"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O apego - Bowlby e a Teoria do Apego

Mandy Lynne

Por Mauro Lantzman

BOWLBY E A TEORIA DO APEGO

No final de 1949, um jovem e imaginativo psiquiatra, de orientação analítica e recentemente apontado para ser o chefe de Seção da Saúde Mental da organização Mundial de Saúde, interveio. Requisitado para contribuir com as Nações Unidas com um estudo sobre as necessidades de crianças sem lar, Ronald Hargreaves decidiu escolher um consultor, por um certo período, para fazer um relatório sobre os aspectos da saúde mental concernentes a esse problema e sabendo de meu interesse nesse campo, me convidou para essa tarefa (Bowlby, 1990, p.34).

Assim começa a história de John Bowlby, um psiquiatra que, entre a década de cinqüenta e sessenta, investigou e elaborou a teoria que procura explicar como ocorre – e quais as implicações para a vida adulta - dos fortes vínculos afetivos entre o bebê humano e o provedor de segurança e conforto.

Bowlby recolheu relatos e fez observações da interação mãe – bebê. Os dados que recolheu indicavam para uma direção diferente daquela que a psicanálise e a teoria cognitiva da época apontavam:

Naquele tempo, era largamente aceito que a razão pela qual a criança desenvolve um forte laço com sua mãe é o fato de que esta a alimenta. Dois tipos de impulsos são postulados, primário e secundário. O alimento é tido como primário; a relação pessoal, referida como dependência, como secundário. Essa teoria não me parecia se adaptar aos fatos (Bowlby, 1990, p.37)

Em sua monografia para a Organização Mundial de Saúde – OMS, “Cuidados Maternos e Saúde Mental”, de 1951, Bowlby revê as provas relativas aos efeitos adversos da privação materna para o bebê e discute os meios de prevenir tais efeitos.

Neste trabalho, fiz uma revisão sobre a evidência, então disponível, considerada de pouca importância, relativa às influências adversas, no desenvolvimento da personalidade, do cuidado materno inadequado, durante a primeira infância; chamei a atenção para o desconforto intenso das crianças pequenas, que se acham separadas daqueles que conhecem e amam e fiz recomendações quanto à melhor forma de evitar, ou pelo menos diminuir os efeitos maléficos a curto e a longo prazo (Bowlby, 1989, p.34).

Porém, ainda se fazia necessária à construção de bases teóricas e conceituais.

O que estava faltando, como vários revisores apontaram, era alguma explicação de como as experiências incluídas sob o amplo título de privação materna poderiam ter efeitos no desenvolvimento da personalidade dos tipos mencionados. A razão para essa omissão era simples: os dados não estavam inseridos em nenhuma teoria até então corrente...(Bowlby, 1989, p.36).

O contato com a etologia, ciência que estava em seus primórdios pelas mãos de Konrad Lorenz, Harry F. Harlow e Robert Hinde, possibilitaram que Bowlby estruturasse a base teórica de seus trabalhos. Considerando que as publicações de Konrad Lorenz (1934) sobre “imprinting”1 poderiam ter algumas implicações relevantes para o estudo de desenvolvimento dos vínculos em seres humanos e partindo da base conceitual e metodológica da etologia, John Bowlby propôs, em 1958, que, assim como em outras espécies animais, os bebês humanos seriam programados para emitir certos comportamentos que eliciariam atenção e cuidados e manteriam a proximidade do cuidador.

Bowlby estava descartando a idéia do impulso primário, que associa a alimentação à razão pela qual a criança desenvolve um forte laço com sua mãe e substituindo-a pelo sentimento de segurança, atribuindo a ele a noção de função biológica de proteção.

Um suporte de força para esse passo veio logo depois com a descoberta de Harlow de que, em outra espécie primata – macaco Rhesus – os jovens mostram preferência marcante por uma mãe-boneca macia, apesar de ela não os alimentar, ao invés de uma mãe-boneca dura (de arame) que os alimenta (Harlow e Zimmerman, 1959 apud Bowlby, 1989 p.38)

A partir do conjunto da obra de Bowlby se pode estabelecer as definições de comportamento de apego e suas características.

Assim, comportamento de apego é definido como:
Qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo, considerado mais apto para lidar com o mundo (Bowlby, 1989, p.38).

Os comportamentos de apego se referem a um conjunto de condutas inatas exibidas pelo bebê, que promove a manutenção ou o estabelecimento da proximidade com sua principal figura provedora de cuidados, a mãe, na maioria das vezes. O repertório comportamental do comportamento de apego inclui chorar, fazer contato visual, agarrarse, aconchegar-se e sorrir. (Bowlby, 1990)

O comportamento de apego será eliciado quando o bebê estiver assustado, cansado, com fome ou sob estresse, levando-o a emitir sinais que podem desencadear a aproximação e a motivação do cuidador.

O comportamento de apego traz segurança e o conforto e possibilita o desenvolvimento - a partir da principal figura de apego - do comportamento de exploração. Quando uma pessoa está apegada ela tem um sentimento especial de segurança e conforto na presença do outro e pode usar o outro como uma “base segura” a partir da qual explora o resto do mundo.

Dentro de sua teoria, ainda, Bowlby enfatiza sete características (Bowlby, 1997):
1. Especificidade – O comportamento de apego é dirigido para um ou alguns indivíduos específicos, geralmente em ordem clara de preferência.
2. Duração – O apego persiste, geralmente, por grande parte do ciclo vital.
3. Envolvimento emocional – Muitas das emoções mais intensas surgem durante a formação, manutenção, rompimento e renovação de relações de apego.
4. Ontogenia – O comportamento de apego desenvolve-se durante os primeiros nove meses de idade de vida dos bebês humanos. Quanto mais experiências de interação social um bebê tiver com uma pessoa, maior são as probabilidades de que ele se apegue a essa pessoa. Por essa razão, torna-se a principal figura de apego de um bebê aquela pessoa que lhe dispensar a maior parte dos cuidados maternos. O comportamento de apego mantém-se ativado até o final do terceiro ano de vida; no desenvolvimento saudável, tornase, daí por diante, cada vez menos ativado.
5. Aprendizagem – Recompensas e punições desempenham apenas um papel secundário. De fato, o apego pode desenvolver-se apesar de repetidas punições por uma figura de apego.
6. Organização – O comportamento de apego é organizado segundo linhas bastante simples. Mediado por sistemas comportamentais cada vez mais complexos, os quais são organizados ciberneticamente. Esses sistemas são ativados por certas condições e terminados por outras. Entre as condições ativadoras estão o estranhamento, a fome, o cansaço e qualquer coisa assustadora. As condições terminais incluem a visão ou som da figura materna e a interação com ela. Quando o comportamento de apego é fortemente despertado, o término poderá requerer o contato físico ou o agarramento à figura materna e (ou) ser acariciado por ela.
7. Função biológica – O comportamento de apego ocorre nos jovens de quase todas as espécies de mamíferos e, em certas espécies, persiste durante toda a vida adulta. A manutenção da proximidade com um adulto preferido por um animal imaturo é a regra geral, o que sugere que tal comportamento possui valor de sobrevivência. Assim, a função do comportamento de apego é a proteção, principalmente contra predadores.

Cabe ainda fazer a distinção entre comportamento de apego e apego.
Ao falar de uma criança que esteja apegada ou que tenha um apego a alguém, quero dizer que esta pessoa está fortemente disposta a procurar a proximidade e contato com esse alguém e a fazê-lo, principalmente, em certas condições específicas. A disposição de comportar-se dessa maneira é um atributo da pessoa apegada....O comportamento de apego, em contraste, se refere a qualquer das formas de comportamento, nas quais a pessoa se engaja, de tempos em tempos, para obter ou manter uma proximidade desejada. (Bowlby, 1989, p.40).

O TESTE DE SITUAÇÃO ESTRANHA
A partir da teoria de Bowlby, Ainsworth e Wittig (1969) elaboraram um procedimento laboratorial para qualificar o vínculo formado entre o bebê e sua principal figura de cuidado, denominado de “Teste de Situação Estranha”, o qual permitiu observar as manifestações comportamentais do apego e examinar o equilíbrio entre o apego e o comportamento exploratório, sob condições de alto e baixo estresse em crianças. Nestas condições, o comportamento é ativado como conseqüência da separação da figura cuidadora. Este trabalho trouxe importantes contribuições para a teoria do apego, ao demonstrar que o apego resultante da interação bebê - mãe, varia na dependência do tipo de cuidado materno e das características inerentes ao bebê.

As respostas dos bebês observadas neste teste possibilitaram a classificação do apego em quatro padrões:
Seguro - o bebê sinaliza a falta da mãe na separação, saúda ativamente a mãe na reunião, e então volta a brincar;
Inseguro - evitante - o bebê exibe pouco ou nenhuma aflição quando separada da mãe e evita ativamente e ignora a mãe na reunião;
Inseguro - resistente - o bebê sofre muito, tem muita aflição ou angustia pela separação e busca o contato na reunião, mas não pode ser acalmado pela mãe e pode exibir forte resistência;
Inseguro - desorganizado – apresenta comportamento misto, ora como evitante, ora como resistente.

Comportamento parental
A contraparte do comportamento de apego é o comportamento parental.
A teoria do apego propõe o sistema do cuidador como um sistema normativo e provedor de segurança. Cuidar é definido como um ampla ordem de comportamentos complementares ao comportamento de apego e inclui um larga gama de responsabilidades, tais como prover ajuda ou auxílio, conforto e confiança, provendo uma base segura, e encorajando autonomia do bebê (Bowlby, 1990).

O cuidador deve ser capaz de responder de forma flexível a uma ampla margem de necessidades que surgirem, deve ter conhecimento adequado de como prover cuidado apropriado e estar disponível quando necessário. Precisa ter recursos emocionais e materiais: habilidade de empatizar e se colocar no lugar do indivíduo em sofrimento. Finalmente, precisa ser motivado a oferecer cuidado. (Feeney e Collins, 2001)

O papel do cuidador freqüentemente envolve uma boa porção de responsabilidade, assim como uma quantidade substancial de recursos cognitivos, emocionais, e materiais.

Deve, portanto, estar motivado a aceitar a responsabilidade (que freqüentemente envolve algum grau de sacrifício) e dispor de tempo e esforço necessários para prover apoio efetivo. Se o cuidador não estiver suficientemente motivado, pode não desempenhar seu papel adequadamente (Feeney e Collins, 2001).

Não há dúvida que o conjunto formado pelo comportamento materno–filial tenha sido alvo de pressão seletiva nos organismos em geral, constituindo-se desse modo em um sistema comportamental instintivo (Bussab, 1998, p.27).

Para garantir o cuidado parental, o processo evolutivo muniu o filhote com características físicas e comportamentais que eliciam a vinculação e a motivação por cuidar.

No caso do ser humano, o contato visual e tátil com o bebê favorecem a formação do vínculo afetivo e desencadeia o comportamento de cuidar, tão importante para a sobrevivência do bebê.

Na evolução hominídea, em contraste com os demais primatas, ocorreu uma intensificação dos cuidados parentais, com aumento dos já intensos cuidados maternos típicos de primatas e também com introdução de cuidados paternos, raros entre os grandes antropóides... O bebê humano, mesmo a termo, nasce prematuro para o padrão dos primatas... Essa prematuridade tem sido explicada como adaptação ao dilema obstétrico... O andar ereto obrigava um certo fechamento da abertura pélvica, enquanto o crescimento cerebral exigia um aumento da abertura pélvica. O nascimento prematuro parece ter sido uma solução para este problema obstétrico. Por sua vez, o nascimento prematuro aumentou ainda mais a dependência do recém-nascido. Pode-se constatar que durante a evolução humana, cuidados parentais foram intensificados, assim como a vinculação efetiva recíproca, como resultado das pressões seletivas geradas pelo envolvimento crescente de um modo de vida cultural (Bussab, 1998, p.20-21).

De acordo com Bee (1984), pode-se acrescentar que: na presença de um bebê pequeno, a maioria dos adultos automaticamente apresentará um padrão inconfundível de comportamentos interativos, incluindo sorrir, levantar as sobrancelhas e abrir muito os olhos (p.315).

Lorenz (1993) propõe que os traços juvenis desencadeiam o que ele denomina de mecanismos liberadores inatos (MLI) de afeto e cuidado em humanos adultos. Assim os comportamentos associados a provisão de cuidados não se restringiriam aos bebês humanos, mas também a todos aqueles que fossem identificados como necessitando de proteção.

Humanos exibem emoções e padrões comportamentais de cuidado parental diante de várias configurações de estímulo-chave....o fato de sentirmos ternura mesmo por animais adultos, ...também parece ser efeito de um MLI (Lorenz, 1993, p.220).

Assim, característica humana de se vincular, ser sensível e responder a estímulos advindos do bebê pode ser aplicada na compreensão do vínculo com o cão. “Quando vemos uma criatura viva com característica de bebê, somos acometidos por um surto automático de ternura desarmante....respondemos a um conjunto de traços específicos que atuam como liberadores”(Gould, 1989, p. 207-210).

O processo de domesticação e a neotenia acentuaram nos cães características físicas e comportamentais similares as do bebê humano, ou seja, ao longo do processo de evolução, o cão estendeu o processo de formação de vínculo afetivo (apego) e incluiu os seres humanos, evoluindo para apresentar características físicas e comportamentais que eliciassem o comportamento parental (provedor de cuidados) no ser humano, bem como sua adoção em um período determinado que favorece sua vinculação ao mesmo.

BIBILOGRAFIA CONSULTADA
Bowlby J. As origens do apego. In: Uma base segura: aplicações clinicas da teoria do apego. Porto Alegre: Artes Médicas; 1989. p. 33-47.
Bowlby J. Apego. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes; 1990.
Bowlby J. Formação e rompimento de vínculos afetivos. In: Formação e rompimento de laços afetivos. São Paulo: Martins Fontes; 1997. p. 167-208.
Bussab V. O Comportamento Materno. In: Costa, M. P. C., V.U., editor. Comportamento Materno em Mamíferos.Bases teóricas e aplicações aos ruminantes domésticos. Jaboticabal: SBEt; 1998.
Gould S. O polegar do panda: reflexões sobre história natural. São Paulo: Martins Fontes; 1989.
Feeney B. C. e Collins N. L. Predictors of Caregiving in Adult Intimate Relationships: An Attachment Theoretical Perspective. Journal of Personality and Social Psychology 2001; 80(6): 972-994.
Harlow H. F. e Zimmerman R. R. Affectional responses in the infant monkey. Science 1959; 130: 421.
Lorenz K. Os fundamentos da etologia. São Paulo: UNESP; 1993.

Fonte: http://www.pet.vet.br/puc/oapego.pdf

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma Psicologia da Adoção

Beneath this Burning Shoreline

Por Luiz Schettini Filho - Psicólogo

Na experiência humana a realidade será sempre precedida de um sonho. O pensamento, a imaginação, a idéia compõem o cenário da montagem da realidade. O sonho não é antagônico à realidade. Pelo contrário, está incrustado na sua origem.

Essa observação vem a propósito da tentativa de entender o sentido do filho para a pessoa humana. O filho será sempre um sonho, mesmo que, ás vezes, se torne um pesadelo diante das fantasias e dos desejos que acalentamos em nosso psiquismo. Sonho e realidade se complementam no processo de geração e interação com o filho.

“O filho é a resultante esperada da relação homem-mulher; é como se o equilíbrio se completasse a partir de um terceiro referencial. É o filho que dá sentido ao casal. Sem dúvida, é da interação dessas três forças – que oferecem, reciprocamente, apoio e harmonia no sistema de dar e receber – que surge a verdadeira unidade. Falamos aqui, portanto, de uma triunidade, não no sentido aritmético, mas no sentido de uma dimensão ética, segundo a qual as relações interpessoais ocorrem de uma forma harmônica e complementar. É oportuno lembrar que a unidade pressupõe a diversidade, assim como a semelhança pressupõe a diferença, mas, nesse caso, as diferenças – que marcam o caráter na individualidade – aproximam e deixam transparecer o todo, o conjunto” (Cf. Schettini).

A busca do filho resulta, portanto, de uma conjunção ética e não simplesmente de uma conquista genética. É nesse ambiente que se processa a adoção. É dentro do âmbito da relação ética que se constrói a real parentalidade, conduzida pela convivência afetiva.

A adoção, porém, se inscreve em um contexto de impossibilidades. Uns adotam filhos por não poderem gerá-los. Outros os geram, mas esbarram na impossibilidade de criá-los. O poder de uns se impõe ao não-poder de outros. Essa questão, com certeza, produz interferências nas relações interpessoais de pais e filhos adotivos. A experiência clínica nos mostra, entretanto, que o apego afetivo, que se estabelece através da criação – que não se confunde com “educação” – faz da relação parental adotiva uma peça inconsútil.

Por essas razões, torna-se necessário uma incursão na dinâmica psicológica da adoção. A adoção não pode ser encarada apenas como um fenômeno operacional. Não se trata de montar um sistema operacional que leve a localizar uma criança para torná-la filho. O filho adotivo não vem de fora; vem de dentro, como de dentro vem o filho biológico. Isto é, o filho que se adota é o filho que, afetivamente, é “gestado” no psiquismo de seus novos pais.

Há alguns pressupostos que devemos examinar para compreender como o filho biológico de uma pessoa torna-se verdadeiramente filho de outra pessoa através das ligações de afeto.

Em primeiro lugar, é imprescindível que não se perca a dimensão da realidade histórica, isto é, a criança adotada necessita estabelecer ligações com sua história pessoal, o que se realiza através do conhecimento de sua origem, até porque não existe o homem real sem uma história. E isso nos leva, inevitavelmente, à exposição da verdade biográfica.

Dizer a verdade sobre a origem à criança adotada tem sido um desconforto, quando não um motivo de pânico, para alguns pais que incorporaram a parentalidade adotiva. É como se a verdade histórica revelada pudesse destruir o afeto entre pais e filhos. As dificuldades nas relações interpessoais poderão surgir muito mais pela manutenção dos segredos do que pela revelação da verdade. “Sem confiança, a convivência entre as pessoas se torna uma farsa e, por conseqüência, agressão e injustiça. Manter em segredo as coisas que estão ligadas à vida é decretar, aos poucos, morte e destruição” (Cf. Schettini). O não-dito torna-se uma crueldade. As relações entre as pessoas se deterioram muito mais pelo “não-dito” do que por aquilo que, às vezes, dizemos. Sem dúvida, a verdade não machuca quando vem acondicionada no afeto.

Em segundo lugar, não podemos dissociar a relação parental adotiva das vinculações de afeto. Aqui vale considerar, que o amor vem antes do conhecimento. Sobretudo, o amor ao filho. Não precisamos conhecê-lo para que o amemos. O amor é a conseqüência de uma disposição interna que se estabelece independente de termos um arsenal de informações a respeito do filho. Poderíamos dizer até, que ao filho amamos antes de conhecê-lo, como continuamos amando apesar de chegar a conhecê-lo. Nós o amamos apesar de não saber como ele será e, mais ainda, permanecemos amando quando sabemos quem ele é verdadeiramente.

A essa altura, cabe lembrar que o conhecimento de características pessoais e informações históricas da vida pregressa do filho adotivo, não interfere na relação de afeto que já se estabeleceu. Temos o direito de construir fantasias a respeito de nossos filhos, mas não temos o direito de exigir deles que realizem a arte-final dos esboços que concebemos. Com certeza, aplica-se aqui a observação de Ilya Prigogine: “O possível é mais rico que o real”. O filho adotivo transita dentro dessa conceituação do “possível”. Amamos o filho muito mais por suas possibilidades do que pela garantia que possa nos dar da realização de nossas fantasias.

A verdade é o fundamento de uma relação de afeto duradoura. A criança adotiva precisa ouvir a sua história para poder ouvir a si mesma. Por essa razão, não temos o direito de mutilar sua biografia.

Na relação adotiva o apego afetivo cresce de importância pela inexistência da ligação biológica na parentalidade. Isso nos leva a pensar que a verdadeira parentalidade se fundamenta no vínculo afetivo, colocando todos os filhos no mesmo nível de importância, isto é, os filhos, gerados por nós ou não, precisam, necessariamente, ser adotivos. Quem gera filhos é genitor. Para atingirmos a condição de pais, precisamos mais do que gerar; é imprescindível estabelecer uma relação afetiva. Assim, todos os filhos precisam, sem exceção, ser adotados afetivamente. O grande desafio que temos diante de nós é transformar o puramente biológico em marcadamente afetivo. O filho adotivo não é uma prótese que venha substituir uma deformidade.

Em terceiro lugar, precisamos rever o conceito de maternidade/paternidade. O alicerce da consciência parental está no sentimento de que adotar um filho implica um processo de “incorporação”. O filho adotivo é engendrado dentro de quem o adota, tanto quanto acontece com aquele que o gera biologicamente. Por essa razão, na interação com o filho, precisamos mais de expressões de afeto do que de pressões pedagógicas. É a convivência afetiva que dá sentido à relação de parentalidade.

Em quarto lugar, não podemos ignorar que a criança adotada vive, de um modo geral, uma “tríplice rejeição”.

Do seu ponto de vista, ela se sente rejeitada pela mãe de origem, independentemente da causa pela qual não a “adotou” como filha, mesmo que a impossibilidade tenha decorrido de sua morte. Essa é a primeira fonte de rejeição. A segunda surge como decorrência de seu medo de não ser aceita como filha pelos pais adotivos. A terceira resulta do reflexo, que muitas vezes existe, do receio que os pais adotivos têm de não ser aceitos pelo filho adotado. Essa síndrome de rejeição se resolve ao longo da convivência afetiva durante a primeira infância. Não existe interação pai-mãe-filho sem que haja uma relação de amor. O amor é a única emoção que precisa ser alimentada continuamente para que possa subsistir. Essa característica, ao invés de indicar fragilidade, aponta para sua importância e mostra que a vida exige uma participação vigilante para que se mantenha com sentido. Françoise Dolto diz de forma incisiva: “O sujeito morre de não ter relação”.

A “contigüidade afetiva” nos garante o embasamento para uma comunhão parental. Harold Kushner lembra: “Nenhum de nós consegue ser verdadeiramente humano em situação de isolamento. As qualidades que nos fazem humanos só emergem através das maneiras pelas quais nos relacionamos com os outros”. As dificuldades que encontramos na relação com os filhos adotivos não diferem na sua essência das mesma que enfrentamos com aqueles que não têm uma história de adoção. Percebemos, no entanto, que os adotivos têm uma história peculiar, como todos a temos por conta do nosso caráter de individualidade. As diferenças não são deficiências; são marcas pessoais, que compõem nosso patrimônio de pessoa.

Em quinto lugar, a experiência nos mostra que há pessoas com uma história de adoção, que apresentam, pelo menos por um período do seu desenvolvimento, alguma dificuldade de aceitar a aceitação (Cf. Tillich). Ser aceito torna-se uma carga, que resulta em uma responsabilidade, muitas vezes, difícil de assumir. A aceitação, para essas pessoas, é interpretada como a existência de uma fragilidade ou mesmo como uma declaração de incompetência. Novamente nos encontramos com uma questão para a qual a saída é o estabelecimento de uma relação de afeto. Amar aquele que tem dificuldade de ser amado seria a suprema demonstração da humanidade dos humanos.

Alguns outros aspectos da psicologia da adoção poderiam ser considerados, mas reservamos um espaço final para fazer uma referência a alguma coisa inacabada que fica no psiquismo da pessoa adotada que não teve a oportunidade de conhecer sua mãe de origem. Que semelhanças tem ela com a mãe que a gerou? Parece que fica um hiato na construção de sua imagem física, no sentido das ligações que “garantem” sua existência em uma comunidade familiar. Ao longo de trinta anos, acompanhando processos de psicoterapia de crianças e adolescentes com uma história de adoção, temos observado que aqueles que se tornam adultos e geram os seus próprios filhos, demonstram satisfação, e mesmo uma mudança de comportamento, quando expressam de formas muito pessoais a descoberta de que, naquele filho que geraram, existem características genéticas dos pais de origem, mesmo que não consigam identificá-las. Há, porém, uma certeza de que no filho há o registro de sua história genética.

Sem dúvida, procriar é uma condição dada pela natureza; criar é uma responsabilidade no âmbito da ética entre os homens. Procriar é um momento; criar é um processo. Procriar é fisiológico; criar é afetivo.

Referências bibliográficas:
BARLETTA, Gaetano, Il Figlio Altrui, Società Editrice Internazionalle, Torino, Italia, 1991.
DELL´ANTONIO, Annamaria, Le Problematiche Psicologiche dell´ Adozione Nacionale e Internazionalle, Giuffrè Editore, Milano, Italia, 1986.
DOLTO, Françoise, Dificuldade de Viver, Trad. de Alceu Edir Fillmann e Doris Vasconcellos, Artes Médicas, Porto Alegre, 1988.
KUSHNER, Harold S., Quando Tudo não é o Bastante, Trad. Elizabeth e Djalma Mello,
Livraria Nobel S.A., S. Paulo, 1987.
SCHETTINI, Luiz Filho, Compreendendo o Filho Adotivo, Bagaço, Recife, PE, 1995.
SCHETTINI, Luiz Filho, Adoção: Origem, Segredo e Revelação, Bagaço, Recife, PE, 1999.
TILLICH, Paul, A Coragem de Ser, Trad. Eglê Malheiros, Editora Paz e Terra S.A., S. Paulo, 1976.

Por Luiz Schettini Filho - Psicólogo

Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A importância das primeiras relações

Foto: Google Imagens

Por Evanisa Helena Maio de Brum e Lígia Schermann


Numa perspectiva histórica, encontramos o início do estudo das primeiras relações no trabalho de Freud. Em seu artigo "Instintos e suas vicissitudes", escrito em 1915, argumenta que a criança possui necessidades fisiológicas que devem ser satisfeitas, sobretudo de alimento e conforto, e que o bebê se torna interessado em uma figura humana, especificamente a mãe, por ela ser a fonte de sua satisfação. Na teoria dos instintos, a vinculação com a figura materna é vista como impulso secundário, ou seja, que o bebê se liga à mãe afetivamente como conseqüência de esta ser o agente de suas satisfações fisiológicas básicas.

Outro estudioso das relações vinculares e da formação do apego é o psicanalista René Spitz. Trabalhando em um orfanato, Spitz (1945) observou que os bebês que eram alimentados e vestidos, mas não recebiam afeto, nem eram segurados no colo ou embalados, apresentavam a síndrome por ele denominada hospitalismo. Esses bebês tinham dificuldades no seu desenvolvimento físico, faltava-lhes apetite, não ganhavam peso e, com o tempo, perdiam o interesse por se relacionar, o que levava a maioria dos bebês ao óbito. René Spitz descreveu, portanto, o resultado da ausência dos pais e do afeto como fator determinante no desenvolvimento com prognóstico reservado.

Erik Erikson, psicanalista e teórico de grande influência sobre o estudo do desenvolvimento, em seus trabalhos desde 1950 até 1985, partilha de alguns aspectos da teoria de Freud, embora existam diferenças fundamentais entre suas teorias. Erikson (1980) aborda a grande importância dos anos iniciais para o desenvolvimento, porém, não deu ênfase à centralização dos instintos e impulsos, focalizando, em seu lugar, o surgimento gradativo de um senso de identidade que ocorre pela interação do sujeito com seu meio ambiente. O primeiro dos oito estágios apresenta a crise de confiança básica versus desconfiança. Expõe que nele o comportamento do principal provedor de cuidados (comumente, a mãe) é fundamental ao estabelecimento, pela criança, de um senso de confiança básica. Para que ocorra uma finalização bem-sucedida dessa tarefa o genitor precisa amar com consistência e reagir de maneira previsível e confiante para com a criança. Aqueles bebês cujos cuidados iniciais foram erráticos ou severos podem desenvolver desconfiança. Seja qual for o caso, a criança carrega esse aspecto de identidade básica ao longo de seu desenvolvimento, influenciando a solução das tarefas contidas nos estágios posteriores.

Winnicott, psicanalista inglês e teórico das relações objetais, em 1963, descreveu o desenvolvimento emocional primitivo em termos da jornada da dependência à independência, propondo três categorias: dependência absoluta, dependência relativa e autonomia relativa. Para ele, é na fase de dependência absoluta que a mãe desenvolve o que chamou de preocupação materna primária (Winnicott, 1956). Este estado especial da mãe faz com que ela seja capaz de compreender o bebê por meio de uma surpreendente capacidade de identificação, constituindo-se com ele em uma unidade. A mãe, então, auxilia-o a se integrar. Diz o autor que, se na fase de dependência absoluta, não há uma mãe capaz de se conectar com seu bebê, este fica num estado de não-integração, tornando-se apenas um corpo com partes soltas. De acordo com as idéias acerca do desenvolvimento propostas por Winnicott, é aqui que ocorrem as falhas primitivas no desenvolvimento, acarretando o surgimento de patologias mentais.

Bowlby (1969), psicanalista inglês e teórico das relações objetais, descreveu a importância das primeiras relações para o desenvolvimento, formulando, desse modo, a teoria do apego, quando descreve as relações do bebê com sua mãe ou cuidador desde o nascimento até os seis anos de idade. Alude que o ser humano herda um potencial para desenvolver determinados tipos de sistemas comportamentais, como sugar, sorrir, chorar, seguir com os olhos. A conduta instintiva é o resultado do controle desses sistemas comportamentais integrados, que funcionam num determinado ambiente de adaptabilidade evolutiva, em especial, de sua interação com a principal figura deste ambiente, a mãe. Nesta perspectiva, o vínculo da criança com a mãe, chamado por ele de apego, tem uma função biológica que lhe é específica e é o produto da atividade destes sistemas comportamentais que têm a proximidade com a mãe como resultado previsível. Portanto, ao longo do desenvolvimento, a criança passa a revelar um comportamento de apego que é facilmente observado e que evidencia a formação de uma relação afetiva com as principais figuras deste ambiente.

Nessa formulação, não há referência a necessidades fisiológicas e impulsos, sustenta-se ainda que o ato de nutrir desempenha um papel apenas secundário no desenvolvimento desses sistemas comportamentais. Desta forma, torna-se claro que, para Bowlby, a formação do apego não é uma conseqüência da satisfação das necessidades fisiológicas básicas como postula Freud.

Esta descrição de Bowlby coincide com as formulações de Spitz acerca da síndrome de hospitalismo, ou seja, é necessária a existência de uma relação de afeto e de apego como fator primário para um adequado desenvolvimento. Também encontramos respaldo sobre esta questão na teoria psicossocial do desenvolvimento de Erikson, por este autor não se centrar na teoria instintiva freudiana.

Bowlby e Winnicott deixam clara a importância das primeiras relações de um bebê com sua mãe para o desenvolvimento, apesar de haver divergência em pontos importantes na teoria de cada um deles. Estar apegado a uma figura materna (conceito de Bowlby) e ser dependente de uma figura materna (conceito de Winnicott) são coisas muito diferentes, apesar de terem como base a relação vincular mãe-bebê. Nas primeiras semanas, não há dúvida de que um bebê é dependente de sua mãe para que possa sobreviver, mas não está ainda apegado a ela. De acordo com as idéias de Winnicott, a dependência é máxima no nascimento e tende a diminuir ao longo da vida, apesar de seguir sempre de alguma forma presente. Na teoria de Bowlby, o apego está ausente no nascimento e começa, com os meses, a adquirir força. Bowlby (1969) infere que é improvável que qualquer fase sensível de apego comece antes das seis semanas. Acrescenta que o apego torna-se evidente depois que a criança completa seis meses, ficando mais clara sua existência por volta dos 18-24 meses. Portanto, os dois conceitos estão distantes de serem sinônimos.

Bowlby (1969) afirma que existem boas provas de que, num contexto familiar, a maioria dos bebês de cerca de três meses de idade já responde à mãe de um modo diferente em comparação com outras pessoas. Quando vê sua mãe, um bebê desta idade sorrirá e vocalizará mais prontamente e a seguirá com os olhos por mais tempo do que quando vê qualquer outra pessoa. Portanto, a discriminação perceptual está presente. Entretanto, será difícil afirmar que existe comportamento de apego enquanto não houver provas evidentes de que o bebê não só reconhece a mãe, mas também tende a se comportar de modo a manter a proximidade com ela.

O comportamento de apego manifesta-se pelos três meses, tornando-se nitidamente presente por volta dos seis meses de idade da criança e, em regra, prossegue até a puberdade.

Até recentemente, a maioria dos teóricos das relações objetais, em seus estudos sobre interação mãe-bebê, examinou fatores referentes ao papel da mãe neste processo, enquanto menos atenção foi dada às contribuições da criança. Não há dúvida de que a mãe possui, sim, a tarefa de se ligar ao bebê e auxiliá-lo em seu desenvolvimento. Porém, sabemos, hoje, com o respaldo de pesquisadores contemporâneos, que ao bebê também cabe esta tarefa e que este possui recursos para enfrentar tal empreitada. Esta interação, portanto, segue um modelo bidirecional (Schermann, 2001b), em que não apenas o comportamento do bebê é moldado pelo comportamento da mãe, mas também o da mãe o é pelo comportamento do bebê.

Autores e pesquisadores contemporâneos, como Brazelton (1988), Schermann et al. (1994), Schaffer (1996), Wendland-Carro et al. (1999), Klaus & Kennell (2000), Claussen & Crittenden (2000) e Schermann (2001b), abordam o quanto os bebês recém-nascidos apresentam uma impressionante capacidade de responder às interações já nos primeiros minutos. Iniciam a vida capazes de fazer discriminações importantes e de localizar objetos por meio de várias indicações perceptivas. São capazes de realizá-las pelo olhar, de identificar a voz do pai e da mãe. Pelo sexto dia de vida, um bebê já é capaz de identificar o cheiro da mãe. O paladar também é altamente desenvolvido em bebês após o nascimento. Eles gostam do conforto, da proximidade, e irão com freqüência moldar-se ao corpo de seus pais. Portanto, estes pesquisadores corroboram ao que postulam Bowlby e Ainsworth sobre a existência de uma relação vincular estreita entre o bebê e sua mãe já nas primeiras horas de vida, enfatizando as capacidades do recém-nascido para a interação.

Schaffer (1996) diz que a criança com quatro semanas já se comporta diferentemente com sua mãe, seu pai e com estranhos. Expressões emocionais, rapidez de movimentos, responsividade, tensões e brincadeiras são estes e muitos outros atributos que diferenciam as pessoas e ajudam a produzir estilos distintos de interações. Complementa que as características temperamentais da criança, que são inatas, até mesmo em crianças muito novas, ajudarão a determinar o curso da interação e influenciarão o comportamento da outra pessoa.

Nesse sentido, Bee (1997) cita que, mesmo sendo tão importante, esse programa inato das capacidades da criança depende da presença de um ambiente mínimo esperado, sendo essencial a formação do elo afetivo e da oportunidade de pais e bebês desenvolverem um padrão mútuo de entrosamento de comportamento de apego.

O trabalho de Ainsworth et al. (1978) foi fundamental na identificação dos diferentes padrões de apego, classificação que foi possível ser formulada através da "situação estranha", um procedimento que foi elaborado especialmente para este fim. Consiste, resumidamente, em uma série de sete episódios em laboratório: a criança, inicialmente, está com a mãe, depois, com a mãe e um estranho, sozinha com o estranho, reunida à mãe; sozinha; e, depois, de novo, reunida com o estranho; e, então, com a mãe. Ainsworth sugeriu que as reações das crianças a essa situação poderiam ser classificadas em três tipos: seguramente apegados à mãe (70% da amostra); ansiosamente apegados à mãe e esquivos (20% da amostra); e ansiosamente apegados à mãe e ambivalentes (10% da amostra). O estabelecimento dos distintos padrões de apego vai depender, em grande parte, da sensitividade materna às necessidades infantis, assim como, a capacidade da criança de usar a mãe como base segura, a partir da qual explora o mundo e para onde retorna em situação de perigo ou angústia.

Sensitividade materna, de acordo com Ainsworth et al. (1978), é a habilidade da mãe em perceber, interpretar e responder de forma adequada e contingente aos sinais da criança. A mãe muito sensitiva é bastante atenta aos sinais da criança e responde a eles pronta e apropriadamente. No outro extremo, está a mãe muito insensitiva, que parece agir quase que exclusivamente de acordo com seus desejos, humores e atividades, podendo responder aos sinais do bebê, mas fazendo-o com atraso.

Schaffer (1996) e Claussen & Crittenden (2000), partindo das definições de Ainsworth e Bowlby, dizem que, embora o conceito de sensitividade materna tenha suporte em pesquisa, sua definição não é clara. Segundo Claussen e Crittenden, isso ocorre devido ao fato de este conceito abarcar duas questões distintas: primeiramente, a interpretação dos sinais da criança (sensitividade) e, depois, a adequada execução de respostas (responsividade). Dizem que, na escala original de Ainsworth, sensitividade incorpora ambas habilidades, tanto para perceber e interpretar acuradamente os sinais da criança quanto para responder apropriadamente e prontamente a esses sinais. Destacam que, conceitualmente, isso é problemático, pois esses são passos diferentes no processo de informação e formação de vínculos afetivos, não estando necessariamente vinculados.

As autoras acima referidas conceituam sensitividade como uma construção diádica, focalizando o temperamento e as características únicas tanto da criança quanto do cuidador, e não somente como uma característica dos pais. Portanto, alguns pesquisadores têm se concentrado mais no conceito de sincronia da díade, em vez de apenas dos pais, capturando assim a contribuição de ambos, pais e crianças, para a interação.

Desde a década de 1960 esses aspectos vêm sendo estudados; a pesquisa de Schaffer e Emerson, realizada em 1964, com 60 crianças escocesas, tinha o objetivo de identificar as condições associadas ao fato de o bebê apegar-se à mãe num alto ou baixo grau de intensidade, medida pelos seus protestos quando a mãe se afastava. Os pesquisadores concluíram que nas crianças com alta intensidade de apego às mães não havia associação significativa com as variáveis alimentação, desmame, treinamento dos hábitos de higiene, sexo da criança, ordem de nascimento e quociente de desenvolvimento. Em contrapartida, duas variáveis, relacionadas ao apego e que envolvem o conceito de sensitividade materna, destacaram-se como claramente significativas: a presteza com que a mãe respondia ao choro do bebê e o grau com que ela própria iniciava a interação social com ele.

Mais recentemente, Wendland-Carro et al. (1999) estudaram 36 mães parturientes e seus recém-nascidos, examinando uma intervenção que analisa a influência da resposta sensível da mãe para o seu bebê. Um grupo experimental recebeu um programa de intervenção desenvolvido para incrementar a interação entre mãe-filho. Foi apresentado um vídeo com informações acerca das competências dos recém-nascidos para interação, motivando as mães a se envolverem e interagirem mais intensamente com seus filhos. Os pesquisadores procuraram direcionar a atenção da mãe para a importância da descoberta da individualidade da criança no tocante ao temperamento, à preferência para o contato físico e à reação à situação de pressão. Um segundo grupo recebeu uma intervenção, também em forma de vídeo, com informações que davam ênfase à habilidade de cuidados básicos. Um mês após, foi feita uma observação na casa dos bebês para avaliar a sincronia e a assincronia entre mãe e filho. O primeiro grupo mostrou uma grande freqüência no tocante às ocorrências sincrônicas que envolviam as trocas vocais, observação dos parceiros e contato físico. Havia, também, nesse grupo, diferenças positivas na responsividade das mães para com o choro e a resposta involuntária da criança.

Acredita-se, portanto, que a qualidade da interação inicial mãe-bebê é um importante fator mediador entre os eventos perinatais e o desenvolvimento sociocognitivo da criança (Schermann, 2001a). Outros pesquisadores, também, argumentam que os primeiros meses de vida da criança são primordiais para o desenvolvimento da conduta de apego entre o bebê e sua mãe (Bowlby, 1969; Ainsworth et al., 1978; Schaffer & Emerson, 1964; Brazelton, 1988; Bee, 1997; Wendland-Carro et al., 1999; Klaus & Kennell, 2000 e Claussen & Crittenden, 2000). Sendo que quando há o desenvolvimento de apego seguro, como postula Ainsworth et al. (1978), tem-se a idéia de um importante fator no bom prognóstico do desenvolvimento afetivo, social e cognitivo de crianças.

De acordo com o que foi até aqui descrito, as crianças com apego seguro, ou que rumam à independência, têm confiança no amor de seus pais, sabem que podem confiar neles para compreender e satisfazer suas necessidades e vêem o mundo como um local seguro. A partir da dependência nos primeiros meses e a formação de um apego seguro, ocorre a independência posterior. Os esforços de pais para levarem seus filhos à independência precoce resulta num processo inverso, ou seja, provocam dependência e medos que podem durar a vida toda.

Quando os pais são coerentes em seus padrões de cuidados e prestam atenção aos sinais de seu bebê, oferecem um ambiente altamente favorável para a criança senti-los e ao mundo como confiáveis e responsivos às suas necessidades individuais. Pelo asseguramento repetido de que suas necessidades físicas e emocionais serão satisfeitas, o bebê começa a desenvolver um sentimento de confiança básica e apego que o conduz à construção da independência. Assim, a criança pode usar sua curiosidade, pela base segura formada com seu cuidador, para desbravar e experimentar o mundo.


Vínculos iniciais e desenvolvimento infantil: abordagem teórica em situação de nascimento de risco
Evanisa Helena Maio de Brum; Lígia Schermann
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Luterana do Brasil. Ciênc. saúde coletiva vol.9 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2004


Por Cintia Liana

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O Desenvolvimento Emocional Primitivo

Foto: Google Imagens

Por Sérgio Luiz Saboya Arruda e Elisângela Andrieto

Na teoria de Winnicott, o desenvolvimento emocional primitivo é um tema bastante amplo e complexo. Portanto, neste artigo, não será possível abarcar todas as questões relevantes a este tema, embora se pretenda estudar as principais características dos processos iniciais do desenvolvimento do bebê, enfatizando a importância da mãe nos mesmos.

Para que o bebê se desenvolva emocionalmente, é necessário que alguém o auxilie neste processo, ou seja, é necessária a presença de uma mãe suficientemente boa,que não necessariamente é a própria mãe do bebê, mas alguém que assuma este papel. Isto é:

[...] aquela que efetua uma adaptação ativa às necessidades do bebê, uma adaptação que diminui gradativamente, segundo a crescente capacidade deste em aquilatar o fracasso da adaptação e em tolerar os resultados da frustração. A mãe suficientemente boa, como afirmei, começa com uma adaptação quase completa às necessidades do bebê, e, à medida que o tempo passa, adapta-se cada vez menos completamente, de modo gradativo, segundo a crescente capacidade do bebê em lidar com o fracasso dela. (WINNICOTT, 1971/1975, p. 25)

Para explicar o desenvolvimento emocional de um bebê, Winnicott (1945/1993) assinala a existência de dois estádios que nos aproximam da observação do desenvolvimento primitivo. O “primeiro” ocorre por volta do nascimento, que é percebido pela diferença entre bebês prematuros e pós-maturos. Segundo Winnicott (1945/1993) ao final do nono mês de gestação, o bebê se torna maduro para o desenvolvimento emocional. Se ele nasce após completar nove meses, ele atinge esse estágio ainda no útero; se nasce prematuro não experimenta muita coisa que seja vital até atingir a idade com a qual deveria ter nascido.

O “segundo” estádio acontece entre 5 e 6 meses de vida. É neste estádio que o bebê adquire a habilidade de agarrar um objeto e levá-lo à boca. É por causa desse movimento que é possível dizer que o bebê mostra sua compreensão de que tem um interior e que as coisas vêm de fora, admitindo assim a existência da mãe com um interior próprio. Este estágio em que um ser humano se relaciona com o outro representa um longo caminho no seu desenvolvimento primitivo (WINNICOTT, 1945/1993). Porém o que interessa, neste artigo, é o que ocorre com os sentimentos e com a personalidade do bebê antes o “segundo” estádio, ou seja, antes mesmo de o bebê conhecer a si mesmo (e como consequência os outros) como a pessoa total que ele é (e que eles são). Esta discussão é possível, pois paralelamente a esses estádios observa-se a presença dos processos de integração, personalização: a apreciação do tempo e do espaço e de outras propriedades da realidade (WINNICOTT, 1945/1993). Deve-se enfatizar o que Winnicott pontua a respeito da tarefa do bebê. A ocupação do bebê, pelo menos desde o nascimento, nunca é uma tarefa acabada: as conquistas das primeiras semanas e meses, muitas vezes, são perdidas e recobradas de acordo com as voltas do destino (WINNICOTT, 1948/1993).

É também importante assinalar que, para esta discussão, não devemos pensar no bebê como uma pessoa que sente fome, cujos impulsos instintivos podem ser satisfeitos ou frustrados, mas sim como um ser imaturo que está próximo de sofrer uma ansiedade inimaginável. Essa ansiedade pode ser evitada pela função da mãe que é vitalmente importante nesse estágio, ou seja, sua capacidade de se pôr no lugar do bebê e de saber o que ele necessita no cuidado geral de seu corpo e da sua pessoa. (WINNICOTT, 1965/1983)

No estado de dependência absoluta, as necessidades dos bebês vão desde as necessidades do corpo, como virá-lo no berço, colocar ou tirar mais roupas dependendo da condição do tempo, acariciá-lo ao perceber cólicas, limpá-lo e alimentá-lo, até outro tipo de necessidades muito sutis, que só o contato humano pode satisfazer:

Talvez o bebê precise deixar-se envolver pelo ritmo respiratório da mãe, ou mesmo ouvir e sentir os batimentos cardíacos de um adulto. Talvez seja-lhe necessário sentir o cheiro da mãe ou do pai, ou talvez ele precise ouvir sons que lhe transmitam a vivacidade e a vida que há no outro meio ambiente, ou cores e movimentos, de tal forma que o bebê não seja deixado a sós com os seus próprios recursos, quando ainda jovem e imaturo para assumir plena responsabilidade pela vida. (WINNICOTT, 1970/1994, p. 76)

Essas características dos bebês e de suas necessidades ajudam na compreensão da caracterização dos estádios que compõem o desenvolvimento emocional primitivo.

A integração é um processo que começa desde muito cedo na vida do bebê. Ela é ajudada por dois conjuntos de experiências: o cuidado do bebê, que é caracterizado pelos banhos, pelo manuseio corporal, por nomear as suas partes etc; as experiências pulsionais que tendem a tornar a personalidade una a partir do interior. Há diferenças quanto ao momento da vida em que esse processo ocorre em cada bebê: ora imediatamente após o nascimento, ora em momentos posteriores da vida; podendo até
ocorrerem momentos de recaídas. (WINNICOTT, 1945/1993)

A integração manifesta-se a partir de um estágio primário não integrado, ou seja, o bebê se compõe de uma série de motilidades e de percepções sensoriais que vão sendo identificadas e integradas por causa da percepção e da compreensão que a mãe suficientemente boa tem das necessidades do bebê. No entanto, a volta a um estado não integrado não caracteriza necessariamente uma fonte de medo para o bebê, em virtude do senso de segurança propiciado pela mãe. Isto, às vezes, é identificado por ele, no simples ato de a mãe segurá-lo adequadamente no colo. Situações como essas conservam o bebê como que unido em si mesmo e, desta forma, a não integração e a reintegração podem ocorrer sem provocar ansiedade. (WINNICOTT, 1965/2005)

Outro processo importante que também faz parte do desenvolvimento emocional primitivo é a personalização, que é o sentimento de que se está dentro do próprio corpo. Como a integração, a personalização é ajudada pela experiência pulsional e pelas repetidas e tranquilas experiências de cuidado corporal que a mãe lhe propicia (WINNICOTT, 1945/1993). É pela ocorrência de um grau razoável de adaptação às necessidades do bebê, que é possível estabelecer, mais rapidamente, uma forte relação entre psique e soma (WINNICOTT, 1965/2005).

O terceiro processo que faz parte desse período do desenvolvimento emocional primitivo é a realização, ou seja, o “perceber” a existência do mundo e o relacionar-se com o mesmo. É um processo bastante complexo, que se relaciona com a ilusão e com a fantasia.

Segundo Winnicott (1971/1975), a ilusão é propiciada pela mãe, ou seja, ela oferece ao bebê a oportunidade para a ilusão de que o seio dela faz parte do bebê, ou seja, de que está sob o controle mágico e onipotente do bebê. A onipotência é quase um fato de experiência e a tarefa final da mãe égradativamente desiludir o bebê. Assim, desde o início da vida, o bebê está envolvido com aquilo que é objetivamente percebido e aquilo que é subjetivamente concebido.

Newman (2003) comenta que, de acordo com Winnicott, a fantasia faz parte da defesa maníaca do indivíduo ao lidar com a sua incapacidade para aceitar o pleno significado da realidade interna. A fantasia relaciona-se com os esforços do ser humano para aceitar o mundo interno, podendo-se dizer que o controle onipotente da realidade interna implica fantasias sobre essa realidade. Ou seja, o indivíduo chega à realidade externa por meio de fantasias onipotentes elaboradas como uma tentativa de livrar-se da realidade interna.

Winnicott (1971/1975) também descreve a fantasia como um fenômeno isolado, que absorve energia e cuja inacessibilidade relaciona-se à dissociação. Dessa forma é possível compreender que a ilusão e a fantasia relacionam-se intimamente com o processo da realização, pois são necessárias para a concretude desse processo, uma vez que o bebê precisa sentir primeiro a onipotência, que ocorre pela ilusão e pela fantasia, para que possa compreender a realidade externa.

Assim como já ocorreu na integração e na personalização, o processo de adaptação à realidade externa é ajudado pela interação com a mãe, que apresentará os objetos ao bebê. Este passo no desenvolvimento emocional representa um grande avanço, mas nunca é dado e estabelecido de uma só vez. Para explicar tal processo, Winnicott (1968/1994) destaca o par bebê-seio da mãe. O momento da amamentação não se limita apenas à alimentação do bebê, mas também ao início da relação dele com o objeto. O relacionamento com o mundo real baseia-se na forma como as coisas se iniciam e no padrão que gradualmente se desenvolve, de acordo com a experiência que faz parte desse desenvolvimento humano entre mãe e bebê.

A experiência da amamentação leva a um paradoxo: segundo Winnicott, aquilo que o bebê cria já estava ali. Na verdade, o bebê cria parte da mãe que foi encontrada. Não há uma certeza a respeito da idade na qual o bebê percebe pela primeira vez que a mãe é uma pessoa (WINNICOTT, 1948/1993).

Em suma, Winnicott (1945/1993) enfatiza a importância da participação da mãe quer na adaptação do bebê à realidade, quer em todo o processo do desenvolvimento emocional primitivo. Ela tem o papel de protegê-lo de complicações que o mesmo ainda não entende, bem como de fornecer-lhe pedaços simplificados de mundo, que a criança passa a conhecer por intermédio da mãe. Um bebê não pode existir sozinho, psicológica ou fisicamente, ele necessita realmente de uma pessoa que cuide dele no início da vida, propiciando-lhe um ambiente satisfatório para o seu desenvolvimento, percebendo e atendendo as suas necessidades básicas.

Mães psicóticas e seus bebês: uma leitura winnicottiana
Por Sérgio Luiz Saboya Arruda; Elisângela Andrieto
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), São Paulo, Brasil
Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 61, n. 3, 2009.
Artigo completo em:


Por Cintia Liana