observação vem a propósito da tentativa de entender o sentido do filho para a pessoa humana. O filho será sempre um sonho, mesmo que, ás vezes, se torne um pesadelo diante das fantasias e dos desejos que acalentamos em nosso psiquismo. Sonho e realidade se complementam no processo de geração e interação com o filho.

“O filho é a resultante esperada da relação homem-mulher; é como se o equilíbrio se completasse a partir de um terceiro referencial. É o filho que dá sentido ao casal. Sem dúvida, é da interação dessas três forças – que oferecem, reciprocamente, apoio e harmonia no sistema de dar e receber – que surge a verdadeira unidade. Falamos aqui, portanto, de uma triunidade, não no sentido aritmético, mas no sentido de uma dimensão ética, segundo a qual as relações interpessoais ocorrem de uma forma harmônica e complementar. É oportuno lembrar que a unidade pressupõe a diversidade, assim como a semelhança pressupõe a diferença, mas, nesse caso, as diferenças – que marcam o caráter na individualidade – aproximam e deixam transparecer o todo, o conjunto” (Cf. Schettini).

A busca do filho resulta, portanto, de uma conjunção ética e não simplesmente de uma conquista genética. É nesse ambiente que se processa a adoção. É dentro do âmbito da relação ética que se constrói a real parentalidade, conduzida pela convivência afetiva.

A adoção, porém, se inscreve em um contexto de impossibilidades. Uns adotam filhos por não poderem gerá-los. Outros os geram, mas esbarram na impossibilidade de criá-los. O poder de uns se impõe ao não-poder de outros. Essa questão, com certeza, produz interferências nas relações interpessoais de pais e filhos adotivos. A experiência clínica nos mostra, entretanto, que o apego afetivo, que se estabelece através da criação – que não se confunde com “educação” – faz da relação parental adotiva uma peça inconsútil.

Por essas razões, torna-se necessário uma incursão na dinâmica psicológica da adoção. A adoção não pode ser encarada apenas como um fenômeno operacional. Não se trata de montar um sistema operacional que leve a localizar uma criança para torná-la filho. O filho adotivo não vem de fora; vem de dentro, como de dentro vem o filho biológico. Isto é, o filho que se adota é o filho que, afetivamente, é “gestado” no psiquismo de seus novos pais.

Há alguns pressupostos que devemos examinar para compreender como o filho biológico de uma pessoa torna-se verdadeiramente filho de outra pessoa através das ligações de afeto.

Em primeiro lugar, é imprescindível que não se perca a dimensão da realidade histórica, isto é, a criança adotada necessita estabelecer ligações com sua história pessoal, o que se realiza através do conhecimento de sua origem, até porque não existe o homem real sem uma história. E isso nos leva, inevitavelmente, à exposição da verdade biográfica.

Dizer a verdade sobre a origem à criança adotada tem sido um desconforto, quando não um motivo de pânico, para alguns pais que incorporaram a parentalidade adotiva. É como se a verdade histórica revelada pudesse destruir o afeto entre pais e filhos. As dificuldades nas relações interpessoais poderão surgir muito mais pela manutenção dos segredos do que pela revelação da verdade. “Sem confiança, a convivência entre as pessoas se torna uma farsa e, por conseqüência, agressão e injustiça. Manter em segredo as coisas que estão ligadas à vida é decretar, aos poucos, morte e destruição” (Cf. Schettini). O não-dito torna-se uma crueldade. As relações entre as pessoas se deterioram muito mais pelo “não-dito” do que por aquilo que, às vezes, dizemos. Sem dúvida, a verdade não machuca quando vem acondicionada no afeto.

Em segundo lugar, não podemos dissociar a relação parental adotiva das vinculações de afeto. Aqui vale considerar, que o amor vem antes do conhecimento. Sobretudo, o amor ao filho. Não precisamos conhecê-lo para que o amemos. O amor é a conseqüência de uma disposição interna que se estabelece independente de termos um arsenal de informações a respeito do filho. Poderíamos dizer até, que ao filho amamos antes de conhecê-lo, como continuamos amando apesar de chegar a conhecê-lo. Nós o amamos apesar de não saber como ele será e, mais ainda, permanecemos amando quando sabemos quem ele é verdadeiramente.

A essa altura, cabe lembrar que o conhecimento de características pessoais e informações históricas da vida pregressa do filho adotivo, não interfere na relação de afeto que já se estabeleceu. Temos o direito de construir fantasias a respeito de nossos filhos, mas não temos o direito de exigir deles que realizem a arte-final dos esboços que concebemos. Com certeza, aplica-se aqui a observação de Ilya Prigogine: “O possível é mais rico que o real”. O filho adotivo transita dentro dessa conceituação do “possível”. Amamos o filho muito mais por suas possibilidades do que pela garantia que possa nos dar da realização de nossas fantasias.

A verdade é o fundamento de uma relação de afeto duradoura. A criança adotiva precisa ouvir a sua história para poder ouvir a si mesma. Por essa razão, não temos o direito de mutilar sua biografia.

Na relação adotiva o apego afetivo cresce de importância pela inexistência da ligação biológica na parentalidade. Isso nos leva a pensar que a verdadeira parentalidade se fundamenta no vínculo afetivo, colocando todos os filhos no mesmo nível de importância, isto é, os filhos, gerados por nós ou não, precisam, necessariamente, ser adotivos. Quem gera filhos é genitor. Para atingirmos a condição de pais, precisamos mais do que gerar; é imprescindível estabelecer uma relação afetiva. Assim, todos os filhos precisam, sem exceção, ser adotados afetivamente. O grande desafio que temos diante de nós é transformar o puramente biológico em marcadamente afetivo. O filho adotivo não é uma prótese que venha substituir uma deformidade.

Em terceiro lugar, precisamos rever o conceito de maternidade/paternidade. O alicerce da consciência parental está no sentimento de que adotar um filho implica um processo de “incorporação”. O filho adotivo é engendrado dentro de quem o adota, tanto quanto acontece com aquele que o gera biologicamente. Por essa razão, na interação com o filho, precisamos mais de expressões de afeto do que de pressões pedagógicas. É a convivência afetiva que dá sentido à relação de parentalidade.

Em quarto lugar, não podemos ignorar que a criança adotada vive, de um modo geral, uma “tríplice rejeição”.

Do seu ponto de vista, ela se sente rejeitada pela mãe de origem, independentemente da causa pela qual não a “adotou” como filha, mesmo que a impossibilidade tenha decorrido de sua morte. Essa é a primeira fonte de rejeição. A segunda surge como decorrência de seu medo de não ser aceita como filha pelos pais adotivos. A terceira resulta do reflexo, que muitas vezes existe, do receio que os pais adotivos têm de não ser aceitos pelo filho adotado. Essa síndrome de rejeição se resolve ao longo da convivência afetiva durante a primeira infância. Não existe interação pai-mãe-filho sem que haja uma relação de amor. O amor é a única emoção que precisa ser alimentada continuamente para que possa subsistir. Essa característica, ao invés de indicar fragilidade, aponta para sua importância e mostra que a vida exige uma participação vigilante para que se mantenha com sentido. Françoise Dolto diz de forma incisiva: “O sujeito morre de não ter relação”.

A “contigüidade afetiva” nos garante o embasamento para uma comunhão parental. Harold Kushner lembra: “Nenhum de nós consegue ser verdadeiramente humano em situação de isolamento. As qualidades que nos fazem humanos só emergem através das maneiras pelas quais nos relacionamos com os outros”. As dificuldades que encontramos na relação com os filhos adotivos não diferem na sua essência das mesma que enfrentamos com aqueles que não têm uma história de adoção. Percebemos, no entanto, que os adotivos têm uma história peculiar, como todos a temos por conta do nosso caráter de individualidade. As diferenças não são deficiências; são marcas pessoais, que compõem nosso patrimônio de pessoa.

Em quinto lugar, a experiência nos mostra que há pessoas com uma história de adoção, que apresentam, pelo menos por um período do seu desenvolvimento, alguma dificuldade de aceitar a aceitação (Cf. Tillich). Ser aceito torna-se uma carga, que resulta em uma responsabilidade, muitas vezes, difícil de assumir. A aceitação, para essas pessoas, é interpretada como a existência de uma fragilidade ou mesmo como uma declaração de incompetência. Novamente nos encontramos com uma questão para a qual a saída é o estabelecimento de uma relação de afeto. Amar aquele que tem dificuldade de ser amado seria a suprema demonstração da humanidade dos humanos.

Alguns outros aspectos da psicologia da adoção poderiam ser considerados, mas reservamos um espaço final para fazer uma referência a alguma coisa inacabada que fica no psiquismo da pessoa adotada que não teve a oportunidade de conhecer sua mãe de origem. Que semelhanças tem ela com a mãe que a gerou? Parece que fica um hiato na construção de sua imagem física, no sentido das ligações que “garantem” sua existência em uma comunidade familiar. Ao longo de trinta anos, acompanhando processos de psicoterapia de crianças e adolescentes com uma história de adoção, temos observado que aqueles que se tornam adultos e geram os seus próprios filhos, demonstram satisfação, e mesmo uma mudança de comportamento, quando expressam de formas muito pessoais a descoberta de que, naquele filho que geraram, existem características genéticas dos pais de origem, mesmo que não consigam identificá-las. Há, porém, uma certeza de que no filho há o registro de sua história genética.

Sem dúvida, procriar é uma condição dada pela natureza; criar é uma responsabilidade no âmbito da ética entre os homens. Procriar é um momento; criar é um processo. Procriar é fisiológico; criar é afetivo.

Referências bibliográficas:
BARLETTA, Gaetano, Il Figlio Altrui, Società Editrice Internazionalle, Torino, Italia, 1991.
DELL´ANTONIO, Annamaria, Le Problematiche Psicologiche dell´ Adozione Nacionale e Internazionalle, Giuffrè Editore, Milano, Italia, 1986.
DOLTO, Françoise, Dificuldade de Viver, Trad. de Alceu Edir Fillmann e Doris Vasconcellos, Artes Médicas, Porto Alegre, 1988.
KUSHNER, Harold S., Quando Tudo não é o Bastante, Trad. Elizabeth e Djalma Mello,
Livraria Nobel S.A., S. Paulo, 1987.
SCHETTINI, Luiz Filho, Compreendendo o Filho Adotivo, Bagaço, Recife, PE, 1995.
SCHETTINI, Luiz Filho, Adoção: Origem, Segredo e Revelação, Bagaço, Recife, PE, 1999.
TILLICH, Paul, A Coragem de Ser, Trad. Eglê Malheiros, Editora Paz e Terra S.A., S. Paulo, 1976.

Por Luiz Schettini Filho - Psicólogo

Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 3 de maio de 2011

Fale de adoção sem traumas; Livros tratam o tema com delicadeza e carinho

Filha de amigos. Foto cedida pelos pais. Linda!
 
28/04/2011 - 14h02
 
Da Livraria da Folha
 
Falar de adoção já foi mais difícil, e de certa forma, até mais doloroso. É óbvio que a situação é incômoda e deve ser tratada com respeito, cuidado e afeto, mas hoje é grande o número de crianças adotadas e que convivem em paz com essa informação dentro da própria família, nas escolas e nas mais diversas situações.
 
Mesmo assim, na hora de falar com os filhos, é bom estar preparado para todos os tipos de situações. Afinal, a notícia aperta forte nas emoções e pode provocar angústias compreensíveis, mas também temporárias e reversíveis.
 
Para lidar com os pequenos, as palavras têm que ser bem escolhidas, a situação bem explicada. Não precisa fazer alarde com isso, nem tentar encontrar heróis ou vilões na história. É uma possibilidade bonita de vida, de se construir famílias, e o amor incondicional entre pais e filhos é o que tem que prevalecer.
 
A Livraria da Folha selecionou alguns dos títulos mais interessantes encontrados em nossa estante. Essas obras são destinadas a adultos e crianças, e elas comentam com muita delicadeza como lidar com o assunto.
 
As dicas para os pais os alertam sobre alguns passos falsos que podem deixar a situação chata, enquanto outros livros explicam para os pequenos o que significa esse universo, e o fazem com personagens carismáticos e felizes, despertando e fazendo-os compreender e aceitar com felicidade a oportunidade de ter um pai e uma mãe que os amam.
  
"Adoção, a Família da Flora"
Com bonitos poemas, o livro é destinado às crianças, e conta a história de Flora e de maneira sutil a razão por ela ter sido adotada. Do mesmo modo, a autora Carolina Coelho destaca o papel e carinho da família que cuida e se preocupa com a personagem.
 
Ao final do livro, uma série de orientações e dicas indicam para pais e educadores os aspectos mais importantes e que valem ser relidos com atenção.
 
"Somos Um do Outro"
O famoso Todd Parr também faz sua contribuição nessa história. Este livro é especial para mostrar aos pequenos que não há problema nenhum em ter uma família "diferente".
 
O personagem muito popular, querido e colorido ajuda diretamente as crianças a se sentirem bem consigo mesmas, e a enxergar que coisa boa é ter um papai e mamãe para viver momentos em família.
 
"Conversando com Crianças sobre Adoção"
Voltado para os adultos, o texto aborda o tópico do diálogo aberto com os filhos, em dar espaço para eles refletirem a respeito e fazerem as perguntas que quiserem, a fim de sentirem-se satisfeitos e compreenderem o assunto.
 
"Adoção"
Este livro também restringe a conversa com os pais. O texto serve como um verdadeiro roteiro, conduzindo toda a conversa sobre o assunto.
 
A obra aborda os assuntos relacionados à idade de contar, pais naturais, descarga emocional, afeto psicológico e como lidar com as emoções de frustração, negação e aceitação dos filhos.




Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Cintia Liana no Programa Point 21 Oficina

No dia 14 de dezembro participei via skype do Programa "Point 21 Oficina", apresentado por Paulo Escudeiro. Foi uma ótima experiência participar do programa via skype e uma honra ser o primeiro skype internacional deles. Me fizeram muitas perguntas sobre adoção, incluindo internacional. Quase no final da entrevista a linha caiu, mas o importante é que a meta foi cumprida e passadas as principais informações.

Quero agradecer o convite da produtora do programa, a jornalista Bianca Namorato, ao apresentador Paulo Escudeiro e a toda a sua equipe que me tratou super bem e com muito afeto.






Postado Por Cintia Liana