"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Os direitos de Victória

Victoria, Bia e Esther. Fina Estampa.

Aproveitando novamente, falo de direitos da criança. Mais uma confusão promovida pela novela "Fina Estampa", quando coloca em discussão o direito de duas pessoas adultas na frente daquele que é mais importante no processo, a criança.

A justiça prevê acima de tudo que sejam respeitados os direitos da criança, para isso levanta a situação em seus aspectos psicológicos, sociais, de manutenção das necessidades básicas do menor, entre outros.

A criança foi gerada e criada até certa idade por uma pessoa, isso quer dizer que existe relação de apego. A mãe que gerou e cuidou quer ficar com a filha e tem totais condições de assistí-la e dar-lhe uma vida digna, sendo também uma pessoa equilibrada. Tudo isso deve ser analisado pelos tecnicos da vara da infância ou de família na hora de um possível processo.

A mãe que doou o óvulo, não há vínculos concretos com a menor. Ser mãe está na experiência da maternagem. O que a impulsiona psicologicamente de início é ver na criança a continuidade do seu vínculo com o homem que amava, Victória é a personificação deste e a possibilidade de estar perto daquele ser que ela não conhece, mas acredita que por ter sua herança genética, assim como do homem que amava, é sua filha. A velha crença e fantasia na força dos vínculos consanguíneos.

A personagem Esther deu vida a menina, foi ela quem a alimentou através do cordão umbilical, sentiu seus movimentos dentro da barriga, a desejou, sentiu a dor do parto, "deu a luz" e cuidou dela por todos aqueles meses. Ou seja, as duas têm uma história concreta e a vivência de um sentimento recíproco de pertencimento.

De todo modo, a Justiça defende os direitos daquele ser indefeso, com o olhar da ciência, sobretudo da psicologia. Retirá-la da mãe que cuidou e deu toda a subsistência seria crueldade. Já é provado o tamanho do sofrimento e dos prejuísos emocionais que sente uma criança ao ser afastada daquele que sente amor.

Enfim, não teria a necessidade em se discutir tanto na novela, promovendo e instaurando dúvidas no cotidiano das pessoas, com diálogos e reafirmação medíocres e errôneas sobre maternidade. Colocando a herança genética, que traz um simples óvulo, como algo tão grandioso.

Vitória fica com Esther, para que não sofra com o corte do vínculo saudável materno e com quem já desenvolveu plena relação de apego.

Por Cintia Liana


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Olhando as necessidades da criança

Teodora e Quinzinho

Por Cintia Liana Reis de Silva

Muito perigoso o modo como uma novela forma a opinião de um povo. Quem não tem consciência disso cai em um erro irreversível.

Já que falamos tanto em como a novela "Fina Estampa" está tratando o tema adoção de maneira errada e preconceiutosa e confundindo doença mental com crueldade e psicopatia, resolvi aproveitar o ensejo e falar do modo como tratam a figura materna do pequeno Quinzinho.

Mesmo quem não assiste novelas não tem como, em algum momento, não se deparar com alguma cena chocante. Em nenhum momento eu vi a família do pai do menino olhar para ele como um ser humano que merece ser visto com respeito e observar como a presença da mãe o deixa feliz.

O autor surpreende mais quando constrói uma personagem pseudo perfeita e ao mesmo tempo a faz chamar a ex-nora de "piriguete" e de outros tantos piores nomes pejorativos na frente do neto e dizer que a opinião dela não vale nada. De querer pagar para que ela fique longe dele, sem antes disso pensar em como essa ausência o faria mal.

Se alguém tivesse a consciência do quão devastador é ser abandonado era mais fácil pagar para ela ficar. Porque analisando bem, ela trata bem o menino e é uma mãe amorosa, apesar de ter seus tantos defeitos. O contato com a criança é o momento onde ela deixa sua sombra de lado e é somente luz para ele.

Ela é xingada na frente do menor, ridicularizada, agredida, rejeitada e o tal Quinzé a olha com repulsivo e forte sentimento de ódio e depois dizem que isso é amor. Tudo isso como um espetáculo de horrores para o pequeno que nunca esquecerá estas cenas e bem no momento em que está absorvendo conceitos para toda a vida, assim como os conceitos de mãe e mulher (podemos aproveitar e pensar também no pequeno ator, não só no personagem). Do mesmo modo falam se sexo na frente dele. Tudo bem que dificulta o fato do pequeno não atuar bem, então não passa nenhum sentimento. O problema é que o povo vê isso na novela e entende como uma permissão para fazer igual. Porque mesmo sabendo que é errado, se isso ocorre numa novela da Globo, em horário nobre, e por uma família que ficou milionária, se torna no mínimo permitido e perdoado os olhos do inconsciente social.

Não se fala em terapia, em auto conhecimento, em diálogo franco, só se vê reações raivosas. Claro que nisso também se inclui a personagem Teodora, que é imatura e interesseira.

A protagonista flexibiliza para a própria "inimiga" a vilã psicopata, mas não para a ex-nora. Talvez porque esta primeira não queira roubar o seu tão precioso dinheiro? Enfim, críticas ao roteiro, porque tudo ali é falso, são personagens, invenções de um autor que é humano e não deve ter nenhum conhecimento de psicologia.
Voltando para a responsabilidade de educar um povo e até fortalecer uma cultura, é construir dois personagens, como Quinzé e Teodora, que se agridem fisicamente, em nada se admiram, se xingam dos nomes mais pesados e preconceituosos, e chamar isso de amor. Eles se desejam, sentem uma atração neurótica um pelo outro, atração física, se identificam na raiva, mas chamar isso de amor é até ofensa. As pessoas precisam questionar mais e estudar conceitos subjetivos, história, filosofia, psicologia. Digo e reafirmo, isso não é e nem nunca será amor.

É, Aguinaldo Silva, isso tudo é de fato uma agressão à inteligência alheia. Talvez seja por isso que hoje em dia uma das coisas mais bregas é dizer que assiste novela e a maioria das pessoas que assiste tem vergonha de admitir. Ela está impregnada do que vulgarmente chamamos de burrice.

Por Cintia Liana

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Carta de Bárbara Toledo à Aguinaldo Silva

Novela Fina Estampa. Cristiane Tornoli.
CARTA ABERTA
À Rede Globo de Televisão
Ao Escritor Aguinaldo Silva
Ref.: Novela Fina Estampa

Prezados Senhores:

Meu nome é Bárbara Toledo, sou fundadora do Grupo de Apoio à Adoção QUINTAL DA CASA DE ANA (
www.quintaldeana.org.br), que trabalha em prol da garantia do direito à convivência familiar de crianças e adolescentes que vivem em instituições de abrigo, "varridos para debaixo do tapete da sociedade", apoiando as famí­lias adotivas, orientando os pretendentes à adoção, justamente para que essa decisão em suas vidas seja muito bem sucedida.

Presido a ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS GRUPOS DE APOIO À ADOÇÃO (ANGAAD) –
www.angaad.org.br, entidade sem fins lucrativos, que congrega há 18 anos, mais de 100 grupos de apoio à adoção com representatividade em todas as cinco regiões brasileiras e luta pela garantia do direito à convivência familiar de toda criança e adolescente institucionalizado. E, atualmente, temos cerca de 40.000 crianças institucionalizadas à espera de uma família!

De fato, nos últimos anos, o Movimento Nacional de Apoio à Adoção, responsável na luta pela promulgação da nova Lei da Adoção, tem contado e muito com a colaboração da imprensa falada e escrita na divulgação de uma NOVA CULTURA DA ADOÇÃO!

E, o que é essa NOVA CULTURA DA ADOÇÃO?

A filiação adotiva deve ser considerada de igual valor que a biológica (até mesmo porque também os filhos biológicos devem ser adotados, cuidados e amados para serem verdadeiramente filhos); a adoção não deve ser um ato de caridade, mas sim um ato de amor, uma "via de mão dupla" onde pais e filhos são ganhadores; a verdade da origem do filho adotivo deve ser respeitada e conhecida (desde que possí­vel) e a adoção deixe de ser um segredo de família, algo que não se possa revelar (ora, somente as coisas feias ou inadequadas procuramos esconder), e especialmente, através da qual possamos corrigir a inércia do Poder Público que não tratou essas crianças, hoje adolescentes, como sujeito do direito de ter uma famí­lia, e por isso lutamos todos os grupos pelas adoções necessárias, isto é, por adoções tardias, inter raciais, de grupos de irmãos, de deficientes e com ví­rus HIV.

Com esse trabalho, temos conseguido alterar o perfil do habilitado à adoção que, tradicionalmente, estava direcionado para bebês saudáveis, brancos e, preferencialmente, meninas. Atualmente, muitas crianças e adolescentes, antes fadados a viver eternamente em entidades de acolhimento institucional (antigo abrigo) por estarem fora do perfil comumente desejado, estão sendo adotadas e passaram a compor famílias que convivem felizes e em harmonia com as suas escolhas.

No entanto, a ANGAAD tem sido o receptivo de todas as angústias que famílias, pretendentes, profissionais e simpatizantes da adoção tem manifestado com relação às cenas da novela "Fina Estampa" que, em pleno horário nobre da TV, desde 28 de janeiro último, vem tratando do grande “segredo†da personagem Teresa Cristina.

Seu grande segredo, revelado com estardalhaço e de forma fantasiosa, refere-se ao fato de ser filha biológica de uma empregada que morreu louca em um sanatório psiquiatrico e ter sido adotada legalmente por uma família milionária.

A revelação de tal segredo parece justificar a personalidade de Tereza Cristina demonstrada ao longo da novela: uma pessoa psicótica, maquiavélica, má, péssima mãe, mesquinha, vingativa, e principalmente, uma homicida reincidente, que agiu para garantir a não revelação do terrível segredo !

A partir da revelação do segredo o descompasso aumenta ainda mais. Criam-se questionamentos sobre o real sobrenome de Tereza Cristina, se teria ou não direito à herança dos pais (adotantes) falecidos, se seu irmão (Paulo) deveria ou não fazer exame de DNA para “desmascará-laâ€.

Essas são apenas algumas das situações que fazem transbordar todo preconceito com relação a adoção como se fosse uma filiação de segunda classe.

Revelação e segredo – A adoção não pode ser tratada como segredo! Absurdo descobrir que a tia de Tereza Cristina, interpretada pela atriz Eva Vilma, vem chantageando a sobrinha em virtude de tal segredo. A origem biológica do filho adotivo é um componente de sua biografia, mas não será jamais o referencial maior de sua vida. O processo de criação e educação oferecidos pelos pais adotivos constituirão as suas matrizes psicológicos mais importantes.

Pessoas adotadas não são coitadinhas que foram acolhidas por um ato de piedade. São pessoas tão somente, que foram escolhidas como filhas pelo amor. A adoção é o processo de filiação fundamentado no afeto, sendo a única forma de se configurar a verdadeira paternidade e a maternidade. O fato de termos gerado crianças não nos torna pais e nem estas filhos. Todos os pais, inclusive os biológicos, precisam adotar afetivamente as suas crianças para que estas se tornem filhos.

Da origem genética – A vergonha de Tereza Cristina por ser filha de uma empregada doméstica é preconceituosa e absurda. A grande maioria das crianças e adolescentes disponibilizadas a adoção tem origem na pobreza, no abandono, na mendicância. Nenhuma dessas crianças e adolescentes deverá ter vergonha de sua origem. Tal colocação fere a dignidade da pessoa humana.

Dos questionamentos acerca do sobrenome de família – Tereza Cristina foi legalmente adotada. Seu sobrenome é da sua família adotiva, simplesmente da sua família. A inserção dessa dúvida está colocando em polvorosa inúmeras famílias formadas pela adoção que, no desespero, mesmo com toda a formação recebida, passam a povoar o imaginário com tal dúvida. A Adoção é uma ato irrevogável que rompe todos os vinculos com a família biológica!

Da herança – Inquestionável que crianças e adolescentes legalmente adotados têm assegurados todos os direitos sucessórios. Totalmente descabida tal colocação ou sua menção por outros personagens do folhetim.

Dos componentes psiquiátricos e da falta de comprovação da transmissão hereditária – Muitas pesquisas científicas tem sido feitas neste sentido, entretanto, nenhum estudo em psiquiatria é categórico ao enfatizar uma influência exclusivamente genética, considerando sempre os fatores ambientais no desencadeamento ou manutenção dos transtornos. Em relação a esquizofrenia especificamente, até o momento, os estudos são também inconclusivos ao colocá-la como genética ou hereditária, embora tenhamos certeza de que a probabilidade de filhos esquizofrênicos é maior se um dos pais for esquizofrênico e muito maior se ambos o forem. Sempre se fala em "probabilidade" ressaltando-se a influência ambiental na maioria dos estudos.

Uma enormidade de crianças e adolescentes adotados são filhos biológicos de alcoolistas, usuários das mais diversas drogas, dentre elas o crack, pacientes psiquiátricos, portadores do vírus HIV, dentre outros. Assim, a abordagem escolhida para a personagem Tereza Cristina faz um enorme desserviço à causa da adoção, afastando o adotante do real interesse do instituto da adoção que é a criança.

E como se tivessem sido reabertos baús que acreditávamos esquecidos e os fantasmas dos preconceitos passassem a rondar novamente o imaginário social...

A maioria da poupulação não tem conhecimento cabal dos procedimentos legais da Adoção, da sua irrevogabilidade, dos direitos e deveres que dele decorrem e dos aspectos emocionais e psicológicos que envolvem uma verdadeira atitude adotiva.

Entendemos a liberdade de expressão e jamais nos colocaríamos na posição da malfadada censura, contudo, os últimos capítulos só têm reforçado todo preconceito com relação à Adoção.

Outrossim, numa ponderação hierárquica dos princípios constitucionais , se sobrepõe à liberdade de expressão a dignidade da pessoa humana que, por força do disposto no Art. 227 parágrafo 6º da Constituição Federal, não pode sofrer qualquer designação discriminatória relativa a sua filiação

Assim, por todas as razões já colocadas e prejuízos e constrangimentos para inúmeros pais e filhos adotivos brasileiros, vimos solicitar não somente uma reinterpretação da questão envolvendo o tema da adoção da personagem Tereza Cristina, mas principalmente o esclarecimento dentro do ambito da novela do real siguinificado da CULTURA DA ADOÇÃO.

Desde já agradecemos pela atenção dispensada e aguardamos ansiosos pelas providencias a serem adotadas para reparar a dor causada às famílias adotivas e o prejuízo a toda luta de tentar encontrar uma família para as 40.000 crianças abrigadas.

Atenciosamente,

Barbara Toledo
Presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção ANGAAD
http://www.quintaldeana.org.br/
Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O neto da empregada

Julie de Waroqui

Por Thaís Machado em 07/02/2012 na edição 680

Não sou noveleira. Não sou noveleira. Não sou noveleira.

Apesar de amar acompanhar de tudo um pouco na TV, uma das coisas que mais me irritam (especialmente nas produções brasileiras) são as novelas. Sempre cheias de clichês, atores medianos, merchandisings baratos e trilhas pagas pelas gravadoras, elas estão muito além do que pode ser considerado ruim. Mesmo assim, é difícil passar ileso pelas fofocas que cercam os encerramentos desses “folhetins”.
Um exemplo atual é o “segredo de Tereza Cristina”, a personagem vivida por Cristiane Torloni na atração global Fina Estampa. Há enquetes nos sites, concursos nas emissoras de rádio, comentários nos corredores das empresas. O que será que uma das personagens principais da trama esconde? Como deixei claro no início deste post, não vi sequer ¼ da novela, mas ontem (2/02), diante da divulgação do capítulo em que o mistério seria revelado, me propus a assistir. Foi quando deparei com uma das cenas mais estúpidas dos últimos anos: o garoto, filho da tal vilã, aos prantos, porque acabara de descobrir que era “neto da empregada”.

Mais prêmios, mais longevidade...

Sim, é isso mesmo que você leu. O menino chorava soluçando porque a mãe lhe contou sua origem (filha de uma doméstica, havia sido adotada ainda pequena pela família rica e quatrocentona). E a partir dessa confissão, todos os outros diálogos nos vários núcleos de personagens foram pautados pelo “escândalo”. Um momento! Desde quando ser adotado é vergonhoso? Quem decidiu que ser “rico” é ser “melhor”? Entendi que esse é o princípio de um mistério que ainda vai esclarecer muitos pontos confusos na trajetória daquela mulher e que o tal segredo não é de fato o “xis” da questão; mas dedicar quase uma hora em horário nobre para discutir que a fulana não tem “direito” de ser a vilã que é porque não tem em seus genes um sobrenome conhecido?!
Depois querem me convencer que esse tipo de programa discute assuntos importantes para a democracia como o preconceito, o aborto, a violência doméstica etc. As novelas são (e sempre foram) a principal influência na cultura brasileira. Elas ditam moda, elegem as “personalidades do ano”, destacam hábitos arraigados da população e uma série de outras funções que deveriam ser denotadas a qualquer outro instrumento de comunicação, menos às historinhas contadas por autores cansados e genialmente equivocados.
E a pior parte disso tudo é que, a cada dia, elas ganham mais prêmios, mais força e mais longevidade...

[Thaís Machado é jornalista, São José do Rio Preto, SP]



Postado por Cintia Liana

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ficção que reforça preconceitos

Google Imagens
Um des-serviço à população brasileira (na qual muita gente se informa só através das pobres novelas), sem o mínimo de responsabilidade é construir um personagem perverso, imaturo, cruel, egoísta ao extremo, psicopático e colocar a responsabilidade no fato de ter sido adotada, como se isso justificasse o desejo de vingança e de matar pessoas e, ainda por cima, para proteger o segredo, como se fosse horrível ter sido adotada. E ainda tratar a doença mental como etiologicamente puramente genética. Absurdo.
Cintia Liana
Abaixo seguem as palavras do meu amigo Paulo Wanzeller.
Fina Estampa... É isso mesmo? Ficção para quê?

04.02.1012


Fiquei procurando uma razão que justificasse não apenas a busca insensata do sucesso a enredar o texto principal da novela Fina Estampa, exibida no horário nobre da Rede Globo, pelos caminhos da insanidade, crime, violência, mal caráter, futilidade ao extremo, desajuste sexual, pedantismo, usura, dente outros; todas estas funestas características reunidas em um só personagem, a Teresa Cristina, protagonizada pela atriz Cristiane Torloni, o porquê de tal personagem ostentar em sua história um passado de abandono e adoção e qual a relação das características pessoais do personagem com a adoção.

Na internet li a biografia do autor Aguinaldo Silva. Li a sinopse da novela, li a sinopse das outras novelas do autor, li textos, assisti vídeos... Não existe uma aparente e explícita justificativa vinda ou explicada do autor. Do meu ponto de vista trata-se de pobreza de imaginação e de criatividade. É a minha opinião e não altera um centavo da audiência da novela que, por sinal, não assisto. Não vejo atração nas novelas atuais, prá mim são simples repetição de um roteiro prá lá de batido.


Lembrei do episódio do chamado “Massacre de Realengo” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_de_Realengo), e o quanto a adoção foi exposta como justificativa para o crime, inclusive ressaltada a doença mental da mãe biológica do assassino como motivo pra uma personalidade doentia e criminosa.

Lembrei de outros crimes noticiados e que o assunto de frente era a violência ou o assassinato e o pano de fundo a adoção.


• POR CAUSA DE DÍZIMO, FILHA ADOTIVA MATA OS PAIS NO MARANHÃO - http://www.guiame.com.br/ntc/por-causa-de-dizimo-filha-adotiva-mata-os-pais-no-maranhao.html



Queremos proteger nossos filhos, queremos que a sociedade os veja como filhos amados e criados para serem pessoas “de bem”, pessoas especiais, vencedoras, vitoriosas apesar da história de vida de todos que passam pelo abandono; essas notícias da imprensa sensacionalista e o enredo da novela Fina Estampa nos atinge, sobre isso não há o que debater.

A vida... as experiências de cada um..., uns abençoados “bem nascidos” com trajetórias de uma vida cercada de carinho, amor, luxo e riquezas, outros com experiências de sofrimento desde a fase intra uterina até a fase adulta, convivem diariamente com o sofrimento, vícios, crimes e toda sorte de mazelas sociais.
E eu pergunto: comparando as duas vidas acima ... É possível afirmar que uma será de pleno sucesso e a outra de sucessiva miséria social? Sabemos que a resposta é um complexo e sonoro NÃO!


Na ficção é a mesma coisa, não é o autor que tem que modificar o enredo para não contar, logicamente a troco da audiência, uma história de adoção e tragédia, ser humano é assim mesmo, complexo, surpreendente... E infelizmente o que vende é a trama criminosa, o sangue social, e diga-se vende porque nós compramos. E o que está vendendo hoje é o preconceito, o estereótipo e o ridículo.



Modificar o enredo da novela não vai extinguir a sanha pela audiência e nem impedir que a imprensa amanhã ressalte a adoção como um fator de negatividade na vida de quem cometa crimes ou outros fatos de semelhante natureza. Nem mesmo modificar nossa postura e nossa seletividade querendo mais cultura e entretenimento sadio.


Não podemos somente nos revoltar, porque a “ficção imita a vida”, quanto mais cruel, mais dá audiência, rende milhões e a Globo não vai mudar isso porque nós pais adotivos nos sentimos ultrajados com notícias e evidências negativas sobre a adoção. Para nós a adoção é única e exclusivamente uma nomenclatura, é como se explica juridicamente o vínculo que formamos com nossos filhos. A convivência, o amor que temos por eles, nosso carinho e nosso desvelo é muito grande para pensar em fracasso.


Protestemos sim, é necessário mostrar a nossa indignação quando algo nos atinge, mas, principalmente continuemos nossa luta, divulguemos êxitos, disseminemos nossos planos de felicidade. Hoje a adoção não é mais vista como simples caridade ou como uma filiação ilegítima e não há como retroceder quando a motivação para formar uma família é o amor. 
Paulo Wanzeller / Fevereiro de 2012