"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Eu tentei amamentar o meu filho adotivo


05/08/2015
Por Luísa Massa

Luciane Cruz, 32 anos, é mãe do Noah, de 2 anos, administradora e idealizadora do blog Gravidez Invisível. Aqui, ela conta como foi vivenciar a experiência de amamentar o seu filho adotivo.


"Adotar uma criança sempre foi o plano principal da minha vida. Quando conheci o meu marido, compartilhei com ele esse sonho e juntos tomamos a decisão de formar a nossa família por meio da adoção. Escolhemos nos tornar pais dessa maneira porque não vemos diferença entre um filho biológico e um adotivo.

O fato é que algumas pessoas me perguntam se eu não posso ter filhos, então, respondo que sim: tanto posso, que já tenho. Entendo que, na verdade, elas querem saber se eu consigo engravidar. Sim, eu poderia passar por uma "gestação da barriga", caso optasse pelo caminho da inseminação artificial. Entretanto, esse nunca foi o meu desejo e nem o do meu marido. Serei eternamente grata a Deus por ter me abençoado com um pequeno príncipe por meio da adoção e estou "grávida de coração" novamente, esperando o meu segundo filho. Me sinto muito realizada como essa escolha!

Quando Noah nasceu para nós, ou seja, no momento em que ele chegou em nossas vidas, ele tinha apenas três dias. Eu já havia escolhido uma pediatra que também se tornou mãe por meio da adoção para acompanhá-lo. No segundo dia, o levamos para uma consulta - ele foi examinado e a médica nos passou orientações gerais sobre os cuidados que um bebê exige. Nesse dia, ela também perguntou se eu gostaria de amamentar. Confesso que, apesar de ter estudado bastante sobre adoção, maternidade e filhos, eu ainda não tinha pensado sobre essa questão. Mesmo assim, na hora respondi: "se for para o bem do meu filho, sim, eu quero!".

Então, a pediatra me receitou um medicamento cujo um dos efeitos colaterais é a produção de leite. Ela me explicou que além da depressão pós-parto, há a depressão pós-filho, pois a vida das mães adotivas também mudam do dia para a noite com a chegada de uma criança que depende exclusivamente dos pais. A médica disse o que eu deveria fazer para estimular a produção de leite e me mostrou as posições que eu deveria colocar o meu bebê para mamar. Estava bem nervosa porque esse era o único assunto que eu não tinha explorado na teoria, por isso, congelei no momento em que ela disse para eu me arrumar, pois ela mostraria como dar de mamar.

Apesar da ansiedade e do nervosismo, posso dizer que essa foi uma experiência muito especial para mim. Sentei na cadeira, tirei a blusa e meu marido colocou o pequeno no meu colo. Em seguida, a médica se aproximou e explicou como eu deveria colocar o bebê para mamar. Quando ela encostou a cabecinha dele no meu peito, ele prontamente pegou o seio e ficou sugando. Instinto de filho. Eu havia gestado esse bebê em meu coração por tantos anos e nós nos conhecíamos pessoalmente há apenas um dia, mas certamente ele reconheceu o meu cheiro. Eu ainda não tinha leite, afinal, nem tinha tomado a medicação, mas já existia tanto amor transbordando no meu peito que aquela "mamada" valeu por todas as outras que eu poderia vir a dar. Nesse momento, a emoção tomou conta da sala. Eu chorava incontrolavelmente, meu marido e a médica também estavam sensibilizados com a situação. Fiquei anestesiada por alguns dias.

Meu filho estava tomando fórmula desde o hospital, por isso, fomos orientados a continuar alimentando-o dessa maneira até que eu conseguisse produzir leite para amamentá-lo. O remédio fez efeito em aproximadamente duas semanas, mas Noah já estava acostumado com a mamadeira e a fórmula. Toda vez que eu tentava dar o peito, ele chorava muito e eu ficava nervosa com a situação. Meu marido também ficava apreensivo porque não queria vê-lo passar fome, então, acabávamos oferecendo mamadeira. Nos momentos em que eu ficava sozinha com o meu bebê, eu tentava amamentá-lo, mas ele não aceitava. Diferentemente de uma pessoa que tem um parto no hospital, eu não tive nenhum acompanhamento nos primeiros momentos para, por exemplo, certificar de que ele tinha aprendido a mamar. Infelizmente, não consegui seguir com a amamentação, mas Graças a Deus, o Noah é muito forte e saudável. Algo que também me incomodava eram as pessoas que queriam dar mamadeira para ele. Eu cedia com mais tranquilidade para o meu marido, mas ficava enciumada, pois acreditava que aquele era um momento especial para a mãe e o bebê.

Somente após um ano e meio do nascimento do meu filho, é que tomei conhecimento do trabalho da doulas. Hoje, percebo que teria sido maravilhoso contar com o suporte de uma profissional para me ajudar no pós-parto do coração. Para encerrar, espero que a minha história incentive todas as mães a amamentar, pois o leite materno é o alimento mais completo para a criança na primeira fase da vida, além do vínculo afetivo que é criado entre a mãe e o bebê. Para as mamães que terão os seus filhos por meio da adoção - no caso, recém-nascidos - tenham a certeza de que, sim, é possível amamentar! Basta ter uma boa orientação, paciência e acompanhamento - o que mais faltou para mim. Agora, se você tentou e não conseguiu, não se culpe ou julgue por isso. Existem alternativas para a alimentação dos bebês e é possível compensar essa "falta" com uma nutrição de carinho, cuidado e amor. Eu não me sinto "menos" mãe porque não tive uma "gestação de barriga" ou porque não amamentei. Muito pelo contrário: eu me sinto 100% mãe, pois amo o meu pequeno incondicionalmente. Eu sei que ele nasceu para ser o meu filho: esse é o verdadeiro amor, sem barreiras ou medidas!"


Por Luísa Massa

O amor é artigo de luxo


Filme "Pedaço de mim"


Filme "Pedaço de mim"
https://www.facebook.com/pedacodemimofilme?hc_location=ufi
Teaser do filme: https://vimeo.com/83789678

Mãe; 

Obrigado, não só por comprar nossa ideia. Obrigado pelas asas que construí através da educação que você e meu pai me forneceram, pela estrutura familiar que tenho, e pelas oportunidades de me preparar para as guerras que a vida nos impõe. 
A vitória sobre os leões que já matei e os que matarei dia após dia neste caminho difícil que escolhi percorrer, devo ao seu amor e ao seu suor - tanto quanto aos do papai. Eu amo você com minha barriga e minha alma! rs
Essa frase da camisa é uma conclusão que entendi a partir da sua existência para com a minha existência - e o que torna lindo é sentir o quão universal é o Amor quando praticado dessa maneira.
MUITO OBRIGADO! ")

Dante Valvassori



quarta-feira, 29 de julho de 2015

O valor da adoção e da verdade

We Heart it


Por Cintia Liana Reis de Silva para a Revista Negócios & Cia (Salvador-BA) e para o Guia Indika Bem (Publicado o dia 25 de junho de 2015)

A cada ano que passa é muito mais fácil ver pais ou futuros pais que entendem o valor de se instaurar a verdade sobre a adoção no lar, que sabem que esse é o caminho a ser trilhado na educação dos filhos, afinal hoje a adoção é um assunto cada vez mais debatido, cujos tabus vêm sendo rompidos e trabalhados. Já escrevi muitos textos sobre o assunto. Não há vergonha alguma em ter sido adotado, ao contrário, houve uma escolha consciente para se formar uma família, onde não foi o acaso que falou mais alto, foi o amor.

Mas como nunca é demais tocar novamente no assunto, proponho mais reflexões.

Os pais devem sempre se lembrar que é preciso falar sobre o processo de tornar-se pai, mãe e filho desde que a criança chega no lar, mesmo que pequenininha. Ela deve saber que os vínculos de amor se formam na convivência e na intenção de amar, de acolher, ou seja, na atitude adotiva. Com todos os membros da família é assim, até com os filhos biológicos.

Não espere que o seu filho pergunte. Se ele não sentir que você está seguro em falar sobre a chegada dele, ele não te perguntará. Então se prepare e entenda que mesmo sem vínculos consanguíneos vocês se amam e nada mudará isso. Faça questão do amor do seu filho, esteja seguro desse amor, esteja seguro de que você o merece. Isso fará bem a todos. Se você não se sente seguro, procure um terapeuta e invista em seu crescimento pessoal, isso certamente refletirá na felicidade do seu filho.

Reflita. Se você descobrisse hoje que o seu filho não é seu filho biológico, isso mudaria o teu amor por ele? Mas seria um choque descobrir isso após 10 anos, não? Então acredite, ser adotado ou não, não muda em nada o amor que o seu filho sente por você, mas saber disso após os dez anos de idade pode ser bem desagradável e traumático.

Ser adotado não é uma deficiência, não é um problema. Se os outros são preconceituosos é um problema deles. Os preconceituosos é que têm uma deficiência. O preconceito reflete um forte dificit de inteligência e visão, é uma grande limitação. Ensine o seu filho a educar as pessoas, a ser um formador de opinião, a falar sobre adoção de uma forma bonita (isso não inclui contar a todos a história dele). O ensine a incluir e a acolher as pessoas que merecem, ao invés de se marginalizar, como se ele fosse um coitadinho, uma vítima do destino. Incluam também a escola nesse diálogo.

Concordando com a psicóloga argentina Laura Gutman, em seu livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra” (Editoral Del Nuovo Estremo, Buenos Aires, 2008, p. 145), parece que as crianças que foram adotadas possuem uma força excepcional e uma determinação enorme para superar dificuldades. Gutman crê que esta qualidade as faz de qualquer maneira donos dessa luz que os outros não veem e de um poder que os outros não detém. Ela diz também que estes encontros devem ser celebrados com um encantamento especial, já que aconteceram porque existiu o desejo de cuidar e amar um filho, e graças a um “chamado insistente” da criança, que de qualquer modo endereçou os pais até ela. São acontecimentos a serem valorizados, compartilhados, festejados como um matrimônio, como um nascimento, como formaturas e não a esconder ou dizer em voz baixa. Merecem ser festejados como uma maravihosa manifestação da força humana.

Já escutei e participei de centenas de histórias de adoção e já senti o quanto essas histórias são fortes e carregadas de amor e intensa emoção: quando se encontra pela primeira vez o filho, quando recebe a certidão de nascimento nova nas mãos, o quanto se festeja e se chora. Então é essa emoção que deve permanecer, que deve ser festejada a cada ano, que deve ser lembrada sempre e que deve servir para incluir as pessoas nessa felicidade.

Os seres humanos, em sua estrutura psíquica neurótica (quando não são psicóticos ou psicopatas), crescem com a sensação de inferioridade e tendem sempre a compreender que o mundo trabalha contra eles, que os desvaloriza, então é um exercício muito importante trabalhar esse padrão neurótico que todos têm e compreender que o outro, assim como nós, tende a achar que o diminuímos, que ele está sendo desvalorizado. A grande tarefa é nos sentirmos importantes por aquilo que representamos de bom, buscando internamente o nosso senso de valor, de humanidade, e só assim poderemos valorizar os outros, criando uma energia de gentileza e respeito que fará bem a todos. Quero dizer com isso que, não olhe para o seu filho como um pobrezinho, pois ele sente e se sente como você o vê. Olhe para ele como um grande homem e passe valores de um grande homem, contado a verdade sobre a sua origem de acordo com o seu grau de maturidade, pois todo ser humano merece integrar e entender a sua história para se sentir dono da sua própria vida, forte e inteiro.

Por Cintia Liana Reis de Silva para a Revista Negócios & Cia (Salvador-BA) e para o Guia Indika Bem (Publicado no dia 25 de junho de 2015)

Fonte: http://indikabem.com.br/filhos/o-valor-da-adocao-e-da-verdade

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fotógrafa retrata dia a dia de irmãs para mostrar que não há diferença entre filhos adotivos e biológic

Fotos: Reprodução/Anna Larson

Anna Larson é mãe das garotas e tem muito orgulho da relação das duas.

R7

Existe um certo preconceito em torno da palavra "adoção". Apesar de ser um ato nobre e comum, adotar uma criança ainda é tido como um "fardo" para algumas pessoas. Anna Larson, mãe de três filhos, sendo dois biológicos e uma adotiva, resolveu mostrar que, na verdade, a adoção não é nada mais, nada menos do que dividir e recriar o amor.


Em uma série fotográfica que ela intitulou de Barely Different (Pouco Diferente, em tradução para o português), Anna procurou retratar o dia a dia de Haven e Semenesh, suas duas filhas.

Sua vontade de adotar uma criança surgiu logo em sua adolescência ao participar voluntariamente de um centro de cuidados infantis no Haiti.

Entretanto, a criança que havia conquistado o coração de Anna na época veio a falecer enquanto ainda estava aos seus cuidados.

A partir deste momento, a fotógrafa ficou ainda mais determinada em adotar uma criança.

Foi neste momento em que ela conheceu Semenesh, uma garotinha da Etiópia, que, em pouco tempo, se tornou a sua garotinha etiopiana.

Desde a adoção, Samenesh e Haven desenvolveram uma amizade como Anna nunca havia visto antes.

As duas irmãs desenvolveram uma amizade sem igual e estão sempre brincando juntas, como é possível ver no trabalho de Anna.

Segundo a mamãe orgulhosa, a conexão das duas mostra como o amor e o companheirismo estão acima de qualquer preconceito.  



Além da conexão afetiva, as duas também comemoram aniversários no mesmo mês, em setembro.

Nas imagens, as duas são vistas sempre juntas, seja em brincadeiras ou até mesmo lendo um belo livro.

Em seu Instagram, Anna também gosta de compartilhar momentos únicos das garotas.

— Elas sabem que muitos estão lendo nossa história e estão muito felizes em poder compartilhar fotos de seu vínculo. Nós não poderíamos estar mais felizes de ver tanto apoio e respostas positivas de todos aqueles que sentem o mesmo. O amor não conhece barreiras.

Além de retratar a cumplicidade entre as duas irmãs, Anna também gosta de celebrar o amor.

Em seus ensaios fotográficos, Anna não deixa de mostrar casais apaixonados e a felicidade, além de mostrar toda a sua gravidez por meio de cliques emocionantes.

Fonte: http://entretenimento.r7.com/mulher/fotos/fotografa-retrata-dia-a-dia-de-irmas-para-mostrar-que-nao-ha-diferenca-entre-filhos-adotivos-e-biologicos-19052015#!/foto/1

terça-feira, 19 de maio de 2015

Mudanças prometem acelerar processo de adoção no país

Com a novidade do CNJ, pretendentes poderão encontrar criança em qualquer parte do país


Google Imagens

O Tempo - Brasil. 17 de amio de 2015
Brasília. O tempo de espera para adoção deve ficar menor. Essa é a expectativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que lançou nesta semana uma nova versão do Cadastro Nacional de Adoção (CNA). O novo modelo permite o cruzamento de dados entre os pretendentes e as crianças de todo o Brasil.

A principal mudança é a interligação nacional das comarcas. Antes, o juiz preenchia as informações, mas elas ficavam restritas ao Estado de origem. Quando iniciava a procura por uma criança com o perfil solicitado pelos adotantes, o magistrado tinha de consultar diferentes cadastros, o que, segundo a corregedora nacional de Justiça, ministra Nancy Andrighi, dificultava a tramitação do processo.
“O novo cadastro ligará todos os juízes das varas da Infância e da Juventude do Brasil, que, em tempo real, tomam conhecimento da criança colocada para adoção. Em qualquer ponto do país, ele pode se comunicar com o colega que preencheu a ficha da criança para adoção. Por exemplo, um pretendente do Norte do país poderá encontrar uma criança no Sul”, explicou a Andrighi.
De acordo com a ministra, o preenchimento do formulário também foi facilitado, reduzindo de 35 para o 12 o total de itens a serem informados pelos juízes no momento do lançamento dos dados no sistema. Segundo ela, a ordem da fila de adoção será respeitada. Outra novidade importante é o aviso que será enviado ao juiz caso um registro fique inativo por muito tempo, permitindo verificar e corrigir obstáculos que dificultem a adoção.
Tecnologia. Presidente da ONG Aconchego, Soraya Pereira alertou que nem todas as comarcas do Brasil dispõem do sistema ou têm condições adequadas de informática para implantação do mecanismo. “Não adianta dizer que funcionará em todos os lugares, porque muitos não têm o sistema”, afirmou.
“Estamos tentando corrigir isso. É possível colocar as informações a partir de uma comarca onde a internet funcione normalmente”, rebateu a ministra Nancy Andrighi.
Fonte: http://www.otempo.com.br/capa/brasil/mudan%C3%A7as-prometem-acelerar-processo-de-ado%C3%A7%C3%A3o-no-pa%C3%ADs-1.1040202

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Superproteção: A origem do fraco e do tirano

Sob as asas indulgentes de pais pretensamente diligentes e amorosos, desenvolve-se uma espécie humana incapaz de conviver com a frustração; insaciável em sua necessidade de atenção; dependente de cuidados, básicos ou sofisticados; impossibilitada de enxergar outro ponto de vista que não o seu; voraz e corruptível. A superproteção familiar impede o indivíduo de criar suas próprias ferramentas de sobrevivência, interlocução, compaixão e convivência. Estamos criando uma geração de fracos tiranos ou de tiranos fracos, capazes de qualquer artifício para terem seus desejos atendidos. 



Publicado em recortes Por Ana Macarini
No Obvious


Perigosa estratégia essa de trocar autoridade amorosa por permissividade vazia. Substituir a presença física e real por bens materiais contribui para a formação de indivíduos que não hesitariam em sacrificar pessoas para conseguir coisas. Será que somos tão distraídos emocionalmente a ponto de abrigarmos monstros egoístas sob nossas próprias asas e não nos darmos conta disso?

O inegável cenário de violência em que a maioria de nós vive, cria elementos mais do que concretos para que haja temor pela segurança de nossas crianças. É fato que muitos de nós tivemos a oportunidade de fazer pequenas incursões pelos arredores de casa, experimentando a cada nova aventura, o sabor da conquista da maturidade. Há cerca de 30 anos atrás, mesmo em cidades grandes e movimentadas, era comum as crianças “maiorzinhas” (10 ou 12 anos), irem sozinhas à padaria, à banca de jornal, à casa de algum amigo mais próximo ou mesmo à escola. Ouvíamos de nossos pais alguns conselhos como “Não fale com estranhos!” ou “Não aceite ‘nada’ de estranhos, como balas ou chocolates!”. Nossos pais temiam pela nossa segurança e procuravam nos preparar para enfrentar alguns perigos previsíveis. É claro que, mesmo naquela época, ouvíamos notícias de crianças sequestradas; abusadas; até mesmo desaparecidas e mortas. Mas a verdade é que esses acontecimentos eram uma exceção. Hoje, não são mais. O perigo é real, isso é indiscutível. Há muito tempo as crianças deixaram de ter medo do “homem do saco” para ter medo do bandido armado.
Assim, nossas crianças muitas vezes são privadas de experiências de vida em detrimento de sua segurança e integridade física. Até aí, nada de errado. Cabe mesmo aos pais garantir que seus filhos recebam proteção, cuidados, atenção e amor. Os problemas começam quando a dosagem desses atributos perde o valor original e extrapola os limites, revelando uma educação descolada do mundo real, no qual há o enfrentamento de situações adversas e imprevistas. É bastante frequente observarmos que os responsáveis sofrem com a dificuldade de estabelecer o que é cuidado, o que é exagero, o que é pseudo-cuidado e o que é negligência.
É importante termos em vista que a maneira como nos enxergamos na infância, baseia-se na forma como somos tratados pelos adultos responsáveis por nós. As experiências sociais da infância determinam a maneira como vamos interagir com o mundo na fase adulta. A consciência do nosso valor pessoal é construída na interação, primeiro com nossa família nuclear, independente de como ela seja formada; depois, na interação com os outros. Os adultos responsáveis pela nossa educação darão o tom às nossas percepções de respeito, ética, compaixão e liberdade.
Quando somos crianças, aceitamos como correto o modelo oferecido pelos adultos que são responsáveis por nós. Crianças tratadas com agressividade e intolerância acabam acreditando que merecem esse tratamento e o reproduzirão. Crianças negligenciadas crescem com a dolorosa sensação de que suas necessidades não são importantes. Adultos demasiado exigentes, críticos e autoritários fazem a criança sentir-se inadequada, incapaz e indigna de confiança. Quando não são ouvidas, elas crescem inseguras e dependentes. O pseudo-cuidado, caracterizada pela presença física, porém ausente de atenção (adultos que não desgrudam do celular, por exemplo), provoca na criança uma confusa sensação a respeito de seu papel na relação e do espaço que ela ocupa; ela se percebe como desimportante e até incômoda. Engana-se, porém, quem acredita que a superproteção garante um saudável desenvolvimento para a criança. As crianças superprotegidas acreditam que os adultos resolvem tudo por elas e atendem todas as suas vontades porque elas são incapazes. Adultos superprotetores formam crianças desconfiadas de suas próprias capacidades e habilidades, além de dependentes do cuidado e da aprovação do outro. Já adultas, elas acreditarão que o mundo será exatamente assim: sempre pronto a satisfazer seus desejos e compreender suas demandas.
A superproteção pode representar um bloqueio para o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo das crianças. Adultos responsáveis excessivamente protetores fazem com que os pequenos sintam-se pouco estimulados a interagir com o mundo. A timidez, por exemplo, pode ser uma consequência de posturas repressoras apresentadas na educação familiar. Outro ponto importante é o fato inegável de que as crianças superprotegidas terão dificuldades para adquirir autonomia; lidar com o medo; enfrentar situações imprevistas; tomar iniciativas ou decisões. Além da possibilidade de virem a se tornar adultos reclusos ou distantes da realidade, que julgam injusto terem de batalhar para alcançar o que desejam e não serem premiados por cumprir com suas responsabilidades e compromissos.
É de extrema importância que, no caso de termos decidido assumir a responsabilidade pela educação de uma criança, termos em mente que a nossa postura em relação à sua formação, contribuirá fortemente para o tipo de adulto que ela virá a ser. Precisamos entender que somos modelos em nossas atitudes, muito mais do que em nossos discursos. Criança precisa de escuta ativa; afeto; limites claros e justos; honestidade nas relações; aceitação de suas limitações; incentivo diante das dificuldades; valorização das habilidades; satisfação de suas necessidades de alimento, sono, descanso e brincadeira; liberdade assistida e orientada. Parece muito?! Mas não é. É o mínimo que nos cabe fazer. No fundo, elas não precisam ser colocadas sob nossas asas. Elas precisam que sejamos inteiros o suficiente para ensiná-las a voar com suas próprias, respeitando o espaço aéreo das demais.



sábado, 25 de abril de 2015

Neuróticos normais, como nós

We heart it

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado no Guia Indika Bem, dia 23 de abril e 2015.

Freud disse que “de perto ninguém é normal” e que todos nós somos neuróticos. O conceito de normalidade é arbitrário. Não existe normalidade. O que pode ser normal para uns, pode parecer anormal para outros e vice e versa. No livro a “Nau dos loucos” Foucault transcorre sobre a história da loucura e discute o conceito de normalidade na sociedade.

Por que todos nós somos neuróticos? Existem três tipos de estruturas psíquicas na relação com o outro, com o externo: uma é a neurótica, na qual o indivíduo vê o outro como superior; a psicopática, na qual o indivíduio vê o outro como inferior e a psicótica, na qual o outro não existe. A estrutura mais fáci de se encontrar é a neurótica, em que o sujeito acredita, bem lá no fundo, mesmo que esconda de si mesmo, que ele não está à altura do que vê, ele desconfia que o outro queira desvalorizá-lo, que não é valorizado como deveria, que não é competente como poderia, se sente rejeitado em muitas situações, pensa que os outros são melhores ou querem derrubá-lo. No processo de amadurecimento na vida, temos que trabalhar esses fantasmas criados durante o desenvolvimento infantil em sociedade buscando o nosso senso interno de valor.

Algumas pessoas têm uma autoestima mais elevada que outras, mas nesse caso vai depender da história de vida, do grau de maturidade do pais, dos reforços positivos, dos traumas vividos, da capacidade de resiliência da cada uma, do temperamento, dos eventos da vida e de tantas outras variáveis.

No contato com o outro é importante lembrar que os neuróticos se sentem como nós, precisam de atenção, não querem se sentir desvalorizados. Lembre-se de que enquanto vocês se sente desvalorizado o outro também pode sentir exatamente o mesmo ou pior que você, então seja forte e busque ser maduro e assim quem está interagindo com você não se sentirá ameaçado, ou contrário, se sentirá seguro para se abrir. Acontecem tantos desentendimentos porque duas pessoas se sentiram ameaçadas… Quando nada de fato aconteceu de negativo e quando nenhuma das duas quis amedrontar.

Imaginem a cena de dois cachorrinhos que se encontram e um fica com medo da reação do outro. O ser humano é assim nas relações, quando se encontram eclodem todas as defesas e medos. Todas as pessoas têm as suas feridas emocionais, os seus dilemas e as suas dores e isso não faz de ninguém desequilibrado, ao contrário, isso é ser humano. Eu costumo dizer que uma pessoa madura não é aquela que tem suas dúvidas, limitações, medos, mas é aquela que procura ver e aceitar essas limitações, almejando crescer. É humilde, sábia e corajosa o suficiente para ter vontade, buscar e fazer terapia com empenho, que enfrenta a si mesma, que reconhece as suas emoções e é capaz de demonstrá-las com dignidade  e de falar sobre elas. É uma pessoa que aprende a aceitar-se e a amar-se  e assim aprende a aceitar e a amar os outros por aquilo que são. Já uma pessoa infantil, insegura e imatura é muito crítica, competitiva, rebelde, controladora, preconceituosa e invejosa. Acha que sabe tudo, não sabe escutar e nem valorizar ou aceitar o outro, porque não consegue valorizar a si mesma.
Uma que não consegue olhar e tocar a alma do outro è porque ainda não conseguiu olhar e tocar a sua própria alma. O caminho para ter amor ao próximo de verdade é antes de tudo aprender a amar, ser tolerante, generoso, sensível e verdadeiro consigo mesmo.

Como disse Carl Gustav Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. Para ser feliz é preciso despertar.

Por Cintia Liana Reis de Silva

Fonte: http://indikabem.com.br/comportamento/neuroticos-normais-como-nos

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O sono dos recém nascidos e das crianças e o que ele pode comunicar

Fonte da imagem: www.babyboom.be (créditos e divulgação)

Por Cintia Liana Reis de Silva
Publicado do Guia Indika bem no dia 09 de abril de 2015

Aqui na Itália uma das perguntas mais frequentes quando nasce uma criança é, “dorme tutta la notte?” (dorme a noite toda?). Acredito que no Brasil essa pergunta também seja corriqueira.

Uma noite ou várias noites mal dormidas e ainda com o choro de um bebê, é algo que não se pode ignorar, é um evento capaz de tirar a paz das pessoas, mesmo quando se trata de um filho. O choro faz emergir muitos medos e fraquezas dos pais, faz nascer vários fantasmas e dúvidas sobre o universo psíquico da criança.

O sono das crianças é um tema delicado e a sociedade em geral crê muito e conhece pouco, e entre essas crenças está a de que o recém nascido deveria dormir continuamente e “bem”, logo que nasce. As mães se sentem pressionadas, pois a fazem acreditar que se a criança não dorme a culpa é delas e escutam frases do tipo, “ele é muito apegado você!”. Mas é claro que o bebê deve desejar estar nos braços da mãe! É a natureza! Esse tipo de opinião é desrespeitosa e não enxerga as particularidades dessa díade, mãe e bebê, não respeita essa relação que deve ser alimentada de calor e intenso contato no início, para que depois a criança adquira aos poucos a verdadeira autonomia.

A mãe precisa de tempo, espaço, respeito e de que acreditem nela e na relação mãe e bebê para que se sinta segura para olhar para a sua cria sem culpa e sintonizar com a sua energia, com a essência do seu filho, para intuir e enxergar o que é preciso, e só assim poderá se instalar mais tranquilidade no lar, e o bebê se sentirá mais sereno, além disso, deve entender que todo recém nascido precisa de tempo para se habituar aos horários dos adultos, aos horários impostos, pois na barriga ele não tinha nada disso. É uma mudança muito radical, consequentemente, não podemos simplificar esse fenômeno dando regras ao bebê.

A madrugada é muito longa e muito tranquila para o universo do recém nascido. Quando uma mãe entende e aceita esse fato, o seu esforço de se levantar durante a noite se torna menos intenso e cansativo, passa a ser algo muito mais natural, pois não sente culpa por achar que o fato da criança acordar a noite e chorar é por uma situação mal administrada por ela. Uma criança acorda e chora para pedir alimento, braços, presença, mais calor, mais conexão, segurança, mais disponibilidade emocional e aos poucos ela vai construido a própria identidade, o tempo do seu sono, e esse tempo vai se prolongando, ela vai aprendendo a autoregular-se, porque a mãe começou a construir e a dar à ela o suficiente “sustento emocional interno”. (Gutman, 2008)

A idade em que a criança começa a dormir durante toda a noite varia muito, então determinar isso se transforma em uma avaliação autoritária e cheia de preconceitos, compreensível só à razão e não à emoção. Não significa que um recém nasido esteja bem só porque dorme toda a noite, mesmo que isso seja consfortável para os adultos. (Gutman, 2008, p. 192)

Para se chegar ao estágio das noites inteiras tranquilas, nós psicólogos de família perguntamos aos pais o que pode estar acontecendo e o que esse bebê pode estar querendo comunicar, quando ele continua com um sono agitado e acorda muitas vezes durante a noite. Em outros textos meus escrevi bastante sobre a fusão emocional mãe e bebê, dessa forte ligação, onde o bebê reflete a alma da mãe, o que ela sente, ignora, rejeita, os seus medos e inseguranças, pois até mais os menos os dois anos após o parto são como um corpo só. Um comportamento maduro, além da mãe indagar-se sobre o que sente, seria o casal questionar como está a relação e se o pai está apoiando bem a mãe nesse momento. Isso só viria a favorecer a tranquilidade de toda a família, pois essa tranquilidade se reflete no sono do bebê.

No livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra”, a psicóloga argentina Laura Gutmam afirma o que eu acabei de expor no parágrafo anterior e diz ainda que a conduta de raiva, de implorar que o bebê não atrapalhe o sono desperta profundamente aquilo que estava adormecido no nosso ser interior (p. 191).

Em geral o que se vê é uma declarada presunção, um grande autoritarismo ao ousar dizer o que é “normal” ou não, o que é “sadio” ou não, ignorando a idade da criança, as particularidades do presente a família, a alma da mãe e do bebê e as necessidades dos mamíferos, impondo que a criança, que acabou de nascer, se separem do corpo da mãe imediatamente, para que ganhe uma falsa “independência”, sem nem antes ter sentido o prazer do que é “pertencer”, o prazer da segurança do calor da mãe, com a ilusão de que que estaria se “acostumando mal”. Mas sentir a segurança passada pela mãe é se acostumar mal? Como se tornar uma adulto inteiro, seguro, se a criança não teve a oportunidade de experimentar essa relação intensa com o mãe? Se lhe foi negado esse seu único desejo e direito?

Concordando com Gutman, a mãe deveria ter o apoio de todos para dedicar-se inteiramente nos primeiros meses aos cuidados do filho e tê-los nos braços sempre, amamentá-lo, ou contrário disso se vê puerperas desestruturadas psiquicamente, com medo, inseguras, criticadas, regredidas e assustadas sem ter a condição de se darem conta e acolherem o seu mundo interno, e assim a criança sente as mesmas inseguranças. Ajudar mãe e bebê é dar tempo e eles de renascerem e estabelecerem novos ritmos a favor da serenidade da psiquê da mãe e do crescimento sadio do filho.

Se fazer perguntas como, “por que não domir abraçada ao meu filho se esse é o nosso desejo?”, “por que não ficar com ele todo o tempo nos braços se esse é o nosso desejo?”. Não tenha medo, pois recebido o calor necessário, ele aprenderá a dormir sozinho e um dia não precisará tanto dos seus braços, então aproveite. Se pensarmos bem, o mais comum é encontrarmos pessoas carentes, com um baixo senso de autovalorização, que sentem que não receberam o suficiente dos pais, que não tiveram o calor que tanto desejavam e aquilo que não se teve na infância não será nunca mais satisfeito na fase adulta.

Como diz Gutmam, para criar bem um filho é preciso generosidade e uma ampla visão.

Por Cintia Liana Reis de Silva

Fonte: http://indikabem.com.br/filhos/o-sono-dos-recem-nascidos-e-das-criancas-e-o-que-ele-pode-comunicar

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Mães depois dos 33 têm o dobro das probabilidades de viver até aos 95 anos

Os genes que permitem às mulheres ter filhos naturalmente em idades mais avançadas são também os responsáveis por uma maior longevidade.
Em Portugal, no ano 2011 a maternidade surgia apenas aos 29,2 anos

As mulheres que têm filhos depois dos 33 anos sem tratamentos de fertilidade têm maiores probabilidade de viveram até mais tarde do que as que foram mães pela última vez antes dos 30, conclui um estudo divulgado esta quinta-feira.

A investigação da Boston University School of Medicine, publicada na edição de Junho da revista científica "Menopause", estima que os mesmos genes que permitem às mulheres ter filhos naturalmente em idades mais avançadas são os responsáveis por uma maior longevidade, que pode ir até aos 95 anos.

Os resultados do estudo da Boston University School of Medicine são consistentes com anteriores descobertas que estabelecem uma relação entre a idade maternal aquando do nascimento do último filho e a longevidade excepcional.

O estudo baseou-se na análise dos dados do "Long Life Family Study", um estudo genético de 551 famílias com vários membros que viveram até idades excepcionais, 95 ou mais anos.

Os investigadores determinaram a idade em que cada uma de 462 mulheres tiveram os últimos filhos e até que idade viveram e concluíram que as mulheres que tiveram o último filho depois dos 33 anos tinham o dobro das probabilidades de viver até aos 95 anos ou mais quando comparadas com as que tiveram o último filho aos 29 anos. Das 462 mulheres, 274 tiveram o último filho depois dos 33 anos.
"Pensamos que os genes que permitem às mulheres ter filhos naturalmente numa idade mais avançada são os mesmos que têm um papel muito importante no retardar do envelhecimento e na descida do risco de doenças relacionadas com a idade, como as doenças de coração, acidentes vasculares cerebrais, diabetes e cancro", explicou Thomas Perls, especialista em geriatria na Boston University Medical Center e principal investigador do estudo, citado pela imprensa norte-americana.

Em Portugal, a idade das mães ao nascimento do primeiro filho tem vindo a aumentar. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2001, era-se mãe pela primeira vez aos 26,8 anos e em 2011 a maternidade surge só aos 29,2 anos.


As gravidezes após os 35 anos dispararam 47 por cento, na última década, enquanto a maternidade antes dos 20 caiu para metade.

Fonte: http://www.publico.pt/sociedade/noticia/maes-depois-dos-33-tem-o-dobro-das-probabilidades-de-viver-ate-aos-95-anos-1660613

Principais preconceitos contra à mulher e à amamentação