"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Mães conscientes. Feliz dia das boas mães!

Cintia Liana
08 de maio e 2013.

Hoje é dia das mães aqui na Itália (08 de maio) e domingo será no Brasil.

O maior mal da humanidade de todos os tempos é a falta de amor e o abandono. O abandono me refiro a todos os níveis, até na falta de sensibilidade e cuidado em olhar o filho ou até mesmo em não dispor de tempo para tal ato, ou não conseguir entender a fragilidade de uma criança. E muitas delas, ao nascerem, já estão completamente vulneráveis, ao se tornarem verdadeiras vítimas de adultos mal educados, violentos e imaturos - em geral, esses também foram vítimas de seus pais - que as colocam no mundo só com o objetivo de suprirem as suas próprias necessidades, repetindo modelos familiares adoecidos, perpetuando a dor e o sofrimento. Emocionante é quando alguém consegue romper com esses modelos, diferenciar-se, individuar-se e ser feliz.

Não dou feliz dia das mãe a todas as mães, porque nem todas são boas, existem várias formas de ser mãe e nem todas sabem amar ou amam de fato os seus filhos. Desejo feliz dia das mães àquelas que honram esse nome, o nome MÃE, biológicas e adotivas, aquelas que sabem amar e dar ao filho o que elas têm de mais valioso, paralelamente na busca de se tornar um ser humano muito melhor.

Hoje é o meu primeiro dia das mães.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A ética na exposição dos filhos

Tumblr

Por Cintia Liana Reis de Silva

Hoje em dia se fala muito sobre a ética em relação a exposição dos filhos nas diversas mídias, mas pouco se fala sobre o que está por trás desta necessidade. Primeiro, obviamente, o que vem em mente é querer mostrar a todos como ele é belo, e isso é muito natural, e daí vem o desejo de mostrá-lo, usando os veículos mais comuns, que são fotos e publicidades para a TV.

Mas será que as crianças desejam serem mostradas, expostas desta ou de outras maneiras? E que consciência elas têm desta exposição? Outras perguntas também aparecem como, que resultado isso traz para a vida de cada uma? O que isso tem a acrescentar para o seu desenvolvimento “psicoafetivosociocultural”?

Muitos pais podem procurar expor os filhos e torná-los uma espécie de celebridade com o intuito de asceder socialmente ou de buscar uma certa luz ou brilho para preencher suas próprias faltas. Iluminar o filho é como se talvez estivessem iluminando a sua infância plena de memórias de carências afetivas. Ver o filho brilhar e ser reconhecido é não só se iluminar com a mesma luz naquele momento por ser pai ou mãe daquele ser que é visto como especial, mas é, de certa forma, iluminar a criança ferida e frustrada dentro de cada um.

Dentro deste tema poderemos levantar vários aspectos a serem levados em consideração, não só os motivos subjascentes que levam os genitores a buscarem fama para os filhos, como também os diversos pontos positivos e negativos que essa exposição causa na vida objetiva do menor e em sua vida social; como ela assimila isso tudo e quais são os reflexos em seu comportamento futuro. São muitas perguntas delicadas a serem feitas.

Podemos observar várias crianças que foram protagonistas de filmes famosos que depois desapareceram da mídia porque ficaram marcadas por aquele personagem com o estigma negativo. Isso marca toda uma vida. Outras que fizeram papéis em novelas e depois buscaram outros rumos quando adolescentes. O próprio público, quando sente falta de um ator mirim na TV, imagina logo que este faliu, mas não é comum pensarem que ele pode ter escolhido outra estrada, como fazer faculdade para trabalhar em outro ramo, porque no fundo se crê que ser famoso é o que há de melhor e que esta é a forma mais confortável de provar que se tem algum valor pessoal ou social.

É importante buscar ser feliz sem precisar ser reconhecido publicamente ou por um grande número de pessoas. Não se esperar que venha dos outros e de desconhecidos o senso de valor que deve ser construído dentro de cada um é algo a se entender e isso é algo importante para dar e ensinar aos filhos em seu processo de crescimento, que o que ele faz, independente de que os outros vejam, deve fazer sentido para ele e que deve ser algo valoroso e honroso porque é digno e isso não precisa ser reconhecido externamente. O reconhecimento externo é um detalhe que pode ocorrer, mas não deve ser o principal e nem o objetivo central, senão tudo se perde.

A questão é que os pais devem estar atentos porque são eles que decidem tudo para a criança no início de sua vida, porém algo pode ser tão potente neste início e comprometer todo o seu futuro sem que a nova “pessoinha” se dê conta que quem escolheu aquele seu presente foram os pais. Algumas pessoas só entendem isso quando já têm suas vidas totalmente traçadas pelos outros e já estão vivendo coisas que não a agradaram como deveria.

Precisa ter bom senso quando se usa a imagem do filho, justamente porque este não tem consciência do que faz e do que acarretará em sua vida futura.

Se deve entender que não se nasce pronto para ser pai ou mãe, que esse é um processo que deve ser construído com sabedoria, muita reflexão e autoconhecimento, para que saibamos com inteireza que educar um filho e ajudá-lo em seu crescimento é uma tarefa muito complexa, onde se pode formar um ser que depende de aplausos para ser feliz ou outro que busca ser feliz com seus próprios recursos internos e vê os aplausos como reforços positivos, mas não como o objetivo principal.

Artigo da psicóloga Cintia Liana Reis de Silva publicado no site Indika Bem no dia 23 de janeiro de 2013

Fonte: http://indikabem.com.br/psicologia/a-etica-na-exposicao-dos-filhos/

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O meu filho precisa mesmo de terapia?

Foi com muita alegria que estreei como colunista do site Indika Bem no dia 28 de novembro de 2012.
O Indika bem é um excelente site, onde reúne especialistas de várias áreas da ciência, filosofia e da vida cotidiana, falando de assuntos importante e de grande interesse.
Confiram o meu primeiro texto.

Facebook

Por Cintia Liana Reis de Silva

É muito comum casais procurarem terapia para o filho quando detectam que este apresenta alguns sinais persistentes de dificuldades em casa, na escola ou em outros grupos sociais, porém as teorias científicas psicológicas provam que a criança é um reflexo do que ela vive e das impressões que tem do comportamento de seus pais e até do que não é dito em casa, dos segredos, dos tabus, dos preconceitos, de como interpreta as dificulades cotidianas e sobretudo de como sente o mundo que é apresentado à ela. As crianças sentem tudo e é muito natural emitirem algum tipo de resposta ao mundo, do seu modo particular.

Poderíamos dizer que é desaconselhável e até irresponsável atender em psicoterapia uma criança pequena sem introduzir seus pais num processo de reconhecimento da origem das dificuldades. Seria como trabalhar aquele que está fazendo o favor de comunicar a existência de um desequilíbrio familiar e reintroduzí-lo no ambiente adoecido, que nem os pais se deram conta de que não está fucionando de modo justo. Nesse sentido, os pais devem ser bem orientados e aderirem à proposta do trabalho terapêutico aceitando a necessidade de se questionarem.

Devemos usar aquele que está comunicando o desequilíbrio para deflagrar mais ainda o que é de fato importante trabalhar e, a partir daí, propor o conhecimento das situações conflitantes, os motivos, os padrões, os maus hábitos de todos e caminhar em direção a possíveis mudanças.

É claro que é muito mais difícil olhar para si mesmo e admitir que algo pode não estar indo bem e que o filho está sentindo tudo, para isso é preciso humildade e trabalhar o sentimento de culpa. É difícil admitir que o sistema familiar está desorganizado e desarmonioso, afinal os adultos não querem errar, muito menos com os filhos. Talvez seja mais fácil crer que o problema nasce e acaba no filho que, aos olhos de muitos adultos, é um ser que ainda não aprendeu a viver, que não está acostumado com o mundo ou que é rebelde. É mais simples e mais ingênuo pensar assim e usar essas desculpas para não se enxergar, mas se trata de uma fantasia que não ajuda em nada.

A criança, por menor que seja, é um ser que merece respeito, ser tratada com educação. Ela muitas vezes já indica quem será quando adulto e quais são suas prioridades, vontades e tem senso de direitos. Os adultos precisam aprender a entendê-las, o que estão querendo expressar, e aceitar com humildade que eles podem estar errando. As crianças nascem com intuição, sensibilidade e emoção aguçadas, ao longo do tempo é que se pode ir perdendo tudo isso.

Se deve agir com sabedoria e fazer um diagnóstico dos sistemas em que a criança está inserida, pois ela é um reflexo de como está sentindo o mundo e sobretudo reflete quem são de fato os seus pais, seu lado positivo e negativo. Mesmo que doa, ver a sua própria imagem negativa refletida no filho é uma tarefa importante para a transformação de todos e das futuras gerações, tomar consciência deste processo e mudar. As crianças repetem o que os pais fazem de censurado socialmente e eles brigam com ela, sem ao mínimo terem se dado conta de que eles é que deram o modelo.

Tudo pode mudar quando todos resolvem colaborar e ser sinceros, reconhecendo as dificuldades, sem usar de “culpas”, promovendo mudanças sadias. Afinal, uma vida sã propõe crescimento, inteligência e coragem para enfrentar os limites com verdade. E ter filhos é uma responsabilidade muito séria, que muitas pessoas não se dão conta do tamanho desse doce e forte compromisso, nem mesmo depois de tê-los.

Cintia Liana Reis de Silva é Psicóloga e Psicoterapeuta, Especialista em casal, família e Adoção

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Uma jornada de compromissos

Google Imagens


*Por Cintia Liana Reis de Silva

Criança que cresce escutando música muita alta, que sente a luz acender em seu rosto enquanto dorme, que cresce ouvindo gritos, agressões verbais e presenciando brigas acaba achando isso muito natural. Sim, os detalhes também contam.

Criança que cresce vendo bons exemplos, sendo escultada, com seus medos validados, que é motivada a falar o que sente e que aprende a reconhecer suas sensações terá muito mais chances de ser um adulto emocionalmente sadio e maduro.


Interessante é entender que o filho repete mais o que os seus pais fazem quando acham que ninguém está observando. Criança "pega no ar" o que não é dito, ela entende olhares, se incomoda com segredos, se ressente com rejeição velada.

Lembre-se, teu filho está aprendendo a ser hoje a pessoa de amanhã, se você não romper com os padrões familiares negativos que permeiam a sua família há séculos, se não tiver sensibilidade, desapego, coragem e disponibilidade interna para enxergá-los, muito provavelmente, durante mais outros séculos seus descendentes venham a sofrer dos mesmos males.

Você não é responsável pelos que já passaram, mas se torna responsável pelos que estão vindo e pelo que você é.
Ter filhos é uma jornada de compromissos, reconhecimentos e amadurecimento.

*Cintia Liana é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em psicologia conjugal e familiar.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Campanha Adote essa Ideia

Foto: Campanha "Adote essa Ideia"

Agnelo Pacheco retoma a campanha “Adote essa Ideia”

Ter, 26 de Outubro de 2010 13:00

Segunda fase do projeto busca alertar a sociedade sobre a importância de uma adoção consciente.
Devido ao grande sucesso da campanha “Adote essa Ideia”, a OAB-SP por meio da Comissão Especial de Direito à Adoção, solicitou que a agência Agnelo a retomasse com o intuito de desmitificar a problemática do preconceito dos candidatos a adotantes, tanto em relação à idade quanto a etnia da criança.

A ideia surgiu em decorrência da nova Lei de Adoção - sancionada pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva. Cujo principal objetivo é impedir que crianças e adolescentes permaneçam em abrigos por longos períodos.

A campanha tem como objetivo mobilizar a população sobre a importância da adoção. O intuito é estimular a sociedade a adotar sem exigências quanto à idade, etnia e sexo da criança, o que acaba dificultando e torna lento o processo.

Assim como a primeira fase de divulgação, “Adote essa Ideia” apresenta cartazes e cartões postais, que trazem como mote o fim do preconceito representado por uma mulher branca abraçada a uma criança afro-descendente. A novidade é o desenvolvimento de uma cartilha a respeito do assunto.

Ficha Técnica
Título: Adote essa idéia
Cliente: OAB -SP
Produto: Institucional
Peças: cartaz, postal, banner
Criação: Agnelo Pacheco, Ricardo Paoliello, Luiz Catapano.
Direção de Criação: Agnelo Pacheco
Planejamento: Agnelo Pacheco
Atendimento: Renata Botene
Aprovação: Luiz Flávio Borges D’Urso



Postado Por Cintia Liana

domingo, 6 de junho de 2010

Avaliação Psicológica para Adoção

Foto: Cintia Liana com Isabela, sua estagiária de Psicologia, e Priscila, secretária, em 2007.

Os interessados em adotar passam por avaliação psicológica com perito da vara da infância, que emite um parecer favorável ou desfavorável sobre a habilitação daquela pessoa ou casal e, para isso, se respalda em teorias científicas psicológicas. Esse parecer respaldará a sentença do Juiz, mas não é determinante.

Normalmente a avaliação é feita em forma de entrevista psicológica, onde o profissional saberá o número necessário de encontros que pode variar entre uma ou mais entrevistas, onde são verificados estrutura familiar dos requerentes, comportamento, pensamentos, crenças, inseguranças, medos, preconceitos, se as expectativas condizem com a realidade, perfil da criança desejada, os motivos do desejo deste perfil, o que pensam da paternidade, maternidade e educação e a motivação verdadeira (inconsciente) que leva o requerente a pleitear a adoção, que deve ser baseada em cima de um desejo legítimo de ter um filho, não por outro motivo, por companhia ou caridade, filho não deve ser visto como companhia, ele é quem precisa de companhia e cuidados, e caridade é algo pontual e um filho é para vida toda, é uma relação fortíssima, que irá se estabelecer e fortalecer durante toda a vida, assim como na parentalidade biológica, se houver a desejo.

O psicólogo pode utilizar técnicas de avaliação como um teste projetivo de personalidade para a análise mais aprofundada da psiquê dos requentes. Eu, além das entrevistas e do teste, realizava reuniões onde dava palestras, acolhia as dúvidas, respondia a todas perguntas e conversávamos sobre os sentimentos que surgem no processo de "gestação emocional", com a espera do filho adotivo.

Para adotar se deve ter mais de 18 anos, mais velho 16 anos que o adotado, que não sejam avós ou irmãos e que ame a criança verdadeiramente como filho. É essencial que seja uma pessoa saudável, que tenha uma vida responsável, que saiba assumir compromissos, principalmente com relação a futura paternidade, que deseje vivê-la e que isso seja legitimo e não para mostrar nada a ninguém, que possa dar uma vida digna a um filho.

Adotantes casais não são mais bem parados que adotantes solteiros, heterossexuais não são mais maduros que homossexuais, tudo vai depender da pessoa e não dessas condições.

Na época em que eu era perita e coordenadora do serviço de psicologia de uma Vara da Infância e Juventude eu realizava palestras e reuniões, que muitas vezes eram confundidas com "cursos". Esse nome não era muito bem vindo, pois antes o Judiciário não podia "preparar" e há alguns meses o curso de adotantes se tornou obrigatório e o Judiciário tem que oferecer.

Acho excelente esse espaço de acolhimento, reflexão, pois todos alí estão no mesmo barco, esperando, cheios de dúvidas, medos, expectativas, alegres, vibrando com essa “gravidez emocional” e todos acham maravilhoso compartilhar emoções e sentimentos. Isso valida e mostra que o que eles sentem é importante, que não estão sozinhos e traz uma sensação de respeito por esta espera tão importante que leva ao amadurecimento de diversas questões voltadas para a parentalidade, que é sempre reafirmada com a ida ao Judiciário. Se também existissem grupos de reflexão e preparação para a paternidade biológica o mundo estaria bem diferente.

Usar a adoção para outra coisa que não seja para a realização da paternidade é algo que o perito deve avaliar também e é algo muito sério. Usar a adoção para salvar o casamento, por exemplo, pode fazer o casal se separar ainda em processo de adoção, pois tudo vem a tona, a adoção é um processo de nascimento, renascimento da família, é um "parto". Os estudos mostram que tudo pode acontecer nestes casos mas, no geral, desaconselho totalmente qualquer uso da adoção que não seja para a realização legítima da parentalidade. Se não está preparado procure ajuda, faça terapia, melhore sua realidade e só depois procure se habilitar. A criança não espera pais perfeitos, isso não existe, mas espera alguém que possa dar-lhe uma boa base suportiva para a sua caminhada, principalmente no momento de sua chegada, na adaptação.

Ao mesmo tempo que devemos ser muito rigorosos com a avaliação, os estudos mostram que é preciso enxergarmos a capacidade de aprendizado, transformação das pessoas, de reconstrução de sua própria história, de construção do apego, do fascínio da capacidade de amar e não uma compreensão moralista e alienada em relação a consciência sócio histórica da família.

Como diz Lídia Weber (2008), devemos abandonar o pensamento tradicional e desenvolver um pensamento pós-moderno, pensamento este que entende que o ser humano tem capacidade de abarcar sistemas que são móveis e esse espaço é atemporal e ilimitado e demanda e permite um pensamento híbrido, abertura e transformação em todos os setores da vida. O pensamento conquistado na pós-modernidade é o pensamento “transdisciplinar, transparente, que lida com a possibilidade do ser-e-não-ser e com as infinitas cores do jogo de luzes de um caleidoscópio”. Fluidez paradgmática também é outra característica do pensamento pós-moderno, o que não mais permite a postura maniqueísta e parcial, pois existe uma gama de solicitações existenciais. É preciso ajustar o velho com o novo e adquirirmos equilíbrio nesse momento de revolução paradigmática. Quem está apto a selecionar “bons pais” em duas ou três entrevistas psicológicas?

Neste sentido, relembro da frase do construcionismo social que diz que “o olhar do observador deforma a realidade”, ou seja, todas as nossas observações, análises sentimentos e percepções frente ao objeto, a um acontecimento, a uma pessoa, é vista e sentida de acordo com a nossa bagagem, a nossa história anterior, essa forma está relacionada com o que aprendemos. Então não existe neutralidade absoluta e que o terapeuta, por exemplo, vê o paciente de uma forma peculiar que, por mais que exercite a neutralidade, a forma como ele vê é muito própria e está influenciada, contaminada por seu olhar carregado de sua história pessoal.

O bom psicólogo deve perceber que não é infalível, deve ver a sua participação no cenário e enxergar tudo isso, além de analisar essas tantas outras variáveis. O bom psicólogo também traz dúvidas ao processo, as dúvidas podem nos trazer outras riquezas no olhar e isso deve ser discutido com o Juiz, se necessário e possível, é claro.

Nós, analistas, observadores do comportamento nunca conseguiremos fazer uma análise igual entre nós, pois os analistas são pessoas diferentes. Diz o construcionismo que não somos "experts", nem engenheiros sociais, pois a realidade não é objetiva, nem representacional. Devemos ser arquitetos do diálogo, numa relação democrática, enxergando identidades não fixas e nos dando chances sempre de melhorar tudo e mostrando ao outro que também é capaz de construir novos significados.
Bateson desenvolveu uma concepção do processo interacional e suas indagações antropológicas e compartilha com outros teóricos a importância de introjetarmos o referencial da cibernética simples e da cibernética da cibernética na relação terapêutica. Principalmente no que diz respeito a segunda, que defende a ordem de recursão e reconhece o observador como parte integral do sistema observado, afastando qualquer premissa de “objetividade”, indo além dela e da subjetividade, como propõe a cibernética da cibernética. (BATESON apud REY, 2005).

Rey (2005) explica que Bateson defende que o melhor caminho seja a ética, pois para compreendermos os elementos fundamentais da epistemologia percebemos que ao “conhecer”, devemos observar que a visão do terapeuta fala também dele mesmo, a visão do observador participa do observado.

No que diz respeito a psicoterapia propriamente dita - e que não deixa de conter nela um grau de avaliação, e avaliação essa que é feita de forma direta nos setores de adoção - a concepção de uma epistemologia auto-referencial situa o terapeuta plenamente dentro da terapia e vai de encontro com o conceito de que a família atua como uma “caixa preta” e o terapeuta não atua neste sistema. Ele declara que qualquer mecanismo está circunscrito por ordens superiores de controle de retroalimentação, ou seja, a partir do momento que o terapeuta se insere no sistema, representa uma ordem superior. Nesta ordem superior de recursão, o terapeuta faz parte do sistema como totalidade e está sujeito às implicações e restrições de sua retroalimentação. Deste modo, é impossível exercer um controle unilateral, e pode ora facilitar, ora bloquear, a auto-correção indispensável.

Ao entendermos que o terapeuta está entrelaçado com o cliente, entendemos que a descrição do observador descreve mais ele mesmo do que o acontecimento. E nesta perspectiva, poderemos aprender continuamente em nosso trabalho clínico na relação com o cliente, tendo como base nossas próprias formulações e hipóteses, contribuindo para uma epistemologia do nosso próprio trabalho, da nossa própria atuação e de nós mesmos.

Edgard Morin (apud SANTOS, s/d) diz que “a ciência não é somente uma acumulação de verdades verdadeiras (...) é um campo sempre aberto onde se combatem não só as teorias, mas também os princípios da explicação, isto é, também as visões de mundo e os postulados metafísicos”.

Santos (s/d) também cita Paulo Freire que diz, “tenho pena e, às vezes, medo do cientista demasiado seguro da segurança, senhor da verdade e que não suspeita sequer da historicidade do próprio saber”.

O bom psicólogo que avalia candidatos a adoção, além de muita sensibilidade, deve ter muito estudo e humildade. Devemos proteger as crianças e respeitar os cidadãos.


Referência:
Encontra-se completa na barra direita de livros sobre adoção.

Por Cintia Liana

Livro da Psicóloga Cintia Liana sobre o percurso de construção da família através da adoção e seus aspectos psicológicos
Para comprar ou visualizar:
http://www.agbook.com.br/book/43553--Filhos_da_Esperanca
(2ª Edição - 2012)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Perguntas e comentários constrangedores sobre adoção

Foto: Cintia Liana com filhos de amigos do Grupo Psicologia e Adoção. (Fotos obviamente autorizadas pelos pais.)


Como se não bastasse pensar, têm pessoas que chegam a falar e a fazer comentários constrangedores frente a uma família adotiva.

Como profissional só não ouvi de tudo porque parece que tenho escrito na testa que amo a adoção e passo uma segurança imensa no que acredito. Mesmo assim, sempre respondo com amorosidade, porque entendo não se tratar de hostilidade, e sim, de ignorância, de falta de informação.

Darei exemplos:

"Se já é difícil criar um filho que saiu de dentro de mim, imagine um que não coloquei no mundo..."

"Tem que ter muita bondade para adotar uma criança que não se sabe de onde veio."

"A gente sabe que filho adotivo não é igual a filho biológico, não é?"
Essa eu já cheguei a responder assim:
Eu? Eu sei que filho adotivo é normalmente muito mais protegido e dizem até que mais amado que o biológico. (faço o jogo do contrario só para chocar rsrs)

"Esse é o menino que você está criando?"

"...Mas ele não é filho legítimo..."
(Legítimo vem da palavra lei e a adoção é respaldada pela lei)

"Você sabe quem são os pais?"
Já orientei gente que sofria a falar sorrindo levemente, "Sei, somos eu e meu marido."


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Foto: "A Gata Borralheira". Google Imagens.

Uma vez, uma assistente social que trabalhava comigo me falou que uma senhora ligou para o Serviço Social e disse:

- Alô! Eu quero saber como se faz para adotar uma criança.

Assistente Social respondeu:

- A senhora tem que vir até aqui, pegar uma lista de documentos, providenciar todos, voltar para entregá-los e fazer o estudo social. Depois marcará avaliação psicólógica no Serviço de Psicologia, seu processo de habilitação passará pelo Ministério Público e pelo Juiz. Sendo aprovado seu pedido de habilitação, a senhora irá esperar numa fila até ser disponibilizada uma criança dentro do seu perfil de preferência para um estágio de convivência, paralelamente serão feitas as devidas avaliações psicossociais, seguido de setença judicial, finalizando assim o processo de adoção.

E a senhora finalizou:

-Não minha filha, isso é muito complicado! Eu só queria uma menina para "passar uma vassoura" em minha casa!

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Como podemos discutir com uma pessoa que tem essa idéia de adoção?

Não discuta, não se constranja, ensine!


Por Cintia Liana

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quando Desconectados

Este texto é de uma pessoa muito querida, que se tornou uma amiga especial. Aos poucos fomos nos aproximando mais, compartilhando idéias, palavras e sentimentos sobre a vida. Muita honra para mim, pois é uma pessoa com muito mais experiência de vida que eu.
Roza, com z, tem uma vida construída em cima de trabalho, respeito e amor por todos que a cercam. Ela é mulher, mãe da uma bonita família, "quase vovó", ser humano sensível, encantador e iluminado.
Obrigada Roza, por fazer parte de minha vida e por me agraciar com seus e-mails, poemas e o carinho involuntário de sempre.
Cintia Liana

Foto: Google Imagens

Quando desconectados


Por Antonia Roza


A vida com seus altos e baixos, com as obrigações familiares, sociais, ocupacionais, assistenciais, vai deixando em nós marcas e, pior que isso, vai nos roubando a energia, o vigor, a coragem, vai tolhendo nossos movimentos e nos leva, finalmente, a desejar um lugar onde possamos enfiar a cabeça, isolando-nos do mundo, de tudo e de todos, para que possamos sentir um pouco de paz.
Chega um momento em que, para não piorarmos a situação, vamos nos calando, calando, sem querer preocupar ou incomodar ninguém e vamos sufocando nossa voz, tolhendo nossos movimentos, ficando inferiorizados, esquecendo de que somos estudiosos, inteligentes, dedicados e muito capazes para enfrentar grandes desafios. Ficamos minúsculos diante de situações e de seres que longe estão de atingir nosso nível de discernimento e de desenvolvimento e, em assim nos sentindo, perdemos totalmente a alegria da vida.
Isso só ocorre com as pessoas comprometidas com a família, com os amigos, com as responsabilidades.
Nesse emaranhado em que nos encontramos, ficamos desconectados do nosso “Eu Superior”, esquecemos de nossas crenças e de que, em momento algum, Deus não nos abandona.
Quando pensamos que estamos sofrendo escondidos , sozinhos, ele sussura ao ouvido de alguém e, este alguém passa a se preocupar conosco, independentemente de falarmos qualquer coisa. Aceite a orientação dessa pessoa que procura lhe ajudar.
Certamente ela lhe recomendará ir ao médico, a um psicólogo ou a um outro profissional habilitado.
Não seja resistente , não aumente o seu sofrimento. Seja dócil e humilde o bastante para se deixar conduzir. Tem momentos na vida em que temos que nos entregar aos cuidados de quem nos ama, de quem quer nos ajudar. O nosso Pai quer que nos deixemos carregar quando o peso do nosso fardo estiver demais para nós sozinhos.

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Roza, você é linda!
Por Cintia Liana