"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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domingo, 15 de abril de 2012

O que as crianças que moram em internatos sentem

Cintia Liana e Lídia Weber em Roma,
no Congresso Internacional da INFAD.
Abril de 2011

Por Lídia Weber

MAGNO E MONTENEGRO (2002), em uma matéria jornalística, enfatizaram que as crianças que vivem em abrigo são sedentas por alguém que as escute. “A maioria das crianças gosta de conversar com visitantes, tocá-los ou ficar quietinho por perto, pois o que há de mais precioso na vida delas é o fato de serem objeto de afeição de alguém, mesmo que seja por alguns minutos” (WEBER, 1997, p. 45).

Uma pesquisa (WEBER, MOREIRA, TERRA & MESSIAS, 1999), cujo objetivo era identificar os sentimentos em relação aos pais biológicos e às expectativas sobre o futuro de crianças institucionalizadas entre 7 a 18 anos e sem vínculo familiar, revelou que 61% das crianças estão na instituição de 3 anos a 18 anos. A maioria absoluta nunca recebeu visitas de seus pais (67%), atribui valoração negativa aos pais genéticos (66%). As respostas relativas às expectativas de futuro são estereotipadas e inconsistentes;  apenas 50% dos internos desejam casar ou ter filhos, sendo que 53% preferem morar na instituição que com sua família biológica, mas o maior desejo de todos é ser adotado (80%). Os dados também apontam que: 1) o afastamento da família biológica e o caráter negativo da experiência familiar pregressa determinaram a valoração negativa atribuída por essas crianças e adolescentes a seus pais biológicos; 2) a dificuldade em planejar e refletir sobre o futuro e o pessimismo sobre o plano afetivo está intimamente ligado ao abandono e à impossibilidade de criar novos vínculos; 3) a necessidade de apego seguro, sob a forma de adoção, revelou-se premente nestas crianças institucionalizadas que desejam ser amadas na condição de filhas.

A maioria das crianças entrevistadas sentiu muita tristeza no momento em que foi deixada na instituição: “Eu fiquei triste; minha mãe disse que vinha me buscar no sábado e não veio” (João, 10 anos); “Eu chorei, tava com medo de dormir, aí eu fui me acostumando; agora não estou mais reclamando” (Marcos, 8 anos); “Senti assim: não vou ser feliz, minha mãe não me quer” (LUIZA, 13 anos).

Ao verificar se as crianças passam a amar alguém no internato, as respostas revelaram que após a separação de sua família, estas crianças tentam encontrar outras figuras de apego, mas a criação e, ou, manutenção de vínculos afetivos nas instituições é bastante restrita principalmente por transferências dos internos para diferentes instituições: 56% dos entrevistados já moraram em dois ou mais internatos diferentes. A maioria absoluta dos entrevistados respondeu que havia encontrado uma figura de apego (geralmente um colega de internato ou um funcionário), mas em 98% dos casos o contato com essa pessoa foi perdido.

Os internos tentam encontrar novamente outras vinculações afetivas e, novamente, correm o risco de perdê-las, num processo doloroso em que revivem inúmeras vezes o abandono.

Verificamos que, às vezes, não existem sequer documentos sobre a criança, quanto mais dados específicos sobre a sua história de vida. O discurso dos internos deixa transparecer total desconhecimento de sua situação legal, pessoal, familiar e, conseqüentemente, eles tecem fantasias sobre suas perspectivas futuras (WEBER et al., 1999) e querem uma família, mas às vezes a esperança já não existe mais:

“Acho eu não vou ser adotado porque já passei da idade; só adotam até 14 anos” (Fernando, 15 anos; “Acho que não vou ser adotada, acho que desisti, eles eram pra ter arrumado família pra mim faz tempo. (Maria, 9 anos; “Ainda não fui adotada porque sou nova aqui; tem que ficar bastante tempo” (Ana, 12 anos); “Não fui adotada ainda porque meu caso ainda não foi visto pelas pessoas que arrumam pais pra gente” (Olivia, 12 anos).

Certas vezes a realidade e a fantasiam misturam-se na esperança de ser filho de alguém:

“Eu acho que vou ser adotada, porque sim, porque eu tenho certeza, porque nunca se deve perder a esperança” (Karina, 12 anos); “Eu sei que vou ser adotada, mas não sei o dia que o Juiz vai me chamar. Acho que vai demorar um pouco. (Silvia, 10 anos); “Acho que vou ser adotada porque eu já tirei três fotos pra mostrar pro Juiz” (Camila, 13 anos); “Eu vou ser adotada porque a gente tem fé em Deus e pode conseguir” (Tatiana, 15 anos); “Eu acho que vou ser adotada porque é a terceira vez que a minha foto vai pra Itália e para os Estados Unidos” (Cintia, 12 anos); “Eu acho que vou ser adotada porque já está na hora de ir embora, meus pais já vão chegar...”. (Denise, 10 anos).

Alguns depoimentos mostram o pensamento mais freqüente das crianças, uma infância repleta de sofrimento:

“Tenho 13 anos e cheguei aos nove anos. Nunca recebi visita de ninguém. Vim pra cá porque minha mãe me batia. Se tivesse com minha mãe estaria apanhando, então eu estou mais feliz aqui. Meu maior desejo é ter uma família nova. Queria ser adotado, daí eu ia para uma casa que ninguém me batesse e teria alguém para me fazer carinho” (Roberto, 13 anos). “Eu tinha 8 anos quando vim para cá. Foi o carro do Juizado que me trouxe aqui. Já morei em três internatos diferentes. Meu pai é alcoólatra e minha mãe morreu e eu nunca recebi visitas de ninguém. Meus três maiores desejos? Eu queria ser adotada e ganhar um pai na Itália, uma mãe e uma bicicleta! Eu seria mais feliz” (Mariana, 11 anos, institucionalizada desde os 8 anos).

Um dos capítulos de um artigo de Lídia Weber
Weber, L.N.D. (2005). Abandono, institucionalização e adoção no Brasil: problemas e soluções.
O Social em Questão, 14, 53-70.

AbandonoinstitucionalizacaoeadocaonoBrasilproblemasesolucoes.pdf


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Abrigos: As crianças fora da lista de adoção

Beneath this Burning Shoreline

22/07
Por Ane Veiga – Jornalista e psicóloga

Faço trabalho voluntário em um abrigo com crianças e adolescentes em situação de risco, e conforme os vínculos vão se formando, novas oportunidades se abrem. Hoje saí pela primeira vez com as crianças, para um passeio. Levei apenas 3, dois meninos de 5 anos e uma menina de 7 anos, cinema, McDonalds e passeio no shopping. Semana que vem irei levar os que não foram dessa vez, um menino de 12 anos, uma menina de 9, e a pequena de 3 anos.

Tudo correu bem e se comportaram dentro do esperado. Mas o que ainda me choca é ver como essas crianças tem a infância roubada.... como o abandono fica marcado nesses coraçõezinhos... me sinto impotente, qualquer coisa que eu fizer será pouco, e nunca o suficiente para reparar o mal feito a esses pequenos.

Foram algumas situações, mas que um olhar treinado já consegue perceber a insegurança, o medo de abandono e a falta de “traquejo” social dessas crianças.

Eles não largaram a minha mão, ficavam penduradas no meu braço 100% do tempo, com medo de serem largadas ou esquecidas. Depois de ensiná-los a andar de escada rolante, dois já estavam mais confiantes e conseguiam “entrar” sozinhos, acabei me esquecendo de auxiliar o terceiro e entrei na escada... O desespero desse menino ao perceber que ficou para trás me cortou o coração, ele gritava e chorava, eu tentando voltar e tentando acalmá-lo, explicando que eu não iria deixá-lo, para ele dar um passo e vir até a escada...até que ele conseguiu, grudou em mim chorando desesperado. Eles olhavam assustados para tudo e todos. No cinema uma das crianças sentou-se ao lado de um menino com a mãe. Ele observava a outra criança, e até antes de rir olhava para mim buscando aprovação. Correr, experimentar, gargalhar como as outras crianças, até aconteceu... mas demorou um pouco.

É muito triste você depender da caridade alheia para ter lazer... Crescer sem alguém te amando e se importando com você, sem alguém para te proteger do mundo, para te embalar quando você está assustado ou machucado, é muito triste.

Lembrei da Lídia Weber, e resolvi compartilhar esse texto, que reflete bem como me senti hoje. Retirado de http://promonaci.blogspot.com/search/label/principal

“Eu imagino o que vocês devem ver e ouvir por aí. Eu aqui no meu canto de pesquisadora também me deparo - constante e sistematicamente - com relatos impressionantes. Ando cansada dessa nova história de que existem "somente" 4416 crianças para adoção no país e mais de 20 mil pretendentes. Onde estão as 80 mil crianças citadas pela pesquisa oficial do IPEA em 2008 (e que pesquisou somente em Abrigos que recebiam fundos federais!)? Em menos de 3 anos elas desapareceram? Ou foram novamente colocadas em outro limbo, o "caixa-dois" do abrigamento. Somente aquelas crianças cujos pais foram destituídos do Poder Familiar é que entram no cadastro (não alimentado pela maioria absoluta dos Juizados do país, segundo relatos oficiais) e já cansei de ouvir que a maioria dos operadores da adoção não faz a destituição de milhares porque não "tem perfil"..., embora muitos tenham um lindo discurso público.... Visitei um abrigo recentemente que, das 24 crianças e adolescentes, apenas 2 estavam no cadastro; das outras, muitas adolescentes não tinham sequer processo! Cada abrigo que tenho visitado ou ouvido dados, tem cerca de 5 a 10% de crianças "disponíveis para adoção". O mesmo percentual de 20 anos quando fizemos a pesquisa que gerou o livro "Filhos da Solidão". Mas, antes se falavam de todas as crianças, agora fica esse discurso irritante de que existem apenas 4 mil e os adotantes é que são muito exigentes, só querem crianças brancas etc. e tal. E canso de ouvir relatos de pretendentes à adoção que querem adotar crianças especiais, crianças maiores, crianças com HIV e ficam esperando tanto e com tantas dificuldades: "não pode visitar abrigos", "não pode adotar quando perdeu um filho", "não pode adotar crianças menores de 12 anos se for homossexual", "não pode trabalhar em um abrigo e querer adotar", "não pode adotar criança especial porque deve querer alguma coisa com isso", " não pode...". E as crianças continuam esperando... e envelhecendo nos abrigos. Quando ficam bemmm grandes, algumas entram para o cadastro e novamente são os adotantes tachados de exigentes.... Parece aquela frase de Tomasi di Lampedusa: tudo deve mudar para que tudo fique como está. Relatos deste feito pela Camila são de tirar o fôlego de raiva. Quando é que vamos de fato fazer alguma coisa para mudar essa situação? Quem sabe seguir a sugestão do Dr. Sávio e fazer com que os operadores da adoção (muitos deles) passem algum tempo em abrigos....”

Lidia Weber, Professora Títular da UFPR - Em comentário feito no site da Angaad - Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção. Autora dos livros Filhos da Solidão: Institucionalização, Abandono e Adoção; Aspectos Psicológicos da Adoção, Laços de Ternura: Pesquisas e histórias de adoção, entre outros títulos. Coordena, ainda, o Laboratório do Comportamento Humano da UFPR e o Projeto Criança: Desenvolvimento, Educação e Cidadania.



Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dos oito aos 18 anos, a espera em um abrigo

Depois de quatro anos fora do orfanato, jovem volta à instituição para buscar a irmã

Júnior Milério, especial para o iG São Paulo | 31/05/2011 07:37

Foto: Eduardo Cesar / Fotoarena
Dayara e sua irmã, no dia em que conseguiu a guarda provisória da caçula

CONHEÇA A SÉRIE "ESPERA"

Esperar é a rotina de toda criança que vive em um abrigo. Normalmente, esta condição acaba quando uma família pretende adotá-la. Mas muitas nunca são adotadas e são obrigadas a deixar o abrigo assim que chegam à maioridade. A espera, nesses casos, vira uma contagem regressiva. No caso da atendente de caixa Dayara Cristina Apolinário Amaral Pereira, 22, a espera durou dez anos, dos oito aos 18 anos, período em que viveu no Centro Educacional à Criança e Adolescente (CECA), de onde saiu há quatro anos.

Dayara é a segunda filha de oito irmãos. Uma de suas irmãs, sete anos mais nova, recebeu seus cuidados desde que era bebê. “Quando nasceu eu já cuidava dela. Eu tinha sete anos, mas era comigo que ela ficava”, diz.

Em 1997, Dayara conta que “um dos pais dos meus irmãos maltratava a gente e, por decisão judicial, fomos para um abrigo”. A ida tinha data e hora marcada. Mas, com oito anos de idade, ela tomou a primeira de algumas decisões. Decidiu fugir antes mesmo de chegar ao orfanato. A saudade da irmã mais nova, no entanto, impediu que a fuga durasse muito tempo. “Fugi, mas logo voltei e procurei pelo abrigo. Não consegui ficar longe dela”, conta.

Adoção
A partir de então, a espera de Dayara foi um pouco diferente da de muitas das outras crianças na mesma situação que ela. Isso porque o anseio por ter condições de cuidar oficialmente da irmã foi mais forte até do que o pela possibilidade de ser adotada. Ela diz que chegou a recusar três pedidos de adoção, e que não se arrepende de ter renunciado o que poderia ter “tornado a vida mais fácil”. “Eu tinha nove, dez e 12 anos quando quiseram me adotar, mas eu não deixaria minha irmã no orfanato.” A determinação por um objetivo que dependia dela, e não de pretendentes a adoção, ajudou a amenizar a angústia e a sensação de impotência.

O convívio com as pessoas do CECA proporcionou o que Dayara chama de “várias famílias”. “No orfanato, apesar de tudo, a gente não tem contato com muitas coisas ruins, como por exemplo, decepção com as pessoas”.

Foto: Eduardo Cesar / Fotoarena
Quatro anos depois de deixar o abrigo, Dayara volta para buscar a irmã mais nova

O laço familiar ininterrupto com a irmã e a possibilidade de estudar fora do orfanato ajudou com que os dias passassem menos devagar para Dayara. A vida escolar mantida fora da instituição teve ainda outra contribuição: um namoro. O romance começou entre 15 e 16 anos. Quando atingiu a maioridade, ela, diferentemente de muitos jovens na mesma situação, tinha para onde ir: o namorado virou marido e eles foram viver juntos.

Foto: Edu Cesar / Fotoarena
Dayara e a irmã deixam o abrigo em São Paulo

A vida fora do abrigo
Casar, separar e realizar um sonho são experiências já vividas por Dayara fora do abrigo. “Aqui fora, meu relacionamento não era como eu tinha imaginado, e então decidi que era melhor terminarmos”, afirma. E, para Dayara, “a partir do fim do meu casamento é que está sendo possível viver e conhecer o que existe aqui fora”.

Mas o desejo pela guarda da irmã cresceu ainda mais desde sua saída. E, em meio a este fim, ela foi presenteada com o começo de uma nova fase. “Depois de quase quatro anos tentando a guarda dela, que hoje está com 14 anos, finalmente eu consegui. Por enquanto é provisória, ela fica comigo por 180 dias.” E este será mais um período de espera ansiosa, mas que Dayara acredita que vai superar. “Para quem já aguardou dez anos para sair de um orfanato, 180 dias vão passar rápido. E acredito que posso ganhar a guarda permanente dela”.

A irmã é tímida, mas já tem planos para a nova vida que começa treze anos depois da experiência no orfanato. Pensa em ser fotógrafa, modelo e gosta de sapatos de salto alto. Enquanto isso, Dayara, que nasceu em pleno dia 25 de dezembro e afirma que passou vários aniversários esquecidos, confessa em segredo que “no ano que vem, quero oferecer para ela o que não tive: uma festa de 15 anos”. Vai valer esperar.


Postado Por Cintia Liana

sábado, 4 de junho de 2011

Burocracia atrasa processos de adoção no Estado

Uma triste realidade para quem espera um lar. A burocracia impede adoção de quase 800 crianças e adolescentes, mesmo que 4 mil pessoas estejam na lista de adoção.




Fonte: http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=185386&channel=45


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Abrigos deveriam ser solução provisória para menores abandonados

Foto: Elena Kalis

Quinta-feira, 06 de novembro de 2008, 15h44
Magdalena Bonfiglioli
São Paulo/SP

Termina no próximo sábado, 9, o prazo para que os juízes de todas as varas da infância do país preencham o Cadastro Nacional de Adoção. Os juízes deverão inscrever todas as crianças disponíveis para adoção e todos os candidatos a adotar. Esse cadastro vai agilizar o processo de adoção de crianças internadas nos abrigos.

O Canção Nova Notícias exibe esta semana uma série especial de reportagens com o tema "Adoção, um ato de amor". Esta série você revê aqui, no noticias.cancaonova.com. Nesta primeira reportagem, a expectativa daqueles que crescem nos abrigos a espera de uma família.

Assista à reportagem



O abrigo é uma situação provisória ou, pelo menos, deveria ser. Uma medida de proteção enquanto a família não volta à sua família de origem. Quando a volta pra casa fica inviável, começa o processo para colocar a crinaça em disponibilidade de adoção. É um processo demorado e a criança vai crescendo no abrigo.

Nem todas estas crianças estão disponíveis à adoção e nem sempre estão perto de quem gostaria de adotá-las. Foi tentando diminuir estas distâncias que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou o Cadastro Nacional de Adoção, uma lista de todas as crianças disponíveis no Brasil e de todas as pessoas que desejam adotar. os juizes de todas as varas da infância deverão alimentar este cadastro com informações.

Você confere hoje, às 19h30, no Canção Nova Notícias o drama de voluntários de instituições que se apaixonam por crianças abrigadas e a história de crianças que ninguém quer adotar.



Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O ciclo recursivo do abandono

Foto: Google Imagens

Considerações Finais do estudo "O ciclo recursivo do abandono" de Juliana Fernandes Pereira e Liana Fortunato Costa

Gostaríamos de ressaltar, para concluir, as três principais conseqüências do processo de fragmentação e abandono da rede de atendimento, identificadas a partir da investigação: a) a ausência de alternativas à institucionalização: “A família se desorganizou e elas se viram em situação de completo abandono, né? (...) Quer dizer, a sociedade, o governo, a Vara da Infância encaminha, né? Não tem outra saída, elas têm que viver em instituição.” (Beloto); b) as dificuldades para trabalhar com a reintegração familiar: “A gente tem muito pouco apoio na rede social, a gente que trabalha na Justiça, pra estar encaixando e melhorando a situação de vida das pessoas pra ter os filhos de volta.” (Luíza); c) e, finalmente, as dificuldades para trabalhar com a colocação de crianças maiores e adolescentes em lares substitutos: “Já teve o abandono dos pais e está tendo o abandono do Estado.” (Luíza).

O efeito mais grave do quadro observado é a continuidade do “abrigo depósito” — a exemplo da Roda dos Expostos — no qual crianças tornam-se adolescentes abandonados pela família, pelo Estado e pela sociedade. Em última instância, sofrendo as tensões do ciclo de abandono vivido nos diferentes níveis do sistema de atendimento, estão, portanto, a criança e o adolescente que, diariamente, enfrentam a ruptura dos laços afetivos construídos na instituição e a ação do tempo, que diminui substancialmente as possibilidades de retorno à família de origem ou encaminhamento para um lar substituto. Dessa maneira, como explica Enriquez (1991, 77), o modelo real pode diferir substancialmente “do arcabouço estrutural criado para lhes dar vida”, ou seja, “Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta” (Art. 19) (ECA) e, ainda, “o abrigo é medida provisória e excepcional” (Art. 101, § único).

A principal contribuição da investigação se refere à necessidade de ultrapassarmos a visão reducionista do abandono — como relacionado apenas à díade família/criança ou adolescente — para se atingir uma visão mais complexa e contextualizada do fenômeno. Desse modo, o mesmo não deve ser visto apenas sob a ótica das relações familiares, mas compreendido como um processo co-construído, do qual participam também o contexto social, institucional, jurídico, econômico, político e cultural brasileiro. É notável a situação de vulnerabilidade das famílias e de crianças e adolescentes abrigados quando a rede de atendimento não consegue responder à demanda que deu origem à intervenção da Justiça.

A ausência de uma política de atendimento profícua, de órgãos e profissionais qualificados que possam atender às prerrogativas do ECA dificulta, assim, a realização de um trabalho eficaz, seja de reintegração familiar ou de encaminhamento para lar substituto. Tais aspectos contribuem substancialmente para que se instale um processo gradativo de um abandono co-construído, que priva crianças e adolescentes institucionalizados do direito à convivência familiar. Desse modo, o próprio modelo de tratamento do abandono em nossa realidade acaba contribuindo para a instalação de um ciclo recursivo do abandono que re-vitimiza crianças e adolescentes, transformando-os nos “Filhos do Abrigo”, como outrora definiu Beloto.


O ciclo recursivo do abandono
Juliana Fernandes Pereira e Liana Fortunato Costa
lianaf@zaz.com.br
"Juliana Pereira é Mestre em Psicologia Clínica e Psicóloga colaboradora do Projeto Aconchego: Grupo de Apoio à Adoção de Brasília e do Programa de Apadrinhamento Afetivo de Crianças e Adolescentes Institucionalizados. Liana Costa é Psicóloga, Terapeuta Familiar.

Trabalho baseado na dissertação de mestrado intitulada “A Adoção Tardia frente aos Desafios na Garantia do Direito à Convivência Familiar” - realizada pela primeira autora sob a orientação da segunda - defendida na Universidade de Brasília, Distrito Federal, Brasil, em Maio de 2003.

Para ler estudo completo:


Postado Por Cintia Liana

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Nas Trilhas de João e Maria

Foto: Google Imagens

Por Lídia Weber

Breve reflexão sobre o abandono de crianças no Brasil

Em um país não muito distante, numa época de grande carestia, viviam um lenhador, seus dois filhos e a madrasta deles – muito malvada e sem coração, um jargão da representação das madrastas das histórias infantis. Chegou uma época em que o preço das coisas subiu demais, a comida foi acabando e a mulher teve a cruel idéia de diminuir os gastos abandonando João e Maria no meio da floresta. O pai ficou com o coração partido mas acabou concordando com a esposa.

Um dia de inverno de 1997 na cidade de Curitiba. Eram 6h30 quando uma moradora do bairro de Uberaba ouviu um som parecido com um choro de criança. Ao verificar no terreno baldio existente ao lado de sua casa, avistou um bebê recém-nascido junto a um monte de lixo.

Sofia é uma menina de 10 anos de idade e mora em orfanatos desde os dois anos. No seu prontuário consta que a sua mãe, que tinha mais três filhos, a deixou lá "somente por um tempo, até encontrar um emprego". Hoje Sofia tem o adjetivo de "institucionalizada", pois sua mãe nunca mais voltou para buscá-la. Ela não sabe responder porque está morando em um orfanato e não lembra nem de sua mãe nem de seus irmãos. Nesses oito anos, ela já morou em três instituições diferentes e nunca recebeu visita de ninguém. Quando lhe perguntamos qual era o seu maior desejo, o maior presente que ela poderia ganhar, Sofia respondeu: "Uma família". Depois de alguns segundos pensativa, ela completou: "eu queria alguém que me chamasse de filha, queria dormir numa cama aconchegante e ser feliz para sempre".

Três dramas humanos. Três histórias. Qual é a mais improvável? Sempre ouvimos dizer que a arte e a literatura representam a vida, e isso também ocorre, diretamente ou simbolicamente, em historietas infantis. Para compreendermos os determinantes das duas histórias verídicas, tão próximas do conto de fadas escrito pelos Irmãos Grimm no século passado, é preciso não esquecer da realidade brasileira. Não é possível analisar somente as variáveis psicológicas e emocionais da mãe que abandona, especialmente quando ela mora em um país onde boa parte da população pode ser considerada abandonada pelo Estado. Ainda assim, como é possível que uma mãe, que tenha carregado um filho em seu próprio corpo jogue-o no lixo ou deixe-o em uma instituição e nunca venha sequer visitá-lo? Como podemos definir "abandono"? Entrega, renúncia, desamparo? Uma mãe que entrega o seu filho para adoção é diferente daquela que joga o seu filho no lixo?

Essa é uma questão cuja resposta é extremamente complexa e é preciso tomar cuidado para não se julgar esta atitude somente como uma transgressão moral (Ariès, 1978 e Badinter, 1980) ou um distúrbio patológico (Martínez Ruiz & Paúl Ochotorena, 1993; Audusseau-Pouchard, 1997). Existe uma rede de determinantes, tais como as de nível sócio-econômico, estrutrais, psicossociais, culturais, entre outras. É preciso analisar não somente a mãe que abandona, mas as condições abandonantes de sua existência.

E as condições sociais do Brasil?... O Brasil está na 10ª posição em relação à economia internacional, mas, apesar do desenvolvimento econômico a sua estrutura social não sofreu evolução, fazendo com que se tornasse o campeão mundial da desigualdade. De acordo com dados do Banco Mundial, temos a pior concentração de renda do planeta, pois 10% dos mais ricos detém 54% da renda nacional; a concentração de terra ainda é maior do que a concentração de renda: a metade das terras está nas mãos de 2% dos proprietários. Os dados mostram que 59% da população são pobres e excluídos; existem 19 milhões de analfabetos no país; quase quatro milhões de crianças entre 5 e 14 anos trabalham (o que é proibido pela Constituição), geralmente num processo de exploração de mão de obra barata, e deixam de conhecer a infância e, estamos em segundo lugar no mundo em relação à prostituição infantil, que geralmente passa de mãe para filha, num processo de escravidão virtual.

O que pode levar uma mãe a chegar ao ponto de desistir de um filho e deixá-lo em um terreno baldio? A questão não é simples: exclusão, impossibilidade de abortar legalmente, incredulidade em relação às autoridades competentes que poderiam levá-la a entregar o filho nos Juizados da Infância e da Juventude, medo, ausência de amor, falta de estrutura familiar, desespero... Como nesses casos, a mãe dificilmente é localizada, torna-se impossível traçar seu perfil, mas é possível traçar um paralelo com o perfil das mães que doam o seu bebê para adoção: solteira, mais de 20 anos, educação primária incompleta, trabalha esporadicamente como empregada doméstica e não conta com o apoio da família extensa. Geralmente ela engravida em uma relação eventual e, na maior parte dos casos, essa mãe doadora já teve outros filhos, que também foram doados ou estão em instituições.

Talvez a organização psíquica de uma mãe que não vê perspectivas em melhorar de vida e que não tem espaço nem para o sofrimento, comece a desmoronar. Essa mãe que a todo momento está recebendo claras mensagens sociais de que ela não tem como sair do seu estado de miséria, cujas necessidades básicas e direitos como cidadã estão fora do seu alcance e que está sob uma doutrina de dominação, tem grande probabilidade de fazer coisas violentas e primitivas. É uma perpetuação de um ciclo cruel: o abandonado abandona. Não lhe foram proporcionadas chances de construir vínculos sócio-afetivos em sua existência.

O abandono de crianças nos orfanatos é um tragédia de igual proporção. A princípio, a institucionalização foi criada com o objetivo de "proteger a infância", mas o que tal medida consegue de fato é somente a segregação/exclusão de "produtos sociais indesejáveis. Estimativas não oficiais indicam que cerca de um milhão de crianças estão sendo atendidas por instituições, eufemisticamente chamadas de Unidades de Abrigo, sendo a maioria mantida por entidades religiosas. Na primeira pesquisa (Weber e Kossobudzki, 1996) realizada com a totalidade das crianças e adolescentes de um Estado do país (Paraná) os dados revelaram que a maioria absoluta dos internos (64%) têm entre 7 e 17 anos e o que menos há nesses orfanatos são crianças órfãs. Somente 5% são órfãs bilaterais e somente 14% das crianças vieram de um lar onde o pai e a mãe estavam vivendo juntos. O restante dos internos provém de famílias monoparentais, chefiadas por mulheres (a maior parte foi abandonada pelo marido e outra parte refere-se à mães solteiras). Assim como na história de João e Maria, a crise do abandono nos orfanatos é desencadeada, primordialmente por "falta de recursos financeiros". Assim como no conto de fadas existe a bela casa da bruxa, na vida real as crianças vão para instituições e recebem cama e comida. No caso da história infantil, a bruxa quer devorar as crianças. No caso da realidade, a própria vida encarrega-se disso.

A princípio o internamento é colocado como uma medida a curto prazo. No entanto, como a existência de outros meios que auxiliem estas famílias a manter os filhos junto de si são ainda incipientes, a prática da institucionalização tem se mostrado um incentivo ao abandono. Crianças e adolescentes institucionalizados, que estavam há mais de um ano sem receber visitas de sua família, foram entrevistados (Weber, 1996) e verificou-se que cerca de 70% deles nunca receberam visitas e, os outros 30%, receberam algumas visitas no início, mas elas cessaram por completo. Geralmente a família desaparece para não ser encontrada pelo Serviço Social. Ainda existe outra tragédia na vida dessas crianças: o descaso das autoridades competentes (Instituições de Abrigo, poder Judiciário e Promotoria Pública) em relação à tutela dessas crianças. Supõem-se que se não foi possível um retorno à sua família de origem, se elas estão abandonadas, então podem ser colocadas para a adoção, certo? Errado. Apesar de estarem esquecidas nas instituições, de não receberem visitas de sua família e do seu maior desejo configurar-se na adoção, somente 8% dos pais dessas crianças foram destituídos do pátrio poder e somente elas estão legalmente disponíveis para adoção. As outras crianças, que nunca sequer receberam uma visita de suas famílias, não são consideradas oficialmente "abandonadas", pois seus pais ainda detém o pátrio poder. Poderiam ser classificadas como "esquecidas", "filhos de ninguém", "filhos do Estado" ou alguma outra expressão que possa defina a falta de compreensão sobre o desenvolvimento infantil, a lentidão burocrática e o desapreço dos poderes constituídos.

O Brasil, apesar de ter sido o último país a acabar com a escravidão e com a Roda dos Enjeitados foi o primeiro país a criar uma lei específica para crianças e adolescentes após a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança em 1989. Em 1990 foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, um dos mecanismos mais avançados do mundo de proteção à infância, fruto de uma grande mobilização da sociedade civil. No entanto, percebe-se que não basta haver leis se os mecanismos sociais que produzem as tragédias não são modificados. Na história de João e Maria, os dois irmãos conseguiram escapar da instituição, digo, da enganosa casa da bruxa, voltaram para casa e para seu pai (a madrastra havia morrido). O bebê encontrado no terreno baldio foi levado a um hospital, está fora de perigo e existem muitos candidatos à sua adoção. A menina Sofia continua na casa da bruxa, digo, na instituição. Ela é considerada uma "criança inadotável" aqui no Brasil. Ela, como Pandora, tem sempre esperança...

Para haver mudanças significativas, é preciso uma conscientização social para um compromisso verdadeiro, e não virtual, de todos os segmentos da população. E o psicólogo deve fazer parte deste compromisso. E mais ainda. O compromisso do psicólogo não deve ser apenas de natureza assistencialista ou paternalista. A sua participação deve ser em ajudar a promover esta consciência social frente à exclusão. Não adianta somente revoltar-se, ou como ressalta Jabor (1997), dizer que a injustiça é sempre feita pelos "outros" e sentir-se salvo por ter-se indignado e esquecer o assunto. Todos os "excluídos" querem ser constantemente lembrados. É preciso falar deles, pensar neles, e procurar encontrar meios de engajamento, principalmente quando se fala de crianças. Denunciar as injustiças e repensar a miséria e a tragédia cotidiana dessas crianças é uma reivindicação dos direitos da infância, mas também e simplesmente o direito à infância. Todos nós, os "incluídos", psicólogos principalmente, devemos parar de dizer que nós não sabíamos...

Referências Bibliográficas:
Ariès, P. (1978). L'enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime. Paris: Editions du Seuil.
Audusseau-Pouchard, M. (1997). Adoptar um hijo hoy. Barcelona: Editorial Planeta.
Badinter, E. (1980). L'amour en plus. Paris: Flammarion.
Jabor, A (1997). Sanduíches de realidade. Rio de Janeiro: Objetiva.
Martínez Roig, A & Paúl Ochotorena, J. (1993). Maltrato y abandono en la infancia. Barcelona: Martínez Roca.
Weber, L.N.D. (1996). Des enfants sans famille au Brésil. XXVI Congrès International de Psychologie. Montreal, 16-21 août.
Weber, L.N.D. & Kossobudzki, L.H.M. (1996). Filhos da solidão: institucionalização, abandono e adoção. Curitiba: Governo do Estado do Paraná/Secretaria da Cultura.

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, Psicóloga (CRP 08/0774); Professora e Pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná; Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo.

Fonte: http://br.geocities.com/jeanprofessor/doutrina.html


Postado Por Cintia Liana

terça-feira, 21 de setembro de 2010

História 7

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

"O bom é que tem bastante festa de natal por aqui." – Fernando

Rosto miúdo, sorriso generoso, Fernando Tobias Vitório de Oliveira, de 9 anos, é um menino que já fabula. Basta dar atenção e ele emenda uma história atrás da outra. Sempre com a fantasia pintando cores que sua realidade não tem. "Eu tinha um cachorro doberman chamado 'Snoopy'", começa a narrar. "Ele era bonzinho, aí veio um bêbado e deu uma paulada na cabeça dele. Encontrei ele morto quando fui comprar pão e leite, enterrei e nunca mais quis outro cachorro." Depois vem com lembranças da mãe: "Ela contava histórias para mim e meus irmãos na hora de dormir, e a gente ouvia uma caixinha de música". Isso tudo foi antes de ele e seus três irmãos menores irem para o Solar da Alegria, no bairro do Belém, uma das três unidades de abrigo e encaminhamento que a Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor, Febem, mantém na cidade. A mãe perdeu a guarda dos quatro meninos por não ter condições de sustentá-los.

O Solar é um abrigo temporário para menores de 0 a 6 anos. Eles podem ficar lá até três meses. Depois disso, retornam às famílias ou são encaminhados para uma entidade que admita permanência longa. Pela idade, Fernando não poderia estar no Solar. No início ficou lá para não se separar dos irmãos. Depois, por estar cursando uma escola vizinha — apesar de os irmãos terem seguido para outra instituição.

"O bom é que tem bastante festa de Natal por aqui", diz, falando dos eventos agendados com antecedência por benfeitores. "Perdi algumas porque vou visitar meus irmãos no domingo." Nesses dias, ele se reúne com a mãe e os irmãos por algumas horas. Não é o bastante. Por isso, pede duas coisas ao velhinho de barbas brancas, desenhado com capricho em seu caderno: uma bicicleta e poder festejar o Natal com a família. Um pouco do que ele quer deve tornar-se realidade. Nesta semana ele se juntará aos irmãos na outra instituição.

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

domingo, 19 de setembro de 2010

História 6

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

"Eu quero o anjinho para me proteger." – Angélica

A frase sai direta, misturando alegria com inquietação, naquele jeito ingênuo de criança. "Minha vó quer me levar", diz Angélica Ramos, 9 anos. Logo depois, seus olhos refletem a incerteza. Como seria passar a morar com dois irmãos menores, na casa da avó que mal conhece?

Angeliquinha, como gosta de ser chamada, está na Casa Vida desde os 3 anos. No confortável sobrado construído especialmente para abrigar catorze meninos e meninas portadores do HIV, ela se sente realmente em casa. Escolhe o CD, canta, dança, elogia as duplas sertanejas, sorri encabulada ao falar do grupo musical Hanson. Mostra, nos seis quartos, quem dorme em cada uma das camas — cuidadosamente arrumadas, com brinquedos sobre o travesseiro. Abre as portas e explica o funcionamento desse lar. "Aqui é a sala de estudos, aqui a farmácia, aqui o escritório..." Na lavanderia, fica emburrada ao ver que o tênis não estará seco até a hora da escola. Logo renova a pose, enquanto desfila pelo corredor com o uniforme do colégio. Chama de pai o padre Julio Lancellotti, que criou a instituição em 1991 e ainda hoje comanda o trabalho nas duas casas (na outra ficam vinte crianças de até 6 anos). A coordenadora Rosana Soares Ribeiro ela chama de mãe. Namora o Anjo do Gugu, boneco que permanece na caixa até que um adulto tome a difícil decisão de escolher quem será contemplado com o cobiçado presente.

Agora, Angélica terá uma primeira oportunidade de se acostumar com a avó. Na noite de Natal estará com ela e os dois irmãos que vivem em outra instituição. "Natal? É a festa do menino Jesus, o aniversário dele", diz. "Tem também o Papai Noel, que traz uns presentes. A gente não pode pedir porque é falta de educação, mas pode querer. Eu quero o anjinho para me proteger."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

História 5

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

"Esse lugar é tão grande, deve ter uma chaminé." - Jaqueline

No quarto das meninas do Lar de Infância Nice, encharcado da luz do sol que entra pelas janelas altas e sem cortinas, a cena é dominada por bonecas e bichos de pelúcia. São muitos, espalhados sobre as dezoito camas tubulares cor-de-rosa arrumadas com colchas de estampa delicada.

Logo na entrada fica a de Jaqueline Nucci de Souza, de 9 anos. Desde os 3 ela vive na instituição fundada pelo Centro Espírita Irmã Nice na década de 60 — uma época em que não se falava em abrigo, mas em orfanato, e as crianças cumpriam uma espécie de sentença de prisão dentro das casas assistenciais. Ela garante que esses tempos não têm nada a ver com sua rotina. Vai à escola, nada em um clube municipal nos finais de semana e, de vez em quando, recebe amiguinhas em seu quarto. Suas roupas, compartilhadas com as outras internas, estão sempre limpas e passadas.

Jaqueline tem dois sonhos. Um é o de tornar-se salva-vidas. O outro é de um dia ser adotada por uma família argentina, só para ter mais chance de conhecer as Chiquititas. "Se não der, tudo bem, sou muito feliz aqui", diz a menina, abandonada ao nascer.

Sua única referência familiar é a avó materna, que a visita uma vez por ano. Nem a ela Jaqueline pergunta dos pais que nunca conheceu. "Tenho um monte de mães, tias e irmãos. A gente se adora." Com eles, montou o presépio com mais de trinta peças e a árvore de Natal colocada na entrada dos visitantes. Nesta semana todos se reunirão na festa natalina oferecida por benfeitores da entidade. "É o dia mais feliz do ano", ela garante, mexendo nos brinquedos que recebeu nos últimos dias. Tem uma Barbie, um bambolê, sapatos e vestidos. "A bicicleta eu acho que é o Papai Noel quem vai trazer." Preocupada com a chegada do velhinho, ela pensa por onde ele poderia entrar. Logo se acalma. "Esse lugar é tão grande, deve ter uma chaminé em algum canto."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

História 4

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo


"Se ela me der um brinquedo e fizer uma lasanha vai ser a melhor coisa do mundo." - Márcio

A mala já está pronta. Marcio Felix de Carvalho não agüenta de ansiedade. No dia 22, ele pegará o ônibus com a avó materna para passar o Natal na casa dela, em São Manuel, a 291 quilômetros da capital. Será a primeira viagem dos seus 8 anos de vida, e também a primeira visita à casa de um parente após três anos de afastamento.

Desde 1996, ele e o irmão Romário, de 6 anos, estão sob a guarda e os cuidados do Movimento de Assistência aos Encarcerados do Estado de São Paulo, o Maesp, criado por um grupo de evangélicos. Não sabem do paradeiro dos pais, e pouco lembram do passado. Marcio diz apenas que sua história não é boa. "Agora é bem melhor, tenho comida quentinha e até ganhei uma camiseta do Batman", conta.

Apesar do aperto financeiro pelo qual passa a instituição, ali ninguém tem fome ou vive com roupa rasgada. Para manter as contas em dia, os funcionários promovem jantares, bazares e venda de quadros pintados pelos pequenos. As doações são cada vez mais escassas. O que ajuda é o corpo de voluntários. Alguns até levam as crianças para suas casas na semana do Natal e Ano Novo, quando o abrigo fica fechado.

No ano passado, Marcio passou essas datas junto com a família de uma das mulheres do voluntariado. Aprendeu a mexer em computador e surpreendeu a todos com sua habilidade. Ainda assim, finca pé na intenção de ser jogador de futebol. Estuda duro de manhã, para poder treinar seus chutes na Escola de Futebol do Marcelinho, no Ipiranga, à tarde. Nesta semana de Natal, ele pretende exibir suas qualidades de boleiro à avó. Em troca, espera recompensas simples. "Se ela me der um brinquedo e fizer uma lasanha vai ser a melhor coisa do mundo."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

domingo, 12 de setembro de 2010

História 3


Foto: Irene Lamprakou

Revista Veja São Paulo


"A gente só ganha se alguém der dinheiro para comprar" – Alaíde

Este Natal promete ser bem melhor para Alaíde Marques Miranda, de 8 anos, uma das 85 crianças que vivem na Aldeia SOS de Rio Bonito, no Jardim Colonial. Há dois meses, ela ganhou uma madrinha dinamarquesa. A mulher de falar estranho veio ao Brasil só para conhecê-la, passou horas a seu lado, tirou fotos e deixou na afilhada a esperança de receber um presente até o dia 25.

No Natal passado, sem madrinha, Alaíde ficou de mãos vazias. "Acho que vai chegar dinheiro para minha mãe social comprar uma Barbie", acredita. A mãe social, no caso, é Adelaide Tonon da Silva, de 52 anos. Funcionária da organização não governamental criada na Áustria em 1949 e presente em diversos países,

Adelaide é encarregada de administrar uma das onze casas de três quartos, sala, cozinha e banheiro. Mora lá, cuidando de Alaíde e de outras sete crianças. Como se fosse uma família, sem pai. Recebe mensalmente 800 reais. Com essa quantia deve garantir aos pequenos comida, roupa, educação e higiene. Para brinquedos, dificilmente sobra algum.

É o segundo final de ano que Alaíde passa com a família social. "Natal é um dia legal, com uma festa bonita em salão e comida diferente", define. "Eu como muita uva e melancia."

Quando tinha 3 anos, Alaíde perdeu a mãe biológica. Sem parentes, foi encaminhada à adoção. Quatro anos depois, em 1997, alegando dificuldades para cuidar da menina, os pais adotivos a entregaram à instituição. Entre as poucas lembranças desse passado conturbado que ela comenta, fala de um certo Papai Noel que viu na escola, antes de chegar à Aldeia. "Ele é bom, traz presentes, mas sei que é um homem disfarçado", diz. Pela própria experiência, ela não tem ilusões quanto à origem dos brinquedos que chegam. "A gente só ganha se alguém der o dinheiro para comprar", descobriu.

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

História 2

Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo


"Tenho muita vontade de conhecer o mar..." – Keila

Desde quando era bebê, há onze anos, Keila Suzana Carvalho de Andrade vive no rígido ambiente religioso da Casa de Maria, um abrigo com 150 crianças que mantém a austera disciplina de antigos orfanatos católicos.

Keila acorda às 5h30, toma banho e veste o uniforme da instituição — calça de moletom cinza, camiseta e tênis brancos. Vai para a escola e, na volta, assiste ao capítulo da novela Chiquititas gravado na noite anterior. Às 19h, recolhe-se ao quarto. É hora de conversar com as amigas. Nada de TV. Nos poucos domingos em que ficou diante da telinha até mais tarde acabou dormindo na oração matinal.

Em meio a tal rotina, Keila não encontrou espaço para acreditar em Papai Noel. Quando era pequena, alguém disse que ele havia subido em um avião, saltado e morrido. Para ela, pareceu convincente.

Keila aprendeu a não sentir falta da mãe biológica. Só sabe que ela a deixou no orfanato e nunca mais voltou. "Não me interesso porque nem a conheci", diz, com a naturalidade de quem se habituou a ausências, rigidez e renúncias. Alegra-se com coisas simples.

Como sua roupa predileta, a de domingo: saia comprida, listrada de branco e azul, e camisa de algodão branca com a imagem de Nossa Senhora e o Menino Jesus. Sabe que na ceia de Natal todos estarão comendo na imensa mesa do quintal, onde serão distribuídos os presentes doados à Casa de Maria. Não faz pedidos, mas tem lá suas preferências. "Seria bom ganhar um fichário com uma estampa do gato Frajola", sonha. "Também tenho muita vontade de conhecer o mar..."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes


Foto: Google Imagens

Revista Veja São Paulo

Existem na cidade de São Paulo muitos abrigos destinados a cuidar de crianças que, por algum motivo, não têm um ambiente familiar que as acolha. Já não se usa mais a palavra orfanato para definir esses lugares, pois o que produz menores carentes não é somente a morte dos pais, mas também outros dramas, como o abandono, a miséria, os maus-tratos. Desde 1990, quando foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, as entidades sérias dedicadas a esse tipo de proteção mudaram de nome e de objetivos. Deixaram de ser depósitos de rejeitados para tentar mudar o destino dos internos, seja encontrando pais adotivos, seja promovendo seu retorno à família original. Passaram a dar-lhes, enfim, o direito de ter esperança num futuro melhor. É por isso que, apesar das agruras, meninos e meninas nessa situação ainda encontram motivos para sorrir — especialmente na época do Natal, quando o espírito solidário motiva a chegada de presentes, visitas e festas preparadas só para eles.

Ricardo, Keila, Alaíde, Marcio, Jaqueline, Angélica e Fernando, que você conhecerá melhor nas próximas páginas, expressam bem essa alegria. Há muitas formas de ajudá-los e aos milhares de pequenos que vivem nas centenas de abrigos na cidade. Em muitos casos, o melhor a fazer é cercá-los com o calor que só existe de verdade na relação entre pais e filhos. Nem sempre, porém, a adoção é possível. Algo que pode ser feito em favor de toda essa gente miúda são doações às entidades que cuidam deles.

Para conhecer algumas das mais sérias, basta consultar as relações existentes no site do projeto Bem Eficiente (http://www.melhores.com.br) ou falar com o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente ( 225-9077, ramal 23 ou 24). Pode-se também apoiá-las como voluntário (cadastrando-se pelo site http://www.voluntarios.com.br) ou até ficar com um dos abrigados em casa na época do Natal. Se nada disso estiver a seu alcance, agende uma visita à entidade. Não custa nada e vale muito. Toda criança adora ver que alguém pensou nela.

Com reportagem de Anna Paula Buchalla, Gabriel Pillar Grossi, Gabriela Erbetta, Iracy Paulina e Viviane Kulczynski.


Seguem 7 histórias reais, uma por postagem.


História 1

"Quero um trem, um boneco, reportagem de capa uma mãe e um irmão" – Ricardo

Saber quem é o velhinho que traz os presentes no dia de Natal não é a única curiosidade que Ricardo Martins expressa no olhar. Há muitas outras, entre as quais descobrir algum detalhe sobre o próprio passado. Acometido de uma espécie de amnésia, ele não se lembra da família nem sabe dizer quanto tempo esteve abandonado nas ruas da cidade. Perambulava pelo centro, em meados do ano passado, quando foi recolhido, levado a uma unidade da Febem e encaminhado ao abrigo do Movimento de Apoio à Integração Social, Mais. Desde então tem recebido o cuidado da entidade e de seus 120 voluntários, encarregados de dar a melhor vida possível às oitenta crianças que aguardam um destino — seja a adoção, seja o retorno à família de origem. Segundo exames médicos, Ricardo tem por volta de 7 anos.

Sentado junto do pinheirinho enfeitado no saguão, ele fala sobre o Natal do ano passado, o único que ficou gravado em sua memória. "Papai Noel chegou de helicóptero e distribuiu presentes para todos", conta. "Ele mora longe, precisa vir voando."

Fã de Ronaldinho e dos personagens de desenho animado Rei Leão e Hércules, o garoto procura imitar um pouco de cada um. Cortou o cabelo bem curto, como o craque. Adora a natureza, como o leãozinho dos estúdios Disney. De Hércules, copiou a coragem. "Nunca tive medo de nada, nem quando dormia em casa abandonada", diz.

Matriculado no pré-primário, descobriu a magia do lápis e do giz de cera. Vive desenhando. Já rabisca algumas letras e exibe orgulhoso, num pedaço de papel, as iniciais de seu nome. Ainda não consegue escrever uma lista de presentes. "Não precisa, né?", conclui. "Papai Noel sabe que eu quero um trem de plástico, um boneco, uma mãe e um irmão", pede. "Se não der, tudo bem, já ganhei uma bola mesmo."

Publicação - Revista Veja São Paulo
Circulação - São Paulo – SP
Data - 23/12/98
Edição – 1578
Assunto - Abandono – Institucionalização
Título - Sete Histórias de Natal de Meninos e Meninas Carentes
Autora - Mirian Scavone


Postado Por Cintia Liana