"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

sábado, 16 de abril de 2011

Na filiação adotiva a realidade é outra

Foto: Débora Secco. Google Imagens.

Por Paulo Wanzeller

Depois que escrevi o texto sobre a tragédia no Rio de Janeiro, muitas pessoas me escreveram expressando opiniões, concordando, elogiando, percebi o quanto é bom colocar para fora algo que está preso; uma fala que poderia ser de muitas pessoas, até dizer o que muitos gostariam de ter dito; e que também dizem, quando repassam um texto uma opinião etc. Um desses contatos foi de uma amiga que me chamou a atenção especialmente. Refleti sobre o que ela escreveu e resolvi dividir ...

Não é por falso puritanismo, mas não tinha assistido ao filme “O doce veneno do escorpião”, para quem não sabe é o já “famoso” filme “Bruna Surfistinha”. Logicamente dei um jeito e assisti ao tal filme. Não recomendo. Poupem-se. Não será possível dizer: “a Débora Secco dá um show de atuação”, absolutamente, nada há de novo na miséria humana, no sentido da degradação social, se abrirmos os jornais está tudo lá, álcool, drogas, prostituição, desrespeito e tudo que envolve o submundo. Mas o que tem isso a ver? Nada! O fato é que o filme trás a mensagem subliminar de que a filha adotada, apesar de todas as condições econômicas, sociais e familiares, não se sentia no contexto daquela família, ela não se sentia parte, por isso procurou e encontrou o seu “caminho”. Alguns dirão: “ora mas é a história dela”, “ela foi realmente adotada” e ela “viveu tudo aquilo”. Com certeza ela, a Raquel, já que a Bruna é um cognome, nem se dá conta de que a mensagem negativa está lá. Com certeza os produtores estão “pouco se lixando” se as famílias formadas a partir da adoção se incomodam com mensagens negativas ligadas à adoção. Não interessa a eles. Tudo bem, este texto não é para quem não se importa, mas a nós interessa, e muito. Porque a filiação adotiva é sim especial. E é especial porque se tem como filho alguém que não se liga pelos laços da consanguinidade e nós vivemos em uma sociedade que se importa com a pseudo normose social. O parentesco por adoção se forma sem o envolvimento sexual de quem se torna o pai/mãe e pressupõe uma escolha íntima e não são raras as vezes envolvem perdas, luto e talvez uma consciência de fragilidade. Ora, se é assim, formada a filiação, e estruturada a família, não se espantem os críticos se “descobrirem” que os pais por adoção possuem igualmente um instinto de preservação da prole tão forte quanto os formados a partir da função biológica. A adoção precisa ser explicada aos filhos, é preciso dizer-lhes que a adoção é um ato de amor e que pelo amor o parentesco se desenvolve e se solidifica. Se é impossível preservar os filhos, eles precisam ser orientados. Não se pode calar diante de estereótipos sobre a adoção e silenciar diante dos filhos. São eles, e não os pais o principal alvo das distorções a todo instante nos diversos acontecimentos, por vezes até naturais da vida. Uma coisa é certa, estes exemplos não servem para educar, ao contrário, reforçam um preconceito que há muito vem sendo combatido e que hoje já se percebe menos explicitado.

Aos pais e mães por adoção, não se intimidem diante de exemplos negativos, é preciso estar atento e saber dizer aos filhos que a ficção é produto de uma imaginação, nem sempre criativa e que uma realidade não determina a outra; tais exemplos não servem para direcionar em uma família que tem no amor o principal argumento.

Texto do querido amigo e  companheiro de luta pela "cultura da adoção" Paulo Wanzeller.


Postado Por Cintia Liana

2 comentários:

Michelle disse...

Cintia, adorei o que escreveu. Muito realista e verdadeiro. Compartilho com você a opinião sobre o filme da Bruna Surfistinha. A mensagem negativa está lá.
Michelle

Cintia Liana disse...

Michelle, obrigada pelo comentário e visita.
Eu não vi o filme ainda, moro na Itália, aqui não passam os filmes brasileiros, sinto falta. Minha família vai começar a me mandar pelo corrreio DVD's.
Eu vou mostrar teu comentário para o autor. Ele escreve bem.
Uma pena eles não terem tido cuidado com o tema adoção.
Um abraço.