"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

sábado, 1 de maio de 2010

Sonho e Luta pelas Crianças

Foto: Google Imagens


E por falar em Procuradora que agrediu filha adotiva de 2 anos... Por falar em "autoridade"...


No dia 31 de outubro de 2008 enviei o seguinte e-mail a alguns conhecidos, profissionais da área da infância, dizendo que não se tratava de nada pessoal (é claro que não!), mas de mais um dos meus apontamentos para pensarmos na vida das crianças abrigadas e em como poderíamos ajudar mais, refletindo sobre aossa postura enquanto profissionais, muito provavelmente seguros de nossas convicções secretas.

"Pesquisas com famílias adotivas revelaram dados surpreendentes em relação à questão das motivações inadequadas ou adequadas para o exercício da paternidade adotiva. A análise dos resultados mostrou que não existe correlação entre a motivação dos adotantes e o sucesso da adoção. Isso significa, a grosso modo, que a construção do vínculo afetivo pode ser tão poderosa e importante na dinâmica familiar que deixa em segundo plano a “inadequação” do motivo inicial ou outros motivos, pois outra história é capaz de ser construída posteriormente; exatamente ao contrário do que supõem muitos técnicos, ao afirmarem que a apreciação das motivações tem um interesse capital". (WEBER, 1997)

"Um casal que deseja adotar uma criança porque seu filho biológico faleceu pode parecer realmente inadequado. Os técnicos diriam que eles 'estão querendo substituir o filho falecido'. No entanto é preciso levar em conta a capacidade de reconstrução de sua própria história, de construção do apego, do fascínio da capacidade de amar". (WEBER, 1997)

Entendo que temos que ter cuidado com pseudo-análises psicológicas, principalmente feita por profissionais que não são psicólogos e se acham muito sensíveis como se esse fosse exclusivamente o único pré-requisito para ser tal profissional (sensibilidade).
Psicologismos baratos são desastrosos, principalmente se feitos por advogados, juízes e promotores, que podem usar o seu poder inadequadamente nesses casos. Maior desastre ainda, quando se trata da vida de crianças que não podem ser defendidas por suas mães e sim pelo Poder Público, que não lhe dispensa amor, muito menos materno, capacidade inerente ao ser humano e não a um sistema.
Vamos ter humildade e assumir o posto que nos foi dado, de acordo com nossa formação. Se quisermos ser psicólogos temos que fazer a faculdade, pós-graduação e não simplesmente nos acharmos preparados ou com vocação para a subjetividade. Isso é muito pouco, o caminho é muito mais longo.
Existe algo muito maior. Temos que dar conta de crianças que estão sofrendo nas instituições esperando por um pai e/ou uma mãe. Ninguém é capaz de mensurar essa dor.
Quem somos nós para dizer que uma pessoa "não está apta a adotar por estar, talvez, querendo substituir o filho falecido", enquanto milhares de crianças sofrem por desamparo? (WEBER, 1997)
Lembro que antes de tudo deve existir o desejo de adotar. Este sim faz a diferença, o desejo.

(E-mail enviado por Cintia Liana)

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Complemento que faria hoje:

O contrário penso também que seja muito perigoso e anti ético, juízes desqualificarem o parecer de um psicólogo que diz que alguém, por motivo "comprometedor", não encontra-se apto psicologicamente a adotar uma criança. O outro, só porque tem mais autoridade, diz que "acha" que o cidadão tem sim "capacidade" de adotar. Se o psicólogo, que tem estudo específico e aprofundado na área para opinar, já atestou que não, a "autoridade" se baseia em que psicologia para desrespeitar a palavra do perito e, ainda por cima, colocar em risco a vida e o futuro da criança a ser adotada?

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A promotora furiosa, levando para o lado pessoal, e usando propositalmente palavras difíceis, escreveu:

Foto: Google Imagens

“Em que pese você não ter formação jurídica, mas se interferiu no jurídico ao discorrer sobre profissionais da área, existe determinação na lei processual civil-Código de Processo Civil, que o aplicador do direito não está vinculado ao laudo técnico, sendo o mesmo, em algumas hipóteses, dispensável.”

A promotora explicou que o Juiz não tem que tomar sua decisão em cima do laudo pericial e sim formar sua convicção em cima de outros elementos ou fatos provados nos autos (CPC, artigo 436), já que “em algum caso, a opinião do perito poderá substituir-se à do Juiz, vinculando-se juridicialmente a convicção, mesmo quando a perícia é legalmente obrigatória. O laudo pericial não oferece prova, mas tão somente elementos para a convicção quanto aos fatos da causa. Como as demais provas, a perícia se sujeita à livre apreciação do Juiz (artigo 131 do CPC), pois é este quem, com exclusividade, procede à avaliação jurídica do fato.”

Discorreu sobre ela entender o quão é complexa a formação do psicólogo, mas que ela estava muito feliz com a escolha dela, que era concursada, bem sucedida, blá, blá, blá.
No final ela conclui de forma mais alienada ainda, dizendo que mesmo sem eu ter pedido para ela me dar um conselho ela me daria assim mesmo. Disse que eu devia aproveitar meu tempo livre para estudar e obter aprovação em concurso público, tornar-me independente.

Uma pessoa dessa pensa o que da vida? Que passar em concurso público é algo tão importante? Deve ser uma ambição? Com todo respeito aos que desejam passar em concurso público, nunca nem cogitei a possibilidade, nunca foi um desejo meu. Minhas ambições são outras que considero bem mais interessantes. Cada qual faz suas escolhas, não condeno a de ninguém mas, obviamente, prefiro as minhas.
Ela disse ainda para eu não perder tempo com bobagens, conjecturas, fantasias. Para eu colocar minha “cabeça no lugar” e que ela usava esse termo por ignorar o termo psicológico. Por final, disse que eu tenho valores, que eu os reconheça, que me desarme e que eu sorria para a vida. Ainda teve a hipocrisia de me desejar sucesso e dizer que estava torcendo por mim, mesmo morrendo de raiva de mim por eu ter enfrentado ela.

Enfim, ela se revoltou, como se meu texto inicial fosse uma afronta pessoal e quis me ofender. Acabei respondendo ao e-mail agressivo dela.

Foto: Gety Imagens


Respondi:
A minha vida, minha missão não é ficar sentada atrás de uma mesa de órgão público, garantindo um salário razoável, uma pseudo independência e fechando os olhos para as injustiças e negligências do Estado. Não generalizo e não falaria isso para todos, afinal tem concursado que trabalha muito e se preocupa de verdade.
Falei que a lei, em algumas situações, é muito arbitrária e incoerente. "Autoridades" são seres humanos e também são falhos.

Falei que eu era independente e que para isso não precisava de cargo público, que eu tinha uma mente livre com idéias igualmente libertadoras e que era uma pensadora, mobilizadora, profissional crítica e responsável com meus ideais, que trabalhava com amor e que escrever era uma terapia e não perder tempo como ela falou e que isso é que é viver com total independência.
A maior independência que podemos ter é a intelectual, a da alma e não a financeira, apesar desta última também ser importante. É a paz de saber que estamos agindo corretamente, ajudando pessoas.

Eu disse que eu não estava ali para falar mal de ninguém, que também sou humana e falha, mas que minha fala era de denúncia, de indignação e que tinha fundamento, que se não fizéssemos isso para melhorar algo o que faríamos? Ficaríamos comprando jóias caras, como fazem muitas vezes, no ambiente de trabalho? Esta última pergunta talvez tenha sido um pouco pessoal.

Escrevi de modo educado, se é que dá para ler isso e entender como algo educado.


Foto: Google Imagens

Entendi perfeitamente que, infelizmente o que fazemos aqui, por exemplo, a luta, a mobilização, a voz de esperança, de denúncia, em tantos lugares, para muitos deles - que estão lá com seu salariozinho garantido de R$ 10.000,00 e respaldados pela lei - é perda de tempo, coisa de gente que não tem o que fazer, que abrir a boca para denunciar, falar e desejar mudar alguma coisa está errado, é uma coisa absurda.

Ouvi dizer que até hoje ela fala mal de mim, que mandei ela ficar atrás de uma mesa. Mas o que ela não sabe, dentro da sua cabeça burguesa, vazia e alienada, é que tudo o que eu falei é coisa que só é dita por pessoas emocionalmente inteligentes, esperançosas, que podem até não ter a fantasia de mudar o mundo, mas que têm a gana de ajudar algumas pessoas. A indignação desta senhora, com o que eu quis contribuir com as sábias palavras de Lídia Weber (uma “perita” no assunto), é totalmente emburrecida.
De fato, a humanidade ainda tem muito o que crescer e dividir.

Até hoje tenho vontade de publicar essa discussão em alguma revista, suprimindo os nomes, é claro, pois poderia e nem gostaria de identificá-la. Mas nem que se tratasse de uma discussão pessoal eu não faria isso. O fato é que precisamos incentivar a abertura de consciência de algumas pessoas para que elas possam desejar melhorar as decisões para a sociedade mudar.
Infelizmente a sociedade depende, em parte, de gente que pensa pequeno desse jeito, que acha que querer melhorar e refletir sobre possíveis saídas mais eficazes para a resolução do problema do desamparo infantil é besteira e perda de tempo. Ela pensa pequeno, que devemos passar em concurso público para garantir um bom salário e independência financeira, só! A vida desta senhora é só isso! E o que seu dinheiro pode comprar. Pobre coitada.

Essa "autoridades"...

Enquanto uns querem acabar com a inspiração, a esperança, eu peço ao universo que conserve e fortaleça essa minha incansável vocação, esse dom e qualidade de saber sonhar e valorizar a importância da fantasia que leva a gana de realizar. Assim o sonho ganha sentido e sonho que se sonha junto é realidade. Sou feliz de conhecer tanta gente boa, preocupada com as crianças sem família. A nós, fortunados e ocupados com o próximo, que possamos sempre trazer riquezas para esse duro e lindo mundo.

Foto: Google Imagens

Percebo que existe um descaso profundo, como se muita gente não quisesse fazer contato com a dor das crianças. Se eles, ao menos, visitassem um abrigo e parassem tudo para ouvir o choro de uma dessas crianças...
Muitas pessoas ditas “autoridades” nunca entraram num abrigo de crianças, ou entraram com medo. Será que eles pensam, "não são meus filhos...?”, "O que os olhos não vêm o coração não sente", "não é comigo, não é com minha família, o que eu tenho a ver com isso?”, “Faço o que puder e dentro da lei".

Isso é muito injusto, uma nação deixar crianças crescendo em abrigos, que para elas são verdadeiros presídios infantis, são excluídos mesmo, por mais que o abrigo seja cuidadoso. Eles não têm uma vida livre, normal, eles são os abandonados sociais, os esquecidos, a minoria, se sentem o resto das crianças do mundo. Eu já ouvi isso e já percebi na fala de muitas crianças. Muitos sentem que não têm valor, que não são merecedores de amor.

O governo tinha que ser severo com esses pais biológicos e priorizar a criança e seu desenvolvimento e não deixá-las esperando por anos até esses pais poderem "pegá-las" de volta e reinserí-las num lar que pode continuar adoecido.
O que parece, a princípio, é que se defende primeiro o direito dos pais biológicos de não perderem o filho e não dos filhos terem uma chance de serem felizes fora do abrigo, constituindo nova família. Será que vale a pena passar 2 anos num abrigo, antes da nova lei 5, 10, 15 anos, num abrigo só para não separar a criança da família biológica? Que raio de laço de sangue é esse que faz sofrer? Que dilacera? Que tira o que pode haver de mais básico para o ser humano, que é o amor de pais e um lar digno?

Conheci adolescentes abrigados (de mais de um estado) que me disseram que chegaram no abrigo com 2, 3, 4 anos de idade e já estavam com 14, 15, 16 anos e só havia recebido visitas escassas de um ou outro familiar durante todos esses anos, estava esperando completar 18 para sair do abrigo e voltar a morar com a família de origem. Que garantia ele tem de que será bem recebido? Se não foi amado durante 18 anos porque será amado agora? Quem garante? Foram 18 anos vivendo no desamparo.

Eles acham que estão defendendo as crianças para não perderem a família biológica, mas será que já pararam para se perguntar se elas querem esperar anos pela família biológica? Já perguntaram o que elas perderam?E que família é essa que não faz parte, que não faz questão, que não cuida, protege e que não está ao lado?

Foto: Cintia Liana e o pequeno João, filho de uma amiga. Amizade esta conquistada durante palestras sobre adoção.

Devemos colocar a frente não somente os nossos conhecimentos técnicos, mas também a intuição, sensibilidade e o amor pelas pessoas, isso é essencial para o desempenho de um bom e consciente trabalho. Cautela e humildade também. Esqueçamos o poder, poder de quê? O poder tem que ser usado para o bem! Temos que criticar o sistema e sentir também como se do outro lado estivéssemos, do lado da comunidade. As pessoas precisam de apoio e auxílio antes de tudo e não de convicções ou bases em paradigmas ultrapassados sobre hereditariedade e laços consanguíneos.
Ter muito cuidado com a interferência dos nossos preconceitos no destino dos outros ainda é muito pouco para a realização de um trabalho deste nível.

Nós técnicos, analistas do homem, da mente, por exemplo, nunca devemos nos esquecer de uma frase maravilhosa do cronstrucionismo social "o olhar do observador deforma a realidade" e isso nos diz um pouco de nós, nos revela. Nunca vamos fazer uma análise igual, pois os analistas são pessoas diferentes, com referenciais diferentes.

Não somos "experts", nem engenheiros sociais, pois a realidade não é objetiva, nem representacional. Devemos ser arquitetos do diálogo, numa relação democrática, enxergando identidades não fixas e nos dando chances sempre de melhorar tudo e mostrando ao outro que também é capaz de construir novos significados.

Infelizmente alguns profissionais existentes em todas as áreas ainda insistem em permanecer com suas mentes respaldada nos paradigmas científicos ocidentais, empobrecendo e lentificando ainda mais ainda o desenvolvimento humano.
Alguns colegas se diferenciam, ganham destaque e são realmente especiais, iluminados e desapegados, querem conhecer mais do que lhe colocam como possibilidade nesta sociedade atrasada.

É bom lembrar, como diz o sábio Morin (2000), ainda estamos na pré-história da mente humana e, para ele, essa é uma perspectiva muito otimista.

Foto: Flávio Chiarini

Se vivemos histórias de adoção e temos a consciência conquistada através desta participação nessas histórias temos o dever de abraçar a causa das crianças abandonadas. Abraçar o ideal e a luta, para ver, um dia, todas as crianças inseridas em uma família substituta. Como os abrigos irão sobreviver sem essa clientela? Danem-se os abrigos! Devemos exterminá-lo e criar uma política eficaz do amor, da prioridade pelo humano menor. Essas crianças institucionalizadas também são nossa responsabilidade, são nossos filhos. Todos nós merecemos ser amados, crescer com dignidade, nos sentindo protegidos. Não tem amanhã, é agora!

Meu sonho não é passar em concurso público, nem garantir um salário razoável, meu sonho é bem maior, cara senhora. É correr o mundo, compartilhando o desejo e a luta por uma sociedade mais consciente, é ver, um dia, essas crianças da foto sorrindo ao lado e um pai e/ou uma mãe, como já tive o prazer de ver muitas, se sentindo completas e amparadas. Para isso, conto com muitos amigos de verdade, que mesmo sem salário ou pagamento material se preocupam com as crianças.
Amor pela causa das crianças desamparadas não é sonho, não é fantasia, é a chave para a realização, para uma mudança efetiva.


Fotos e composição de painel: Cintia Liana, no Dia das Crianças em 2007.


Observação sobre as fotos do post:
Nesta última foto do post, o painel, optei por preservar a identidade das crianças fotografadas cobrindo os olhinhos que são nossa maior forma identificação, no entanto conservei na foto as boquinhas com os sorrisos de um dia no parque de diversões do Salvador Shopping. Proposta do dia das crianças promovida pela Vara da Infância em 2007.
As fotos foram tiradas com a minha câmera fotográfica, mais um motivo para não expor o rosto das crianças sem a devida autorização.
Fora a minha foto com a criança, autorizada pela mãe, as outras são ilustrativas, fotos achadas no Google.

Por Cintia Liana

3 comentários:

Patrícia disse...

Nossa Cíntia, se mais uma dúzia de pesssoas e " senhoras atrás da mesa " pensassem assim, não teríamos tanta criança sofrendo e tanta gente com emprego garantido já que o salário estará depositado no final do mes, independente de 1 criança ter saído do abrigo com a juda dela, ou 100. e olha que sou funcionária pública hein? vc conseguiu traduzir e escrever maravilhosamente o que eu pessno e sinto. posso passar seu texto adiante? um grande beijo , cada vez mais sou sua fã, s eé que isso é possivel. Patrícia

Cintia Liana disse...

Patrícia, que bom, minha linda, que pude falar o que vc tbm sente!
Fan? Que maravilha! rsrs
Pode usar sim meu texto, fique a vontade. Só peço aos amigos p não esquecerem de colocar o autor, pois acho importante e sei que vc o fará. Acho que temos que usar os textos, compartilhar, trocar, fiquei a vontade, esse blog é nosso. Se algum dia quiser me presentear com um texto seu ficarei contente. Um abraço.

Patrícia disse...

Obrigada Cintia, e pode deixar que eu coloco o seu crédito com certeza. Essa é sempre uma preocupação minha com relação às minhas fotos. Posso presenteá-la com textos sim, seria uma honra, mas seriam sobre animais , que é só o que eu consigo escrever !!! : ))vou catar uns e te mando pro seu email, mas aí seria como distração prá vc! um grande abraço.