"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Impondo limites na adoção

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Ao adotar uma criança, o adotante deve impor limites desde o início da convivência ou isso pode prejudicar o processo de adaptação? E após a adoção, concretizada deve-se oferecer um tratamento diferenciado em razão de seu histórico de abandono?

Por Cintia Liana Reis de Silva

Primeiro os adotantes devem entender que quem está sendo adotado é uma criança como qualquer outra e que naquele momento o que ela menos precisa é ser “moldada” ou vista somente como um produto de seus prováveis traumas e maus hábitos da família de origem e da instituição. Ela precisa de tempo para elaborar suas perdas e sua nova vida.

É preciso tempo para enteder aquela realidade, é preciso amor para olhar com delicadeza cada criança e perceber como ela sente o seu próprio mundo, o mundo externo, qual é o seu histórico, começar a descobrí-la, entendendo suas necessidades existenciais e as necessidades daquele momento, sem precisar sentir a ansiedade do controle parental sobre todos os passos que ela dá. Ela não precisa de rigidez, ela urge por alguém que a entenda, que seja cúmplice até na hora de dar limites e que a ajude a começar o caminho de cura de suas feridas. Que a ensine a ser filha, que a ajude a sentir que pode confiar nas pessosa, que pode confiar na vida.

Ela precisa sentir que é aceita sem pré requisitos para ser amada, assim ela entenderá que está em "casa", que pertence àquele ambiente, e assim colaborará com ele e com os pais, caso contrário, ela entende que ganhou inimigos, pessoas que colocam condições para amá-la e todos nós sabemos que quem coloca condição não sente amor verdadeiro, isso é conveniência, pois a disponibilidade de amar é incondicional.

Cada semana os adotantes descobrirão muitas coisas novas sobre eles mesmos e um Universo totalmente novo. Eles também estarão em um processo subjetivo de adaptação, estarão construindo uma nova e forte relação de amor, construindo uma nova identidade, a pessoa pai e mãe, e precisam reconhecer isso, estarão entrando em contato com suas memórias de infância, com seus medos, feridas e incertezas e estarão escolhendo consciente e inconscientemente se irão repetir seus modelos parentais, entrarão em conflito consigo mesmo, rejeitarão algum comportamento do filho por algum motivo pessoal, se verão nele, então é preciso ter humildade para se “REconhecer” e “REpensar” seus valores, educação e relação consigo mesmo.

Outras fases poderão vir, como uma fase de revolta da criança, mas todo o cuidado e entendimento fazem-se necessários para que ela entenda que pisa em um terreno sólido, fértil e seguro e assim esta fase passará, se tiver um espaço onde é educada a falar sobre o que sente, a reconhecer suas dores e assim poderá entender que pode se expressar de um modo mais consciente, pois tem pais que são bons modelos e podem arcar com este seu processo de cura, fortalecimento e o aprendizado do amor. Porque ninguém nasce amando, isso se chama apego, amar se aprende.

Cintia Liana Reis de Silva é psicóloga e psicoterapeuta, especialista em casal e família, trabalha com adoção há 10 anos. Vive na Itália.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Irmãos adotados no Brasil se encontram em Milão

Foto: Google Imagens

Nesta sexta, 17 de dezembro, o Mais Você mostrou uma reportagem de arrepiar: a história de quatro irmãos que nasceram em Santo Amaro, bairro muito populoso da zona sul de São Paulo, e tiveram o pai morto num episódio de violência. Gustavo (11), Pâmela (9), Vitória (8) e Natasha (5) foram abandonados pela mãe e pararam num abrigo porque sofriam maus tratos por parte das irmãs mais velhas. As crianças foram adotadas por duas famílias italianas, de Brescia, Milão. A repórter Thaís Itáqui, do Profissão Repórter, acompanhou a história completa, desde o encontro da nova família no Brasil até a ida para o novo país.

Pamela e Vitória foram primeiro para Itália com os pais Luisa e Luca. Já Gustavo e Natasha foram adotados por Cinzia e Paolo. Thaís já conhecia os irmãos há 4 anos e tinha um carinho enorme por eles, assim como por todas as outras que ainda estão no abrigo. “A gente acaba se aproximando muito delas. Quando fiquei sabendo da história, na hora quis mostrar. Pra mim foi mais emocionante porque conhecia a história delas”, contou no estúdio do Mais Você. Além de Thaís, Ana Maria Braga recebeu Iasin Ahmed, juiz da vara e da infância e da juventude de Santo Amaro.

Thaís falou sobre a experiência de conviver com a rotina da primeira semana de uma família adotiva num país diferente, com culturas e costumes distintos. No período de gravação, a proximidade com as crianças a ajudou muito. Eles se sentiam confiantes e à vontade com Thais. Na Itália, as meninas queriam lhe mostrar e contar tudo, afinal ela era a única referência do Brasil que restava para as crianças. Para a repórter, é preciso ter um olhar de responsabilidade social como os italianos tiveram. “Eles estão dando o maior amor do mundo”.

Segundo a comissão estadual judiciária de adoção internacional de São Paulo, 4 mil adoções, em média, são feitas por ano no estado. Desse número, apenas 200 são internacionais. Dados do cadastro nacional de adoção mostram que cerca de 8 mil crianças estão na fila para serem adotadas. 18% negras, 30% brancas e 50% pardas. 71% possuem irmãos. se o número de meninos e meninas que esperam ser adotados é grande, o de casais a procura de filhos nem se fala: são mais de 30 mil. Mas, 84% só querem adotar uma criança. 37% só aceitam crianças brancas, 82% não aceitam irmãos e 78% só aceitam crianças de até 3 anos de idade.

Fonte: Rede Globo, "Mais Você"


Postado Por Cintia Liana

domingo, 12 de dezembro de 2010

A idade da criança como fator que dificulta a adoção: Realidade ou mito?

Falando novamente sobre adoção de crianças maiores, posto aqui uma entrevista cedida a aluna Caroline Folster, para o seu trabalho de conclusão de curso de Graduação em Bacharelado em Direito pela Faculdade Campo Limpo Paulista - FACCAMP.

Tema: A idade da criança como fator que dificulta a adoção: Realidade ou mito?

Foto: Google Imagens

Caroline Folster - Qual a maior causa de abandono de crianças brasileiras hoje?

Cintia Liana Reis de Silva - Quando eu trabalhava na Vara da Infância e Juventude de Salvador via que os motivos para uma mãe entregar o seu filho para adoção eram a falta de estrutura financeira e falta de apoio familiar e do genitor da criança. Geralmente eram mulheres que já tinham uma história familiar mal resolvida, eram emocionalmente desorganizadas, desestruturadas e sem a capacidade de assumir o compromisso de ser mãe, assim como não tinham uma relação estável com o pai da criança.

Caroline Folster - Como fica o psicológico de crianças abandonadas, ou mesmo tiradas de suas casas por maus tratos?

Cintia Liana Reis de Silva - As crianças sentem muita dor, não entendem o que está acontecendo de fato e nem o por quê passam por aquilo, algumas até sentem culpa por se sentirem o motivo pelo qual a mãe provavelmente será punida, elas acreditam que pode existir uma punição. Experimentam a dor do desamparo, medo de ficar sozinhas sem o amor de quem ama e por não entender bem a dimensão dos fatos.

No sething terapêutico muitas vezes não gostam de falar sobre o assunto, muito menos de uma situação delicada em que passou. Algumas conseguem responder a algumas perguntas, mas geralmente se mostram fechadas para tocar em determinados assuntos dolorosos, só após estabelecerem uma relaçao de maior confiança conseguem se abrir e chorar, mas tudo depende do caráter da criança e de sua abertura para falar.

Caroline Folster - Como a criança se comporta em um processo de adoção? O processo de adaptação com a nova família é difícil?

Cintia Liana Reis de Silva - Normalmente as crianças já desejam a adoção e esperam ansiosas por sua nova família, família esta idealizada e verbalizada sempre.

As maiores nem sempre acreditam que possam ser adotadas, pois dizem que as pessoas só querem adotar bebês. Ficam desesperançosos, mas outros já são mais otimistas.

Dentro do abrigo há crianças que demonstram sentir um pouco de revolta e algumas experimentam extrema ansiedade, mas geralmente sempre estão com um sorriso no rosto, dispostas abraçar a quem chegar e der um pouco de atenção e carinho.

Muitas vezes são atendidas pelo psicólogo (perito) da VIJ (Vara da Infância e Juventude) antes ou acompanhada por psicólogo do abrigo em que está, quando poderá ser feita uma avaliação psicológica para ser anexada ao futuro processo de adoção. Acontece tudo tranquilamente na maioria das vezes, pois o desejo existe e é ele quem faz acontecer a relação de amor e a abertura para que tudo dê certo.

Poucas crianças apresentam um comportamento aversivo ao processo de adoção, pois é normal que queiram uma família a ficar numa instituição.

É claro que quando começa a convivência antes de ser dada a sentença pode acontecer alguns desajustes para que ocorram os ajustes, é natural que algumas coisas aconteçam neste momento de adaptação.

Caroline Folster - Algumas pessoas, não generalizando, tem preconceito com crianças que são adotadas “tardiamente” ou seja, com mais de dois anos. Como é desenvolvimento do psicológico de crianças nessa idade? É possível uma adaptação ocorrer mais fácil?

Cintia Liana Reis de Silva - O que pode dificultar o estabelecimento de um vínculo não é exatamente a idade, mas a forma como a criança lida com suas emoções no período de adaptação, um pouco do temperamento pode influenciar, mas o mais importante é a forma em que o casal ou adotante solteiro vai lidar com algumas dificuldades que possam emergir de ambas as partes no período de adaptação, coisa que é normalíssima, pois estão se conhecendo e formando uma família, flexibilizando, se habituando. Quanto mais preparados a acolher as dificuldades e a superá-las desenvolvendo amor, maiores são as chances de sucesso de uma adoção, seja com uma criança pequena, grande ou até mesmo com uma criança que venha a apresentar extrema revolta, todas elas são capazes de mudar neste período, basta sentir que podem contar de verdade com os adultos e com o amor que desejam receber, que não há pré-requisitos para serem amadas e que não serão abandonadas novamente, elas querem crer nesta nova relação parental, querem não sentir medo de se entregar.

Casais italianos vão para o Brasil adotar crianças maiores, que já esgotaram todas as possibilidades de inserção em família brasileiras. Essas adoções têm sucesso mesmo com crianças acima de 10 anos, porque os casais chegam desejosos e fazem tudo para que a relação dê certo em um mês de convivência e conhecimento em um hotel para o estabelecimento de vínculos antes da audiência final, depois são mais 15 dias, aproximadamente, para a saídas dos documentos e voltam para a Itália . Já ouvi algumas vezes de casais chorando: “não teria filho melhor para nós do que esse”, “é como se ele já fosse nosso a vida toda”.

Devemos desmistificas preconceitos e preparam bem os adotantes, assim nada será dificuldade.

Caroline Folster - Como é realizado o trabalho de psicólogos, perante a nova família e a criança?

Cintia Liana Reis de Silva - Durante o período de convivência a nova família (adotantes e crianças) é acompanhada em alguns atendimentos psicológicos para checar a adaptação de todos à nova realidade. Se conversa com os adotantes, com a criança e se faz as devidas observações do vínculo que vai se estabelecendo. O psicólogo faz perguntas e os adotantes podem tirar dúvidas, é um momento de acolhimento de tudo o que diz respeito àquela nova realidade.

Este momento é muito importante porque acontece a integração de elementos de sentido e de significação que caracteriza a organização subjetiva de um âmbito da experiência dos sujeitos, ação, construção, história, transações e trocas sociais e cultura como configurações subjetivas da personalidade. É um complexo de articulações e possibilidades contraditórias e processos de ruptura e renascimento, tudo deve ser visto com sensibilidade e não com um olhar determinista, universalista, as coisas acontecem e tudo é bem vindo para que a relação tome sua própria forma e não uma forma mágica aprendida em livros de contos de fadas. (SILVA, 2008)

Caroline Folster - Qual sua opinião referente ao tema da monografia?

Cintia Liana Reis de Silva - Penso que este é um tema importantíssimo, pois iniciativas como essas ajudam a desmistificar os preconceitos que ainda insistem em fazer parte do discurso e da mentalidade das pessoas na hora de adotar, é um tema que envolve muitos mitos não só imaginados pelos adotantes, mas também pela família extensa, amigos e companhias que estão em volta daqueles que desejam adotar e que muitas vezes dão conselhos respaldados numa mentalidade baseada nos paradigmas ocidentais, numa visão reducionista do ser humano e determinista.

Precisamos investir na ciência, pesquisa, cultura e informação, usar mais a mídia para fazer o bem e unir os seres humanos em seu próprio benefício, pois as pessoas ainda estão alienadas aos processos sociais, econômicos, culturais, políticos e ideológicos. As pessoas insistem em encaixar as relações numa visão monolítica, elementar, cartesiana, construto-individualista, onde a irregularidade e o singular são marginalizados. Ou seja, o pensamento científico tem sido dominado pelo paradigma da simplicidade, então devemos investir em pesquisa e estudo, ainda mais se vamos ajudar tantas crianças a terem uma família. (Rey apud SILVA, 2008)

Parabéns pelo tema e pelo trabalho! Boa sorte e sucesso em sua profissão, que você possa usá-la para beneficiar a todos.

Referência:
Silva, Cintia L. R. de. Filhos da Esperança: Reflexões sobre família, adoção e crianças. Monografia do curso de Especialização em Psicologia Conjugal e Familiar. Faculdade Ruy Barbosa: Salvador, 2008, 58 p.

Por Cintia Liana

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Possíveis desafios de adotar uma criança mais velha

Foto: Cintia Liana é citada na Revista Cláudia de dezembro de 2010

No mês de novembro cedi uma entrevista à uma das jornalistas da Revista Cláudia, Silvia Braccio. A matéria sobre adoção internacional será publicada na Edição de dezembro de 2010, que pode ser comprada nas bancas de todo o Brasil. Conta ainda quatro bonitas histórias de adoção. 
Como todos sabem, a Revista Cláudia é uma das mais vendidas em todo o País, direcionada a público feminino e com várias matérias de interesses diversos.
Fiquei muito feliz com o convite.
Como na matéria não tem espaço para publicar tudo o que falamos, ao contrário, publica uma pequena parte ou citações, resolvi postar aqui, aos poucos, partes da minha entrevista completa, cedida à jornalista.
Parabéns a revista Cláudia e a jornalista Silvia Braccio pela escolha do tema, que sempre ajuda a desmistificar muitos preconceito e, assim, possiblita mais encontros de amor, entre novos filhos e novos pais.


Foto: Google Imagens

Umas das perguntas da entrevista:
"Adoção Internacional"
Revista Cláudia - Quais os desafios de adotar uma criança mais velha?

Cintia Liana Reis de Silva - O maior desafio antes de adotar uma criança mais velha são os preconceitos e mitos que essa prática envolve. Crenças de que a criança já esteja tranzendo traumas vividos na família de origem e na instituição de onde vem; que já tragam hábitos ou vícios cotidianos difíceis de serem “retirados”. Medo de que a criança não se adapte ou que não reconheça os adotantes como “verdadeiros” pais, que rejeite os mesmos ou queira voltar para os genitores.

Há também a insegurança em achar que só com um bebê irá sentir amor, pois a chegada do bebê poderá se assemelhará ao máximo com um parto e será mais fiel aos meios e ritos “naturais” de se ter um filho.

Todas essas questões são muito corriqueiras, mas são fantasias que surgem da falta de informação e do preconceito. O pré requisito para uma adoção de sucesso é o desejo de amar, sem esse desejo não ocorre nem a adoção de um filho adotivo nem de um biológico, pois para se ter um filho biológico como um filho “verdadeiro” também precisa ocorrer um processo emocional de adoção, de acolhimento daquele ser. A única forma de assumirmos um papel e o desempenharmos bem em sua plenitude é sermos acolhidos e aceitos como tal.

Existem muitas vantagens em se adotar uma criança mais velha, por exemplo, elas desejam conscientemente uma família, já sabem que vêem de uma outra família, mas que por algum motivo não puderam permanecer com ela e precisam de pais substitutivos, estão dispostas a se doar e a amá-los como nunca.

Todas as adoções passam por fases e adotar crianças mais velhas não é mais complicado, o difícil é lidar com adotantes muito exigentes e muito metódicos, temerosos e muito inseguros, porque já bastam as inseguranças da criança, por medo de ser rejeitada mais uma vez, esta sim está ferida, mas com um grande desejo de recomeçar, de amar.

A adoção tardia é um tema que envolve muitos mitos não só imaginados pelos adotantes, mas também pela família extensa, amigos e companhias que estão em volta daqueles que desejam adotar e que muitas vezes dão conselhos respaldados numa mentalidade baseada nos dogmas ocidentais, numa visão reducionista e determinista do ser humano.

Se temos adotantes seguros, dispostos a dar amor e inicialmente não exigir que o futuro filho seja como eles esperam para ocupar este espaço, a criança se sentirá aceita e acolhida em sua totalidade e sentirá que o terreno é seguro para amar esses pais e que pode até desejar ser parecida com eles, pois são dignos deste amor e desta confiança.

Quando fui coordenadora do serviço de psicologia de uma Vara da Infância e Juventude no Brasil, em minhas reuniões, falava muito sobre adoção "tardia", sobre a necessidade de expansão do perfil, da transformação do desejo do filho ideal para o filho possível, pois não importa a idade para se tornar filho, o que conta é o desejo. Assim, via pessoas saindo da sala de reuniões dizendo que iriam direto ao serviço social mudar o perfil, pois adquiriu uma consciência de parentalidade e vínculo que não tinham antes, que não mais esperaria por uma criança que seria abandonada para estar em seus braços, mas que queriam uma criança que já estivesse esperando por eles em algum abrigo. Isso é um presente para mim enquanto profissional, é o melhor retorno, é maravilhoso!

Por Cintia Liana

sábado, 3 de julho de 2010

Como vai a família?

Foto: facebook

"Sou P., casado com B. e pai de G. que veio ao nosso encontro perto de completar 2 anos e hoje tem 4.

Entre a entrada dos documentos e chegada do meu filho foram 9 meses. Neste intervalo de tempo buscamos nos preparar, lendo muito, buscando preparar todos para a chegada dele e, se considero hoje a nossa história feliz, certamente foi por termos conhecido pessoas maravilhosas que não somente nos passaram a experiência que já tinham, como dividiram as dúvidas e dificuldades conosco.

Estou falando para que os que estão ainda somente habilitados. Curtam a paisagem que isso vai ser fundamental na chegada.

O periodo de adaptação dele, logo no inicio, foi difícil, mas estávamos preparados e amparados pelos amigos e em pouco mais de 1 mês, meu filho estava totalmente "em casa".

Hoje, após quase dois anos, parece que ele sempre esteve conosco e o amor entre nós todos é reciproco e contagiante."

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Quem assina é um pai muito feliz e realizado, um grande amigo meu. Com B. forma um lindo e jovem casal que conheci em 2008.

Por Cintia Liana

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A adaptação na adoção

Foto: Paulo Santos
Por Cintia Liana Reis de Silva

"Muitas vezes, os adultos fazem das crianças o repositório de sua imaginação e expectativas, não se dando conta das conseqüências futuras de suas fantasias. Os filhos carregam sobre si o peso das esperanças dos pais para depois, muitas vezes, arrastarem, também, o fardo das suas frustrações” (Nascimento et al, 1998).

Um aspecto muito importante é pouco considerado por muitos candidatos a adoção é a adaptação da criança à nova família, à nova casa, às novas relações. Nos esquecemos das dificuldades e dúvidas de quando somos crianças, nos esquecemos de que a forma de entender e ter segurança é muito diferente. Por esse motivo, os adultos costumam achar que a criança se adapta a qualquer ambiente como nós, basta ela estar um ambiente agradável ao nosso olhar. Esse é um grande equívoco, que pode dificultar ainda mais o processo de integração da criança na família substituta.

A criança necessita de tempo para entender o novo local, confiar nas novas pessoas que estão ao seu redor, acostumar-se com o novo espaço, com a nova alimentação, sentir segurança nos objetos que a cercam e ainda demanda algum tempo para sentir verdadeira segurança nos novos pais e diminuir o medo de ser novamente abandonada.

Por esse motivo, é muito natural a criança inicialmente ter enurese noturna, pesadelos, chorar em alguns momentos e sentir medo de algumas coisas. A dimensão do mundo é diferente para a criança. É preciso ter muita paciência e compreensão quando iniciar a convivência com o futuro filho adotivo, pois ele precisará de respeito e isso faz parte do amor que está sendo construído e desenvolvido entre as pessoas. A adaptação, por mais difícil que seja para a criança não precisa ser algo ruim, mas faz parte do que ela é, do seu entendimento de mundo e isso precisa ser respeitado.

O estudioso Bert Hellinger, da “Constelação Familiar”, tem uma linha de pensamento muito marcante. Ele lembra que uma adoção deve ser justificada quando a criança não tem mesmo condições de ficar com sua família natural. Hellinger diz ainda que os pais adotivos, se não expressarem respeito pelos pais naturais e se sentirem, de forma secreta, superioridade frente a eles, a criança, inconscientemente, poderá manifestar solidariedade para com seus pais naturais. Os pais adotivos têm que se conscientizar de que são substitutos dos pais biológicos e que são capazes de entender seus filhos adotivos e aceitar que validem seus sentimentos ligados a rejeição, desta forma os pais substitutos serão melhor aceitos pela criança, ela reconhecerá a substituição como algo positivo. Ser substituto não significa estar em um nível inferior, significa agregar, neste caso.

Os novos pais também, inicialmente, poderão ser alvo do ressentimento que a criança sente por seus pais naturais, por ter sido rejeitada e esse registro é real no interior da criança. Quando isso acontece, até pode significar que a criança confia nos pais, ao ponto de se sentir a vontade para manifestar sentimentos que a incomodam.

Hellinger também fala da importância do pais adotivos aceitarem que a criança teve dois primeiros pais e que eles chegaram para realizar o que não estava ao alcance do pais naturais, então assim a criança, de fato, aceitará melhor os novos pais.Vejo isso claramente em adoções muito bem sucedidas, quando os pais adotivos permitem e incentivam verdadeiramente que seus filhos tenham um contato (emocional) amigável com seus pais naturais, exercitando o desapego. Eles permitem que a memória dos pais naturais façam parte da vida afetiva da criança.
Dentre muitas adoções, lembro especialmente a de um casal de 56 e 60 anos e uma menina de 5 anos. M., ao iniciar a convivência com seus pretendentes a pais adotivos, também iniciou um processo de agressividade intensa, em que ela jogava objetos no chão, chorava muito, gritava com o casal e o testava para saber se iria ser rejeitada novamente. O casal, em acompanhamento psicológico, entendeu seu processo, estava desesperada com medo de perder o que estava conquistando, estava passando pela fase em que estava deixando de ser a garota abandonada para ser a filha querida e amada, e não estava sabendo lidar com essa nova realidade, esse novo lugar que estava ocupando.
A. e F. deram tempo ao processo emocional com muita paciência e, ao mesmo tempo, dando os devidos limites, permitindo que ela sentisse raiva, mostrando a M. que ela poderia confiar neles, dando espaço para o diálogo, mesmo M. tendo atitudes anti-sociais. M. percebeu que poderia confira nos novos pais, que eles não iriam abandoná-la, como fizeram os primeiros, entendeu que estavam alí para ajudá-la. Após dois meses de acompanhamento psicológico, a criança passou a ter uma convivência tranqüila, aos poucos atendendo as expectativas do casal e as do acompanhamento.
Hoje se expressa de forma saudável, travou com toda a família uma relação de amor e respeito e o casal continuou muito apegado à ela, a vendo cada vez mais como verdadeira filha. O que propiciou esta mudança e este equilíbrio foi a persistência e o amor incondicional que os requerentes sentiam pela criança, além disso as pessoas envolvidas se abriram totalmente para o acompanhamento psicológico.
A criança também pode manifestar tendências anti-sociais por querer mostrar que há algo de errado com ela, por estar sofrendo algum tipo de privação ou sofrendo com algum sentimento que ela não está sabendo lidar. Por exemplo, ao furtar objetos a criança pode não estar buscando o objeto em si, mas querendo buscar a mãe, buscar uma relação com os novos pais suficientemente boa. (Eldridge apud Winnicot, 2004)

Então Levinzon (2004) explica que quando os pai adotivos passam a ter fantasias como, “se fosse meu isso não aconteceria” ou “se pudesse, eu o devolveria”, devem ser colocadas em palavras, devem ser reconhecidas e os pais devem perceber a decepção e o cansaço.

Quando o casal passa a rejeitar a criança, isso faz com que a criança se distancie mais ainda tornando, às vezes, inviável a conclusão da adoção.

Eldridge alerta também para o que desencadeia a raiva do adotado, como a rejeição percebida, a falta de respeito diante de seus sentimentos ou quando a criança se sente roubada ou comprada. Raiva por medo de não ter suas necessidades básicas atendidas, medos de não ter carinho ou comida no dia seguinte ou de não ter os pais para sempre. Por todos esses motivos a adoção precisa ser um ato pensado e amadurecido e com certeza terá sucesso se as pessoas envolvidas tiverem a verdadeira disposição para aceitar e amar plenamente.


Por Cintia Liana

Referência:

Eldridge, Sherrie (2004). Vinte coisas que os filhos adotivos gostariam que seus pais adotivos soubesses.
Levinzon, G. K.. Adoção. Coleção Clínica Psicanalítica / dirigida por Flávio Carvalho Ferraz. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
Nascimento, R. F. L. do, Argimon, I. I. de L., Lopes, R. M. F., Wendt, G. W. e Silva, R. S. da. O processo de Adoção no Ciclo Vital. [online] Disponível na Internet via www. URL:http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=293. Arquivo capturado em 17 de fevereiro de 2007.