"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O tornar-se mãe e a gravidez do coração

We Heart it
Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Guia Indika Bem dia 29 de janeiro de 2015
Adotar uma criança tem diferenças de uma gravidez e essas diferenças não devem ser rejeitadas ou negligenciadas no processo de fortalecimento da identidade da família adotiva. Por outro lado, a espera do filho adotivo guarda algumas semelhanças com a gestação.
As futuras mãe adotivas fazem como as biológicas, elas sonham, querem, imaginam seu futuro filho. O processo de adoção leva a uma gestação emocional que nem toda gravidez leva, pois na adoção existe o momento em que é necessário refletir sobre as expectativas e as motivações que levam uma mulher a desejar um filho naquele período de sua vida. Certamente a equipe técnica das Varas da Infância, com seus estudos técnicos, levará de algum modo as adotantes a amadurecerem seu desejo ser serem mãe, o próprio processo judicial as “obriga”, de algum modo. Se todas as mães, antes de engravidar, tivessem um estágio de reflexão como as adotivas, talvez tudo fosse diferente.
Com a adoção vem um processo de reconhecimento de tudo o que circunda a maternidade. Esse gestar emocional e esse tempo na adoção são importantes para se amadurecer todas as questões relacionadas não só a maternagem e relação com o filho, como também as particularidades oriundas da adoção em si, como perfil do filho desejado, revelação da adoção, posicionamento frente a história anterior do filho, relação com a sociedade e os possíveis preconceitos a serem enfrentados durante e após o processo. Então as futuras mães são “convidadas” e mergulhar num universo totalmente novo, se descobrindo, desconstruindo conceitos e construindo novos e entendendo que um filho não pode vir com outra função que não seja somente o de ser filho. Filho não pode servir como tábua de salvação, filho-companhia, filho-distração, fazer caridade, salvar casamento ou fazer crescer.
Esse processo de quase “tornar-se mãe” normalmente ocorre paralelamente ao processo de habilitação e depois com a espera pela indicação da criança, até quando se encontra com ela e inicia-se o processo de visitação e o período de convivência, nesse momento ocorre o parto “sem dor física” tão esperado. O parto é sem dor, mas existe muita ansiedade e expectativas voltadas para esta espera e este primeiro encontro, que é quando começa a nascer uma mãe. Depois a ansiedade na conclusão da adoção, que pode levar meses ou anos, que é quando a criança ganha uma outra certidão da nascimento, anulando a primeira e torna-se filha legítima da adotante, ou seja, filha perante a lei.
O ato do encontro físico é o mesmo que ocorre com o filho biológico quando nasce. No contato pele a pele, self a self, o amor construído pelo filho imaginado, neste momento, pode ser direcionado para o filho real e aí vai sendo construída uma relação de amor no dia a dia, para isso é preciso maturidade e sobretudo aceitação, entender que para dar certo é preciso abertura para amar e todo o resto vai sendo conquistado com paciência. A criança, quando se sente plenamente aceita, não tem medo de se entregar, pois sente que não haverá um segundo abandono.
Não existem diferenças entre filhos biológicos e adotivos, filho é filho e isso se dá na convivência, na relação em si, o apego vai sendo construído e fortalecido, é assim que ocorre também nas relações consanguíneas.
As pesquisas mostram que os filhos adotados se sentem amado e queridos por suas famílias e sentem seus pais adotivos como os seus de fato. Quando se chega a conhecer os biológicos existe até um estranhamento, ou seja, a parentalidade é construída na convivência, ela não vem no DNA.
As diferenças da gestação biológica e da adotiva estão nas particularidades sobre a forma da chegada do filho e sobre a existência de um passado em outra família, mas todo o resto é igual, assim também é o amor materno na adoção.
As possíveis dificuldades que podem ocorrer com uma criança que foi adotada não é porque ela não é do mesmo sangue dos pais. Todas as crianças têm dificuldades ou apresentam algum problema em algum momento do seu desenvolvimento. O que causam grandes dificuldades são o abandono, a indiferença, a violência e esses aspectos, infelizmente, também encontramos em muitos lares biológicos.
O importante para pais adotivos, que adotam crianças que apresentam dificuldades, é saber encontrar as formas de lidar com as memórias, o desejo de procurar curar as feridas e o amor que se tem no presente.
A gravidez é um processo, mas não é garantia que uma mulher amadureça. Se fosse assim, não existiriam histórias de bebês abandonados de modo tão triste e histórias de mães violentas. Estudiosos mostram que a gravidez não faz de ninguém mãe, pode ser um acontecimento puramente biológico, que varia de uma mulher para outra o modo de sentir, pode transformar uma, mas a outra pode rejeitar o fato. Ao contrário da adoção, onde a espera pelo filho é um forte acontecimento. Na adoção existe a busca, o desejo de amar, o sonho e a reafirmação do desejo de cuidar. Tudo isso é importante no processo de fortalecimento da atitude materna e pode ocorrer tanto na adoção como na gestação, ou seja, toda maternagem consciente é adotiva. Amor é adoção.
Por Cintia Liana Reis de Silva
Primeira Fonte: http://www.indikabem.com.br/filhos/o-tornar-se-mae-e-a-gravidez-do-coracao

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