"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Depoimento: “Ah, são adotivos?” Sempre perguntam… São nossos filhos e pronto! Thais


Por Thais Doretto
28 de junho de 2016

“Sempre quis adotar, desde adolescente sentia que esse era meu caminho, como se Deus já tivesse me avisado. Casei e o desejo continuava, mas meu marido gostaria de tentar um biológico antes. Ok, poderíamos adotar depois. Eu engravidei mas perdi o bebê bem no comecinho. Então por algum tempo ficamos, eu e meu marido, estudando a questão da adoção, mais ele do que eu (risos).

Enfim decidimos entrar com os papéis.
Um ou dois meses depois minha cunhada foi convidada por uma amiga para fazer um trabalho voluntário com crianças carentes. Acabando o trabalho ela veio na minha casa e disse que tinha conhecido um menino que poderia ser meu filho. Fiquei emocionalmente enlouquecida para conhecê-lo. Porém não havia como, pois eu estava na fila e só me restava esperar. Sabia o nome dele e que ele tinha um irmão mais novo. Até tentei mais informações, mas as crianças que estão para adoção são protegidas pelo estado e é super difícil ter acesso, pelo menos aqui na minha cidade. Consegui descobrir os nomes, idades e que eles iriam voltar para a família. Mas não conheci nem por foto. Seus rostos eram em branco para mim, e então mais uma vez me apegava a Deus para que tudo se ajeitasse da melhor maneira possível para todos. Se não eram eles não era para ser e pronto. Deus ia me mandar meus filhos, tinha certeza disso.
Oito meses depois fizemos o curso e todas as etapas para que pudéssemos então entrar na fila de espera. Nosso perfil era de 3 a 8 anos, pois temos 5 sobrinhos nessa faixa de idade, e assim nos sentíamos confortáveis. Não importava sexo, cor e aceitávamos irmãos.  Sempre pensava, meu Deus essas essas crianças já foram tiradas de seus genitores, mais uma separação com os irmãos era demais a dor. Acreditava também que se viessem dois eles se sentiriam mais seguros, pelo menos um com o outro, metade da família já estaria em união, assim como eu e meu marido já estávamos unidos, e tudo poderia ficar mais fácil.
Na última entrevista com a assistente social, ela deixou escapar que achava que nosso processo seria rápido. Uma semana depois ela me liga dizendo que queria me mostrar duas crianças.  Explosão de felicidade !!! 9 MESES DE ESPERA durou minha gestação!
Chegando no fórum ela começou a contar a história deles, e quando ela disse os nomes e as idades a gente quase caiu da cadeira, para nossa surpresa eram os meninos que minha cunhada tinha conhecido! Impossível acreditar em simples coincidência !! Eram eles, Deus tinha me mandado meus filhos! Minha cunhada nem acreditava! Pensa na possibilidade disso acontecer. Ninguém do fórum e nem do abrigo e nem de lugar nenhum sabia do nosso precoce interesse por eles. Só eu, meu marido e minha cunhada!! Hoje ela é madrinha do mais velho, não poderia ser diferente não é mesmo?! Estamos com eles há dois anos, mas todo mundo pensa que é há muito mais tempo.
“Ah, são adotivos?” Sempre perguntam… Não entendo que diferença a palavra “adotivo” faz. São nossos filhos e pronto!

Foram muitas, mas muitas mesmo, dificuldade de adaptação com eles. Nos primeiros meses cheguei a achar algumas vezes que não daria certo, que eu não ia conseguir. Mas sempre me lembrava da tal “coincidência” e aos poucos Deus ia acalmando meu coração. Mas acho que isso já é uma outra história... É isso, Luciane. Foi um prazer contar minha história um pouco grande… Risos… Gosto muito de falar da minha experiência, é difícil parar de escrever até. Mas acho que está bom por aqui.
Grande abraço.” 
Thais Doretto

Fonte: http://gravidezinvisivel.com/depoimento-adocao-adotivos-filhos/

terça-feira, 21 de agosto de 2012

E sobre barrigas cansadas, novelas ruins e minha adoção


07/08/2012 | 08:16
Margarida Telles
Atualidades, família | Adoção, história, preconceito
  
Ao ler o texto de Germana Costa Moura, publicado aqui no Mulher 7×7 na semana passada, me emocionei. E a emoção veio por causa da identificação que senti. Sou uma “filha adotiva”, termo que odeio tanto.
 
Quando perguntavam para a minha mãe na minha frente se eu era a sua filha adotiva, ela rebatia “é minha filha querida”. E depois me explicava que o “querida” vem do “querer”. Ela quis tanto ser mãe daquele bebezinho prematuro que precisou convencer um monte de gente e superar uma montanha de burocracias.
 
De onde veio esse querer, ela nunca soube verbalizar. Minha mãe biológica era prima do meu pai adotivo. Quando ela estava lá pelos seus cinco meses de gravidez, descobriu que tinha câncer. Era um tumor no cérebro, já em fase avançada, e logo ela perdeu a consciência. Minha mãe adotiva foi ao hospital fazer uma visita e PAM, sentiu que aquele bebê dentro da barriga da prima doente era dela.
 
Muita gente chamou a minha mãe de louca. Ela já tinha seus 51 anos, três filhas criadas, havia chegado finalmente naquela fase de voltar a curtir o marido em paz, sair à noite para ouvir jazz, viajar quando desse na telha. Mas estava ali, disposta a começar tudo novamente, trocar fraldas, não dormir, passar vinte anos em função de uma criança. Pra completar, ninguém sabia em quais condições eu nasceria, se teria algum tipo de sequela por conta dos remédios administrados durante a gravidez. Mas minha mãe é teimosa. Decidiu, e convenceu todo mundo.
 
Eu nasci prematura, mas saudável. Minha mãe biológica morreu poucos dias depois. Mas a vida tira e depois dá (brega, porém verdadeiro). Ganhei uma família enorme. Minha irmã mais velha morava na Europa e veio de surpresa me conhecer. Minha mãe perguntou pra ela se acreditava que eu teria no futuro muitos complexos por ser adotada. Com o humor de sempre, minha irmã respondeu que todo adolescente é problemático, eu pelo menos não precisaria inventar os tais “problemas”.
 
Sempre soube que fui adotada, até mesmo porque convivo com minha família biológica. No começo, minha mãe não sabia se eu deveria chamá-la dessa forma. Afinal, ela conheceu minha mãe biológica, não sabia se estaria de algum modo roubando a cena. Mas a decisão foi minha. Antes mesmo de fazer um ano, me segurei na grade do berço, olhei pra ela e disse minha primeira palavra: mamãe. Pronto, foi decretado. Eu a escolhi como mãe, embora carregue sempre um grande carinho pela mulher que lutou contra o câncer para me dar tempo de nascer saudável, aos sete meses.
 
Quando criança, o fato em si de ser adotada não me chateava. Como minhas irmãs eram adultas, nunca teve nenhum tipo de provocação. Teve é proteção, assim como tem até hoje. Se eu perguntava por que não nasci da barriga de minha mãe, ela respondia que já tinha carregado no ventre três filhas, a barriga estava cansada e pediu outra emprestada. Simples. Na escola, me lembro de ter preguiça de explicar toooooda a história para os amiguinhos, então contava só as partes que queria. Algumas vezes até desenhava para facilitar. E nunca ouvi ninguém me chamar de “adotada” – só de “magrela” e “girafa”, é a vida.
 
O que me deixava pra baixo era justamente o modo como a adoção era explorada na mídia. Em toda novela mexicana, até mesmo nos programas infantis, tinha uma ÓRFÃ. A criança mal tratada, abandonada, infeliz. Se a trama fosse feliz, no final o órfão encontrava seus pais “verdadeiros”. Acho que isso em parte criava (e ainda cria) aquele mito do adotado. O irmão mais velho que tenta convencer o mais novo que não é filho “verdadeiro”. Uma vez chorei porque era órfã em termos biológicos, e minha mãe disse “e daí, eu também sou, seus avós já morreram”. Entendi então que a maior parte das pessoas provavelmente vai perder seus pais, se a vida seguir seu rumo natural. Eu tive a sorte de ganhar pais novinhos em folha, olha só!
 
Acho importante abordar o tema da adoção na mídia. Os entraves burocráticos para quem deseja adotar, as condições em que as crianças sob a tutela do estado vivem, a licença maternidade e paternidade igual para qualquer pai que tem a sorte de ganhar um filho. Mas acho fundamental o cuidado com os termos preconceituosos, muitas vezes tidos como algo corriqueiro para quem não pensou no assunto a fundo. Não é preciosismo, discussão semiótica ou linguística. É respeito por pais e seus filhos, todos eles de verdade, com amor real, problemas rotineiros e sentimentos verdadeiros. Não importa de qual barriga vieram.
Margarida Telles é repórter de ÉPOCA em São Paulo.
 
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A menina que não quis ser adotada

Este texto foi escrito por uma jovem que, quando mais nova, atendi algumas vezes quando era perita de uma Vara da infância e juventude no Brasil. Ela me pediu que o publicasse. Talvez na tentativa de achar a sua mãe.
Observem a fidelidade e aliança que ela tem com a figura materna. Ela, de fato, nunca aceitaria a adoção.
É o outro lado, para a gente ver como funciona.
A partir do terceiro parágrafo ela começa a contar a sua história de modo objetivo.
Eu fiz algumas correções ortográficas, mas não muitas para não descaracterizar o texto. Tirei todos os nomes próprios, incluisve dos abrigos onde ela passou e de lugares que pudessem identificá-la por outros, que não a própria mãe.
Boa leitura. Para a gente fica a reflexão e o respeito por esta jovem, que decidiu doar a vida a procura da mãe perdida, que nunca se despediu dela.
We heart it

Viva a Vida
Sei que a partir do momento que você posta algo sobre você, algo pessoal, esse algo sobre você, fica exposto para que todos vejam mais eu decidi me abrir com o mundo passar um pouco do que vivi através das palavras, mas não julguem estamos aptos a erros, passados e lembranças, afinal a vida muda a cada minuto... Falamos tanto em status e não nos preocupamos com o  necessário, aquilo que construímos de nós mesmo, definir é o que tempo faz com cada um de nós, porém se basear no que a mídia quer que você seja é uma forma de plagiar o que quer ser e não o que realmente se é, porém não me encaixo nesse padrão plagiar, para  a maioria é tão simples julgar quando na verdade não se sabe o que se passa dentro de cada mente, de cada ser e cada vivência.
Na vida aprendemos que nada é como queremos, porém toda experiência é um aprendizado único da qual partilharemos e aprenderemos que nada se julga antes mesmo de ser conhecido, pois todo obstáculo contém uma enorme quantidade de aprendizado, onde nada se perde e tudo se aprende!
Tudo começou quando minha mãe se envolveu com pessoas erradas, tal amiga dela, que dizia ser amiga, mas quando estávamos em casa essa que se dizia SER amiga tentou matá-la, mas minha única sorte é que eu estava dormindo e minha mãe estava acordada, só que quando ela ouviu chiados e olhou pela brecha da janela, ela viu a tal amiga armada descendo com dois rapazes para matá-la, então se pôs embaixo da cama e rezou para que jamais a encontrasse, arrombaram a porta, mas por algo forte não acordei, não sei pela graça de quem... E minha mãe debaixo da cama desesperada, orando para que nada me acontecesse, eles haviam pensado que ela havia saído e me deixado em casa trancada... Apenas olharam e saíram, pois naquela época eu era pequena, quando saíram minha mãe desesperada enrolou de uma ladeira abaixo atrás de ajuda, mais a única que pôde nos ajudar era uma vizinha, que via meus prantos de medo e aflição... Aprendemos que nada na vida é em vão, de tudo se obtém um aprendizado!

Então minha mãe decidiu viajar sem permissão dos meus familiares para um lugar chamado Salvador (Bahia), como era pequena não podia recusar pensava em apenas estar com ela, pois a amava e a amo. Digito isso com lágrimas nos olhos que a cada palavra me fazem derramar o que sinto. Viajamos de carona ela com malas na mão e correndo risco com apenas uma criança que jamais sabia para onde estava indo, por muitas vezes tive que dormir na rua, até que então cheguei a Bahia, em Salvador, ou seja, no 2 de Julho, onde minha mãe passou a usar químicas e a se prostitui devido a falta de grana, e ela me tratava com muito amor e carinho apesar disso, mas como ela trabalhava a noite ela me deixava com alguém, mas que também se metia em muitas confusões, que por várias vezes vi minha mãe ser agredida por homens onde nada pude fazer, mas haviam coisas como as drogas que tornavam minha mãe uma pessoa agressiva e violenta, ela me batia quando estava sob efeito.. até que um dia eu fugi de casa, fui pra rodoviária, com o intuito de voltar para Recife para onde estavam meus dois irmão e minha família, mas foi quando o Juizado me pegou e minha mãe que nem uma desesperada a minha procura sem saber onde estava, foi que me puseram no abrigo para menores chamado (...).
E muitos diziam que minha mãe voltaria para me buscar, mas sempre me pus a esperar e nada, e nesse abrigo entrei com 9 anos de idade fiquei nele por anos à esperar e nada de minha mãe aparecer, até que me puseram para adoção, só que não fiquei, pois a única coisa a ficar em minha mente era voltar para minha mãe, fui para muitos psicólogos e os anos iam se passando quando tentaram me adotar mais uma vez e aí embarquei só que não fiquei pois ainda me perturbava o fato de que se minha mãe for no Juizado me procurar, eu estando adotada, ela jamais me encontraria, então fui para um outro abrigo, ou seja, orfanato para meninas, só que de freira a (...), onde fiquei com 15 anos de idade. Fugi e me pegaram, mas me puseram em outro abrigo (...), mas dessa vez fugi e jamais conseguiram me encontrar, porém o tempo me mostrou que não existe impossibilidade quando se tem um sonho e quando lutamos por ele, foi o que ocorreu ao me levar para perto da pessoa mais íntima de minha mãe biológica, mas logo em seguida soube da parte dela que minha mãe havia sumido, mas acredito que o tempo é sábio e esperar é um dom que Deus me permitiu possuir e, às vezes, o medo de me deparar com uma realidade cruel me domina, é algo que vai além de qualquer crença, porém explicar ainda é complexo, fugir pra tentar construir uma vida e procurar minha  mãe.
Encontrei meu ex-marido que me ajudou e me ensinou o que é a vida, passei fome, fui humilhada, fiquei como uma andarilha na casa de um e outro, mas meu único refúgio era (...) onde aprendi que pra ser feliz não precisa de dinheiro, que a felicidade se manifesta nas pequenas coisas que Deus nos oferece, não por querer, porém aprendi a encarar as coisas como aprendizado, porém evitar os erros ainda é inevitável, mais por falta de opção, mas minha vida hoje, digo de minha infância pra cá, foram e está sendo o maior inferno, pois não tenho conseguido superar mais nada, pois minha vida está parada, pois meus documentos estão na mão do Ministério Público, onde ele dará apenas a um namorado meu, só que de maior.
Tenho tentado esconder mas em meu rosto demonstra o rosto de cansado e um olhar amargurado, muitas pessoas podem me olhar com olhar criticado, mas se tem uma coisa a qual busco são objetivos que venho tentando encontrar! OU SEJA, MÃE, ONDE VOCÊ ESTÁ?!

É na caminhada do fracasso que aprendemos a valorizar pequenas conquistas e que conhecimento não se adquire do nada, é necessário passar primeiro pela linha do fracasso para se obter conhecimento, saberia não se dá, se conquista!
Voltei ao abrigo onde convivi por um longo tempo, revi pessoas e ouvir negatividades da parte das pessoas. Se você não acredita em si mesmo as pessoas nunca poderão acreditar, escolher entre o sucesso e o fracasso, optaria pelo fracasso, pois é com ele que você aprende a valorizar as pequenas vitórias que a vida te dá, e aprende que sorrisos às vezes vem de pessoas que não nos querem bem, por trás de sorrisos pode haver maldades.
Devemos encarar as circunstâncias como pequenos passos para um futuro brilhante, nenhum vencedor chega ao ponto de chegada sem antes ter passado pela linha do fracasso, somos seres em busca de horizontes, experiências e aprendizado, e chorar não é admitir o fracasso, mas ter a coragem de abrir com os olhos o que o coração não pode dizer com as palavras, e amar o próximo deve estar além de qualquer circunstância, por mais magoada(o) que você fique e por mais que as pessoas machuquem, por que deixar de amar é como deixar de existir, e na caminhada percorrida as pessoas nunca vão admitir nossas qualidades, elas sempre observarão nosso defeitos e apontarão sempre nossos erros, e aprenda a ser sempre você sem diminuir os outros, pois da mesma forma que se pode estar por cima, pode estar por baixo, a vida é um jogo da qual as coisas planejadas nunca saem conforme dito, a vida sempre dá um jeito de nos surpreender, e saudades deixam aqueles que partem sem se despedir, e partir sem dizer adeus é uma forma de deixar um até logo.
As circunstâncias foram longas e os obstáculos cada vez maiores, me impulsionando á desistência, e a dor dentro de mim passou a ser maior, então optei pelo ato mutilátorio (cortes), que para muitos foram atos de tolice, sem questionar o que havia por trás de tal ato, somos seres questionadores em busca de soluções óbvias acerca da vida, erramos e aprendemos com isso, mas as pessoas que nos cercam nos condenam como feito erro eterno, as pessoas julgam as outras se olhando no reflexo do próprio espelho, definição é o que na verdade não temos acerca de nós mesmo, nos destruímos, cigarros, bebidas, drogas é o que nos faz parecer diante daquele que tachamos como tolo.
Foram tentativas, medo, ódio e ao mesmo tempo amor e desejo em busca de um futuro incerto, você nunca saberá se não tentar, mas em meio aos caminhos tortuosos encontrei pessoas que se puseram a me ajudar, e pela minha criatividade de escrita muitos foram os que duvidaram do que passei, mas tenho certeza que minha vida não se baseia nas dúvidas das pessoas, mas no aprendizado, aprendi a reconhecer a grandiosidade de Deus nas pequenas coisas acrescentadas a mim, e ao contrário do ano 2010, meu 2011 está sendo repletos de conquistas, aprendizados e pessoas que durante toda á minha trajetória nunca me deixaram de lado e sempre me aceitaram da forma que sou, enquanto a sociedade julga-me pela aparência os verdadeiros me julgam  pelo que sou, porém somos quem quisermos ser!
Aprendemos que não se pode mudar  o passado, porém o  presente existe para se fazer diferença!

E na caminhada sempre há experiências que deixa cicatrizes, uma ferida nunca sara sem deixar pequenas cicatrizes assim são as experiências o tempo não é capaz de curar apenas ameniza, mas deixam aprendizado, assim como a sabedoria que não se compra, mas se adquire ao logo do tempo, dando a cada um de nós um pouco de maturidade e por muitas vezes por escolha optei por estar só, tentei esconder de muitas pessoas quem sou por causa de muitos medos, mas devemos ser nós mesmos sem nos mascarar por que por mais que o tempo demore as máscaras sempre caem!
(O nome da autora é protegido)

sábado, 6 de agosto de 2011

Luta de mãe: "Perdi a guarda das minhas filhas"

Conheça a história de Tatiana, que há dois anos e meio perdeu o direito de viver com suas filhas e agora luta para recuperá-las.

Foto: David Santos Jr / Foto Arena
Tatiana abraça suas filhas em visita ao abrigo em São Paulo

Carina Martins, iG São Paulo | 08/04/2010 17:04

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Usando vestidos cor-de-rosa novinhos e sem conseguir parar quietas junto à mãe, as duas filhas mais jovens da bilheteira de cinema Tatiana Aguiar, 33, não disfarçavam a expectativa para uma sessão de fotos em família. A animação das meninas só tornou mais difícil a tarefa de revelar que elas teriam que esconder o rostinho em algumas das poses – as filhas de Tatiana não podem aparecer na reportagem porque há dois anos e meio vivem em um abrigo na zona oeste de São Paulo.

No abrigo, todo mundo tem festa de aniversário, e não tem isso de comemoração coletiva: cada um tem direito a “Parabéns a Você” individual e no dia certo. Mas não há comemoração de Dia das Mães nem Dia dos Pais. Não que os pais não existam, já que a grande maioria das 60 crianças que vivem divididas nas três unidades do Lar Escola Cairbar Schutel tem família. “É que eles não vêm”, explica uma das funcionárias, que prefere não se identificar. Por isso o comportamento de Tatiana chama a atenção da equipe da instituição. Desde que perdeu a guarda das filhas, há dois anos e meio, ela só deixou de aparecer em três dias de visita, e porque estava doente. “Os poucos pais que vêm em geral ficam aqui das 15h às 17h de domingo, e olhando no relógio. Ela chega cedo e leva as meninas para passar o dia em casa toda semana. Nos feriados e nas férias, o juiz autoriza que elas fiquem direto com ela, em casa”, conta.

“Ela está lutando”

Tatiana perdeu a guarda das meninas após ter sido diagnosticada com depressão e síndrome do pânico. O próprio irmão foi ao fórum depor recomendando que as crianças fossem para a tutela do Estado, e ela admite sem hesitar que, na época, realmente não tinha condição de cuidar das meninas – Tatiana tem ainda uma filha de 12 anos que já voltou a viver com ela depois de ficar um ano sob a guarda de parentes. Agora, já com alta do INSS, ela luta para levar as filhas de volta para casa.

Quando uma mãe perde a guarda dos filhos, a história que leva a esse desfecho nunca é bonita. O caso de Tatiana não é diferente. Ela diz que vivia há quatro anos com o pai da filha caçula quando a mais velha, que sempre tinha sido apegada ao padrasto, começou a entrar em pânico diante da ideia de ficar sozinha com ele quando a mãe saía para trabalhar. “Ela estava muito estranha e eu apertava ela, tentava descobrir o que estava acontecendo”, diz. Depois de muita insistência, a menina teria dito para a avó, e depois para a mãe, que vinha sofrendo avanços sexuais do padrasto.

“Perguntei por que ela não me avisou, disse que a mãe ia proteger ela”.

A menina, na época com 8 anos, atribuiu seu silêncio ao medo de que o padrasto matasse a mãe. “Ela me falou isso, e eu imediatamente coloquei as coisas dele numa mala e deixei na casa das irmãs”, relata. “Já estava querendo me separar, depois disso acabou de vez, na hora.”

Tatiana livrou-se do agressor e passou a ter que cuidar sozinha das três filhas. “Arrumei uma pessoa para olhar as meninas enquanto eu estava trabalhando, mas não tinha condições. Eu ganhava 400 e poucos reais para pagar aluguel, pagar gente para cuidar delas, fazer as despesas de casa. Eu não estava aguentando”, diz. “O juiz estipulou que meu ex-marido tinha que dar cerca de 100 reais por mês, com base no salário que ele disse ganhar na época. Mesmo assim, pagou só três meses e depois não pagou mais.” As meninas são fruto de três relacionamentos diferentes e, segundo Tatiana, apenas um dos pais paga pensão. Sem dinheiro, ela não tinha mais como garantir alguém para cuidar das meninas enquanto trabalhava.

“Eu ficava com minha cabeça atordoada, com meu pensamento no serviço e nas meninas. Elas estavam com 2, 3 e 8 anos, eram pequenininhas. Uma vez, fui obrigada a deixá-las três dias sozinhas em casa”, afirma. “Aí que minha cabeça ficou mesmo a mil. Pensei: 'Meu Deus, o que é que eu vou fazer agora? Eu não posso deixar de trabalhar e não posso deixar-las sozinhas’.”

“Foi quando me deu um surto lá no serviço”

O “surto” foi a crise que culminou em seu diagnóstico de depressão e síndrome do pânico. Depois do episódio, ela foi afastada do emprego e chegou a ficar dois meses internada em uma clínica. As filhas ainda ficaram um ano com ela, mas Tatiana estava longe da recuperação. “Não conseguia sair de casa, parei de levá-las à escola, à creche.” Chamado pela Justiça, o irmão de Tatiana não mentiu. “Ele contou toda minha vida, disse que eu não estava tomando conta das crianças direito. Eu estava doente, não estava conseguindo tomar conta nem de mim mesma.” Mesmo sabendo que realmente estava com dificuldades para cuidar da família, foi duro para Tatiana ver o irmão ter um papel tão central na separação das filhas. "Por um tempo fiquei com mágoa dele, mas depois resolvi entregar nas mãos de Deus. Não adianta ter mágoa nem ressentimento, quem deve cobrar as coisas dele, se ele foi certo ou errado, é Deus e não eu."

“Então pegaram elas de mim”

Até hoje, o pior dia para Tatiana ainda é o da separação. “Quando as deixei no fórum e fui embora, achei que nunca iam me devolver, que nunca mais ia ficar com elas.” Assim que as meninas foram colocadas no abrigo, ela se preparou para a primeira visita. “Foi uma emoção muito grande, mas quando eu vi que só iam me deixar passar duas horinhas, que ia ter que deixá-las de volta ali, bateu o desespero.” Tem sido assim desde então. “É uma dor muito grande, porque eu tenho que deixar dois pedaços de mim. Eu sei que elas estão bem, são bem cuidadas, mas são dois pedaços de mim aqui.”

"Aí que eu decaí, fiquei mal mesmo"

O baque da separação, ela diz, afetou sua recuperação. "Fiquei sem as três, desabou tudo. A recuperação foi bem difícil, tive que arrancar forças de onde não tinha. Pensava: tenho que lutar pelas minhas filhas, não posso deixá-las longe de mim, tenho que fazer alguma coisa.” Tatiana começou a fazer terapia, ter acompanhamento psicológico, tomar remédios e se ocupar com, por exemplo, aulas de artesanato no educandário Dom Duarte. Aos poucos, foi se recuperando.

Ter as meninas longe de seus olhos causa mais que saudade. Mesmo satisfeita com o tratamento que as filhas têm recebido, não estar presente em seu dia a dia provoca preocupações. Tatiana fala, por exemplo, da angústia que sente quando as meninas aparecem com algum machucado, que ela nunca tem como saber com certeza o que provocou. “Na outra casa que elas viviam, tinha muito mais crianças. Já cheguei lá e vi as meninas com pontos no rosto, no queixo, com roxo no braço. Elas diziam que tinham caído da cama ou apanhado de uma criança mais velha. Fico superchateada.”

Atualmente, com a recente alta do INSS e construindo uma casa em cima da casa da avó, Tatiana está prestes a passar por uma perícia para confirmar se ela está apta para voltar ao trabalho, o primeiro passo para recuperar a guarda das meninas. A boa notícia, no entanto, é agridoce, já que antes de poder começar a procurar um novo emprego, ela terá que voltar ao antigo. “Não quero mais ficar num ambiente daquele, porque ali não é um cinema familiar. É um cinema pornográfico. Não gosto desse tipo de ambiente. E ao mesmo tempo eu preciso de um trabalho”, conta, sem esconder a aflição.

“Agora estou bem. Depois da perícia, vou começar a trabalhar, e eles vão vendo como eu estou. Tendo uma moradia, já consigo trazê-las. Só falta arrumar outro trabalho. Eu espero que elas voltem ainda neste ano para ficar comigo. É o que eu mais quero. Do fim do ano não passa.”

Fonte: iG São Paulo


Postado Por Cintia Liana

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mães não entregam seus filhos à VIJ com medo do filho crescer num abrigo

Google Imagens

Esta tarde escrevi isso em meu facebook, como desabafo:
"Gente, é um absurdo como a justiça brasileira é lenta para fazer uma adoção internacional. Vejo até profissionais desistindo de trabalhar nesta área. O Judiciário espera a criança fazer 10 anos para indicá-la para adoção, ficam amarrando as vidas dos pequenos seres, depois de se ter tentado mil vezes reinserí-la em sua família de origem adoecida, viciada e que diz claramente que não a quer por anos. Depois tentam inserí-la em família brasileira que deseja adotar crianças um pouco menores. Quando a criança está com 12, 14 anos a indicam para adoção internacional e até este momento sequer ainda fizeram a destituição do poder familiar dela. Com 12, 14 anos nenhum extrangeiro quer mais adotá-la porque identificam um adolescente. Sabe o que eu chamo isso? Crime! A justiça está acabando com as vidas de nossas crianças e nós fazemos o quê? O que podemos fazer? Fico INDIGNADA!

Mais tarde, por um acaso, uma jovem grávida me escreveu:
"Estou gravida de 7 meses e não posso ficar com o bebê, não sei o que fazer, gostaria muito de entregá-lo para adoção, mas para um casal que queira muito ter um filho e não deixar no abrigo enquanto cresce e não é adotado. Mas quero que tudo seja feito dentro da lei, por favor estou desesperada me ajude."

Eu respondi:
..., quando o teu filho nascer o Juizado fará uma rápida investigação se de fato não há ninguém de tua família que o queira, porque é de direito da criança permanecer na família onde nasceu e depois, se ninguém puder ficar com ela, é que será entregue ao primeiro da fila de adoção da vara da infância e juventude de tua cidade.

Ele será entregue a uma pessoa já habilitada e preparada para recebê-lo, tem gente esperando na fila com muito amor para dar, pessoas que já foram avaliadas até psicologicamente.

Vc tem que ter cuidado porque se o casal ainda não é habilitado fica difícil do Juiz dar a adoção a ele. Se vc quer muito que um casal que você conheça fique com teu filho então ele tem que se habilitar antes e passar por tudo que é necessário para adotar, mesmo assim o juiz vai querer que respeitem a fila.

Eu não posso indicar ninguém, isso seria burlar a fila e geraria um grande problema, pois não é previsto em lei e eu não tenho poder para fazer isso, só um Juiz.

Você também não viu as reportagens de juízes tomando crianças que foram entregues diretamente a casais que não eram habilitados?
Então você deve tomar cuidado com isso. A única coisa a fazer é: quando o teu filho nascer você procurar as assistentes sociais da vara da infância e mesmo assim até lá você pode mudar de idéia quanto ao teu desejo de fazer um plano de adoção para o teu filho.
Se precisar de mais alguma coisa me escreva.
Um abraço.

Resumo da história, essa jovem grávida não acredita na Justiça, acha que o bebê vai acabar crescendo no abrigo. Não tiro a sua razão.
Esta é a Justiça brasileira atual. Nova lei? Que lei?

Por Cintia Liana

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Nas Trilhas de João e Maria

Foto: Google Imagens

Por Lídia Weber

Breve reflexão sobre o abandono de crianças no Brasil

Em um país não muito distante, numa época de grande carestia, viviam um lenhador, seus dois filhos e a madrasta deles – muito malvada e sem coração, um jargão da representação das madrastas das histórias infantis. Chegou uma época em que o preço das coisas subiu demais, a comida foi acabando e a mulher teve a cruel idéia de diminuir os gastos abandonando João e Maria no meio da floresta. O pai ficou com o coração partido mas acabou concordando com a esposa.

Um dia de inverno de 1997 na cidade de Curitiba. Eram 6h30 quando uma moradora do bairro de Uberaba ouviu um som parecido com um choro de criança. Ao verificar no terreno baldio existente ao lado de sua casa, avistou um bebê recém-nascido junto a um monte de lixo.

Sofia é uma menina de 10 anos de idade e mora em orfanatos desde os dois anos. No seu prontuário consta que a sua mãe, que tinha mais três filhos, a deixou lá "somente por um tempo, até encontrar um emprego". Hoje Sofia tem o adjetivo de "institucionalizada", pois sua mãe nunca mais voltou para buscá-la. Ela não sabe responder porque está morando em um orfanato e não lembra nem de sua mãe nem de seus irmãos. Nesses oito anos, ela já morou em três instituições diferentes e nunca recebeu visita de ninguém. Quando lhe perguntamos qual era o seu maior desejo, o maior presente que ela poderia ganhar, Sofia respondeu: "Uma família". Depois de alguns segundos pensativa, ela completou: "eu queria alguém que me chamasse de filha, queria dormir numa cama aconchegante e ser feliz para sempre".

Três dramas humanos. Três histórias. Qual é a mais improvável? Sempre ouvimos dizer que a arte e a literatura representam a vida, e isso também ocorre, diretamente ou simbolicamente, em historietas infantis. Para compreendermos os determinantes das duas histórias verídicas, tão próximas do conto de fadas escrito pelos Irmãos Grimm no século passado, é preciso não esquecer da realidade brasileira. Não é possível analisar somente as variáveis psicológicas e emocionais da mãe que abandona, especialmente quando ela mora em um país onde boa parte da população pode ser considerada abandonada pelo Estado. Ainda assim, como é possível que uma mãe, que tenha carregado um filho em seu próprio corpo jogue-o no lixo ou deixe-o em uma instituição e nunca venha sequer visitá-lo? Como podemos definir "abandono"? Entrega, renúncia, desamparo? Uma mãe que entrega o seu filho para adoção é diferente daquela que joga o seu filho no lixo?

Essa é uma questão cuja resposta é extremamente complexa e é preciso tomar cuidado para não se julgar esta atitude somente como uma transgressão moral (Ariès, 1978 e Badinter, 1980) ou um distúrbio patológico (Martínez Ruiz & Paúl Ochotorena, 1993; Audusseau-Pouchard, 1997). Existe uma rede de determinantes, tais como as de nível sócio-econômico, estrutrais, psicossociais, culturais, entre outras. É preciso analisar não somente a mãe que abandona, mas as condições abandonantes de sua existência.

E as condições sociais do Brasil?... O Brasil está na 10ª posição em relação à economia internacional, mas, apesar do desenvolvimento econômico a sua estrutura social não sofreu evolução, fazendo com que se tornasse o campeão mundial da desigualdade. De acordo com dados do Banco Mundial, temos a pior concentração de renda do planeta, pois 10% dos mais ricos detém 54% da renda nacional; a concentração de terra ainda é maior do que a concentração de renda: a metade das terras está nas mãos de 2% dos proprietários. Os dados mostram que 59% da população são pobres e excluídos; existem 19 milhões de analfabetos no país; quase quatro milhões de crianças entre 5 e 14 anos trabalham (o que é proibido pela Constituição), geralmente num processo de exploração de mão de obra barata, e deixam de conhecer a infância e, estamos em segundo lugar no mundo em relação à prostituição infantil, que geralmente passa de mãe para filha, num processo de escravidão virtual.

O que pode levar uma mãe a chegar ao ponto de desistir de um filho e deixá-lo em um terreno baldio? A questão não é simples: exclusão, impossibilidade de abortar legalmente, incredulidade em relação às autoridades competentes que poderiam levá-la a entregar o filho nos Juizados da Infância e da Juventude, medo, ausência de amor, falta de estrutura familiar, desespero... Como nesses casos, a mãe dificilmente é localizada, torna-se impossível traçar seu perfil, mas é possível traçar um paralelo com o perfil das mães que doam o seu bebê para adoção: solteira, mais de 20 anos, educação primária incompleta, trabalha esporadicamente como empregada doméstica e não conta com o apoio da família extensa. Geralmente ela engravida em uma relação eventual e, na maior parte dos casos, essa mãe doadora já teve outros filhos, que também foram doados ou estão em instituições.

Talvez a organização psíquica de uma mãe que não vê perspectivas em melhorar de vida e que não tem espaço nem para o sofrimento, comece a desmoronar. Essa mãe que a todo momento está recebendo claras mensagens sociais de que ela não tem como sair do seu estado de miséria, cujas necessidades básicas e direitos como cidadã estão fora do seu alcance e que está sob uma doutrina de dominação, tem grande probabilidade de fazer coisas violentas e primitivas. É uma perpetuação de um ciclo cruel: o abandonado abandona. Não lhe foram proporcionadas chances de construir vínculos sócio-afetivos em sua existência.

O abandono de crianças nos orfanatos é um tragédia de igual proporção. A princípio, a institucionalização foi criada com o objetivo de "proteger a infância", mas o que tal medida consegue de fato é somente a segregação/exclusão de "produtos sociais indesejáveis. Estimativas não oficiais indicam que cerca de um milhão de crianças estão sendo atendidas por instituições, eufemisticamente chamadas de Unidades de Abrigo, sendo a maioria mantida por entidades religiosas. Na primeira pesquisa (Weber e Kossobudzki, 1996) realizada com a totalidade das crianças e adolescentes de um Estado do país (Paraná) os dados revelaram que a maioria absoluta dos internos (64%) têm entre 7 e 17 anos e o que menos há nesses orfanatos são crianças órfãs. Somente 5% são órfãs bilaterais e somente 14% das crianças vieram de um lar onde o pai e a mãe estavam vivendo juntos. O restante dos internos provém de famílias monoparentais, chefiadas por mulheres (a maior parte foi abandonada pelo marido e outra parte refere-se à mães solteiras). Assim como na história de João e Maria, a crise do abandono nos orfanatos é desencadeada, primordialmente por "falta de recursos financeiros". Assim como no conto de fadas existe a bela casa da bruxa, na vida real as crianças vão para instituições e recebem cama e comida. No caso da história infantil, a bruxa quer devorar as crianças. No caso da realidade, a própria vida encarrega-se disso.

A princípio o internamento é colocado como uma medida a curto prazo. No entanto, como a existência de outros meios que auxiliem estas famílias a manter os filhos junto de si são ainda incipientes, a prática da institucionalização tem se mostrado um incentivo ao abandono. Crianças e adolescentes institucionalizados, que estavam há mais de um ano sem receber visitas de sua família, foram entrevistados (Weber, 1996) e verificou-se que cerca de 70% deles nunca receberam visitas e, os outros 30%, receberam algumas visitas no início, mas elas cessaram por completo. Geralmente a família desaparece para não ser encontrada pelo Serviço Social. Ainda existe outra tragédia na vida dessas crianças: o descaso das autoridades competentes (Instituições de Abrigo, poder Judiciário e Promotoria Pública) em relação à tutela dessas crianças. Supõem-se que se não foi possível um retorno à sua família de origem, se elas estão abandonadas, então podem ser colocadas para a adoção, certo? Errado. Apesar de estarem esquecidas nas instituições, de não receberem visitas de sua família e do seu maior desejo configurar-se na adoção, somente 8% dos pais dessas crianças foram destituídos do pátrio poder e somente elas estão legalmente disponíveis para adoção. As outras crianças, que nunca sequer receberam uma visita de suas famílias, não são consideradas oficialmente "abandonadas", pois seus pais ainda detém o pátrio poder. Poderiam ser classificadas como "esquecidas", "filhos de ninguém", "filhos do Estado" ou alguma outra expressão que possa defina a falta de compreensão sobre o desenvolvimento infantil, a lentidão burocrática e o desapreço dos poderes constituídos.

O Brasil, apesar de ter sido o último país a acabar com a escravidão e com a Roda dos Enjeitados foi o primeiro país a criar uma lei específica para crianças e adolescentes após a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança em 1989. Em 1990 foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, um dos mecanismos mais avançados do mundo de proteção à infância, fruto de uma grande mobilização da sociedade civil. No entanto, percebe-se que não basta haver leis se os mecanismos sociais que produzem as tragédias não são modificados. Na história de João e Maria, os dois irmãos conseguiram escapar da instituição, digo, da enganosa casa da bruxa, voltaram para casa e para seu pai (a madrastra havia morrido). O bebê encontrado no terreno baldio foi levado a um hospital, está fora de perigo e existem muitos candidatos à sua adoção. A menina Sofia continua na casa da bruxa, digo, na instituição. Ela é considerada uma "criança inadotável" aqui no Brasil. Ela, como Pandora, tem sempre esperança...

Para haver mudanças significativas, é preciso uma conscientização social para um compromisso verdadeiro, e não virtual, de todos os segmentos da população. E o psicólogo deve fazer parte deste compromisso. E mais ainda. O compromisso do psicólogo não deve ser apenas de natureza assistencialista ou paternalista. A sua participação deve ser em ajudar a promover esta consciência social frente à exclusão. Não adianta somente revoltar-se, ou como ressalta Jabor (1997), dizer que a injustiça é sempre feita pelos "outros" e sentir-se salvo por ter-se indignado e esquecer o assunto. Todos os "excluídos" querem ser constantemente lembrados. É preciso falar deles, pensar neles, e procurar encontrar meios de engajamento, principalmente quando se fala de crianças. Denunciar as injustiças e repensar a miséria e a tragédia cotidiana dessas crianças é uma reivindicação dos direitos da infância, mas também e simplesmente o direito à infância. Todos nós, os "incluídos", psicólogos principalmente, devemos parar de dizer que nós não sabíamos...

Referências Bibliográficas:
Ariès, P. (1978). L'enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime. Paris: Editions du Seuil.
Audusseau-Pouchard, M. (1997). Adoptar um hijo hoy. Barcelona: Editorial Planeta.
Badinter, E. (1980). L'amour en plus. Paris: Flammarion.
Jabor, A (1997). Sanduíches de realidade. Rio de Janeiro: Objetiva.
Martínez Roig, A & Paúl Ochotorena, J. (1993). Maltrato y abandono en la infancia. Barcelona: Martínez Roca.
Weber, L.N.D. (1996). Des enfants sans famille au Brésil. XXVI Congrès International de Psychologie. Montreal, 16-21 août.
Weber, L.N.D. & Kossobudzki, L.H.M. (1996). Filhos da solidão: institucionalização, abandono e adoção. Curitiba: Governo do Estado do Paraná/Secretaria da Cultura.

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, Psicóloga (CRP 08/0774); Professora e Pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná; Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo.

Fonte: http://br.geocities.com/jeanprofessor/doutrina.html


Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Uma Linda História de Adoção Internacional

Foto: Cintia Liana com crianças que foram adotadas por um casal italiano.
Publicação da foto devidamente autorizada pelos pais. 

Por Cintia Liana Reis de Silva

Lembro de muitas histórias dentre as mais de 50 adoções internacionais que participei quando trabalhava no Brasil, quase todas com casais italianos, uma delas a de um menino de 8 anos quase 9, que estava para ser inserido em uma família brasiliera, mas sentíamos que os adotantes estavam muito receosos com a idade da criança ou quando manifestava um pouco de agressividade ou mal humor (coisas natutais de quem está se adaptando ou de qualquer outra pessoa) e, por isso, não se "entregavam" ao sentimento do menino, não aproveitavam os momentos, estavam sempre querendo analisar, controlar, estavam com muito desejo de serem pais, mas com muito medo, chegando a ameçar a criança de ser devolvida o que lhe trazia muita insegurança, por conta disso a criança foi retirada e o estágio de convivência (que precede a adoção) chegou ao fim. Foi muito sofrimento para todos, inclusive para o menino.

Ele foi indicado para adoção internacional, eu fiquei encarregada de fazer o acompanhamento psicológico dele e a preparação para a adoção internacional. Ele havia sofrido muito com a “quase adoção” que não foi finalizada, houve uma grande regressão em seu comportamento, estava muito triste, revoltado e chegava ao atendimento quase carregado, ao terminar a sessão no Juizado se recusava a andar e passava quase todo o atendimento embaixo de minha mesa, sem querer falar. No atendimento eu tentava motivá-lo a falar, a brincar com os brinquedos e depois de algum tempo comecei a falar sobre a possibilidade de um futuro diferente, com novos pais e um novo País, isso o interessou. Depois de alguns meses, com a chegada do casal, a criança ainda não havia progredido muito em seu estágio regressivo, ou seja, parecia ter menos idade que do que de fato tinha, mas de algum modo desejava a adoção, seu remédio seria a segurança e o amor incondicional dos novos pais.

Lembro que no início foi complicado porque a criança estava desconfiada se daria certo aquela nova tentativa de inserção em família substituta e continuei os atendimentos, desta vez com todo a família, avaliando todos os passos. Preparei bastante o casal para conseguir dar apoio ao menino, - nesses casos é o mais importante para o vínculo acontecer, os adotantes se fortalecerem e passarem força para a criança - este se mostrou muito receptivo e disposto a motivá-lo e a fortalecê-lo, sem pestanejar tiveram muita paciência e com 10 dias de estágio de convivência começamos a ver excelentes resultados, a criança começou a confiar nos adotantes e a lhes dar atenção de filho, então a criança os adotou.

Lembro que um dia ele apareceu para a sessão com os pais caminhando como um rapazinho, de óculos escuros, se sentou na cadeira na frente da minha e ainda cruzou as pernas como faz normalmente um adulto. Fiquei muito emocionada porque vi semanas antes um menino dilacerado pela dor da rejeição, por não entender as coisas, por não ser grande o suficiente para poder gerir sua própria vida e sim depender de todos os outros adultos para tomarem as decisões que julgavam ser as mais sábias e saudáveis para ele e semanas depois vi um pequeno rapaz caminhando de cabeça erguida, feliz, exibindo seus novos óculos escuros e dizendo que era meu namorado. Muito engraçado é passar de uma criança regredida, que se nega a andar à namorado de psicóloga de 30 anos na época, é uma grande escalada ou não é? Simbolicamente é claro, é uma grande transição num curtíssimo espaço de tempo e isso é o que o amor faz, faz o que muitos chamam de milagre.

Há pouco tempo recebi fotos dele na neve brincando com os pais, em outra foto estava feliz brincando com os primos.

Uma criança que não tinha chances de ser adotada no Brasil hoje vive como cidadão italiano de direito, com pais italianos amorosos e orgulhosos deste filho trazido de tão longe, o filho esperado e desejado por tanto tempo, que hoje cresce tranquilo, saudável e feliz na Itália.

Cintia Liana Reis de Silva
É Psicóloga formada em 2000 pela PUC-Campinas, é especialista em Psicologia Conjugal e Familiar pela Faculdade Ruy Barbosa, trabalha com adoção desde 2002, foi perita contratada do Tribunal de Justiça para uma Vara da Infância e Juventude do Brasil por 4 anos quando coordenou o serviço de psicologia, onde também trabalhou antes por 4 anos como voluntária e agora atua na Itália como coordenadora das adoções de criança brasileiras de uma entidade de adoção internacional, http://www.adozionisenzafrontiere.org. Seu blog é o www.psicologiaeadocao.blogspot.com e seu e-mail para contato é cintialrdesilva@yahoo.com.
Por Cintia Liana

terça-feira, 19 de outubro de 2010

História de adoção: Depois de anos de espera, enfim a Duda

Foto: Google Imagens

Escrito para o Baby Center Brasil

Após dois anos de casamento, resolvemos ter o nosso primeiro bebê. Parei o contraceptivo e, como não engravidava, meu ginecologista pediu alguns exames para mim e para meu marido. De acordo com os resultados, eu poderia engravidar.

Fiz uma estimulação dos ovários por mais ou menos oito meses, tomando medicamentos todos os meses. A cada mês uma expectativa, e nada!

Fui a outro ginecologista que me pediu mais exames e sugeriu uma cirurgia para dilatar o colo do útero. Fiz a cirurgia, fiquei dois dias internada e depois de algum tempo comecei a estimulação dos ovários novamente por mais um ano, mas sem sucesso.

Passei para um especialista, e ele me pediu mais exames complicados e muito dolorosos, como a histerossalpingografia (fiz um total de três), que diagnosticou uma obstrução em uma das trompas.

O médico sugeriu então uma fertilização in vitro. Como o tratamento é caro, entrei em depressão. Foi uma fase muito difícil, eu chorava muito e não suportava ouvir falar em gravidez, achava que todas as mulheres a minha volta conseguiam realizar uma coisa tão natural, menos eu!

Algum tempo depois, uma amiga me indicou outro especialista em infertilidade, que me pediu para repetir vários exames (os que mais doíam). Ele dizia que os exames anteriores eram antigos, com mais de 1 ano, e poderia ter ocorrido alguma mudança (a essa altura eu não sabia se essas mudanças eram para melhor ou pior).

Refiz os exames e ele me indicou o único hospital na época que realizava fertilização in vitro gratuitamente, porém era em São Paulo: o hospital Pérola Byington. Eu morava no Rio.

Eu e meu marido ficamos meses ligando para o hospital à espera da abertura da inscrição e, quando finalmente consegui uma senha, fui várias vezes para lá, viajava a noite toda. Várias vezes, o ano todo.

Finalmente fui me cadastrar na fila de espera para a fertilização, só que, para meu desespero, o número do meu cadastro era 2.235 e a fila estava atendendo o número 332. Além do que, todo o tratamento dependia de verbas do governo de São Paulo.

Um dia voltei chorando durante as seis horas de viagem de São Paulo para o Rio de Janeiro, porque, pelos cálculos que fiz, quando fosse convocada já estaria com mais de 39 anos e a possibilidade de sucesso na fertilização seria menor. Foram meses de choro e depressão, tinha dias que não queria me levantar da cama.


A grande decisão
Somente depois de 10 anos de casados começamos a olhar a adoção como uma opção mais concreta.

Três anos depois do início do processo no Pérola Byington, demos entrada nos documentos para poder participar do processo de habilitação para adoção. Foram dois anos de muita expectativa e ansiedade.

Para o cadastro, preenchemos um questionário com o perfil da criança. Como numa gravidez, não optamos por sexo, somente indicamos a faixa etária de 0 a 2 anos e cor parda ou negra. Para aumentar ainda mais a ansiedade, para essa faixa etária existe uma fila de espera.

Após a habilitação era impossível não me pegar às vezes sonhando acordada que a qualquer momento meu sonho de 10 anos de espera finalmente se realizaria.

Enquanto aguardava, participei (e ainda participo), uma vez por mês, do grupo de apoio à adoção "Adoçando vidas, um projeto de amor", que conta com uma psicóloga e uma assistente social.

Cada mês é abordado um tema diferente escolhido pelo próprio grupo. Todos os temas são voltados para adoção, tutela, adoção tardia, as mudanças que estão acontecendo nas leis e regras para adoção. Sempre que possível convidamos promotores e a juíza do fórum para uma palestra.

Ali trocamos ideias, dúvidas sobre o processo e mantivemos contato com outras pessoas que já tinham adotado ou estavam habilitadas e aguardando o telefonema (os "grávidos", como apelidamos).

Sempre que conversávamos, meu marido e eu fazíamos planos sobre o enxoval e a decoração do quarto. O grupo de apoio foi muito importante porque foi dele que recebemos conselhos de outros casais e orientação para economizar dinheiro e fazer uma poupança para comprarmos as coisas do bebê depois que ele chegasse.

O nosso perfil de bebê era muito abrangente, já que não determinamos o sexo. O que comprar? Azul ou rosa? Saída de maternidade ou roupinhas maiores? Berço ou minicama? Resposta: nada!


Ela chegou!
O telefonema foi num final de tarde, eu estava em casa cozinhando e, assim que a comissária se identificou, minhas pernas começaram a tremer. Ela não entrou diretamente no assunto. Perguntou como nós estávamos e se estávamos muito ansiosos.

Quando ela me disse "estou entrando em contato com você hoje para saber como está o casal e para dizer que temos uma criança dentro do perfil que vocês escolheram..." começaram as "contrações" e entrei em trabalho de parto.

Ela me deu informações sobre a criança: era uma menina de 8 meses. Iríamos conhecê-la no dia seguinte.

Assim que ela desligou, liguei para o trabalho do meu marido e dei um baita susto nele, pois não conseguia falar, eu só chorava. Depois de alguns minutos balbuciei: "Vamos conhecer a nossa filha amanhã".

Não dormi a noite toda, fiquei olhando para o teto tentando imaginar como seria essa menina, se eu iria sentir algo por ela de imediato ou se a convivência é que nos aproximaria.

Tive medo de a criança me estranhar, de chorar ou não aparecer nenhuma afinidade com ela, coisa que pode acontecer. Nesse caso o casal não é obrigado a ficar com a criança, e seu nome volta para a fila de espera.

Mas o momento que vimos o seu rostinho foi emocionante. Meu coração apertou, é uma sensação maravilhosa. Senti que ela era minha, a minha filha. Ela se encaixou completamente nos meus braços como se eles sempre tivessem pertencido a ela.


Hora das compras
Antes de ir conhecê-la, de manhã, corri até a loja de bebês mais próxima para comprar um kit básico, ou kit desespero, com o essencial que você precisa para as primeiras horas, até poder fazer uma lista mais detalhada.

A vendedora me orientou em relação ao tamanho. Comprei uma sandália, dois vestidos cor-de-rosa (é claro), enfeite para o cabelo (e se ela não tiver cabelo?), uma tiara, fraldas, pomada para assadura, toalha, sabonete e banheira rosa (é claro).

Mas a assistente social que a trouxe me entregou uma bolsa com algumas roupinhas, mamadeira e todas as orientações sobre vacinas, alimentação e consultas e exames médicos. Ela veio tão linda e bem vestida que parecia uma boneca.

Como a espera foi de dois anos, tivemos bastante tempo para escolher o nome: Maria Eduarda, lindo e forte como ela.

O resto das compras foi uma correria só, mas com uma alegria imensa. Eu entrava toda orgulhosa nas lojas com minha filha nos braços para escolher roupas, móveis do quarto, objetos de decoração... Tudo o que um casal compra ao longo dos nove meses compramos em uma semana!


Processo em andamento
Estamos juntos há cinco meses e nossa vida mudou completamente. Nossa filha é uma bênção, dorme a noite toda, come muito bem, tem uma saúde perfeita e agora é o centro das atenções. Tudo gira em torno dela.

Ela é o xodó de toda a família, e está completamente adaptada. É um bebê muito risonho.

Estamos ainda com a guarda provisória. Ela é fundamental para o processo de adoção para que haja a verificação de adaptação da criança ao casal e como está a família num todo (como, por exemplo, a criança foi recebida por parentes e amigos).

Nesse período são realizadas entrevistas com psicólogos e, segundo sabemos, a guarda definitiva pode variar de um a dois anos, de acordo com o fórum e o número de processos existentes.

Estamos tão entusiasmos que já pensamos em adotar um irmãozinho para a Duda.


Postado Por Cintia Liana

domingo, 26 de setembro de 2010

História real de adoção homoafetiva - Parte 4

Foto: Google Imagens

Parte 4

5) Bom, o nosso filho foi adotado com 4 anos e 4 meses (está com 7 anos e 4 meses) e a nossa filha nós conhecemos com 6 meses e conseguimos a guarda com 7 (Já tem certidão final também), hoje está com 1 ano e 7 meses.

Nunca sentimos preconceito algum, nem social nem jurídico (acho que tudo é questão de conduta). A escola que o nosso filho estuda (e a nossa filha vai estudar no próximo ano) é muito boa e trabalha com o conceito de respeito as diversidades.

As famílias extensivas e amigos amam os 2 e nada é escondido. O fato de não ser nada escondido também não quer dizer que gostamos de exposição. As poucas vezes que permitimos a publicação de algo teve que ser feito preservando nomes.

Temos aqui muito da presença feminina o que dá de certa forma uma referência feminina para nossos filhos, mas isto é somente um fato e não sei se é tão necessário porém no nosso caso acho bom. Li alguns artigos de psicólogas que falam sobre o assunto e dizem que o que existem são funções de pai e funções de mãe que podem ser exercidas tanto pelo pai quanto pela mãe (ou por ambos). Eu sou o mais rígido dos dois (Característica do Pai) porém sou o que não consegue tirar o olho um minuto com medo que aconteça algo (Característica da mãe).

Para terminar. Espero que um dia termine este termo “adoção homo-afetiva” pois eu sou a favor da adoção por pessoas ou casais que tenham realmente condição de ser pai e/ou mãe, seja esta adoção feitas por solteiros, homossexuais, casal homo-afetivo, casal hetero, adoção inter-racial e todas as formas de adoção aonde realmente exista a adoção de fato, mas sou contra as mesmas adoções quando a pessoa ou casal não tem condições de adotarem de fato. Em resumo, sou contra rótulos como se o simples fato de um casal homo, um casal hetero ou uma pessoa solteira poder ou não adotar, dê ou retire de todos os outros com o mesmo rótulo carimbo de capacidade. Quem vai definir não são os rótulos, e sim o estudo Psicossocial aliado a conduta do adotante.

Abs.

PS: Para quem quer saber mais, nós autorizamos que fosse feito um TCC sobre um estudo de caso (ou seja, deste nosso caso em relação a 1ª adoção ), este TCC foi feito por um psicólogo que, na época, estava terminando o curso de direito (hoje já advogado ). O TCC se transformou em artigo de uma revista jurídica e tem um link na Internet que passo abaixo. A Nosso pedido os nomes foram mudados. Eu sou o João do estudo.

Texto original da exposição (todas as 4 partes expostas aqui também):

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=229210&tid=5486002928856943274&kw=adocao+homoafetiva


Maravilha, João! Obrigada novamente pela contribuição!
Cada vez mais percebo que quando existe preparo e coração aberto todas as portas se abrem!
Um abraço para toda a família!

Postado Por Cintia Liana

sábado, 25 de setembro de 2010

História real de adoção homoafetiva - Parte 3

Foto: Google Imagens

Parte 3

4) A adoção pelo segundo pai: Ligamos para dois grandes amigos do meio jurídico e dissemos o que estávamos querendo fazer e se eles indicavam uma boa advogada que aceitasse a causa com possibilidades de êxito, ambos indicaram a mesma advogada. Então estava resolvido, a contratamos, e o que achávamos que seria uma longa jornada terminou em 3 ou 4 meses.

Agora sim, estava tudo terminado e tínhamos em mãos a certidão contento o nome e sobrenome dos dois pais e tendo como avôs nossos pais e mães. Só uma observação: No dia da audiência, após a sentença o Juiz e a Promotora perguntaram se tínhamos intenção de adotar outra criança, ao dizermos que sim eles sugeriram que entrássemos juntos desde o início e foi o que aconteceu tempos depois quando conhecemos nossa pequena. A minha habilitação foi desconsiderada e foi tudo feito novamente, só que agora desde o começo entramos juntos como um casal com união estável e com a mesma advogada que contava agora com a experiência da primeira adoção.


Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

História real de adoção homoafetiva - Parte 2

Foto: Google Imagens

Parte 2

3) O Processo de adoção: Ligo para o fórum da pequena cidade e explico a situação, fui muito bem atendido e pediram para ligar para o Conselho Tutelar para maiores informações.

Achando que tinha todas as informações (fui informado que ele estava para adoção e não existiam pessoas interessadas), fui para o interior cheio de esperanças, porém quando chego lá e localizam o processo, descubro algo que foi um banho de água fria. Não existia a sentença de Destituição e sim tão somente uma Decisão Interlocutória (Ou seja, não estava para adoção ainda).

Fiquei meio frustrado, parei quase uma hora olhando para o nada, sentado na calçada, depois levantei, sacudi a poeira, voltei ao fórum, Li o processo junto com a técnica Judiciária e a Conselheira Tutelar e fiz a pergunta que mudou a direção das coisas. Qual o melhor advogado da Região? De posse desta informação e honorários acertados em 2 ou 3 semanas tinha a guarda de meu filho, mas a adoção final demorou quase um ano pois ainda tinha que destituir também o poder familiar. Quando por fim terminou esta parte e ele já era legalmente o meu filho, fui a comarca do interior, peguei trêmulo a certidão dele constando meu nome como pai e quando finalmente voltando para Natal e o meu celular volta a funcionar (não pegava na cidade), paro o carro e ligo para meus familiares para avisar, minha mãe ficou aliviada e disse: “-Ainda bem que tudo terminou” e ai eu respondi: “-Ainda não mãe, falta outro nome nesta certidão” e fomos para a parte final.


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

História real de adoção homoafetiva - Parte 1

Foto: Google Imagens

Parte 1

1 ) Depois de todo o processo que nós tivemos que passar para entender sobre adoção e tirar os mitos, que creio todos os adotantes tem no começo, veio a primeira etapa, a minha habilitação.

Desde o início da minha habilitação sempre deixamos claro à Vara da Infância e Juventude que caso eu conseguisse adotar, meu companheiro entraria com um segundo processo para que fosse também juridicamente reconhecido como pai.

Nunca sentimos preconceito algum por parte de nenhum membro da VIJ de Natal, ao contrário, sempre fomos MUITO bem tratados (inclusive parecia que torciam por nós), desde o pessoal de apoio, passando pela Assistente Social, Psicóloga e findando no Juiz e Ministério Público.


2 ) Pronto, estou habilitado para uma menina branca de até 2 anos, sem problemas de saúde, a famosa visão de criança perfeita, e agora? Bom, agora tenho que estabelecer contato com crianças para entender mais sobre elas (apesar de ser tio de 14 e na época tio-avô de 1, hoje 2).

Comecei a fazer trabalho voluntário em um abrigo, ia ao menos 4 vezes por semana, levava balas, brinquedos e muito carinho.

Depois de um certo tempo entra no abrigo um caboclo que eu ainda não tinha conhecido, pois no horário que eu ia ao abrigo ele estava na creche. Brinquei muito com ele e comecei a ir em horários que sabia que ele estava lá, porém tinha na minha cabeça que não poderia criar expectativas pois eu teria que ser chamado pela VIJ e não conhecer uma criança e tentar a adoção. Mas às vezes as coisas conspiram ao nosso favor e um dia veio algo que me deixou bambo. Eu já estava no abrigo quando essa criança (hoje meu filho) estava chegando e veio correndo para me abraçar e me chamando de PAI. Desmontei na hora.

A responsável pelo abrigo, percebendo o vínculo que estava sendo formado, me chamou para conversar e foi quando ela me informou que a comarca dele não era Natal e sim uma pequena comarca do interior que não existia fila (ainda estava meio informal). Bingo. Sai de lá para falar com meu companheiro que em primeiro momento achou que fugia muito do perfil inicial (e fugia mesmo, mas às vezes o perfil inicial esta fora do que o destino nos prepara) e então resolvemos que iríamos passar um dia (junto com alguém do abrigo) com as crianças maiores que 4 anos do abrigo. Neste dia meu companheiro entendeu por que eu estava tão ligado a criança. De todas foi a que mais se divertiu, brincou, cativou e sorriu (apesar de na época ter graves problemas dentários). O vínculo estava feito e meu companheiro concordava. Vamos a luta.


No próximo post a continuação desta linda história.

Este é um texto cedido por um novo amigo meu da adoção. Em nome da luta pela adoção ele me enviou um texto adaptado  em um curso virtual em uma comunidade na internet - GVAA - Adoção,um exemplo de amor - com 43.763 membros.

O autor se coloca a inteira disposição para responder à perguntas. Podem deixar suas perguntas na parte de comentários e se preferirem coloquem seus respectivos e-mail, se não, ele responderá também na parte de comentários.

Texto original da exposição:

Agradeço o texto e parabenizo esta pessoa tão guerreira, que corre atrás de seus direitos enfrentando todos os obstáculos e se realizando enquanto pai e homem no mundo. 


Postado Por Cintia Liana