"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Falando sobre a adoção com o filho

Foto: Google Imagens

Não existe idade ideal para a criança saber sobre o tipo de vínculo que tem com seus pais adotivos. É muito importante e saudável que os pais já contem historinhas de adoção para a criança desde a sua chegada na família, independente da idade. Assim, ela vai se acostumando com o tema e entendendo os fatos na medida em que for amadurecendo. Mesmo que não faça muito sentido para ela, o importante é que, quando passar a entender as dimensões dos fatos e os verdadeiros significados, ela irá sentir que seus pais adotivos sempre foram muito sinceros sobre sua adoção e que esse é um assunto conhecido e, melhor ainda, "permitido" na família. O fato de alguns pais entenderem a adoção como algo negativo não significa que a criança também entenderá desta forma, mas somente repetirá esse modelo de conduta se os pais insistirem neste erro, tratando a adoção como algo vergonhoso e negativo.
Será que é justo uma criança crescer sentindo que há “algo de errado ou de misterioso” com a sua existência, com seu nascimento, com o seu lugar no mundo e na família? Será que é bom achar que é fruto de algo vergonhoso, que a sua família substituta tem que esconder, ou não falar de sua origem, como um tabu?A criança adotiva tem que crescer num ambiente que a propicie falar sobre seus sentimentos abertamente, sem vergonha ou medo.
Eldridge (2004), explica que a criança adotiva raramente fala de forma aberta sobre sua raiva relacionada ao fato de ser adotada. Porque ela acredita que estará magoando os pais adotivos e por que ela acha que os deixará incomodados, assim ela não fala e poderá expressar isso de uma forma agressiva e anti-social em algum dado momento. Como no caso da adaptação, a criança também pode manifestar tendências anti-sociais por querer mostrar que há algo de errado com ela, por estar sofrendo algum tipo de privação ou sofrendo com algum sentimento que ela não está sabendo lidar.

Afine-se, seja cúmplice do seu filho no processo de descoberta de sua identidade, e o conhecimento e aceitação de suas origens fazem parte disso. Quando ouvir perguntas-afirmações do tipo “eu vim de sua barriga, não foi, mamãe?”, fale tranquilamente que não, mas que para amarmos alguém como filho ele não precisa “sair da barriga”, pois o amor se faz no coração. Quando perguntar sobre a família biológica tente responder o que sabe e o que a criança tem capacidade de ouvir e aceitar, mesmo que não entenda tudo, ela tem o direito de saber.

“Dedicar um tempo para a reflexão a respeito da adoção é revelá-la para nós mesmos, é incorporar uma verdade que está sendo assumida a partir da intenção. A adoção não acontece sem uma decisão. Isto a torna diferente. Por ‘diferente’ temos que ler diferente. Uma outra forma de ser pai, de ser mãe. Só. Só? Não, a adoção é rica por isso mesmo! Encontro de histórias, uma caixinha de surpresas que temos as chances de moldar, de ajeitar com carinho, de ajudá-la a crescer. O que é um casamento afinal? O encontro de duas pessoas diferentes, com histórias diversas que identificam coisas em comum, ou coisas que os atraem, iniciam um relacionamento e percebem que ele poderá durar por toda uma vida. Encontro de histórias, assim como na adoção. Em toda história há riqueza, porque há vida, experiência. São nossas histórias de vida que nos tornam diferentes, especiais. Nelas há sempre um ensinamento, uma lição, merecem respeito. Para haver uma adoção, deve ter havido antes um abandono. Sempre, por menos sofrido que tenha sido. Nisto há uma história. Um filho adotivo sempre terá uma história anterior à adoção, que deve ser respeitada por fazer parte dele, por tê-lo ajudado a se formar. Ao optar pela adoção, os pais adotivos devem levar em conta que estarão sempre ligados aos pais biológicos de seus filhos, porque sem eles, estes não estariam no mundo hoje. E aqui está um dos pontos mais bonitos da adoção, não se pode negar esta realidade, mesmo porque ela reforça a intenção, a ação e o desejo por este filho.Negar e negar-lhe este fato, é não aceitar parte da história de vida do filho, é não aceitá-lo como é, incondicionalmente. É também negar toda a espera, todo o desejo motivador do antes.” (Schreiner, 2000)

“Se a informação sobre essa história prévia não lhe é dada, ela perde parte de sua biografia, de sua trajetória anterior, que se encontra registrada em seu inconsciente, é parte da carne de seu corpo e esse corpo jamais poderá ser reduzido ao silêncio” (Videla, 1998).

“Os filhos adotivos, também passam pela pressão social preconceituosa e aderindo ao modelo transmitido por seus pais, relatam que não têm curiosidade nem interesse em saber sua própria história, ou de seus pais biológicos. Na verdade, existe um acordo tácito e velado de não se falar a respeito da adoção: os pais procuram encobrir sua esterilidade, o medo fantasioso de que o filho volte para sua família de origem e a impossibilidade de ter um filho do 'seu próprio sangue'; os filhos não falam a respeito para não magoar seus pais e para encobrir sua própria mágoa de ter sido rejeitado por sua família de origem e assim perdem um pedaço de sua identidade. Um outro ilustre personagem das histórias infantis, Super-homem, tornou-se 'super' exatamente quando soube com detalhes a sua origem; uma interpretação livre sobre o fato é que o abandono das dúvidas e fantasias sobre sua família biológica criou condições para o fortalecimento e construção de sua personalidade e identidade”. (Nascimento apud Weber, 2005)
Referência:

Eldridge, Sherrie. (2004). Vinte coisas que os filhos adotivos gostariam que seus pais adotivos soubesses.
Nascimento, R. F. L. do, Argimon, I. I. de L., Lopes, R. M. F., Wendt, G. W. e Silva, R. S. da. O processo de Adoção no Ciclo Vital. [online] Disponível na Internet via www. URL:http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=293. Arquivo capturado em 17 de fevereiro de 2007.
Schreiner, Gabriela. Vamos Falar-nos de Adoção (A revelação). Apresentado em reunião de pais do grupo NEPPAJ – Jundiaí/SP – 2000. [online] Disponível na internet via www URL: http://cecif.org.br/tt_revelacao.htm. Arquivo capturado em 20 janeiro de 2007.
Videla, Mirta. A Procura das Origens. Boletim “Uma família para uma criança” – Fernando Freire (org) – ano I nº 2. [online] Disponível na internet via www URL: http://cecif.org.br/tt_busca.htm. Arquivo capturado em 20 de janeiro de 2007.



Por Cintia Liana

Um comentário:

Patrícia disse...

Achei muito interessante esse artigo porque o meu Enzo é biologicamente meu e adotado legalmente pelo meu companheiro.Tem três anos e eu sempre me pergunto quando será a hora da conversa.É verdade que ainda me sinto ...."perdida" mas vou inventar algumas histórias como o texto sugere. Obrigada.