"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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terça-feira, 6 de abril de 2010

Perguntas e comentários constrangedores sobre adoção

Foto: Cintia Liana com filhos de amigos do Grupo Psicologia e Adoção. (Fotos obviamente autorizadas pelos pais.)


Como se não bastasse pensar, têm pessoas que chegam a falar e a fazer comentários constrangedores frente a uma família adotiva.

Como profissional só não ouvi de tudo porque parece que tenho escrito na testa que amo a adoção e passo uma segurança imensa no que acredito. Mesmo assim, sempre respondo com amorosidade, porque entendo não se tratar de hostilidade, e sim, de ignorância, de falta de informação.

Darei exemplos:

"Se já é difícil criar um filho que saiu de dentro de mim, imagine um que não coloquei no mundo..."

"Tem que ter muita bondade para adotar uma criança que não se sabe de onde veio."

"A gente sabe que filho adotivo não é igual a filho biológico, não é?"
Essa eu já cheguei a responder assim:
Eu? Eu sei que filho adotivo é normalmente muito mais protegido e dizem até que mais amado que o biológico. (faço o jogo do contrario só para chocar rsrs)

"Esse é o menino que você está criando?"

"...Mas ele não é filho legítimo..."
(Legítimo vem da palavra lei e a adoção é respaldada pela lei)

"Você sabe quem são os pais?"
Já orientei gente que sofria a falar sorrindo levemente, "Sei, somos eu e meu marido."


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Foto: "A Gata Borralheira". Google Imagens.

Uma vez, uma assistente social que trabalhava comigo me falou que uma senhora ligou para o Serviço Social e disse:

- Alô! Eu quero saber como se faz para adotar uma criança.

Assistente Social respondeu:

- A senhora tem que vir até aqui, pegar uma lista de documentos, providenciar todos, voltar para entregá-los e fazer o estudo social. Depois marcará avaliação psicólógica no Serviço de Psicologia, seu processo de habilitação passará pelo Ministério Público e pelo Juiz. Sendo aprovado seu pedido de habilitação, a senhora irá esperar numa fila até ser disponibilizada uma criança dentro do seu perfil de preferência para um estágio de convivência, paralelamente serão feitas as devidas avaliações psicossociais, seguido de setença judicial, finalizando assim o processo de adoção.

E a senhora finalizou:

-Não minha filha, isso é muito complicado! Eu só queria uma menina para "passar uma vassoura" em minha casa!

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Como podemos discutir com uma pessoa que tem essa idéia de adoção?

Não discuta, não se constranja, ensine!


Por Cintia Liana

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Criança Hiperativa?

Respondendo à uma dentre tantas outras perguntas de mães biológicas e adotivas preocupadas com seus filhos, resolvi postá-la aqui, com omissão de nomes, é claro, e de detalhes que possam identificar a pessoa. Se trata de um assunto mais que corriqueiro.

Foto: Google Imagens


Ela diz:
Oi, há quanto tempo...! Conheci seu trabalho e quero te pedir uma orientação. Minha filha  está precisando de ajuda, de terapia. Disseram que é hiperativa e que agora precisa voltar a tomar os remédios, porque está pior. Você pode me orientar?

Respondo:
"Oi, querida! Obrigada pela confiança em me expor o caso. Vou ousar falar algo, mas será bem resumido. Se quiser um dia conversar mais detalhadamente me fale. 

Como sou especialista em Psicologia Conjugal e Familiar, tenho uma natural tendência a enxergar o comportamento da criança num contexto maior, principalmente, na família, respaldada em teorias sistêmicas. Vejo o problema ou o comportamento desagradável como um sintoma do que podemos chamar de “adoecimento” familiar e nela mesmo, na própria família, sua estrutura e organização, encontramos muitos motivos para a criança apresentar tais sintomas.

Hoje está sendo vastamente discutido essa insistência de alguns profissionais, principalmente inexperientes ou com uma visão reducionista da psique, em rotular, classificar a criança como hiperativa e, o pior de tudo, medicá-la (não sou contra a remédios, quando necessário).

Não questiono o diagnóstico de forma tão segura porque não conheço o caso profundamente, as avaliações e exames aplicados, o diagnóstico detalhado e tampouco a idade de sua filha.

Um diagnóstico de hiperatividade para uma criança com menos de 7 anos, por exemplo, normalmente é muito precipitado e perigoso, pois até essa fase ela passa por diversas mudanças e estímulos, alterando seu comportamento de forma veloz e, mesmo a hiperatividade propriamente dita, pode ser um sintoma de um problema na família, ou a relação da criança com sua própria história de vida e ele pode vir a tona através de uma patologia ou na alteração do comportamento e sua relação com o mundo.

Atualmente, sou uma profissional que só atende a criança se os pais aceitarem fazer duas sessões ao mês de terapia comigo pois, antes de tudo, eles precisam mudar seus padrões, inclusive enxergar os intergeracionais e aprender a decifrar aspectos subjacentes de sua relação com o filho. A minha experiência e os teóricos dizem que não adianta, que é inútil tratar a criança e depois reinseri-la no mesmo ambiente “adoecido”, o ambiente que a faz adoecer.

Os pais, muitas vezes, “fogem” porque se sentem em culpa, mas se já tiveram o filho, porque não encarar a “responsabilidade” de mudar a vida de todos?

Esse adoecimento é bem mais natural do que pensamos. Como se diz muito por aí, “isso acontece nas melhores famílias". Essa frase nos remete a um alívio, para com facilidade aceitarmos o problema e encarar as mudanças, pois é difícil ser a exceção negativa.

Temos que desmascarar essa história de que família boa e feliz é a família perfeita, porque esse é um ideal, não existe família perfeita. É ainda mais bonito ver alguém lutando para se entender e ser cada vez mais saudável.

É bem mais fácil quando se assume a responsabilidade de transformar, apesar de ser mais complicado entender todo esse processo, mas colocar o foco na criança é maquiar a verdadeira face do problema maior, entende? Isso é tão claro hoje para mim...

Espero ter ajudado, iluminado um pouquinho. Estou a disposição para conversar.

Por Cintia Liana