"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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sábado, 5 de novembro de 2016

Um livro que fortalece e empodera as mães

Um livro que fortalece e empodera as mães.

O melhor livro que já li sobre maternidade, nascimento e vínculo entre mãe e bebê.

"A maternidade e o encontro com a própria sombra"





Por Laura Gutman
Este é um livro escrito para mulheres. Não pretende ser um guia para mães desesperadas. Ao contrário, é uma espécie de “alto lá!” no caminho para que possamos pensar como mães que estão criando seus filhos, com nossas luzes e sombras emergindo e explodindo em nossos vulcões em chamas.
Muitos aspectos ocultos de nossa psique feminina são desvelados e ativados com a chegada dos filhos. Estes momentos são, habitualmente, de revelação e de experiências místicas se estivermos dispostas a vivê-los nesse sentido tais e se encontrarmos ajuda e apoio para enfrentá-los. Também são uma oportunidade de reformularmos as ideias preconcebidas, os preconceitos e os autoritarismos encarnados em opiniões discutíveis sobre a maternidade, a criação dos filhos, a educação, as formas de criar vínculos e a comunicação entre adultos e crianças.
Este livro pretende abordar a experiência vital da maternidade como vibração energética mais do que como pensamento linear.
Trazer as experiências que todas as mulheres atravessam como se fossem únicas, sabendo, ao mesmo tempo, que são compartilhadas com as demais fêmeas humanas e fazem parte de uma rede intangível em permanente movimento. Mesmo sendo muito diferentes umas das outras, as mulheres ingressam em um território onde circula uma afinidade essencial comum a toda mãe. Refiro-me ao encontro com a experiência maternal como arquétipo, em que cada uma se procura e se encontra em um espaço universal, mas buscando também a especificidade individual.
Por meio de diversas situações cotidianas, descreveremos um leque de sensações em que qualquer mulher que se tenha tornado mãe poderá facilmente identificar. Paradoxalmente, o uso da linguagem escrita como ferramenta para transmitir essas experiências pode ser um obstáculo, pois atende a uma estrutura em que vários elementos vão se ordenando para construir um discurso. A abordagem do universo da psique feminina, que pertence a uma construção oculta do ponto de vista de nossa cultura ocidental, então se complica. Nesse sentido, para acessar e compreender este livro, serão muito úteis a intuição ou as sensações espontâneas que nos permitam fluir com o que nos acontece quando percorremos alguma página escolhida ao acaso.
De qualquer maneira, é de se imaginar que ficaremos presas à tentação de discutir calorosamente quais são os pontos em que estamos de acordo ou em profundo desacordo. Embora as discussões que venham a surgir entre as mulheres possam ampliar o pensamento, insisto em tentar uma leitura mais emocional, esperando que tenha ressonância no infinito. Ou seja, captar o conteúdo sensorial, imaginativo ou perceptivo, em vez de aprender ou avaliar os conceitos linearmente. Isso tem a ver com deixar abertas as portas sutis e estar atenta às que vibram com especial candura. Permitamos que aquelas que não nos sirvam sigam seu caminho sem nos distrair.
Suspeito que há vários pontos de partida para a leitura: o mais evidente é a partir do “ser mãe”. Espero, também, que o livro seja interessante para as profissionais de saúde, comunicação ou educação que tenham contato com mães, cada uma esperando, com suas próprias ferramentas intelectuais, obter resultados convincentes no que se refere ao comportamento e ao desenvolvimento das crianças.
Acredito que é possível conservar as duas visões simultaneamente; de fato, muitas de nós somos profissionais no campo das relações humanas e também somos mães de crianças pequenas.
Espero conseguir transmitir a energia que circula nos grupos que funcionam dentro da instituição que dirijo, nos quias as mães se permitem ser elas mesmas, rindo dos preconceitos e dos muros que erguem por medo de ser diferentes ou de não ser amadas. Ali foi gestada a maioria dos conceitos que fui nomeando nestes últimos anos e que, tocados por uma varinha mágica, começaram a existir.
Na Escuela de Capacitación Profesional de Crianza, continuamos inventando palavras para nomear o indefinível, os estados alterados de consciência do puerpério, os campos emocionais em que ingressamos com os bebês, a loucura indefectível e esse permanente não reconhecer mais a si mesma. No intercâmbio criativo, as profissionais tentam encontrar as palavras corretas para nomear o que acontece conosco. Arrependo-me de não ter filmado as aulas ou as entrevistas individuais com as mães que nos consultam, porque esse poder, esse florescer dos sentimentos femininos, raramente pode ser traduzido com exatidão pela palavra escrita. Conto, assim, com a capacidade de cada leitora de se identificar com os relatos, imaginando a essência e sentindo que, definitivamente, todas somos uma.
Por último, convido-as a fazer esta viagem juntas, preservando a liberdade de levar em consideração apenas o que nos seja útil ou possa nos apoiar. Esta é minha maneira de contribuir para gerar mais perguntas, criar espaços de encontro, de intercâmbio, de comunicação e de solidariedade entre as mulheres. Esse é meu mais sincero desejo.
Laura Gutman
Sumário

PREFÁCIO

CAPÍTULO 1
Uma emoção para dois corpos

A fusão emocional • As crianças são seres fusionais • Início da separação
emocional • Por que é importante compreender o fenômeno da
fusão emocional? • O que é a sombra? • Por que é tão árduo criar um
bebê? • As depressões pós-parto existem ou são criadas? • O caso Romina
• A perda de identidade durante o puerpério • Entre o externo e
o interno.

CAPÍTULO 2
O parto

O parto como desestruturação espiritual • Institucionalização do parto • A submissão durante o parto ocidental: rotinas • Reflexões sobre os maus-tratos • A opção de parir cercada de respeito e cuidados • Acompanhar o parto de cada mulher • Existe um lugar absolutamente ideal para parir? • Parto e sexualidade • Recordando meu segundo e terceiro partos.

CAPÍTULO 3
Lactação

Amamentar: uma forma de amar • O encontro com seu eu • O início da lactação • As rotinas que prejudicam a lactação • O bebê que não engorda • O caso Estela • Há mulheres que não têm leite? • Os bebês que dormem muito • O caso Sofia • Algumas reflexões sobre o desmame • Valéria quer desmamar sua filha.

CAPÍTULO 4
Transformar-se em puérpera

Preparação para a maternidade: ao encontro da própria sombra • A relação amorosa no pós-parto • A doula: apoio e companhia • Feminilizar a sexualidade durante o pós-parto.

CAPÍTULO 5
O bebê, a criança e sua mãe fusionada

As necessidades básicas do bebê do nascimento aos 9 meses • O olhar exclusivo • A capacidade de compreensão das crianças pequenas (falar com elas) • Recursos concretos para falar com as crianças • Estrutura emocional e construção do pensamento • Separação emocional e comunicação • Cuidados com as crianças “com problemas” • O caso Norma • O caso Constanza • Cada situação é única.

CAPÍTULO 6
Apoiar e dividir: duas funções do pai

O papel do pai como esteio emocional • Confusão de papéis nos tempos modernos • E quem apoia o pai? • O papel do pai como separador emocional • Outros separadores • O caso Pablo • Manter o lugar do pai mesmo que esteja ausente • Criar os filhos sem pai • As crianças que acordam à noite: a importância da figura paterna • Funções feminina e masculina na família.

CAPÍTULO 7
As doenças infantis como manifestação da realidade emocional da mãe

Materialização da sombra • Uma visão diferente das doenças mais frequentes na primeira infância • Os resfriados e a mucosidade • Asma • O caso Eloísa • Alergias • Infecções • O caso Rodrigo e sua mãe • Problemas digestivos • Comportamentos incômodos: o caso Florencia • O caso Marcos: fusão emocional, música e linguagem.

CAPÍTULO 8
As crianças e o direito à verdade

Verdade exterior • Verdade interior • A busca da própria verdade • A verdade nos momentos difíceis • A verdade nos casos de adoção • O caso Bárbara (dar um novo significado à morte de um ente querido) • O caso Sandra.

CAPÍTULO 9
Os limites e a comunicação

As crianças precisam de mais limites ou de mais comunicação? • Para ouvir o pedido original: acordos e desacordos • O uso do “não”, um recurso pouco eficaz • As crianças tiranas • O tempo real de dedicação exclusiva às crianças • Os “caprichos” quando nasce um irmão • As crianças e as exigências de adaptação ao mundo dos adultos • A loucura das festas de fim de ano nos jardins de infância • O estresse das crianças • O caso Rodrigo.

CAPÍTULO 10
Prazer das crianças, censura dos adultos

O controle natural dos esfíncteres e o autoritarismo dos adultos • O controle noturno dos esfíncteres • O caso Brígida • A sucção: prazer e sobrevivência • A água, essa doce sensação • Ao baleiro da esquina, com amor • Crianças, alimentação e natureza • Exigências e alternativas na hora de comer.

CAPÍTULO 11
Comportamentos familiares na hora de dormir

Transtornos do sono ou ignorância sobre o comportamento previsível do bebê humano? • A noite e os bebês de zero a dois anos • No compasso das opiniões • As crianças com mais de dois anos que acordam à noite • Procura-se um separador emocional (para ler com o homem) • As crianças também querem dormir.

CAPÍTULO 12
Crianças violentas ou crianças violentadas?

Algumas reflexões sobre a violência: ao conhecimento de si mesmo • Violência ativa e violência passiva: um guia para profissionais • O caso Roxana • Crianças agressivas: reconhecendo a própria verdade • As crianças que provêm de famílias violentas • Crianças que sofreram abusos emocionais ou sexuais: abuso entre crianças • A negação salvadora: o caso Rubén e o caso Leticia • A visão profissional.

CAPÍTULO 13
As mulheres, a maternidade e o trabalho

Maternidade, dinheiro e sexualidade • A confusão de papéis nos trabalhos maternos • As instituições educacionais • Em busca do ser essencial feminino.

EPÍLOGO

Fonte: http://www.lauragutman.com.ar/libros/a-maternidade-e-o-encontro-com-a-propria-sombra-brasil/

domingo, 18 de setembro de 2016

Sobre a maternidade e seus vícios

Blog Skopós
Por SolQS
Estava lendo um livro que me fez pensar. O livro falava sobre vícios e como nossa sociedade quebrou alguns tabus e evoluiu em relação à muitos deles. Lidamos aparentemente melhor com pessoas viciadas jogos. Lidamos melhor com pessoas viciadas em sexo e orgias. Lidamos muito melhor, a ponto de admirar, aqueles viciados em trabalho. Lidamos melhor.
Mas e os vícios da maternidade? Ah, esses não tem como lidar melhor, afinal de contas eles envolvem um pequeno ser que não tem recursos para se defender ou tomar decisões. Então é por bem que critiquemos esses vícios, essas péssimas mães viciadas em tantas coisas proibidas na maternidade. Claro, maternidade tem regras e elas devem ser seguidas. Afinal de contas, que mãe que em sã consciência dorme abraçada com o bebê em sua cama? Que mãe inconsequente que acostuma tão mal seu bebê ao ponto de ensiná-lo a dormir mamando no peito? Quanto egoísmo querer sentir o carinho que aquela mãozinha faz enquanto mama ou olhar aqueles olhinhos tão fixos nos seus. Da horror só de pensar em deixar o bebe se acostumar a ser tirado do berço ou do carrinho quando chora para acalmá-lo em seus braços. Lugar de bebê é no berço, no carrinho, na escola, mas não no colo da mãe.
Ah, e por falar em escola, não podemos esquecer daquelas que abandonam uma carreira por um ou dois anos para cuidar dos filhos e não dão à eles o exemplo de independência que deveriam dar. Afinal, um bebê precisa saber que o mundo não deve ser machista. Também existem aquelas que deixam de ir viajar e dar atenção aos seus maridos só para ficar pertinho de seu filho, um tremendo absurdo, já que o bebê precisa entender e aceitar essa separação que o marido, adulto e que optou por ser pai, não consegue.
Ah, esses vícios da maternidade. Ah, esse instinto materno que faz com que as mães insistam em dar o peito o tempo todo e em qualquer lugar para alimentar, acalmar ou estar em um contato mais íntimo com seu bebe, que faz com que as mães queiram ter seus filhos em seus braços sentindo seu calor e exercendo seu papel de protetora, que faz com que abram mão de parte de suas próprias vidas em prol de uma outra. Ah, esse instinto materno…
Certo mesmo é proibir esse contato físico e aumentar a distância entre mãe e filho. Certo mesmo é facilitar a vida dessa mãe, coitada, que precisa descansar. Deixem-a então trabalhar fora por muitas horas, para chegar e cuidar da casa, do jantar e do marido. Deixem-a cuidar de suas obrigações, porque cuidar do filho, ah não, cuidar do filho do jeito que ela sente vontade é terrível demais para ele. Pode ser mal acostumado, se tornar um bebê mimado, chato e inconveniente. O bebê precisa mesmo é ir com qualquer pessoa e saber que não terá o que quer a qualquer choro. Isso sim, ah, isso sim, faz um bem enorme a sociedade. É só ver a nossa, tão egoísta, tão violenta, tão intolerante. Tão, tão, tão contraditória.
E se respeitarmos as mães ao ponto de as deixarmos livres para tomarem suas decisões baseadas em seus instintos? E se nós, mães, nos respeitarmos ao ponto de nos deixarmos livres?
Livres de livros, teorias, conselhos e julgamentos. Livre para seguirmos o nosso instinto.
“A NATUREZA NUNCA NOS ENGANA. SOMOS SEMPRE NÓS QUE NOS ENGANAMOS” (ROUSSEAU)


Fonte: https://skopospp.wordpress.com/2016/09/16/sobre-a-maternidade-e-seus-vicios/

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O desafio da maternidade

Uma jovem mãe se negou a participar da corrente do Facebook e falou a real: “Amo meu filho, odeio ser mãe”. Ela tem direito a isso.
Google Imagens

Por Matheus Pichonelli — publicado 19/02/2016 17h54


O que mais me incomoda é o consolo de ser 'apenas' pai. Não é a tarefa mais simples que já assumi, mas nada se compara à pressão enfrentada pela mãe.


Deveria ser uma hora de lazer, mas contabilizei, ao todo, quatro tentativas de homicídio.
Primeiro quando o grandão da turma decidiu empurrá-lo do escorregador.
Depois quando o amiguinho pegou as duas pás da caixa de areia e tentou acertar um golpe duplo na altura das suas orelhas.
Na última, me distrai ao celular e não percebi que o suposto melhor amigo abria dedinho por dedinho do meu filho, como se usasse uma alavanca, para ver se ele caía para poder, enfim, herdar o balanço.
Até que ele aderiu à moda – justamente com quem nada tinha com a história. Ao ver uma menina se aproximar, ele pegou um punhado de areia e jogou no cabelo dela. Diante do meu desespero, ela começou a chorar e ele, a rir.
Eu olhava para o lado na tentativa de encontrar seus pais. Nada. Quando o choro parou, ele arremessou areia no olho dela. Gritei com ele. Ele chorou. Ela voltou a chorar. E eu queria apenas me enterrar naquela areia em posição fetal e dormir até que ele completasse 20 anos.
Em casa, tento entender a ansiedade das respirações ofegantes. Minhas horas de descanso são as horas extras no trabalho. Passamos apuros, deletamos os momentos de sono, usamos as primeiras ou as últimas horas do dia para fazer coisas banais, como ver filmes ou abrir o jornal, passamos a fazer compras em dez minutos porque, caso contrário, ele se joga no chão, esperneia, grita, se bate e tenta derrubar tudo o que encontra pela frente.
Mas não é isso o que me incomoda.
O que mais me incomoda é que eu deveria estar feliz com tudo isso. Eu realmente deveria estar feliz pelo senhor ter me concedido o domingo para ir ao zoológico dar pipoca aos macacos - o problema é que, quando ele vê macacos, quer puxar o rabo. Ou subir na árvore.
E, por estar mais cansado do que feliz, passo horas do dia me penitenciando pelo péssimo pai que sou.
Minha ranhetice começa quando encontro outros pais que acabam de ter filhos. É como adentrar numa orbita em que qualquer assunto fora criança é proibido. Quantas horas dorme? Come legumes? Ainda assiste a Peppa? Onde vai ser a festinha? Quanto você pagou? Você acha isso normal? Não é o máximo?
A bateria de perguntas é, via de regra, um terreno assentado para a questão crucial: quando vem o segundo?
Em tese eu deveria gostar de todas essas perguntas. Da troca de experiências levantadas pelos mesmos amigos que, anos atrás, levantavam a sobrancelha pra saber minha nota na prova.
Eu deveria estar feliz em falar sempre no diminutivo. Em ver meu filho ser tratado como bibelô por amigos e parentes que o mandam posar, sorrir, comer todo tipo de bobagem e entopem o Facebook de fotos dele sem qualquer autorização.
Eu deveria estar, mas não estou. Estou tenso, em dúvida, mais cansado do que satisfeito.
E desconfio que só vou lidar melhor com esse desconforto quando admitir, para meu inconsciente, que não decidimos ter filhos como um cálculo de preenchimento ou satisfação. Que ele não é um investimento que logo trará retorno afetivo e existencial. Que nossa relação não precisa ser uma fabrica de neurose se as coisas não saírem como planejamos.
Falta explicar para o mundo.
Mas de tudo o que mais me incomoda nessa história não são as tentativas de homicídio no parquinho ou a obrigação de fazer de uma manhã no parque um comercial de margarina.
O que mais me incomoda é o consolo de ser “apenas” pai. Sim, não é exatamente a tarefa mais simples que já assumi, mas nada se compara à pressão enfrentada pela mãe. A começar pela métrica que separa as boas e as más mães a partir da produção de leite materno – ainda que seu filho, prematuro, tenha passado as primeiras semanas em uma incubadora, e nosso único contato físico acontecia pelas mãos.
Ao fim das visitas eu ia para casa, e a mãe era encaminhada a uma sala onde deveria, literalmente, ordenhar o próprio leite por meio de uma bombinha. Era um novo parto por sessão, e a dificuldade da missão era compensada por palavras de incentivo do tipo "pensa no teu filho", “se você o ama o suficiente você consegue” (tente urinar com um incentivo desse no seu ouvido para entender o drama) ou com mandingas e alimentos com base no milho (tipo pipoca e canjica) que estouravam estômago da mãe e só ampliavam a distância entre a autoestima e a maternidade ideal. Uma distância agravada cada vez que alguém identificava na mamadeira a prova material de um fracasso.
Passada a fase da amamentação, à mãe não faltavam dicas, telefonemas de amigos e familiares de todos os lados para saber como andava a saúde do menino. Qualquer espirro ou choro fora de hora era sintoma de um descuido. Qualquer cara feia quando alguém o entupia de bolacha era respondida com "mas coitado, ele tem vontade".
As vontades são criadas, assim, por visitas esporádicas que jamais trocaram fralda, e você supostamente deveria amar tudo isso.
No pico da agonia, eu podia sair, nadar, pescar, jogar bola e até encher a cara quando precisava desanuviar. Ninguém me telefonaria perguntando se eu estava louco. Eu jamais seria o puto que pariu e na bagagem jamais levaria a culpa, a lista de satisfações, as perguntas de sempre. Como quando voltou à dança e quase desistiu depois de ouvir uma bateria de perguntas constrangedoras sobre “como ela tinha coragem de deixar uma criança em casa”. “Ele não pede por você?”. “Ele não chora?”. “Você não sente pena?”.
Aos poucos passamos a reproduzir, dentro de casa, as assimetrias que tentamos combater fora dela. "Homem não leva jeito". "Homem não faz duas coisas ao mesmo tempo". "Homem não acorda quando criança chora".
Ela não.
Ela deveria sorrir pela manhã depois de ser acordada a cada três horas. Deveria estar linda, leve e realizada para as sessões de fotos da família doriana para postar no Facebook no dia das mães. E sorrir ao responder, pela milésima vez, se pretende MESMO seguir trabalhando ao fim da licença maternidade.
Durante a semana, uma jovem mãe se negou a participar, no Facebook, de uma corrente sobre as delícias sem dores da maternidade e decidiu falar a real: “Amo meu filho, odeio ser mãe”. Ela tem direito a isso. Tem direito a compartilhar com outras mães não apenas o peso da maternidade, mas o peso da obrigação de parecer feliz com toda a pressão existente em um dos períodos mais duros, confusos e inseguros da vida.
Ela tem direito a manifestar o desconforto pela pressão. Ela tem direito a não explodir. A não achar que há algo de errado nela por não ser feliz o tempo inteiro. De reivindicar o direito a descobrir, por si, as pequenas alegrias das novas relações criadas dentro de casa.
O que enlouquece não são as tarefas. As funções. A responsabilidade. Tudo isso é duro, mas passa. O que enlouquece são os outros. São os que veem na maternidade – e na distância entre a vida ideal e a vida vivida – a chance de minar a autoestima e a liberdade de circulação de alguém que não é (nem deveria ser) só mãe, mas mulher. Foi-se o tempo em que as palavras eram sinônimos – e, por extensão, um destino inevitável rumo ao confinamento do lar e das obrigações que nós, homens, não queremos fazer.
É preciso reconhecer a coragem de uma mãe que expõe esse desconforto - pois até o direito a reclamar tentaram tirar dela. O desconforto dela não é com o filho, mas com um destino imposto a ela a partir da maternidade. Há quem prefira atacá-la e guardar as dores numa comporta de autoengano e ressentimento. Pobres pais. Pobres filhos.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-desafio-da-maternidade

domingo, 10 de janeiro de 2016

Não. Os bebês não são como nos é dito

We Heart it

Autora desconhecida. Texto retirado da página Facebook "Parto Normal"

Não. Os bebês não são como nos é dito
Não. Os bebês não são como nos é dito. Os bebês não gostam de dormir num berço. Rodeados por grades. Presos numa gaiola. Não. Os bebês querem dormir ao lado do corpo da sua mãe, quentes, seguros, protegidos, amados, tocados.
Não. Os recém-nascidos não querem nem sequer estar numa posição horizontal. Eles querem dormir no seu peito, na vertical, balançando-se ao som do seu coração. Horizontalizados retardam a digestão, têm vômitos, têm cólicas, assustam-se, sentem-se vulneráveis.
Não. Os bebês não se acostumam aos braços: nascem já acostumados. Desde o início sabem bem o que é bom.
Não. Os bebês não dormem toda a noite. Eles acordam a cada minuto. Para comer e para não comer. Para verificar se está ao seu lado e se se importa. Para certificar-se da sua presença, que é a sua segurança. Para tocá-la e cheirá-la.
Não. Os bebês não querem ficar sozinhos. Eles não querem perdê-la de vista por um minuto, querem estar consigo no centro da vida.
Não. Os bebês não querem brincar sozinhos num parque. Eles querem brincar consigo, sorrir, serem atendidos, treparem-te para cima, rastejarem pela sala.
Não. Os bebês não querem beber leite de outra espécie. Eles querem o seu leite.
Não. Os bebês não querem chupar todo o dia um pedaço de plástico. Eles querem chupar os seus seios, as suas pequenas mãos, os seus dedos… pele humana.
Não, os bebês não querem que os vistam, nem que lhes coloquem tecidos que picam, nem brincos nas orelhas, roupas apertadas, fitas, rendas e outras coisas irritantes. Eles querem estar nus, correndo descalços, apreciando o toque da natureza na sua pele, estar pele com pele consigo.
Não. Os bebês não querem ficar parados. Eles querem que se mova, que mexam neles, que os embalem, que ande, passeie e os leve consigo. Assim que eles podem, querem gatinhar, correr, saltar, explorar, chegar a toda a parte… Sim, os bebês são naturalmente curiosos. Eles querem e precisam tocar em tudo. Incluindo aquelas coisas que a vêem usar: controles, relógios, telefones, computadores… A sua riqueza sensorial desenvolve-se a partir daí.
Não. Os bebês aprendem o que vivem. Se estão sempre a ouvir “não”, estarão sempre prontos para dizerem não. Se tem medo de tudo, em breve terão medo de tudo.
Não. Os bebês não são macro-exigentes. Nós é que somos micro-pacientes, micro-tolerantes, micro-disponíveis e micro-respondedores.
Não. Os bebês não querem que os deixem. Eles querem ir consigo a todos os lugares, você é o seu exemplo, a sua segurança, a sua referência, o seu único universo.
Goste ou não goste, assim são os bebês humanos, primatas, mamíferos. Se quiser confirmar, basta ter um. Nenhuma outra espécie desconhece e prejudica tanto as suas próprias crias. Se queremos um mundo um pouco mais humano, faríamos bem em entender isto. Não é como nos disseram “Eles são infinitamente melhores e mais inteligentes.” Quem quer que visse estes filhotes diria: que espécie tão avançada! E como é que eles se tornaram no que são? 
(Autora desconhecida)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O poder das mães e da amamentação

Google Imagens

Por Cintia Liana Reis de Silva


Se prepare do modo certo para ser mãe, se conheça, desarme-se, humanize-se, esqueça as teorias do senso comum, as repetições, e se já é, vou te dizer:
Um bebê não usa o peito da mãe como chupeta, ela usa o peito como peito, como calor, como aconchego, como busca de afeto, de segurança, como uma deliciosa fonte que jorra estímulo para a sua oralidade na descoberta inicial do mundo fora da ventre. Amamentar vai muito além da alimentação e muito além que qualquer compreensão. Se ele quiser ficar no peito é porque ele precisa, então não comece a guerrear para medir quem tem mais forças e para provar autoridade colocando regras que não fazem nenhum sentido para ele e não servirão de nada, só irá contra a natureza do bebê. Deixe ele mamar, se ele quer é porque ele precisa, e só ele sabe quando, por quanto tempo e porque precisa. E mais, autoridade não se prova, ou se tem ou se não tem. Sinta ela dentro de você e faça o que a tua genuína natureza te pede. 
Se ele quiser ficar horas no peito e você estiver bem, relaxe, deixe, quanto mais se mama mais leite se produz. Durma com ele, acorde com ele. Não deixe ele chorar, não deixe ele esperar. Não deixe que ele perca a capacidade de acreditar no outro já nos primeiros meses de vida.
Leia, se informe sobre o que há de mais humano na maternidade, sobre a alma, não sobre regrinhas absurdas e desumanas. Teu filho acabou de nascer, ele não precisa ser "adestrado".
Esqueça tudo mesmo, deixe os pratos sujos de lado, se não puder não atenda ao telefone algumas vezes, deixe o teu filho dormir sobre o teu peito, isso traz paz e aumenta muito mesmo a produção de leite. Esqueça todas as teorias educativas capitalistas abusivas, ao menos nesses primeiros meses de vida e não se sinta culpada porque elas não servem de nada, só trazem tristeza e sentimentos contraditórios.
Seja mãe com M maiúsculo. Acredite na tua intuição. Pense na possibilidade de fazer terapia, ou de consultar um psicólogo de família que seja um profissional sensível, pois o bebê até os 2 primeiros anos é um reflexo intenso do que ocorre na parte oculta da psiquê materna. Questione os seu modelos familiares para ver a vida com mais lucidez e ser uma mãe mais atenta e mais bem resolvida. É difícil, mas é possível. 
Teu filho é como um animalzinho que precisa do teu calor, da tua voz, da tua segurança, da tua inteireza, da tua disponibilidade, faça o que pede o teu coração cheio de amor e de emoção por ter ao teu lado um verdadeiro tesouro que estará contigo por toda a vida, então se entregue porque num piscar de olhos você vai estar com saudades desses mágicos momentos e o teu filho estará grande, autônomo e será um ser humano feliz, realizado e seguro por ter tido tudo o que você poderia ter dado a ele de mais sagrado naqueles preciosos instantes.
As mães têm o poder de salvar o mundo porque o amor tem o poder de mudar o mundo. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O "Super Nanny" é um equivoco

Google Imagens

Esse programa e método da Super Nanny ou SOS Tata (aqui na Itália), é um grave equívoco. Psicologia Behaviorista, ultrapassada, daquelas que fazem experimentos com ratinhos, controlam, treinam, superficial. Por mais respeito que tenha a todas as abordagens teóricas da psicologia, não posso me calar diante da limitação da proposta humana do programa. A família precisa ser vista para além do proposto, também por uma vertente sócio-histórica. 

As crianças precisam ser compreendidas através daquilo que o inconsciente do casal e da família lhes dá. Os pais precisam olhar as suas feridas, as suas fraquezas, a sua história para que, através do auto entendimento, compreendam porque estão agindo daquela forma e porque as crianças estão respondendo também de certa forma. Só assim existirá um aprendizado profundo, capaz de produzir efetivas mudanças de seio da família.

Cuidado! Ser pai e mãe é muita responsabilidade. Hoje os filhos são o repositório da raiva e frustração de muitas pessoas. Coloque no colo, durma junto, beije, abrace, dê ótimos exemplos, converse, escute, se escute, se melhore e ame, AME profundamente, sem culpa, sem economia e sem reservas.


Consulte sempre um Psicólogo de Família.

Cintia Liana


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

É preciso libertar as mães!

Texto e Foto capturados do Blog Mimami
Por Constança Ferreira
“É preciso libertar as mães das teorias. É preciso libertar as mães das tabelas com horas. Das aplicações de telemóvel que apitam a avisar que é hora do bebé comer. Ou de mudar a fralda. Ou de dormir. É preciso libertar as mães dos palpites e conselhos que as fragilizam. Dos “especialistas” e seus métodos “infalíveis”. De todos aqueles que paternalisticamente lhes dizem, ainda que mais ou menos subtilmente, que estão a fazer tudo mal.
É preciso libertar as mães da pressão de que têm que saber logo tudo. Ou que têm que acertar à primeira.
É preciso libertar as mães da ideia de que os seus bebés não sabem nada. De que precisam de ser orientados em tudo. De que os bebés não sabem o que é melhor para eles.
- Os bebés sabem sim o que é melhor para eles. E o melhor para eles em quase todas as situações é estar junto à mãe. Por isso o pedem.
– É preciso libertar as mães da ideia de que o bebé precisa de “aprender a dormir”. Ou a “autoconsolar-se”. Ou que é preciso incentivar o bebé a ser autónomo mal sai da barriga.
Sim, o bebé será autónomo um dia.
Provavelmente no dia em que deixará também de ser isso mesmo: um bebé.

(e esse tempo chega tantas vezes rápido demais)
Mas, para já, este é o tempo para estarem juntos. Os bebés humanos não são, por determinação biológica, autónomos. Eles precisam das mães.
- Há muitos motivos para ser assim. Entre eles conta-se a sobrevivência da espécie. Mas falaremos melhor sobre isso noutra ocasião.
Para já, é preciso dizer às mães que os bebés precisam delas porque é mesmo assim. Não porque a mãe esteja a fazer algo de errado. E é preciso libertar as mães do medo dos “vícios e das manhas” para que o colo que o bebé lhes pede não lhes pareça uma prisão.
É preciso libertar as mães de quem acha, mais ou menos dissimuladamente, que os bebés são pequenos seres manipuladores. É preciso libertar as mães da pressão “para não ceder”. É preciso libertar as mães da ideia de que um choro de fome é mais importante que um choro assustado que pede colo ou aconchego no meio da noite.
E é preciso.. não… é urgente libertar as mães da desconfiança para com os seus bebés.
Porque ninguém se apaixona desconfiando.

Porque no fundo, o que é preciso é libertar o coração das mães.
Só assim, sem medos nem reservas, o coração das mães poderá ser tão inocente como o coração dos seus bebés.
Então depois, depois de libertarmos o coração das mães, é preciso libertar-lhes os braços. Libertá-los das tarefas domésticas que possam ser feitas por outros. Libertá-los da pilha de roupa para engomar. Libertá-los das visitas que esperam lanche.
Libertar os braços das mães é urgente.
Porque se os braços das mães estiverem libertos, elas terão muito mais vontade de os colocar em volta dos seus bebés.

E o olhar das mães. Também é preciso libertá-lo porque, para que tudo melhore, as mães precisam de um olhar disponível para os seus bebés. Nenhum livro, nenhum manual de instruções, poderá alguma vez falar do nosso bebé, como nos falam os seus pezinhos, as mãos, as bolhinhas no canto da boca, as caretas quando está zangado, a testa franzida quando está a ficar com sono, os estalinhos da língua quando quer mamar ou os barulhinhos que faz enquanto dorme.
As respostas estão todas ali. É ali que devemos procurá-las.
É preciso libertar as mães.
Porque quando uma mãe é finalmente libertada de tudo o que não a ajuda a ligar-se ao seu bebé, acontece a magia.

Acontece a confiança para fazer o que se acha melhor.
Acontecem as respostas às perguntas que nos atormentam: Será que tem fome? Será que tem sono? … Será que eu vou ser capaz?
Sim as respostas chegam.
Mas só, quando, finalmente em liberdade, as mães conseguem escutar e entender a linguagem secreta entre si e os seus bebés.

E saberão que ser mãe não é uma lista de tarefas.
Não é um método.
Não são certos nem errados.

Somos nós.
Diferentes, é certo.
Com medo, por vezes.

Mas ainda assim.
Nós.
Inteiras. Confiantes.
Nós com o nosso bebé nos braços.”
Autora: Constança Ferreira – Terapeuta de Bebés e Conselheira de Aleitamento Materno OMS/Unicef
Fonte: https://espacomimami.wordpress.com/2015/01/22/e-preciso-libertar-as-maes/