"Uma criança é como o cristal e como a cera. Qualquer choque, por mais brando, a abala e comove, e a faz vibrar de molécula em molécula, de átomo em átomo; e qualquer impressão, boa ou má, nela se grava de modo profundo e indelével." (Olavo Bilac)

"Un bambino è come il cristallo e come la cera. Qualsiasi shock, per quanto morbido sia
lo scuote e lo smuove, vibra di molecola in molecola, di atomo in atomo, e qualsiasi impressione,
buona o cattiva, si registra in lui in modo profondo e indelebile." (Olavo Bilac, giornalista e poeta brasiliano)

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domingo, 6 de novembro de 2016

A Cólica - Por Dr. Carlos González

Palavras que iluminam a vida. 
A cólica que não é cólica.

Foto: Lugar da Mulher

Por Dr. Carlos González

Os bebês ocidentais costumam chorar bastante durante os primeiros meses, o que se conhece como cólica do lactente ou cólica do primeiro trimestre. Cólica é a contração espasmódica e dolorosa de uma víscera oca; há cólicas dos rins, da vesícula e do intestino. Como o lactente não é uma vesícula oca e o primeiro trimestre muito menos, o nome logo de cara não é muito feliz. Chamavam de cólica porque se acreditava que doía a barriga dos bebês; mas isso é impossível saber. A dor não se vê, tem de ser explicada pelo paciente. 
Quando perguntam a eles: “por que você está chorando?”, os bebês insistem em não responder; quando perguntam novamente anos depois, sempre dizem que não se lembram. Então ninguém sabe se está doendo a barriga, ou a cabeça, ou as costas, ou se é coceira na sola dos pés, ou se o barulho está incomodando, ou simplesmente se estão preocupados com alguma notícia que ouviram no rádio. Por isso, os livros modernos frequentemente evitam a palavra cólica e preferem chamar de choro excessivo na infância. É lógico pensar que nem todos os bebês choram pelo mesmo motivo; alguns talvez sintam dor na barriga, mas outro pode estar com fome, ou frio, ou calor, e outros (provavelmente a maioria) simplesmente precisam de colo.

Tipicamente, o choro acontece sobretudo à tarde, de seis às dez, a hora crítica. Às vezes de oito à meia-noite, às vezes de meia-noite às quatro, e alguns parecem que estão a postos vinte e quatro horas por dia. Costuma começar depois de duas ou três semanas de vida e costuma melhorar por volta dos três meses (mas nem sempre).

Quando a mãe amamenta e o bebê chora de tarde, sempre há alguma alma caridosa que diz: “Claro! De tarde seu leite acaba!”. Mas então, por que os bebês que tomam mamadeira têm cólicas? (a incidência de cólica parece ser a mesma entre os bebês amamentados e os que tomam mamadeira). Por acaso há alguma mãe que prepare uma mamadeira de 150 ml pela manhã e de tarde uma de 90 ml somente para incomodar e para fazer o bebê chorar? Claro que não! As mamadeiras são exatamente iguais, mas o bebê que de manhã dormia mais ou menos tranquilo, à tarde chora sem parar. Não é por fome.

“Então, por que minha filha passa a tarde toda pendurada no peito e por que vejo que meus peitos estão murchos?” Quando um bebê está chorando, a mãe que dá mamadeira pode fazer várias coisas: pegar no colo, embalar, cantar, fazer carinho, colocar a chupeta, dar a mamadeira, deixar chorar (não estou dizendo que seja conveniente ou recomendável deixar chorar, só digo que é uma das coisas que a mãe poderia fazer). A mãe que amamenta pode fazer todas essas coisas (incluindo dar uma mamadeira e deixar chorar), mas, além disso, pode fazer uma exclusiva: dar o peito. A maioria das mães descobrem que dar de mamar é a maneira mais fácil e rápida de acalmar o bebê (em casa chamamos o peito de anestesia), então dão de mamar várias vezes ao longo da tarde. Claro que o peito fica murcho, mas não por falta de leite, mas sim porque todo o leite está na barriga do bebê. O bebê não tem fome alguma, pelo contrário, está entupido de leite.

Se a mãe está feliz em dar de mamar o tempo todo e não sente dor no mamilo (se o bebê pede toda hora e doem os mamilos, é provável que a pega esteja errada), e se o bebê se acalma assim, não há inconveniente. Pode dar de mamar todas as vezes e todo o tempo que quiser. Pode deitar na cama e descansar enquanto o filho mama. Mas claro, se a mãe está cansada, desesperada, farta de tanto amamentar, e se o bebê está engordando bem, não há inconveniente que diga ao pai, à avó ou ao primeiro voluntário que aparecer: “pegue este bebê, leve para passear em outro cômodo ou na rua e volte daqui a duas horas”. Porque se um bebê que mama bem e engorda normalmente mama cinco vezes em duas horas e continua chorando, podemos ter razoavelmente a certeza de que não chora de fome (outra coisa seria um bebê que engorda muito pouco ou que não estava engordando nada até dois dias atrás e agora começa a se recuperar: talvez esse bebê necessite mamar muitíssimas vezes seguidas). E sim, se pedir para alguém levar o bebê para passear, aproveite para descansar e, se possível, dormir. Nada de lavar a louça ou colocar em dia a roupa para passar, pois não adiantaria nada.

Às vezes, acontece de a mãe estar desesperada por passar horas dando de mamar, colo, peito, colo e tudo de novo. Recebe seu marido como se fosse uma cavalaria: “por favor, faça algo com essa menina, pois estou ao ponto de ficar doida”. O papai pega o bebê no colo (não sem certa apreensão, devido às circunstâncias), a menina apoia a cabecinha sobre seu ombro e “plim” pega no sono. Há várias explicações possíveis para esse fenômeno. Dizem que nós homens temos os ombros mais largos, e que se pode dormir melhor neles. Como estava há duas horas dançando, é lógico que a bebê esteja bastante cansada. Talvez precisasse de uma mudança de ares, quer dizer, de colo (e muitas vezes acontece o contrário: o pai não sabe o que fazer e a mãe consegue tranquilizar o bebê em segundos).

Tenho a impressão (mas é somente uma teoria minha, não tenho nenhuma prova) de que em alguns casos o que ocorre é que o bebê também está farto de mamar. Não tem fome, mas não é capaz de repousar a cabeça sobre o ombro de sua mãe e dormir tranqüilo. É como se não conhecesse outra forma de se relacionar com sua mãe a não ser mamando. Talvez se sinta como nós quando nos oferecem nossa sobremesa favorita depois de uma opípara refeição. Não temos como recusar, mas passamos a tarde com indigestão. No colo da mamãe é uma dúvida permanente entre querer e poder; por outro lado, com papai, não há dúvida possível: não tem mamá, então é só dormir.

Minha teoria tem muitos pontos fracos, claro. Para começar, a maior parte dos bebês do mundo estão o dia todo no colo (ou carregados nas costas) de sua mãe e, em geral, descansam tranquilos e quase não choram. Mas talvez esses bebês conheçam uma outra forma de se relacionar com suas mães, sem necessidade de mamar. Em nossa cultura fazemos de tudo para deixar o bebê no berço várias horas por dia; talvez assim lhes passemos a idéia de que só podem estar com a mãe se for para mamar.

Porque o certo é que a cólica do lactente parece ser quase exclusiva da nossa cultura. Alguns a consideram uma doença da nossa civilização, a consequência de dar aos bebês menos contato físico do que necessitam. Em outras sociedades o conceito de cólica é desconhecido. Na Coreia, o Dr. Lee não encontrou nenhum caso de cólica entre 160 lactentes. Com um mês de idade, os bebês coreanos só passavam duas horas por dia sozinhos contra as dezesseis horas dos norteamericanos. Os bebês coreanos passavam o dobro do tempo no colo que os norteamericanos e suas mães atendiam praticamente sempre que choravam. As mães norteamericanas ignoravam deliberadamente o choro de seus filhos em quase a metade das vezes.

No Canadá, Hunziker e Barr demonstraram que se podia prevenir a cólica do lactente recomendando às mães que pegassem seus bebês no colo várias horas por dia. É muito boa idéia levar os bebês pendurados, como fazem a maior parte das mães do mundo. Hoje em dia é possível comprar vários modelos de carregadores de bebês nos quais ele pode ser levado confortavelmente em casa e na rua. Não corra para colocar o bebê no berço assim que ele adormecer; ele gosta de estar com a mamãe, mesmo quando está dormindo. Não espere que o bebê comece a chorar, com duas ou três semanas de vida, para pegá-lo no colo; pode acontecer de ter “passado do ponto” e nem no colo ele se acalmar. Os bebês necessitam de muito contato físico, muito colo, desde o nascimento. Não é conveniente estarem separados de sua mãe, e muito menos sozinhos em outro cômodo. Durante o dia, se o deixar dormindo um pouco em seu bercinho, é melhor que o bercinho esteja na sala; assim ambos (mãe e filho) se sentirão mais seguros e descansarão melhor.

A nossa sociedade custa muito a reconhecer que os bebês precisam de colo, contato, afeto; que precisam da mãe. É preferível qualquer outra explicação: a imaturidade do intestino, o sistema nervoso... Prefere-se pensar que o bebê está doente, que precisa de remédios. Há algumas décadas, as farmácias espanholas vendiam medicamentos para cólicas que continham barbitúricos (se fazia efeito, claro, o bebê caía duro). Outros preferem as ervas e chás, os remédios homeopáticos, as massagens. Todos os tratamentos de que tenho notícia têm algo em comum: tem de tocar no bebê para dá-lo. O bebê está no berço chorando; a mãe o pega no colo, dá camomila e o bebê se cala. Teria se acalmado mesmo sem camomila, com o peito, ou somente com o colo. Se, ao contrário, inventassem um aparelho eletrônico para administrar camomila, ativado pelo som do choro do bebê, uma microcâmera que filmasse o berço, um administrador que identificasse a boca aberta e controlasse uma seringa que lançasse um jato de camomila direto na boca... Acredita que o bebê se acalmaria desse modo? Não é a camomila, não é o remédio homeopático! É o colo da mãe que cura a cólica.

Taubman, um pediatra americano, demonstrou que umas simples instruções para a mãe (tabela 1) faziam desaparecer a cólica em menos de duas semanas. Os bebês cujas mães os atendiam, passaram de uma média de 2,6 horas ao dia de choro para somente 0,8 horas. Enquanto isso, os do grupo de controle, que eram deixados chorando, choravam cada vez mais: de 3,1 horas passaram a 3,8 horas. Quer dizer, os bebês não choram por gosto, mas porque alguma coisa está acontecendo. Se são deixados chorando, choram mais, se tentam consolá-los, choram menos (uma coisa tão lógica! Por que tanta gente se esforça em nos fazer acreditar justo no contrário?).

Tabela 1 – Instruções para tratar a cólica, segundo Taubman (Pediatrics 1984;74:998)

1- Tente não deixar nunca o bebê chorando.
2- Para descobrir por que seu filho está chorando, tenha em conta as seguintes possibilidades:
a- O bebê tem fome e quer mamar.
b- O bebê quer sugar, mesmo sem fome.
c- O bebê quer colo.
d- O bebê está entediado e quer distração.
e- O bebê está cansado e quer dormir.
3- Se continuar chorando durante mais de cinco minutos com uma opção, tente com outra.
4- Decida você mesma em qual ordem testará as opções anteriores.
5- Não tenha medo de superalimentar seu filho. Isso não vai acontecer.
6- Não tenha medo de estragar seu filho. Isso também não vai acontecer.


No grupo de controle, as instruções eram: quando o bebê chorar e você não souber o que está acontecendo, deixe-o no berço e saia do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando, torne a entrar, verifique (um minuto) que não há nada, e volte a sair do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando etc. Se após três horas ele continuar chorando, alimente-o e recomece.

As duas últimas instruções do Dr. Taubman me parecem especialmente importantes: é impossível superalimentar um bebê por oferecer-lhe muita comida (que o digam as mães que tentam enfiar a papinha em um bebê que não quer comer); e é impossível estragar um bebê dando-lhe muita atenção. Estragar significa prejudicá-lo. Estragar uma criança é bater nela, insultá-la, ridicularizá-la, ignorar seu choro. Contrariamente, dar atenção, dar colo, acariciá-la, consolá-la, falar com ela, beijá-la, sorrir para ela são e sempre foram uma maneira de criá-la bem, não de estragá-la.

Não existe nenhuma doença mental causada por um excesso de colo, de carinho, de afagos... Não há ninguém na prisão, ou no hospício, porque recebeu colo demais, ou porque cantaram canções de ninar demais para ele, ou porque os pais deixaram que dormisse com eles. Por outro lado, há, sim, pessoas na prisão ou no hospício porque não tiveram pais, ou porque foram maltratados, abandonados ou desprezados pelos pais. E, contudo, a prevenção dessa doença mental imaginária, o estrago infantil crônico , parece ser a maior preocupação de nossa sociedade. E se não, amiga leitora, relembre e compare: quantas pessoas, desde que você ficou grávida, avisaram da importância de colocar protetores de tomada, de guardar em lugar seguro os produtos tóxicos, de usar uma cadeirinha de segurança no carro ou de vacinar seu filho contra o tétano? Quantas pessoas, por outro lado, avisaram para você não dar muito colo, não colocar para dormir na sua cama, não acostumar mal o bebê?

Lee K. The crying pattern of Korean infants and related factors. Dev Med Child Neurol. 1994; 36:601-7

Hunziker UA, Barr RG. Increased carrying reduces infant crying: a randomized controlled trial. Pediatrics 1986;77:641-8
Taubnan B. Clinical trial of treatment of colic by modification of parent-infant interaction. Pediatrics 1984;74:998-1003


Do livro Un regalo para toda la vida- Guía de la lactancia materna,Carlos González

Tradução: Fernanda Mainier

sábado, 22 de outubro de 2016

Lugar de bebê é no colo!

Pinterest
23 de novembro de 2015
Por Fernanda Fock
Site "se as mães soubessem"
Um dos mitos mais difundidos da maternidade é que colo demais ‘estraga’, mal acostuma e mima o bebê. Infelizmente, ainda é comum ouvir discursos como este, especialmente quando a mãe recém pariu o seu bebê. Mas tranquilize-se, ninguém estraga por dar amor demais, carinho demais, muito menos colo demais.
Assim que nasce, o bebê se depara com um mundo completamente diferente daquele que ele conhece, com novas sensações dentro e fora do seu corpo. Tudo é uma grande novidade, o estômago digerindo, o intestino funcionando, a fome, o sono, a luminosidade, os sons que nunca ouviu, etc.
Talvez, se tivéssemos a memória dos nossos primeiros dias, seria mais fácil entender o que se passa na percepção dos bebês. É preciso apoiá-lo nesta descoberta do novo mundo. Mostrar para ele que aqui fora pode ser tão confortável quanto dentro na barriga da sua mãe, que aquelas sensações que davam prazer, conforto e segurança podem ser simuladas em sua adaptação para a nova vida.
Aliás, por isso mesmo que bebês pequenos são chamados de “bebês de colo”. Porque o colo é uma necessidade para o bebê. Os bebês humanos nascem completamente dependentes de seus pais. São os mais indefesos entre todos os mamíferos e precisam sentir-se acolhidos, seguros e guiados por seus pais.
A teoria da extero-gestação, apresentada pelo antropólogo Ashley Montagu popularizada pelo pediatra Harvey Karp, afirma que os bebês humanos nascem antes de estarem totalmente prontos ou maduros. A teoria descreve que ao longo da evolução do ser humano, para que ele pudesse caminhar, houve transformações fundamentais, dentre elas o estreitamento do osso da pelve por onde os bebês passam ao nascer. Portanto, se aguardássemos o desenvolvimento completo do sistema nervoso, cerca de mais três meses, não haveria espaço suficiente para a passagem no nascimento.
Como a própria palavra sugere, extero-gestação significa que o bebê continua a se desenvolver, porém fora do útero. Ele precisa vivenciar um ambiente acolhedor, que traga as mesmas sensações de segurança do ambiente intrauterino, para continuar em pleno desenvolvimento. Sentir-se seguro é fundamental para o bebê e a segurança pode ser promovida através do colo, do contato pele a pele, do som do coração, do acalento, da amamentação em livre demanda, da canção de ninar, da massagem, etc.
Tudo o que os bebês precisam é de muito amor e apoio nessa transformação de vida. Se carregar o bebê cansa seus braços, utilize um sling para mantê-lo próximo. Inspirados em carregadores de bebês tradicionais de diversas culturas, o uso destes carregadores de pano permite que o bebê permaneça em contato direto com seu cuidador pelo máximo de tempo possível, como se estivesse dentro de uma bolsa de canguru.
Essa proximidade promove uma interação mais sutil, facilita a comunicação do bebê com o pai ou mãe, fortalece os laços afetivos, tranquiliza o bebê e para o cuidador é uma maneira confortável de estar com o bebê e com suas mãos livres.

Fernanda Fock
Fonte: http://seasmaessoubessem.com.br/2015/11/23/lugar-de-bebe-e-no-colo/

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O imperfeito amor materno

Cintia Liana durante entrevista

Por Cintia Liana Reis de Silva

Definitivamente o amor materno não é perfeito e nem tem que ser. Elizabeth Banditer, pesquisadora, conhecida por escrever sobre o mito do amor materno, diz que o amor é inerente a condição de mãe, que ele não é determinante. O amor de mãe pode variar de acordo com a consciência de cada uma, de acordo com as ambições, frustrações, cultura, ele pode ser fraco ou forte, existir ou não existir, aparecer e desaparecer, pode ser bom ou ruim, ter preferência por um filho ou não.

Existem mães de todos os jeitos, mãe não é tudo igual. Existe mãe que sufoca, mãe egoísta, descuidada, superprotetora, patologicamente medrosa, controladora, chantagista, competitiva, que faz da vida do filho um verdadeiro inferno, fazendo ele depender dela porque tem medo de perder a sua companhia, por exemplo. Existem também as que sabem amar, as que se questionam. As mãe são humanas.

Nos escondemos por trás dessas frases para não questionarmos a nossa própria educação, os nossos próprios valores. Se diz “é coisa de mãe”, como um modo de desculpar a má educação que se dá, sem ter nenhuma responsabilidade com as consequências. É como se o outro não fosse capaz de entender esse amor tão mitizado, desconsiderando o olhar assustado que quem vê a cena absurda, de quem ouve a mãe falar aquela bobagem. Ser mãe não é deliciar o próprio ego narcizista e infantil, para fortalecer e perdurar convicções, mesmo que para isso tenha que fazer o filho sofrer. Ser mãe é educar para a vida, para o convívio com outras pessoas, cada ser humano é peça fundamental na sociedade, a soma deles é a paz ou o caos.

Uma mulher consciente busca educar o filho para ser um adulto responsável e efetuoso com sua vida e com os outros. É tarefa difícil, precisa de jogo de cintura, entender o comportamento psicológico, temperamento, personalidade, ir lapidando com cuidado e reflexão esta nova alma. Precisa de tempo e amor saudável. Não dá para colocar filho no mundo para alimentar o próprio ego sem pensar nas consequências, para somente se realizar, para provar que é capaz de parir. Ser mãe, assim como ser pai, é tarefa de grande responsabilidade, é  preciso senso de justiça apurado. É preciso ir muitas vezes contra as nossas próprias convicções.

Geralmente é mais fácil achar que sempre estamos certos, mudar de postura dá muito trabalho, exige energia, desapego. Acreditar que nossos pais não são perfeitos magoa. Preferimos acreditar que eles são perfeitos e quem sabe assim também o seremos?

Existem mães que sabem educar, já outras não. Mães que olham seus filhos como pequenos coitadinhos, outras que mostram a eles que podem ser fortes e vencedores, sem passar por cima de niguém. Mães que trabalham as suas frustrações para não colocá-las em cima do filho. Existem pessoas lúcidas e outras não, como também existem mães lúcidas e outras não. O fato de ter um filho não precisa torna ninguém estúpida, embreagada de amor materno e isso nãe é desculpa para fazer besteiras, usar os filhos como cobaias para tentar acertar. Muito menos precisam ser super heroína, portadora do amor mais poderoso do universo.

Existem formas diferentes de ser mãe e ela não tem que ser perfeita. Estudos mostram que mulheres conseguem mais facilmente ser boas mães se também tiveram um solo fértil e equilibrado em sua infância, explica John Bowlby, o pai da teoria do apego. É mais fácil se dar aquilo que se teve, dar aquilo que se conhece e experimentou. As que sofreram normalmente reproduzem o modelo que tiveram, aquilo que conhecem, a não ser que façam um trabalho de autoconhecimento para não cair no erro de repetir os padrões intergeracionais, e isso é possível, a tomada de consciência é totalmente possível.

Mães erram sim. Há aquelas que ainda colocam fraldas, dão bico e mamadeira a filhos de 5 anos, sufocando o seu crescimento com a busca incessante de fazê-lo estagnar naquela fase para não perder o seu bebê tão amado. Pai e mãe que colocam o filho para dormir entre eles na cama matrimonial; casais que fazem amor com o filho dormindo ao lado, sem querer perceber que o filho vê, acorda e sente a energia do sexo. Erram sim.

Pais superprotetores que passam os seus medos ou querem que seus filhos se tornem superdependentes e que acreditam que eles devem ser os super heróis dos filhos, quando esses pais nem mesmo conseguiram enfrentar e nem dar conta de seus próprios fantasmas.

Pais erram e criam crianças egoístas, agressivas, que não conseguem enxergar o outro porque dentro de suas casas são tratados como o centro do mundo. Ou o oposto, crianças depressivas, inseguras, sofridas, que não têm a atenção e afeto que precisam.

Pai e mãe consciente é aquele que se permite ter dúvidas e se pergunta: “estamos sendo justos?”, “estamos sentindo pena do nosso filhos?”, “como os meus sentimentos de culpa e preconceitos inflenciam na educação dele?”, “estou educando bem?”, “no que posso melhorar independente do que acredito ou quero acreditar?”, “como minhas neuroses e medos podem influenciar na vida emocional de meu filho?”, “de que modo isso pode influenciar no seu futuro, no seu comportamento?”. Esses buscam estar conscientes, se questionam, que educam sem estar apegados a suas crenças antigas e a própria educação que tiveram de seus pais.

Tem também aqueles pais que perguntam a um amigo psicólogo o que acha da educação que dão. Quando o amigo psicólogo chega a falar, depois de muita insistência por parte dos pais, eles não querem ouvir, mudam de assunto, ou começam a se desculpar, justificar. Quem quer de fato melhorar não pergunta opinião de um amigo psicólogo, vai direto a um terapeuta de família,  paga pela sessão, ouve tudo o que não quer ouvir. Muda. Em mais de 12 anos de experiência clínica só o segundo ouve e muda. O que pede opinião geralmente não passa de um curioso querendo ouvir elogios tecnicos.

É mais fácil não se questionar, mas pais criam filhos como Suzane Richthofen e depois da crueldade que fazem, a mídia, em nenhum momento, propõe uma discussão sobre como ela deve ter sido educada. Nem conseguiram jogar a culpa na adoção, como em geral o fazem, porque ela era filha biológica. Não se trata de culpabilizar os pais, nem ninguém, mas de dar algumas responsabilidades e de entender como podemos criar melhor as futuras gerações, de questionar o nosso egoísmo, o nosso apego em relação a algumas crenças e farsas sociais.

Poucos estudiosos e escritores questionam o mito do amor materno, pouco se fala sobre ele. Acredito que, como motivo inconsciente, não queiramos tocar de algum modo no arquétipo de grande mãe, na imagem da Virgem Maria, da Nossa Senhora, mas não podemos nos comparar a ela, mesmo com o desejo de ser uma boa mãe, com toda a bondade, amor e pureza que ela representa. Mais nobre é encarar a nossa humanidade, tentando ser cada vez mais justa, para ter filhos psicologicamante mais saudáveis.

Há quem diga que a dor de parir influencia no amor que a mãe alimentará por seu filho, mas ele não é determinante, se fosse assim não veríamos bebês de mulheres que acabaram de parir jogados no lixo. Não veríamos mães adotivas tão apaixonada e  educando tão bem seus filhos que não pariram e nem, tampouco, veríamos pais tão maravilhosos, que dão todo o amor que uma criança precisa para estar no mundo experimentando segurança emocional plena. Ser pai e mãe é um processo de descobertas de si mesmo, é tentar ser melhor para educar melhor, mas exige preparo. Não é certo ter um filho para aprender com ele a terefa de ser gente. Uma criança não merece tamanha crueldade e responsabilidade.

Nós humanos adoramos frases feitas, ideais perfeitos, fórmulas do amor e verdades absolutas para nos proteger de nossas falhas e fragilidades. Mas ainda acredito que tantar aguçar um olhar analítico para alcançar outras verdades, mesmo que elas nos desagradem, mesmo que isso doa, é o caminho mais rico e que nos leva a crescer e melhorar a nossa própria realidade, fazendo outros serem humanos que dependem de nós mais felizes.

Cintia Liana Reis de Silva, é psicóloga, psicoterapeuta, especialista em casal e família. Já acompanhou e teve contato com mais de 2.000 casos.

domingo, 28 de novembro de 2010

Uma Reflexão sobre o Preconceito atrás da Palavra

Foto: Google Imagens

...isso é o aprendizado. De súbito você compreende algo
que havia precedido vida inteira, mas de maneira nova.

Por Doris Lessing

Em nosso dia-a-dia costumamos utilizar muitas expressões e termos que denotam preconceito sem que tenhamos plena consciência disso. Assim, as novelas, os meios de comunicação de massa e as propagandas estão repletos de chavões preconceituosos, muitas vezes mascarados em sátiras e situações engraçadas, as quais servem simplesmente para manter um determinado status quo que um segmento social acha recomendável. Rimos da mocinha “bonita e burra” de determinado programa de televisão e não percebemos o quanto isso é estereotipado e preconceituoso. Ouvimos e vemos, a todo o momento, expressões que denotam preconceito racial, étnico, estético e muitos outros. É preciso parar para refletir um pouco. Alguns termos transformam-se em diagnósticos de vida. Foi o que ocorreu com o termo “menor”. Menores eram sempre os filhos dos outros, aqueles que estavam na rua, era a cultura menorizada. O nosso filho era sempre uma criança ou adolescente, mas o filho do outro, do menos favorecido era um “menor”. Tomando consciência desse fato a sociedade aboliu o termo menor e passou a chamar todos os filhos de crianças e adolescentes, culminado com o fim do código de menores e com a promulgação do Estatuto da Criança e Adolescente.

Com os discursos e a literatura das famílias adotivas tem acontecido algo semelhante, onde se percebe, por trás da semântica, e que fazemos aqui uma moção para que isso seja modificado. Algumas pessoas perguntam para a mãe adotiva se “essa é a criança que você pegou para criar”; se a família possui filhos biológicos e adotivos, as pessoas costumam apontar para um deles e perguntar: “é esse o seu”?; Ou ainda, após saber da adoção, pessoas podem perguntar, mas “você conhece a mãe verdadeira dele”? Todas essas frases demonstram uma falta de esclarecimento associada ao preconceito em relação à esta constituição familiar.

De maneira geral, quando se fala em família adotiva, utiliza-se a antítese “família verdadeira”, “família natural”, “família legitima”. Temos por convicção, por força dos dados científicos, que a família adotiva não é artificial não, mas é tão verdadeira e legitima quanto a outra. Sua essência não é diferente, mas somente a contingência de como foi constituída. Então, sugerimos que sejam utilizados os termos família de sangue, família biológica, família de origem em contraposição à família adotiva. Da mesma forma, quando se fala em filho adotivo, a antítese mais comum é falar “filho verdadeiro”, “filho natural”, “filho legítimo”, “filho meu mesmo”. Sugerimos que sejam utilizados os termos filho de sangue e filho biológico, pois o filho adotivo não é artificial, nem falso ou ilegítimo e é filho mesmo dos seus pais adotivos!

Texto extraído de WEBER, Lídia. Laços de ternura. 2.ed. Curitiba: Juruá Ed, 1999. p.124-125.



Postado Por Cintia Liana

sábado, 27 de novembro de 2010

Adoção: Um ato de amor

Foto: Google Imagens

Por Zildinha Sequeira

A adoção, mais do que um ato jurídico, é um ato de amor. É reconhecer no filho(a) gerado por outras pessoas, nosso filho(a). Para haver adoção é necessário que tenha havido antes uma situação de abandono e que, por menos sofrimento que tenha sido para a criança, mexe muito. Essa história anterior não dá pra ser modificada, mas dá para se construir uma outra história, pontuada de gestos de solidariedade, respeito, verdade e amor.

Muitos pais, principalmente por medo de provocar sofrimento no filho(a), ficam adiando e, às vezes, não contam que ele é um filho adotivo (segredos exigem omissões e mentiras). Encare a situação com naturalidade e fale a verdade o quanto antes, não deixe que seu filho saiba da adoção por terceiros, isso provoca um sentimento de traição e dor. Aproveite uma situação como a gravidez de alguém próximo, o nascimento de um bichinho, um filme e conte como ele chegou à família e como começou a história de amor de vocês.

Evite falar termos como "filho do coração", pois, filhos adotivos ou naturais, são sempre do coração. Ele nasceu da barriga de alguém que não pode criá-lo(a) e que vocês o escolheram para ser seu filho(a) para o resto da vida.

Cuidado com os mitos
O mito de que os filhos adotivos nunca serão amados como os filhos biológicos ou que eles darão problema, cedo ou tarde, é absurdo e preconceituoso, pois os filhos biológicos também podem apresentar sérios problemas comportamentais. Tudo que pode acontecer ao filho adotivo, também pode acontecer ao filho biológico. Mas, a sociedade tende a ser menos tolerante com as atitudes das crianças adotadas, devido ao preconceito e à falta de informação.

Algo que preocupa os pretendentes à adoção é saber a origem das crianças, saber se elas eram filhos(as) de prostitutas, marginais, delinqüentes,... pois têm receio de que essas características possam ser herdadas geneticamente. Estudos comprovam que "há muito de genética sim, mas nem tanto que não possa ser modificado pelo meio e pela educação".

A maioria das crianças não apresenta problemas em decorrência da adoção, e sim em razão da infância ser um período marcado pelas descobertas e pelos testes de limites, sendo necessário que os pais funcionem como modelo de autoridade e estabeleçam, claramente, os limites aceitos pela família. Contudo, algumas crianças adotivas apresentam dificuldade em aceitar afeto, em conseqüência de uma história anterior de rejeição, e passam a "aprontar todas", querendo testar o amor dos pais, mas, na verdade, tudo o que ela precisa é se sentir acolhida, cuidada e amada para se desenvolver de forma saudável, como qualquer criança.

Um amor conquistado
Para ser pai e mãe, não é necessário que se tenha vivido uma gestação biológica e sim afetiva. Procriar é fisiológico; criar é afetivo. Laços de sangue não são, necessariamente, os mais fortes. Quantas vezes temos mais afinidades com amigos do que com membros de nossa própria família? É a convivência amorosa que gera oportunidade de trocas de afeto, de carinho, de falar, de ouvir, de acolher e de estimular, de orientar e promover crescimento.

Alguns filhos adotivos manifestam o desejo de conhecer seus "pais biológicos", mas, não se preocupe, isso não quer dizer que ele não os ame e nem que deseja mudar de família e sim que deseja conhecer "um pedaço da sua história" para que elabore o fato de que foi abandonado(a) não por não merecer ser amado(a) e sim por ter sido gerado em uma família que não teve condições para criá-lo. É importante que você esteja ao lado do seu filho nesse momento, pois isso faz parte da construção de uma relação baseada na verdade, no respeito e no afeto. Afinal, filhos desejados ou escolhidos serão sempre filhos do amor.

Jornal “O Liberal” - Revista Troppo (Belém 21 de Novembro de 2010)


Postado Por Cintia Liana

domingo, 15 de agosto de 2010

Adotar um filho não é fazer caridade

Foto: Getty Images

Há alguns dias estava explicando a uma amiga que adoção não é caridade, nem quando se adota um adolescente. Era a segunda vez que explicava, talvez porque seja mais comum todos que estão fora deste meio pensarem assim.

Caridade é algo pontual, é quando você não está preocupado em obter nada em troca, você ajuda e ponto, é um comportamento altruísta, onde você sentirá um conforto interno inexplicável por ter sido útil na vida alguém que talvez você nunca mais encontre.

Adotar é para sempre. Ninguém adota para fazer caridade, por mais que se veja a nobreza do ato, pois ajudará uma criança, até então sem família, a ter um futuro digno inserida no seio da sua, que se tornará a dela.

As pessoas adotam para satisfazer o seu desejo de serem pai e mãe, de terem um filho, de aprenderem, ensinarem e passarem por todas as alegrias e dificuldades de uma parentalidade como na biológica, não há diferença, com exceção da existência de uma história pregressa do filho e todas as particularidades que esta possa representar e só. O amor é igual, o apego, a necessidade de proteger e ser protegido, é tudo igual.

Não duvide, adotar não é caridade é amor incondicional, um amor que poucos experimentam.

Cintia Liana


"A adoção transcende a natureza. É um requinte da evolução do ser humano, quando acolhe o diferente do seu próprio gene e ama por amar, e não por obrigação biológica." (Jaime, 2000)


Por Cintia Liana

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Filhos Adotivos, Pais Verdadeiros

Foto: Google Imagens

Mais um ótimo texto que compartilho com vocês!

Um abraço a todos.


Nair de Oliveira Pontes [1]
Revista Viver – Janeiro/2001

É possível observar, na dinâmica de alguns casais com seus filhos adotivos, alguns comportamentos repetitivos. Tais comportamentos referem-se aos sistemas emocionais provenientes das famílias de origem de ambos os cônjuges e funcionam como modelos na criação dos filhos adotivos. Embora muitos rejeitem a maneira como foram criados pelos próprios pais, acabam repetindo esses padrões.

Então, vemos se frustrar uma das expectativas que carregam muitos dos casais que resolvem adotar uma criança. Alguns deles poderiam ter tido os próprios filhos, mas vislumbram na adoção a possibilidade de rompimento de padrões trazidos das famílias de origem e que são tidos como se já estivessem no “sangue” da família.

Ao longo do ciclo vital, os jovens pais tendem a reproduzir com seus filhos modelos de comportamento dos próprios pais, podendo trazer antigos conflitos para as relações presentes.
Num artigo publicado na revista Science, de 5/11/1999, sobre um estudo feito por pesquisadores canadenses da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, a respeito do relacionamento entre pais e filhos, afirma-se que “o amor da mãe não é algo que já se nasça sabendo;é algo que se aprende pelo exemplo e que passa de geração em geração não porque está escrito no material genético dos seres vivos, mas sim pela experiência.
O estudo dos pesquisadores canadenses salienta, portanto, que o que mais influencia o comportamento do ser humano não são as características genéticas herdadas, pois o genes nada tem a ver com tal situação, mas sim a relação do indivíduo com o meio ambiente e com a cultura. O núcleo da aprendizagem, do condicionamento, da experiência emocional, da vivência dos desejos e das expectativas diante da realidade, todos esses contextos, tanto social, emocional, quanto econômico, influenciam a qualidade do relacionamento entre pais e filhos e podem mostrar continuidade através das gerações, mesmo com os filhos adotivos.
A pesquisa feita pelos canadenses corrobora os estudos de Elisabeth Banditer, nos quais ela afirma: “O amor materno não constitui um sentimento inerente à condição de mulher, ele não é um determinismo, mas algo que se adquire”. Para a autora, os sentimentos humanos da mãe variam de acordo com suas ambições ou frustrações, com a cultura e as flutuações socioeconômicas da história. O amor materno pode existir ou não, aparecer e desaparecer, se forte ou ser frágil, ter preferência por determinado filho ou não. Ele “é apenas um sentimento humano como outro qualquer e, como tal, incerto, frágil e imperfeito”, acrescenta Banditer.
O mundo da paternidade está cheio de fantasias. Cada casal cria mitos, como, por exemplo, o de ser pais perfeitos e ter uma família feliz. E essa mitologia agrava-se ao entrar em contato com um sistema de percepções muitas vezes sufocado pela ansiedade, por sentimentos de culpa e pela rejeição (rejeição de si mesmo como filhos e o desejo de ter tido outros pais, outra família). Ou seja: as percepções acabam germinando a fantasia de pais ideais, determinante que busca sua expressão num modelo de amor irrestrito, inacabado, infinito. São os pais por excelência, os pais que tudo sabem, donos da verdade, do afeto dos filhos e do futuro deles. São os pais que dizem: “Eu sei o que é melhor para você”.
Hoje há uma excessiva preocupação com o relacionamento e com o que se deve fazer para garantir o bom desenvolvimento emocional nas relações entre pais e filhos. Muitas vezes, essa atitude embota a espontaneidade, a intuição, a criatividade e o bom senso dos envolvidos no sistema relacional.
Acreditamos que ser desejado é o primeiro anseio a ser realizado no universo afetivo do ser humano. Toda criança quer ser desejada. Quem não quer ser amado? É de se esperar que a criança necessite de demonstração de amor. Partindo desse pressuposto – o desejo de ser acariciada e tocada com amor -, ela, provavelmente, não quer ser cuidada de forma mecânica e automatizada. Só que, por não ter o domínio da linguagem, não consegue expressar em palavras essa insatisfação. Estamos falando de um período emocional, um período de impressões marcantes, aquele que Freud chama de período de molde, que se dá na primeira infância. Ou seja, tudo o que a criança vivencia nos primeiros anos de vida será tão marcante que poderá influenciá-la por toda a existência, pois já estará impresso no modelo recebido. Esse cenário da infância nos deixa numerosas lições afetivas e precisamos contar com elas, sejam positivas ou negativas.
Cabe dizer, também, que o fato de ser filho, independentemente de ser ou não biológico, não garante necessariamente que a criança seja bem-vinda, pois tudo dependerá do que essa relação e do que a criança poderá despertar nos pais. É preciso saber de que maneira esses pais aprenderam a amar no contato com os próprios pais. Elizabeth Banditer comenta que o discurso psicanalítico contribui muito para tornar a mãe o personagem central da família, embora a psicanálise jamais tenha afirmado ser a mãe a única responsável pelo inconsciente do filho. A autora explica: “Para que uma mulher possa ser a “boa mãe”, é preferível que ela tenha experimentado, em sua infância, uma evolução sexual e psicológica satisfatória, junto de uma mãe também relativamente equilibrada. Mas, se uma mulher foi educada por uma mãe perturbada, há grande probabilidade de que sinta dificuldade em assumir a sua feminilidade e maternidade. Quando for mãe, reproduzirá, diz-se, as atitudes inadequadas que foram as da sua própria mãe.”
Como nossos pais – Nossa sociedade valoriza autonomia, individualidade e independência. Mas por que umas pessoas conseguem desenvolver essas características e outras não? Muitos dos nossos comportamentos resultam do que aprendemos com os modelos que vemos. Nosso primeiro modelo é a mãe, ou a figura substituta; depois vem a família e por fim a sociedade. O modelo da primeira infância, considerado importante e marcante, acaba sendo reproduzido de modo tanto positivo quanto negativo. Quando positivo, poderá favorecer o indivíduo a obter autonomia, individualidade, identidade e independência. Mas, quando negativo, a pessoa terá dificuldades de se adaptar à sociedade. Isso não significa, no entanto, que seja impossível ultrapassar os obstáculos. Nesse caso, é necessário que ela se conscientize das próprias atitudes e perceba os comportamentos repetitivos inadequados, que prejudicam seus relacionamentos.
A partir do momento em que o casal começa a perceber suas dificuldades em se organizar diante da educação recebida de seus ancestrais, vêm à tona conflitos nascidos das percepções de cada um deles. Uma das tarefas do terapeuta tem como objetivo perceber e compreender como eles podem se tornar verdadeiros pais buscando cada um deles um modelo adequado a suas necessidades, isto é, sem dar continuidade ao modelo rígido recebido dos pais verdadeiros, muitas vezes, sentidos como adotivos. Só assim os filhos, mesmo os adotivos, poderão sentir-se verdadeiros e autênticos com os pais.
O trabalho do terapeuta com os casais é mostrar quais são os padrões recorrentes, por meio das lembranças e memórias vivenciais e emocionais acionadas durante o processo terapêutico. E, assim, trabalhar a história pessoal de cada um, levando-os a perceber seus papéis e funções nesse contexto, como forma de diferenciarem-se não só entre eles, mas também de diferenciar em seu ego do de seus pais.

[1] Nair de Oliveira Pontes é psicóloga clínica e psicoterapeuta de família e de grupos.
Por Cintia Liana

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Vamos Falar-nos de Adoção

Este é um texto que gosto muito, de uma autora que escreve muito bem sobre o tema adoção. Por esses motivos resolvi postá-lo aqui. Há muito tempo o uso como referência para textos e palestras minhas e já o indiquei para muitos candidatos a adoção.

Aproveitem a leitura!

Foto: Getty Images

Título: Vamos Falar-nos de Adoção
Autor: Gabriela Schreiner
Fonte: Apresentado em reunião de pais do grupo NEPPAJ – Jundiaí/SP - 2000.
O que é a adoção para nós? Porque estamos aqui hoje? Como assimilamos esta forma de assumir e amar um filho?

Dedicar um tempo para a reflexão a respeito da adoção é revelá-la para nós mesmos, é incorporar uma verdade que está sendo assumida a partir da intenção.
Adotar é reconhecer no filho gerado por outros, nosso filho. Olhar em seus olhos à procura não de uma cor conhecida, um formato herdado, mas o brilho do olhar de quem é amado e reconhecido como ser único.

Adotar é doar seu tempo, doar seu espaço, é pensar naquele ser tão indefeso antes de pensarmos em nós mesmos, é uma sucessão de atitudes solidárias (atenção: solidárias!), sucessivas e infinitas. É ser pai, é ser mãe.
A paternidade pode ser involuntária, a maternidade pode ser indesejada. A paternagem não. É na maternagem que a mulher se torna mãe. É no exercício, assim como um médico. Enquanto estuda, é estudante de medicina, só pode ser médico após o diploma, no exercício consciente e ético da profissão. Assim é na construção da relação mãe-pai-filho, só se é mãe no exercício, só se é pai na ação – nunca na omissão. Dentro da preparação (o estudo no caso do médico) para o exercício da paternidade/maternidade, ou a paternagem/maternagem, não é condição fundamental a gestação biológica, mas sim a gestação afetiva. É neste momento que nos perguntamos: queremos? Podemos? Podemos abrir mão de espaços, de tempo, de diversão, de "liberdade"? Como faremos? Estamos prontos? E mais um milhão e meio de perguntas. Muitas delas sem respostas.
A adoção não acontece sem uma decisão. Isto a torna diferente. Por "diferente" temos que ler diferente. Uma outra forma de ser pai, de ser mãe. Só. Só? Não, a adoção é rica por isso mesmo! Encontro de histórias, uma caixinha de surpresas que temos as chances de moldar, de ajeitar com carinho, de ajudá-la a crescer.O que é um casamento afinal? O encontro de duas pessoas diferentes, com histórias diversas que identificam coisas em comum, ou coisas que os atraem, iniciam um relacionamento e percebem que ele poderá durar por toda uma vida. Encontro de histórias, assim como na adoção.
Em toda história há riqueza, porque há vida, experiência. São nossas histórias de vida que nos tornam diferentes, especiais. Nelas há sempre um ensinamento, uma lição, merecem respeito.

Para haver uma adoção, deve ter havido antes um abandono. Sempre, por menos sofrido que tenha sido. Nisto há uma história. Um filho adotivo sempre terá um história anterior à adoção, que deve ser respeitada por fazer parte dele, por tê-lo ajudado a se formar. Ao optar pela adoção, os pais adotivos devem levar em conta que estarão sempre ligados aos pais biológicos de seus filhos, porque sem eles, estes não estariam no mundo hoje. E aqui está um dos pontos mais bonitos da adoção, não se pode negar esta realidade, mesmo porque ela reforça a intenção, a ação e o desejo por este filho.

Negar e negar-lhe este fato, é não aceitar parte da história de vida do filho, é não aceitá-lo como é, incondicionalmente. É também, negar toda a espera, todo o desejo motivador do antes.

Claro que pode ser que nada se saiba sobre os pais biológicos, ou muito pouco. Ou até mesmo seja algo profundamente triste, que não cabe entrar em detalhes. Mas, qualquer que seja esta história, ela existe e não pode ser mudada. Não há nada que pais adotivos possam fazer para modificar a história anterior de seus filhos. Mas podem fazer algo muito mais importante do que isso, podem respeitá-la. Podem dizer com isso: "Isso faz parte de ti, se te dói, nos dói. Estamos aqui para compartilhar contigo todos os momentos, para que possamos construir uma nova história, para sermos felizes juntos". Isto não muda o passado, mas faz toda a diferença no futuro e, afinal, não é o futuro que nos espera?

Mas para chegar a isto será preciso contar ao filho como chegou à família. Falar sobre adoção pode parecer fácil, mas pode não sê-lo. Não demore a fazer isto. O que, em terna idade, pode ser dito entre histórias de ninar, livrinhos e musiquinhas, pode vir como uma bomba se dito na adolescência durante uma discussão familiar. Não perca oportunidades. Seja firme em suas colocações e não conte mais do que a curiosidade que a idade pode absorver. Ele voltará a falar, a perguntar, se você continuar a criar espaços. E não há razão para não criar esses espaços para se falar de algo tão importante e profundo, afinal vocês estarão falando do amor que estão construindo a partir do momento em que se encontraram.
Lembre-se que os bebês nascem da barriga e que seu filho vai saber disto em algum momento. Evitar figuras de linguagem como "nasceu no meu coração" é recomendado por todos os especialistas. Se não, ao saber que os bebês só nascem de barrigas, uma criança poderá considerar mentira o que lhe foi dito. E não é. Ela nasceu de uma barriga que não pôde criá-la, mas esta barriga existiu. O amor de vocês passou a ser construído a partir da decisão de que ele seria seu filho para o resto da vida. Porque você podia amá-lo, educá-lo, criá-lo, e desejou muito fazer isto.
É inevitável que surjam, em algum momento, mais perguntas a respeito da família biológica, e é fundamental que esta parte da história não seja diminuída ou esteriotipada. Mesmo porque, a criança poderá pensar que foi abandonada por que não ‘merecia’ ser amada. E nós sabemos que não é isso. É importante que ela perceba que ela não é a causa do abandono, é objeto dele. O abandono pode ter ocorrido pelas mais diversas razões, mas nenhuma delas porque a criança "não merecesse ser amada". Ao conversar sobre adoção, é preciso ter em mente que o ‘hoje’, o ‘presente’ é bom.
Como todo filho, a criança adotiva, irá testar limites em diversos momentos de sua infância e adolescência. Podem surgir frases do tipo "você nem minha mãe é para me mandar fazer..." ou "não gosto de você, minha mãe de verdade deve ser mais boazinha...". Isto não é prerrogativa dos filhos adotivos, só que nos casos dos biológicos, eles precisam fantasiar que existem outros pais. Os filhos adotivos sabem que estes existiram. Pura chantagem que, se levada como uma questão pessoal, será um desastre. "Sinto muito meu filho, eu sou a única mãe que você tem à mão hoje, portanto vai fazer...". Firmeza, perseverança e muito amor. Não há fórmula melhor para lidar com isso. Ele não deixou de amar você, nem deixará. Ele está apenas ficando esperto...

A idade escolar é um fantasma para muitos pais por adoção. Devo contar na escola? E se eles começarem a achar que meu filho tem problemas por causa disso? Como ele vai ser aceito pelos coleguinhas?

A super valorização - ou a única valorização- da maternidade/paternidade biológica e os modelos de família ainda baseados nas tradições cada vez menos freqüentes, podem representar um problema na escola. É dia das mães, é dia dos pais, e a "tia" pede foto da criança na barriga para fazer um trabalho de escola, ou então uma peça de roupa de quando ele era bebê (para os adotivos tardiamente isto é complicado). Os livros escolares (com algumas exceções) só falam de família como sendo pai-mãe-filhos, e nascidos da barriga. Pois a realidade é bem diferente dessa. Hoje nem todas as famílias são constituídas assim, muitas tem só mãe, ou só pai. Outras crianças vivem com tios ou avós, e muitas são filhos adotivos. Então, o que fazer?

Novamente, não perca a oportunidade. Vá até a escola, fale sobre adoção. Você pode até conversar com a "tia" para que ela inclua, na aula, esta outra forma de ser filho... Indique a ela um livro infantil que possa ser lido em classe. Você pode até ir à escola para contar a sua história, se isto for do agrado do seu filho. Não podemos deixar que a escola seja um foco de preconceitos ou discriminação, portanto, faça-se ouvir.
Cuidado com os mitos! É freqüente ouvirmos ‘opiniões’ a respeito da adoção, é bom estar preparado:

"Só podia ser adotivo, vai saber quem é o pai..."
Tudo depende das expectativas. Para a mãe do Carlinhos sua evolução será tudo, ela sabe que cada dia é uma vitória e é isto que ela espera dele. Quais são as chances dela se frustrar com os resultados? Próximas de zero. Neste sentido somos todos adotivos. Biológico ou adotivos, sempre teremos que aceitar o filho, ajudá-lo a superar todas as fases de aprendizado da vida, orientá-lo para seguir seu caminho e aceitá-lo dentro de suas limitações e escolhas. Podemos sonhar com que eles serão médicos, professoras, e tantas coisas. Ele podem optar por algo completamente diferente. Assim com tudo na vida.


"Só num bebê podemos imprimir marcas de nossa personalidade"
Ouvi certa vez o depoimento de uma mãe com filhos biológicos e adotivo. O Carlinhos, caçula, adotado já com 5 anos, apresentava problemas de desenvolvimento motor. Ela disse: "ver um bebê se desenvolver é maravilhoso, ver o Carlinhos se desenvolver, mesmo que lentamente, é muito melhor!". Havia emoção e verdade na voz daquela mãe. Ela sabia o que estava dizendo. Ela estava influenciando, não só a personalidade, mas a vida desta criança, que talvez nunca fosse totalmente perfeita (quem o é?), mas, com certeza, ela será o melhor que puder ser, e isto para este filho e para esta mãe representa TUDO.
Basta olhar para a influência que ainda tem sobre nós a nossa família, pai, mãe, tia, irmãos. Eles sempre nos influenciam porque nós depositamos neles nosso afeto e nosso respeito, e o que eles nos dizem é importante. Claro que uma vez adultos, a influência é menor.

"Os laços de sangue são os mais fortes"
É uma velha e cultuada inverdade. Quantas vezes encontramos maior afinidade com estranhos do que com nossa própria família. Há pouco menos de 3 séculos (França), a vinculação mães-filhos, em especial na nobreza, era nula. Os bebês eram entregues a amas de leite até completarem 7 anos e, só então, reintegrados ao seio familiar. O estudo da história da humanidade nos mostra o quanto o ‘amor materno’ não passa de um mito. Amor se constrói e nasce da vontade e do desejo de amar, nada tem a ver com o sangue.
Portanto: os laços do afeto são os mais fortes.

"Todo filho adotivo que sabe de sua condição, procura seus ‘pais verdadeiros’"
Vamos deixar uma coisa muito clara: pais verdadeiros são os que exercem. São os que investem tempo, afeto, enfrentam desafetos, protegem, estimulam, orientam, acolhem. Para isto não precisam ser exatamente pais oficiais. Muitas vezes, tios, avós, irmãos, assumem estas funções e se transformam em ‘pais verdadeiros’, responsáveis.
Pode ser que alguns filhos adotivos manifestem o interesse de conhecer seus pais biológicos, mesmo porque, em alguns casos a identificação de algumas características físicas pode ser importante (a cor do cabelo, aquela marca na pele, o formato das mãos). Mas isto não que dizer que estes filhos irão viver com seus pais biológicos, mesmo porque seus pais não são os biológicos e sim aqueles que o estão criando e amando. Mas para uma maioria, isto nem passa pela cabeça. É algo desnecessário. Em algum momento, talvez, surja o interesse, ele talvez o manifeste, mas pode ser que seja apenas para ‘testar’ sua atitude. Se você concordar em acompanhá-lo, em estar com ele em cada momento, ele poderá se contentar com isto, se sentir seguro. Mas pode ser que ele decida ir à procura, então é fundamental que você esteja ao se lado. Que o acompanhe, o respeite, e o ampare. Ele tem que saber que você estará sempre ao seu lado, afinal, vocês são uma família.

"Vocês são especiais. Fizeram uma caridade, livraram este menino do mundo das ruas"
Vocês não são especiais, são pais, como quaisquer outros, apenas começaram a construir esta relação a partir de uma adoção. Não há caridade na adoção. Mesmo porque, caridade é algo pontual, e um filho é para toda a vida! E este filho não tem que ser grato por isso. Ele tem que ser grato pelo afeto, pelo carinho, pela dedicação (e isto todos os pais e mães, adotivos ou não, deveriam dar). E vocês? Vocês devem ser gratos porque sem ele, como exerceriam esse afeto, a quem dariam o carinho, como saberiam o quão dedicados podem ser? É a presença deste filho que permite este exercício, e para isso não tem gratidão suficiente que caiba!
Não espero que vocês dêem um valor além da medida para a adoção. Desejo que dêem o devido valor. Que construam esta relação baseada na verdade, no compromisso eterno de crescerem juntos pais-mães-filhos, exercitando o que há de melhor dentro de vocês mesmos, e esperando pouco, para valorizar o muito que será fruto desta decisão consciente, construída dia a dia, a partir da intenção e do desejo de ser mãe, de ser pai e de transformar uma criança em filho através do amor.

Por Gabriela Schreiner

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Existe um tendência ainda comum de ‘classificar’ as atitudes das crianças adotivas justificando-as por conta de sua origem. Estudo mostram que há muito de herança genética sim, mas nem tanto que não possa ser modificado pelo meio, pela educação. E além disso, tende-se a ser menos tolerante com estas crianças, já por ter uma ‘justificativa’ para certas atitudes. Puro preconceito. Algumas marcas do passado podem comprometer certas crianças que, quando ajudadas por especialistas, conseguem superar muitas coisas. Mas a maioria delas não tem problema algum, antes de tudo são crianças.
Esteja sempre atento para perceber o que é oriundo do fato da infância ser uma etapa de descobertas e de teste de limites. Percebendo a injustiça, defenda-o e repreenda-o, afinal ele precisa ser orientado na arte do crescer.

Por Cintia Liana